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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa



não é o cartaz oficial (não há!?) mas o André Lemos fez um fixe que decidimos roubar para este "post"!

Inaugura no dia 10 de Janeiro (Segunda-Feira) às 19h30, no Museu Berardo - no Centro Cultural de Belém - a exposição Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa comissariada por Pedro Moura.

«Esta exposição visa dar uma perspectiva ampla da criação da banda desenhada portuguesa, procurando o encontro com novos públicos diversificados e expandindo a percepção social desta linguagem. A banda desenhada é sobretudo conhecida como uma linguagem de entretenimento, de massas, afecta ao público infanto-juvenil, sendo muito difícil que alguém não conheça as muitas personagens famosas que compõem essa paisagem cultural. No entanto, tal como em quase todos os outros campos artísticos, a banda desenhada também tem um número de autores que a procuram empregar como um meio de expressão mais pessoal, ou uma disciplina artística aberta a experimentações várias, informadas pelos discursos contemporâneos. Seja pelo lado da escrita, com autores a explorar a autobiografia, uma abordagem da paisagem cultural nacional, problemas de género ou políticos, seja pelo lado da visualidade, explorando novas linguagens, estruturações da página e até graus de abstracção. O mercado de banda desenhada em Portugal, não sendo propriamente forte nem muito diverso, quer em termos de traduções de obras contemporâneas ou históricas quer de trabalhos originais nacionais, é contraposto por toda uma série de experiências em círculos da edição independente ou de projectos alternativos que tem sido um produtivo solo para criadores extremamente interessantes e inovadores.

A exposição presente focará sobretudo autores modernos e contemporâneos – ainda que haja um desvio por dois autores históricos, experimentais na sua época: Rafael Bordalo Pinheiro, o “pai” da banda desenhada moderna portuguesa, e Carlos Botelho, autor do magnífico Ecos da Semana – que procuram elevar a banda desenhada a uma linguagem adulta e inovadora artisticamente. Do desenho suave de Richard Câmara às experiências de Pedro Nora, do minimalismo a preto-e-branco de Bruno Borges à multiplicidade de Maria João Worm, da presença solta de Teresa Câmara Pestana à exuberância das cores de Diniz Conefrey, da austeridade de Janus à vivacidade de Daniel Lima, haverá um largo espectro, ainda que pautado por critérios de pertinência artística, representativo desta área no nosso país. Estarão presentes autores de algum sucesso comercial e crítico (como, por exemplo, José Carlos Fernandes, António Jorge Gonçalves, Filipe Abranches, Nuno Saraiva e Victor Mesquita) e outros autores de círculos mais independentes (de Jucifer/Joana Figueiredo a André Lemos, Miguel Carneiro e Marco Mendes); autores cujas bandas desenhadas parecem obedecer às regras mais convencionais e clássicas da sua fabricação mas para explorar temas disruptivos (como Ana Cortesão, Pedro Zamith e Marcos Farrajota) e outros que as parecem ultrapassar em todos os aspectos (como Nuno Sousa, Carlos Pinheiro ou Cátia Serrão); e ainda artistas que criaram objectos impressos que empregam elementos passíveis de aproximação a uma leitura ampla da banda desenhada, isto é, fazem-nos pensar numa sua possível definição ou apreciação mais alargada (como Eduardo Batarda, Tiago Manuel, Isabel Baraona e Mauro Cerqueira). Nalguns casos, a exploração que os artistas fazem do desenho ganham corpo noutros objectos que não de papel, e que serão integrados nesta mostra (animações, esculturas, bonecos, maquetas, e fanzines-objecto, com larga incidência para aqueles criados por João Bragança).

A lista, que não pretende, de forma alguma, o que seria impossível, ser vista nem como absoluta nem como exaustiva, dos artistas é como segue: Alice Geirinhas, Ana Cortesão, André Lemos, António Jorge Gonçalves, Bruno Borges, Carlos Botelho, Carlos Pinheiro, Carlos Zíngaro, Cátia Serrão, Daniel Lima, Diniz Conefrey, Eduardo Batarda, Filipe Abranches, Isabel Baraona, Isabel Carvalho, Isabel Lobinho, Janus, João Fazenda, João Maio Pinto, José Carlos Fernandes, Jucifer (Joana Figueiredo), Luís Henriques, Marco Mendes, Marcos Farrajota, Maria João Worm, Mauro Cerqueira, Miguel Carneiro, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Nuno Sousa, Paulo Monteiro, Pedro Burgos, Pedro Nora, Pedro Zamith, Pepedelrey, Rafael Bordalo Pinheiro, Richard Câmara, Susa Monteiro, Teresa Câmara Pestana, Tiago Manuel e Victor Mesquita.»

A exposição estará patente até 27 de Março e será acompanhada por um catálogo com textos de Domingos Isabelinho, Pedro Moura e Sara Figueiredo Costa, a ser distribuído pela Associação Chili Com Carne.




Edição Museu Colecção Berardo / Centro Cultural de Belém; 2011
Conteúdos: Reproduções de obras de 41 autores da exposição Tinta nos Nervos. Três ensaios com autoria de Pedro Vieira de Moura, Domingos Isabelinho e Sara Figueiredo Costa. Biografias e sinopse da obra de todos os autores. Textos em português.
Características: 21x27 cm, 396 pp (99 desdobráveis c/ 4 pp.), a cores, papel Inaset Plus offset 60 grs. (miolo), Popset Burgau 240 grs. (capa). Desdobráveis dobrados ao meio e alceados. Serrotados, brochados e aparados. Autocolante aplicado na capa. Design: Barbara says... Exemplares: 1000

quarta-feira, 1 de julho de 2020

DESERTO e NUVEM ... ESGOTADO



Deserto e Nuvem
por

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1 claustro vazio em Évora
1 ordem católica de silêncio e solidão
1 inquérito espiritual
2 livros num só 
20 cartas sem resposta 
Muitas visitas do autor em dúvida

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Sexto volume da colecção LowCCCost editado por Marcos Farrajota com arranjo gráfico de Joana Pires e publicado pela Chili Com Carne.

Dois livros / split-book, 64p  impressas a 1 cor + 124p impressas a 2 cores, 16,5x23cm

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ESGOTADO
talvez ainda encontre exemplares na Linha de Sombra, ZDB, BdMania, Tasca Mastai, Utopia, Stet, Mundo Fantasma, LAR / LAC (Lagos), Matéria Prima, Sirigaita, You to You, XYZ, A Vida Portuguesa UND Modern Graphics (Berlin)

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Lançado no dia 10 de Junho de 2017 na Feira do Livro de Lisboa com a presença do autor (que reside em Inglaterra) 
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Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal
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Prémio Nacional para Melhor Álbum Português e Melhor Argumento pela BD Amadora 2017 
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Melhor Álbum e Melhor Argumento nos Galardões Comic Con 2017
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Escolhas de 2017 no Expresso
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Melhores de 2017 no Máquina de Escrever
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Melhores 2017 no La Cárcel de Papel
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Best Comics of 2017 in Paul Gravett site
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apresentação no dia 9 de Setembro 2018 no Festival Literário de Berlim
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grande exposição na BD Amadora 2018
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Obra seleccionada para Best Book Design From All Over the World, da Stiftung Buchkunst, no âmbito do Prémio Design do Livro 2018 + exposição na Torre do Tombo (entre 14/11 e 31/12/18)
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artigo sobre Cartuxos e o livro no Diário de Notícias
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participação na exposição e catálogo Viagem ao Invisível (2019) coordenado por Luís Santiago Baptista e Maria Rita Pais
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Deserto e Nuvem são obras de longo curso que examinam a forma de vida na Cartuxa de Évora, onde alguns monges resistem aos costumes do mundo, em absoluto silêncio e solidão. Serve este exame de pretexto para focar a própria natureza da fé humana, do apego às coisas do mundo, do que nos faz sentido. 

