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sexta-feira, 31 de julho de 2015

Liturgia do Delírio

Esgar Acelerado
Mundo Fantasma; 2015

A Mundo Fantasma está a imprimir em risografia como já deveriam saber... Mais importante que imprimir com o profissionalismo que sempre foi característica do seu "boss" José Rui Fernandes* é saber que agora estão a editar livros em risografia, dando cartas para esse mercado em expansão que é o da edição independente e livro de artistas...
Já saíram três livros, um de Nuno Sousa, outro do Sama (o único de bd) e este do Acelerado que é o mais interessante do grupo. Apesar do livro do Sama, A Entrevista ser "super-babante" pela impressão da segunda cor fluorescente, não tenho paciência para o texto-cliché de policial + sacanagem. Vaga do Sousa tem um excelente princípio, a memória familiar de um espaço que já não existe, mas é incipiente.
O livro do Esgar é o mais consistente, equilibrado e bonito, curiosamente os desenhos que compõem a edição são retirados de sete ilustrações para uma exposição realizada no ano passado. A recuperação e alteração para duas cores a que foi impresso o livro têm um efeito gráfico muito mais bonito que o original cheio de cores e degradantes degradés (sorry, não resisti!). Reduzindo os "bonecos" a preto e vermelho parece que estamos perante a trabalho de colagem / recorte de papel de lustro, o que dá aquele toque de "natalixo" perfeito para qualquer satânico que se preze recortar as imagens e fazer um presépio do contra. Já sabem, comprem agora, antes que esgote, para depois oferecerem como prenda de Natal a alguém conservador. Há que pensar sempre à frente... como a Mundo Fantasma!


* Figura escondida da BD nacional mas a qual deve-lhe a melhor loja de BD do país, o saudoso Salão do Porto, a revista Quadrado, a edição de livros de autores tão importantes como Joe Sacco, Daniel Clowes, Peter Kuper ou Étienne Davodeau, para além da construção do extinto sítio em linha da Bedeteca de Lisboa...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vai uma revisão da edição independente de 2012?

O passado

2012 é, pelos vistos, o ano de “nostalgia” ou recuperação do passado, situação inédita na edição independente quase sempre mais interessada em mostrar trabalho novo e seguir em frente... São gestos muito simples mas interessantes de assistir. A El Pep reeditou várias BDs de Fernando Relvas, figura singular na BD moderna portuguesa, publicadas originalmente no jornal Se7e nos anos 80. Sangue violeta e outros contos é um acto de recuperação patrimonial da BD portuguesa que por si só reveste-se de enorme importância. Muitos especialistas da área da BD queixam-se que a BD é uma arte que não tem memória e percepção da sua própria história, situação que para ser contornada passa (também) pela republicação de material antigo. Tal como em 1998 foi a Associação do Salão de BD do Porto que recuperou o L123 (seguido de Cevadilha Speed), eis outra estrutura “amadora” como a El Pep a fazer o papel que as instituições públicas ou as casas comerciais deixaram de o fazer, colmatando (de forma aleatória, ligeira e incompleta) o final do programa de reedição de BDs perdidas em periódicos como a Bedeteca de Lisboa fez de 1997 a 1999 com os sete volumes da Colecção Bedeteca (co-edição com a BaleiAzul). Felizmente o esforço da El Pep já ganhou algum respeito institucional ao receber o “Prémio Clássicos da BD” na BD Amadora.

Comemorou-se os 20 anos de existência dos fanzines Cru e Mesinha de Cabeceira (MdC). Estas comemorações tiveram pesos e medidas diferentes mas em comum trouxeram novos números de cada título. O Cru teve como último número o 13 – saltou o 12 não se sabe bem porquê – em 1999! Em 2012 volta com o número 34 e uma festa algures num bar do Porto. Alguém, uma vez disse-me que as bandas Punk e Hardcore são como as baratas porque podem estar inactivas 10 anos ou mais mas depois voltam sempre! Acho que se pode incluir o Cru nesta metáfora… Resta acrescentar que o Cru disponibilizou na plataforma em linha issuu.com os números antigos dos tempos gloriosos da fotocópia (ver http://issuu.com/esgar).

O MdC só esteve inactivo entre 1997 e 2000, 2006 e 2009 e em 2011. Este ano voltou com dois números, o 24 que saiu antes do 23. O primeiro a servir os propósitos do seu editor sobrevivente, e este vosso escriba, Marcos Farrajota, para publicar as suas BDs autobiográficas. O 23 tem como objectivo a celebração dos 20 anos de existência do zine, tendo compilado um pequeno (em formato) mas grosso (em nº de páginas) volume de BDs essencialmente narrativas e de autores portugueses. Era para ter sido um número de despedida do título com o editor fundador Pedro Brito nos comandos mas nada disso aconteceu… como é normal nos fanzines, é o “erro” que proporciona dinâmica e criatividade. De realçar a curiosa exposição patente na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos que faz uma retrospectiva do MdC mostrando originais, zines, maquetes desde 1992 até aos dias de hoje, possibilitando uma discussão sobre os meios de produção de BD e a influência das técnicas digitais nos últimos 20 anos - mas tal não aconteceu, os únicos comentadores interessantes da miserável cena bedéfila não comentaram absolutamente nada até à data de fecho da exposição. Se calhar os 20 anos do Mesinha não têm interesse para ninguém excepto para os seus próprios editores e autores...

