Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Antibothis, volume 4



Novo volume da colecção THISCOvery CCChannel e da antologia Antibothis.
144 páginas de textos redigidos em inglês pelos criativos mais extremistas do planeta + CD de música electrónica compilada por Philippe Petit!
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co-edição Chili Com Carne e Thisco
ISBN: 978-989-8363-20-6
Capa e ilustrações por André Lemos.
Design por João Cunha.
Textos de Chad Hensley, Polly Superstar, Crimethinc, Raymon Salvatore Harmon, Z'ev, Júlio Mendes Rodrigo, Ewen Chardronnet, Carl Abrahamsson, Francisco Lopez, Trevor Brown, Robin Rimbaud, V. Vale, Mason Jones, André Coelho, DJ Balli, Joe Coleman, Adolf Marx e Joe Ambrose.
Música de KK Null, Cindytalk, Machinefabriek, Michel Banabila + Philippe Petit, Israel Martinez, Pas + If Bwana, Murcof, Bela Emerson, Scanner / Sl Cut DB, Xambuca, The Stargazer's Assistant e Mark Beazley.
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PVP: 15€ (10€ para associados CCC) à venda na shop online da CCC
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Feedback: As usual with this excellent Portuguese anthology, we find ourselves positioned in a gap between the old and the new on many levels. The occultural, post-industrial (as in the music/subculture, not as in general history), avant garde environment swings easily between play and philosophy, between genuine transformation and abstracted discourse, between pure experimentation and thorough thinking. Most of it is still fairly fresh, I have to say. If there’s some kind of code that unites these disparate voices, it’s an antithetical stance against the passive collective, expressed in eloquent experiments. Single voices spewing out disdain or frustration in honest, poetical and sometimes scary bursts. Carl Abrahamsson

ainda sobre ANTIBOTHIS: são antologias literárias occulturais periódicas, apresentado textos e entrevistas de autores tanto desconhecidos como já com créditos firmados, na dissidência e disseminação alternativa de informação e propaganda literária, uma revolta em nome da imaginação em oposição a uma existência tóxica de baixo teor cognitivo.

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2013

Vai uma revisão da edição independente de 2012?

O passado

2012 é, pelos vistos, o ano de “nostalgia” ou recuperação do passado, situação inédita na edição independente quase sempre mais interessada em mostrar trabalho novo e seguir em frente... São gestos muito simples mas interessantes de assistir. A El Pep reeditou várias BDs de Fernando Relvas, figura singular na BD moderna portuguesa, publicadas originalmente no jornal Se7e nos anos 80. Sangue violeta e outros contos é um acto de recuperação patrimonial da BD portuguesa que por si só reveste-se de enorme importância. Muitos especialistas da área da BD queixam-se que a BD é uma arte que não tem memória e percepção da sua própria história, situação que para ser contornada passa (também) pela republicação de material antigo. Tal como em 1998 foi a Associação do Salão de BD do Porto que recuperou o L123 (seguido de Cevadilha Speed), eis outra estrutura “amadora” como a El Pep a fazer o papel que as instituições públicas ou as casas comerciais deixaram de o fazer, colmatando (de forma aleatória, ligeira e incompleta) o final do programa de reedição de BDs perdidas em periódicos como a Bedeteca de Lisboa fez de 1997 a 1999 com os sete volumes da Colecção Bedeteca (co-edição com a BaleiAzul). Felizmente o esforço da El Pep já ganhou algum respeito institucional ao receber o “Prémio Clássicos da BD” na BD Amadora.

Comemorou-se os 20 anos de existência dos fanzines Cru e Mesinha de Cabeceira (MdC). Estas comemorações tiveram pesos e medidas diferentes mas em comum trouxeram novos números de cada título. O Cru teve como último número o 13 – saltou o 12 não se sabe bem porquê – em 1999! Em 2012 volta com o número 34 e uma festa algures num bar do Porto. Alguém, uma vez disse-me que as bandas Punk e Hardcore são como as baratas porque podem estar inactivas 10 anos ou mais mas depois voltam sempre! Acho que se pode incluir o Cru nesta metáfora… Resta acrescentar que o Cru disponibilizou na plataforma em linha issuu.com os números antigos dos tempos gloriosos da fotocópia (ver http://issuu.com/esgar).

