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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Metal

Se calhar já não se sabe o que quer dizer metaleiro há muito tempo. E quando se vê estas publicações fica-se ainda mais à toa... Aquilo que era uma tribo urbana muito bem definida até aos anos 90 deixou-o de o ser porque, tal como todos os géneros musicais, fragmentou-se em mil sub-géneros. Metal, será a guitarra em distorção e temática obscura? Música à abrir e espírito Rock do excesso? Música para 10 000 cabeças tocado num palco gigante ou uma k7 limitada a 10 noruegueses broncos? Tudo isto ou nada disso?


O que dizer sobre Metal do Olho do Cú? Para além de começar mal como frase, este zine "old school" é mesmo "old" porque é feita por velhotes quarentões que se calhar não fizeram um fanzine assim quando tinham 16 anos. Seria a idade certa para fazer esta javardeira... e no entanto... Torna-se realmente divertido em 2016 ter em papel meia-dúzia de fotocópias A5 um humor de ir ao cuzinho S/M. O gesto é completamente anacrónico, a lembrar outras situações como o Bom Apetite de João Marçal e Miguel Carneiro. Tem graça de tão deslocado de tudo, seja do mundo da BD seja do comércio, é lançado nos festivais de Metal que abundam pelo país, daí que a maior parte das BDs e cartoons sejam ligados ao Metal e alguns dos seus cromos - como um dos irmãos Veiga, organizadores de Barroselas que aparece como "Ramboselas", herói de todo o metaleiro em perigo. De forma geral, este zine encaixa-se na nova tendência do Metal ter deixado o lado político ou sério, para entrar numa onda de curte non-sense, ao nível de Enapá 2000, como são as bandas Grind Vizir ou Serrabulho. Talvez porque alguns dos sub-géneros do Metal chegaram a um limite estético onde pouco poderão avançar, então decidiram voltar atrás, à parvoíce da juventude mesmo sendo muitos cotinhas - no #3 até lhes enviei um desenho rejeitado por uma banda punk. Síndroma de Peter Pan escarrapachado mas o que se pode fazer com música Pop/Rock? Sempre foi juvenil... Ainda assim, o Metal como festa pagã e de idolatria, quando não está alinhado à cultura "normal", é de salutar pois acredito que cada um de nós deve inventar o seu próprio Carnaval, os seus próprios rituais, media e tudo mais. É disto do que se trata quando se fala do Olho do Cú. Muito sinceramente, quem quer saber dos Gatos Fedorentos (essa cambada de vendidos)?

Iconolatry (Universal Tongue; 2016) de André Coelho saiu num festival de Metal em Junho e trata-se de um portfólio de imagens de Coelho feitas para bandas e os seus discos ou eventos de Metal - e algum para o Punk e o Industrial. As ilustrações foram libertas do espartilho do design dos produtos a que se destinavam, deixado-as assim respirar com mais força e evitando o livro de se tornar num catálogo de vendas.
Não deixa de mostrar que existe todo um mercado - um nicho, como os merdas dos tecnocratas chamam - em que até há um artista português que preenche os requisitos, ao ponto de estarmos perante até de uma profissionalização do mesmo nesse "nicho". Mesmo quando se vê muito imaginário que lembra Barry Windsor-Smith (o primeiro desenhador do Conan nos anos 70) para além de muitos bodes 666, bárbaros vikings, caveiras & machados & bigornas, gajas podres de boas (muitas vezes só podres), repteis sebosos (e não falamos das escaramuças públicas do PCPT/MRPP), simbologia alquímica e esotérica para quem nunca viu o palhaçito do Crowley, não deixa de haver força e energia nas imagens (zeus, é isso que define o Metal?). Ou seja, lá porque Coelho trabalhe muito não quer dizer que o material não passe a esmorecer e a vulgarizar. O que o livro mostra é que o Coelho tem garra - resta saber que tipo de garra de águia ou de grifo?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Underground


Burnt to a crisp (Black Blood Press; 2015) é um fanzine de arte maldita, suja e obscura. Não é para malta da moda e outros betos, não senhor! Gajos como Eduardo Pécurto, Manuel Pereira, André Coelho ou Romain Perrot não fazem isto porque é "cool" ou para engatar gajas ou porque vai render "likes". Esta gente baralha factos biológicos, pós-colonialismo, miséria humana, perversão sexual, ruído visual com os seus desenhos e colagens para nos agoniar as entranhas e meter-nos em estado de alerta, pensa, negros humilhados, caveiras medievais, gajas escravizadas, dinheiro e escombros... Século XXI é mais civilizado porque tens um smartphone? Estes bárbaros (que até devem ter smartphones e aquecedores em casa) mostram que não...


O instigador do fanzine acima é o Manuel Pereira que teve direito a um título a solo, o Tricofilia (Black Horizons; 2015) - termo para excitação sexual por cabelos. Lançado por uma editora norte-americana de Noise e afins, o zine é metido num saco preto que arrepia. Admito que tive medo de o abrir e tirar de lá a publicação - sabe-se se esta gente não escondeu uma seringa de um agarrado qualquer de San Francisco dentro da embalagem? Iá, iá, fia-te na virgem e não corras...O enfoque sobre a questão sexual-capilar ficou aquém das expectativas embora tecnicamente Pereira cada vez mais pulverize as colagens em pequenos fragmentos, fazendo delas mais texturizadas do que figurativas. O resultado final é que parece que encontramos na lixeira um álbum de recordações de um tarado sexual que violou bifas no Algarve. Creepy shit...


Foi a colagem da capa que me fez pegar em Als Tier ist der Mensch nichts (Monotonstudio; 2016) dos Unru... senão teria cagado completamente. Tocam Black Metal contemporâneo, ou seja, são uns rapazes com ar de beto alternativo e que fazem uma barulheira incrível, muitas vezes pisando os terrenos imundos do Sludge que podem ser tão insuportáveis como os BM. Já agora, o artwork do disco é de B.D. Graft que parece que poderia estar mais numa revista de "novas tendências" do que a fazer algo para metaleiros... Safou-se muito bem e conseguiu pelo menos uma venda de uma k7!


Já cá tinha escrito sobre quanto tinha adorado a actuação ao vivo da Jejuno, e até andei a ver se ela queria lançar uma k7 pela MMMNNNRRRG. Preferiu um Urubu (soa mal assim, hahaha) e a MNRG lançou a Bleid invés, mostrando que são as mulheres a fazerem as criações mais interessantes em Portugal nos últimos tempos - olhem no caso da BD a Hetamoé, Sofia Neto e Amanda Baeza para destacar os melhores exemplos... Não consigo deixar de a comparar a AtilA como alguém que faz uma electrónica pós-industrial, negra e com batidas duras. Mas enquanto AtilA é calculista e técnico (no bom sentido), Jejuno é intuitiva e imprevisível, duramente desprogramada e suja. Ou seja, um dos melhores discos portugueses de 2016. Maldito Urubu!


