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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Como se faz bd?


É sempre um desatino quando alguém pergunta como se faz bd. É constragedor quando se vê nos manuais escolares ou noutras situações com aquela coisa do "primeiro escreve-se o argumento, depois planifica-se a página, blá-blá-blá". Basta lembrar exemplos de "escrita automática" como as bd's de Jucifer ou ainda o Paris Morreu em que começou com 6 páginas desenhadas por Pepedelrey em que depois é foi colocado texto pelo Nuno Duarte, para dar conta de que há 1001 maneiras de cozinhar a bd. Estes dois números da colecção Dystopia (Wormgod + Sociedade Sueca de BD; 2010) - da Suécia e dirigida por Mattias Elftorp que esteve na última Feira Laica - são exemplos da fuga dessas ideias fordianas de como fazer bd.
No primeiro caso, trata-se do finlandês Jyrki Heikkinen (Salão Lisboa 2005, Greetings from Cartoonia,...) que desenlaça uma estória passada num mundo pós-apocalíptico em que tudo se confunde: a falta de ética, mutantes e animais falantes, a morte sob o aspecto de uma caveira falante e um grupo de rastafaris, e uma promessa de New Age qualquer. O estilo gráfico solto de Jyrki bem como a composição irregular das páginas (em que as vinhetas certinhas são completamente abandonadas) devem-se à sua carreira como poeta (intercalada com a de autor de bd), em que sentimos que a bd não está a ser "desenhada" mas a ser "escrita". E quando digo escrita não é num processador de texto mas sim à "velha guarda", ou seja caneta ou lápis em folhas de apontamentos, logo sem arrumação e cheios de urgência. As bd's de Jyrki são um caderno de apontamentos à primeira vista mas com rigor gráfico e narrativo apurado. O que parece é que quando "passou a limpo" deixou a mesma composição de página tal quando a escreveu/ desenhou em esboço e só assim se explica porque o frenesi deste The Moonboy!
Zombies dos suecos Mattias Elftorp e Susanne Johansson foi feito primeiro como uma exposição durante o Alt Com, ou seja era uma enorme pintura sobre os mortos-vivos e que percorria as paredes todas de uma sala (no bar de uma sala de cinema) e para vê-la era necessário entrar com um foco de luz (na cabeça) porque a sala estava à escuras. Esta pintura entretanto foi fotografada, montada para o formato desta colecção (uma espécie de A5) e acrescentado um texto que resulta numa bd. Engenhoso, não?

Já não temos estes volumes mas ainda existem outros disponíveis.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

FuTuRo prImItIvO ESGOTADO ... fucking mutants!


UMA antologia ____________de BANDA DESENHADA
$$$  de artistas da Associação CHILI COM CARNE
€€€ a saber : :: Lucas Almeida, Ana Ribeiro, Manuel Pereira, João Ortega, Inês Cóias, Daniel Seabra Lopes, Marco
Moreira, João Chambel, Ana Menezes, André Coelho, João Maio
Pinto, Andreia Rechena, Bruno Borges, Rafael Gouveia, David Campos, Sílvia Rodrigues, Pepe

delrey, José Feitor, ________Natália Andrade com Christina Casnellie, Uganda Lebre, André Lemos, Bráulio
Amado, Gonçalo Duarte, Jucifer, Ana Menezes, Afonso Ferreira, Marcos Farrajota, Rudolfo, Ricardo Martins e Pedro Brito, e ainda participações CADÁVERES-ESQUISITOS com Mattias Elftorp
+ Sofia Lindh (SUÉCIA), Cláudia Guerreiro, Filipe Quaresma, Nevada Hill (EUA), Pedro Zamith, Margarida Borges, Jarno Latva-Nikkola
(FINLÂNDIA), Silas, André Ruivo, Rita Braga, Susa Monteiro (BEJA!) e Valério Bindi + MP5 (ITÁLIA)... mis

turados por unDJ MMMNNNRRRG.
\\\
Lançamento e Exposição dos originais no Festival de BD de Beja (28 Maio a 12 de Junho 2011);  CRACK 3D 2011 & HELSINGIN 26. SARJAKUVAFESTIVAALIT (5TH SepTemBER - 1ST OCtoberrr) then M¨¨älmo /ISV (14th October - 4th November) ; TEXXXXXXXXXXXAS ... 666 de April 2012 :;:;:;:;:;:;: PORTLAND at floating world comics 777 june 2012;; BReiZZZIL (808 2012 na PREgO); Barcel0na at FATbottom Books  (marÇho 15thmarch a 11 maio 2013) y SS. paulo no UGRA zine FesT (6-7abril2013).

...
... 160 p.
16,5 x 23cm p/b, capa a cores ... Capa & Design: Margarida Borges ...
Retratos mutantes dos __________________ autores: João Paulo Nóbrega ... apoios da Bedeteca de Beja, Instituto Português de Juventude, Sociedade___________Finlandesa de BD, Sociedade Sueca de BD,
Wormgod e You Are Not Stealing Records.


!!!) talvez ainda haja exeMPLares  § na, Munddo Fantasma, na zzzzzDB) und neuroTITAN y RRRRastilhuuu e BLACK_MAMBA_vegan_metal


§
EX

Foi feita uma banda sonora (inicialmente para a exposição
entretanto extensível ao livro) com as colaborações de André Ruivo, Somália, J. Ortega, TendaGruta, Te Voy
a Matar, John P-Cabasa,
J
M
P
, Marte &&&&&&&&& Stealing Orchestra, zZZOUNDZZz, Pepedelrey, Rita Braga, Pedro Sousa, Ondina Pires, Cospe,
 _________ Chiby Shit Plan e Assinante 35278/TW ### é gratis e pode ser descarregada em
You Are Not Stealing Records


valerio bindi + mp5


uganda lebre
ana menezes
lucas almeida
daniel lopes
andré coelho
João Chambel

terça-feira, 1 de julho de 2014

Desde Abajo

Don Rogelio J
Libros Calamidad; 2014

O camarada Rogélio meteu-se em fazer um "comic-book"... Mas assim à séria, não é só o formato da brochura mas também o facto de ter uma BD única no número e ainda por cima de continuação!
Vai-lhe sair do pelo mas para já temos um número! A BD é retro-futurista, suja com "aquele" estilo underground já mastigado, com mutantes por todo o lado e claro um Estado Big Brother. Por isso, é como se passasse nos nossos dias, ou daqui algumas semanas.
O ponto original do universo desta BD, é que Rogélio "prevê" que toda a cultura editada em objectos físicos será proíbida. Uma ideia interessante, se toda a cultura for digital, esta não será mais fácil de editar conforme os caprichos do Poder? E a que não interessa? Não será mais fácil bloquear ou adulterar - lembram-se daquele "forward" em que comparava a palavra "Tiananmen" num Google "normal" e num Google chinês?
Esta BD parece seguir obras anarco-cyber-punk como Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo de Pedro Franz ou Piracy is Liberation de Mattias Elftorp mas mais Rocker... (continua em analógico)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Agarrados ao crack!!