O MdC só esteve inactivo entre 1997 e 2000, 2006 e 2009 e em 2011. Este ano voltou com dois números, o 24 que saiu antes do 23. O primeiro a servir os propósitos do seu editor sobrevivente, e este vosso escriba, Marcos Farrajota, para publicar as suas BDs autobiográficas. O 23 tem como objectivo a celebração dos 20 anos de existência do zine, tendo compilado um pequeno (em formato) mas grosso (em nº de páginas) volume de BDs essencialmente narrativas e de autores portugueses. Era para ter sido um número de despedida do título com o editor fundador Pedro Brito nos comandos mas nada disso aconteceu… como é normal nos fanzines, é o “erro” que proporciona dinâmica e criatividade. De realçar a curiosa exposição patente na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos que faz uma retrospectiva do MdC mostrando originais, zines, maquetes desde 1992 até aos dias de hoje, possibilitando uma discussão sobre os meios de produção de BD e a influência das técnicas digitais nos últimos 20 anos - mas tal não aconteceu, os únicos comentadores interessantes da miserável cena bedéfila não comentaram absolutamente nada até à data de fecho da exposição. Se calhar os 20 anos do Mesinha não têm interesse para ninguém excepto para os seus próprios editores e autores...

A carismática revista norte-americana Journal of Artist Books (JAB) no seu número 32 dedicou as suas páginas aos livros de artistas portugueses. Sob a batuta de Catarina Cardoso, foram publicados vários artigos e estudos relacionados sobre o tema como a Po. Ex. ou a Alternativa Zero. O mais interessante é o ensaio de Pedro Moura que analisa os trabalhos de André Lemos / Opuntia Books, José Feitor / Imprensa Canalha, os heterónimos de Tiago Manuel, e algumas experiências de Jucifer e José Carlos Fernandes. Lançado em Lisboa, com a presença do editor Brad Freeman, foi constrangedor o ingénuo apelo de Isabel Baraona (artista que fez a capa e um suplemento no JAB) para um maior contacto ou intercâmbio entre artistas que façam livros, sendo que a artista afirmou não sabia que poderia haver tantos artistas a produzirem este tipo de objectos. Sempre desconfiei que o mundo dos livros de artistas era um mundo elitista (materiais caros, feitos por artistas profissionais, distribuição em galerias e o mundo institucional da Arte, dirigido para o mercado coleccionista) em oposição a dos zines que privilegia uma comunicação democrática pelos seus materiais baratos de impressão, amadorismo e/ ou sujidade gráfica, pelas regras quase dogmáticas de intercâmbio entre editores, alguma recusa em fazer lucro para não comprometer a criatividade e ausência de interesse comercial,… Afinal o que custa trocar meia dúzia de fotocópias por outras? Ambos interlocutores recebem em troca inesperadas mensagens artísticas, políticas, sociais, etc… Ora se um livro de artista tanto pode custar 250 euros como 10 euros, estará Baraona disposta em trocar um livro que vale 250 por um de 10 replicando os sistemas da mail-art ou dos zines? Eu duvido muito... Mas entretanto arranjou uma solução que poderá ter interese de futuro: a Portuguese Small Press Yearbook, uma plataforma online de divulgação de edição independente que poderá ajudar a ter uma visão mais alargada da produção portuguesa, embora o acervo para consulta pública destes objectos continue a ser na Bedeteca de Lisboa - que finalmente começou a catalogar alguns destes "estranhos objectos".




O presente

Este ano, demos conta dos seguintes projectos de continuidade: O filme da minha vida (1 volume – António Gonçalves) pela Associação Ao Norte; Zona BD (2 volumes); É fartar Vilanagem! (1); Tertúlia BD’zine (12); BDJornal (1), Lodaçal Comix (3), Buraco (3) e um Efeméride (1).

As editoras que continuaram em actividade foram:
- Chili Com Carne com Mystery Park (livro de desenhos de André Ruivo), Inverno (Mesinha de Cabeceira #23, antologia de BD), O Hábito Faz O Monstro (de Lucas Almeida) e Love Hole (de Afonso Ferreira).
- El Pep – o já referido livro do Relvas e ainda Psicose de Miguel Costa Ferreira e João Sequeira;
- Firma: Circle Cycles Circuits de Dunja Jancovic;
- Oficina do Cego: Sarilhos (de André Lemos) e e o colectivo Faca Romba;
- Kinpin Books: O Baile de Nuno Duarte e Joana Afonso;
- MMMNNNNRRRRG: outro volume da série a AcontorcionistA, de Grupo Empíreo, Claim Against Fame (de Alexander Brener e Barbara Schurz), Mesinha de Cabeceira #24 (de vários artistas) e Inferno (de Marcel Ruijters);
- Polvo: Hän Solo de Lacas e Três Sombras de Cyril Pedrosa;
- Libri Impressi – o quarto e final volume da série Lance.