Deserto é composto de uma única narrativa centrada numa semana passada junto a Scala Coeli (escada do céu), que é como se chama a Cartuxa de Évora. É um livro quase jornalístico. 

Nuvem é composto de 20 cartas endereçadas a um monge cartuxo, e pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé – o extremo que sabe que Deus não existe, e o extremo que se contenta com absurdos.

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sobre o autor: Chamo-me Francisco Sousa Lobo, tenho 43 anos e vivo no Reino Unido, entre Londres e Falmouth, onde ensino ilustração e faço banda desenhada. Já estive do lado dos católicos e dos que renegam as raízes católicas. Agora ando sossegado, sentado numa espécie de muro baixinho, a ler Simone Weil e Kierkegaard. A perspectiva que tenho de cima do muro é curiosa. Tão curiosa que me deu para escrever sem ver que três ou quatro anos se passaram nisto.



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 Acabei agora de ler o Deserto e a Nuvem. O meu obrigado sincero à Chili por tê-lo editado. 
M. Robin (via e-mail, 11/07/17)

Comics making as a form of prayer?

Pedro Moura / Yellow Fast & Crumble

No caminho que levou a Deserto/ Nuvem, que se pressente longo e hesitante (a vários níveis), Sousa Lobo tenta construir pontes frágeis entre estes vários aspectos, como o harmónio de cartão que une os livros. E, sobretudo, procura acreditar nelas. Para além do fascínio com a vida e opções dos cartuxos, e os paralelos que o autor estabelece com a sua arte, este é sobretudo um catálogo de dúvidas sem resposta. Como se duas obras semi-falhadas ou incompletas se resgatassem e engrandecessem mutuamente pela união enquanto gémeas siamesas invertidas; o onirismo poético de uma elevando-se na realidade de um Alentejo moribundo e sem rumo da outra; a qual, por sua vez, ancora a anterior. Na sua construção inclassificável este é um excepcional trabalho de Francisco Sousa Lobo, com elogios extensíveis à Chili Com Carne. Seria uma pena se (como os trabalhos de autores como António Jorge Gonçalves, Tiago Manuel ou Diniz Conefrey) não passasse bem para lá do universo da banda desenhada e dos seus rituais.

João Ramalho Santos in Jornal de Letras

(...) Livro que "pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé", por um lado o "que sabe que Deus não existe" e o "extremo que se contenta com absurdos".
Nuno Galopim in Expresso

el portugués confirma ser uno de los autores más sugerentes del panorama europeo actual. Una obra formada por dos relatos: por un lado, el que realiza sobre la Cartuja de Évora, una magistral reflexión sobre la existencia, sobre el silencio y la creencia, en la que Sousa entremezcla la arquitectura de la página con la real. Por otro, el relato del proceso creativo, de la investigación y de sus reflexiones personales, de cómo la obra puede cambiar al autor.
Álvaro Pons / La Cárcel de Papel

(...) a mais fascinante experiência de leitura de banda desenhada deste ano.
There is no doubt that Lobo’s obsessive and proficient output is even more surprising for both its aesthetic and philosophical commitment. I’ve argued elsewhere that Lobo’s overall project touches an incredibly original and complicated autobiographical or auto-fictional project, but this double book (two titles, Desert and Cloud, bound back-to-back) ticks all the boxes of a straightforward autobiography. Lobo spent some time visiting Évora’s Carthusian Monastery of Santa Maria Scala Coeli, with the goal of creating a sort of ‘live’ comic project. Based on his observations, talks and theological discussions with the monks, Deserto explores issues such as isolation, silence and the relationship with God, which genuinely concern Lobo as an anxious, suffering Catholic artist (a pleonasm, I’m certain). Nuvem, on the other hand, takes the shape of short letters, addressing the history of the order and this monastery, as well as some of the concerns mentioned above. One half complements the other, reinforcing the themes and clearly making them an intrinsic ingredient to the artist’s recurrent obsessions.
Deserto/ Nuvem es realmente una maravilla de Sousa Lobo -¡qué difícil, un cómic sobre la espiritualidad!- y también una maravilla de edición. Os felicito! 
Max (Peter Pank, Bardin, Vapor) por email

Todos os anos vou como um peregrino ao Festival de BD da Amadora (que este ano foi entre 26 de Outubro e 11 de Novembro) para completar colecções, comprar novidades ou descobrir antiguidades, mas desta vez saí de lá mais surpreendido do que o costume com um livro: não levei só heróis habituais como o Corto Maltese, o Árabe do Futuro ou um Paul Auster no saco das compras, mas também monges de clausura visitados por um autor português com raízes no Alentejo que vive em Londres e tem dúvidas existenciais sobre Deus e a religião: Deserto/ Nuvem (editora Chili com Carne) é uma novela gráfica original. Primeiro, porque é dois livros num só, que começam em cada uma da capas, ou melhor, em cada uma das contracapas: Deserto é sobre as visitas do autor, Francisco Sousa Lobo, ao Convento da Cartuxa, e a relação com os poucos e velhos monges com votos de silêncio que ainda lá vivem; Nuvem dá forma a 20 cartas de carácter sobretudo filosófico enviadas a um monge cartuxo; a ligá-los, uma planta desdobrável do convento dá ao livro uma textura de velho incunábulo, de lombada cosida à mão. É um belo objecto.
Mas não só. Sousa Lobo leva-nos em visita aos claustros, aos hábitos dos monges, à rotina e à perplexidade: seja-se religioso ou não, aquelas vidas suprimidas pelo silêncio naqueles espaços deixam-nos incrédulos. Abdicam do humano em favor do etéreo?, questiona o desenhador (e arquitecto) numa das cartas. O próprio autor está em cima do muro entre os crentes e os não crentes, mas tenta compreender o ponto de vista dos enclausurados e exprime um assombro perante aquela resiliência e desistência da vida comum: Há uma nuvem entre mim e os monges, uma admiração profunda deste lado, escreve. Francisco Sousa Lobo ganhou o prémio para o Melhor Álbum Português de BD em 2018. Percebe-se porquê. É merecido.
O trabalho de Francisco Sousa Lobo espelha uma experiência vivencial intensa no plano intelectual e artístico, a de alguém com uma forte capacidade para gerar nexos entre assuntos só aparentemente distantes – uma lonjura que o seu traço e dispositivo narrativo encurtam consideravelmente. Talvez por isso o autor se refira a si próprio como «uma ponte entre a banda desenhada e as outras artes» (Nuvem, carta 18.ª). E talvez o facto de ser um arquitecto tenha qualquer coisa a ver com tudo isto. 
Trata-se de um ilustrador de pensamentos, capaz de desenhar sobre conceitos abstractos, como em Deserto, livro que percorre o fio do tempo e dos gestos que, em 2014 (época já de grande crise de vocações), levaram Sousa Lobo à Cartuxa de Évora para pensar (escrever, desenhar) sobre os lendários monges do lugar. Ou seja, sobre o que levou o autor a querer pensar (escrever, desenhar) sobre a condição do homem que fez voto de silêncio, sobre o que o silêncio faz, sobre como se faz para alcançá-lo, porquê, para quê, tudo isso no desamparo desabafado de quem afirma ter-se sentido «como um clandestino a trepar as escadas para o céu». (...)
(...) um bom domingo antecipa a segunda e pode dar para chorar. Assim como a vida de um monge. Fala de um lugar onde pousar a dor. 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

COMBATE ILUSTRADO


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Lançamento do livro O COMBATE ILUSTRADO
Terça-feira, 26 Janeiro, 19h

na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio
Rua da Achada, 11, Lisboa
(perto da R. Madalena/Lg. Caldas)
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O COMBATE ILUSTRADO
de 1986 a 2007

Mais de 200 páginas com ilustrações e BD's de Alain Corbel, Alice Geirinhas, André Ruivo, Ângelo Ferreira de Sousa, Carlos Marques, Catarina Carneiro de Sousa, Cristina Sampaio, Diniz Conefrey, Francisco Vaz da Silva, Fernando Torres, Fonte Santa, Frederico Mira, Gonçalo Pena, Isabel Carvalho, Joanna Latka, João Fazenda, Jonas, Jorge Silva, Jorge Varanda, José Cerqueira, José Feitor, Luís da Silva, Miguel Cabral, Nicolau Tudela, Nuno Costa, Nuno Gonçalves, Nuno Neves, Nuno Saraiva, Patrícia Garrido, Paulo Cintra, Pedro Amaral, Pedro Burgos, Pedro Cavalheiro, Pedro Pousada, Pedro Zamith, Relvas, Renato, Richard Câmara, Rui Silvares e Vasco.

