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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ccc@Feira.do.Jeco.3



Lá fomos ao Porto à terceira edição da Feira do Jeco que foi nos Maus Hábitos (MH) como têm sido habitual no Porto quando há este tipo de eventos - algumas Feiras Laicas, a festa dos 10 anos da MMMNNNRRRG e o próprio Jeco - mas ao contrário dos eventos passados, desta vez este estabelecimento não passou muito cartão à coisa, e mesmo com os seus problemas de público que sofre há muitos anos (com as mudanças das movidas noturnas da cidade), os MH mandaram o Jeco prós corredores do fundo com pouco espaço para tantos produtos dos poucos editores presentes. Poucos mas bons, a julgar pelas três novidades que trouxe de lá, já lá iremos.

É verdade que o Jeco não trouxe muito público mas ainda assim no salão principal dos MH pelo que vi durante toda a tarde de Sábado tiveram três ou quatro pessoas a comerem tostinhas e pouco mais. É bem capaz que o consumo teria sido maior se os próprios editores tivessem ficado nesse salão. Mais uma oportunidade perdida de fazer um evento de edição independente de forma decente numa cidade que ao contrário de Lisboa (graças à Laica de 2004 a 2012) ainda não soube criar uma fidelização de público, habituado a seguir o evento para onde quer que fosse, não tendo o Jeco de ficar com medo de arriscar em plantar-se em espaços menos centrais da cidade. O Jeco demorou tempo a fazer a sua segunda edição (foi em Setembro deste ano) mas pelo menos está no terreno a fazer o que mais ninguém faz, um encontro de editores independentes de forma desinteressada para editores e artistas que precisam destes eventos para divulgar e comercializar o seu trabalho. Que a organização não desista e procure espaços que sejam mais honestos com este tipo de movimentos.

There are only seven stories in the world é o primeiro zine de BD que o Panda Gordo edita - poisé nunca falei desta editora do João Sobral, sorry! Aliás, ele próprio estreia-se como autor de BD nesta publicação que pega num conceito de Arthur Quiller-Couch que afirma haver sete tipos de enredos de histórias. Cada um destes "tipos" são dados a sete autores de BD e/ou ilustradores para explorar, além de Sobral, temos Bárbara Fonseca (que participou no Destruição), Diogo Bessa (talvez o trabalho mais impressionate da antologia), Zé Cardoso, Sofia Palma, João Drumond e Amanda Baeza - com o trabalho mais conseguido do livro. Impresso a papel brilhante que não gosto, cantos redondos, redigido em inglês, eis uma bela surpresa para acabar bem o ano. Parabéns!



Ainda trouxe duas k7's de música electrónica: IV de AtilA pela Bisnaga e Challenger Two pela Marvellous Tone, dois projectos que se separam à nascença. Se ambos partilham as batidas de Hip Hop e Techno para criar "illbients", o primeiro rapidamente leva-nos para várias dimensões sobrenaturais como se fosse possível juntar Juno Reactor com Burzum, casamento inesperado mas que resulta neste excitante trabalho. Já Challenger leva-nos para o dubstep narcótico e sons espaciais, em má-onda cósmica e beats assertivos, um imaginário que me fascina menos porque sei que não só nunca irei visitar Marte como ainda por cima irei apodrecer no meio de vocês todos. Qual deles o mais Dark realmente?

PS
Por fim, ainda arranjei na banca do Cru um single de 1997 dos Familia Carnage Asada que nem sei o que dizer sobre o disco...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Eu não quero ver o Porto a arder!


Foi um fim-de-semana brutal no Porto a da Feira do Jeco... Ainda estou a recuperar da cidade que têm mais arte por metro quadrado e a melhor música do país - bastou o concerto de HHY & The Macumbas na noite de Sábado para perceber isso.  Finalmente  consegui ouvir / ler as edições que trouxe de lá depois de tanta animação e festa como se pode ver pelas fotos tiradas pelo Ghuna X. Só o Jeco é que não entrou...

Para uma feira tão pequena teve até muitas novidades editoriais, alguns lançamentos ou pelo menos resumiu bem a cena independente do momento com especial enfoque no Norte, claro. Começamos pelos mais velhos, já lá vão quatro números da «revista de poesia» Piolho (Ed. Mortas + Black Sun; Mai'10-Mar'11) que na realidade é um fanzine fotocopiado A5 que ou sofre de falta de modéstia ou não quer criar ruído de comunicação à população (quantos sabem o que é um fanzine?). É uma reacção à ausência de publicações que publiquem poesia - género literário desdenhado pelo mercado - em que assume o papel da falência da Poesia sem pejo ao publicar num formato económico. Atitude lógica, o contrário seria o "zero" ou o "fim". Não sendo eu fã de Poesia é-me difícil considerar sobre os trabalhos publicados mas uma coisa é certa, sente-se energia por aqui!

Já é chavão que "a revolução não ser passada na televisão" - o que não é bem verdade, vide a "Primavera dos Países Árabes" - mas se dependermos de publicações como a EVUSP (Las Cucarachas) que no segundo número (Jan'11) é o mais certo que "Revolução vai passar nas revistas de novas tendências" de tão "clean" e "design" que é. Este zine é todo ele "esquerda" - contra o Capitalismo selvagem, contra a alienação,... - mas é tão "fashion" a nível de aspecto gráfico e sonoro - ah! sim, é acompanhado por um CD de "spoken-work" e poesia musicada - que acaba por nada trazer de novo para qualquer mente sabida. No fundo, tal como milhares de bandas de Death Metal ou de Hip Hop, é mais um grito de revolta mas que nada altera o estado das coisas. E eles próprios sabem o que está mal quando Chullage (muito à Saul Williams) diz/ escreve «não só pensamos com computadores, também pensamos como computadores». Exacto, esta "Expansão Violenta de Um Sentimento ou Paixão" precisa de carne, ossos, nervos, vómito, tudo ao natural sem corantes e conservantes, PVC, PC e mp3. No fundo, sendo este colectivo capaz de se esforçar para um objectivo comum - uma publicação que junta ilustração, poesia/literatura e som, e dentro do género (qual?) com pernas para andar - deveria era partir cabeça de como se parte o sistema. Invés de poesia revolucionária preferia saber se é possível arranjar um advogado que conseguisse acabar com os outdoors nas ruas, por exemplo. Ou que fizessem um workshop com putos para danificar cartazes publicitários. Isso sim seria um soco na besta capitalista!

O Rey fez o melhor vídeo de Hip Hop de sempre... mas também o álbum que mais me desiludiu... A sua estreia com Sua Alteza o Vagabundo (ed. de autor; 2011) é um álbum de Hip Hop igual a cem álbuns de Hip Hop Tuga (percebo agora o que o Ex-Peão queria dizer com isso). Talvez algumas frases sejam mais fortes mas o "blá-blá-blá" autofágico e paranoíco é de sempre - pergunto, mas quem são os gajos xungas da cena? porque têm eles tanta importância para estarem sempre a ser denunciados mas sem nomes explícitos? -, uma faixa com vozinha de ir ao cu R'n'B, uma falta de coragem em sair do normalizado beat (já para não falar das orquestrações dramáticas xungas ou a guitarra acústica "sensível"),... Inexplicável! Um tipo que faz o vídeo mais antagónico aos clichés do Hip Hop acaba por não conseguir sair da caixa. Só há "bring da noize" em Rua, verdadeiro hino ao graffiti, que chega às formas sonoras mais contemporâneas, que dá o power e o groove que as palavras de Rey precisam. Correm rumores sobre a participação do Rey com o Ghuna X talvez aí finalmente teremos algo "dread" à séria tal como o Ghuna conseguiu traduzir a M7 em algo decente. Já agora, ela e a Capicua, são as Sygyzy, dupla feminina que participam neste disco, e tal como Rey, apesar das letras cortantes não conseguem fugir às palas do Hip Hop convencional. Parece que há muito que o Hip Hop falha como linguagem plástica, o que não é de admirar, nascida quase ao mesmo tempo do Punk e do Industrial, ambas há muito que se tornaram caricaturas de si mesmo (Eminem, Rammstein ou Green Day). Viva o Breakcore!

