domingo, 28 de agosto de 2016

O Fantasma de Creta e outros contos na El Pep



O novo livro de Rafael Dionísio, chama-se O Fantasma de Creta e Outros Contos

O título é auto-explicativo: são quinze contos que espelham as contradições e dificuldades das relações humanas. Psicologias complexas, relações de poder, eventualmente violentas e sexualidades mais ou menos desviantes. Com uma concisão admirável e uma segura mão narrativa, estes contos são um prazer e, por vezes, contém pequenas e grandes surpresas para o leitor.

Os contos que se reúnem neste livro foram escritos entre 2012 e 2015.
Alguns já viram a luz do dia, em publicações como a Flanzine ou a Nicotina, outros já foram lidos pelo seu autor em público.

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Uma co-edição Bicicleta (selo editorial da Mandrágora) e Chili Com Carne
capa de João Chambel
108p 20x20cm, capa a 2 cores
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PVP: 13€ (50% desconto sócios, lojistas e jornalistas) à venda na loja em linha da Chili Com CarneLeituria, Artes & Letras, Letra Livre, FNAC, Bertrand, Pó dos Livros, El Pep, Matéria Prima...


Historial: lançado no dia 7 de Abril de 2016 na Leituria

sábado, 27 de agosto de 2016

ccc@punknic


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Evan Parker - X Jazz / ESGOTADO


Evan Parker - X Jazz
graphzine / sketchbook de André Coelho
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24p 16,5x21,5cm, papel verde
impressão a duas cores em risografia pela Mundo Fantasma
com prefácio de Rui Eduardo Paes
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edição limitada de 100 exemplares
ESGOTADO
- talvez hajam ainda exemplares na Mundo Fantasma, Linha de Sombra e Just Indie Comics (Itália) -

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Evan Parker (1944) é um influente saxofonista de Free Jazz, nascido na Inglaterra. Houve um encontro com este músico em Pedrogão Pequeno, em Agosto de 2012, com 17 músicos nacionais do jazz e da livre-improvisação no âmbito do X Jazz – Ciclo de Jazz das Aldeias do Xisto, organizado pelo Jazz Ao Centro Clube com o apoio da ADXTUR.

A residência artística durou toda uma semana, com trabalho dentro de portas durante os dias e concertos à noite em povoações localizadas nas margens do Rio Zêzere. Logo no início, Parker afirmou que não queria dirigir, que estava ali apenas para transmitir a sua experiência e as suas perspectivas da música que utiliza a intuição, a espontaneidade e a interacção de grupo, sem hierarquias, como linhas condutoras. (...) As consequências desta iniciativa têm sido enormes, pois marcou a aplicação em Portugal daquilo que o próprio Parker apresenta como «coisa utópica». Esse foi, de resto, um propósito logo ali anunciado por alguns: por exemplo, o trompetista Luís Vicente adiantou ao jornal Público que tinha de imediato decidido «transportar isto para a minha maneira de tocar e de pensar a música». 

«Deixem espaço para os outros»; «quando ouvirem alguém a introduzir uma ideia, calem-se, dêem-lhe oportunidade»; «toquem menos - não queiram preencher tudo, o ensemble é mais do que cada um dos seus membros»; «ouvir é mais importante do que tocar»; «entrem apenas quando tiverem algo de importante a dizer», «não cortem o caminho dos outros», «se alguém não estiver a fazer-se ouvir, retirem-se»: estas dicas chocalharam com tudo o que se julga que é improvisar, e depressa se percebeu que o alcance da filosofia musical do coordenador desta acção ultrapassava a própria música. 

(...) A memória do que aconteceu em Pedrogão Pequeno ficou registada em texto, áudio, vídeo, fotografia e desenho – o caso presente, pela mão de André Coelho. É uma memória congelada, fixada no tempo, o contrário da efemeridade dos sons que então se produziram. As recordações mentais, essas, estão vivas e continuam a ter um efeito transformador. A influência que Evan Parker nos deixou é uma construção sem fim à vista. - Rui Eduardo Paes in prefácio