"ils sont fous ces romains"

Curiosamente eu e o Zé Burnay conhecemo-nos já no aeroporto de lisboa, já um pouco atrasados para o check–in… aterrámos no aeroporto Fiumicino e apanhámos um autocarro até ao Termini… No Termini todos os postos de informação tinham um papel na afixado que dizia: “no tram questions!” algo que nos complicou a vida e fez-nos andar pelo menos hora e meia perdidos,  com 2 malas com 20 kilos cada uma de livros… depois descobrimos que o tram 5 que queríamos apanhar era logo ali ao lado.  encontrámos o nosso tram e como bons turistas comprámos um bilhete cada um. Pode até ser paranóia minha mas assim que picámos o bilhete quase  todas as pessoas no interior do tram lançaram-nos um olhar reprovador por  picarmos o bilhete… No caminho do eléctrico até ao Forte Prenestino reparámos que ninguém picava bilhete, decidimos então daí em diante  adoptar essa tradição com orgulho, pois  nenhum de nós queria desrespeitar os bons  costumes locais!!!


FORTE PRENESTINO

Acho que nada nos prepara para o Forte Prenestino, além de ser o maior okupa que já vi, é pelos vistos também  o mais organizado… e ainda por cima é um FORTE!!! Temos que passar uma ponte e tudo!!! À entrada do Forte simpatizei logo com a primeira estátua  que vi...

FOTO ROUBADA NA NET

Depois de poisar a malas (alívio),estávamos nós a beber umas Peronis… Três individuos chegaram perto de nós e perguntaram ao Zé: "your name is Zé Burnay?" Os seus nomes eram Robert Galvish, Tron e Jackob e tinham chegado ontem da Letónia, o Zé já tinha colaborado com eles para a revista que representavam, a Popper Magazine!!

Bebemos umas, e ficámos logo amigos. Ao fim de uma hora tínhamos decidido ir morar todos juntos para uma tenda que a organização tinha arranjado para eles. Poisámos as malas e passámos o resto do dia a comer massas, pizzas, a beber vinho e Peronis e a falar de cócó, desenhos animados, vídeos do youtube e a  fazer  piadas gays acerca de mais logo voltar-mos para a tenda! Robert, Tron e Jackob foram uns bacanos e levaram-nos a visitar pela primeira vez as antigas celas do forte onde iriam estar as bancas… celas cheias de história e fantasmas e um silêncio atordoador, por outro lado nas paredes do exterior do forte  encontrava-mos outro tipo de fantasmas que por lá também tinham passado e deixado a sua marcas, tais como: Blu ou Aleksander Zograf entre milhares de outros…o Crack é um festim para os olhos…

FOTO DA PRIMEIRA NOITE, CEDIDA POR ROBERT GALVISH O AUTOR PILINHAS
    

 9º Festival Crack - Fumetti di Rompenti

Acordámos a fazer sauna na tenda por volta das 8 horas da manhã, tomámos duche de água fria e fomos os conco tomar pequeno-almoço. o pessoal da Popper é muito criativo e passavam  o tempo a criar historias absurdas que dariam BDs brutais… para nos entretermos Tron sacou do seu diário gráfico e ensinou-nos um jogo muito simples que costumavam jogar entre eles.  Escolhe-se uma letra do alfabeto, escreve-se a letra no cimo da página, e de seguida cada um desenha algo que comece com essa letra, pode-se fazer um desenho de raiz ou acrescentar qualquer outra coisa no desenho de outro  sempre respeitando a regra da letra escolhida. Embora só tenha feito uns rabiscos bem toscos, foi bem fixe ter participado, curti bastante do resultado e do clima descontraído da brincadeira. Assim que as catacumbas abriram, desempacotámos os livros das malas e montámos a banca da Chili Com Carne, mas por uma questão de logística acabámos por ter de dividir o nosso espaço com uns suecos de Estocolmo, a sua editora chamava-se Hockey Rawk, o cabecilha da banca chamava-se Peter Larsson e juntamente com ele estavam três suecas, que vinham tocar ao vivo no festival , no primeiro dia  o livro AcontorcionistA foi o que mais fez furor, os casais de italianos eram os primeiros a ficar  entusiasmados  com o conteúdo do livro e do calendário, fiquei até com a sensação que alguém na Chili terá mergulhado os livros em pau de cabinda…

No segundo dia de Crack, acho que conseguimos dormir até por volta das 10 da manhã, a partir das 7 da manhã começámos a fazer sauna e aos poucos o pessoal começou a gemer e a arrastar-se para fora da tenda com o respectivo saco-cama afim de achar uma sombra que não fosse apenas temporária… é sempre chato encontrar uma sombra que só dura 5 ou 10 minutos… o people da Letónia foi ver o mar e dar uns mergulhos, e eu e o Zé ficámos pelas redondezas do Crack, e tomámos pela primeira vez pizza ao pequeno almoço…assim que as celas reabriram organizámos os livros na bancada, o Zé pintou um Chili Com Carne sâtanico na parede e eu espetei com as provas do livro Kassumai numa das paredes.


Por volta das 21h fui ver o concerto das nossas vizinhas suecas artisticamente conhecidas como Hi Says Mole, que tocaram no subsolo... Fiquei curioso porque uma delas tinha-me dito que faziam Pop experimental. No palco estavam três meninas meio Lolitas e com vozes bipolares que variavam entre a extrema doçura de uma criança que pede alguma coisa e uma criança com a birra. Balões de ar foram tocados como se fossem violinos, muitos órgãos de brincar e alguns beats minimais a surgir… curti!! Até porque houve algumas ambiências mais perto do Hip Hop um tanto ou quanto  Beastie… girlz…  De regresso à banca da Chili o pessoal curtiu bué do Love Hole, do Aspiração Horrífica, do Mesinha-de-Cabeceira 23 e claro mais uma vez da AcontorcionistA… O Doom Mountain e as serigrafias do Zé também brilharam. Muita gente passou pela nossa banca na Sexta. Nunca falei tantas línguas… finalmente as Peronis fizeram efeito, o Zé foi pra tenda e fui acabar a noite a beber copos com o Peter Larson e com a Ingrid, uma das miúdas dos Hi Says Mole… Tipos bem porreiros que ao fim da noite já bebiam shots, dos restos das bebidas que outros deixavam nas mesas de esplanada. Foi bem divertido, a merda é que fui pra tenda já de dia…

3ºdia  de crack!!!