A carismática revista norte-americana Journal of Artist Books (JAB) no seu número 32 dedicou as suas páginas aos livros de artistas portugueses. Sob a batuta de Catarina Cardoso, foram publicados vários artigos e estudos relacionados sobre o tema como a Po. Ex. ou a Alternativa Zero. O mais interessante é o ensaio de Pedro Moura que analisa os trabalhos de André Lemos / Opuntia Books, José Feitor / Imprensa Canalha, os heterónimos de Tiago Manuel, e algumas experiências de Jucifer e José Carlos Fernandes. Lançado em Lisboa, com a presença do editor Brad Freeman, foi constrangedor o ingénuo apelo de Isabel Baraona (artista que fez a capa e um suplemento no JAB) para um maior contacto ou intercâmbio entre artistas que façam livros, sendo que a artista afirmou não sabia que poderia haver tantos artistas a produzirem este tipo de objectos. Sempre desconfiei que o mundo dos livros de artistas era um mundo elitista (materiais caros, feitos por artistas profissionais, distribuição em galerias e o mundo institucional da Arte, dirigido para o mercado coleccionista) em oposição a dos zines que privilegia uma comunicação democrática pelos seus materiais baratos de impressão, amadorismo e/ ou sujidade gráfica, pelas regras quase dogmáticas de intercâmbio entre editores, alguma recusa em fazer lucro para não comprometer a criatividade e ausência de interesse comercial,… Afinal o que custa trocar meia dúzia de fotocópias por outras? Ambos interlocutores recebem em troca inesperadas mensagens artísticas, políticas, sociais, etc… Ora se um livro de artista tanto pode custar 250 euros como 10 euros, estará Baraona disposta em trocar um livro que vale 250 por um de 10 replicando os sistemas da mail-art ou dos zines? Eu duvido muito... Mas entretanto arranjou uma solução que poderá ter interese de futuro: a Portuguese Small Press Yearbook, uma plataforma online de divulgação de edição independente que poderá ajudar a ter uma visão mais alargada da produção portuguesa, embora o acervo para consulta pública destes objectos continue a ser na Bedeteca de Lisboa - que finalmente começou a catalogar alguns destes "estranhos objectos".




O presente

Este ano, demos conta dos seguintes projectos de continuidade: O filme da minha vida (1 volume – António Gonçalves) pela Associação Ao Norte; Zona BD (2 volumes); É fartar Vilanagem! (1); Tertúlia BD’zine (12); BDJornal (1), Lodaçal Comix (3), Buraco (3) e um Efeméride (1).

As editoras que continuaram em actividade foram:
- Chili Com Carne com Mystery Park (livro de desenhos de André Ruivo), Inverno (Mesinha de Cabeceira #23, antologia de BD), O Hábito Faz O Monstro (de Lucas Almeida) e Love Hole (de Afonso Ferreira).
- El Pep – o já referido livro do Relvas e ainda Psicose de Miguel Costa Ferreira e João Sequeira;
- Firma: Circle Cycles Circuits de Dunja Jancovic;
- Oficina do Cego: Sarilhos (de André Lemos) e e o colectivo Faca Romba;
- Kinpin Books: O Baile de Nuno Duarte e Joana Afonso;
- MMMNNNNRRRRG: outro volume da série a AcontorcionistA, de Grupo Empíreo, Claim Against Fame (de Alexander Brener e Barbara Schurz), Mesinha de Cabeceira #24 (de vários artistas) e Inferno (de Marcel Ruijters);
- Polvo: Hän Solo de Lacas e Três Sombras de Cyril Pedrosa;
- Libri Impressi – o quarto e final volume da série Lance.

Regressaram às lides a Imprensa Canalha com Estátua Falsa, graphzine de Tiago Baptista e Sobrevida de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa; a Mundo Fantasma com Diário Rasgado de Marco Mendes e a Montesinos com VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL) de Pedro Moura e do grego Ilan Manouach; os zines Kzine e Funzip do Grupo Entropia; Cleópatra de Tiago Baptista – este último sob o selo Façam Fanzines Cuspam Martelos lançou outros títulos – e ainda o artista João Fonte Santa editou o zine Crianças Grandes brincam com brinquedos grandes.

As novidades deste ano foram: Death Grind e Doom Mountain de Zé Burnay, Drei abhandlungen zur sexual theorie (Dildo Doodles) de Ana Menezes, Magical Otaku (um número) de Rudolfo, Leopardo Surdo pela Stepping Stone, Enjôo da Invocação e Innermath / Megafauna de João Machado e André Pereira pelo Robô Independente e Clube do Inferno, Prosjektet Ragnarok de Tiago Araújo, Landing of the mothership de David Campos e saíram vários graphzines, dois títulos do ilustrador Esgar Acelerado e outros de vários outros artistas. É ainda digno de referência o Nicotina’zine que se dedica à Poesia mas incluiu nas suas páginas ilustração e um BDs do sueco Lars Sjunnesson e de João Chambel.

Manteve-se uma actividade mais ou menos normal, sólida e com novidades e regressos. Diria que foi um ano desde já positivo sobretudo porque tem solidificado um regresso à BD por uma nova geração com muito talento e vontade de fazer – e melhor ainda com capacidade de fazer – são eles: Afonso Ferreira, André Pereira, Rudolfo e Zé Burnay, verdadeiros "Chavalos do aPOPcalipse" nesta nossa sociedade de Anorexia, Smart Shops, Holiganismo e Cancro.

Os eventos especializados foram: Feira Laica (duas edições), Feira de Publicação Independente (duas edições, em Abril e Maio no Porto), Feira de Edição Independente (Novembro no Porto) e a Feira do Livro de Poesia e BD (desde Outubro todos os sábados em Lisboa). Sendo ainda possível encontrar em eventos de BD (MAB Invicta, Festival de Beja e BD Amadora), cinema (Fantasporto, Cinanima), Música (Rescaldo, SWR, MIA, Xjazz, Poetry Slam Sul) e em faculdades de artes com iniciativas como a Comunicar:Design (Caldas da Rainha) e a Books made friends (ESAD/ Matosinhos). A moda do “livro de artista” gerou os eventos O que um livro pode (Lisboa) e Pa/per View (Porto). De realçar o fim da Feira Laica após 8 anos de importante actividade.

A nível internacional é de se referir imediatamente o livro a solo de André Lemos produzido pelo atelier francês de serigrafia Cotoreich, Woofer Takeover Jubilee. De resto a participação de autores em publicações estrangeiras parece ter aligeirado, embora as Ediciones Valientes tenham feito um especial El Temerário com ilustração portuguesa. No espanhol zine Kovra aparecem Ricardo Martins e Rudolfo, na antologia sueca do Festival Alt Com, No Borders, está Marcos Farrajota e André Lemos; para o zine francês Gestro Club participa David Campos. Apesar de tudo a presença portuguesa em vários eventos internacionais não diminuiu, especialmente com a Associação Chili Com Carne a servir de embaixada para a produção nacional, tendo material representado em Fanzines! Festival (Mediateca Marguerite Duras, Paris), Festival Crack (Roma), Angoulême Fuck Off (França), Edita (Espanha), Libros Mutantes (Madrid), Tenderete (duas edições, em Valência), Maravilloso Encontronazo de Autoedicíon (Madrid), Festival de BD de Helsínquia e C.A.T.A. (Timisoara, Roménia). Com exposições esteve no Not Tex Not Mex (Denton, EUA), na loja Floating World Comics (Portland, EUA), Alt Com (Malmö, Suécia) e loja Prego (Brasil).