Músicos retratados: Angelica Salvi, Gabriel Ferrandini, Gonçalo Falcão, Hugo Antunes, João Camões, João Lobo, João Martins, João Miguel Pereira, João Pais Filipe, Luís Lopes, Luís Vicente, Marcelo dos Reis, Miguel Carvalhais, Miguel Mira, Pedro Sousa, Rodrigo Amado e Travassos.
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A edição foi produzida pela Chili Com Carne e Thisco, sendo o sexto volume da sua colecção THISCOvery CCChannel, dedicada às dimensões (ocultas) da (contra)cultura tendo no seu leque colaborações de Hakim Bey, Rui Eduardo Paes, Critical Art Ensemble, Ewen Chardronnet (Associação dos Astronautas Autónomos), Carl Abrahamsson, The Master Musicians of Joujouka, Ondina Pires, DJ Balli, Hetamoé entre muit@s outr@s...

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Feedback : Lançado no dia 18 de Dezembro de 2015 no Barraca Fest III com a presença do autor e intervenção de Rui Eduardo Paes ... Mais do que uma compilação de esboços do autor, os textos que os acompanham traduzem a súmula dos ensinamentos de Evan Parker, conferindo o tempo aos ensinamentos do músico e dando a ilusão da sequência narrativa dos mesmos, enquanto o leitor vai descobrindo a voz do coordenador que não quer ser ditador. Nuno Sousa ... Looks great! Evan Parker ... impresso a duas em risografia, sendo uma delas um belíssimo cinzento metalizado, que traz reflexos às figuras humanas. (...) Um sucinto mas claríssimo texto de Rui Eduardo Paes cria o necessário contexto para os incautos, mas igualmente para nos fornecer algumas pistas não só em compreender algumas das frases igualmente capturadas por Coelho, mas pequenos gestos subtis que poderão fazer adivinhar as tais harmonias conquistadas: as mãos pousadas sobre os joelhos e os olhos fechados de Parker ao escutar os músicos, um saxofonista a não tocar, o sobrolho carregado de um músico de electrónica, as caretas expectáveis de quem segue num transe de notas, e as misteriosas mãos em posições de mudra, em busca de navegações pelos sons Pedro Moura ... my partner Caroline found it again this morning and worried if I was a bit over weight! Evan Parker 

domingo, 21 de agosto de 2016

A casa dos 10 000 cadáveres

Tarados coleccionadores e outro animais do livro de artista: querem uma máquina do tempo inesperada? Chama-se 10.000 Humans e é de Maiorca, a ilha com mais talentos gráficos por metro quadrado do mundo - Max, Pere Joan, Alex Fito,... e Lluís Juncosa, a cabeça desta editora.

Entre 1989 e 1994 lançou livros e graphzines e parece que nestes últimos anos lembrou-se de promover o trabalho feito e o "fundo de catálogo". O que significa que quem é fã deste tipo de edições passa a ter acesso a uma pequena máquina do tempo, uma vez que os livros estão em excelente estado passados estes anos todos. É mais impressionante quando são edições agrafadas ou manuais (as serigrafadas) mas não o deixa de ser para os álbuns em offset como o Sutze Atlas (1993) um "atlas visual" na esteira punk / surrealista em que Juncosa foi coleccionando imagens várias, de temas completamente diferentes de nascimentos, freaks da natureza, cadáveres, celebridades ou animais vivissecados, fazendo depois uma montagem dos mesmos em várias páginas numa ordem pessoal que oferecem leituras elípticas sobre as imagens. Um livro fora do "normal" do trabalho deste artista.

Se calhar até é o "normal" dele no que respeita a "universo" mas ele é mais conhecido é pelo desenho. Um catálogo como Frenologia, vol.1: Miss Mallorca Über Alles (Museu de Mallorca; 2007) ou o CD de Comelade e Pinhas dão melhor impressão do que é o seu estilo gráfico e temático. Linhas finas e certeiras com vários elementos dispersos, muita escatologia e mutações corporais tiradas da Interzona fazem parte deste autor e não será à toa que ele tenha editado o número 40 (?) do graphzine Elles sont de sortie


Se há um título emblemático do mundo DIY em França é este "ESDS" de Bruno Richard e Pascal Doury (1956-2001) criado em 1976. Contemporâneo do grupo Bazooka e muito anterior ao Hôpital Brut (do Le Dernier Cri), o ESDS é quase um "template" para tudo o que apareceu depois, sendo a sua influência ainda a ser avaliada. Doury abandonou o projecto algures nos anos 80, passando a ser este o meio de produção de Richard (embora a sua assinatura desaparecesse com a sobreposição da sigla ESDS) e os seus desenhos de sexo e violência em batuta de S/M decadente sacado aos Men's Adventures mais Hardcore. O que não impede que de vez em quando (como neste número) aparecessem desenhos de Gary Panter, Doury, Mark Beyer e Bartolomeu Cabot (não é o Juncosa disfarçado? parece!). Resta saber de quem é a autoria das adoráveis fotografias da capa e contra-capa...