FOTO DE DESPEDIDA DOS NOSSOS COMPANHEIROS DE TENDA
De manhã decidimos ir passear por Roma ao calhas, mais os nossos companheiros Robert, Tron e Jackob… Apanhamos um Tram afim de visitar outro okupa ali bem perto, mas estava fechado, decidimos então ir visitar uns parques, comemos melancia, bebemos muita água, rimo-nos e até estivemos a observar um casal de italianos a discutir como se fosse uma peça de teatro, enquanto comíamos um kebab super picante. Às 18h voltámos para as catacumbas, o Crack transbordava de gente, foi a loucura. Directamente da nossa banca pude assistir a um espectáculo de t-shirt molhada masculina, um tipo julgo eu do Dernier Cri encharcava outro com cerveja e perguntava lhe: "you're my friend?"

Nesse mesmo dia também passou pela nossa banca, uma italiana chamada Sheela que têm um trabalho muito interessante, ela adorou e comprou o Love Hole! Pela nossa banca passou também o Roberto Grossi que ofereceu o seu último livro para a Chili.

À meia-noite o people da Popper vieram se despedir de nós troquei um Kassumai por uma serigrafia do Robert , outro Kassumai com uma Poppermag. Do Tron e ofereci um Kassumai ao Jackob porque lhe estava constantemente a nascer ganzas da  barba!!! A sério… ainda assisti a um concerto que afinal não era um concerto mas sim uma peça de teatro disfarçada de concerto, vendemos bastantes livros e fomos para a tenda um pouco mais tristes que nos outros dias (embora houvesse duas fanfarras animadamente a tocar pelo festival..) pois estava quase na hora de regressarmos também.
POPPER Nº4 (TROQUEI PORUM KASSUMAI)

Eu e o Zé acordamos, fizemos a mala e despedimo-nos da nossa tenda. Pizza foi novamente o nosso pequeno-almoço, curiosamente juntou-se a nós um inglês muito simpático chamado Joe Furlong. Estivemos na conversa e ficámos a saber que pertence a um colectivo chamado Minesweeper pelo que percebi,  Joe e o seu colectivo ocuparam um barco e fizeram dele uma residência artística.

Por volta da 16 horas montámos a banca pela última vez, escrevemos num papel "super discount" e vendemos tudo por metade do preço!!! O Mattias Elftorp foi ter connosco para trocar os dois primeiros mega-volumes compilados do Piracy is liberation.

Esgotámos os Mesinhas 23, o Love Hole e os calendários…Por volta das 21h, o Valerio Bindi apareceu na nossa banca e restituiu-nos o dinheiro da viagem, foi pena não ter conversado mais tempo com este homem  grande, uma vez que andava sempre de um lado para o outro…

Por volta das 23h começámos a desmontar a banca despedimo-nos dos nossos vizinhos e lá fomos nós apanhar o tram… Acabamos por passar pelo Termini sem reparar e só demos por isso quando já estávamos a voltar para trás há uns bons 20 minutos… Mais uma vez andámos perdidos,  carregados e stressados.  Acabámos por apanhar um táxi para o Termini, o que foi mal jogado porque já não haviam autocarros à uma da matina e tivemos que gastar 50 euros noutro táxi que não era um táxi, para  ficar umas 4 horas à espera do check-in, e sem tabaco!! Imaginem dois barbudos a dar uma de crava 'tuga à porta do aeroporto a ressacar por cigarros...

Depois ainda houve uma escala de três horas em Zurique onde um expresso chegava a custar cinco Euros e não serviam copos de água sem consumo… Acabámos por não comprar tabaco de novo, e adormecer à porta de entrada, acordámos em cima da hora de embarque. Não estava ninguém nas redondezas, tinham mudado o nosso vôo para outra porta de embarque e lá tivemos de correr para a outra ponta do aeroporto…


 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Vai uma revisão da edição independente de 2012?

O passado

2012 é, pelos vistos, o ano de “nostalgia” ou recuperação do passado, situação inédita na edição independente quase sempre mais interessada em mostrar trabalho novo e seguir em frente... São gestos muito simples mas interessantes de assistir. A El Pep reeditou várias BDs de Fernando Relvas, figura singular na BD moderna portuguesa, publicadas originalmente no jornal Se7e nos anos 80. Sangue violeta e outros contos é um acto de recuperação patrimonial da BD portuguesa que por si só reveste-se de enorme importância. Muitos especialistas da área da BD queixam-se que a BD é uma arte que não tem memória e percepção da sua própria história, situação que para ser contornada passa (também) pela republicação de material antigo. Tal como em 1998 foi a Associação do Salão de BD do Porto que recuperou o L123 (seguido de Cevadilha Speed), eis outra estrutura “amadora” como a El Pep a fazer o papel que as instituições públicas ou as casas comerciais deixaram de o fazer, colmatando (de forma aleatória, ligeira e incompleta) o final do programa de reedição de BDs perdidas em periódicos como a Bedeteca de Lisboa fez de 1997 a 1999 com os sete volumes da Colecção Bedeteca (co-edição com a BaleiAzul). Felizmente o esforço da El Pep já ganhou algum respeito institucional ao receber o “Prémio Clássicos da BD” na BD Amadora.

Comemorou-se os 20 anos de existência dos fanzines Cru e Mesinha de Cabeceira (MdC). Estas comemorações tiveram pesos e medidas diferentes mas em comum trouxeram novos números de cada título. O Cru teve como último número o 13 – saltou o 12 não se sabe bem porquê – em 1999! Em 2012 volta com o número 34 e uma festa algures num bar do Porto. Alguém, uma vez disse-me que as bandas Punk e Hardcore são como as baratas porque podem estar inactivas 10 anos ou mais mas depois voltam sempre! Acho que se pode incluir o Cru nesta metáfora… Resta acrescentar que o Cru disponibilizou na plataforma em linha issuu.com os números antigos dos tempos gloriosos da fotocópia (ver http://issuu.com/esgar).