E por falar nisso... o Rudolfo têm novo álbum! Só os panilas ainda não compraram esta joia de 8(hate)bit nacional, intitulado Vampiro do Gueto que apresenta um Rudolfo que já não tem 17 anos a dizer xixi cócó mas um rapazola a mudar a voz e a escrever letras semiópticas. A estupidez da juventude continua mas está em metamorfose, as borbulhas desapareceram mas nada indica que vai sair daqui uma borboleta. As letras parecem mais Dark (Teen Angst?) e correm o risco de ficarem "intelectuais", o que não é um problema mas o Rudolfo já não é Rudolfo. Já é o Rudeman ou o Rudolfão. A mudança ainda não é total porque ainda há aqui muitas músicas muito parvas, divertidas, "nerds" e porcas como Poder Lunar, que fala da série de anime Sailor Moon. Todos irão desejar que o Rudolfo fosse conservado em formol e que não crescesse mas infelizmente não é o que vai acontecer. Seria fixe ele arranjar um puto, em jeito de franchising, que fizesse de Rudolfo-de-há-um-ano para continuarmos a ter acesso a esse Rudolfo que já não existe - se os Devo fizeram isso porque não pode fazer o Rudolfo? Os valores de produção sonora elevaram - está mais clean, sem dúvida - enquanto os da embalagem mantêm-se grandes como sempre - quase pensamos que estamos a comprar um single em vinilo no primeiro contacto com o objecto.

Vale a pena ouvir este puto que já 'tá na universidade! Até porque isso não o impede de ser um hiper-activo na cena underground, quer na música quer na bd. Ainda há poucas semanas lançou o primeiro número do zine Lodaçal (Rurucomix). Iniciativa de se louvar que pretende ser uma antologia trimestral de bd. Em 36 páginas A5 reúne um misto de autores novos (Natália Andrade, Maré Odomo), novos mas activos (o próprio Rudolfo, Afonso Ferreira, Tiago Araújo), uns velhotes (Marco Mendes, Christina Casnellie,...) e o Ricardo Martins que não sei em que saco colocá-lo - porque raramente saí trabalho dele cá para fora, e que aqui participa com uma bd toda bem feitinha e isso tudo. É uma mistura estranha mas que mostra um panorama diversificado de estilos e de vontades. Estaremos perante um "great comix zine revival" com iniciativas tão sincopadas como alguns títulos do ínicio de milénio? Espero bem que sim! Próximo número já está programado para Junho!

Outra novidade do Jeco, uma recuperação de baú industrial, cortesia chifruda, de um split'CD-R de Derrame Sanguíneo e Sektor 304 cujas primeiras 50 cópias contem um fanzine de 20 paginas com textos de André Coelho e Gustavo Costa, assim como artwork exclusivo de Coelho e uma capa serigrafada nas Oficinas Arara. «Derrame Sanguíneo foi um projecto de Gustavo Costa (infame baterista de diversos projectos como Motornoise, Most People Have Been Trained To Be Bored or Lost Gorbachves) e Iur, um visionário / doido devoto ao Industrial. As faixas apresentadas neste projecto são as únicas gravações deste projecto e são um bom exemplo do Industrial feito em Portugal durante o final dos anos 90 e inícios do século XXI. Industrial do virar do século, repleto de vocalizações ásperas, palavras duras e batidas programadas odiosas.
A segunda metade deste split pertence a Sektor 304, um projecto bem mais recente que apresenta aqui 3 faixas exclusivas dos seus inícios, incluindo uma remistura da única gravação de Intonarumori, a banda imediatamente anterior a Sektor que continha nas suas fileiras membros como Tshueda (ex-Hospital Psiquiátrico) e J.A. (Wolfskin, Karnnos). Sucata, batidas tribais e ruído.» Press-realease dixit. E diz muito bem, ao ouvir estas peças do passado vamos mesmo de máquina do tempo para sons de "junk" a sério, imaginário Dark, sem tampões nos ouvidos... nada a declarar! Já agora podiam reeditar as gravações de Hospital Psiquiátrico que também merecem uma edição tão ilustre como esta!

Por fim, saiu mais um baralho de cartas de Ricardo Castro, Monstruário, continuando a adaptação de Maldoror. As minhas dúvidas persistem em relação ao projecto e à obra literária. O que posso dizer é que gostei mais deste baralho porque o desenho é mais desenho orgánico e menos "design". Acho que está muito melhor...

sábado, 28 de setembro de 2013

Feira do Jeco 2ª Edição

Vai realizar-se no Porto mais uma edição da Feira do Jeco (uma feira dedicada à edição independente), desta feita no Passeio das Virtudes e inserida nas comemorações dos 50 Anos da Árvore, que ali se localiza.

A Feira acontece ao ar livre durante os dias 28 e 29 de Setembro (sábado e domingo).

Detalhes, programa e Editores presentes aqui ou aqui.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Boring Europa ::: últimos 12 kilometros, digo, exemplares!!!

 

primeiro volume nova colecção da Chili Com Carne, LowCCCost, dedicada a livros de viagens
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de Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins 
e Sílvia Rodrigues


em Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França
8000 km / 15 dias


sobre a tour europeia da Chili Com Carne realizada entre 1 e 15 de Setembro 2010 nas cidades de Valência, Bolonha, Ljubjana, Pancevo, Graz, Berlim, Poitiers e Vigo.


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participações especiais de Karol Pyrcik, Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Simon Vuckovic, Vuk Palibrk, Christina Casnellie, Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz, e ainda com Gasper Rus, David Krancan, Matej de Cecco, Matej Lavrencic, Katie Woznicki, Letac, Boris Stanic e Johana Marcade nas comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo.


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banda sonora gratuita em linha: "A Grande Explosão" de Ghuna X via Phonotactics


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128 p. 23 x 16,5 cm impressas a azul escuro, capa impressa a branco sobre cartolina Dali bluemarine 285 gr com badanas; ISBN: 978-989-8363-11-4

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últimos exemplares à venda no sítio da CCCFábrica Features, Matéria Prima, ZDB e Mundo Fantasma.

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sobre o livro: a tournê europeia Spreading Chili Com Carne Sauce in Boring Europa tinha como objectivo principal divulgar o trabalho da Associação e dos seus artistas. Até pode parecer um acto desesperado de querer mostrar "à força" o nosso trabalho mas, desde sempre, a CCC trabalhou com projectos e autores estrangeiros – Mutate & Survive, Mike Diana, Greetings from Cartoonia, MASSIVE, Festival Crack, etc... O problema é que quase nunca vemos estes nossos amigos, dada a solidão imposta pela nossa posição periférica. Fomos dizer "olá" ao pessoal amigo! E aos que só comunicávamos por correio! E, claro, conhecer malta nova! Fomos percorrer 8000 Km de Europa em 15 dias oferecendo um pacote completo de cultura underground portuguesa a quem nos recebesse: concertos de R- e Ghuna X, festa animada com o unDJ MMMNNNRRRG, exposição de impressões e serigrafias, e, claro, uma enorme selecção de zines, livros e discos independentes. Em troca queríamos apenas simples alojamento, comida (se fosse possível à organização) e dinheiro das entradas para os espectáculos. Se os punks e metaleiros fazem isto porque não podemos fazer a mesma coisa com livros? Get in the van!


Decidimos chamar a coisa de boring, pelo sim pelo não, porque vivemos numa uniformização cultural capitalista à escala global - como tão bem ironiza Jakob Klemencic algures no livro - em que as identidades nacionais ficaram reduzidas a meia dúzia de artefactos rurais e rituais anacrónicos prontos para serem vampirizados pelos comportamentos fotográficos dos “turistas = terroristas”.