Regressaram às lides a Imprensa Canalha com Estátua Falsa, graphzine de Tiago Baptista e Sobrevida de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa; a Mundo Fantasma com Diário Rasgado de Marco Mendes e a Montesinos com VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL) de Pedro Moura e do grego Ilan Manouach; os zines Kzine e Funzip do Grupo Entropia; Cleópatra de Tiago Baptista – este último sob o selo Façam Fanzines Cuspam Martelos lançou outros títulos – e ainda o artista João Fonte Santa editou o zine Crianças Grandes brincam com brinquedos grandes.

As novidades deste ano foram: Death Grind e Doom Mountain de Zé Burnay, Drei abhandlungen zur sexual theorie (Dildo Doodles) de Ana Menezes, Magical Otaku (um número) de Rudolfo, Leopardo Surdo pela Stepping Stone, Enjôo da Invocação e Innermath / Megafauna de João Machado e André Pereira pelo Robô Independente e Clube do Inferno, Prosjektet Ragnarok de Tiago Araújo, Landing of the mothership de David Campos e saíram vários graphzines, dois títulos do ilustrador Esgar Acelerado e outros de vários outros artistas. É ainda digno de referência o Nicotina’zine que se dedica à Poesia mas incluiu nas suas páginas ilustração e um BDs do sueco Lars Sjunnesson e de João Chambel.

Manteve-se uma actividade mais ou menos normal, sólida e com novidades e regressos. Diria que foi um ano desde já positivo sobretudo porque tem solidificado um regresso à BD por uma nova geração com muito talento e vontade de fazer – e melhor ainda com capacidade de fazer – são eles: Afonso Ferreira, André Pereira, Rudolfo e Zé Burnay, verdadeiros "Chavalos do aPOPcalipse" nesta nossa sociedade de Anorexia, Smart Shops, Holiganismo e Cancro.

Os eventos especializados foram: Feira Laica (duas edições), Feira de Publicação Independente (duas edições, em Abril e Maio no Porto), Feira de Edição Independente (Novembro no Porto) e a Feira do Livro de Poesia e BD (desde Outubro todos os sábados em Lisboa). Sendo ainda possível encontrar em eventos de BD (MAB Invicta, Festival de Beja e BD Amadora), cinema (Fantasporto, Cinanima), Música (Rescaldo, SWR, MIA, Xjazz, Poetry Slam Sul) e em faculdades de artes com iniciativas como a Comunicar:Design (Caldas da Rainha) e a Books made friends (ESAD/ Matosinhos). A moda do “livro de artista” gerou os eventos O que um livro pode (Lisboa) e Pa/per View (Porto). De realçar o fim da Feira Laica após 8 anos de importante actividade.

A nível internacional é de se referir imediatamente o livro a solo de André Lemos produzido pelo atelier francês de serigrafia Cotoreich, Woofer Takeover Jubilee. De resto a participação de autores em publicações estrangeiras parece ter aligeirado, embora as Ediciones Valientes tenham feito um especial El Temerário com ilustração portuguesa. No espanhol zine Kovra aparecem Ricardo Martins e Rudolfo, na antologia sueca do Festival Alt Com, No Borders, está Marcos Farrajota e André Lemos; para o zine francês Gestro Club participa David Campos. Apesar de tudo a presença portuguesa em vários eventos internacionais não diminuiu, especialmente com a Associação Chili Com Carne a servir de embaixada para a produção nacional, tendo material representado em Fanzines! Festival (Mediateca Marguerite Duras, Paris), Festival Crack (Roma), Angoulême Fuck Off (França), Edita (Espanha), Libros Mutantes (Madrid), Tenderete (duas edições, em Valência), Maravilloso Encontronazo de Autoedicíon (Madrid), Festival de BD de Helsínquia e C.A.T.A. (Timisoara, Roménia). Com exposições esteve no Not Tex Not Mex (Denton, EUA), na loja Floating World Comics (Portland, EUA), Alt Com (Malmö, Suécia) e loja Prego (Brasil).