O MdC só esteve inactivo entre 1997 e 2000, 2006 e 2009 e em 2011. Este ano voltou com dois números, o 24 que saiu antes do 23. O primeiro a servir os propósitos do seu editor sobrevivente, e este vosso escriba, Marcos Farrajota, para publicar as suas BDs autobiográficas. O 23 tem como objectivo a celebração dos 20 anos de existência do zine, tendo compilado um pequeno (em formato) mas grosso (em nº de páginas) volume de BDs essencialmente narrativas e de autores portugueses. Era para ter sido um número de despedida do título com o editor fundador Pedro Brito nos comandos mas nada disso aconteceu… como é normal nos fanzines, é o “erro” que proporciona dinâmica e criatividade. De realçar a curiosa exposição patente na Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos que faz uma retrospectiva do MdC mostrando originais, zines, maquetes desde 1992 até aos dias de hoje, possibilitando uma discussão sobre os meios de produção de BD e a influência das técnicas digitais nos últimos 20 anos - mas tal não aconteceu, os únicos comentadores interessantes da miserável cena bedéfila não comentaram absolutamente nada até à data de fecho da exposição. Se calhar os 20 anos do Mesinha não têm interesse para ninguém excepto para os seus próprios editores e autores...

A carismática revista norte-americana Journal of Artist Books (JAB) no seu número 32 dedicou as suas páginas aos livros de artistas portugueses. Sob a batuta de Catarina Cardoso, foram publicados vários artigos e estudos relacionados sobre o tema como a Po. Ex. ou a Alternativa Zero. O mais interessante é o ensaio de Pedro Moura que analisa os trabalhos de André Lemos / Opuntia Books, José Feitor / Imprensa Canalha, os heterónimos de Tiago Manuel, e algumas experiências de Jucifer e José Carlos Fernandes. Lançado em Lisboa, com a presença do editor Brad Freeman, foi constrangedor o ingénuo apelo de Isabel Baraona (artista que fez a capa e um suplemento no JAB) para um maior contacto ou intercâmbio entre artistas que façam livros, sendo que a artista afirmou não sabia que poderia haver tantos artistas a produzirem este tipo de objectos. Sempre desconfiei que o mundo dos livros de artistas era um mundo elitista (materiais caros, feitos por artistas profissionais, distribuição em galerias e o mundo institucional da Arte, dirigido para o mercado coleccionista) em oposição a dos zines que privilegia uma comunicação democrática pelos seus materiais baratos de impressão, amadorismo e/ ou sujidade gráfica, pelas regras quase dogmáticas de intercâmbio entre editores, alguma recusa em fazer lucro para não comprometer a criatividade e ausência de interesse comercial,… Afinal o que custa trocar meia dúzia de fotocópias por outras? Ambos interlocutores recebem em troca inesperadas mensagens artísticas, políticas, sociais, etc… Ora se um livro de artista tanto pode custar 250 euros como 10 euros, estará Baraona disposta em trocar um livro que vale 250 por um de 10 replicando os sistemas da mail-art ou dos zines? Eu duvido muito... Mas entretanto arranjou uma solução que poderá ter interese de futuro: a Portuguese Small Press Yearbook, uma plataforma online de divulgação de edição independente que poderá ajudar a ter uma visão mais alargada da produção portuguesa, embora o acervo para consulta pública destes objectos continue a ser na Bedeteca de Lisboa - que finalmente começou a catalogar alguns destes "estranhos objectos".




O presente

Este ano, demos conta dos seguintes projectos de continuidade: O filme da minha vida (1 volume – António Gonçalves) pela Associação Ao Norte; Zona BD (2 volumes); É fartar Vilanagem! (1); Tertúlia BD’zine (12); BDJornal (1), Lodaçal Comix (3), Buraco (3) e um Efeméride (1).

As editoras que continuaram em actividade foram:
- Chili Com Carne com Mystery Park (livro de desenhos de André Ruivo), Inverno (Mesinha de Cabeceira #23, antologia de BD), O Hábito Faz O Monstro (de Lucas Almeida) e Love Hole (de Afonso Ferreira).
- El Pep – o já referido livro do Relvas e ainda Psicose de Miguel Costa Ferreira e João Sequeira;
- Firma: Circle Cycles Circuits de Dunja Jancovic;
- Oficina do Cego: Sarilhos (de André Lemos) e e o colectivo Faca Romba;
- Kinpin Books: O Baile de Nuno Duarte e Joana Afonso;
- MMMNNNNRRRRG: outro volume da série a AcontorcionistA, de Grupo Empíreo, Claim Against Fame (de Alexander Brener e Barbara Schurz), Mesinha de Cabeceira #24 (de vários artistas) e Inferno (de Marcel Ruijters);
- Polvo: Hän Solo de Lacas e Três Sombras de Cyril Pedrosa;
- Libri Impressi – o quarto e final volume da série Lance.

Regressaram às lides a Imprensa Canalha com Estátua Falsa, graphzine de Tiago Baptista e Sobrevida de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa; a Mundo Fantasma com Diário Rasgado de Marco Mendes e a Montesinos com VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL) de Pedro Moura e do grego Ilan Manouach; os zines Kzine e Funzip do Grupo Entropia; Cleópatra de Tiago Baptista – este último sob o selo Façam Fanzines Cuspam Martelos lançou outros títulos – e ainda o artista João Fonte Santa editou o zine Crianças Grandes brincam com brinquedos grandes.

As novidades deste ano foram: Death Grind e Doom Mountain de Zé Burnay, Drei abhandlungen zur sexual theorie (Dildo Doodles) de Ana Menezes, Magical Otaku (um número) de Rudolfo, Leopardo Surdo pela Stepping Stone, Enjôo da Invocação e Innermath / Megafauna de João Machado e André Pereira pelo Robô Independente e Clube do Inferno, Prosjektet Ragnarok de Tiago Araújo, Landing of the mothership de David Campos e saíram vários graphzines, dois títulos do ilustrador Esgar Acelerado e outros de vários outros artistas. É ainda digno de referência o Nicotina’zine que se dedica à Poesia mas incluiu nas suas páginas ilustração e um BDs do sueco Lars Sjunnesson e de João Chambel.

Manteve-se uma actividade mais ou menos normal, sólida e com novidades e regressos. Diria que foi um ano desde já positivo sobretudo porque tem solidificado um regresso à BD por uma nova geração com muito talento e vontade de fazer – e melhor ainda com capacidade de fazer – são eles: Afonso Ferreira, André Pereira, Rudolfo e Zé Burnay, verdadeiros "Chavalos do aPOPcalipse" nesta nossa sociedade de Anorexia, Smart Shops, Holiganismo e Cancro.