O francês Albert Foolmoon ama Lisboa e faz questão de vir às "nossas" feiras de edição independente. Esteve na última Morta onde vendeu um exemplar da antologia de desenho Terreur Nocturne (Lézard Actif; 2014). "Queixou-se" de que quem a comprou disse-lhe que ia retalhar o livro para colocar as páginas em molduras... Convenhamos, com 24 páginas A3 serigrafadas a várias cores, estava à espera do quê? Não venha com tretas que os 'tugas são bárbaros! Ainda mais com desenhos da turminha da má-onda como Sam Rictus, Don Rogelio Jr., Dav Guedin, Martin Lopez Lam, Alkbazz, Victor Dvnkel... Assim sim, o crime compensa, ao menos as pessoas compram estes livros porque curtem e não por coleccionismo de obras anacrónicas em serigrafia que andam por aí...

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Desinformação

Mais uma k7 da Thisco! E outra vez de Rasalasad! E mais um CD dele... O que raios aconteceu?
Mais!
Ambos trabalhos estão cheios de Dark Ambient trabalhado com dezenas de colaborações estrangeiras de personalidades da melhor electrónica universal.
A k7 é a mais coerente enquanto corpo sonoro. De um lado participam os "noisers" Smell & Quim (trodacalho de Mel & Kim?) que são uns britânicos javardos (que redundância, todos os ingleses são javardos até prova contrária) que foram domados pelo Rasalasad. O Noise infernal deles desapareceu com os sintetizadores planantes de Rasalasad, uma combinação fascinante. O lado A é uma colaboração com o americano irr.app.(ext.), autor de uma obra sonora e visual fantástica e ligado aos importantes Nurse With Wound. Faixa dinâmica, cheia de detalhes e progressões inesperadas. Sofre só é dos mesmo problemas gráficos da k7 anterior...

Thismorphia é um CD que pretende ser um "showcase" de Rasalasad, sendo que o universo deste músico toma conta dos outros que participam: Jarboe, Merzbow, Smell & Quim, irr.app.(ext.), Von Magnet,... ainda assim, apesar da usurpação e dominação sobre os materias dos convidados, Thismorphia parece disparar para muitos sítios, sem encontrar um discurso próprio - ao contrário do que aconteceu no passado longínquo de Rasal ou neste recente "comeback".
Para quem conhece bem o catálogo da Thisco, fica-se com a sensação que está-se a revisitá-lo com uma nova camada. Ou então, o problema será certamente meu que não me consigo concentrar nos sons que não conheço e só me foco nos pontos que (re)conheço sem conseguir apanhar a "big picture". Talvez seja um disco que obriga parar para ouvi-lo com atenção... mas quem o consegue fazer nesta cidade infestada de obras, tuk-tuks e turistas bêbados? Design do CD a cargo da Camarada Pires.

Eis o novo zine do Trump da Bernarda que se intitula de Mariano #1 - em homenagem à sua criação de BD, o Gato Mariano, o gato mais tótó do planeta que quer impedir dos mexicanos de beber cerveja à pala! Um fanzine como este é raro dada o individualismo que se vive à grande e à francesa na comunidade criativa em 2016. Toda gente faz os seus zines e livrinhos de autor, cada um de costas viradas uns para os outros tal é o Ego de cada um. É raro ver fanzines que mostrem trabalhos de outros e mais importante que dêem tempo de antena para entrevistas. Aqui além das Críticas Felinas do Gato Mariano há também uma galeria para o José Cardoso / Tomba Lobos. O Tiago tem o "defeito" de ser jornalista de formação e por isso foi trocar impressões com o norte-americano Ed Luce e Bráulio Amado - quando foi a última vez que viram isso acontecer no mundo das edições "indie" (resposta: "na Maga"). O primeiro é conhecido pela suas BDs gays mas que entretanto tem conseguido ultrapassar esse nicho para uma audiência mais generalista. O segundo dispensa apresentações mais merece puxão de orelhas com os seus bitaites parvos do tipo O mais interessante é encontrares uma cena com pessoas que partilham o mesmo interesse e sentimento que tu tens ao fazeres algo criativo, sejam eles punks, betos ou da família real, iá, meu, os betos e os da família real devem ter muito de interessante para partilhar. E se tiverem é só contigo, Bráulio! Espero que trabalhes com o Luís Represas! Tem masé juízo! Enfim, de resto, tudo "impec"! Desde o Zundap que não aparecia em Portugal um... FAN-ZINE! Granda Mariano! Espero que ganhes as eleições!

Todos estes artigos vão estar na Feira Morta este Sábado, acabadinhos de fazer. Mais uma razão para ir lá! Três razões!!!

quinta-feira, 2 de junho de 2016

š! #23


Esta antologia báltica faz números especiais temáticos a torto e a direito, de desportos à matemática venha o Diabo e escolha - até já fez um especial Portugal / Desassossego, lembram-se?
O número 23 sub-intitula-se "Redrawing Stories from the past" e participam apenas cinco artistas, a saber Paula Bulling (da Alemanha), o sérvio Vuk Paibrik (que já visitou Lisboa e participou no Boring Europa), a letã Martinš Zutis, o alemão Max Batinger e a polaca Zosia Dzierzawska. Ou seja, longe do maralhal que costuma ser habitual numa edição normal.
O tema também é sério, são histórias de sobreviventes ao Holocausto Nazi, o que obrigou aos artistas de terem um trabalho de investigação uma vez que tiveram de retratar história verdadeiras. A única história que é consanguínea a um autor é a de Paibrik que relata as histórias dos seus avós que se conheceram no campo de trabalho de Johanniskirchen em Munique, sendo que a narração é feita de memórias, anedotas e fotografias promovidas no seio familiar.
Este número quebra o monopólio da forma como o Holocausto tem sido retratado em BD por Maus de Art Spiegelman (defendido como qualquer outro monopólio económico, diga-se) ao mostrar outras narrativas, outras formas estéticas e sobretudo outros relatos menos óbvios como a dos argelinos franceses de Paula Bulling. A edição é complementada com um texto do alemão Ole Frahm que tem estudado sobre este assunto, o Holocausto e a BD.
Muito recomendável a leitura!

terça-feira, 31 de maio de 2016

Gaijas Comix

No Graf de Barcelona encontramos a gaja do Meu Namorado Cavalo, que não assina os trabalhos numa anonimato bizarro em que a série de BD e autora são homónimas: Mi Novio Caballo. Lançava o seu segundo livro Aventuras en el Asteroide, 90 e tal páginas quadradas de alucinação naíf da autora e o seu namorado pelo mundo das traições, do mar e do espaço.
Se nos fanzines que já se tinha aqui escrito resultava bem devido à estranheza de um cavalo em situações rotineiras, quando a estranheza soma-se a mais bizarria, o cavalo perde tesão... Não deixa de ser admirável o esforço feito mas parece que é preciso mais garra para não parecer apenas tolo...