Coordenação e design: Jorge Silva /Textos: Heitor de Sousa e Jorge Silva /Capa: Rui Belo /Produção: Luís Branco e Tiago Gillot /Fotografia: Valter Vinagre

Versão resumida em pdf aqui.

sábado, 29 de novembro de 2025

O ANDAR DE CIMA - The Upper Room / ESGOTADO


Uma co-edição da Chili Com Carne com a Faculdade de Ciências e Tecnologia e a escola Ar.Co.
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Uma Banda Desenhada de Francisco Sousa Lobo baseada na palestra A Modulação da Tomada de Decisão: Pode o cérebro ser influenciado? ocorrida em Maio de 2014 e com as participações de Miguel Esteves Cardoso, José Manuel Pereira de Almeida, Alexandre Castro Caldas e Nuno Artur Silva.
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20p. 21x27cm impressas a castanho, capa a duas cores.
ISBN: 978-989-8363-28-2
edição em português com legendas em inglês
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new comix by Francisco Sousa Lobo (from The Dying Draughtman fame) inspired in a congress about neurology, in Portuguese with English subtitles. It's about the brain and about a conference on decision that took place at Universidade Nova in Lisbon. It's not institutionaley didactic comics, it's straightforward fiction.
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ESGOTADO mas pode ainda encontrar na Mundo Fantasma, BdMania, STET, Linha de Sombra e Tinta nos Nervos
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buy here or at Quimby's (Chicago), Modern Graphics (Berlin) and Floating World (Portland)







Feedback : 

O autor experimenta diversas soluções para as suas pranchas e revela maestria nas transições entre as vinhetas, sendo extremamente proficiente na enorme quantidade de informação que, também como música de fundo, transmite ao leitor nas poucas páginas que constituem a obra. Aliás, esta aparente (...) simplicidade é um dos grandes trunfos desta banda desenhada, perante o complexo tema que aborda. Mais uma vez, Francisco Sousa Lobo brinda-nos com uma BD que figurará certamente entre as mais conceituadas listas do que melhor se produziu este ano em banda desenhada no nosso país. 
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Un racconto a fumetti insolito da un autore portoghese, creato in occasione di un convegno di neurologia. Il segno scarno e il montaggio ipnotico di Francisco Sousa Lobo riescono a conferire inquietante esattezza a una storia che parla di cervello, paranoia, solitudine e Fado. 
Andrea Bruno na sua escolha de últimas cinco melhores leituras de BD para o Fumettologia 
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N’O Andar de Cima, claro, o protagonista tem que ser velho o suficiente para ter sido apanhado pelos fachos, mas Lobo nasceu em 73. Pode não ser ele. Mas é ele, ainda que tangencialmente. De lembrar que, por exemplo, a história de Zona de Desconforto é autobiográfica a nu, espécie de Art School Confidential com menos tiques e a ir mais fundo: dois dedos de conversa sobre o doutoramento na Goldsmiths e um historial de depressão com um surto psicótico. Não é por acaso que isto nos põe desconfortáveis — ver um gajo desbobinar-se numa bd não é pêra doce —, e somos quase forçados a concluir que aí sim, foda-se, o gajo viveu para contá-la, isto é que é bd. Tanto ele como nós sabemos que não é bem assim, daí as tangentes e as reviravoltas, porque narrar-se é mais do que uma estratégia argumentativa em banda desenhada; é uma estratégia identitária também. 
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Resenha sobre O andar de cima e outros trabalhos de FSL no Ler BD de Pedro Moura 
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nomeado como Melhor Argumento e Melhor Publicação Nacional pelos Prémios Central Comics 2015 
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 un cómic en bitono en el que Sousa Lobo presenta a un hombre que escribe un monólogo que se desarrolla durante todo el cuaderno, en el que profundiza en los temas recurrentes del autor: la identidad, el proceso del pensamiento, y los recovecos de la mente. Es un discurso conexo pero complejo, en el que mezcla a Shakespeare con la neurociencia y que también toca cuestiones interesantes, como la imaginación y su contacto con la alucinación. Se trata de un monólogo de loco —o por lo menos de obsesivo / compulsivo— de raíz muy literaria, pero que Sousa Lobo desarrolla con recursos puramente gráficos, gracias a un dibujo sencillo y al uso de símbolos recurrentes.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Saídos do mês de Abril, 3-zines-3 que mostram que a "cena" ainda não morreu!


Depois dos já memoráveis números únicos de Paint Sucks, Lamb Haert, Hum! Hum! Estou a Ver e Estou Careca e a Minha Cadela Vai Morrer!, os editores / autores Marco Mendes e Miguel Carneiro voltam à carga roubando os autores do catálogo da MMMNNNRRRG: Mike Diana, Janus e André Lemos! Filhas-da-mãe! Mas é melhor assim do que meterem merda! Ah! E ainda contribuem Didi Vassi (esse naif de pacotilha que massacrou os Humanos no Hum! Hum! Estou a ver! - alguém tinha de o fazer!), Mário Augusto (do extinto A Mosca), Manuel João Vieira (dos Enapá 2000), Nuno Sousa e Carlos Pinheiro (ver zine abaixo), João Alves Marrucho, João Marçal e Arlindo Silva, que tal como Didi já fazem parte da equipa criativa dos zines posteriores. Sem papas na língua e com muita força gráfica, o Cospe Aqui retoma a herança do zine potente e com conteúdo polémico - nem que seja pelo óbvio texto sobre "Lusofobia" (dos brasileiros). Impresso e tudo mais, o Cospe Aqui já está a fazer história.



Do colectivo do Porto, O Senhorio, dois autores Carlos Pinheiro e Nuno de Sousa sacaram um zine quase todo a cores que é uma lufada de ar fresco! Mutantes e criaturas miseráveis pupulam o zine em ilustrações, bd's e reproduções de pinturas e esboços de desenhos num ritmo acelerado de bizarria generalizada sintonizada com o melhor que está acontecer no resto da Europa e EUA. A descobrir com urgência!!! [acsenhorio@yahoo.com]


Lançado na tasca bairro-autista Estádio, saiu este "split-zine", do lado "Dazed", o Rafael Gouveia (Carneiro Mal Morto), e do lado "& confused", a Joana Figueiredo (Na verdade tenho 60 anos) é constituído por desenhos vários sem sequência aparente em páginas de pernas para o ar e tudo. Confusão? Sim, sem dúvida. Os desenhos foram feitos em tascas, cafés e bares numa atitude free. Bonecas "dark-sexy" por parte do Gouveia, Deus, Satã e muito non-sense por parte da Figueiredo.

terça-feira, 5 de março de 2024

Renda barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais --- ESGOTADO


volume 14 da colecção Mercantologia, dedicada à recuperação de material perdido no mundo dos fanzines e afins. Editado por António Baião e Marcos Farrajota, design de Joana Pires e co-editado pela Chili Com Carne e o jornal de expressão anarquista A Batalha - no âmbito do seu centenário em 2019.