Os eventos especializados foram: Feira Laica (duas edições), Feira de Publicação Independente (duas edições, em Abril e Maio no Porto), Feira de Edição Independente (Novembro no Porto) e a Feira do Livro de Poesia e BD (desde Outubro todos os sábados em Lisboa). Sendo ainda possível encontrar em eventos de BD (MAB Invicta, Festival de Beja e BD Amadora), cinema (Fantasporto, Cinanima), Música (Rescaldo, SWR, MIA, Xjazz, Poetry Slam Sul) e em faculdades de artes com iniciativas como a Comunicar:Design (Caldas da Rainha) e a Books made friends (ESAD/ Matosinhos). A moda do “livro de artista” gerou os eventos O que um livro pode (Lisboa) e Pa/per View (Porto). De realçar o fim da Feira Laica após 8 anos de importante actividade.

A nível internacional é de se referir imediatamente o livro a solo de André Lemos produzido pelo atelier francês de serigrafia Cotoreich, Woofer Takeover Jubilee. De resto a participação de autores em publicações estrangeiras parece ter aligeirado, embora as Ediciones Valientes tenham feito um especial El Temerário com ilustração portuguesa. No espanhol zine Kovra aparecem Ricardo Martins e Rudolfo, na antologia sueca do Festival Alt Com, No Borders, está Marcos Farrajota e André Lemos; para o zine francês Gestro Club participa David Campos. Apesar de tudo a presença portuguesa em vários eventos internacionais não diminuiu, especialmente com a Associação Chili Com Carne a servir de embaixada para a produção nacional, tendo material representado em Fanzines! Festival (Mediateca Marguerite Duras, Paris), Festival Crack (Roma), Angoulême Fuck Off (França), Edita (Espanha), Libros Mutantes (Madrid), Tenderete (duas edições, em Valência), Maravilloso Encontronazo de Autoedicíon (Madrid), Festival de BD de Helsínquia e C.A.T.A. (Timisoara, Roménia). Com exposições esteve no Not Tex Not Mex (Denton, EUA), na loja Floating World Comics (Portland, EUA), Alt Com (Malmö, Suécia) e loja Prego (Brasil).

Por Portugal passaram vários autores estrangeiros com ligações a produção independente: ruGGGero (Itália) para realizar uma serigrafia com o atelier Mike Goes West, Kai Pfeiffer, Lars Henkel (ambos da Alemanha), Dominique Goblet, Olivier Deprez (ambos da Bélgica) no MAB, Dice Industries (Alemanha), Albert Foolmoon, Ar-Decó (ambos de França), Andrea Bruno (Itália), Dunja Jancovic (Croácia / EUA) na 20ª Feira Laica, Baudoin e Fabrice Neaud (ambos de França) na BD Amadora, a norte-americana residente na Europa Julliacks num evento promovido pelo espaço cultural Flausina; e na última Laica regressaram Dice Industries, Martin López Lam (Peru / Espanha) e Mattias Elftorp (Suécia) e estrearam-se o colectivo Tonto (Áustria), Zulo Azul (Espanha) e Marcel Ruijters (Holanda) que também estará no Porto para uma exposição na loja Mundo Fantasma no âmbito do livro Inferno lançado pela MMMNNNRRRG e a serigrafia pelo Mike Goes West.



O futuro

Têm-se discutido imenso na arena global sobre questões digitais dos livros, o que tem dado “megabytes” de discussão por todo o lado. O que se passa com os negócios do “visual e textual” é o mesmo que aconteceu com a música e a popularização da internet nos finais dos anos 90: assistimos à desmaterialização de objectos, ao aumento de capacidade de pesquisa e encontro de informação e de objectos, à multiplicação do espectro de gostos, escolhas e conhecimentos, à destruição dos elementos intermédios entre o produtor e o consumidor (editores, promotores, críticos), à participação activa na promoção e discussão de obras, ao financiamento de produção de obras pelos consumidores, à destruição de grandes estruturas físicas de divulgação cultural (cadeias de lojas), à hipótese de uma criação existir exclusivamente em digital e nunca ser editada em fisicamente, à hipótese de ficheiros serem multiplicados até ao infinito ou até ser gravados / impressos fisicamente com tecnologia caseira,… O que se tem passado nos últimos anos com o “livro” no meio da revolução digital são as reacções de macro-agentes em similar agonia como as editoras fonográficas nos últimos 15 anos: as guerras “amazónicas” e “googlinas” entre os virtuais e as lojas físicas e editores, o desfasamento das leis de direitos de autor perpetuadas por organizações anacrónicas como a nossa SPA, as discussões sobre o direito de empréstimos de ficheiros de “e-livros” nas bibliotecas públicas, os códigos de protecção DRM, etc…

Escrito assim até parece que o “mundo vai acabar” com esta revolução digital. É certo que há alguns tipos de livros que parecem ter um final certo no mundo físico. É o caso das enciclopédias e dicionários (que estão sempre actualizados algures na ‘net), os livros técnicos e científicos (também actualizados em digital e até com possibilidades de aplicações media que facilitem a compreensão para leigos), os periódicos e os “best sellers” pelo facto de serem produtos baratos (sendo que é indiferente para o consumidor que espécie de formato ou cópia que consegue arranjar desde que o leia o mais rápido possível enquanto é uma novidade)… Parece estranha esta combinação de “livros a desaparecer”, de um lado estão produtos eruditos e científicos e do outro produtos de consumo popular, “trashy” e “Pop” mas a questão digital passa por questões de formatos e não tanto pelos conteúdos. Daí que haja um grupo de livros que não terão uma desmaterialização (tão rápida?) como outros, é o caso dos livros de fotografia, design, arquitectura, desenho e… BD! Um exemplo mais simples de provar é que a pesquisa de referências visuais num livro não é feita da mesma forma como se procura uma palavra num texto (seja ele num ficheiro, num computador ou na internet) por mais se faça indexação. O formato de livro físico permite uma procura mais rápida e prática (manual) de uma imagem do que “folhear” num livro electrónico. O ecrã também não permite o mesmo usufruto das imagens – como acontece com os álbuns de arte que devido à sua dimensão conseguem transmitir uma maior força emotiva do que qualquer ecrã.