Mais poéticas são Klari Moreno e Andrea Ganuza Santafé com os seus zines / chapbooks. A primeira tem uma linha frágil ora para mostrar ambientes bucólicos como Origen, nudo y origen (La Malvada; 2015) como para manifestar Relacionarse muy duro (La Malvada; 2016). Roça o freak mas tem boa pinta. A segunda é mais vulgar no traço e na exibição, aliás o seu fanzine chama-se Puta Mierda (Morboso y Mohoso; 2015) por alguma razão... Conta autobiografias, masturbações e mistura desenho e fotografia para tudo ser mais realista. É uma sem-vergonha! Como é sabido por todos, as espanholas são umas badalhocas!

Não conhecia a Conundrum do Canadá, casa editorial de autores como Chi Hoi, Igor Hofbauer (Prison Stories), David Collier ou Richard Suicide (ver Mutate & Survive) e uma centena de canadianas como Elisabeth Belliveau ou Kat Verhoeven. O livro One year in America da primeira autora deixa-me frio mesmo que seja um diário de um ano da vida da autora ou é porque ela desenha como uma sopeira ou porque é "arte contemporânea", tanto faz... Towerkind é mais funcional e ganha logo o coração devido ao reduzido formato do livro - um fofinho A6! Infelizmente um bom princípio que daria para uma grande história - um "guetho" em Toronto com milhares de emigrantes que falam 150 línguas diferentes - não vai longe. Verhoeven faz homenagem ao sítio mas parece que nunca entrou numa casa de um emigrante ou que tenha convivido com alguém de lá. Parece antes uma exploração da miséria com pitadas de "realismo mágico" que está tanto na berra no mundo hipster da BD...

Aporia (2015) de Sallim é um zine desta música e artista que publica uma BD que se confunde com Poesia visual e vice-versa, de desenhos e escrita simples para quem curte de crise existencial juvenil. Há de lhe passar mas espero que faça mais "coisas" destas num futuro qualquer, seria muito interessante ver mais evoluções desta autora, que também tem uma série de títulos com colagens...

Parece que "zine" para as novas gerações significa "chap book" ou "livrinho" ou "livro de autor". O conceito de serialização passa ao lado, e mais ainda o zine enquanto esforço colectivo. O individualismo impera para o melhor e para o pior porque quando se lança numa publicação a solo, tudo o que é bom ou mau virá ao de cima sem perdão ou hipótese de camuflar entre mais outras páginas de outros autores. Da Joana Teixeira e da Joana Éfe espera-se mais de Viúva (2015) e Starman (2016) respectivamente. No primeiro caso porque espera-se a continuação de algo que sabe a pouco e no segundo porque nem se sabe se há continuação sequer... No lado oposto está a "nossa" Sofia Neto que com Down Below e Eco (Mundo Fantasma; 2015-16) prova que tem tudo para ser ou uma grande autora de BD comercial ou uma grande autora de BD ponto final. Down Below aliás parece uma metáfora para essa dúvida inútil se deve ser "underground" ou não, quando se assiste o "avatar" da autora trabalha como inspectora de sedes marítimas abaixo do nível do mar a ser enganada... Hum... Eco é um "slice-of-neo-gótico" impresso a branco sobre papel negro confirmando o que já se sabia, que a produção gráfica da Mundo Fantasma é para além do excelente.

Por fim, para desenjoar de todos estes monográficos solipsistas eis o regresso de Durty Kat, o número 10, da Camarada Ana Ribeiro que faz com as interrupções da vida este fanzine desde os finais dos anos 90. Prova que fazer zines não é um estágio de emprego mas um modo de vida. Talvez seja o zine mais imperfeito de todos aqui relatados mas é aquele que me dá mais prazer ler e ânsia ao receber por correio, especialmente quando este número é dedicado a delírios religiosos - justificando assim a inesperada participação de Francisco Sousa Lobo. O Durtykat deixou de ser um "perzine" de Ribeiro para abrir portas a mais colaboradores e tem uma saudável fórmula de misturar poesia, desenho, BD e fotografia. Caguei, chamem-me de velho...

domingo, 24 de abril de 2016

ccc@swr.2016

Satanismo light, moino-mutantes e anarqueer eram as propostas da CCC para os metaleiros, ao nosso lado o murciano Magius tinha o seu livro Black Metal Comix que foi sucesso de vendas!

Joana, Catarina e Marcos: os anti-metaleiros presentes neste grande festival!

André Coelho, o boss da Signal Rex e o Farrajota, poseurs do caralho!
 

De resto, trouxe de lá duas pérolas pequenitas, porreiritas e cromas, a saber: The Beast Brigade (Deathstar; 2008), segundo álbum dos Theriomorphic que praticam Death Metal old-school fixolas... E El Mago (FOG Comix; 2016?) novo zine do espanhol Magius que explica tudo sobre magia, sim isso é possível! I believe!

quarta-feira, 16 de março de 2016

Brasil XIX

A Ugra (loja + distro + anuário de zines) enviou mais algumas edições deles, desta vez são livrinhos A6 na mesma lógica de muitas outras colecções do passado espalhadas pelo planeta: Quadradinho, miniTonto, Patte de Mouche, O Filme da Minha Vida, etc... Nunca é tarde reactivar este formato editorial, boa iniciativa este Ugrito com os seus primeiros quatro números.
O único que me tocou foi Germes da Cynthia B porque separa-se dos autores-rapazes e as suas fantasias bobas. Não é que ela fuja assim tanto como isso, pois o seu registo continua a ser o caricatural e o humorístico mas sente-se uma energia diferente mesmo que se possa encontrar nesta mini-BD uma tradição que vem das autoras dos anos 90 - mais especificamente aquela BD do "período gigante" pela canadiana Julie Doucet, que a tantos rapazes impressionou. Talvez venha a tornar-se um chavão daqui uns anos mas até lá ainda é verdade que as narrativas sobre a diferente fisiológica feminina tem o "twist" para renovar a cultura, humor incluído. Por isso, em 2016 é melhor o humor feminino brasileiro que o humor masculino brasileiro, se ainda existissem dúvidas, por isso, meninas, mexam-se e passem por cima desses vossos compatriotas cona-moles!