Desde o início pensámos que só podia ser bom editar um livro com os desenhos dos viajantes - um relato on the road das pessoas com quem nos cruzámos, das cidades e dos países que visitámos, etc... Era impossível de falhar: seis pessoas a desenhar, seis livros de esboços fundidos num livro "oficial". Pura ingenuidade! A excitação de conduzir, o esforço físico de alguns trajectos, a desistência da Sílvia Rodrigues, logo ao terceiro dia, e a falta de confiança em desenhar da maior parte dos participantes deixou-nos apenas com UM caderno de esboços da Ana Ribeiro. Todas as outras participações tiveram de ser feitas à posteriori, complicando com os prazos pessoais e profissionais de quem gozou estas férias diferentes. Juntámos textos, BDs, desenhos “acabados” bem como “esboços” da Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins e Sílvia Rodrigues; e bds de autores estrangeiros que relatam a recepção da nossa “caravana” - Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Vuk Palibrk e Christina Casnellie. Outros cederam-nos desenhos ou bds sobre viagens para enriquecer esta edição - Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz. Compilámos as melhores BDs-cadáver-esquisitos ou comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo - são bds feitas numa sessão com várias pessoas em que cada um desenha uma vinheta continuando o trabalho dos anteriores perdendo-se sempre o controlo do avanço da “estória”.
Em "Lissabon", a Karol Pyrcik ficou a tomar conta das gatas do Marcos e da Joana, e a fazer um diário gráfico sobre a sua estadia, contrapondo as nossas visões, mas fez batota e produziu umas divertidas ilustrações sobre futilidades lisboetas e quotidianas.
Criámos um inovador “Frankenstein comix” ou uma Babel impressa? Em breve teremos reacções a este livro. Esperamos ter surpresas exteriores tão agradáveis como as que tivemos quando chegávamos aos sítios durante a digressão. 


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Apoios (tour e livro): GRRR Program + Centro Cultural de Pancevo, IPJ, MMMNNNRRRG e Neurotitan

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Historial: Realização da tour Spreading Chili Sauce around Boring Europa (1-15 Set) ... Lançamento 27 de Março na MapDesign (Lisboa) e 2 de Abril na Feira do Jeco (10 anos dos Maus Hábitos) ... referência no Gabinete de Crise ... Cabaz Underground (sorteio dia 3 de Abril nos Maus Hábitos) ... reportagem na Câmara Clara (RTP2) ...


Feedback : 
reacções de viajantes aqui 
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I love tour books about la merde de la europa / jes we can Igor Hofbauer 
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O nome dificilmente poderia ser mais sugestivo e paradoxal (...) Porque, por mais quilómetros que façamos (...) o Velho Continente é cada vez mais um corpo uno. Ainda assim, o que vem dentro das páginas (...) é tudo menos entediante. Muitas ilustrações, desenhos e BD, uma forte componente gráfica e um sem-número de diálogos impróprios para gente sem sentido de humor. Tudo a duas só cores, azul e branco. Rotas & Destinos 
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(...) espécie de périplo autoreflexivo na forma mista de diário/ reportagem sobre uma viagem por uma Europa de movimentos independentes, que se transforma numa espécie de mini-manifesto (é algo pomposo, mas adequado) sobre modos de pensar a arte, a vida, o mundo. Destaque aqui para o importante trabalho de Marcos Farrajota, que, com todas as suas limitações formais, tem aqui um papel crucial ao unir as diferentes contribuições e preencher espaços em branco, destacando-se ainda o seu olhar sobre as várias contra-culturas que o grupo vai encontrando na viagem, entre a extrema empatia/ admiração e o desprezo ácido (o episódio de Berlim é particularmente elucidativo). Sem este fio condutor o livro seria uma amálgama de acasos individuais, e não faria grande sentido. JL 
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(...) é um livro que deve tanto à mítica Torre de Babel como às auto-estradas europeias, misturando várias línguas e registos tão diversos (...) Surpreendentemente, o resultado é tão coerente como são caóticos os dias aqui retratados. Mais do que uma colagem de histórias e fragmentos, Boring Europa é um livro de viagens, uma aventura em 8000 quilómetros de estrada e, sobretudo, um contributo relevante para se pensar a Europa e as suas relações internas. Agora que a ajuda entre países (mais ou menos forçada) anda na boca de toda a gente, seis pessoas e uma carrinha dizem mais sobre as vias possíveis para o encontro e sobre a capacidade de nos conhecermos para lá das fronteiras do que todas as directrizes da União Europeia. Sara Figueiredo Costa in Ler 
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Hace casi un año tuve la oportunidad de presenciar una de las exposiciones más atrevidas y frescas de ilustración y cómic de todo el tiempo que llevo dedicado al mundo gráfico y a la autoedición. Acostumbrado a una corrección profesional y buen rollista, que muchas veces rosa el aburrimiento y mojigatería, que encuentro habitualmente en la gráfica convencional -en la prensa, en la calle y en las estanterías de las librerías-, la expo-guerrilla del colectivo portugués Chili Com Carne resultó ser un contundente puñetazo visual e ideológico que demostraba, con la práctica, otras maneras de entender la ilustración y el quehacer visual. La exposición duro sólo dos días y era la primera parada en el tour Spreading Chili Sauce around Boring Europe que llevó a los CCC por España, Serbia, Austria, Francia, Italia, Eslovenia y Alemania, en 15 días y cuyo diario de viaje, publicado bajo el título Boring Europa, cuenta el cómo, cuando, cuanto y por qué recorrer alrededor de 8000 km con una furgo cargada de fanzines, y puede servir como guía de lo que es la autogestión cultural. Martin López in Bólido de Fuego 
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Quase todas as histórias tocam, portanto, aspectos autobiográficos, referentes aos acontecimentos destas visitas, mas ao mesmo tempo são também testemunho de variadíssimas práticas alternativas. Não apenas da cultura (música, artes visuais, festas, feiras) mas também das práticas propriamente ditas. Ou seja, da angariação de fundos, da organização de eventos, na forma como se gere um fundo de maneio, nos modos como se criam alternativas ao(s) mercado(s) convencional(ais), como se recebem os convidados, da cozinha à dormida, e sem esquecer aspectos de turismo (...) E além disso, as jantaradas e conversas em torno de cervejas e cigarros, que levam a discussões breves mas que apontam a interessantes tomadas de posição face aos estereótipos, expectativas e jogos de projecção que o encontro de “nacionalidades” forçosamente fornece. São muitos os pormenores estranhos e curiosos deste livro, deste a sua forma de organização, à “sinalização” que identifica as autorias, até ao tal orçamento ou custos da aventura, e os dados dos espaços visitados, que poderia até funcionar como convite à visita dos leitores (...) Pedro Moura in Ler BD 
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Um livro on the road, desenhado durante e após o tour dos autores num registo quase sempre próximo do biográfico. Foram 8000 Km de Europa percorridos em 15 dias, a bordo de uma carrinha e com orçamento reduzido. Mais do que um pout-pourri colado à pressão do trabalho dos diferentes autores, existe nesta obra um vero fio condutor (no pun intended), graças a um excelente trabalho de editor. É também um importante testemunho da existência de alternativas: à edição, à distribuição, à venda, à performance, à BD, à música, à arte, ao entretenimento, à festa, à viagem, à estadia, à habitação, ao turismo, à amizade, ao conformismo. E paralelamente vai-se criando a evidência de que, enfastiante ou não, não existe uma mas sim várias Europas. Afinal, mais do que estereótipos nacionais, somos todos indivíduos. Bandas Desenhadas



 exemplos de páginas:

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Chove cães e gatos


(Ou)vi os 10 000 Russos (sim soa ao nome do emblemático vocalista grego que torturou tanta gente que não podia discutir a música dos pais) numa Feira do Jeco e não sei mais onde. Achei que era mais uma banda Noise Rock Duo Bullshit. Entretanto juntaram um baixista com pinta de russo de licença da Morskaya Pekhota e comecei a ouvir bons rumores deles de gente tão insuspeita como o Rui Eduardo Paes e do Walt Thisney (sim ele existe). "'Tá tudo doido?" pensava eu... Ontem (ou)vi-os no Damas e é realmente outra banda! Mostraram-se coesos e focados, ritmados à Krautrock, armados com a a psicadelia exigida nos dias de hoje, enfim, uma banda que agrada ao vivo - e em estúdio diria eu à medida que vou ouvindo o seu primeiro álbum homónimo editado no ano passado pela inglesa Fuzz Club. Este disco está com uma produção clara sem deixar de ter, no entanto, aquela sujidade que noblesse oblige.
Estão a milhas de distância da k7 de estreia de 2013 - já agora o presente disco existe em LP, CD e k7, ó ironia fonográfica, pois era o que acontecia antigamente lá para 1989 quando começaram a aparecer o CD no mercado! Não desculpas para não obter este disco!

sábado, 29 de novembro de 2014

ccc@IV.Feira.Morta




Vamos estar lá, claro!
E Graças aos contactos internacionais da Chili Com Carne, finalmente a Feira Morta vai receber pela primeira vez uma série de autores / editores estrangeiros!!!