Talvez isto explique o interesse das grandes editoras pela BD nos últimos anos. Se por um lado deve-se ao facto da BD ter atingido uma idade madura de propostas de temas longe do simples entretenimento infanto-juvenil, creio que a outra parte passa pela necessidade de vivermos uma sociedade virada para a imagem, sendo necessário encontrar cada vez mais livros que sejam “visuais”. Em Portugal, este fenómeno pode-se verificar de uma forma mínima e recente com o interesse da Contraponto (uma editora fachada do grupo Bertrand) que editou o Persépolis de Marjane Satrapi e o Funhome de Alison Bechdel, livros aliás premiados e com sucesso de público há vários anos nos EUA, França, etc… Também é verdade que a BD servirá para alimentar as bolhas de investimento das grandes editoras que não poderão alimentar mais livros de Códigos Da Vinci, Vampiros, Anjos, Gatinhos e outras palermices. A BD está a ser a grande novidade editorial e que irá comer o bolo da produção nos próximos anos. Um sonho de muitos nós, amantes da BD, só que é pena é que as BDs que irão surgir serão tão fúteis como qualquer outro “best-seller” – basta consultar aquela parvalhona do cancro da mama editado pela Asa há dois anos atrás, por exemplo – nem todos podem ser profundos como o Joe Sacco ou como o Baudoin.

Entretanto, a defesa do formato físico do livro não vive do fascínio e da moda nostálgica que se assiste nos dias de hoje, do regresso às técnicas tradicionais de impressão (ou do livro de artista). Os pontos de defesa são conhecidos, os livros físicos (e especialmente impressos em serigrafia, gravura, tipografia, etc…) são mais tácteis, olfactivos, etc… ou seja mais sensoriais que os assépticos “tablets” e quejandos, para além de permitirem ter tamanhos e formatos extravagantes (inacreditavelmente minúsculos como o Pecaritchichi do João Bragança ou gigantescos como Sarilhos de André Lemos) condicionando as formas de leitura – algo que os “electrónicos” não podem fazer, ou se podem modificar a forma de leitura passa pela interactividade e pela navegação.

No caso da BD por ser intensamente visual e gráfica, a impressão e o design dos livros influenciam a leitura da obra, e por isso está neste grupo de livros difíceis de desaparecerem mesmo que os “webcomics” tenham começado a tornar-se um hábito de leitura e até de produção de qualidade como prova o actual “work-in-progress” Margem Sul de Pedro Brito, no sítio P3 do Público.

Encontramo-nos num ano em que muitos periódicos já acabaram ou anunciaram o final da sua versão física para entrarem exclusivamente na edição digital. Já se falam em “best sellers” digitais bem como histórias de fama e riqueza de autores publicados apenas em digital. Mas não podemos esquecer que a “literatura popular” pode ser lida tanto em edições “deluxe” como na mais reles reprodução fotocopiada / pirateada (como acontecia com o movimento “samizdat” nos tempos soviéticos da Rússia) porque são livros que vivem um momento de história/ histeria para serem esquecidos pouco depois. Há todo um grupo de “long runners” que parecem estar esquecidos nas eufóricas discussões sobre o “fim do livro”.

As quebras de vendas do mundo físico estão a forçar a uma redefinição das regras do mercado editorial, juntando à conjuntura económica de crise que se vive, têm-se assistido ao estreitar dos serviços criativos – cada vez menos e cada vez mais mal remunerados, serviços mais baratos de produzir, e consequentemente com menos qualidade... O que tem levado muitos artistas a procurarem na auto-edição ou a edição independente numa forma de preencher as suas necessidades artísticas e até económicas. Um exemplo, se vender uma ilustração a um jornal têm-se mostrado complicado e mal remunerado, alguns artistas perceberam que podem vender os seus desenhos em linha ou imprimirem múltiplos: serigrafias, gravuras, glicées, canecas, t-shirts, cuecas, e claro, livros ou zines em edições limitadas ou em sistema de “print on demand”. Também devido à crise económica, a compra de arte têm-se retraído e ao que parece os coleccionadores têm encontrado nos múltiplos (como os livros de artistas, cartazes, serigrafias) uma espécie de sucedâneo às peças artísticas originais (como telas). Toda esta combinação de factores tem mostrado um activismo sobre a publicação e o livro, fazendo surgir novos talentos ou regressar alguns velhos autores a trabalharem em objectos gráficos cada vez mais sofisticados e aliciantes, tal como aliás se pode verificar na 20ª Feira Laica (Jul’12) em que se sentia uma energia muito intensa no evento, nunca antes tão cheia de novidades e novos projectos editoriais – há quem diga que foi pelo facto de se ter quebrado com a tradicional residência na Bedeteca de Lisboa (que acontecia desde 2005) mas não acredito que tenha sido pela mudança do espaço físico apenas que aconteceu toda aquele entusiasmo que aliás, prolongou-se até à última e 21ª Feira Laica (Dez’12). Há um rejuvenescimento a acontecer na edição independente e na BD portuguesa em que a piada aos “Chavalos do aPOPcalipse” não é assim tão inconsequente como possam julgar à primeira…

Há luz neste anunciado apocalipse da revolução digital. O formato físico e a edição independente, combinados ou não, são opostos a todo este imediatismo tecnológico – mesmo que muitas vezes a produção de edições independentes venham de ânsias de publicação dos artistas e editores. Muitas vezes quando falo da MMMNNNRRRG costumo dizer que é uma editora "slow food", de livros que têm de ser degustados e não engolidos à alarve como a "fast food" que bem sabemos nos faz mal à saúde e destrói o planeta. Entre a McDonalds ou a Leya, entre a Nestlé e a Marvel, venha o Diabo e escolha.

Apesar da edição independente sofrer de um processo de promoção e comercialização lento e tortuoso, depois de se varrer o lixo, será ela a “vencedora da História”, como aliás sempre aconteceu no passado.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Boa Laica, boa Laica, boa Laica, boa Laica, boa Laica, boa Laica, boa Laica, boa Laica...

Que a última Feira Laica tenha corrido muito bem já não é novidade para ninguém... Mais visitantes do que nunca - e visitantes compradores, diga-se! -, maior presença de autores / editores nacionais e estrangeiros, etc, etc... mas o mais importante que quantidade é a qualidade. E nunca antes se viu tantos objectos que desafiam as prateleiras das lojas com tão bom aspecto e conteúdo. Quero aqui fazer com este "post" um realce a algumas das edições que mais me impressionaram:

1) Platypus Collective - são ilustradores para a infância que decidiram unir-se e rentabilizar trabalho criando um zine para crianças (até aos 10 anos). Apesar da minha vasectomia irreversível e a frieza que tenho em relação à ilustração para crianças que geralmente aparece fiquei deveras impressionado de haver um zine para putos (já com 6 números) com um tom gráfico divertido e curtido! De negativo algumas BDs que tem erros técnicos de leitura (balões de resposta antes da pergunta, por exemplo) e alguma legendagem de díficil leitura. Têm melhorado de número para número... muito fixe e algo oposto ao que se normalmente se vê por aí...