Por Portugal passaram vários autores estrangeiros com ligações a produção independente: ruGGGero (Itália) para realizar uma serigrafia com o atelier Mike Goes West, Kai Pfeiffer, Lars Henkel (ambos da Alemanha), Dominique Goblet, Olivier Deprez (ambos da Bélgica) no MAB, Dice Industries (Alemanha), Albert Foolmoon, Ar-Decó (ambos de França), Andrea Bruno (Itália), Dunja Jancovic (Croácia / EUA) na 20ª Feira Laica, Baudoin e Fabrice Neaud (ambos de França) na BD Amadora, a norte-americana residente na Europa Julliacks num evento promovido pelo espaço cultural Flausina; e na última Laica regressaram Dice Industries, Martin López Lam (Peru / Espanha) e Mattias Elftorp (Suécia) e estrearam-se o colectivo Tonto (Áustria), Zulo Azul (Espanha) e Marcel Ruijters (Holanda) que também estará no Porto para uma exposição na loja Mundo Fantasma no âmbito do livro Inferno lançado pela MMMNNNRRRG e a serigrafia pelo Mike Goes West.



O futuro

Têm-se discutido imenso na arena global sobre questões digitais dos livros, o que tem dado “megabytes” de discussão por todo o lado. O que se passa com os negócios do “visual e textual” é o mesmo que aconteceu com a música e a popularização da internet nos finais dos anos 90: assistimos à desmaterialização de objectos, ao aumento de capacidade de pesquisa e encontro de informação e de objectos, à multiplicação do espectro de gostos, escolhas e conhecimentos, à destruição dos elementos intermédios entre o produtor e o consumidor (editores, promotores, críticos), à participação activa na promoção e discussão de obras, ao financiamento de produção de obras pelos consumidores, à destruição de grandes estruturas físicas de divulgação cultural (cadeias de lojas), à hipótese de uma criação existir exclusivamente em digital e nunca ser editada em fisicamente, à hipótese de ficheiros serem multiplicados até ao infinito ou até ser gravados / impressos fisicamente com tecnologia caseira,… O que se tem passado nos últimos anos com o “livro” no meio da revolução digital são as reacções de macro-agentes em similar agonia como as editoras fonográficas nos últimos 15 anos: as guerras “amazónicas” e “googlinas” entre os virtuais e as lojas físicas e editores, o desfasamento das leis de direitos de autor perpetuadas por organizações anacrónicas como a nossa SPA, as discussões sobre o direito de empréstimos de ficheiros de “e-livros” nas bibliotecas públicas, os códigos de protecção DRM, etc…

Escrito assim até parece que o “mundo vai acabar” com esta revolução digital. É certo que há alguns tipos de livros que parecem ter um final certo no mundo físico. É o caso das enciclopédias e dicionários (que estão sempre actualizados algures na ‘net), os livros técnicos e científicos (também actualizados em digital e até com possibilidades de aplicações media que facilitem a compreensão para leigos), os periódicos e os “best sellers” pelo facto de serem produtos baratos (sendo que é indiferente para o consumidor que espécie de formato ou cópia que consegue arranjar desde que o leia o mais rápido possível enquanto é uma novidade)… Parece estranha esta combinação de “livros a desaparecer”, de um lado estão produtos eruditos e científicos e do outro produtos de consumo popular, “trashy” e “Pop” mas a questão digital passa por questões de formatos e não tanto pelos conteúdos. Daí que haja um grupo de livros que não terão uma desmaterialização (tão rápida?) como outros, é o caso dos livros de fotografia, design, arquitectura, desenho e… BD! Um exemplo mais simples de provar é que a pesquisa de referências visuais num livro não é feita da mesma forma como se procura uma palavra num texto (seja ele num ficheiro, num computador ou na internet) por mais se faça indexação. O formato de livro físico permite uma procura mais rápida e prática (manual) de uma imagem do que “folhear” num livro electrónico. O ecrã também não permite o mesmo usufruto das imagens – como acontece com os álbuns de arte que devido à sua dimensão conseguem transmitir uma maior força emotiva do que qualquer ecrã.

Talvez isto explique o interesse das grandes editoras pela BD nos últimos anos. Se por um lado deve-se ao facto da BD ter atingido uma idade madura de propostas de temas longe do simples entretenimento infanto-juvenil, creio que a outra parte passa pela necessidade de vivermos uma sociedade virada para a imagem, sendo necessário encontrar cada vez mais livros que sejam “visuais”. Em Portugal, este fenómeno pode-se verificar de uma forma mínima e recente com o interesse da Contraponto (uma editora fachada do grupo Bertrand) que editou o Persépolis de Marjane Satrapi e o Funhome de Alison Bechdel, livros aliás premiados e com sucesso de público há vários anos nos EUA, França, etc… Também é verdade que a BD servirá para alimentar as bolhas de investimento das grandes editoras que não poderão alimentar mais livros de Códigos Da Vinci, Vampiros, Anjos, Gatinhos e outras palermices. A BD está a ser a grande novidade editorial e que irá comer o bolo da produção nos próximos anos. Um sonho de muitos nós, amantes da BD, só que é pena é que as BDs que irão surgir serão tão fúteis como qualquer outro “best-seller” – basta consultar aquela parvalhona do cancro da mama editado pela Asa há dois anos atrás, por exemplo – nem todos podem ser profundos como o Joe Sacco ou como o Baudoin.

Entretanto, a defesa do formato físico do livro não vive do fascínio e da moda nostálgica que se assiste nos dias de hoje, do regresso às técnicas tradicionais de impressão (ou do livro de artista). Os pontos de defesa são conhecidos, os livros físicos (e especialmente impressos em serigrafia, gravura, tipografia, etc…) são mais tácteis, olfactivos, etc… ou seja mais sensoriais que os assépticos “tablets” e quejandos, para além de permitirem ter tamanhos e formatos extravagantes (inacreditavelmente minúsculos como o Pecaritchichi do João Bragança ou gigantescos como Sarilhos de André Lemos) condicionando as formas de leitura – algo que os “electrónicos” não podem fazer, ou se podem modificar a forma de leitura passa pela interactividade e pela navegação.

