quarta-feira, 30 de abril de 2014

Visiter tous les pays

Pina Chang
NA; 2014

Voltar a Angoulême é sempre um turbilhão de sensações, de dejá vus, flashbacks voluntários e cruzamentos de mil pessoas que conhecemos, já vimos ou já falámos mas já nem se sabe bem aonde - foi em Roma que conheci aquele tipo ou foi mesmo em Lisboa? E aquela autora foi em Helsínquia ou em Madrid? Realmente concentra-se tudo naquela cidade de interior francês durante os quatro ou cinco dias do Festival de BD.
A Pina Chang conheci em Helsínquia e fui voltando a vê-la em Angoulême. Nunca tinha acompanhado o trabalho dela, nem sabia que fazia BD para dizer a verdade. Quando, este ano, em conversa de circunstância no stand da NA - uma associação francesa de BD - lhe perguntei por novidades, ela dirige-me para o seu livro e engoli a seco!
Caramba, que livrão! Gordinho e colorido, cheio de BDs quase mudas e até reproduções fotográficas de bonecos de pano feitos por Chang. Oi! Apesar desta primeira descrição saber à "neo-escolinha de redução feminina das tricotadeiras" (bonecos de pano e cores, topas?) o livro não é para ficar na secção dos clichés!
Antologia de várias histórias que sabem a falsas lendas etnográficas da América Central (Chang nasceu no Panamá), elas são maravilhosamente contadas encharcadas de suor tropical que quase ligam à Canicola, a autora mostra uma versatilidade de estilos gráficos e usos de materiais, que faz do livro um mimo enquanto objecto. Tudo junto, com as "BD-lendas" e as fotografias sem legendas que nos confudem - são da Islândia ou da Bolívia? sei que a autora passou por estes países lendo a sua biografia na 'net - somos levados a "visitar todos os países", uma tarefa impossível que bem nos alerta a autora, mas que aqui até podemos dizer que percorremos um continente deles.
De referir que a NA é a editora do jornal Modern Spleen, bem como dezenas de outros fanzines e publicações estranhas e bastante excitantes (quem perdeu a ressaca Fort Thunder que foi a revista L'Episode, nem sabe o que perdeu!!!), trabalham também com crianças ou populações desfavorecidas, como a comunidade cigana na zona de Angoulême. Agora lançam-se na publicação de livros, pró ano já vou prevenido e com algumas perguntas de algibeira prá Chang!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Mesinha de Cabeceira #25


Edição MMMNNNRRRG. Capa de Dr. Uránio. BDs de Marcos Farrajota e Davi Bartex. Design: Joana Pires
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Este novo Mesinha de Cabeceira, que ainda recentmente comemorou 20 anos de existência, faz uma continução da fórmula do número anterior, desta vez com Farrajota a duplicar as páginas para contar histórias sobre apartamentos e instituições públicas de Lisboa, ou melhor sobre os seus abandonos e decadências. Este é segundo capítulo do "Desobediência é um artigo de colecção", trabalho de Farrajota desenvolvido numa residência artística na Finlândia. O convidado Bartex é francês, tendo residido em Lisboa durante algum tempos nos príncipios do milénio tendo feito esta BD que andou perdida uns 10 anos. Bartex é conhecido pelos seus encantadores e monstruosos trabalhos de animação de rua - e também andou nas míticas tournês de barco feita dos Mano Negra pelas costas africanas e sul-americanas.
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Já está à venda na loja online da CCC e na Matéria Prima e talvez em mais alguma loja, não se sabe...
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Edição limitada de 333 exemplares. Pode ser lido na íntegra aqui. Lançado no dia 30 de Abril 2013 na Sá da Costa com o Prego #6.
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Feedback: Não és o mestre do desenho...longe disso... mas em construção de BD, paginação, argumento (vivido ou não), como contar uma história, muitas vezes divertida (uf...tanta falta faz por aqui neste país) como a vida aliás, consegues mais uma vez chegar lá.... ao teu destino, que acho que é o de muitos nós... - André Lemos não conhecia esse teu talento de contador de história. deves ser o melhor banda-desenhista que conheço que pior desenha lol - João Fonte Santa ... Queria lhe apenas comunicar que adorei a Mesinha 24 e o especial no SWR. A única Mesinha que tinha lido antes tinha sido a #20 e julgava serem todas nesse estilo compilação que, embora ofereça muita variedade tenha por vezes qualidade ou interesse variável. Assim, foi com agradável surpresa que conheci a Mesinha na sua itineração (e espero não dizer nenhuma barbaridade pois neste meio da banda desenhada conheço bastante pouco) americana (sendo que me lembra o estilo pessoal e "neo"-realista de American Splendor e Joe Sacco; e novamente perdão se esta assunção fôr de algum modo insultuosa pois, como disse, conheço muito pouco...). (...) E ainda me deu a conhecer o fantástico trabalho do Doutor Urânio. Para um veterano, estas palavras serão porventura desnecessárias mas não queria deixar de agradecer o excelente trabalho feito até hoje e apoiar e encorajar o presente mais a mais nesta altura em que o futuro da produção cultural "indígena" está fortemente perigado. Os meus parabéns e muito obrigado!J.M. (de Coimbra) eu diria que são uma espécie de facebook analógico onde os amigos ausentes podem espreitar um poucochinho a tua biografia sempre em jeito de work-in-progress! Como a vidinha, de resto. Portanto, ler-te foi como reencontrar-te em retroactivo, mais ou menos. ;)Arlindo Horta (do saudoso fanzine O Moscardo) Detesto as montagens do gajo que faz as capas destes números do MC, acho que ficavas muito mais bem servido se usasses as capas interiores (os desenhos dos interiores de tua casa) como a capa/contracapa. A história da casa já tinha lido, o que não tinha visto ainda era a história da bedeteca. That's some sad shit. A sério, acho que apanhaste muito bem a sensação de desolação e tristeza de ver um projeto que gostas a desintegrar-se, sem entrares em retratos de dor interior. Gostei desse pudor. Miguel Caldas ...  Porreira, a BD da casa fantasma, ligada à outra casa fantasma que é a Bedeteca! (...) pareceu-me lógico! :) e até vais buscar o escadote, a mesinha e a poltrona da casa fantasma!!!! :) Andreia Páscoa