Miserere (1991) é uma colecção de desenhos de Miracoloso, aka Fernando Fuentes, ilustrador que fez parte dos gloriosos anos 80 participando na mítica revista Madriz mas também nos anos 90 na singular Nosostros somos los muertos. Álbum de grande formato, junta desenhos em que não se se sabe o destino deles - seriam ilustrações para outros projectos? trabalhos realizados para o prazer do autor? Sombrio e sujo, alguma temática lembra o Filipe Abranches com as distâncias gráficas pois exploram um imaginário sórdido do século XX com homens e mulheres a fingirem uma normalidade ou a posarem para um retrato quando o meio onde vivem parece podre e negro. Um livro que testemunha mais uma vez a qualidade gráfica que sempre existiu na vizinha Espanha.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Ya drunken bastards

O Damas é o spot nocturno de Lisboa... concertos potentes que acontecem neste bar!!! Já devia ter escrito sobre os ingleses Sly & Family Drone que foram dos últimos bons concertos que vi por lá e que fiquei parvo - já foi em Abril... O LP Unnecessary Woe (auto-edição; 2013) é a tentativa de capturar uma banda que tem de ser ouvida/ vista ao vivo. Não é porque um dos elementos da banda suba de cuecas para cima do amplificador que convence a ir ao concerto - não é uma bela visão, o rapaz tem um barriga de cerveja digna de um Pub - mas porque o som deles começa com uma maquinaria que faz (muito) barulho à qual acompanha uma bateria, que mais tarde ou mais cedo costuma ser desmembrada para o público tocar nela, numa espécie de festa tribal com a vantagem de quem começou o evento comunal não quer tocar Bob Dylan nem músicas de escuteiros. A cacofonia aparece desta anarquia polirrítmica de bêbados, punks, betinhas e índios todos felizes de participarem em comunhão na chinfrineira. Estou a ser cínico... qual foi a última vez que um concerto foi realmente divertido? Se tal parede de som pode ser difícil de reproduzir para um disco de estúdio, deve-se afirmar que estes bêbados do caralho da banda conseguiram! Voltem cá, pagamos as bebidas e por discos novos que tenham!

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Freakarte II

BD e frekalhada é uma união especial, daquelas que fixes, que duram para a vida, até a Chili já aderiu uma vez ou outra ao género (ou será subgénero?). A cena de ler BD freak é que os desenhos vão-te dar tanta vertigem que não vais perceber nada do argumento, embora já se saiba que a história será uma cagada que pouco interessa. Será no desenho que terás (hippi)epifanias embora seja melhor tomar qualquer coisita. É tipo Free Jazz, é para curtir no momento, topas?

Uma das maiores características neste tipo de BD é "a caminhada", tipo, uma personagem vai à descoberta do mundo e sofrerá acontecimentos incríveis a interromper o seu percurso. Fobo de Gabriel Delmas é um desses casos, embora aqui uma lagartixa com arma laser encontre apenas mais uns mutantes sem se perceber a razão de tudo. Os desenhos de Delmas safam a coisa, claro está, o franciú é um cromo cheio de estilo gráfico. Editado pela italiana Hollow Press que tem feito um trabalho incrível no meio "Dark Underground Fantasy Crazy Shit" mas sobretudo tem é um cuidado gráficos com os seus dos livros, como é o caso de Crystal Bone Drive de Tetsunori Tawaraya! Uma BD cheia de mutantes junkies traficantes de orgãos, cuja a acção não se percebe pevas mas também não interessa, é impressa a tinta prateada sobre papel preto. Se os desenhos de Tawaraya já são impressionantes normalmente, ao serem "invertidos" tornam-se ainda mais selvagens e vindos daquele pesadelo que te deixa urina nos lençóis... Resta dizer que volta meia volta mandamos vir livros da Hollow para os nossos sócios ou temos à venda (percam) aqui (toda a esperança).