Calma, nem tudo está perdido! Existe também no Brasil, um tal de Luis Aranguri que pode ainda dar esperança. Chegou-me às mãos dois zines seus em A5 impressos em risografia (? pela Meli Melo?) que devido ao teor experimental fogem completamente à produção de BD daquele país - sendo possível juntá-lo às produções de Pedro Ivo Verçosa.
Remake remonta o livro Akte : Studien, kompositionen und visionen numa BD com a estrutura de duas vinhetas em três tiras por página. Feita com as fotografias desse livro de arte, tem uma sentido narrativo fluído que parece os momentos descritivos de um "mangá" de samurais ao mesmo tempo que os ângulos das imagens (recortadas) têm um drama cinematográfico tal como as colagens de Una Biografia (1973) de Chumy Chumez (1927-2003). Re/Forma (imagem) também tem o seu je ne sais quoi dos anos 70 vindo à cabeça o "famoso" La Cage (1975) de Martin Vaugh-James (1949-2009). Também nesta uma BD sem personagens humanas observa-se uma perturbação metafísica do espaço (um apartamento) acabando numa degradação, ou melhor, no seu desaparecimento. São espelhos ou efeitos especiais ou vinhetas que invadem a representação do espaço? Uma coisa é certa, não se paga renda aqui...

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Graphzines.pt

Foi quase uma década quase que exclusiva de produção de graphzines cá em Portugal com a Opuntia Books e Imprensa Canalha a liderarem o movimento... No entanto o ritmo abrandou ou ficaram menos visíveis, não sei porque tirando as publicações daquelas duas saudosas editoras raramente me interessaram os conteúdos dos graphzines portugueses. Recentemente vieram-me parar às mãos algumas peças que acho interessantes. "PT"? Pois, nem por isso...



Xunga Tropik #0 do italiano residente em Lisboa Saba é segundo defenido por ele próprio como: A journey on the [sunny] postfordistik/ postapokaliptik side of the river Cacilhas/ Lisboa 2015. Zine A5 com fotografias de equipamentos industriais abandonados e decadentes que sob um olhar estrangeiro e/ou artístico ganha uma dimensão melancólica e romântica mesmo que os grafitos modernos nas paredes das fábricas destruam esse sonho anacrónico e das ruínas a serem dominadas de forma rasteira e discreta pela natureza. É preciso ser de fora e "apunkalhado" para visitar estes sítios e achar que vale a pena registar de alguma forma embora seja natural esta relação entre o Punk e os detritos urbanos. Outro graphzine de Saba que prova isso, mesmo que o lixo seja digital, é Blitch - sim, como ninguém se tinha lembrado de juntar "bitch" com "glitch" (erros de sistemas de computador e afins)? Também em A5 as suas páginas estão repletas de imagens com erros sistemáticos fazendo estranhas colagens digitais que se o Sniffin' Glue tivesse saído em 2014. Quando um graphzine consegue transmitir um ambiente ou energia vale a pensa ter imagens agrafadas! Estes zines provam que não é à toa que Saba está em contacto com artistas de rua "brutos" como os Cane Morto ou que ele se prepara para organizar um festival de ruído de três dias em que estará presente o nosso Camarada Balli! Tudo gente com pica!


Nem sei o nome deste zine do Binau, será Tatto Fever ou Fanzinélias? Ou será Screaming Shouting Stupid Man? Ou apenas o "zine do Binau"? Não sei nem se dá a conhecer nos sítios oficiais deste ilustrador que muitas vezes encontro na rua a vender desenhos pela dinheiro que quisermos dar. Deve ser assim com os zines dele, não sei, fizemos intercâmbio. Este glorioso zine anónimo é um A6 num papel com uma boa gramagem, o que lhe dá um corpo forte, quente e agradável de manusear. A capa pode alternar de cor como se pode ser pela imagem acima. O trabalho é feito com fotografias encontradas em que Binau passa-lhe tinta correctora e desenha por cima, numa longa tradição que pode ser acompanhada dos trabalhos da Camarada Jucifer, um zine do Burnay & cia até uma capa de Black Taiga - que brevemente verá edição em k7. O resultado é algo cómico na sobreposição com as fotografias que tem quase sempre um ar sério ou a imortalizar um momento importante. É "streeta" e é "naice" mais do que eu pensava. Entretanto já saiu um "volume II"...

Do lado oposto da sujidade DIY + Punk, temos uma Oficina do Cego a sair do armário finalmente! Tem editado um bocado mais do que cadernos vazios e lá encontraram uma Colecção Abstrusa para apresentar algumas surpresas editoriais. Formatinho A6 sempre com alta exigência de trabalho gráfico - mal seria se não fosse afinal de contas é uma oficina para isso mesmo - tem publicado trabalhos muito diferentes desde desenhos de crianças até este pseudo-conceptual (volume 6) Notes iOS de Filipe Matos (aka G3) sobre grafismo digital de ecrãs.
Para um gajo como eu que não usa "fezesbook" nem "aifone" admito este universo passa-me ao lado e parece-me superficial. Acho que preferia um livro com cenas divertidas com gatos porque o que vejo nisto é uma colectânea de piadas para "nerds" tecnocratas. No fun!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O Gato Mariano Não fez Listas em 2015 : Antologia de B.D.

O Gato Mariano é um "hipster" mentiroso nato, diz que não faz listas mas depois faz! As listas é esta colectânea-zine-A5-clássico de críticas (felinas) a discos do Pop/Rock português que o Mariano no seu onírico incoerente universo cartunesco curtiu ou não.

GNR nem pensar, Vae Solis yup!, We Trust vão morrer para bem longe, AtilA rules! Tape Junk não se percebe mas Allen Haloween respect! Plus Ultra? YEAH!!!

Muitos dos grupos ou álbuns não conheço ou não ouvi e este zine poderá servir para ir ouvir esses discos porque como está em papel, um gajo não se pode esquivar de olhar prás páginas impressas e não pensar nisso - enquanto que a informação da 'net, já ninguém se lembra do bandcamp que ouviu há dois minutos atrás.