Nova fornada do Clube do Inferno

Verdades Satânicas de 15 em 15 minutos:

1) este fim-de-semana aconteceu o evento mais punk do ano nem que fosse pelo facto de estarem mesmo presentes na Morta punks velhos e straight-edges anacrónicos.

2) quem fez o cartaz desta edição da Morta foi o André Pereira que faz parte do colectivo  de autores de BD Clube do Inferno e que lançaram lá novos zines, embora não estivessem presentes no evento - estiveram aonde os toscos?

3) o Clube do Inferno é o colectivo português mais interessante nos dias que correm e as novidades comprovam isso...

4) Need More Love é a continuação de Lovebirds (já referido aqui) e está mais rude graficamante e badalhoca a nível de conteúdo neste drama existêncialista S/M Gay - no fundo acho que era isto que o Chris Ware gostaria de fazer. Na falta de uma conclusão, até porque há uma promessa de continuar no promissor próximo título The Day the Masses Left History, não comento mais mas este número até parece uma exploração comercial e apressada do "sucesso" que Astromanta (ah! sim, é o nome do autor!) está a ter na erotic shop Purple Rose com a exposição do Lovebirds...

5) Yup, Gay vende bem... é uma verdade Satânica!

666) O Mao fez o segundo volume de Radiation - e já estou arrependido de não ter comprado o primeiro volume - que deu um ou dois saltos quânticos em qualidade de conteúdo... Se no primeiro volume alguém tinha comparado o seu trabalho a Jens Harder, eu diria que isso pode ser verdade mas a cosmogonia de Mao pode incluir actualmente a malta de Fort Thunder, Mat Brinkman ou Brian Chippendale, ou até Sam Hiti embora tudo isto seja redundante porque Mao conta outra coisa nada haver. É um universo-bestiário biológico pós-qualquer coisa ou apenas "alien" em que neste volume Mao acrescentou uma brincadeira interactiva de leitura. Nas páginas centrais do zine pode-se ler a BD prá folheando prá esquerda (à japonesa) e para a direita. Tricky!

domingo, 13 de abril de 2014

Super-Structure


Além de Mike Diana e Yuichi Yokoyama havia outra exposição no Fuck Off de Angoulême...  Super-Structure é um zine editado pelos belgas (?) François de Jonge e Francesco Defourny, e o projecto veio de uma participação num festival de edição independente com uma instalação.
Essa instalação foi reproduzida numa das salas do Fuck Off e consistia num abrigo débil com desenhos expostos no seu interior. Mucho arte contemporânea uma vez que essa casota serve para questionar o que se pode fazer pós-apocalipse com poucos meios. Como sabemos uma das coisas que acontece com poucos meios é a colaboração entre as pessoas e daí que tenha surgido este zine - afinal de contas, no mundo dos fanzines uma das palavras-chave é justamente essa: "cooperação".
Com três números editados, entre 2012 e 2014, o primeiro número é o típico zine A5 enquanto que os outros números são impressos em papel jornal e formato A3. É principalmente um grafzine, ou seja, a publicação interessa-se mais em explorar o grafismo, pela via do desenho ou de infografias disfuncionais embora também tenha alguma BD. O aspecto geral da publicação é que estamos perante uma publicação sobre construção de abrigos para uma segunda geração de sobreviventes após o grande-peido civilizacional que sem formação, tal como a conhecemos hoje, ferramentas e técnicas olham para o zine a pensar: "mêne, como fazemozisto? nã percebo nada-de-nada destas instruções!".
A seguir!

sábado, 12 de abril de 2014

ccc@feira.morta.III


FEIRA MORTA 
12 + 13 de Abril na Casa Bernardo
Caldas da Rainha

As alergias chegaram e com elas uma nova edição da Feira Morta, desta vez fora de Lisboa.
A Chili Com Carne vai lá estar.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