Por Portugal passaram vários autores estrangeiros com ligações a produção independente: ruGGGero (Itália) para realizar uma serigrafia com o atelier Mike Goes West, Kai Pfeiffer, Lars Henkel (ambos da Alemanha), Dominique Goblet, Olivier Deprez (ambos da Bélgica) no MAB, Dice Industries (Alemanha), Albert Foolmoon, Ar-Decó (ambos de França), Andrea Bruno (Itália), Dunja Jancovic (Croácia / EUA) na 20ª Feira Laica, Baudoin e Fabrice Neaud (ambos de França) na BD Amadora, a norte-americana residente na Europa Julliacks num evento promovido pelo espaço cultural Flausina; e na última Laica regressaram Dice Industries, Martin López Lam (Peru / Espanha) e Mattias Elftorp (Suécia) e estrearam-se o colectivo Tonto (Áustria), Zulo Azul (Espanha) e Marcel Ruijters (Holanda) que também estará no Porto para uma exposição na loja Mundo Fantasma no âmbito do livro Inferno lançado pela MMMNNNRRRG e a serigrafia pelo Mike Goes West.



O futuro

Têm-se discutido imenso na arena global sobre questões digitais dos livros, o que tem dado “megabytes” de discussão por todo o lado. O que se passa com os negócios do “visual e textual” é o mesmo que aconteceu com a música e a popularização da internet nos finais dos anos 90: assistimos à desmaterialização de objectos, ao aumento de capacidade de pesquisa e encontro de informação e de objectos, à multiplicação do espectro de gostos, escolhas e conhecimentos, à destruição dos elementos intermédios entre o produtor e o consumidor (editores, promotores, críticos), à participação activa na promoção e discussão de obras, ao financiamento de produção de obras pelos consumidores, à destruição de grandes estruturas físicas de divulgação cultural (cadeias de lojas), à hipótese de uma criação existir exclusivamente em digital e nunca ser editada em fisicamente, à hipótese de ficheiros serem multiplicados até ao infinito ou até ser gravados / impressos fisicamente com tecnologia caseira,… O que se tem passado nos últimos anos com o “livro” no meio da revolução digital são as reacções de macro-agentes em similar agonia como as editoras fonográficas nos últimos 15 anos: as guerras “amazónicas” e “googlinas” entre os virtuais e as lojas físicas e editores, o desfasamento das leis de direitos de autor perpetuadas por organizações anacrónicas como a nossa SPA, as discussões sobre o direito de empréstimos de ficheiros de “e-livros” nas bibliotecas públicas, os códigos de protecção DRM, etc…

Escrito assim até parece que o “mundo vai acabar” com esta revolução digital. É certo que há alguns tipos de livros que parecem ter um final certo no mundo físico. É o caso das enciclopédias e dicionários (que estão sempre actualizados algures na ‘net), os livros técnicos e científicos (também actualizados em digital e até com possibilidades de aplicações media que facilitem a compreensão para leigos), os periódicos e os “best sellers” pelo facto de serem produtos baratos (sendo que é indiferente para o consumidor que espécie de formato ou cópia que consegue arranjar desde que o leia o mais rápido possível enquanto é uma novidade)… Parece estranha esta combinação de “livros a desaparecer”, de um lado estão produtos eruditos e científicos e do outro produtos de consumo popular, “trashy” e “Pop” mas a questão digital passa por questões de formatos e não tanto pelos conteúdos. Daí que haja um grupo de livros que não terão uma desmaterialização (tão rápida?) como outros, é o caso dos livros de fotografia, design, arquitectura, desenho e… BD! Um exemplo mais simples de provar é que a pesquisa de referências visuais num livro não é feita da mesma forma como se procura uma palavra num texto (seja ele num ficheiro, num computador ou na internet) por mais se faça indexação. O formato de livro físico permite uma procura mais rápida e prática (manual) de uma imagem do que “folhear” num livro electrónico. O ecrã também não permite o mesmo usufruto das imagens – como acontece com os álbuns de arte que devido à sua dimensão conseguem transmitir uma maior força emotiva do que qualquer ecrã.