Um esforço válido que dá vontade que pró ano o guloso Mariano (o gajo só fala de pizzas ou é impressão minha!?) FAÇA listas de 2016! E coma mais peixe como qualquer outro gato que se preze! Faster, Pussycat! Kill! Kill!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Planta anarquista


Ainda à pouco tempo queixava-me que não havia imprensa libertária em Portugal. Penso sempre nos idos tempos do Coice de Mula ou da Crise Luxuosa e esqueço-me sempre e estupidamente do Mapa - Jornal de Informação Crítica que ainda por cima até publica BDs de dois conhecidos nossos: o galego Jano (Mesinha de Cabeceira Popular #2000) e José Smith Vargas... Este esquecimento passa porque nem sempre se encontra em quiosques ou tabacarias "normais", é preciso procurá-lo e ir aos pontos de venda "de sempre" como a Letra Livre ou a Utopia... mas compensa pela oxigenação que oferece sobre as "notícias" do mundo.
Já agora neste último número (o 11!) escrevem sobre o falecido Vitor Silva Tavares (da &etc) e uma resenha pertinente ao livro Aos nossos amigos do Comité Invisivel (Edições Antipáticas; 2015), um dos poucos livros que explica com romantismo q.b. as insurreições desta década. As Antipáticas juntamente com os Textos Subterrâneos parecem ser a únicas fontes de pensamento contemporâneo libertário fora do "loop" do catálogo clássico da Antígona (ainda em actividade) ou da Frenesi que já não publica. Faltam mais editoras destas para combater a estupidez que nos oferece as Leyas, "ghostwriters", direitinhas disfarçados de enfant-terribles e outras bestas iletradas mas faça-se justiça e engulo o erro: há matéria impressa!!! A todos que lêem este blogue desejo: boas pesquisas literárias!

sábado, 16 de janeiro de 2016

Valência é o centro do mundo...

Lá estivemos em mais uma edição do Tenderete e voltamos sempre de mão cheias tal é a bibliodiversidade que vai parara este evento, que entretanto cresceu imenso ao ponto da "última Laica" - num espaço institucional, "clean", para "toda a família", cheio de gente... E havia de tudo para todos!


Até lá havia fanzines para "garajeros" como Me Gusta Más Que Desayunar Un Herpe que já vai no número 17 dedicado a "homens das cavernas". O "primitivo" faz parte dos ingredientes de quem gosta de guitarras com urros animalescos à procura da inocência perdida do Rock dos anos 50 e 60, aliás o primitivo faz parte dessa era do nascimento da cultura Pop se pensarmos no ícone que são os "Flintstones". Com uma capa em capa em serigrafia, este fanzine mostra desenhos e artigos em volta do tema e "oferece" ainda um CD com treze bandas espanholas retro-primitivas. Para quem gosta deste género anacrónico esta é a referência, da minha parte gostei de ouvir Pedrito Diablo y los Cadáveres e Islas Marshall por serem justamente as mais "modernitas"...

Para "metaleros" mas com costela punk e power-violence estava lá a Industrias Doc que reduz a vida industrializada a cancro, gentrificação e rotinas desumanas. Com um aspecto brutista podemos fazer algum paralelo ao "nosso" Rodolfo Mariano mas Doc é directo enquanto Rodolfo é labiríntico. Oscure : Comic compilation vol. 1 (2014) é curioso como o "underground" no século XXI é super-burguês, longe vão os dias das fotocópias mal-amanhadas e sujas... Nos dias de hoje em que tudo é barato fazer, com um bom aspecto concorrente a qualquer publicação profissional, os zines aparecem com toques de luxo como uma capa em serigrafia, com tinta dourada e umas rodela prateadas a fazer de olhos prá "calavera" da capa. "Ser rebelde é um luxo?" O paradoxo não é novo bastando lembrar como Guy Debord exigia que os livros da Internacional Situacionista tivessem um ar vistoso como provocação gráfica à sociedade burguesa e vaidosa... Será que há esse mesmo pensamento por aqui e noutras edições de "arte grotesca"? Ou é apenas porque a Morte mete respeitinho?

Quem curte programas de culinária e Gore - não sei, deve haver alguém assim! - Mortal Chef (ed. de autor; 2014?) do sempre hilariante Jorge Parras é a solução de leitura!
Lembra a saudosa Arght! pelo aspecto geral da publicação... mas só publica uma BD (não está assinada sabe-se lá porquê) que se constrói como uma simulação dos concursos de TV de chefes cozinheiros só que refogado com um bocado de Carcass, Cannibal Corpse e Mike Diana tal o nível de violência estúpida que os concorrentes infligem sobre eles próprios.
É uma crítica à sociedade Big Brother e do Narcisismo a três cores... Ou será antes um ataque a quem elegeu a Culinária como um novo Deus?

E para verem que não estou a brincar com o facto que Valência é o centro do mundo, até o Clube do Inferno lançou lá um zine novo do Mao. Um regresso aos temas "eco-biológicos" que estão bem assentes na obra deste autor - Radiation lembram-se? - e outra vez visíveis nesta Bd que relata uma metamorfose de uma colónia de abelhas graças ao "Pop trash" humano. Colony Collapse Disorder como título já nos conta tudo, só falta é verem as imagens. Muito boas!

Bravo Champion (Jean Guichon; 2013) de Antoine Erre é a razão porque mais vale ir ao Tenderete do que a Angoulême. Este zine é preçado conforme o preço da cerveja no evento em que se encontra à venda. Ora como uma "cerveja" é mais barata que uma "bière" e já andava a namorar este título, em Valência foi logo sem pensar... Trata-se de uma BD desenhada com caracteres em "word" ou processador de texto num computador, em que as imagens são substituídas por palavras como por exemplo, o céu invés de desenhado é preenchido por várias palavras "céu" (ou melhor, "ciel") ao longo do seu espaço. Um chapéu tem a silhueta de um chapéu mas novamente toda ela está escrita com essa palavra ("chapeau").
Na poesia visual isto não é uma novidade mas um gajo tem sempre de esperar uns anitos para estas novidades gráficas cheguem a ela. A história mete deficientes motores e é melhor que aquela BD xunga para cegos.
Por falar nisso, o Ilan Manouach vai apresentar o seu projecto Shapereader em Angoulême. Merde! Se calhar Angoulême ainda vale a pensa visitar...

Mais terror, ou pelo menos uma tentativa: Obscuro : 4 Relatos de Terror para El Mañana (Inefable Tebeos; 2014), uma antologia com quatro autores que prometem mais do que dão em relação ao tema... Victor Puchalski é o mais bizarro com a sua estética "mash-up" Charles Burns & Jack Kirby & King Diamond sobre os planos interdimensionais da cultura VHS mas é Adrián Bago González o que dá mais gozo ler com o seu texto em que aplica o materialismo dialéctico sobre a condição de autor de BD. No mínimo, muito divertido e pouco aterrador! Mas a surpresa maior é que este colectivo de bons artistas gráficos é que são na realidade editores de "puta-madre" sobretudo quando se metem a apostar (uma aposta de loucos porque toda a gente se está a cagar) em publicar Clássicos da BD. "Clássicos" aqui significa BDs antes ou paralelas à maldita História oficial da BD que dá primazia aos Heróis norte-americanos da imprensa, vejam o catálogo da El Nadir para perceber que eles publicam BDs do Caran d'Ache, Töpffer, Doré, etc... São loucos estes valencianos!