O presente volume colige a totalidade dos cartoons de Stuart Carvalhais identificados pelos editores n'A Batalha e no seu Suplemento Ilustrado, entre 1923 e 1925.

192p A6 com capa em cartolina, tudo a preto e branco. ESGOTADO mas ainda poderão encontrar na Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia (Porto), Matéria Prima (Porto), Socorro e Linha de Sombra.



Historial:

Foi principalmente no jornal anarco-sindicalista A Batalha (...) que o artista conseguiu transmitir as sátiras mais amarguradas de toda a literatura gráfica portuguesa (...) A miséria atroz, o aspecto macilento da fome, a carga insuportável do trabalho desumano estão presentes em imagens tão particulares e tão universais que só um génio lhes poderia ter dado forma. (...) Porventura a produção mais ignorada de Stuart, aquela que arranca a máscara hipócrita da burguesia liberal, insolentemente triunfante, encontram-se nas páginas de papel de jornal, amarelas e frágeis, das publicações anarco-sindicalistas.
António Dias de Deus in Os Comics em Portugal (Bedeteca de Lisboa + Cotovia; 1997)



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Feedback:

Adoro o livro do Stuart!
Ondina Pires (via email)

Para a maioria dos cartoons, é apresentada uma pequena contextualização histórica para permitir a apreciação em pleno de cada cartoon. Deste modo, há uma tentativa de contrariar a efemeridade do cartoon enquanto crítica social, quando a distância temporal não permite ao leitor a identificação das referências (...) Esta contextualização revela-se de maior importância do que simplesmente colmatar a inexistência anterior de uma antologia que reunisse esses trabalhos.
Nuno Sousa in Bandas Desenhadas

Nunca mais Stuart confrontará o sistema como fez nas páginas do A BATALHA, a denuncia das injustiças sociais, a ganância dos arrendatários, a violência policial, o racismo e o colonialismo. Mas simplicidade poética e humanista de Stuart resiste nas centenas de desenhos, páginas de banda desenhada, pinturas, fotografias e cenografias que realiza até morrer, no ano de 1961. 
 Alguém disse um dia que a História nunca se repete. 
“Renda barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n'A Batalha” leva-me - enquanto cartunista e ilustrador dos dias de hoje - a suspeitar o contrário.
Nuno Saraiva

(...) estes desenhos de Stuart estão no espírito do jornal, (...) e o alvo era o sistema de poder: a falcatrua financista, a amoralidade burguesa e os seus instrumentos : a cozinha política, a autoridade fardada e a Igreja (...)
Ricardo António Alves in I

Um notável trabalho de arqueologia literária. (?)
Jornal de Letras

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Sobre o livro: Quando o nome de Stuart Carvalhais (1887-1961) é referido pela segunda vez no diário A Batalha, a 22 de Fevereiro de 1921, dificilmente se poderia augurar um futuro radiante para o cartoonista nas publicações periódicas ligadas à Confederação Geral do Trabalho. Nessa data, o jornalista Mário Domingues escrevia as seguintes linhas: “O sr. Stuart de Carvalhais, colega de Jorge Barradas, sujeito como este a ser amanhã vilmente caluniado por aqueles que ora o afagam, não se envergonhou de aceitar apressadamente o cargo de director do ABC a rir, sabendo como foi injustamente tratado o que o antecedeu. O sr. Stuart Carvalhais julga os seus actos como entende, bem sei; procede a seu bel-prazer. É possível que considere correcta a sua acção. Eu, porém, classifico-a simplesmente de traição”. (...) Apenas dois dias depois, Domingues retratar-se-ia deste duro julgamento. Alegadamente, o Barradinhas teria mesmo merecido ser despedido, mas isso não impediu o jornalista de sublinhar que “no lugar do sr. Stuart, não [aceitaria] esse lugar, não porque isso acarretasse para [si] rebaixamento moral, mas porque esse acto poderia fazer crer ao público, desconhecedor dos bastidores da questão, que não tinha sido leal a sua forma de proceder”. 

Por esta altura, o percurso de Stuart estava ainda afastado do periodismo libertário (...) tinha já colaborado proficuamente no Século Cómico, O Zé, Gil Blas, A Lanterna ou na Ilustração Portuguesa. Em 1914, contribui para o monárquico O Papagaio Real, sob a direcção artística de Almada Negreiros. No ano seguinte, regressa ao Século Cómico, onde inicia a série «Aventuras do Quim e Manecas», e em 1920 junta-se a Barradas em O Riso da Vitória. Depois de se tornar director do ABC a rir, colaborará no ABC e no ABCzinho. Até que se chega a 1923, mais precisamente a 30 de Novembro, e logo na primeira página do n.º 1539 de A Batalha pode ler-se: “Inicia hoje a sua colaboração em A Batalha o conhecido caricaturista e nosso prezado amigo Stuart Carvalhais, cujo lápis exímio e irreverente irá dar aos nossos leitores monumentos de incomparável prazer. Stuart Carvalhais, cujo mérito está acima dos nossos elogios, principia a sua colaboração no nosso jornal com uma série de desenhos, plenos de graça, de comentário ao caso da falsificação dos bilhetes de Tesouro, que tanto tem dado que falar”. 

Os diferendos entre Stuart e a redacção do jornal estariam, agora, plenamente sanados, iniciando-se uma colaboração de três anos com a Secção Editorial de A Batalha. Durante este período, não houve periódicos que tenham recebido mais contributos de Stuart do que o diário, o Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha e a Renovação. Significa isto que Stuart se teria convertido à Ideia anarquista? Ou que teria passado por uma fase monárquica, por ter colaborado em O Papagaio Real e na Ideia Nacional, de Homem Cristo Filho? Provavelmente o mais sensato será rejeitar qualquer uma destas conclusões apressadas. Talvez Osvaldo de Sousa não esteja muito longe da verdade quando afirma que “Stuart era um céptico na política, um anarquista na destruição ideológica e um político-desenhador na expressão do sofrimento, miséria e vida do povo”. 

(...) Ao viver de avenças, de uma produção de uma “média de 15 desenhos por semana”, certamente que não se pode afirmar que Stuart foi, pelo menos nesta década de 1920, “um homem livre” (...) Stuart foi um fura-vidas, que provavelmente viu nas publicações de A Batalha uma forma de se sustentar a si e à sua família e também um conjunto de jornais e revistas que seriam a casa natural para receber o seu golpe de vista impressionista sobre a desigualdade, a exploração infantil, o desemprego, a fome, a crise da habitação, a mendicidade, a prostituição e a questão feminina. 

(...) Apesar de a colaboração de Stuart se iniciar no diário A Batalha, no qual publicou 23 cartoons até à edição de 25 de Dezembro de 1925, é no Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha, fundado em Dezembro de 1923, que se podem encontrar mais trabalhos gráficos da sua autoria. Ao todo são 66, entre cartoons e ilustrações. 

(...) Stuart não mais regressaria aos periódicos de A Batalha, que passavam por uma situação interna complexa: além da instauração da ditadura militar (...), a direcção da secção editorial estava sob fogo do jornal O Anarquista, que acusava os colaboradores do Suplemento, do diário e da Renovação de serem jornalistas profissionais, sem ligação ao meio operário. (...) Não será displicente considerar-se que esta também foi uma das razões para que Stuart não mais emprestasse a sua caneta a A Batalha e que aqui terminasse a sua aventura libertária: à sua espera estava agora a redacção do Sempre Fixe, que o acolheu até à sua morte em 1961. 

