A apresentar mensagens correspondentes à consulta raging planet ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta raging planet ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 24 de maio de 2016

SplitNot

A quem ache que ser Punk é nunca crescer [I'd rather stay a child / And keep my self-respect / If being an adult / Means being like you - Life Sentence (Dead Kenndys)] o que até pode ser uma boa ideia se já toda a população não tivesse parado de crescer (ver Comicons e Cosplays). O punk português são sempre os mesmos velhadas a fazerem discos e bandas que não conseguem abrir terreno para fora de meia-dúzia de resistentes e/ou nostálgicos e/ou coleccionistas anais. Passaram a ter melhor meios de produção sem que tenham melhorado a sua razão de ser. Sim ficaram crianças, eis uma "catrefa" (ou será uma cafetra?) de discos assim, pelos menos ao splits a reunir sinergias invés dos horríveis discos de uma só face.

Para quê um split-EP de Mata-Ratos e Clockwork Boys (Dog City + Raging Planet + Chaosphere + Hellxis; 2015) com o tema da bola? Porque é divertido... Mesmo um gajo como eu que odeia bola até acha fixe este tipo de xungaria como já aconteceu no passado. Há metade da edição em vinil vermelho e outra em verde, um truque bacoco de mostrar que Portugal é Futebol e que a população socialmente divide-se em vermelhos da populaça que ganha a bola mas é o "eterno enrabado" (Mata-Ratos dixit algures num disco qualquer) e os verdes aristocratas da treta que perdem na bola mas ganham muito mais guito que a populaça - é assim que se resume a bola em Portugal, certo? O lado dos Mata-Ratos não tem temas inéditos, foram retirados do álbum És Um Homem Ou És Um Rato? (Ataque Sonoro; 2004) e os Clockwork regravam o Xalana sabe-se lá porquê... Capa divertida do Pepedelrey mas com grafismo de merda poderá transformar esta edição num ícone se alguém se importasse com isso. Ganham os Clockwork!

Bola outra vez e já deixou de ter piada com o risco de se transformar num sub-género, tipo "Fut-Punk" ou "punk da bola" (tal como há "Hardcore da praia")... Nem se percebe porque a Signal Rex se deu a trabalho de fazer  este split dos Clockwork Boys e dos Scum Liquor intitulado Vitor Baptista (outro futebolista mamado como o Xalala) / Kingshit Cop (2016). Toda a edição tem um aspecto de produção Crust dos 80/90 (quando o género nasceu e cresceu) como se quisesse reclamar uma tradição que não houve cá em Portugal, ou seja, a edição de discos DIY: bandas a auto-produzirem-se, a auto-editarem-se em formatos pobres e modestos como vinil com capas em fotocópia. Isto aconteceu na Finlândia ou Inglaterra. Cá não. Houve excepções, claro como os No Opression ou Corrosão Caótica mas só se fez produtos finais em fotocópia para as "demo-tapes". Agora que a malta é velhinha e com algum guito já se pode dar ao luxo de alguma vaidade mimética e falsificações anacrónicas. Ganham os Scum Liquor porque os vocais desta banda é dos mais podres no espectro punk/hardcore/metal tuga actual. Fixe!

Ainda menos razoável é o split-Maxi de Peste & Sida e Albert Fish (Dog City + Raging Planet + Chaosphere; 2015)! Os primeiros pegam em dois temas de Não há crise (Raging Planet; 2011) e os segundos em dois outros de Still Here! (Raging Planet; 2014). Para quê? Para juntar o punk que soa a 1988 e o Hardcore que soa a 1998? Para fazerem uma capa no formato de LP? Para se sentirem como um "dream team" inter-geracional? Meus, jogo anulado!!! Voltem para o balneário e gravem músicas novas, aquelas que cantam no chuveiro depois do treino, qualquer novo...

Mais bem servidos fica-se com o split-single de Desecration e Holocausto Canibal editado por um colhão de editoras incluindo a portuguesa Chaosphere no ano passado. Três temas de Grind e Death para quem gosta de duas bandas que juntas fazem 40 anos de dedicação a estes géneros - their words. Os ingleses ganham a partida porque naquela ilha nojenta de onde eles vem sempre houve mais estúdios de gravação e ensaio, produtores, instrumentos de música, engenheiros de som, rede de circulação e distribuição e já para não dizer que tem uma cultura que criou estes sonoros grunhos (Napalm Death, por exemplo). Os Holocausto não tinham hipótese desde o início do jogo... E topa-se logo pelo desenho no "picture-disc":

os ingleses sempre foram uns badalhocos... 

sábado, 24 de junho de 2006

Zombie Pop

cineMuerte: "Born from ashes" (CD'06; Raging Planet)