E o que não faltam é projectos! Nimio é uma "revista" de BD para putos teenagers... claro que tem um aspecto de fanzine velha-guarda, assim mesmo em formato A5, fotocopiado em papel reciclado, quentinho e fofo, onde poderia lá caber os "nossos" André Pereira ou Afonso Ferreira devido aos universos "cool" pós-Adventure Times. Também lembra muita BD francesa pós-Lewis Trondheim e cia. Será que este colectivo irá crescer como modelo editorial e profissional para chegar ao seu público-alvo? Espero que sim! A energia está lá...




A Apa Apa é uma editora de Barcelona que tem em catálogo alguns nomes "pesos-pesados" da BD anglo-saxónica (Tom Gauld, James Kochalka, Dash Shaw, Ron Regé Jr., John Porcellino,...) mas também edita autores espanhóis dos quais destaco os autores do livro Dictadores: Francisco y Leopoldo (2013) de  Sergi Puyol e Irkus E. Zeberio. A nossa Direita, Leopoldo II, esse grande cabrão belga que cortava mãos aos congoleses (tema explorado cá através do Vumbi e o Papá em África) e ainda mais à Direita o filho-da-puta do Franco, fascista espanhol. Um "split-book" combate de boxe com duas ficções gráficas usando as figuras destes monstros que dominaram povos. A "spread" final e central do livro, onde se cruzam os dois livros, deixa um bocado a desejar onde se quer chegar com ambas BDs apesar de mostrarem a crueldade das criaturas. no caso de Franco até aparece como um salvador de uma invasão alienígena no futuro, uma metáfora ao seu conservadorismo. Graficamente faz lembrar a estética que a No Brow impingiu nos últimos anos, em que ilustradores muito coloridos fazem umas BDs sem conteúdo. Estas BDs parecem estar no limite disso mas parecem que com o tempo são capazes de nos dar mais leituras sobre elas... Assim espero!

E vou fechar isto aqui... falta ainda escrever sobre as últimas edições da Canicola, o Mangaro do Le Dernier Cri e o último livro do Camarada Martin Lopez Lam (um dos fundadores do Tenderete)... todos merecem "posts" à parte. Vamos!

Joe Kessler faz parte da nova fornada de autores que apareceram naquela ilha nojenta chamada Inglaterra mas a sua abordagem à BD parece-me empenhada e séria - longe de fazer Bd porque está na moda por lá. Windowpane (Breakdown Press) é a sua publicação que já sairam três números (entre 2012 e 2015) em que vai juntando vários trabalhos curtos seus. Com boas bases literárias, narrativas bem pensadas e um desenho merdoso (já foi apelidado como o "pior artista da ilha") mas sem-medos (tal como Frank Santoro) e sem pudor de rapinar (é um gajo inglês, piratear está no sangue real!) e usando as práticas erráticas da risografia, Kessler é uma boa leitura e a ter atenção.

Alguns destes títulos vão estar disponíveis na próxima Feira Morta no final do mês na SMUP (Parede), apareçam...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

International working in progress press

É injusto não referir alguns projectos editoriais por falta de tempo nem que escreva dez linhas apenas. Um dos injustiçados é Cinema Zenit (Canicola; 2014-15) de Andrea Bruno - autor de Bolonha publicado no Boring Europa e que nos visitou várias vezes (Feira Laica, Festival de Beja, BD Amadora). "Zenit" é uma série que ainda está em construção, tem sido publicada em álbuns A3 de 32 páginas e já sairam dois volumes, o último em 2015. Sinto que entrei num filme degradado de Fellini pois há um ambiente de sonho que lembra os rodopios narrativos de Amarcord ou Oito e Meio. O formato gigante dos livros dá uma sensação de esmagamento pelo monolítico preto e branco de Bruno. O tema principal é a identidade nacional de um indíviduo que pode-se transportar à própria questão da nacionalidade italiana (uma manta de retalhos costurada por Garibaldi) mas também aos conflitos dos Balcãs nos anos 90 e às crises recentes envolvendo a Ucránia e a Rússia. Em "Zenit" vive-se um estado de ansiedade com um estado de sítio. Talvez esteja seja a obra mais nervosa de Bruno...

A revista eslovénia Stripburger é capaz de ser a publicação de BD mais velha na Europa no activo depois da suiça Strapazin. Mas enquanto os piços dos suiços ficam-se pela língua alemã, os renos dos eslovenos publicam em inglês - ou com tradução inglesa. Depois de alguns anos de alguma decadência da rotina do formato, nos últimos três anos tem dado provas de um novo fôlego e em especial nos últimos dois números (65 e 66) com a edição de uma nova geração de autores interessantes - especialmente franceses, flamengos e alemães. Eslovenos ou dos Balcãs é que não há quase nada a vir de lá - tão paradoxal como um concerto de Laibach...
Uma revista é para se ir acompanhando número a número, a Stripburger é aquele "lembrete" para os tarados da web 0.2 que se esqueceram o que são revistas. Ela têm cumprido a sua parte... e vocês?  Assim aproveito para relembrar que a Chili Com Carne tem um número desta revista para venda na sua loja em linha. Quem procurar mais números antigos (em Portugal) deve investigar as lojas lisboetas 1359 e El Pep e creio que também há na Mundo Fantasma.

Cari amici soldati
Srečno novo leto!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

MortaZines


E lá foi mais uma Feira Morta, menos animada de público talvez porque ainda não perceberam que Xabregas vai ser a próxima gentrificação lisboeta com o EKA Palace como embaixador desse fenómeno. Mas isso não impede de haver novidades editoriais com grande nível como tem sido habitual neste evento de edição independente. Começo por Ground Zero #1 (Clube do Inferno) é uma nova série de Ficção Científica de André Pereira que deixa pouco para comentar, excepto que a escolha de risografia para este trabalho não foi a melhor opção de impressão porque alguns textos perderam a leitura dos textos. Temos de esperar por mais números para saber o que vai sair desta BD que mete férias na aldeia mais portuguesa com smart-phones e Mechas de última geração...

Mais misterioso é o "jornal" que saiu na mochila de José Smith Vargas que é a adaptação a várias mãos de The Wasteland de T.S. Eliot. BD com uso de pintura, colagem e desenho... Um OVNI em intenções editoriais e artística. É outro que temos de esperar pelo número dois...



Strategies Against Democratic Design é um graphzine do italiano Saba, amigo do Camarada Balli e residente em Portugal. Sabem dos manuais de mobiliário do IKEA? Eles podem ser refeitos para mostrarem-se remontados para sistemas fractais de reconstrução improvável. Cultura "remix" no seu melhor...