Nesta próxima edição marcada para 29 e 30 de Novembro outra vez nos Estúdios Adamastor, teremos três convidados, a saber: Michał Słomka, um dos responsáveis da editora polaca de BD Centrala (imagem) e organizador dos concursos internacionais de BD "Ligatura" e "Silence"; o francês BeauSoir que volta a Portugal depois de ter estado na primeira edição da Feira do Jeco (2011); e ainda Kaja Avberšek do colectivo esloveno Stripcore / revista Stripburger, com que participamos na antologia Greetings from Cartoonia.

Vai ser bom!

sábado, 24 de maio de 2014

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Dossier 2013 de fanzines e edição independente

Todos os anos arranjo fotografias parvas para colocar nestes resumos do que aconteceu no ano anterior referente à edição independente de / sobre Banda Desenhada e Ilustração. Esta fotografia foi tirada pelo sueco Lars Sjunnesson em minha casa, quando preparava um embrulho para enviar por correio, um livro encomendado durante as minhas férias de Verão (Agosto 2013). Queria só defender este pequeno solipsismo, mostrar que ele não é assim tão ordinário como isso. Ora, quem é que se mete nestas coisas da edição independente, não só tem as habituais dores de cabeça com toda a produção e comercialização dos produtos que lança como ainda por cima trabalha durante as férias!!!

“Quem corre por gosto não se cansa” diz-se por um lado e por outro, há quem diga que no mundo profissional estas coisas de trabalhar quase 24h tornaram-se até banais – algo impensável antes da histeria da crise e consequente degradação do mundo do trabalho no Ocidente, em particular em Portugal.

Trabalhar nada tem de glamoroso por mais quer a propaganda capitalista ou a comunista nos tentem enfiar pelas nossas goelas abaixo. Seja um mineiro ou alguém frente a um computador, o trabalho dá sempre cabo do nosso físico, deforma-o e coloca-nos em perigos desnecessários. É o que relembra a nova BD de Bruno Borges, que adapta Abolição do Trabalho (Crise Luxuosa; 1998) de Bob Black, editada num livro "chic-freak" intitulado The Abolition of Work, vol.1 (Arara/ Buraco). Trata-se de uma adaptação integral do texto e que esperamos para breve saírem os restantes volumes em BD.

O que Black diz é que só deveria haver trabalho que nos fosse útil, pedagógico e divertido, algo que num sistema como o nosso onde se produz as bugigangas mais idiotas e "apps" para estarmos 100% ligados ao mundo fascista do Big Brother, será uma Utopia difícil de alguma vez se concretizar. Apesar de tudo, se há coisa que me dá felicidade é trabalhar prá Chili Com Carne ou MMMNNNRRRG, mesmo que interrompa o descanso das férias, é porque neste mundo da edição independente não impingimos nada a ninguém. Quando surge uma encomenda de alguém sinto que estou enviar não apenas um livro qualquer para uma pessoa qualquer. Sinto que quer o livro quer a pessoa são especiais. O livro porque foi feito com amor e dedicação contra os esquemas mercantilistas e no caso da pessoa porque fez um esforço para encontrar o livro. Não o fez num impulso consumidor sem consciência porque foi bombardeada com publicidade o tempo inteiro. Deve ter ponderado até nos contactar, e fez isso também nas suas férias…

Infelizmente tudo isto relatado soa a “hobby” de meia-dúzia de cromos, e mesmo com a população portuguesa a diminuir, é estranho que não apareçam mais pessoas interessadas para este tipo de publicações. Como se consegue expandir a cena da BD em geral e a de autor em especial? Esta parece-me que foi a preocupação da cena independente em 2013.


Rendez-Vous

Um problema que se colocava em 2013 era como seria a edição independente depois do final da Feira Laica, local de encontro e venda de material independente que se concretizava duas vezes por ano, sobretudo em Lisboa. Foi o grande evento do género nos últimos oito anos, chegando até a criar um ritmo sincopado para o lançamento de novidades. Não foi preciso entrar em pânico, pelos vistos, porque a Laica foi imediatamente substituída pela Feira Morta na essência dos seus moldes, chamando a tribo à mudança, mantendo o encontro duas vezes por ano e com um programa idêntico: concertos, exibição de filmes, exposições / instalações, etc...

Há quem diga que é uma "Laica mais punk” e topa-se isso pelo lado mais desbundado da programação, que parece que irá pouco a pouco criar a sua própria identidade fugindo à característica mais aberta ao público que tinha a Laica. Parece que a morte da Laica fez ressuscitar mais duas feiras que andavam dormentes, a F.E.I.A. (com uma terceira edição como sempre no Montijo) e a Feira do Jeco (com duas novas edições, ambas no Porto). Voltaram maiores do que nunca mas tal como na Feira Morta, estes eventos não conseguem sair da armadilha que é preciso concertos de música para virem pessoas ao mercado do livro... A Laica em 2012 conseguiu mostrar que a "edição independente" tinha público por ela própria, como se provou na afluência de público das últimas duas Laicas. Este potencial no entanto não está ser aproveitado por nenhuma destas três organizações. Esperemos no entanto que 2013 tenha sido apenas um ano de transição para que 2014 seja mais assertivo.

Até porque o tempo urge porque o conceito (ou será "soundbyte"?) de “feira de edição independente” parece que está na moda, o que significa que já começaram a aparecer abusos de organizações a quererem capitalizar o conceito em situações de que cultura DIY nada têm - e têm ainda muito menos vergonha para pedir 15 euros por uma mesa, por exemplo, não compreendendo que quem faz destas publicações, faz na sua maior parte do tempo livre e parcos recursos, e não por necessidade económica e exploratória. Não se trata de colocar a "edição independente" numa patamar de virtudes, fria ao dinheiro e ao lucro mas antes de pensar que este é um mundo que tanto se encontram putos pré-universitários com zines baratos como colectivos com livros mais bem produzidos e luxuosos mas que se regem ambos por ideais de "preço justo", e que já são explorados por estágios profissionais e outras sacanices, não o precisam de ser também explorados pelo suposto meio que ajudam a criar.

Parece-me dogmático mas talvez os únicos que devem organizar "feiras de edição independente" são os que realmente o praticam e não pessoas de "fora" - com o risco de se banalizar o conceito e um dia até termos uma FNAC ou o Pingo Doce a fazer uma feira destas, não? 

Ao longo de 2013 ainda houve outras pequenas iniciativas como a Pulga do Gato (na livraria Gato Vadio, Porto), a Edita (evento espanhol mais ligado à poesia) passou por Lisboa, a Necromancia Editorial no Festival Milhões de Festa (Barcelos) e Jeux Sans Frontières no âmbito da Trienal de Arquitectura, Lisboa.

Houve no entanto outros eventos que não deixaram de ter a sua graça ou importância, como o divertido lançamento do livro O Hábito Faz o Monstro de Lucas Almeida que incluía corridas de “sofás-skates” nas ruas da Parede, o encontro de criativos Pitchzin em Santa Maria da Feira, a importante exposição “Lixo Futuro” na galeria da livraria de BD Mundo Fantasma que apostou numa nova geração de autores portugueses, o convite do Doc Lisboa para apresentar a colecção LowCCCost da Chili Com Carne e a inesperada “exposição-memória” da loja Mundo da Banda Desenhada / Op (1977-1987) em Setembro nas Escadinhas do Duque – espaço onde muita gente se cultivou no passado com publicações alternativas.



Up!