E quando as coisas correm mal? A editora portuguesa Raging Planet habituou-nos a uma qualidade bastante séria de edição de bandas portuguesas que se destacavam pelo seu profissionalismo e pela sua qualidade de produção. Embora fechada a um círculo pesado das bandas Hardcore e Metal, tem nas mãos ainda umas "aves raras" que são os [f.e.v.er.] e estes cineMuerte, bandas dificeis de catalogar a priori. Sobre os primeiros já se tem falado e brevemente escreverei sobre o interessante e recente CD-EP "Bipolar" (Raging Planet; 2006).
Os cineMuerte prometiam muito, não só por virem de uma editora de "peso" e pelo "espreitar do véu" que foi a sua participação na colectânea-tributo aos Misfits, "Portuguese Nightmare" (Raging Planet; 2005), em que nos deixaram curiosos com o seu Rock Electrónico, cheiro Pop não muito óbvio no meio de um disco de mamutes Metalcore. Se o tema escolhido dos Misfits, Where eagles dare, mostrava bom gosto e alguma delicadeza, todo este "Born of the ashes" mostra o contrário. Feito com de Rock (guitarras Metal redundantes) casado com uma electrónica simples, uma voz que se estica sem contenção e artificial ao ponto de lembrar os Evanescence (é assim que se escreve?), todo ele Nu-Goth com falta de imaginação (embora tentem disfarçar) na composição de tal forma que o nome do duo (é uma gaja e um gajo) só faz sentido por serem "mortinhos" (a capa revela logo que são Zombie Pop?) e não por serem "cinematográficos".
E o "cherry on the top" é uma versão de Entre dos tierras dos Heroes del Silencio. O que é pior: o original dos pimba-góticos dos "nostros hermanos"? Pegar no original para fazer uma versão? Esta versão? Vale a pensa neste disco a arte do Pedro Zamith para a embalagem do CD (ainda assim, os trabalhos não serão inéditos tirando a capa) e o tema Alive, virado para uma pista de dança Electro mas daquelas pistas de dança mais Abba do que Nitzer Ebb... Que pena!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

R-aging Planet


[f.e.v.e.r.]: "4st"
v/a: "E se depois... Tributo a Mão Morta"

(Raging Planet; 2007)

O paradigma de produção de música urbana dos últimos anos tem sido o que foi criado pelos horrorosos Blind Zero: cópia de modelos existentes, profissionalismo, bom trabalho de imagem e boa produção sonora. Diferente da produção dos anos 80: originalidade, amadorismo, qualidade flutuante de imagem e de produção sonora. Tendo ultrapassando o ano 2000, onde estamos nós no que diz respeito à música urbana?
Com raras e cristãs excepções, o panorama tem se afundado no profissionalismo e imitação de modelos, o que se considerarmos que a democratização da tecnologia trouxe gravações e embalagens tão profissionais que nos dias de hoje ouvir uma banda de Death polaca amadora ou uma alemã editada por uma editora comercial ou uma banda da Guarda é a mesma coisa. Serve Death como para Emo ou Indie ou outra coisa. Apesar de tudo vão aparecendo as tais excepções ou ainda bandas que tem como modelos menos vulgares no mercado português. Os [f.e.v.e.r.] estão na fronteira disto tudo por fazerem um "melting-pot" de Rock pesado, Pop meio-gótico e acompanhamento electrónico, apesar de não ter muitas referências em Portugal já as ouvimos noutros lados, sobretudo lá prás "américas" com os KMFDM ou Linkin Park ou qualquer banda que cante por cima de Riffs pesados e loops... Talvez por isso que [f.e.v.e.r.] possa soar a "novo" neste retângulo ibérico e que se esta banda conseguisse apanhado um "zeitgeist" talvez fosse um sucesso a nível global - ou pelo menos para um mercado norte-americano.
Este primeiro álbum, que é na realidade o quarto registo graças a uma carreira pós-moderna que se fragmentou em dois EP's, um álbum de remisturas e ainda uns dois singles, é daqueles discos que não se deveria colocar um único defeito de tão bombom que ele é: grande produção, som "catchy", ou seja tudo perfeito. Então o que corre mal? Não sei, na essência creio que é a voz, uma lamechice melódica e falsa que se ouve bem em dois ou três temas mas que depois começa a enervar de tão bonitinha que é. Admito que cada vez tenho menos paciência para melodia convencional e beleza caucasiana, se nos EP's ou singles os [f.e.v.e.r.] convenceram-me porque os registos sabiam a pouco, num registo mais longo, tanto dramalhão Emo acaba por levar à saturação suícida. Um destaque para o tema sincopado e funky Clockwork embora seja Prong q.b.