Acho que nem sei se escrevo correctamente os títulos do doido do Bertoyas... Um é Norak: Le fils de Parzan (Kobé 24?; 2015?) e o outro acho que (acho que!) é Flugblatt #1 (Kobé #25; 2015?) que poderiam ser descritos como o encontro aleatório de papeis numa casa de uma família popular expulsa pela Câmara Municipal do Porto - não é ficção como sabemos o que bem aconteceu há poucos anos atrás. No meio da tralha abandonada antes da bófia ter arrancado as crianças da cama à chapada lá conseguimos fazer uma pilha desses papeis e olha, os gajos curtiam BD! Vamos enpilhando BDs do Tarzan, BDs porno e umas de aventuras, estilo fumetti, onde tudo se mistura seja como for. A ordem dessas BDs está toda trocada, os papeis estão molhados e a tinta da impressão de algumas imagens e palavras passaram para outras páginas... Depois levas para casa, um francês doido aparece-te à meia-noite, leva-te essa pilha de bosta para França, desenha por cima desse caos, reescreve algumas partes e inventa outras, aboneca uma cena, mete uns elementos aleatórios aqui e ali, bem como uma boa dose de nahanha poética e temos obra. Acho que é isso... É genial mas convém usar luvas.


Por fim, temos Binoculars do finlandês Sami Aho, que para dizer a verdade acho que nem se enquadra neste perfil mas vai empurrado, que se lixe. Apesar do ar "artsy" não só não se percebe bem o que se passa por aqui como tem elementos freaks: partidas de jogos (ampliadores da mente, né?), mutações orgânicas, algum non-sense, jogos de óptica (aqueles olhos são afinal mamilos, spoiler, desculpem) e fotografias de animais. É ou não é freak? Editado pela galeria Thee Order ov The Hobohawk (antiga Watdafac) é distribuído em Portugal pela Rough Nough (também organizadora da Pangeia).

Também não merece estar aqui mas como é época de preguiça intelectual - e se os jornais que cobriram cheio de erros a Revisão desculpam-se desta forma porque não posso eu fazer o mesmo? - vai também no mesmo barco o Ping Pong de Amanda Baeza e a filipina Camille Dagal. Mini-zine A6 trata-se de uma "BD de metamorfose" (daí também poder estar neste "post") ou melhor, é um jogo entre duas ilustradoras que vão acrescentando elementos gráficos nos desenhos de uma e da outra (ping pong, topam?), tornando-o em algo narrativo ao jeito de "cadavre exquis". Mucho nice!

sábado, 13 de agosto de 2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

ReVisão

2 páginas de artigo sobre a Revisão na Visão desta semana...

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Terminal Tower




I define Inner Space as an imaginary realm in which on the one hand the outer world of reality, and on the other the inner world of the mind meet and merge. Now, in the landscapes of the surrealist painters, for example, one sees the regions of Inner Space; and increasingly I believe that we will encounter in film and literature scenes which are neither solely realistic nor fantastic. In a sense, it will be a movement in the interzone between both spheres. J.G. Ballard

Com este 16º volume da Colecção CCC dá-se uma transformação na própria colecção. Se entremeávamos um livro de literatura por um gráfico logo a seguir, durante 14 anos, com quase sempre com os livros do Rafael Dionísio e quase sempre com as antologias de BD, a natureza da obra deste novo livro Terminal Tower de André Coelho e Manuel João Neto, deixa de fazer sentido a nossa lógica editorial ou até a distinção dos formatos dos livros literários dos gráficos.

Terminal Tower teve um processo criativo entre o artista e o escritor fora da lógica da banda desenhada - em que há um argumento para ser adaptado para desenho em sequência. Assim sendo, as ideias do livro foram sendo construídas em simultâneo pelos dois autores, tendo como premissa a de um homem isolado numa torre em estado de alerta.

Partindo dessa torre, Coelho foi criando alguns desenhos que despoletaram ideias narrativas e que potenciaram outros desenhos que por sua vez geriam as indefinições das narrativas que rodeiam esse contexto, numa espiral criativa.