Talvez isto explique o interesse das grandes editoras pela BD nos últimos anos. Se por um lado deve-se ao facto da BD ter atingido uma idade madura de propostas de temas longe do simples entretenimento infanto-juvenil, creio que a outra parte passa pela necessidade de vivermos uma sociedade virada para a imagem, sendo necessário encontrar cada vez mais livros que sejam “visuais”. Em Portugal, este fenómeno pode-se verificar de uma forma mínima e recente com o interesse da Contraponto (uma editora fachada do grupo Bertrand) que editou o Persépolis de Marjane Satrapi e o Funhome de Alison Bechdel, livros aliás premiados e com sucesso de público há vários anos nos EUA, França, etc… Também é verdade que a BD servirá para alimentar as bolhas de investimento das grandes editoras que não poderão alimentar mais livros de Códigos Da Vinci, Vampiros, Anjos, Gatinhos e outras palermices. A BD está a ser a grande novidade editorial e que irá comer o bolo da produção nos próximos anos. Um sonho de muitos nós, amantes da BD, só que é pena é que as BDs que irão surgir serão tão fúteis como qualquer outro “best-seller” – basta consultar aquela parvalhona do cancro da mama editado pela Asa há dois anos atrás, por exemplo – nem todos podem ser profundos como o Joe Sacco ou como o Baudoin.

Entretanto, a defesa do formato físico do livro não vive do fascínio e da moda nostálgica que se assiste nos dias de hoje, do regresso às técnicas tradicionais de impressão (ou do livro de artista). Os pontos de defesa são conhecidos, os livros físicos (e especialmente impressos em serigrafia, gravura, tipografia, etc…) são mais tácteis, olfactivos, etc… ou seja mais sensoriais que os assépticos “tablets” e quejandos, para além de permitirem ter tamanhos e formatos extravagantes (inacreditavelmente minúsculos como o Pecaritchichi do João Bragança ou gigantescos como Sarilhos de André Lemos) condicionando as formas de leitura – algo que os “electrónicos” não podem fazer, ou se podem modificar a forma de leitura passa pela interactividade e pela navegação.

No caso da BD por ser intensamente visual e gráfica, a impressão e o design dos livros influenciam a leitura da obra, e por isso está neste grupo de livros difíceis de desaparecerem mesmo que os “webcomics” tenham começado a tornar-se um hábito de leitura e até de produção de qualidade como prova o actual “work-in-progress” Margem Sul de Pedro Brito, no sítio P3 do Público.

Encontramo-nos num ano em que muitos periódicos já acabaram ou anunciaram o final da sua versão física para entrarem exclusivamente na edição digital. Já se falam em “best sellers” digitais bem como histórias de fama e riqueza de autores publicados apenas em digital. Mas não podemos esquecer que a “literatura popular” pode ser lida tanto em edições “deluxe” como na mais reles reprodução fotocopiada / pirateada (como acontecia com o movimento “samizdat” nos tempos soviéticos da Rússia) porque são livros que vivem um momento de história/ histeria para serem esquecidos pouco depois. Há todo um grupo de “long runners” que parecem estar esquecidos nas eufóricas discussões sobre o “fim do livro”.

As quebras de vendas do mundo físico estão a forçar a uma redefinição das regras do mercado editorial, juntando à conjuntura económica de crise que se vive, têm-se assistido ao estreitar dos serviços criativos – cada vez menos e cada vez mais mal remunerados, serviços mais baratos de produzir, e consequentemente com menos qualidade... O que tem levado muitos artistas a procurarem na auto-edição ou a edição independente numa forma de preencher as suas necessidades artísticas e até económicas. Um exemplo, se vender uma ilustração a um jornal têm-se mostrado complicado e mal remunerado, alguns artistas perceberam que podem vender os seus desenhos em linha ou imprimirem múltiplos: serigrafias, gravuras, glicées, canecas, t-shirts, cuecas, e claro, livros ou zines em edições limitadas ou em sistema de “print on demand”. Também devido à crise económica, a compra de arte têm-se retraído e ao que parece os coleccionadores têm encontrado nos múltiplos (como os livros de artistas, cartazes, serigrafias) uma espécie de sucedâneo às peças artísticas originais (como telas). Toda esta combinação de factores tem mostrado um activismo sobre a publicação e o livro, fazendo surgir novos talentos ou regressar alguns velhos autores a trabalharem em objectos gráficos cada vez mais sofisticados e aliciantes, tal como aliás se pode verificar na 20ª Feira Laica (Jul’12) em que se sentia uma energia muito intensa no evento, nunca antes tão cheia de novidades e novos projectos editoriais – há quem diga que foi pelo facto de se ter quebrado com a tradicional residência na Bedeteca de Lisboa (que acontecia desde 2005) mas não acredito que tenha sido pela mudança do espaço físico apenas que aconteceu toda aquele entusiasmo que aliás, prolongou-se até à última e 21ª Feira Laica (Dez’12). Há um rejuvenescimento a acontecer na edição independente e na BD portuguesa em que a piada aos “Chavalos do aPOPcalipse” não é assim tão inconsequente como possam julgar à primeira…