No caso da BD por ser intensamente visual e gráfica, a impressão e o design dos livros influenciam a leitura da obra, e por isso está neste grupo de livros difíceis de desaparecerem mesmo que os “webcomics” tenham começado a tornar-se um hábito de leitura e até de produção de qualidade como prova o actual “work-in-progress” Margem Sul de Pedro Brito, no sítio P3 do Público.

Encontramo-nos num ano em que muitos periódicos já acabaram ou anunciaram o final da sua versão física para entrarem exclusivamente na edição digital. Já se falam em “best sellers” digitais bem como histórias de fama e riqueza de autores publicados apenas em digital. Mas não podemos esquecer que a “literatura popular” pode ser lida tanto em edições “deluxe” como na mais reles reprodução fotocopiada / pirateada (como acontecia com o movimento “samizdat” nos tempos soviéticos da Rússia) porque são livros que vivem um momento de história/ histeria para serem esquecidos pouco depois. Há todo um grupo de “long runners” que parecem estar esquecidos nas eufóricas discussões sobre o “fim do livro”.

As quebras de vendas do mundo físico estão a forçar a uma redefinição das regras do mercado editorial, juntando à conjuntura económica de crise que se vive, têm-se assistido ao estreitar dos serviços criativos – cada vez menos e cada vez mais mal remunerados, serviços mais baratos de produzir, e consequentemente com menos qualidade... O que tem levado muitos artistas a procurarem na auto-edição ou a edição independente numa forma de preencher as suas necessidades artísticas e até económicas. Um exemplo, se vender uma ilustração a um jornal têm-se mostrado complicado e mal remunerado, alguns artistas perceberam que podem vender os seus desenhos em linha ou imprimirem múltiplos: serigrafias, gravuras, glicées, canecas, t-shirts, cuecas, e claro, livros ou zines em edições limitadas ou em sistema de “print on demand”. Também devido à crise económica, a compra de arte têm-se retraído e ao que parece os coleccionadores têm encontrado nos múltiplos (como os livros de artistas, cartazes, serigrafias) uma espécie de sucedâneo às peças artísticas originais (como telas). Toda esta combinação de factores tem mostrado um activismo sobre a publicação e o livro, fazendo surgir novos talentos ou regressar alguns velhos autores a trabalharem em objectos gráficos cada vez mais sofisticados e aliciantes, tal como aliás se pode verificar na 20ª Feira Laica (Jul’12) em que se sentia uma energia muito intensa no evento, nunca antes tão cheia de novidades e novos projectos editoriais – há quem diga que foi pelo facto de se ter quebrado com a tradicional residência na Bedeteca de Lisboa (que acontecia desde 2005) mas não acredito que tenha sido pela mudança do espaço físico apenas que aconteceu toda aquele entusiasmo que aliás, prolongou-se até à última e 21ª Feira Laica (Dez’12). Há um rejuvenescimento a acontecer na edição independente e na BD portuguesa em que a piada aos “Chavalos do aPOPcalipse” não é assim tão inconsequente como possam julgar à primeira…

Há luz neste anunciado apocalipse da revolução digital. O formato físico e a edição independente, combinados ou não, são opostos a todo este imediatismo tecnológico – mesmo que muitas vezes a produção de edições independentes venham de ânsias de publicação dos artistas e editores. Muitas vezes quando falo da MMMNNNRRRG costumo dizer que é uma editora "slow food", de livros que têm de ser degustados e não engolidos à alarve como a "fast food" que bem sabemos nos faz mal à saúde e destrói o planeta. Entre a McDonalds ou a Leya, entre a Nestlé e a Marvel, venha o Diabo e escolha.

Apesar da edição independente sofrer de um processo de promoção e comercialização lento e tortuoso, depois de se varrer o lixo, será ela a “vencedora da História”, como aliás sempre aconteceu no passado.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Não se pode ter tudo

Sta. Apolónia : EP II (DDJ; 2012)

É muito fixe conhecer pessoal da música ou outros criadores e saber que mais tarde ideias nossas influenciam os seus trabalhos, mesmo que os resultados não sejam de todo o que se previa -  e ainda bem, é por isso que se chamam de criadores...
O André Joaquim, mentor deste projecto, já falava há anos em editar uma k7 por causa de uma conversa nossa muito antiga de fazer algo "back to the roots" tipo Mesinha de Cabeceira com uma k7... Eis o segundo EP de temas de Sta. Apolónia editado numa gloriosa k7. Também lhe tinha dado a dica de como Sta. Apolónia era um projecto muito original e que deveria pegar nele à séria. Poisé,... ele pegou mas mudou completamente de som do projecto - a mudança té se topa logo pela capa do Mr. Esgar. No primeiro EP online gratuito via You Are Not Stealing Records,  o som era "drone surf" (existe tal género ou ele criou mesmo algo inédito?), neste segundo o registo caiu nos caminhos do Folk de guitarra acústica - nas linhas de Noberto Lobo ou Filho da Mãe - e muito longe de qualquer Garage / Surf / Rock de que estamos habituados de Joaquim, como os Dr. Frankenstein. Acompanha uma bateria e até um acordeão no tema Dia de la brujas - a lembrar vagamente algumas coisas dos argentinos/ franceses Radikal Satan. Dá a sensação que Sta. Apolónia é o "jardim de recreio" de Joaquim onde pode fazer as aproximações mais intimistas das suas criações e onde as conversas com amigos não influenciam em nada pelos vistos... Ainda bem por um lado mas é verdade que gostaria de ouvir mais Drone Surf, caramba!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Família Bifana