A ideia central do livro é o delírio engatilhado pela paranóia, sem que se perceba se o despertar dos mecanismos da torre é real ou se existe apenas na cabeça do homem isolado na torre, pois nada parece funcionar, tudo parece uma ruína do futuro em que se cruzam referências decadentes aos universos de Enki Bilal, J.G. Ballard (1930-2009) e da música Industrial - não tivessem os dois autores ligados a esse tipo de música através do projecto Sektor 304.

Historial: lançado no dia 31 de Maio no Festival Internacional de BD de Beja com exposição dos originais ... seguido de outras exposições na El Pep / Imaviz Underground (Julho), Treviso Comics Fest (Setembro) e Amplifest (Outubro) ... nomeado para Prémio Adamastor de Ficção Fantástica em Banda Desenhada ... Sugestão de "leitura-a-três" (?) pelo jornal I ...

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Feedback: (...) Depois da bomba, os estropiados – depois da expilação nuclear, os mutantes. A monstruosidade é uma sátira cruel à diversidade, uma fantochada feita de ruído. Não tem beleza. Não tem significado. A não ser a beleza do aleatório e o significado que decidimos impor. Criar relevo é inventar significados: vivemos numa realidade imaginada, mas as ficções que criamos não são mentiras, são exofenótipos – não se pode ser humano sem uma torre, mas aceitar a torre é aceitar o monstro. Aceitar o apocalipse. Nada é mais fácil. David Soares / Splaft! ... (...) a NASA tinha inventado o super-negro. (...)  é a BD que está a ir mais longe na busca de um super-negro psicológico, virtual… (...) Logo ao olhar para a capa somos chupados para o seu negrume, que se vai adensando ao longo das primeiras páginas. Percebemos de imediato que estamos num cenário bélico, pré ou pós-apocalíptico… Rui Eduardo Paes / Bitaites ...  Neste livro experimental os códigos da BD são levados a um extremo próximo da abstracção. Não é simpático para o leitor, pois deixa quase tudo em aberto e descarrega nele imagens fortíssimas e acutilantes. (...) Um dos traços da maturidade do género é a amplitude de um campo de expressão que vai do pueril intencional ao questionar dos limites, zona de fronteira onde este Terminal Tower tão bem se insere, mais próximo de uma sequência pictórica do que da narrativa linear. Lendo-o, ou sendo mais preciso, construindo mentalmente uma possibilidade ficcional a partir da iconografia, ressoava-me na mente o ruído elegante do noise industrial (...) Mais do que uma história, este livro é uma experiência do tipo mancha de Rorschach. Vê-se o que se espera, mas também se vê o que se sente no íntimo. E sublinho: contém ilustrações de tirar o fôlego, que se destacam no absoluto preto e branco mate do papel impressão mas se vistas no tamanho real e media original ainda são mais deslumbrantes. Artur Coelho / Intergalatic Robot ... As receitas de químicos e materiais, numa profusão de termos técnicos específicos, (...) em que uma suposta linguagem o mais objectiva possível, sendo apresentada num contexto totalmente deslocado e acompanhado pela materialidade das imagens e em relações texto-imagem inesperadas, atinge uma dimensão poética tumultuosa, que obriga o leitor a tentar coordenar elos vários, nenhum dos quais possivelmente o correcto, mas cujo objectivo é mais atingido pelo movimento de tentativa do que por uma conclusão conquistada. Pedro Moura / Ler BD ... Um livro para pensar, esta deveria ser a referência de todas as publicações, mas nem sempre é assim. Com Terminal Tower é verdade. Jorge Freitas Sousa / DNotícias ... O convívio de variadas técnicas como fotografia, colagem e sobreposição com o meio desenhado não parecem em nada deslocadas ou em choque, e denotam maturidade na manipulação do meio comunicativo, culminando no forte impacto da maioria das páginas, necessário para suster uma narrativa tão pausada e por vezes quase como que um telegrama, mas a meu ver muito adequada. Andre6 / Wook ... Terminal Tower es una joya The Watcher and the Tower

ISBN: 987-989-8363-27-5
144p. p/b + cores, 16,5x23cm
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PVP : 15 euros (50% desconto para sócios CCC, lojas e jornalistas) à venda na loja online da CCCMundo Fantasma, Matéria Prima, Louie Louie (Porto), BdMania, El Pep, New Approach Records, Utopia, Bertrand, Letra LivreArtes & LetrasVault e Linha de Sombra.
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Exemplos de páginas:

domingo, 7 de agosto de 2016

Neste Verão, nem os Pokémons largam a Revisão!