Uma coisa insólita que aconteceu em 2013 é que a BD profissional ou comercial de autores portugueses deixou de existir! A grande editora Asa (do grupo Leya) que editava algumas “coisas” – a maioria inexplicável e contra a maré dos tempos – deixou de o fazer. Ainda há o “Piçaboy Mendonça”, uma produção luso-argentina que consegue ser ainda pior que o velho Jim Del Monaco dos anos 80, que tem chancela da Tinta da China mas toda a produção BD portuguesa está actualmente entregue a editoras independentes.

Sem futurologia possível, desde meados de 2013 que ficou o campo aberto para as editoras resistentes como a Chili Com Carne, Kingpin Books, MMMNNNRRRG, Mundo Fantasma / Turbina e Polvo, que continuaram activas e com alguma dinâmica, com a hipótese de aumentarem a sua importância no mercado livreiro, face a uma ausência de qualquer tipo de BD editada de autores portugueses nesse mercado. E mesmo em termos de BD estrangeira! A única a trabalhar regularmente é a Devir, uma vez que a Contraponto deixou de publicar BD apesar do sucesso (?) de Marjane Satrapi e Alison Bechdel…

A  única estratégia que acho interessante, independentemente se o espaço abriu mais ou não, é que a BD que se edite tenha de ser interessante para um público fora desse "guetho". Para isso tem de ser uma arte “viva”, que conte ou que esteja envolvida no dia-a-dia das pessoas, ou que traga ideias novas como aliás qualquer outra arte faz. Num mundo de blogues e redes sociais que se pode criar comunidades do mais microscópico elemento subcultural, cada um pode ser o maior do bairro. O problema é depois do Bairro, na Aldeia não há espaço para a BD. Nos meios de comunicação social mais tradicionais quase desapareceu, por exemplo. Há mais de 10 anos haviam muitas colunas de crítica nos jornais e agora quando se fala de BD é para anunciar anacronismos como o novo álbum do Astérix ou de mais um original do Tintin vendido por uma barbaridade de dinheiro que deveria ser taxada para remediar o nojo colonialista do rei Leopoldo II - já agora, para quem esteve desatento, ver Vumbi de Rita Carvalho, editado pela Plana Press.

A BD que sempre teve um problema de visibilidade e reconhecimento público em Portugal nunca antes atingiu níveis tão baixos como agora. Só que o problema não é da “BD” mas sim do que se edita. Ora o que se edita geralmente não tem interesse nenhum para as pessoas, mesmo que os actuais filmes de Hollywood sejam todos sobre gajos com cuecas à mostra com super-poderes. Também têm aparecido uma tendência de alguma BD de ficção usar o nosso imaginário histórico (os tempos do fascismo, o PREC ou as guerras coloniais) infelizmente com resultados artísticos tão inócuos e/ou desastrosos que é natural que só se premiando em capelinhas "bedófilas" é que eles ganham relevância - para o próprio "guetho"! E isso é uma coisa que os cromos da BD (que continua a ser um grupo de crianças, jovens com borbulhas e adultos reaccionários) não percebem nem nunca perceberão. A Fantasia ou a Ficção não se cria por ela própria, e quando o faz, ou seja, auto-reproduzindo-se, cai no exercício de estilo pouco ou nada interessante – e isto tanto é verdade prá BD de patos sem cuecas como para quem gosta de Rock Gótico ou Harsh Noise. Os “bedófilos” bem podem admirar o génio do Alan Moore ou do Grant Morrison mas esquecem-se que eles foram formados por uma vida rica em experiências e não porque andaram a ler todos os livros de ficção científica do mundo (embora também o tenham feito!). Essas boas ideias se calhar surgiram porque eles trabalharam a limpar retretes…

Dentro da lógica deste mercado da BD tradicional está a Kingpin Books, uma loja de BD que tem apostado numa série de livros que dão nas vistas no "guetho bedófilo" mas acima de tudo parece ter “alegria no trabalho” no que faz. Há ambição e esforço técnico na produção dos conteúdos e dos livros, coisa que não parecia acontecer na Asa, por exemplo. Passa uma imagem de empreendorismo e dinâmica, justamente o oposto da Polvo que apesar do seu catálogo histórico, é a que menos comunica para fora (nem um blogue é capaz de ter!) e até para dentro (testemunhado no texto de António Kiala no Loverboy na Feira das Vanessas), por isso mesmo que tenham editado um livro do Ricardo Cabral, autor famoso q.b. por ter quatro livros da grande Asa, pouco ou nada irá significar na expansão da editora, que há muito que aceita tudo o que lhe ponham à frente. Ambos casos, até agora, uma por dinamismo, outra por historicidade parecem só mover-se pelos restos mortais do público "bedófilo", cujo palácio-para-burro-ver ainda é o Festival da BD Amadora, onde vão lá lançar novidades e colecionar prémios pacóvios.

Não é de estranhar que uma colecção como a nossa sobre viagens, a LowCCCost, cada vez que sai um novo volume acaba por interessar alguma "media" que geralmente ignoram BD. Seja pelo facto de estarmos num on the road numa “Europa aborrecida” ou a trabalhar numa ONG na Guiné-Bissau (falo de Kassumai de David Campos, claro), imediatamente estes temas atraem revistas de viagens ou a RTP Africa, enquanto que o “Piçaboy” tem de pagar para dar nas vistas... Mas adiante!

Em 2013, como colectivo de fanzines, destaco os cinco títulos do Clube do Inferno, com o material mais refrescante de quem faz produções de páginas fotocopiadas. Dentro do mesmo género, mantiveram-se o CVTHVUS e o Tiago Baptista manteve o Cleópatra e o Preto no branco. Enquanto com maiores meios continuaram BD Jornal, Buraco, Toupeira (da Bedeteca de Beja), Cru, Filme da Minha Vida (Ass. Ao Norte) e Mesinha de Cabeceira. Sentiu-se a falta do Lodaçal Comix mas Rudolfo lançou um novo volume de Musclechoo. E regressou The Killer Season Fanzaine de Pepedelrey – depois de quê? 14 anos!? A sério?

A Chili Com Carne recuperou BDs perdidas de Loverboy de Marte e João Fazenda [et al.], a Turbina as Crónicas da Arquitectura de Pedro Burgos e a Polvo aproveitando no trilho do comboio feito pela El Pep (em 2012) pegou em mais um clássico do Fernando Relvas. São pequenos gestos editoriais mas necessários para que o passado da BD portuguesa não seja esquecido, já que ninguém quer saber disso para nada.

O Quarto de Jade e o Panda Gordo iniciam-se na BD, no primeiro caso com um livro de Diniz Conefrey e no segundo com uma pequena antologia com sete autores "novos", João Sobral, Bárbara Fonseca, Diogo Bessa, Zé Cardoso, Sofia Palma, João Drumond e Amanda Baeza. André Oliveira e Joana Afonso começaram uma série de “comic-books” intitulada Living Will, pela nova Ave Rara, enquanto os Cabidela Ninjas e Imvincible Comics estrearam-se com zines mamados.

Fora do baralho: o Festival de Metal de Barroselas lançou um DVD comemorativo dos 15 anos de existência deste festival de música e que inclui um livrinho de BD sobre o evento feito por este vosso escriba, Marcos Farrajota; a Marvellous Tone lançou a banda sonora do filme O Coveiro (de André Gil Mata) que inclui um livro ilustrado de Sandra Neves; e, o Nicotina’zine que é de poesia continuou aberto à BD descobrindo até uns novos talentos, dos quais destaco o jovem e promissor Sim Mau.

Mas o vencedor do ano foi Lençóis Felizes de Van Ayres! O zine mais simples e boa-onda. Se há alguém que mereça um prémio de BD é ele! O Prémio Frescura!


In / out

Mas 2013 não trouxe só mais dois talentos refrescantes! Outro, ou melhor, outra foi a Amanda Baeza que se estreou em três edições estrangeiras, uma da Letónia e as outras em Espanha. Graças a isso será a autora com direito a uma exposição na Trem Azul Jazz Store durante o Festival Rescaldo, festival que faz um resumo do melhor que se fez em música portuguesa no ano anterior mas que tem dado espaço para a BD! De salutar a iniciativa!