Na última Feira do Jeco, na troca de prendas "natalixo" com o Sr. Esgar Acelerado, eu dei-lhe um DVD de cowboys e ele um EP 7" em vinilo de uma banda que ele dizia que não havia nenhuma informação na 'net! Que tangas! Se há coisa que 'net infelizmente fez foi mapear 99,9% do mundo e da actividade cultural humana. O problema é antes perceber se a banda chama-se Família Carnage Asada ou apenas Carnage Asada - que parece que é a última, pelos vistos. Disco de 1997 pela Travisty Records (alguém da banda tinha de inventar um nome prá label, né?) soa a pós-Hardcore mais próximo de Oxbow ou Fugazi do que o Punk 4x4, devido aos ritmos lentos e riffagem Blues. Ao que parece a Cru ainda vende disto a 2 euros! É de aproveitar!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ccc@19ªfeira.laica.internacional

cartaz de Miguel Carneiro / Oficina Arara

A FEIRA LAICA INTERNACIONAL regressa ESTE MÊS aos Maus Hábitos (Porto) para mais um evento dedicado à EDIÇÃO INDEPENDENTE.
Marquem na agenda:
dia 16 / 23h: inauguração das exposições e concertos;
dia 17 / 14h-21h : Feira de Edição Independente / 23h: concertos
dia 18 / 14h-18h : Feira de Edição Independente / 19h : Festa de Despedida (Espaço Campanhã)
ENTRADA LIVRE (excepto concertos)
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Editores presentes: Ana Torrie + Inés Cóias, Associação Chili Com Carne, Billete de 500 (Galiza / Espanha), David Peneda, Edições Côdea + Mondega Records, Edições Mortas, Faca Monstro + Marvellous Tone + Soopa, Gajos da Mula + Oficina Arara, Grût (França), O Hábito Faz o Monstro, Imprensa Canalha + Opuntia Books, Invicta Indie Arts (representando Dame Darcy, Dodgem Logic e Libri Impressi), Infektion Magazine, Leote Records, Mariposa Azual + Mia Soave, Mike Goes West, Mr. Esgar Artprints, MMMNNNRRRG, Oficina do Cego, revista Pangrama, Plana Press, Põe-te Fino Edições, revista Prego (Brasil), Prensador, Ricardo Castro, Ruru Comix, revista Stripburger (Eslovénia) e Thisco.
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Algumas Novidades editoriais:
- Aceloria (Marvellous Tone), CD
- Algorythms (Marvellous Tone), k7 de Mo Junkie
- Aspiração Horrífica / Vacuum Horror (MMMNNNRRRG), livro de bd de Aaron Shunga (EUA);
- Futuro Primitivo (Chili Com Carne) "cartazes-remix" em serigrafia de Filipe Quaresma e Margarida Borges;
- Grût & Flude #2 : Road Trip (Grût), graphzine colectivo francês;
- Lodaçal Comix #4 + Lodaçal Comix Hórs Serie #1 (Ruru Comix), zines internacionais de bd;
- Prego #5 (Prego), zine brasileiro colectivo de bd;
- Presidente Drógado (Leote Records), CD-R com produção de Bernardo Devlin;
- Red Shoes, de Inês Cóias
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Exposições: A Dama e o Unicórnio, individual de pintura e desenho de Ana Menezes; Prego, colectiva da revista brasileira; e, Fresco, colectiva de ilustração de nova geração de ilustradores do Porto com participações de Paulo Catumba, João Drumond, Daniela Fardilha, Nicolau, Miguel Ministro, André Coelho, Carlitos, Sofia Palma, Mariana Pita e Diogo Rapazote.
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Concertos (acesso: 3 euros por noite): Sexta-feira : Cró!, Rudolfo, Çuta Kebab & Party /// Sábado : Presidente Drógado, Batatas Parvas (Nuno Moura + Ghuna X), Aceloria
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Convidados estrangeiros: Alex Vieira (Brasil), Elise Hallab (França), Kaja Avberšek (Eslovénia), Nan Vaz, Pelucas e Tayone (Galiza / Espanha).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Keep it boring, make it fast!

Com a web 0.2 e a revolução digital, a produção de informação aumentou que é coisa doida, numa escala inacreditável que não tem equivalente à explosão DIY do Punk nos anos 70 e décadas seguintes. Eis-nos numa Aldeia Global em que todos produzem e consomem conteúdos em simultâneo, sem pensamento crítico e moral - essa é feita pelos Padrecos da 'Net que nos tiram fotos de mamas (com ou sem cancro) do "fezesbook".
Há documentários de tudo, sobre queijo ou a vida sexual dos rinocerontes ou sobre o punk português como é o caso deste Bastardos: Trajetos do Punk português (1977-2014) produzido pelo projecto KISMIF. Todos acabam por ter o mesmo apelo e qualidade estética quando a máxima é "filma-se, edita-se, mete-se na 'net e tá feito".
É positivo que a informação apareça e no caso do punk português que vivia de obscuridade, é de salutar qualquer tipo de iniciativa. Só que ficamos por aqui no que diz a Bastardos, os agentes que se envolveram em fazer Punk sucedem em filmagens em locais feios e sem imaginação, a maior parte é do Norte (abaixo de Lisboa nem se fala!), com discurso fragmentado e pouca ou nenhuma documentação visual a ser mostrada. E quando mostrada é de forma tão fria que nem dá para perceber os artefactos. Ah! E sempre tudo centrado na música, como se o Punk se reduzisse a isso... Felizmente Joe Corré recentemente relembrou-nos que não, que a música não tinha nada haver com o Punk! Cheers, mate!
Este tipo de produção poderia vir de um amador, o que tudo lhe seria perdoado mas infelizmente este documentário veio do meio académico, onde deveria haver mais rigor e discurso, sobretudo de quem se está a tornar (em teoria, ó dupla ironia) na referência sobre o assunto. Nem o Sid Vicious era inocente nem o KISMIF o é. Entre pontos de avaliação pró CV e subsídios da praxe, o que vale é apenas fazer por fazer para que essa máquina de pontinhos e dinheiro não pare.
De resto, a edição em DVD (2015) com as chancelas da Chaosphere, Raging Planet e Zerowork é de uma pobreza atroz, em o que safa ainda é a capa do Esgar Acelerado (espero que tenha sido pago!) porque de resto é isso, uma rodela dentro de uma caixa de DVD. Pelo conteúdo ou pelo objecto o que se pode resumir é que Bastardos não é o "livro branco" do Punk português, é apenas uma marca branca.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

ccc@walk&punk



Temos livros nos Açores pelo Festival Walk & Talk (gracias Pedro Moura) e no Porto no KISMIF (gracias Esgar Acelerado)... não estaremos em nenhum dos eventos em pessoa, infelizmente.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

DIY DIY My Darling 2015


Tal como no ano passado mas desta vez num espaço central do Porto, com a preciosa co-produção da Chaputa Records e no âmbito das segundas conferências da KISMIF, lá estaremos de 13 a 17 de Julho no Edifício Montepio (queda do Capitalismo? pfff) com o melhor de que se produz neste canto europeu no que diz respeito a edição independente! E ainda haverá exposições de BD, ilustração e pintura de Esgar Acelerado, Rudolfo, Ondina Pires e outros mais!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

É vergonhoso!