 As várias monografias acerca da vida e obra de Stuart (...), pecam todas pela quase total omissão da sua passagem pelos periódicos libertários. Se estas falhas são voluntárias ou mero desleixo pouco interessa aqui, mas certo é que as breves e raras menções a esse período se resumem a um punhado de reproduções gráficas, a considerações genéricas sobre o seu “anarquismo de rua”(?), tudo enquanto se aflora en passant que o autor também fez uns bonecos para as publicações libertárias. 

(...) Sirva então este modesto livro para dar melhor conta, a um tempo, da riqueza múltipla do trabalho de Stuart, sem no entanto cair numa ardilosa hagiografia do seu papel autoral, nem reivindicar uma actualidade que cabe apenas a cada leitor avaliar. E, por outro lado, para mostrar como Stuart foi, entre muitos, um importante contribuidor para a feitura da obra colectiva e centenária de A Batalha. - António Baião no prefácio do livro



sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Deserto e Nuvem [edição regular] disponível na STET

1 claustro vazio em Évora
1 ordem católica de silêncio e solidão
1 inquérito espiritual
2 livros num só 
20 cartas sem resposta 
Muitas visitas do autor em dúvida
 
+

uma reedição
uma edição regular
4 novas páginas de intodução
 


 A LowCCCost é a nossa colecção mais mediatizada, premiada, com sucesso de crítica e público. Assim foi inevitável reeditarmos o "livro-duplo" Deserto e Nuvem de Francisco Sousa Lobo, originalmente lançado em 2017. 

Verdadeiro marco teológico que regista os últimos sopros da vida monástica dos monges cartuxos no Convento de Évora. Passado pouco tempo estes emigraram para Barcelona, mais próximos do IKEA e da praia. 

É também um verdadeiro marco na BD portuguesa por ter ganho os "Jedis da Bedófilia", isto é, os prémios dos principais eventos de BD em Portugal mas também surpreendendo noutras áreas como a do Design pelo seu aspecto "duplo" ("split") com um acabamento em acordeão a segurar ambos os livros. De um lado Deserto sobre a visita de Lobo ao convento e de outro Nuvem que ilustra 20 cartas sem resposta endereçadas a um monge cartuxo. 

Esta nova edição, que lhe chamamos de "regular" porque é uma encadernação brochada, lê-se em primeiro a BD Deserto seguida pela Nuvem e inclui, antes, uma BD (inédita) de introdução (de quatro páginas) do autor. Daí a inclusão de "e" entre os "dois livros", já não é opção ler um ou ler o outro em primeiro... 





 





Sexto volume da colecção LowCCCost editado por Marcos Farrajota com arranjo gráfico de Joana Pires e publicado pela Chili Com Carne.

192 páginas a 2 cores, 16,5x23cm, capa a 2 cores

Disponível na nossa loja virtual e na BdMania, Kingpin Books, Linha de Sombra, Matéria Prima, Snob, Socorro,  STET, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, A Vida Portuguesa, Utopia e ZDB.








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HISTORIAL


Edição original lançada na Feira do Livro de Lisboa em 2017. 
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Nova edição lançada no dia 11 de Abril de 2024 na exposição Paper Wraps Rock na galeria da escola Ar.Co., em Xabregas com a presença do autor (que reside em Inglaterra)
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Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal
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Prémio Nacional para Melhor Álbum Português e Melhor Argumento pela BD Amadora 2017 
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Melhor Álbum e Melhor Argumento nos Galardões Comic Con 2017
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Escolhas de 2017 no Expresso
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Melhores de 2017 no Máquina de Escrever
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Melhores 2017 no La Cárcel de Papel
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Best Comics of 2017 in Paul Gravett site
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apresentação no Festival Literário de Berlim de 2018
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exposição retrospectiva na BD Amadora 2018
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Obra seleccionada para Best Book Design From All Over the World, da Stiftung Buchkunst, no âmbito do Prémio Design do Livro 2018 + exposição na Torre do Tombo (entre 14/11 e 31/12/18)
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artigo sobre Cartuxos e o livro no Diário de Notícias
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participação na exposição e catálogo Viagem ao Invisível (2019) coordenado por Luís Santiago Baptista e Maria Rita Pais





Deserto e Nuvem são obras de longo curso que examinam a forma de vida na Cartuxa de Évora, onde alguns monges resistem aos costumes do mundo, em absoluto silêncio e solidão. Serve este exame de pretexto para focar a própria natureza da fé humana, do apego às coisas do mundo, do que nos faz sentido. 

Deserto é composto de uma única narrativa centrada numa semana passada junto a Scala Coeli (escada do céu), que é como se chama a Cartuxa de Évora. É um livro quase jornalístico. 

Nuvem é composto de 20 cartas endereçadas a um monge cartuxo, e pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé – o extremo que sabe que Deus não existe, e o extremo que se contenta com absurdos.

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Francisco Sousa Lobo (1973, Lisboa) vive em Londres desde 2005. Faz BD desde 1980. Estudou e praticou arquitectura durante dez anos. Agora trabalha em artes plásticas e banda desenhada, e não distingue já bem entre as duas coisas. Expõe em Inglaterra e Portugal. Estuda a nível de doutoramento (arte) em Goldsmiths College. Participou em vários jornais universitários, no Público e na Art Review. Também publica nas áreas da crítica artística e estética. 

 Na Chili Com Carne participou nas antologias Mesinha de Cabeceira, Zona de Desconforto e Pentângulo. Em 2013, o seu livro The Dying Draughtsman – O Desenhador Defunto inaugurou o romance gráfico na Chili. Em 2015 é lançado The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros, romance gráfico vencedor do concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD! e que já viu edição em Espanha e França. Em 2021 é lançado Gente Remota, um romance gráfico que toca nas feridas colonialistas portuguesas, trabalho ficcionado a partir de entrevistas com quatro ex-veteranos da guerra colonial. O seu mais recente livro, Cartas Inglesas, colige 14 ensaios visuais planeados entre Londres e Tormes (graças ao apoio de uma residência literária da Fundação Eça de Queiroz), e desenhados em Tormes.





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FEEDBACK
 

No caminho que levou a Deserto/ Nuvem, que se pressente longo e hesitante (a vários níveis), Sousa Lobo tenta construir pontes frágeis entre estes vários aspectos, como o harmónio de cartão que une os livros. E, sobretudo, procura acreditar nelas. Para além do fascínio com a vida e opções dos cartuxos, e os paralelos que o autor estabelece com a sua arte, este é sobretudo um catálogo de dúvidas sem resposta. Como se duas obras semi-falhadas ou incompletas se resgatassem e engrandecessem mutuamente pela união enquanto gémeas siamesas invertidas; o onirismo poético de uma elevando-se na realidade de um Alentejo moribundo e sem rumo da outra; a qual, por sua vez, ancora a anterior. Na sua construção inclassificável este é um excepcional trabalho de Francisco Sousa Lobo, com elogios extensíveis à Chili Com Carne. Seria uma pena se (como os trabalhos de autores como António Jorge Gonçalves, Tiago Manuel ou Diniz Conefrey) não passasse bem para lá do universo da banda desenhada e dos seus rituais.
João Ramalho Santos in Jornal de Letras

(...) Livro que "pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé", por um lado o "que sabe que Deus não existe" e o "extremo que se contenta com absurdos".
Nuno Galopim in Expresso