Houve mais autores com trabalho publicado internacionalmente, sendo o mais mediático o de Rudolfo que também se estreou profissionalmente com o primeiro volume de Negative Dad sob argumento dos norte-americanos Nathan Williams e Matt Barrajas, para além de ter continuado a participar no fanzine Kovra (Espanha).

Houve participações de Bruno Borges, Teresa Câmara Pestana, Miguel Carneiro e Marcos Farrajota na revista eslovena Stripburger. Farrajota, Rudolfo e Wasted Rita participaram no Prego (do Brasil). Pedro Burgos teve o seu livro Airbag e outras histórias (Mundo Fantasma; 2003) editado em Itália pela Mal Edizioni. Ainda escrevi textos sobre “comix-remix” no jornal Kuti (Finlândia) e com Pedro Moura participamos no livro Metakatz (Bélgica). E claro André Lemos, mais calmo este ano, ainda assim participou em projectos na Alemanha e Inglaterra.

As viagens ou representações em festivais estrangeiros mantiveram-se: Crack (Roma), MEA 2 (Madrid), Edita (Punta Umbria, Espanha) e Bergen Art Book Fair, e na exposição "Workburger" (Eslovénia) sendo de destacar o Buraco que, tal como a Chili com Carne em 2010, meteu-se na carrinha e fez-se à estrada na sua “Trans-mediterranean Cargo Tour” passando por País Basco, França, Eslovénia, Sérvia e Itália. A exposição do Futuro Primitivo finalmente acabou a sua itinerância em Espanha e no Brasil, depois de ter percorrido países escandinavos, EUA e Itália desde 2011.

Autores estrangeiros que passaram por cá: Alex Vieira (Brasil) veio lançar o último Prego na saudosa Livraria Sá da Costa, Ilan Manouach (Grécia) veio ao Festival de Beja, Weaver (Brasil) ao Sete Sóis Sete Luas (Ponte de Sôr), Lars Sjunesson (Suécia / Berlim) com uma exposição individual na Trem Azul Jazz Store, Alex Baladi (da Suiça), Pedro Franz e André Diniz (ambos do Brasil) vieram ao Festival BD Amadora. Vivendo temporariamente em Portugal estão os brasileiros Sama que editou cá um livrinho de esboços, as autoras do fanzine Piqui (estiveram presentes com mesa na FEIA e Feira do Jeco) e de saída o casal russo-austríaco Alexander Brener e Barbara Schurz lançaram por cá um segundo livro, o Fuck Off and Die Alone.


Zona VIP

Apesar de toda esta cultura da edição independente vir dos fanzines, e sendo os fanzines publicações de fãs que de alguma forma prestavam vassalagem a algo, é o que menos há na edição independente, material de referência. Claro que no mundo da web.2 ter fanzines como o Nemo, Epitáfio ou O Moscardo seria um anacronismo completo mas ainda assim nem tudo está na ‘net, nem esta permite leituras profundas ou reflexão, embora seria injusto dizer isso quando se consulta os blogues de Domingos Isabelinho e de Pedro Moura. Este último e eu, como já referi, participamos no Metakatz, edição da editora belga 5éme Couche em que se discute todas as implicações da destruição e proibição do livro Katz, obra que “desviava” o sacrossanto Maus de Art Spiegelman. Aproveitando a deixa, é de referir também que a Letra Livre editou O Negócio dos Livros : como os grandes grupos económicos decidem o que lemos, de André Schifffin (1935-2013), responsável pelo Maus nos EUA quando editar livros significava alguma coisa, mesmo numa grande editora. Existe essa referência no livro mas como é óbvio não é uma obra sobre BD mas sobre a questão da edição de livros.

Também tive direito a uma entrevista no número 62 da revista eslovena Stripburger, que ajuda a compreender os projectos Chili Com Carne e MMMNNNRRRG. Claro que a revista chega a uma comunidade internacional interessante que irá saber mais sobre estes projectos do que cá, onde se tentam ignorá-los… O universo exagera na ironia!

A iniciativa mais importante no campo da referência foi sem dúvida o Portuguese Small Press Yearbook 2013 projecto dirigido por Catarina Figueiredo Cardoso e Isabel Baraona. É uma compilação relativa à edição independente nacional, sejam livros de artistas, fanzines, zines e outros mutantes bibliográficos publicados entre Junho 2012 a Junho 2013. Pelo meio há textos sobre edição, listas de arquivos públicos, etc...

Entretanto também é interessante referir o projecto de sociologia Keep it simple, make it fast! Prolegómenos e cenas punk (1977-2015) da Universidade do Porto, que está a estudar a cultura Punk em Portugal e que finalmente vai dar valor ao acervo de fanzines e publicações do género que se encontram na Bedeteca de Lisboa. Em princípio haverá algum estudo sobre a BD e a Ilustração punk portuguesa mas só em 2014 é que haverá resultados…


Roleta Russa

E é essa mesma Bedeteca que vai ser despachada prás Juntas de Freguesia, colocando em risco não só todo o sistema de funcionamento bastante racionalizado e optimizado, diga-se de passagem, das bibliotecas municipais (BLX) e pior ainda, esse acervo da Bedeteca, constituído não apenas por várias publicações históricas e patrimoniais - as primeiras revistas de BD como o ABCzinho ou a emblemática Visão, os primeiros álbuns como o Cruzeiro do Sul de Carlos Roque ou o esgotado Mr. Burroughts de David Saores e Pedro Nora, vários livros de BD de referência, revistas e livros estrangeiros - mas sobretudo, e o que interessa aqui, uma colecção única de fanzines, zines, livros de autor, livros de artista, graphzines, etc… que começa nos anos 70 e vai até aos dias de hoje, e que pelos vistos pode ter leituras transversais à BD como a tal tese sobre o Punk da Universidade do Porto.

Lendo a secção "Mapa Borrado", uma BD de Miguel Castro Caldas com desenhos de José Smith Vargas, no “jornal de informação crítica” Mapa, no número 3 (Set’13) vemos o Socialista António Costa a vender Lisboa ao desbarato a Woody Allen, para este último fazer um filme sobre a cidade. Se o velho jarreta o fizesse realmente só poderia fazer um filme lisboeta em hostels e portos de cruzeiros, porque é isso que a capital portuguesa se transformou.

A cultura em Lisboa está a desaparecer a julgar pelo populismo das iniciativas públicas e a morte lenta das iniciativas privadas. A última e mais cruel foi o fecho da Sá da Costa, numa Baixa deixada às marcas multinacionais, que provou ser um “spot” excelente para a venda destas “edições estranhas” que aqui relatamos.

Por fim, apesar de ser uma ideia da CCC e tendo o solipsismo a cegar-me, admito, tenho de dizer algo sobre o concurso interno “Toma lá 500 paus e faz uma BD!” – cujo vencedor foi Francisco Sousa Lobo com The Care of Birds a publicar em 2014. Tratou-se disso mesmo, um concurso para fazer um livro de BD com a oferta de um prémio monetário. O incentivo de podermos oferecer uma recompensa monetária revelou uma estratégia necessária neste país miserabilista, embora saibamos que 500 Euros não cobre todo o trabalho que existe para fazer uma BD de muitas páginas - um romance gráfico. Apesar de todos os criativos / autores de BD andarem a trabalhar de graça ou a receber mesmo muito pouco dinheiro (muito menos do que qualquer outra área criativa onde existe "mercado"), existe uma resiliência que a tem mantido viva.

Não existindo nem actividades nem espaço para a BD de autor em Portugal, especialmente depois da extinção das bolsas de criação literária e o “fade out” da Bedeteca de Lisboa, o que fizemos é muito pouco mas para uma primeira edição, recebemos oito trabalhos inesperados de nove autores (havia uma dupla), alguns deles que nem sabíamos que existiam e que graças ao concurso já começamos a trabalhar com eles – como a Júlia Tovar que vai estar na Zona de Desconforto.