E o fanzine Cru voltou com o número 34 para comemorar 20 anos de existência mesmo que tenha estado parado cerca de 13 anos - sendo o último número editado em 1999, e antes disso nem saiu o número 12! Que vergonha! Que ousadia!
É verdade que o mundo dos zines é feito desta alegre anarquia, de real gozo e descompromisso com as regras comerciais mas podia-se ser um bocado mais coerente e respeitável com este modo de vida que é a edição independente! Enfim... Podia-se suspeitar de um número verdadeiro "melting pot" de colaborações de velhadas como eu - Marcos Farrajota - e o Mr. Esgar (o patrão da coisa) com putos novos como o Rudolfo ou a Wasted Rita, gajos famosos como o Nuno Saraiva, valter hugo mãe ou Jorge Silva (ainda por cima com um texto sacado ao seu blogue) entre outros convidados especiais e/ou estrangeiros. No entanto, com um design exemplar e humor, o Cru consegue ser contemporâeno e modernaço sem ser reaccionário - o texto a gozar com os bostas dos She Wants Revenge é mesmo muito bom! - com tópicos pertinentes (por exemplo, o da pirataria) e outros menos mas sem dúvida divertidos como horóscopos, reviews e cartas de leitores falsificados. É mesmo uma publicação para se passar um bom tempo... coisa rara nos dias de hoje.

Temos dois exemplares para vender através do e-mail ccc@chilicomcarne.com - prioridade para sócios CCC

Outro regresso vergonhoso às lides dos fanzines é do artista João Fonte Santa! Porra ele fez zines nos finais dos anos 80 com o colectivo A Vaca Que Veio do Espaço e o último título que fez foi em 1993 a Besta Quadrada, de número único... Ainda por cima vem com aquela onda de "chapbook" (ou graphzine, tão em voga) com o seguinte título Crianças Grandes brincam com brinquedos grandes (Bombarda; 2012). Quem conhece o estilo gráfico e os conteúdos iconoclastas deste artista sabe o que irá apanhar nestas folhas A5. Santa ao "brincar" com a conjugação clássica de frases feitas com imagens da megalomania portuguesa (neo-liberal e corrupta) faz uma crítica à irracionalidade do capitalismo, sem no entanto deixar algumas palavras de esperança: «uma coisa boa nos edifícíos horríveis é que podem ser demolidos tão facilmente como os outros. melhor ainda quando os vemos a dobrar!».
A coisa custa 10 euros (com mais um poster e assinatura do autor) na tendência artística destas publicações de artistas. Com um preço assim não é realmente um fanzine...

pedidos para bombarda29@gmail.com

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Roteiro breve da banda desenhada em Portugal

Carlos Pessoa
CTT; 2005

- Porque é que a galinha maoista atravessou a estrada?
- Para fazer Mao Mao!

Portugal gosta de gastar dinheiro com projectos cheios de boas intenções mas sempre concretizados por criancinhas. O que raios vêm esta edição (bem feitinha apesar de alguma paginação kitsch) vem trazer de novo em relação aos "Comics em Portugal" (Cadernos da Bedeteca, Bedeteca de Lisboa e Cotovia; 1997) ou a "Das conferências do Casino à Filosofia de Ponta" (Bedeteca de Lisboa; 2000)? Nada excepto duas coisas, uma aproximação ao público dada à distribuição nos infinitos balcões dos CTT aliada à tiragem de 7000 exemplares, e uma síntese generalizada da história da bd portuguesa (cujo o património está ao maior nível europeu!) em texto "light"/rapidinha (o que não é mau propriamente dito). Então onde falha? Basicamente na capacidade de Carlos Pessoa de ignorar os tempos contemporâneos com uma tal displicência que seria imediatamente expulso do Comité se ele fosse maoista... e claro aliado ao Leonardo de Sá, um psicopata bedófilo que insiste em aparecer com o nome assinado "De Sá" (sim o "d" maiúsculo no "de"), só podia sair um registo que elimina nomes como André Lemos, Isabel Carvalho, Pedro Nora, David Soares, Marte (a série Loverboy é referida mas o criador/argumentista não é referido), Pepedelrey, Janus, Richard Câmara, Esgar Acelerado, Rui Ricardo, etc... nem o Mesinha de Cabeceira (o único zine que é editado há mais de 10 anos e que ainda existe!)... talvez num plano institucional e "clean" (como é o caso) a maioria destes nomes não merecem entrar só que para um "roteiro", onde este livro podia se distanciar dos outros já referidos seria precisamente na observação do que se passa nos dias de hoje ou o que se passou nos últimos 10 anos.
Reaccionário? Burrice? Ignorância? Incapacidade de "ler" as novas gerações? São hipóteses viáveis para definir o perfil de Carlos Pessoa. Só podemos esperar pela sua reforma ou morte (natural ou acidental) para que o Público (e outras instituições que não sabem com quem estão a trabalhar) fique saneado deste tipo de gente para dar lugar à nova geração de críticos e investigadores de bd.
Por fim, é giro inventar um sub-título como "Da Picaresca Viagem à Pior Banda do Mundo" (soa a qualquer coisa, não é?) que só se encontra timidamente na ficha técnica. Covardia será outra característica da pessoa do Carlos? Ou do De (com D grande!) Sá?

- Mao Mao!

2,5

quinta-feira, 1 de maio de 2003

El panorama del cómic portugués: Portugal paradójico

A pesar de que la historia de la "banda desenhada" portuguesa se remonta al genio insoslayable de Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905), lo cierto es que, pasadas épocas doradas, se llega a los años 80 y 90 del siglo XX sin mercado ni industria en el cómic. Sólo desde el año pasado se ha empezado a hablar de mercado con la inesperada explosión editorial ocurrida.

¿Y saben qué más?
Si bien no contamos con industria ni con mercado, sí que tenemos un panorama del cómic, aunque pequeño, bastante rico en obras y autores. Diría que, gracias a la insuficiencia de estructuras, cada autor acaba por encontrar sus caminos individuales y únicos. Hay en la historieta portuguesa una primacía del trabajo de autor más que del trabajo industrial como el francés o el norteamericano.

Nada tienen en común Nuno Saraiva, Ana Cortesão, David Soares, Pedro Nora, João Fazenda, José Carlos Fernandes, André Carrilho, Pedro Brito, Isabel Carvalho, Horácio, Janus, Luis Lázaro, António Jorge Gonçalves, Miguel Rocha, João Chambel, Filipe Abranches, etc...