Há luz neste anunciado apocalipse da revolução digital. O formato físico e a edição independente, combinados ou não, são opostos a todo este imediatismo tecnológico – mesmo que muitas vezes a produção de edições independentes venham de ânsias de publicação dos artistas e editores. Muitas vezes quando falo da MMMNNNRRRG costumo dizer que é uma editora "slow food", de livros que têm de ser degustados e não engolidos à alarve como a "fast food" que bem sabemos nos faz mal à saúde e destrói o planeta. Entre a McDonalds ou a Leya, entre a Nestlé e a Marvel, venha o Diabo e escolha.

Apesar da edição independente sofrer de um processo de promoção e comercialização lento e tortuoso, depois de se varrer o lixo, será ela a “vencedora da História”, como aliás sempre aconteceu no passado.

Mesinha de Cabeceira #24 + FEEDBACK fixe fixe...


Lançado na 20ª Feira Laica  pela MMMNNNRRRG, este novo número do Mesinha de Cabeceira é limitado a 333 exemplares, custa 3 euros (sem descontos nem não estará à venda em lojas excepto na loja em linha da Chili Com Carne) e tem 24 páginas A5, 16 delas a duas cores. A capa como se pode verificar é a cores e é da autoria do Dr. Uránio.

Voltando ao formato "perzine" dos velhos tempos dos números 10, 11 e 12 nos anos 90 (reeditados há alguns anos pela colecção Mercantologia), este novo número inclui BDs inéditas de Tim Morris, Marcos Farrajota e Gigi i Gigi.

FEEDBACK: o acto respigador de Farrajota é também sentido no interior das próprias narrativas, que aliam temas mais ou menos comuns, e que ganham contornos de intervenção política e social, de não apenas descontentamento e afastamento em relação a certos confortos, como procurando mesmo, sobretudo no caso de Farrajota, de alternativas para as formas como nos relacionamos com o mundo. A capa mostra uma colagem de um espaço complexo, em que se mistura a ideia de um gabinete de curiosidades (tudo ideias fósseis e taxidermizadas, como as utopias citadas pelo editor?), o que parecem ser restos de tecnologia (as promessas goradas da contemporaneidade?) e uma criatura com uma estranha máscara (a falha das convenções sociais?) com um objecto indiscritível no tampo da mesa (um objecto estético, apenas forma?). O Mesinha, sempre em provocação. Pedro Moura / Ler BD ... Este número da Mesinha de Cabeceira, uma espécie de Especial Animais, recolhe BD's perdidas que eram destinadas a outras publicações e publica as últimas questões existenciais do incansável Marcos Farrajota. Este rapaz não desiste e ainda bem que continua a editar zines com bom aspecto, bem impressos em bom papel, com capas a cores e este número com metade das páginas a duas cores. O único senão é não ser publicado mensalmente. André Azevedo / BD no Sótão ... curti bué do zine. fixe fixe José Smith Vargas




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Antes de apagar a luz (o editorial editado para este "post")

(...) se nos últimos números do Mesinha de Cabeceira as BDs dos autores eram pedidos trabalhos na forma de encomenda neste número e os seguintes (não sei quantos números serão esta série) tal não acontece [algumas das BDs foram "encontradas"]. Esta é uma das situações, a principal no entanto passa pela minha vontade de voltar ao Mesinha para publicar as minhas BDs que produzi em dois meses numa residência artística na Finlândia. Todo o projecto é uma pretensa "novela gráfica" de vários capítulos, dos quais só conclui três na minha estadia escandinava. É-me inconcebível pensar em fazer mais 60 páginas (serão?) para depois sair num volume único.

(...) Parte da inércia em acabar esta "novela gráfica" deve-se ao facto de ter dúvidas do que estou a fazer, da forma como estou a tratar os temas, etc... Sem qualquer "feedback" tirando o de um círculo íntimo de amigos, sinto uma enorme necessidade de mostrar publicamente o que já está feito - e usar isso como alavanca para concluir o trabalho. De certa forma é um regresso à fórmula "perzine" que caracterizou os números 10, 11 e 12 do Mesinha em que a vontade de publicar BDs auto-biográficas era complementada com participações de outros autores.