E a "vencedora" do "fim-de-semana morto" é Stabat Mater (Façam Fanzines e Cuspam Martelos) de Patrícia Guimarães, uma edição A4 bem cuidada com um design digno de uma Factory - Peter Saville. A BD principal parece estar prenha de significados sobre as relações de modernidade numa sociedade rural, entre pais e filhos e entre corpos e porcos humanos. Uma segunda BD de 2 páginas, Amor de Mãe, mostra uma obsessão da autora pelos temas freudianos... Cuidado com esta autora!

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

100 Barulhos

Bruno Lisboa
2015

Um Artista sofre! Um Artista sofre porque tem de aguentar com os outros... E os outros pode ser a xungaria - ou "gunas" no Porto ou ainda "boys" - que anda por aí.
Bruno Lisboa lembrou-se de apontar "momentos altos" desta sub-cultura porque deve sofrer com ela. Se calhar já levou com um bulldog nos cornos ou se calhar já lhes comprou ganza mitrada, como havemos de saber?
É pena que sabe a pouco - esta malta jovem faz uma meia-dúzia de páginas e publica logo! -, não é profundo, os estereótipos dos bacanos são evidentes e estilizados com o grafismo desengonçado e abonecado de Lisboa - trabalho gráfico interessante, diga-se.
Sempre é melhor retratar esta miséria humana do que as conices da classe média mas o que eu queria era ver o Lisboa a oferecer este zine A5 a um guna à sério e ver o que aconteceria. Isso sim teria piada...

sábado, 3 de outubro de 2015

Espanha é que é!


Portugal sempre teve a mania que é melhor que Espanha mas a nossa recente visita praquelas bandas trouxemos provas que não, é justamente o contrário! Enquanto que em Portugal continuamos a ter o PS e o PSD como a merda que se vota, em Espanha assiste-se ao processo "revolucionário" do Podemos. Enquanto a Chili Com Carne faz 20 anos e ninguém cá quer saber, na Biblioteca de Salamanca tivemos lá pelo menos uma modesta exposição. Enquanto que em Portugal um intelectual de café fica encravado entre os caquéticos e patéticos Blitz e Jornal de Letras, em Espanha existe a melhor revista do mundo: El Estado Mental! Uma revista cultural, sobre TODOS os assuntos que pensarem - e sim, incluindo culinária! - sem armar em académico seca, textos de assuntos complicados mas escritos de forma acessível, pessoal e até íntima, por várias gerações de escritores e estudiosos espanhóis (mas também sul e norte americanos) sem papas na língua...

Como se costuma dizer, os espanhóis são mais que as mães, pois é, é verdade basta ver o que é Elvas e o que é Badajoz... Em Espanha publicam muito tal é a sua dinâmica editorial daí que haja muitos escritores com interesse ou que saibam pegar em temas de interesse sem cair em lugares comuns como os 'tugas que ainda não sabem quem é bem quem são William Burroughs e William Vollmann. Outro exemplo que conhecemos foi a Melusina que edita livros de pensamento crítico acessíveis como Necropolítica de Achille Mbembe. Livro de bolso composto por dois ensaios, um sobre como a Vida e a Morte são decididas nas políticas da Nova Ordem Mundial - um dos exemplos que é mostrado é o bombardeamento de Pancevo do nosso Camarada Zograf, o que me arrepiou especialmente ao relembrar o que ele passou naquela cidade porque era uma "guerra cirúrgica". O outro ensaio é sobre como a guerra também atingiu o pós-modernismo, ou seja como são criadas "máquinas de guerra" sem um centro territorial por grupos indirectos aos Estados. Muito interessante e esclarecedor!

Espanha recomenda-se, é verdade que são um bocado ganzados mas como sabemos bem, não há drogas boas ou más, o que há é drogas de boa ou má qualidade. Mesmo com as nossas diferenças de população, a verdade é que a portuguesa é mantida na ignorância. Como ignorante que é ainda se pavoneia... Domingo, vota em Espanha! Gracias!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Filipe Felizardo + (Rudolfo * Molly) - à vista = El Pep até 21 de Agosto

Até 21 de AGOSTO na El Pep está patente uma mostra de originais de dois novos autores nacionais de BD bastante diferentes - a música seria o seu único elo de ligação mas até nisso são equidistantes os seus trabalhos. O que lhes une, foram os lançamentos do segundo número da Molly de Rudolfo e O Subtraído da Vista, livro de estreia de Filipe Felizardo. Venham conhecer estes autores e publicações que ficam entre o mundano do dia-a-dia e a cosmogonia, estão convidados e não serão lambidos!




Filipe Felizardo (Lisboa, 1985) é músico e artista visual. Dedicou-se a instalações ópticas e investigações patafísicas ao longo de uma residência prolongada na Galeria Zé dos Bois, de 2009 a 2013, o que culminou no livro de cópia única O Olho Ôco, um trabalho de pesquisa pessoal sobre as presunções da percepção. Está neste momento a preparar o seu próximo disco, Volume IV - The Invading Past and other Dissolutions a sair na editora suiça three:four records, e uma nova publicação em banda desenhada, sobre pedras e sombras, resultado da residência Contra o Dia no Moinho da Fonte Santa.

Na exposição: Os trabalhos expostos são originais de Filipe Felizardo que pertencem ao corpo do livro O Subtraído à Vista. Com esta pequena mostra pretende-se mostrar como o livro que agora é editado pela Chili Com Carne surgiu de diversos retalhos e explorações, tanto de texto como de desenho. O miolo foi trabalhado intermitentemente ao longo de 9 meses, tempo durante o qual a técnica mudou de maneira acentuada - daí que se mostrem as primeiras e últimas versões das páginas iniciais. Sem grandes aventuras no medium da BD, este trabalho serviu para arrumar ideias e uma metafísica muito pessoal.

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Rudolfo é um mestre de todos os ofícios e mais algum. Faz bonecos desde sempre, mas foi em 2007, quando tinha 16 anos, que começou a editar os seus fanzines de BD que entretanto se viram misturados com toda a sua raiva emocional através dos seus discos carregados de Hate Beat e concertos cheios de espasmos, caos, fritaria e bastante rabetice... Do seu pequeno percurso hiperactivo contam-se uma série de fanzines próprios (ninguém quer saber de fanzines!), participação em várias antologias de BD da Chili Com Carne ou oriundas de outros países/continentes, ilustrações para aqui e para acolá (fez imenso lixo para a Vice) e também alguns discos em formato CD-R/MP3. No entanto, os seus feitos mais importantes podem ser reduzidos a uma lista: a criação e morte da antologia de BD trimestral e internacional Lodaçal Comix, entre 2011 e 2013 através do selo Ruru Comix; ter sido a primeira e talvez a única pessoa a ser expulsa do Milhões de Festa; ter criado o bootleg mais másculo de sempre daquele rato amarelo que dá choques (Musclechoo); e, mais recentemente, do seu trabalho contínuo a ilustrar Negative Dad, uma BD escrita pelo Nathan Williams (Wavves) e o seu amigo, Matt Barajas (Heavy Hawaii). Ah, também tem andado a fazer bimestralmente a sua nova revista de bd, Molly!