Encontrámos este Caterpie a cirandar, quiçá atraído pela capa psicadélica da Isabel Lobinho.

Disponível na pokestop da CCC.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Toing Toing Toing Toing Toing Toing Toing Toing

A Shhpuma lança actualmente a melhor música "toing toing" neste canto europeu, daquela pica-miolos buéda intelectual e de outros abusadores. Por exemplo, não se percebe o conceito a 100% do que a artista Helen Mirra e o músico Ernst Karel fizeram para o CD Maps of Parallels 41º and 49ºN (2014).
Sabe-se que por cada pedaço de terra ou rio ou floresta por onde passam (num risco paralelo) substituíram esses elementos por sons de guitarra, baixo e geradores, numa espécie de "dronaria" ambiental - esta música era a banda sonora de uma instalação de Mirra em 2002 num museu norte-americano. O resultado é um agradável "toing toing" que não irrita, pelo contrário até induz a uma viagem qualquer, não definida dada a simplicidade da edição, sob o ponto de vista visual (onde está a peça ou a instalação representada?) ou textual (uma explicação maior do trabalho?). Que mitrice editorial para tão boa "não-música"...

Currents & Riptides (Shhpuma; 2016) de André Gonçalves ao princípio irrita um cochinho mas depois entra e desabrocha numa flor - sim porque o "toing toing" não precisa de ser sempre uma porra desagradável.
Há algo de (No Pussyfooting) aqui sem ser uma comparação directa às técnicas de composição de Eno e Fripp. Só um cheirinho... talvez com Propofol porque estamos em Portugal onde tudo é mais calmo. Cheio de detalhes e intervenções inesperadas, estamos perante uma natureza morta da Era da Electricidade, Informação e dos Insectos. Esta seria a música de fazer o amor no universo de Vós, Luminosos e Elevados Anjos de William T. Vollmann.



Mas se querem má-onda e bater mal eis que saiu a k7 Pestmortum (Harvest of Death; 2016) dos Funebrüm, que me tentaram vender como "Funeral Doom mas é o que vais sentir quando voltas da morte e estás num caixão"... Jesus! Quem quer isso!? Esta malta não leu o Contra os cristãos de Celso!? Mortos são mortos, não há volta a dar! Nem com intervenção divina um gajo quer estar consciente num corpo decomposto! São 80 minutos de música, 40m de cada lado. O lado A lembra sun0))) se estes tivessem bateria marcial - o que é estranho porque num funeral não se espera "headbaging" - ou ainda os "nossos" Desire sem a parte da telenovela. O lado B é um drone mais irritante que o "loop" estúpido de (Let's talk) Physical dos Revolting Cocks. Este drone já se encontrava submerso no lado A mas no B é omnipresente quase sem intervenções por cima dele. É um desespero tal ouvir o labo B, tal como ninguém quer ser cristão... Porque raios um gajo se submete a esta tortura? Se Lou Reed criou o Heavy Metal também sabemos que também ele o matou em 1975 com o seu Metal Machine Music. Claro que metaleiros só conhecem o Reed daquela merda que ele fez com os Metallica e não se espera que fiquem envergonhados de os comparar a coisas já feitas há 40 anos.
Já o pessoal do Jazz esperava-se um bocado mais de bom gosto e que não tentassem vender tretas com paleio espectacular como a estreia de ROJI, o CD The Hundred Headed Women (Shhpuma; 2016). Mandam um "name-dropping" de tudo o que é fixe da cultura contemporânea para vender aquilo que é apenas mais Free Jazz chato. Falam em Metal, Punk, Mick Harris, PIL, sunn0))), Lars von Triers e até usam o título de um dos primeiros romances gráficos da História - A mulher 100 cabeças de Max Ernst - para nada, nem chega a ser "toing toing". Que pretensão, go away!