(...) Antes de ir para a Finlândia fartei-me do Mesinha de Cabeceira, e dado ao facto do próximo número ser o 23, possibilitei o enterro do projecto pelas mãos do Pedro Brito - para quem não sabe, fomos nós os dois que criamos este título em 1992, tendo o Pedro desistido dele por volta do número 6. (...) O ano de 2012 é a comemoração dos 20 anos do zine e seria uma óptima altura de acabar com ele, afinal de contas "20 anos é demasiado tempo de existência para um zine". Um volumoso volume (passe a redundância) está a ser preparado, sem o Pedro (não anda com tempo para nada) e incluirá velhos colaboradores (Rafael Gouveia, dice industries, João Chambel, Daniel Lopes), novos autores (André Coelho) e novos talentos da cena portuguesa (Zé Burnay). É preciso esperar por Outubro.

O Mesinha é para continuar! Tanto que até salta para o número 24 sem pensar duas vezes!

(...) Dr. Uránio que fez a capa. Ele é um dos segredos mais bem guardados do Porto! Mestre da restauração e acomodação é um insanciável respigador de falhas urbanas, talvez por isso tenha desenvolvido sob efeitos cibernéticos de talidomida essa técnica ubíqua dos séculos XX e XXI chamada de “colagem”. No passado poderão encontrar trabalhos desta douta pessoa no livro de poesia Y el hambre y los ciegos de Héctor Arnau e em várias edições fonográficas da Marvellous Tone.

(...) Tim Morris, ilustrador e argumentista inglês, nasceu em Sheffield a 20 de Abril de 1957, vive e trabalha em Leicester. "Mente perversa" e "O Escapista" são as suas duas únicas obras publicadas em Portugal, ambas em 2005 pela Campo das Letras. O autor é representado cá pelo artista Tiago Manuel que lhe encomendou esta BD para a revista Quadrado (...) A revista no entanto foi cancelada o que nos levou a contactar o Sr. Manuel - que no passado já nos tinha apresentado ao premiado alemão Max Tilmann - para que a BD deste britânico não ficasse nos arquivos bafientos da “instituição abandonada” da Câmara de Lisboa.

(...) a dupla eslovaca Gigi i Gigi também aparece aqui perdida, vítima da desilusão do tal número 7 da Quadrado - há rumores que a revista volte a ser publicada em breve mas por outra equipa editorial, numa quarta série! Esta BD marca o final da parceria artística entre os dois autores que adoptaram Portugal como sua casa.

(...) Portugal não gosta de movimento. Mais uma razão para não abandonar o Mesinha de Cabeceira.

Marcos Farrajota
Lisboa, 19 Junho 2012

Domingo, 13 de Janeiro de 2013

ccc@8ºpoetry.slam.sul

Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Olhe, desculpe, quais são os títulos das faixas?

 

Lost Gorbachevs / Tinnitus (Lovers & Lollypops ; 2012)

Um split-single - vinil, claro -  de duas bandas Grindcore sendo que a primeira mete o Free Jazz na misturadora a tal velocidade que até cabem 13 temas na rodela. Como se isto já não fosse uma merda buéda-fixe ainda se pode escolher sei lá quantas capas e grafismo - eu escolhi a do joelho a piscar pró canibalismo sensual. Azar é que o grafismo que optei não têm nenhuma informação sobre a gravação, lista de temas, etc... nem avisa qual é o lado Tinnitus (quem são estes gajos?) ou Lost Gorbachevs - agora são um quarteto com a inclusão de um vocalista gutural! Quando for um belhote de 88 anos espero ainda lembrar que os Lost Gorbachevs são os que tem as faixas mesmo muita-muita-muita curtas com saxofone! Que fodido, boy!

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2013

FaCCCe lifting

Depois de fazer 90 cartões de sócio da Associação Chili Com Carne com o modelo Chambel eis que em 2013 preparamos um novo cartão desta vez feito pelo Afonso Ferreira, autor de Love Hole...

É um modelo mais simplificado e genérico em que esperamos que caiba em desenho toda a diversidade humana...

De resto, esperamos que apareçam novos sócios - agora que o Mutate & Survive esgotou estamos a oferecer o livro de esboços do João Cabaço - e que os sócios com quotas em atraso que as paguem.

Em Abril mudamos de regras, veremos o que daí virá!