Na exposição: Molly é uma antologia de autor, uma revista de banda-desenhada que faz lembrar os bons anos 90 onde títulos como Eightball (de Daniel Clowes) ou Dirty Plotte (de Julie Docet) reinavam supremos. Mas esses anos já lá vão, e Molly é um reflexo da contemporaneidade e do universo de Rudolfo. Estarão expostos originais do segundo número que explora ainda mais a psique do autor e das suas obsessões, com a ocasional dose de escatologia, claro.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Pionir

v/a
Fijuk; 2015

Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez - aliás algures neste blogue deve haver até uma quarta -, que tenho avisado da "euforia criativa" que se vive nas  Balcãs depois de tanta História negra no fechar do século passado.
E este jornal/revista/zine (whatever!) é o culminar desse processo de invenção e descoberta. Foram-se os pénis nas BDs sérvias (que já era marca registada) e ficaram os escrotos - fantásticos como os de Bernharda Xilko que assina a capa tal como da última Stripburger - que continuam a sustentar a experimentação mas agora mais estetizada.
E a excitação continua! Basta ver por alto os trabalhos novos de Igor Hofbauer ou de Aleksandar Opacic para perceber que continua-se com algo aqui que não se encontra em mais lado nenhum, talvez só com os Tontos da "vizinha" Áustria.
O jornal publica desenhos, colagens, BDs e artigos sobre o DIY das Balcãs e música. Tudo redigido em inglês, embora tenha havido um "número" anterior que estava escrito em sérvio.
Na 'net é que não se consegue apanhar nem um "jpegito" da capa... ainda falta o "passo 2" para o "profissionalismo" (que autores como Wostok abomina) mas a marcha parece imparável e com um caminho cheia de surpresas incríveis!

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Água molly em pedra dury tanto bate até que fury

Estranha coincidência ler o novo número da Molly (Ruru Comix; 2015) na mesma semana que leio o editorial da The Wire deste mês em que relata a existência dos Seppuku Pistols, uma banda japonesa que poderia ser definida como "Edo Punk Folk"... Estranho? Não! É nipónico! Irreal? Sim se for apenas contado oralmente ou escrito porque depois de verificado na 'net pode-se confirmar que existe tal coisa - e outras ainda mais bizarras daquelas ilhas. Uma das BDs do Rudolfo neste segundo volume é sobre um projecto Noise japonês fictício mas o autor criou uma história bastante verossímil que podemos acreditar durante uma vida inteira que o tal projecto existe ou existiu - basta não ter curiosidade ou estar morto! Mas é assim a Molly... um conjunto de apontamentos autobiográficos e micro-ficções em que a dada altura misturam-se ambos como uma BD em que este escriba faz parte doutro complot ficcional de um zine que (também) não existe.
São muito interessante estas invenções "Pop underground" numa era que tudo está catalogado e analisado e em que o mistério e anomimato são proibidos. É um caminho que vale a pena desbravar!

As Mollys estão disponíveis na shop da CCC.

 Na festa de lançamento d'O Subtraído à Vista tocou o Acid Acid e daí ter chegado às minhas mãos o CD-R Live at Sabotage 18.04.15 - (Nariz Entupido; 2015). São 32 minutos de psicadelismo setenteiro - porque nos últimos três anos the 70s are back! - que começa em modo relax para chegar a um pico e acabar. A busca é cósmica com "anyone can play sitar" (mas é mesmo uma guitarra), batidas etno-electrónicas, sons sintetizados, feedback de guitarra e uma convinção moral que isto vai dar prá "trip". É uma experiência bastante agradável embora já sabemos que isto só bate à séria com ganza e o corpo possesso pelos tambores africanos. Assim é apenas uma boa intenção caucasiana de quem sabe que iremos todos apodrecer neste planeta.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Freak scene


Le Loyer 9 from Jean Guichon on Vimeo.

É inevitável para quem produza fanzines ou auto-edição mais tarde ou mais cedo não tente juntar música e imagem. O último número do fanzine belga Le Loyer (Jean Guichon; 2015) é mais uma tentativa de fazer algo do tipo mas que resulta bem apenas em vídeo (é vê-lo). Neste caso a ideia é que a BD seja acompanhada por uma banda sonora e as BDs também foram passadas para um espectrograma (ou antes para o imaginário ou estética de um espectrograma) que muitas vezes é passado ao vivo pelo colectivo em eventos. Tem momentos interessantes e alguns divertidos embora haja sempre problemas de tempo ou de sincronia entre imagem e som.
Já o objecto em si uma fricalhada mal enjorcada que não se percebe bem porque realmente o fizeram - não parece que tenham pensado lá muito bem o que estavam a fazer ou como deveriam ter feito. É um A6 que junta vários livrinhos em acordeão para cada BD-animada-sonorizada e é incluído um CD-ROM (no carismático formato de mini-CD) em que se pode ouvir a música. Fita-cola industrial e agrafos prendem isto tudo milagrosamente! A música é electrónica e ouve-se bem, é melhor do que estar a mexer nos acordeões!

Gracias ao nosso agente no Crack por ter trazido este objecto.

sábado, 11 de julho de 2015

Anita vai ao concelto


A personagem Anita já não se chama assim mas continua a ser um ícone Pop para ser usado e abusado. Agora serve como título para um fanzine de Joana Matias, que se encontra(va?) em Pequim a estudar, para promover música (underground) chinesa. E escrevo fanzine porque é mesmo isso, esta é mesmo uma publicação fã de algo regendo-se pelas regras clássicas do formato: entrevistas, artigos e fotos a músicos e bandas da China. Formato A5, preço modesto, Anita (2 números até agora) é um pequeno serviço público para promover um tema obscuro para qualquer português médio - e para um chinês médio - permitindo encontrar pequenas pérolas Pop/Rock que de outra forma não seriam (nada) fáceis de encontrar... E mesmo assim há sempre dificuldades, por exemplo num link sugerido por Matias para ouvir o disco Garbage Dump de He Yong, o servidor xiami.com não funciona em Portugal. Ainda assim, e sem sentido crítico apenas digo: "Muito fixe! Quelemos mais!!!"