Tudo indica que estamos no caminho certo para 2014. Não?

domingo, 26 de janeiro de 2014

Família Bifana

Na última Feira do Jeco, na troca de prendas "natalixo" com o Sr. Esgar Acelerado, eu dei-lhe um DVD de cowboys e ele um EP 7" em vinilo de uma banda que ele dizia que não havia nenhuma informação na 'net! Que tangas! Se há coisa que 'net infelizmente fez foi mapear 99,9% do mundo e da actividade cultural humana. O problema é antes perceber se a banda chama-se Família Carnage Asada ou apenas Carnage Asada - que parece que é a última, pelos vistos. Disco de 1997 pela Travisty Records (alguém da banda tinha de inventar um nome prá label, né?) soa a pós-Hardcore mais próximo de Oxbow ou Fugazi do que o Punk 4x4, devido aos ritmos lentos e riffagem Blues. Ao que parece a Cru ainda vende disto a 2 euros! É de aproveitar!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

brasil.pt (Brasil XIV)



Mundo Anão
Piqui #2
(O Piqui; 2013)

Ninguém sabe mas elas andam por aí, já tiveram na FEIA e no Jeco, as miúdas do Piqui, Livia Viganó e Taís Koshino! Fazem mini-zines de BD com pinta "friqui" (não resisti a piadinha-que-rima!) e naíve assim mesmo, de forma espontânea a lembrar o André Ferreira (mais conhecido por Goran Titol) que se meteu na BD recentemente (ver o último número da colecção Toupeira pela Bedeteca de Beja) ou o Van Ayres. Todos eles e muitos outras pessoas que andam por aí, são uma nova geração de autores que passaram a fazer BD mas sem passarem pelo imundo processo da cultura "nerd" da BD industrial, e por isso a sua frescura e poeticidade incomodam os puristas da BD do quadradinho-menino! Claro que os resultados mostram-se muitas vezes verdes em relação a estilo mas estas autoras (ou o Van Ayres) têm domínio sobre as técnicas de narração ou que permite uma leitura limpa do que se conta mesmo que seja "surrealista".
Assim sim dá gozo ler... o Brasil pouco a pouco vai mostrando as suas garras fora das piadinhas eternas.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

domingo, 15 de janeiro de 2012

Relatório sobre Fanzines e Edição Independente em Portugal 2011 (actualização)

por Marcos Farrajota

Saiu este ano um importante livro de referência sobre banda desenhada, intitulado 1001 comics you must read before you die! e coordenado pelo comissário e conferencista inglês Paul Gravett. Trata-se de uma listagem de livros ou bds que tenta resumir as melhores bds do mundo, com a ajuda de vários especialistas espalhados pelo mundo – incluindo dois portugueses: Domingos Isabelinho e Pedro Moura. É sem dúvida um trabalho hercúleo e discutível quanto à sua utilidade de criar cânones. Curiosamente ao analisar o livro deparei-me com as seguintes situações:

1) A única entrada portuguesa é o livro Diário de K. de Filipe Abranches, editado nos tempos áureos da Polvo, com o apoio do IPLB e Bedeteca de Lisboa.

2) Livros / obras como Caminhando Com Samuel de Tommi Musturi, Uma semana de Bondade de Max Ernst, Ele foi mau para ela de Milt Gross, Os meninos Kin-Der de Lyonel Feininger, Mundo Fantasma de Daniel Clowes, Palestina de Joe Sacco, Persepolis de Marjane Satrapi foram editados em Portugal por editores independentes como a MMMNNNRRRG, &etc.., Libri Impressi, Mundo Fantasma / MaisBD e Polvo.

3) Também foram editores independentes que publicaram outras obras de autores referidos 1001 Comics como Cliff Sterrett, Aleksandar Zograf, Anke Feuchtenberger, Max, Baudoin, Joakim Pirinen,... Novamente pela MMMNNNRRRG, Chili Com Carne, Libri Impressi, ou publicações como a Azul BD3 e Quadrado

Creio que fica provado a importância que estas pequenas editoras tem no mercado nacional face às “grandes” que editam produtos fáceis de investir pelos créditos já firmados e fama a rodos como Astérix, Tintin, Corto Maltese, Akira, X-Men, Batman, etc…


Definições

A edição independente é um termo que se tem utilizado para definir edições de livros ou de discos que fogem aos parâmetros, conteúdos e formatos das grandes editoras que geralmente dominam o mercado em vendas, distribuição, espaço de venda nas lojas e promoção dos seus produtos e artistas.
Há várias formas de identificar um editor independente: estrutura organizacional e laboral reduzida (uma pessoa, um casal, um colectivo), comunicação activa com os autores e o público, distribuição e promoção defeituosa, exploração de nichos de mercado, poucos apoios públicos ou institucionais, financiamento reduzido, inovação tecnológica, etc… Existe neste meio um cuidado extremoso para que as suas edições tenham o melhor aspecto, tradução ou tratamento gráfico do que as edições de grande tiragem – geralmente feitas de forma apressada e cheias de gralhas e erros de vários tipos.
São editoras que crescem conforme a longevidade e persistência dos editores, tornando-se mais tarde profissionais da área e editores de referência como é o caso da &etc…, Via Óptima, Black Sun, Edições Mortas, Mariposa Azual, Planeta Tangerina, Libri Impressi,...
Nesta definição alargada ainda assim cabem várias formas de publicação que passam por sistemas de impressão caseiros (impressora do computador), artísticos (serigrafia, gravura, xilogravura, linóleo), tecnológicos baratos (fotocópias) e relativamente mais caros (impressão digital e offset). Podemos identificar estes tipos de publicação:

Fanzine – publicação amadora feita por fãs ou militantes de alguma causa (bd, poesia, música, cinema, política) geralmente fotocopiada e agrafada com uma distribuição reduzida (em Portugal entre 50 a 500 exemplares, no Brasil dos 200 aos 2000).
Zine – evolução natural do fanzine abandonando a militância ou a idolatria pela cultura Pop, são publicações que não sendo “fãs” de algo, publicam trabalhos pessoais ou artísticos de um autor ou de um colectivo de autores.
Edição de Autor – , ou auto-edição. Edição realizada pelo autor, pode ter um aspecto profissional mas geralmente não tem um “selo de editor” como forma de garantia comercial.
Livro de Autor - edição realizada pelo autor de poucos exemplares com evidentes realizações manuais (capa, agrafamento, colagens, ex-libris, etc…) e coleccionistas (assinatura e numeração pelo autor).
Livro de Artista – edição de um livro geralmente de uma ou poucas cópias em que as páginas da edição muitas vezes são os próprios originais do livro - é o tipo de edição elitista cuja circulação passa mais pela galeria de arte do que pela livraria...
Impressão digital / P.O.D. – Impressão em fotocópia lazer que permite produzir poucos exemplares com um tratamento profissional (cozido, colado, encadernado) ou exemplares conforme a procura (print on demand). Esta tecnologia tem servido para Edição de Autor mas também para pequenas editoras ou para livros de pouca circulação de grandes editoras.
E ainda: split’zine (zine feito por dois títulos, a capa de um é a contra-capa do outro lado), prozine (termo anacrónico norte-americano para fanzines feitos por autores profissionais, mais vale usar o termo “auto-edição” ou “edição de autor”), micro-edição (edição bastante limitada, abaixo de 50 exemplares),… De fora deste “relatório” ficam as produções electrónicas: e-zines, pdfs para visualização e/ou descarga, etc…
É um mundo onde cabe de tudo: autores que vêm uma forma de promoção pessoal como uma espécie de escalada para chegar às “grandes”, autores que tem uma visão única como o seu trabalho deve ser tratado, um programa ou um plano de um editor, um registo de um movimento local/geracional/artístico, uma diversão de um autor ou de vários, uma provocação, uma necessidade de exposição pública, etc…