(...) a mais fascinante experiência de leitura de banda desenhada deste ano.
There is no doubt that Lobo’s obsessive and proficient output is even more surprising for both its aesthetic and philosophical commitment. I’ve argued elsewhere that Lobo’s overall project touches an incredibly original and complicated autobiographical or auto-fictional project, but this double book (two titles, Desert and Cloud, bound back-to-back) ticks all the boxes of a straightforward autobiography. Lobo spent some time visiting Évora’s Carthusian Monastery of Santa Maria Scala Coeli, with the goal of creating a sort of ‘live’ comic project. Based on his observations, talks and theological discussions with the monks, Deserto explores issues such as isolation, silence and the relationship with God, which genuinely concern Lobo as an anxious, suffering Catholic artist (a pleonasm, I’m certain). Nuvem, on the other hand, takes the shape of short letters, addressing the history of the order and this monastery, as well as some of the concerns mentioned above. One half complements the other, reinforcing the themes and clearly making them an intrinsic ingredient to the artist’s recurrent obsessions.
Deserto/ Nuvem es realmente una maravilla de Sousa Lobo -¡qué difícil, un cómic sobre la espiritualidad!- y también una maravilla de edición. Os felicito! 
Max (Peter Pank, Bardin, Vapor) por email

Todos os anos vou como um peregrino ao Festival de BD da Amadora (que este ano foi entre 26 de Outubro e 11 de Novembro) para completar colecções, comprar novidades ou descobrir antiguidades, mas desta vez saí de lá mais surpreendido do que o costume com um livro: não levei só heróis habituais como o Corto Maltese, o Árabe do Futuro ou um Paul Auster no saco das compras, mas também monges de clausura visitados por um autor português com raízes no Alentejo que vive em Londres e tem dúvidas existenciais sobre Deus e a religião: Deserto/ Nuvem (editora Chili com Carne) é uma novela gráfica original. Primeiro, porque é dois livros num só, que começam em cada uma da capas, ou melhor, em cada uma das contracapas: Deserto é sobre as visitas do autor, Francisco Sousa Lobo, ao Convento da Cartuxa, e a relação com os poucos e velhos monges com votos de silêncio que ainda lá vivem; Nuvem dá forma a 20 cartas de carácter sobretudo filosófico enviadas a um monge cartuxo; a ligá-los, uma planta desdobrável do convento dá ao livro uma textura de velho incunábulo, de lombada cosida à mão. É um belo objecto.
Mas não só. Sousa Lobo leva-nos em visita aos claustros, aos hábitos dos monges, à rotina e à perplexidade: seja-se religioso ou não, aquelas vidas suprimidas pelo silêncio naqueles espaços deixam-nos incrédulos. Abdicam do humano em favor do etéreo?, questiona o desenhador (e arquitecto) numa das cartas. O próprio autor está em cima do muro entre os crentes e os não crentes, mas tenta compreender o ponto de vista dos enclausurados e exprime um assombro perante aquela resiliência e desistência da vida comum: Há uma nuvem entre mim e os monges, uma admiração profunda deste lado, escreve. Francisco Sousa Lobo ganhou o prémio para o Melhor Álbum Português de BD em 2018. Percebe-se porquê. É merecido.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Liturgia do Delírio

Esgar Acelerado
Mundo Fantasma; 2015

A Mundo Fantasma está a imprimir em risografia como já deveriam saber... Mais importante que imprimir com o profissionalismo que sempre foi característica do seu "boss" José Rui Fernandes* é saber que agora estão a editar livros em risografia, dando cartas para esse mercado em expansão que é o da edição independente e livro de artistas...
Já saíram três livros, um de Nuno Sousa, outro do Sama (o único de bd) e este do Acelerado que é o mais interessante do grupo. Apesar do livro do Sama, A Entrevista ser "super-babante" pela impressão da segunda cor fluorescente, não tenho paciência para o texto-cliché de policial + sacanagem. Vaga do Sousa tem um excelente princípio, a memória familiar de um espaço que já não existe, mas é incipiente.
O livro do Esgar é o mais consistente, equilibrado e bonito, curiosamente os desenhos que compõem a edição são retirados de sete ilustrações para uma exposição realizada no ano passado. A recuperação e alteração para duas cores a que foi impresso o livro têm um efeito gráfico muito mais bonito que o original cheio de cores e degradantes degradés (sorry, não resisti!). Reduzindo os "bonecos" a preto e vermelho parece que estamos perante a trabalho de colagem / recorte de papel de lustro, o que dá aquele toque de "natalixo" perfeito para qualquer satânico que se preze recortar as imagens e fazer um presépio do contra. Já sabem, comprem agora, antes que esgote, para depois oferecerem como prenda de Natal a alguém conservador. Há que pensar sempre à frente... como a Mundo Fantasma!


* Figura escondida da BD nacional mas a qual deve-lhe a melhor loja de BD do país, o saudoso Salão do Porto, a revista Quadrado, a edição de livros de autores tão importantes como Joe Sacco, Daniel Clowes, Peter Kuper ou Étienne Davodeau, para além da construção do extinto sítio em linha da Bedeteca de Lisboa...

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Evan Parker - X Jazz / ESGOTADO


Evan Parker - X Jazz
graphzine / sketchbook de André Coelho
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24p 16,5x21,5cm, papel verde
impressão a duas cores em risografia pela Mundo Fantasma
com prefácio de Rui Eduardo Paes
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edição limitada de 100 exemplares
ESGOTADO
- talvez hajam ainda exemplares na Mundo Fantasma

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Evan Parker (1944) é um influente saxofonista de Free Jazz, nascido na Inglaterra. Houve um encontro com este músico em Pedrogão Pequeno, em Agosto de 2012, com 17 músicos nacionais do jazz e da livre-improvisação no âmbito do X Jazz – Ciclo de Jazz das Aldeias do Xisto, organizado pelo Jazz Ao Centro Clube com o apoio da ADXTUR.

A residência artística durou toda uma semana, com trabalho dentro de portas durante os dias e concertos à noite em povoações localizadas nas margens do Rio Zêzere. Logo no início, Parker afirmou que não queria dirigir, que estava ali apenas para transmitir a sua experiência e as suas perspectivas da música que utiliza a intuição, a espontaneidade e a interacção de grupo, sem hierarquias, como linhas condutoras. (...) As consequências desta iniciativa têm sido enormes, pois marcou a aplicação em Portugal daquilo que o próprio Parker apresenta como «coisa utópica». Esse foi, de resto, um propósito logo ali anunciado por alguns: por exemplo, o trompetista Luís Vicente adiantou ao jornal Público que tinha de imediato decidido «transportar isto para a minha maneira de tocar e de pensar a música». 

«Deixem espaço para os outros»; «quando ouvirem alguém a introduzir uma ideia, calem-se, dêem-lhe oportunidade»; «toquem menos - não queiram preencher tudo, o ensemble é mais do que cada um dos seus membros»; «ouvir é mais importante do que tocar»; «entrem apenas quando tiverem algo de importante a dizer», «não cortem o caminho dos outros», «se alguém não estiver a fazer-se ouvir, retirem-se»: estas dicas chocalharam com tudo o que se julga que é improvisar, e depressa se percebeu que o alcance da filosofia musical do coordenador desta acção ultrapassava a própria música. 

(...) A memória do que aconteceu em Pedrogão Pequeno ficou registada em texto, áudio, vídeo, fotografia e desenho – o caso presente, pela mão de André Coelho. É uma memória congelada, fixada no tempo, o contrário da efemeridade dos sons que então se produziram. As recordações mentais, essas, estão vivas e continuam a ter um efeito transformador. A influência que Evan Parker nos deixou é uma construção sem fim à vista. - Rui Eduardo Paes in prefácio

Músicos retratados: Angelica Salvi, Gabriel Ferrandini, Gonçalo Falcão, Hugo Antunes, João Camões, João Lobo, João Martins, João Miguel Pereira, João Pais Filipe, Luís Lopes, Luís Vicente, Marcelo dos Reis, Miguel Carvalhais, Miguel Mira, Pedro Sousa, Rodrigo Amado e Travassos.
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A edição foi produzida pela Chili Com Carne e Thisco, sendo o sexto volume da sua colecção THISCOvery CCChannel, dedicada às dimensões (ocultas) da (contra)cultura tendo no seu leque colaborações de Hakim Bey, Rui Eduardo Paes, Critical Art Ensemble, Ewen Chardronnet (Associação dos Astronautas Autónomos), Carl Abrahamsson, The Master Musicians of Joujouka, Ondina Pires, DJ Balli, Hetamoé entre muit@s outr@s...