Fijándonos solamente en los tres primeros, nos daremos cuenta de la esquizofrenia de la producción portuguesa: ambos se formaron en la "escuela" de los fanzines, pero fueron por caminos completamente opuestos. Nuno Saraiva, influenciado por una "línea clara" europea, comenzó en la prensa y allí se quedó, creando una vasta obra de humor, de calidad impresionante. Su bibliografía es una (re)publicación en álbum de los cómics que salieron en los periódicos. Ana Cortesão producía para fanzines y prozines (¡los editores la fastidiaban mucho, por lo que parece!); fue autora de las historietas más críticas con la sociedad portuguesa, apoyada por un grafismo deudor del underground norteamericano. Esos (pocos) cómics fueron recopilados en el álbum A minha vida é um esgoto (BaleiAzul, Bedeteca de Lisboa; 1999), y a partir de ahí no hizo nada más, debido al trabajo y a la familia, exceptuando algún que otro proyecto institucional. David Soares creó su propia editorial, Círculo de Abuso; controla su propio destino con un ritmo de trabajo intenso, en el género de terror, publicando un libro por año. La producción de cómics para David está pensada directamente para la publicación en libro. Son sólo tres ejemplos reveladores de la riqueza de propuestas que hay en Portugal, y puedo garantizar que los otros autores enunciados más arriba también son, todos ellos, casos con talento y con rumbos completamente diferentes.

La "nova BD portuguesa": ¿cómo ocurrió?
Durante años, hubo una tiranía en Portugal - una más, después de la Inquisición y del "Estado Novo" -, la de dos monstruos editoriales que dominaban el mercado: Asa y Meribérica/Liber. La primera editaba a autores portugueses (venidos de los años 40/50/60), pero cuyos trabajos trataban asuntos históricos y/o pedagógicos, dando resultados de lo más retrógrado posible formalmente, y muchas veces reaccionario en los contenidos. El segundo sólo editaba material europeo del tipo de Astérix, Lucky Luke, y también Hugo Pratt, Moebius, Bilal y muchos otros. Y, claro, había fanzines con cierta furia y sobre todo con la voluntad (inevitable) de abordar la historieta de otra forma; sólo que carecían de voz y no sabían cómo conquistarla. Hubo dos importantes "terapeutas del habla": el Salão Internacional de BD do Porto y la Bedeteca de Lisboa.

El primero fue importante para mostrar a esos talentos de los años 90 otras formas de hacer cómic y sobre todo otra lógica de producción, la independiente. El Salão de Oporto, a partir de su edición de 1993, apostó por una programación diferente de la lógica de mercado, mostrando por primera vez en Portugal el trabajo de editoriales alternativas norteamericanas como Fantagraphics Books o Drawn & Quarterly y trayendo autores como Roberta Gregory, Joe Sacco, Colin Upton, Julie Doucet, Chester Brown, Joe Matt, Adrian Tomine, Seth... Ciertamente, autores como Rui Ricardo, Pedro Brito e Isabel Carvalho, entre otros, quedaron fascinados con todo lo que pasaba en el Salão y aprendieron de qué forma(s) podían abordar los temas deseados y, más importante aun, descubrieron que se podían publicar en otros formatos diferentes a los estandarizados álbumes lujosos de 44 páginas en color (creados por el mercado franco-belga), que eran casi la única edición de cómics que los portugueses conocían.

La Bedeteca fue creada por el ayuntamiento de Lisboa en 1996, y ha venido siendo más que una simple biblioteca especializada en cómic e ilustración. João Paulo Cotrim, el director de este verdadero centro cultural del cómic entre 1996 y 2002, supo rejuvenecer con inteligencia y sensibilidad la historieta portuguesa. ¡Lo revolucionó todo! Mostró exposiciones con buen trabajo de producción y comisariado, apoyó la edición de autores portugueses, publicó trabajos de investigación, creó un festival de cómic e ilustración de nuevas tendencias (el Salão Lisboa), publicó a nuevos autores (en la colección Lx Comics), recordó a la memoria nacional importantes obras perdidas en los periódicos (reeditando esas obras en la colección Bedeteca, como el caso de Ana Cortesão, antes referido) y promovió el cómic fuera y dentro del país. Lo cierto es que la Bedeteca no sólo dio difusión en los medios a la historieta (tal y como hace anualmente el Festival de BD da Amadora) sino que sobre todo la trató con dignidad y profesionalidad, como nunca antes se había visto. Supo crear un clima de optimismo.

Este optimismo y una generación emergente de autores que creían en la edición independiente se cruzaron y, después de años de penuria y desinterés, volvió a haber edición nacional de autores portugueses (lejos del fantasma de la temática histórica) en pequeñas editoriales como BaleiAzul, Associação Chili Com Carne, Polvo, Círculo de Abuso, MMMNNNRRRG, Witloof, Nova Comix e Íman.

Algunos éxitos!
En un país con serios problemas de analfabetismo y lectura (por ejemplo: más del 60% de los portugueses afirma leer sólo un libro por año) y un frágil mercado del libro (por ejemplo: el 70% de las ventas se produce en Lisboa y Oporto), está claro que no basta una "moda" para crear una seria profesionalización de los autores y de los otros agentes económicos relacionados. El paso de un desierto a un oasis no significa la creación de una nación amante de los cómics. Mucho trabajo está aún siendo desarrollado por todos, y poco a poco se ha llegado a algunos (pequeños) éxitos.

Es el caso de Mr. Burroughs (Círculo de Abuso; 2000), de David Soares y Pedro Nora, o de la serie A pior banda do mundo (Devir; 2002), de José Carlos Fernandes. Mr. Burroughs fue una pequeña bomba que cayó en 2000. Sin que nadie lo esperase, es publicado el segundo libro por Círculo de Abuso - una micro-empresa del autor David Soares -, que se revela como una obra madura. Bien escrita y brillantemente ilustrada, probó que sería imposible ignorar el trabajo que las pequeñas editoriales estaban haciendo y lo que autores nacionales podían producir cualitativamente, sin ningún tipo de vergüenza con respecto a los extranjeros. No fue la única obra en este ciclo, pero fue la que más despertó la atención, incluso de la editorial belga Fréon (ahora Frémok), que prometió editar la obra en el mercado francés en breve.