Onde observar este movimento?
Tirando o caso das editoras que publicam livros com Depósito Legal e ISBN, existe todo um grande movimento de publicações marginais que quase não existe em lojas nem em acervos públicos (arquivos, bibliotecas).
No primeiro caso, em parte porque os objectos não são compreendidos pelos lojistas – serão as poucas que se comportam estes objectos como algumas lojas de bd (Mundo Fantasma), galerias de arte (Dama Aflita, Galeria Ó, Estúdio JS, Re-Search,…) ou algumas de música (Matéria Prima) e de design (Fábrica Features). O facto das edições também não terem uma faceta legal (facturas, recibos, etc…) não ajuda a sua comercialização.
No segundo caso, os autores / editores não pensam na sua obra como algo válido para preservar para o futuro / memória cultural. Muitas das vezes dada à urgência de produção e edição das obras, falta esse sentido de imortalidade ou arquivo. Também pode haver uma recusa em oficializar a sua obra. Seja como for, como iremos ver mais à frente, muitas vezes estas obras serão descobertas pela “cultura oficial”.
Para encontrar a maioria destas edições é preciso frequentar alguns eventos especializados como a tradicional Feira Laica com as suas habituais duas edições por ano - uma na Bedeteca de Lisboa outra nos Maus Hábitos, Porto -, MAGA (regressou este ano!) nas Caldas da Rainha, F.E.I.A. (Montijo) e no Porto: Mercado Negro, Feira do Jeco e Feira de Publicação Independente (com duas 2 edições na Faculdade de Belas Artes do Porto). Alguns eventos de artes e de música também costumam ter mesas com este tipo de edições como o Comunicar:Design (Caldas da Rainha), Festivais Rescaldo e Matanças em Lisboa e Porto, respectivamente.
Alguns casos, as próprias entidades criam eventos próprios abertos ao público como foi o caso da Oficina do Cego que realizou uma série de workshops de livros de autor (na Faculdade de Belas Artes de Lisboa) e uma residência artística (programa Ghost nos Ateliers Real) ou da Chili Com Carne com o espaço CHILI ao QUADRADO na Work In Progress (Chiado).


Uma quantificação possível
Este ano, demos conta dos seguintes projectos de continuidade: O filme da minha vida (3 volumes – Luís Henriques, Pedro Nora, Isabel Baraona) pela Associação Ao Norte; Zona BD (2 volumes); Venham +5 (1 volume); É fartar Vilanagem! (um volume); Tertúlia BD’zine (12 volumes); BDJornal (um volume); Boletim CPBD (1 volume).

As editoras que continuaram em actividade
- Chili Com Carne com duas antologias: Boring Europa e Futuro Primitivo;
- Firma: Dark Shine, de Aleksandar Opacic;
- Kinpin Books: O pequeno deus Cego, de David Soares e Pedro Serpa;
- MMMNNNNRRRRG: Mundos em segunda mão, de Aleksandar Zograf, AcontorcionistA: Manifesto, de Grupo Empíreo, Neuro-Trip, de Neuro, Aspiração horrífica, de Aaron Shunga e Subsídios para MMMNNNRRRG #1;
- Oficina do Cego: Fábricas, Baldios, Fé e Pedras atiradas à Lama de Tiago Baptista, e a antologia Aforismo do Estádio;
- Pedrancharco: Li Moonface, de Relvas;
- Quarto de Jade: Animais Domésticos, de Maria João Worm;
- Polvo: dois livros de Lacas e Geral & Derradé (anunciados mas não os vimos ainda)
- Libri Impressi: Ele foi mau para ela, Milt Gross – e o terceiro volume da série Lance (também não o vimos).

Dos zines apareceram novos títulos, quase todos eles monográficos: O morto saiu à rua e The invisible hand de Bruno Borges; Headbanger de David Campos; Pixels Parts de Afonso Ferreira; Famous Tumours de Jaime Raposo; Metamofosis de Tiago Araújo; Stop Mundo dos U.A.T., 666 Hardware e Musclechoo, ambos de Rudolfo. e ainda duas fotonovelas da Pôe-te Fino e Mr. Krunk e o Senhor Klaxon dos Livros Espontâneos. Apercebemo-nos de vários zines e graphzines nas Caldas da Rainha (Zé Burnay, Aliböbö, Gennebra) e Porto (Panda Gordo, Hidromassagem,…) mas parece impossível de os contabilizar uma vez que não foi possível adquirir tantos títulos.
Destaque especial para dois novos projectos que pretendem continuidade: Lodaçal Comix dirigido por Rudolfo que lançou 4 números trimestralmente e o especial Hors Serie; e, Buraco feitos por autores de Lisboa e Porto que lançaram 2 números em dois meses…


No plano internacional
a) Publicações
Houve um abrandamento nas participações portuguesas em publicações estrangeiras, sendo que tivemos contas de colaborações nos seguintes países:
- Alemanha: Given (André Lemos) pela Bon Gout.
- Brasil: Pindura 2012 (André Lemos, Lucas Barbosa, Marcos Farrajota e Pepedelrey) e Prego (Marcos Farrajota e Manuel Pereira);
- Eslovénia: Stripburger (Teresa Câmara Pestana)
- Espanha: El Temerário #7 (André Lemos), Kovra #3 (Ricardo Martins), ambas pelas Ediciones Valientes;
- EUA: Hapiness (Rudolfo)
- Sérvia: Novo Doba (André Lemos e Bruno Borges), Silent Wall Army (Bruno Borges);

b) Eventos
Já em relação a participação de portugueses em eventos estrangeiros manteve-se estável como noutros anos, tendo sido registada de participação de autores, exposições ou publicações nos seguintes eventos: Festival de BD de Angoulême (França), Not Mex Not Tex com Bruno Borges e Lucas Almeida (EUA), Edita 2011 e La Noche de los libros mutantes (Espanha), Even my mum can make a book (Turquia), London Zine Symposium, Crack (Itália), Festival de BD de Helsínquia, ISV e Trauma em Mälmo (Suécia).

c) Autores
A visita de autores estrangeiros, que estão ligados à edição independente é uma prática saudável que se mantêm registada sobretudo no Festival de BD de Beja e a Feira Laica, permitindo os autores estrangeiros conhecerem autores nacionais e vice-versa. Na prática ajuda a divulgar e criar intercâmbio entre autores e editores de vários países.
A registar este ano: Andrea Bruno do colectivo Canicola (Itália), Aleksandar Zograf (Sérvia) ambos no Festival de Beja, Toff (França) na Feira do Jeco, colectivo Hetacombe (Suíça), Neuro (Roménia / Dinamarca), Alex Vieira (Brasil) e elementos dos colectivos Grut (França), Stripburger (Eslovénia) e Amalgama (Galiza) nas Feiras Laicas.


Institucionalizando
Este tipo de publicações acabam por ter um reconhecimento tardio em maior parte dos casos, veja-se por exemplo, o caso da exposição que esteve patente na Galeria ZDB entre Março e Setembro, All Power to the People. Então e Agora. A arte revolucionária de Emory Douglas e os Panteras Negras. Tratava-se da exposição da arte revolucionária de Emory Douglas e os Panteras Negras de material gráfico, ilustrações e até bds de Emory Douglas, Ministro da Cultura do Black Panther Party (desde 1967 até à dissolução do partido, em 1982). Muitos dos materiais gráficos da exposição foram resgatados graças aos arquivos pessoais do autor.
Antes, entre Janeiro e Março esteve patente uma importante exposição de banda desenhada no Centro Cultural de Belém / Colecção Museu Berardo intitulada Tinta nos nervos, e que não só mostrava 41 autores portugueses como muitos deles eram exclusivamente publicados em edições independentes. Também na exposição encontravam-se muitas destas publicações em plintos. A colecção das publicações era quase exclusivamente do seu comissário, Pedro Moura.
Estes são dois exemplos mostra como seria importante criar um organismo de procura e angariação deste tipo de edições - na verdade até há um mas só virado prá bd e ilustração!!! É a maltratada Bedeteca de Lisboa, única instituição pública portuguesa que inclui um acervo de fanzines, zines, livros de autor, micro-edição, split’zines - ainda quase todos por catalogar, acessíveis para consulta apenas. Também é verdade que a Bedeteca sendo um serviço especializado em banda desenhada detêm a maior colecção de livros de bd em Portugal. Inclui-se nesta última afirmação os livros auto-editados e de pequenas editoras – quase todos disponíveis para empréstimo. Só resta saber até quando é que esta colecção irá evoluir com os rumores que a Feira Laica não deverá continuar a sua edição de Verão neste espaço...