Em compensação recebi o CD Flip side (of Sophism) (G33G; 2012) inesperado pica-miolos para quem espera as "pastiches" de Pascal Comelade, conhecido pela sua música feita com instrumentos que são brinquedos. Como é um disco com Richard Pinhas, a coisa muda de figura.
Realmente começa com um piano de Comelade mas cedo a música evolui para caminhos tortuosos, cheios de silvas, plantas com picos e bichos que zumbem sadicamente em frequências indesejáveis. Volta meia volta, mudam de registo a meio para nos fazerem perder o "name-dropping": Noise? Improv? Prog? Gótico? Drone? No Wave? Who cares, é tão bom como o "artwork" do maiorquino Lluís Juncosa.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Brasil XX

O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Narval + Veneta; 2015) é um grande livro: muitas páginas e capa dura, páginas a cores e é um "best of" do que se faz de BD no Brasil... mas são os livros pequenos e modestos que mostram realmente o melhor da BD brasileira. O Fabuloso fica bem numa estante de uma Bedeteca privada ou pública, impressiona os incautos e o melhor do livro é sem dúvida a capa de Luciano Drehmer! Além da falta de mais autoras que é coisa parva - "menina não entra" no clube de BD dos rapazes, pelos vistos - também falta o Camarada Zimbres, que se calhar não entrou porque não tem produzido BD nos últimos tempos (pena!). O resto já se sabe, os autores que tem interesse já os conhecemos há muito tempo: Diego Gerlach, Pedro Franz (que nos visitou recentemente), Marcelo D'Salete (com uma BD de Cumbe, publicado em Portugal), Rafael SicaGuazzelli e mais um bom punhado de outros autores a marcarem a diferença à tirinha humorística, ao humor e outras tretas que compõe o livro... A dinâmica da BD brasileira está em alta e em mutação, o Fabuloso só apanha "a alta" e não "a mutação", não deixando de ser um projecto de se tirar o chapéu por ser um "tour de force" para colocar o Brasil no mapa da BD e/ou para forçar a barra institucional de reconhecimento da BD. Era bom haver algo assim em Portugal se houvesse algum editor com bons critérios...

Mas o verdadeiro raio X dos mutantes brasileiros é nas publicações mais à margem como o Coral da Camarada Taís Koshino ou nos livros que recentemente comprei na loja do Camarada El Pep - no fundo somos todos camaradas. Embora já sejam "velhos" (mais de um ano é velho?) ainda não ficaram desactualizados para serem divulgados neste blogue, como é o caso de Flores (Samba; 2014) de Gabriel Goés. Em formato A5 e a cores, esta BD é uma parábola sobre o mundo moderno, da infância à morte em que a pior parte é o mundo laboral (claro). O existencialismo é aquela amargura à Chris Ware, o que mostra que o Brasil não é só festa, bundinha, sambinha e bola. O pessoal apanha deprês também! Boas Goés! As melhoras! Que a depressão passe...
Feio pra caramba é o Alvo Roco (Vibe Tronxa Comix; 2012) do Diego Gerlach e ainda bem... já chega de tanta coisa bonitinha por aí! Talvez este livrinho A5 seja parte do "work-in-progess" Pinacoderal ou talvez não, não se sabe e se calhar nem o autor sabe. Aqui tudo é drogaria urbana com diálogos de cortar à faca enquanto os desenhos de Gerlach sugam-nos para o seu mundo de distorções e alucinações. O que raios é um agente independente? E a letra "A cabeça de um burocrata / Linda e altiva / Numa bandeja de prata"? Este gajo é o que conheço mais próximo aos primeiros discos d'Os Mutantes. 'Tá lá! E aconselho a ir visitar a lojinha El Pep para sacar estas pérolas.

Topografias não estará lá nas estantes porque acabou de sair. Editada pela Piqui, eis uma resposta indirecta de falta de autoras d'O Fabuloso... Seis maravilhosas autoras entre elas duas conhecidas pelos leitores portugueses se estivessem atentos, a já referida Camarada Taís, e Puiupo, que era mais conhecida por Paula Almeida. Esta antologia A4 impressa a duas cores directas - como O Espelho de Mogli, passe a publicidade - coloca a BD brasileira no século XXI! Escrevo isto não porque existe um tema camuflado de "ficção científica" para as seis BDs/autoras mas justamente pela atitude e forma de abordarem esse tema, com a sensibilidade e inteligência de uma Ursula K. Le Guin. Os raios lazer são enfiados na próstata e vai-se para pequenas ilhas da utopia, havendo até uma relação inesperada entre as BDs de Júlia Balthazar (que abre o livro) e LoveLove6 (que o fecha). Grafismos sérios para um livro à séria. Cuidado com o Piqui!


segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O Hábito Faz O Monstro [edição especial antológica] ||| ESGOTADO


O Hábito Faz O Monstro de Lucas Almeida é o quinto volume da Mercantologia, colecção dedicada à recuperação de material perdido no mundo dos fanzines, editada pela Associação Chili Com Carne num total de 500 exemplares, cada um com 104 páginas 16,5x23cm a p/b, capa a cores, e o seguinte ISBN: 978-989-8363-15-2.
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Este volume reedita uma selecção de BDs publicadas entre 2002 e 2009, nos números 2, 5, 7, 11 e 13 do zine O Hábito Faz O Monstro, e algumas BDs inéditas produzidas entre 2009 e 2012.
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Edição com o apoio da Câmara Municipal de Cascais e o IPDJ
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Pode ser ainda adquirido na Matéria Prima, Mundo Fantasma, Neurotitan, Fábrica Features, FNAC e na loja do artista.
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Historial : Esteve presente na Feira Laica mas foi oficialmente lançado no dia 2 de Fevereiro 2013 na SMUP (Parede) com sofá-skates e tudo mais!!! ...




Feedback : sobre O Hábito Faz o Monstro #7, Pedro Moura no blogue Ler BD escreveu: (...) a atenção ao seu trabalho [Lucas Almeida] desdobra-se para além das arenas habituais, quer por ter ganho há pouco tempo o prémio dos Jovens Criadores na área de bd/ilustração, e por surgir como uma das "promessas para 2007" num artigo da revista do Expresso. (...) o conteúdo mostra-se bem mais variado mas sob o mesmo signo de liberdade dos melhores zines. O número 7 é o que apresenta, até agora, aquela que me parece a maior e mais sustentada história da personagem-avatar do autor, o "Jovem". Como se lerá na nota final, nasce o texto, um tecido de várias considerações sobre o amor, de um trabalho escolar do autor. A sua aplicação às aventuras desta personagem torna essas mesmas considerações ora em verborreia a ridicularizar ora numa lição sustentada por quem a apresenta (o demónio) ora numa lição negada pelo Jovem confuso... Nesse aspecto, recorda aquelas enormes notas criadas por Chester Brown em I Never Liked You, por exemplo. Mas a mistura de níveis e de tons, entre a profunda reflexão verbal sobre um complicado (se não o mais complicado) sentimento humano e a paródia das acções. ... E agora com o livro Pedro Moura volta à carga: (...) Desenhos urgentes e cheios, sequências de narrativização mínima, situações curtas que poderiam ser chamadas de “poemas”, haustos mais longos e que bebem de várias fontes, algumas mitológicas, este volume junta todos os pontos fortes do autor, desde aquilo a que chamáramos “bizarrias” numa ocasião anterior até a um modo muito próprio de tecer histórias, que a um só tempo parece pautar-se por instrumentos clássicos e normalizados, mas ao mesmo tempo não deixa de fazer transparecer as formas possíveis de fuga a esses mesmos modelos. É difícil não querer cair na tentação de uma leitura psicologizante em relação às história do “Jovem”, mas como se optasse por alegorias simbólicas, abdicando de qualquer ancoramento com a realidade quotidiana. A saga desta personagem, em todo o caso, é curiosa a vários níveis, pois se a leitura de cada episódio surgiria de uma forma quase autónoma, e pautada, em cada fanzine surgido, a sua leitura corrida e de uma assentada provoca uma certa estranheza. É que cada episódio parece manter a sua autonomia, em termos de humor, ritmo, estilo gráfico mesmo, mas ainda assim a sua coordenação acaba por fazer sentido, como se de facto o Jovem, como uma espécie de Dante suburbano pós-moderno, atravessasse vários círculos de referências de um Inferno muito pessoal, um Inferno muito lá de casa. São trabalhos viscerais, seguramente catárticos, que encerram uma das razões pelas quais os fanzines são uma plataforma de auto-exploração.