The 15th Rebellion of the Steel Warriors / últimos 6 exemplares


Para quem pensava que isto não ia acontecer... eis finalmente o DVD sobre a 15ª edição (e comemorativa) do SWR - Barroselas MetalFest. O DVD é um documentário produzido pela Lula Gigante e a acompanhar a caixa está um zine de BD de Marcos Farrajota com um especial Não 'tavas lá?! - uma série de tiras de BD sobre crítica a concertos, publicadas no passado em revistas como a Rocksound, Underworld : Entulho Informativo e vários fanzines. Para este DVD, foram feitas 24 páginas de reportagem sobre a 15ª edição do Festival de Metal mais extremo em Portugal e que acaba por ser o festival (de grande envergadura) mais simpático que há por aí. Bem merece ir para o seu 16º ano que acontece esta semana entre 24 e 27 de Abril.

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Capa e design por André Coelho

(50% desconto para associados)

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Feedback: está-me cá a parecer que se fores a Barroselas outra vez te limpam o sebo... REP ...  Tirando as blasfémias (se Deus existir mesmo ou te arrependes ou estás frito) Curti bué o Não 'Tavas Lá que acabei de ler T. Cavaco ... sabes bem o que é sentir-te infinitamente só. F. Felizardo Excelente! Há lá pormenores deliciosos. E o forte daquela BD, na minha opinião, é o excelente sentido de narrativa que tens, precisamente porque dás sentido e relevância a pormenores que facilmente passariam despercebidos de um qualquer assistente às 5 noites e dias do SWR. Mas quando é que o gajo fala das bandas?!?!... ah ah ahha hh ahah ahaha hhaahh N. Martins ... Ainda existe Candlemass? Porquê? … everything that I could say pales in comparison to this question. Gostei muito da urban legend/ fantasia sexual, das universitárias violadas pelos colegas/ homens do lixo, e da imagem de um gajo com uma bíblia na mão a ver concertos de metal. Miguel Caldas

sábado, 5 de abril de 2014

Lançamento de ZONA DE DESCONFORTO : 5 de Abril : Palavra de Viajante

A Palavra de Viajante é a livraria mais bonita de Lisboa, e isto de só ter livros de viagens faz todo o sentido lançarmos lá um livro da nossa colecção LowCCCost!

Dia 5 de Abril, às 18h, estamos lá para lançar o novo livro e estarão presentes a maioria dos autores que participaram e que não estão lá fora a lutar pela vida!

Zona de Desconforto é uma recolha de relatos de autores de Banda Desenhada que foram estudar ou trabalhar para fora de Portugal 

ccc@Transfer


Não vamos poder estar lá mas a livraria Snob irá representar parte do nosso catálogo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Brasil XVI


Mickey Speed #_01 (A Bolha; 2013) de O Divino é um belo livro pouco maior que o A4 com uma BD que não tem linearidade precisa. Gerlach, Franz e a malta do Samba não estão sozinhos lá no Brasil na exploração de uma "nova BD" brasileira em específico mas também das novas narrativas da BD que se passam à escala global.
A primeira lembrança que este Mickey Speed faz é do Diabolik de Yvan Alagbé por ambos serem fragmentados e usarem o estilo de BD "criminal" ou de policial negro como estética. Mas as diferenças deparam-se logo depois porque Alagbé usa esse material com textos políticos e pessoais, enquanto que Divino coloca vinhetas sem fim, sem palavras e sem sentido para criar um ambiente bizarro, negro e teoricamente mais próximo do "policial". Tal como na capa do livro em que repete o título "Mickey Speed" de forma derretida, é essa mesma sensação que temos ao ler esta BD, alguém deitou ácido na iconografia Spillane & cia.Mais uma surpresa do Brasil que deixa curiosidade sobre o que irá acontecer a seguir...

Recebemos vários exemplares deste livro - prioridade para sócios da Chili Com Carne.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Ó filhote, baixa lá isso...



Filii Nigrantium Infernalium : Pornokrates: Deo Gratias (Chaosphere + Hell Prod; 2013)

É infeliz que o porco do Papa Francisco seja o menino-querido dos media e do público em geral. É triste achar que um jesuítazinho vá mudar o quer que seja, seja nas entranhas podres desse penico de Deus chamado Vaticano, seja na relação com o mundo e a sua estrutura social, em que a Igreja, já tendo perdido a liderança e poder que tinha continua a servir para o status quo da alienação e exploração do Homem.
É por isso, que é essêncial ouvir um disco de Black Metal como se ainda tivessemos 19 anos e acreditássemos em Satananás como este segundo álbum (em 20 anos de existência) dos FNI que praticam um necroporno'n'roll. Na realidade soa a Heavy/Trash com Black/Crust, fórmula há muito usada no Metal contemporâneo. Pelo meio há intervenções do Hitler e de violinos porque fica sempre bem em qualquer disco deste tipo. A rodela do disco é uma maravilha de bom humor herege porque o buraco do vinil acerta num rabo laureado com uma coroa de espinhos. Só esse detalhe vale logo o disco todo! Ide comprá-lo invés de andarem a ler merda nas revistas e jornais de hoje, esses cabrões querem mesmo enganar-nos!