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Feedback :
Lançado no dia 18 de Dezembro de 2015 no Barraca Fest III com a presença do autor e intervenção de Rui Eduardo Paes
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Mais do que uma compilação de esboços do autor, os textos que os acompanham traduzem a súmula dos ensinamentos de Evan Parker, conferindo o tempo aos ensinamentos do músico e dando a ilusão da sequência narrativa dos mesmos, enquanto o leitor vai descobrindo a voz do coordenador que não quer ser ditador. 
Nuno Sousa 
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Looks great! 
Evan Parker 
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impresso a duas em risografia, sendo uma delas um belíssimo cinzento metalizado, que traz reflexos às figuras humanas. (...) Um sucinto mas claríssimo texto de Rui Eduardo Paes cria o necessário contexto para os incautos, mas igualmente para nos fornecer algumas pistas não só em compreender algumas das frases igualmente capturadas por Coelho, mas pequenos gestos subtis que poderão fazer adivinhar as tais harmonias conquistadas: as mãos pousadas sobre os joelhos e os olhos fechados de Parker ao escutar os músicos, um saxofonista a não tocar, o sobrolho carregado de um músico de electrónica, as caretas expectáveis de quem segue num transe de notas, e as misteriosas mãos em posições de mudra, em busca de navegações pelos sons 
Pedro Moura 
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my partner Caroline found it again this morning and worried if I was a bit over weight! 
Evan Parker 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Co.Mix (relatório 2025 das independências)


Foi bonito de se ver. O governo PSD fez merda com as Bolsas de Criação Literária, nomeadamente com as de BD e Ilustração para a Infância. Ao contrário do que aconteceu quando em o PSD deu cabo delas em 2003, desta vez houve uma reação da parte dos vários agentes da cena. Foi escrita uma carta aberta à Ministra da Cultura com centenas de assinaturas de autores, artistas, editores, formadores, curadores, jornalistas e quejandos, o que nitidamente fez o Governo mudar de atitude, voltando
atrás, remexendo tudo para ficar mais ou menos igual, desorientando as instituições subalternas (DGLAB) e ainda poupou uns cobres - uma vez que as bolsas em 2025 não foram atribuídas devido às referidas trapalhadas. Esta gente da política sabe que a Cultura é importante para o "show off" do capital simbólico, não haja ilusões sobre isso, talvez em 2003 não sabiam disso embora tenha visto uma vez o "Cherne" numa premiere do Manoel de Oliveira no CCB, sabe-se lá porquê... 

Curioso foi quem não assinou a tal carta: Catarina Valente - directora do maior certame de BD no país sendo que maior não quer dizer melhor - e Luís Louro que comemorou 40 anos de carreira, tendo sido este ano galardoado com várias medalhinhas do aparelho - é um autor perfeito para o sistema, especialmente de Direita, que quer espectáculo e inconsciência política. Realço um facto para não diabolizar os direitinhas em exclusivo, afinal a "gerigonça de Esquerda" não mexeu uma palha para que Fernando Relvas não morresse na miséria... 

É claro que o Louro nunca se sujeitou às Bolsas porque exige unhas que ele não tem, tudo bem, desculpa-se o idiotita, agora a Directora da BD Amadora estar ausente só mostra que, ou é uma menina bem comportada ou é ignorante - ou as duas coisas, porque não? Ambas personalidades gostam de se distanciar da maralha, armados em aristocratas da treta e são bons exemplos das contradições da BD portuguesa. Louro vende pouco mais do que qualquer outro autor português de BD (ou até menos se pensarmos que a Chili Com Carne tem reeditado vários títulos nos últimos anos) e a BD Amadora desde a saída de seu director Nelson Dona tem piorado na programação e no relacionamento com os actores da cena da BD. Apesar disso, ambos sabem usar os seus passados históricos para alavancar facilmente os seus nomes neste meio em que falta referência, reflexão e crítica. Ambos estão cada vez mais distantes do que se escreve nos jornais - como foi a capa do Ílpsilon / Público de 26 de Setembro - ou na TV - programa Pessoas que Desenham a Liberdade (RTP 2) de António Jorge Gonçalves que entrevistou vários artistas gráficos como José Feitor, Ana Margarida Matos, Ana Biscaia, João Fazenda, Amanda Baeza,... - ou do que se mostra em eventos como o WC/BD (que acabou este ano), Story Tellers, Flexágono (Festival Fólio, Óbidos) ou a Miragem que foi sem dúvida o evento do ano em relação à BD!

Comecemos por aí, a Miragem foi mais do que um mero mercado de edições independentes - que aliás proliferam pelo país: Autónoma (Almada), FLIFA, Raia, Parangona (Lisboa), Feira da Alegria, Mercado do Contra, Perímetro (Porto), Festival de BD e Fanzines de Alpiarça, Feira do Livro de Arte (Coimbra) e FLOP (Açores). Teve workshops, conversas incisivas (invés das punheteiras que acontecem nos festivais de BD), apresentou espetáculos que misturavam desenho e música - sem ser aquelas xaropadas dos "concertos desenhados" -, e apresentou a exposição Ponto Ponto Ponto que ultrapassava a mera prancha na parede. Durante dois dias de Maio, sob a batuta do colectivo A Goteira, na Biblioteca de Marvila, a civilização reapareceu na BD portuguesa. Uma ilusão, claro, antes e depois, a merda foi omnipresente.

Ainda assim o Festival de Beja recebeu Ana Margarida Matos e Amanda Baeza (finalmente!), a Tinta nos Nervos teve exposições de Miguel Rocha, Diniz Conefrey, Alexandre Piçarra e Beatriz Brajal - estes dois últimos no âmbito dos concursos Toma lá 500 paus e faz uma BD! de 2024 e 2025 respectivamente. A Bedeteca do Porto organizou a colectiva Próximos Capítulos com trabalhos de Carlos Pinheiro, Daniel Silvestre, Marco Mendes, Nuno Sousa e Sofia Neto.

Foi um ano pobre na internacionalização mas Ana Margarida Matos, Hetamoé e Ivo Puiupo participaram na antologia letã š! e Mao fez um mini kuš!. Matos e Bruno Borges participaram na revista eslovena Stripburger - aliás, o Bruno já faz parte da casa! O livro Andrómeda do Zé Burnay teve uma edição em Espanha pela Mondo Cane e o Mangusto de Joana Mosi voltou ao Canadá mas agora em língua inglesa - o livro originalmente apareceu primeiro lá em francês e em 2023. Também as participações em eventos internacionais foram mais reduzidos mas a Chili Com Carne esteve no Crack (salvo seja) em Roma e Viñetas desde o Atlântico n'A Corunha, Francisco Sousa Lobo na Feira do Livro de Leipzig, Burnay no Graf (Barcelona), Gonçalo Duarte, André Pereira e Bia Kosta no Autobán (A Corunha) e Ana Margarida esteve por Bruxelas na BD Comic Strip e na residência do Camões (salvo seja). Pedro Moura também foi ao Texas num projecto universitário com a š!, que ajudou a coordenar.