2) Transgressions (Wormgod; 2012) é o novo livro do Mattias Elftorp em colaboração com Sussane Johansson (elementos visuais) e Feberdröm (música) que conta uma parábola de transformismo meta-radical, que longe das magias divertidas de Alan Moore ou Grant Morrison, é tão eficiente que nos enche de esperança sobre esta coisa horrível chamada Humanidade. é um conto anarquista brutal numa Era que precisa de alguma Poesia... De realçar o novo estilo gráfico de Elftorp que largou a tinta para deixar o lápis fluir mais. O livro é acompanhado por um CD de música Noise, verdadeira banda sonora da BD. Muito bom!

3) O novo número do El Temerário! É o 8, editado como sempre pelo Martin López Lam via Ediciones Valientes que repete as fórmulas do seu "graphzine" excepto que neste número fez um "dossier" dedicado à ilustração portuguesa em que vamos encontrar os nossos associados André Lemos, Margarida Borges e Bruno Borges, entre outros... Inclusive Lemos fez a capa que se transforma num fantasmagórico poster (imagem ao lado). Que bueno!

4) Doom Mountain #1 de Zé Burnay é um "comic-book" deste novo autor de BD - e criador da imagem desta última Laica. Burnay faz parte de uma nova geração de autores de BD portugueses - onde se inclui Uganda Lebre, Rudolfo, Afonso Ferreira e André Pereira - que desenham como coelhos se reproduzem, em estilo que pisca olhos a estilos gráficos comerciais e de autor, e que contam histórias igualmente em terra de ninguém. Talvez o mundo tenha mudado e as pessoas estejam mais inteligentes e mutantes, não sei... Nesta BD, que é de continuação, temos uns ganzados que tentam sobreviver aos ataques de Zombies feitos de Cannabis! Não é só para quem curte ouvir os Weedeater ou até os Black Bombaim... Fuuuuuuck!

5) E por falar em André Pereira, este com João Machado fizeram um split'zine de BD bem fixe! Se os nomes em cima revelam uma lufada de ar fresco na estafada BD portuguesa, este Inner Math / Megafauna (Clube do Inferno) têm pinta de furacão Sandy! Machado escreveu, Pereira desenhou em dois estilos diferentes que aumenta a confusão de referências anteriormente citadas. Agora sinto que estamos entre os números do comic-book Epoxy, Rick Veitch, José Feitor e Kevin O'Neill... Não é fatela comparar a estes nomes todos porque há aqui um estilo a formar-se que em breve poderá chamar-se de André Pereira. De resto, o "split'zine" é antes um "flip'zine"  porque lemos duas BDs que se complementam ao termos de virar o zine para poder ler um dos "lados". Boas ideias e bons desenhos, o que se pode querer mais?

6) Não curto a onda dos graphzines ou de fotografia mas achei piada ao CVTHVUS, zine que prova que o mundo digital foi feito para admirarmos o gatos e os dois primeiros livros de Spurenelemente novo projecto dos alemães Dice Industries e Andrea Schneider, que produzem brochuras com fotografias encontradas - como as férias de um casal na Jugoslávia em 1986 - Jugoslawien'86 - ou de outro casal sempre acompanhados por um cão - About a dog. Funny stuff...

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

ccc@alt.com.2012

Os nossos autores André Lemos e Marcos Farrajota (imagem) irão participar na antologia do próximo Alt Com, festival de BD (fortemente politizada) em Malmö (Suécia) em que este ano é dedicado ao tema "No Borders". Nas suas páginas vamos encontrar outros autores que já publicamos no passado como Valerio Bindi, Vladimir PalibrkAleksandar Opačić e Anna Ehrlemark, além de alguns autores já nossos conhecidos como a finlandesa Terhi Ekebom (Quadrado, Salão Lisboa 2005), os suecos Susanne Johansson e Mattias Elftorp (ambos da Wormgod), o sérvio Radovan Popović e a croata, residente nos EUA, Dunja Janković que nos visitou na última Feira Laica.

Como o cartaz dá a entender também haverá uma exposição com trabalhos de Ana BiscaiaAndré Coelho, André Lemos e Jucifer - estando estes dois últimos presentes no evento!

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A sul, a centro e a norte...

Recolha de resenhas rápidas de zines e livros adquiridos nos últimos tempos...


- Espanha: Entroñable (2012) - zine de BD de El Rucio que faz juz à estética satânica do selo da Petit Comité del Terror. Em 36 páginas A5 há espaço para serial-killers, mass-murderers, onanismo inter-dimensional, artsy-fartsies, metaleiros, zombies, barcelona bashing... O que é preciso mais? Nada! É mesmo isto!


- Itália: Mais duas experiências de "remix narrativo": Bio Edificio 421 (Lök; 2012) e o número 3 de Giuda : Geographical Institute of unconvencional Drawings Arts (Mirada; 2011). A primeira é um jogo narrativo composto por três tiras por página que podem ser folheadas cada uma à sua vez, criando várias hipóteses de ler histórias. Interessante. A segunda é uma revista de psico-geografia por onde passa o futuro da BD, em que Milwaukee é nova paisagem escolhida para recolher material gráfico e narrativo para criar um só texto. Quem está por detrás disto são alguns conhecidos nossos: Gianluca Costantini (Mutate & Survive), Elettra Stamboulis e cia. A seguir com muita atenção!!!
Ruggero passou por Lisboa e dedicou-lhe uma serigrafia impressa no Atelier Mike Goes West... Além de ilustrador também edita uns mini-zines, na essência uma colecção de A3 dobrados de forma a criar graphzines ou pequenas narrativas com imagens. Participa gente que cola, desenha e pinta. Giro! Nada de novo até o Geral & Derradé fizeram isso nos anos 90! Ah! o projecto chama-se Muservola Edizioni é de contactar ou fazer igual!