Y tal vez sea eso lo que la BD portuguesa precisa hacer: capitalizar sus obras en la exportación, pues una edición nacional nunca podrá pagar el trabajo de los autores.

Si la internacionalización de Mr. Burroughs fue accidental (y sigue siéndolo, ya que ha venido siendo retrasada desde hace más de un año), la de A pior banda do mundo fue ya pensada (y arriesgada) por la editorial Devir. Devir es una empresa creada en Brasil, dedicada a los juegos de rol, que se expandió hacia Portugal y España. Comenzaron a editar cómic, cada filial con su propia planificación: en Brasil, con los "clásicos-modernos" Chiclete Com Banana; en Portugal, con el material de la Marvel. Hasta que, en 2002, la Devir portuguesa, en conjunto con las otras filiales, decidió agrandar su oferta en el (los) mercado(s) con otros materiales, como álbumes europeos y revistas de cómic (Comix, Metal Hurlant), y con autores portugueses. Por lo que parece, la primera apuesta de editar a José Carlos Fernandes, un autor con una capacidad de trabajo colosal, fue ganada, por lo menos en España, con la primera edición agotada y las buenas críticas en varias publicaciones, especializadas o no - La Guía Del Comic consideró La peor banda del mundo como la tercera mejor obra extranjera publicada en 2002.

Debido a la profesionalidad ejemplar de la editorial, y obviamente a su economía de escala, más ediciones de autores portugueses vendrán en los próximos tiempos, con un álbum de Diniz Conefrey ya previsto para la próxima edición del Saló de Barcelona, y los restantes libros de La peor banda del mundo.

2002, el "Big Bang"
Hay una euforia en el aire. Extraña y compleja. 2002, año de todas las crisis económicas, año en que João Paulo Cotrim salió de la Bedeteca de Lisboa, año en que no hubo Salão Lisboa, año en que acabaron con las Becas de Creación Literaria otorgadas por el Ministério da Cultura - A pior banda... fue un resultado de esas becas-, en que se esperaba lo peor, fue sin embargo un año de boom editorial, con nuevas editoriales de cómic (Booktree, Mais BD) o editoriales que retomaron el cómic, como Asa.

Claro que el 90% de las ediciones fueron de material extranjero, norteamericano (por Devir) y europeo (por Vitamina BD, Asa, Meribérica/Liber, Witloof, Booktree, Mais BD, etc.), en buena parte trash, pero también con buenas obras: Peter Pan, de Loisel; Dr. Jeckyll & Mr. Hyde, de Kramsky y Mattotti; Isaac, el pirata, de Blain; Mister O, de Lewis Trondheim...

Queda saber cómo se van a mover los autores en este nuevo espacio, de por sí poco sólido: a fin de cuentas, después de una expansión se espera una recesión, y la económica ya está ahí desde hace muchos años. Además de que no sabemos qué significa todo esto en relación con la creatividad. Veremos.

Y para acabar...
Dejo cuatro nombres de nuevos autores, casi inexistentes para el ojo público incluso en Portugal pero que podrán ser los nuevos talentos emergentes en una escena esquizoide como la nuestra.

Paulo Amorim, publicado en un número de la colección Lx Comics, tiene un dibujo y una poesía que recuerdan ligeramente al francés Baudoin. Hace cómic de forma ocasional, cuando no tiene clases y exámenes en el curso superior de Matemáticas. Sé que continúa produciendo cómics sin pensar en la edición. Su trabajo, demasiado libre de pensamientos editoriales, lo convierte en un caso de difícil publicación. Será una pena si nadie apuesta por él.

Richard Câmara es un autor obnubilado por el poder del OuBaPo (Ouvroir de Bande Dessinée Potentielle, la revista de la francesa L'Association cuyo objetivo es explorar las potencialidades del lenguaje del cómic). Ya participó en la antología internacional Mutate & Survive (Associação Chili Com Carne; 2001) y en la revista Quadrado nº 4 (ASIBDP, Bedeteca de Lisboa; 2002), y tendrá cerca de tres (!) libros lanzados este año. Será una de las apuestas del Salão Lisboa 2003, que se realizará en mayo.

Francisco Lobo es un finalista del curso de cómic de la Ar.Co., una escuela no oficial que es la única con un curso de cómic e ilustración. Además de estar trabajando en un proyecto de fin de curso, prepara también un número de Lx Comics -quién sabe, ¿para conmemorar los 5 años de la colección?-, que será una agradable sorpresa por rigor técnico y sensibilidad narrativa.

Francisco Vidal, con un estilo de dibujo próximo al de los graffiti, edita su fanzine, Bacteria, y ha participado en otros. Su formación en escultura quizá lo lleve a participar en proyectos diferentes de lo habitual: Gritante (fanzine multimedia, en que el cómic de Francisco estaba acompañado por un CD audio que permitía oír los diálogos, textos y efectos sonoros de la historieta) o el XS (cómic en una vajilla de cerámica).

Sitios Web

Informativos:
www.bedeteca.com, de la Bedeteca de Lisboa; tiene varios servicios: la "Tebeoteca Ideal", resumen de recortes de prensa, noticias, dossier de evaluación anual, etc., siempre actualizado.
www.centralcomics.com, sitio informativo a cargo de un grupo de aficionados. Esencialmente informativo, siempre actualizado.

Autores:
www.virose.pt/alingua, del colectivo A Língua (Isabel Carvalho y Pedro Nora).
www.artvortex.org, del colectivo Art Vortex (Esgar Acelerado y Rui Ricardo).
www.andrecarrilho.com, del autor André Carrilho, más (re)conocido como ilustrador y caricaturista.

Editoriales:
www.chilicomcarne.com, de la Associação Chili Com Carne.
www.devir.pt, de la editorial Devir.
www.gentebruta.pt.vu, de la editorial MMMNNNRRRG, que además tiene el archivo de My Precious Things, una newsletter electrónica sobre ediciones independientes (fanzines, libros, CDs) escrita por este vuestro humilde escriba -con disculpas por la publicidad-.
www.mundofantasma.com/maisbd, de la editorial Mais BD.

Tiendas:
www.drkartoon.com, de la tienda Dr. Kartoon (Coimbra).
www.mundofantasma.com, de la tienda Mundo Fantasma (Oporto), que incluye secciones de noticias.

Traducción del portugués: Henrique Torreiro.

Copyright: © 2003 La Guia del Comic; Marcos Farrajota
Texto publicado no La Guia del Comic