O contrário também é verdade. Tirando a presença do espanhol Miguel Ángel Martin na LouriBD e do grego-belga Ilan Manouach na Casa do Comum, não houve mais ninguém estrangeiro interessante para nos visitar, a não ser versões baratas da Marjane Satrapi e outros sucedâneos que se publicam neste mercado sem rasgo e amorfo que até já enjoa de tanto livro do Junji Ito. Finalmente publicou-se o Alack Sinner de Muñoz & Sampayo - se ignoramos o jornal Lobo Mau em... 1979 - pela Devir, que reeditou também o Silêncio de Didier Còmes (1942-2013) outra vez a preto e branco e é assim que deve ser impresso! Na colecção 25 Imagens a Levoir e o Público assaltaram à descarada as bolsas dos leitores, apesar dos bons nomes dos participantes: Tardi, Thomas Ott, Nina Bunjevac e Joe Pinelli - lembram-se quando a Polvo era boa em... 2002? Sobra Flash Point de Imai Irata, uma parceria da Chili Com Carne e Sendai, um autor japonês com teor político, como tal, desconhecido e desafiante. Ficámos à espera do HP de Guido Buzzelli (1927-92) com argumento de Alexis Kostandi, pela Escorpião Azul, anunciado em Março mas que só sairá agora em Janeiro de 2026.

Dentro do atrasos na Chili somos culpados de não cumprir as datas redondas, a reedição da comemoração dos dez anos da edição original da Plana Press (e finalmente em português) de Propaganda de Joana Estrela não foi em 2024 mas este ano. Tal como reedição de Mr. Burroughs de David Soares e Pedro Nora não foi feita este ano - para comemorar os 25 anos da edição original da Círculo de Abuso - mas sairá em 2026. A nível de reedições ainda de assinalar a colecção da série Pós-Tugal de Diogo Barros, em formato zine auto-editado - e aproveitando a deixa, houve uma nova página da série n'A Batalha : Jornal de Expressão Anarquista.

Soares regressou com desenhos de Sónia Oliveira com o livro Atrahasis, pela Kingpin,tal como a revista Umbra (OK boomer!), o projecto Magma Bruta com How to kiss a crying man da ex-jugoslava residente no Canadá Andrea Laukic, o "Gato Mariano" aos zines (para comemorar 10 anos de existência), Filipe Felizardo com o Bestiário dos Rios e Sim Mau com o zine Super Mum. Continuou a colecção O Filme da Minha Vida, o jornal Carne Para Canhão, os zines Mesinha de Cabeceira e Olho do Cu e títulos vários de Gonçalo Duarte e Samir Karimo. Começou o zine Enfarta-Brutos sob batuta de Tetrateles. Não sendo BD, é de se referir sempre as gráficas Imprensa Canalha, Noturno Azul e Opuntia Books. Destaques para as edições de autor de Pats - especialmente o título Sortido - e claro o Rei da BD Rudolfo da Silva que fez uma obra-prima intitulada Fusão Dimensional na sua Palpable Press, e que trata da gunaficação da realidade. É o livro do ano!!! É por isso que este "post" abre com a imagem da capa do Fusão, dah!

Giro foi falar com a Pats na Autónoma, em que no seu mini-zine Eye-volution publica uma BD-ensaio sobre o seu estilo gráfico. Estava sem óculos quando estava a comprar o zine e vi algures numa vinheta referências aos grandes monstros da BOA BD: Julie Doucet, Robert Crumb, Lynda Barry, Jim Woodring, e... 

- Espera não estou a ver bem este, quem é este?

- Rory Hayes...

- O quê? [além de começar a ficar pitosga também começo a ficar surdo ou não perceber inglês, cóf cóf cóf]

- Rory Hayes!

- Ah!!!!!! Mas... isto são tudo excelentes referências!! Como conheces esta gente toda? Os teus pais tinham uma boa "bedeteca" em casa?

- Não, descobri na 'net...

- A sério!? Parabéns! Tiveste uma sorte no teu algoritmo!!!

"Sorte"! Num país em que as editoras não publicam livros de referência - ou se publicam é vómito absoluto como se viu com os livros da Escorpião e Polvo deste ano (sobre a carreira do Louro, as leituras e escritas inócuas do evangelista Pedro Cleto e algo sobre da série Astérix relacionado com Portugal, WTF!?) - alguém conseguir "sair da linha" e encontrar os verdadeiros e grandes artistas que também raramente se publicam cá é mesmo um "random" do caneco! Esta autora não ter ficado nas "mangacadas" ou nos "comics" dos fachos gringos, é mesmo algo de agradecer à entidade divina da "Sorte"! Resta saber o que Pats irá fazer com este maná de informação de futuro, se conseguirá alguma vez algo poderoso e original. O Sortido, colectânea de comix curtos, aponta já para aí. Que ela invista mais e melhor em 2026 é tudo o que lhe peço!

Fechando aqui a secção da referência: a Agenda Cultural do Porto deu tempo de antena ao Rudolfo e Goteira num especial BD (melhor que o paspalho do Gross na Agenda de Lisboa em 2021), reeditou-se o meu texto-metade-de-livro Punk Comix com actualizações e foi feita uma mostra no Festival de Alpiarça, editou-se também um texto da minha intervenção sobre BD do BIG de 2023 no catálogo deste ano (que espero a quem o ler lhe ajude a encontrar novos caminhos na BD), Mosi foi entrevistada no sítio em linha inglês Broken Frontier, publicam-se textos e resenhas no jornal Carne Para Canhão, continua o trabalho de recuperação da imprensa underground nacional no blogue My Nation Underground e por fim houve umas entrevistas em linha com Rodolfo Mariano (por causa d'O Filme da Minha Vida) e Diniz Conefrey por causa da exposição retrospectiva na BD Amadora, curada por António Jorge Gonçalves, na Galeria Artur Bual. Foi o ano Conefrey sem dúvida, ainda se acrescenta mais duas exposições, uma Lisboa na já referida Tinta nos Nervos e outra na Bedeteca do Porto, ambas no âmbito do seu último livro Estância do Sino Coberto, pela Quarto de Jade. Uma verdadeira comemoração de carreira que não merece medalhas histéricas mas serenidade artística.

Por fim, os que desapareceram em 2025. Logo em Janeiro faleceu Arlindo Fagundes, figura mais conhecida pela olaria ou pela ilustração, no entanto foi dos poucos autores portugueses a publicar um livro de BD nos anos 80 e talvez o único a abordar temas contemporâneos ou sobre a realidade portuguesa em formato de livro - claro que havia mais autores, como Relvas, com estes temas mas eram publicados nos jornais (que se deitam fora depois da leitura) ou nos fanzines (difíceis de encontrar). Era um Comunista convicto, não teve direito a condecorações, embora a Biblioteca Municipal de Alcântara tenha feito uma boa exposição retrospectiva da sua obra, entre Maio e Junho. Faleceram autores de peso como norte-americano Jules Feiffer - que mudou a escrita da BD - e egípcio-francês Édika - um badalhoco de peso. Menos conhecido e mais gráfico que narrativo, também faleceu o francês Y5/P5 que influenciou a malta d'A Vaca que veio do Espaço nos anos 80 quando passou por Lisboa. Longe da BD mas que puserem os seus dedos uma vez ou outra nela, morreu o realizador David Lynch e o pintor Eduardo Batarda, cujos respectivos cão raivoso e "pinguim cego" ainda são monumentos por tratar. O jazzman e amigo Sei Miguel também nos deixou. Não fez BD mas algumas imagens que queriam ser isso, publicadas em 2017 pelo Homem do Saco / Marmita Gigante, sobretudo mostrou que gostar de BD é saber ser exigente e crítico, coisa que os agentes que trabalham na cena não o são...

Que 2026 seja melhor! Bom Ano Novo!

Marcos Farrajota

 

desenho de Pats in Eye-volution