Passamos agora para a Europa Central:



Bélgica: Da parte flamenga, com uma actividade singular nos últimos anos, surge um jornal de desenho dirigido por Ward Zwart (que participou no esgotadíssimo MASSIVE). A preto e branco talvez porque se intitula Sans Soleil, este primeiro número é dedicado a desenhadores belgas / flamengos por causa do convite da Bélgica para o Festival de BD de Helsínquia... Era bom que os jornais fossem assim! OFERTA de exemplar a quem adquirir algo "belga" da nossa loja virtual - dicas: Mesinha de Cabeceira Popular #200!, Lointain, Rotkop,...




- Holanda: Já não é segredo nenhum que a MMMNNNRRRG irá editar um livro de Marcel Ruijters... Mas não será o Sine Qua Non (Forlaens; 2011) nem Colare Humanum Est (Le Garage L; 2011) será melhor... claro! O primeiro livro é uma edição dinamarquesa do livro que mudou o estilo de BD a Ruijters - alguns devem-se lembrar de alguns livros editados em Portugal pela Polvo, não? - originalmente editada pela prestigiada francesa L'An 2, apresenta-nos Marcel fascinado pelo imaginário medieval cheio d emonstros mitológicos e freiras borregas - como aliás, são todas as freiras... O segundo livro é um livro de colorir desse novo estilo gráfico de Marcel. Quem tiver preguiça para riscar livros que espere pelas serigrafias que serão impressas no atelier Mike Goes West (para sairem em Dezembro na próxima Laica e exposição do autor na Mundo Fantasma) que estas terão muita cor!


- Alemanha: A Bon Gout (para quem não se apercebeu mas era uma atelier de serigrafia, editora e galeria bastante reconhecida) mudou de nome e agora é chama-se Re:Surgo! e já começou a mostrar o que vale com o novo livro de Atak intitulado de Targets for the modern home. Trata-se de uma catálogo das centenas de desenhos de placas de alvos que Atak fez. Primeiro Atak fez uma pesquisa à iconografia destes objectos (algo que pode ser absurdo mas só o atak para descobrir uma grande história sobre estes objectos mundanos) e depois começou a produzir os seus próprios alvos que são certeiros à decadência do mundo moderno. Simples. Danke Lars Henkel

Por fim, o norte da Europa:



- Dinamarca ainda, Regression (Cult Pump; 2012) é um livro em serigrafia de Zven Balslev - autor já publicado em Portugal via Opuntia Books. Inclue BDs cuja ausência de figuras humanas lembra Kai Pfeiffer ou uma experiência oubapiana de Ilan Manouach - uma BD do Petzi-sem-o-Petzi... Um graphzine cheio de ectoplasma!



- Noruega: Embora Martin Ernstsen seja norueguês vive em Berlim mas acho que não há problemas em colocá-lo aqui, até porque o rapaz não pára quieto e viaja para montes de sítios. Este zine, You're talking with the wrong person #3 (2012), é uma compilação de BDs autobiográficas de Martin, nelas podemos encontrar episódios fabulosos como uma tipa que lhe compra uma t-shirt durante a SPX de Estocolmo, despe a velha (não tem soutien!) e veste a nova t-shirt em frente dele e no meio do evento... Só por isso vale o zine! HRMF! (2010) e Pfft! (2012) ambos pela Dongery com BDs de Sindre Goksøyr são mini-zines que o universo Disney é abusado para contar histórias mal-humoradas de caminho à andropausa, como se o Tio Patinhas invés de ser um porco capitalista fosse apenas um mitra de classe média. A miséria humana antropomorfizada em patos é linda!



- Suécia : Novo volume de Piracy Is Liberation : Book 011 : Demockracy (Wormgod; 2012) de Mattias Elftorp - que deve voltar à Feira Laica este ano! - começa um novo ciclo desta série anarco-cyberpunk, desta vez fazendo um raíde à Democracia numa altura que em Portugal as chamas já chegaram à Assembleia... Oportuna leitura! Dois novos zines impressos em risografia do novo e activo colectivo Peow!: Nava de Mikael Lopez (a) e Olle Forsslöf (d) é o ínício de uma série com laivos místicos, parece mais um preview que outra coisa... e Sex Frog de Patrick Crotty apresenta duas histórias de terror - o título da publicação ajuda a lubrificar a líbido, não? - que consegue ter uns contornos de Ero Guro não tão selvagens como os do Suehiro Maruo ou do Aaron $hunga mas com uma abordagem própria - como se a treta da escola sueca autobiográfica went wrong! 



- Finlândia: Finalmente um livro de Jyrki Heikkinen com legendas em inglês para percebermos alguma coisa! Leijonan Veri Velvoittaa (Asema; 2012) é um pequeno livro que Jyrki sempre em forma. Escultor e Poeta por formação, faz BD por desvio mas os três "mediuns" fundem-se sem problemas para contar percursos de arrependidos, anjos e milagres. Essêncial para quem perdeu esperança na poesia e na BD! Outro ponto alto das novidades finlandesas é Offices & Humans : Road to Customex (Huuda Huuda; 2012) de Roope Eronen, que inverte os papeis no jogo de personagem (RPG) Dungeons & Dragons... Invés de de "nerds" a jogarem em mundo de fantasia, são os dragões que encarnam as personagens dos humanos em escritórios com toda a decadência mundana que tal implica: fotocopiar CVs às escondidas na empresa, ver pornografia na 'net, etc... Mais do que hilariante é mesmo preocupante! Thingie (Daada Books; 2012) de Marko Turunen (entretanto com originais patentes na exposição da "autobiografia" na BD Amadora) e Tea Tauriainen (entretanto publicada no recém lançado Mesinha de Cabeceira #23) é a continuação estética das "Tijuanas Bibles" ou dos Air Pirates que gozam com as personagens da Disney pondo-os a foder como uns animais - espera, as personagens Disney já são animais... -  a cagarem-se todos e toda a escalologia que os porcos capitalistas da empresa nunca nos deixarão ver oficialmente. Por isso, é aqui que se pode concretizar muitos sonhos de criança e de "nerd"...

terça-feira, 24 de julho de 2012

Tri-Neuro-News

I. O colectivo artístico romeno The Church, ao qual participa Neuro já têm um sítio oficial em linha: biserika.ro - a última entrada mostra a instalação que nos fez para o festival Crack deste ano.

II. O autor também tem em linha as fotografias dos murais que realizou numa "hostel" em Copenhaga, cidade onde reside: dreamdealers.tumblr.com

III. E já que falamos da neuro-instalação no Crack eis algumas fotografias nossas:



Mattias Elftorp e Marcos Farrajota
 

Martin Lam López e Marcos Farrajota


Neuro e M.U.C.S.