Bem, depois da febre, a mão morta... A banda portuguesa de sempre! A banda que veio dos anos 80 e continua no activo, que sempre manteve um nível alto de originalidade e coerência intelectual. Não podiam ser só os Xutos e GNR a apanhar com tributos, os Mão Morta já mereciam e foi a Raging Planet, uma editora independente super-profissional de Rock que teve "los tomates" de avançar com a ideia. Uma tarefa difícil de realizar dada à banda homenageada ser um monstro da cultura urbana, e apesar da Raging Planet meter logo o pé na poça com a capa nojenta e design horrível do disco, conseguiu fazer um bom trabalho mesmo que não tenha conseguido agradar todos os gregos e todos troianos.
O facto de ter conseguido fazer uma colectânea de 16 projectos bastante diferentes, faz deste tributo um disco eclético como devem ser todos os álbuns de tributo - ao contrário da moda dos anos 90 em que havia álbuns de tributo inóquos como 20 bandas Punk a versionar uma banda Punk sem acrescentar nada de novo, e quem diz Punk, diz Gótico, Metal, etc... Outro facto interessante ao ouvir o disco é perceber que o universo de Mão Morta é elástico o suficiente para ser incluído nos de outras bandas sejam elas Surf, Electrónica, Metal, ao ponto de 99% dos temas escolhidos pelas bandas baterem certo com as ambições musicais. E claro que no meio deste "compacto-caos" haverá sempre o "bom, o mau e o vilão":
1. Desiluções & Surpresas: uma pena os Bunnyranch não terem pegado em algum tema do Vénus em chamas (BMG; 1994)... as As tetas da alienação apesarem de serem tetas não tem sexo para o Rock destes coimbrões. Também se esperava dos Dr. Frankenstein ao pegar em Marraquexe (Pç das Moscas Mortas) um som mais Exotica e não tão Surf. Os Dead Combo (para os quais não tenho a santa paciência) como sempre fazem um tema instrumental, e com inteligência tocam o emblemático Aum, o hino urbano-depressivo dos MM! Bem pensado e bem executado. Os Wraygunn transformaram o E se depois num Blues etnico-psicadélico "mucho cool".
2. Mau: cineMuerte (claro) e Volstad (ambas bandas com vozes melódica-pretensiosas femininas de puxar pelos cabelos... das vocalistas!), The Temple (creio que a crítica de Ricardo Amorim no último Underworld resume a questão com muita ironia, por isso nem vou bater no ceguinho!). O que representa 20% do disco, menos mal embora algumas participações como as dos Acromaníacos e Mécanosphère deixem a desejar por serem rídiculas ou "kitsch".
3. O resto é eficiente e interesante como pegam nas músicas dos MM mas bom, muito bom mesmo são os D'Evil Leech Project, extreme-cyber-metal que transforma Cão da Morte num verdadeiro festim Death-Gore para Headbanging - mesmo no escritório colado ao computador o meu cabelo liso e longo solta-se pelo ar para curtir esta música... O que só prova que esta é uma das melhores bandas portuguesas do momento, mesmo que não tenham novo álbum à 4 anos e ao que parece teremos de esperar por 09.09.09 para ouvirmos o segundo álbum, filhos-da-mãe!

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Ao lado...

O novo álbum de Rudolfo (Ruru Comix + Cafetra Records + Monster Jinx; 2012) tem um título homónimo ao seu criador mas parece muito pouco Rudolfo tal como o conhecíamos. É um disco caótico de direcções e intenções que só mostra que o Rudolfo foi apanhado pelo seu próprio avatar e que mostra que não sabe o que fazer com uma carreira que não chega a ser como as das "boy bands" - estas são intensas, fantasiosas e curtas porque rapidamante os ídolos passam de moda mas também porque os rapazes crescem, mudam de voz e sofrem outras dores do crescimento. Rudolfo não sendo um "star" vive com a mortalidade normal do povão, criou uma imagem mítica mas esta agora mostra o barro nos pés do mundano. Desonrientado resta a Rudolfo gozar com os otakus, hipsters e outros monstros (em Subitamente ou Balas Perdidas) mas não pode ser "profundo" sem cair na demagogia Pop (Contagem descrescente ou União) nem frequentar música "out" seja na vertente electrónica seja Rock - com ou sem amigos como Ricardo Martins e os Cafetras - porque não se dedicou a tempo inteiro a trabalhar em música como fazem os músicos "à séria". O Rudolfo perdeu a sua espontaneidade "teenager" onde qualquer merda que fizesse teria piada, é neste disco visivelmente um puto desonrientado. Talvez tenha mesmo de fazer como as "boy bands" e parar para depois regressar à grande e à francesa daqui uns anos para gozar com a sua geração de Peter Pans todos fodidos. R.I.P. / Rudolfo in Peace. Claro que um regresso de um Rudolfo não irá significar estádios cheios de gajas cheias de tusa, frustração e crise da meia-idade...

Mais um disco homónimo... os Surveillance (auto-edição; 2012) que é um duo - ela bateria, ele baixo, ambos cantam - de Rock que soa a algures dos anos 90 mas que a minha RAM recusa-se a dar nomes por lerdice pura - Belly? Breeders? Nã!!! Algo mais obscuro de alguma forma... Girls Against Boys? Soa também a Beehoover mas creio que isso é por causa pelo uso dos mesmos instrumentos e aquele ruído lixado da guitarra-baixo. Parece faltar tecnicismo para convencer e acredito que ao vivo deva ter mais energia para nos dar - pena que o concerto deles na Laica tenha sido cancelado pois gostaria de os ter visto! A gravação de tão ruídosa que é merecia ter sido materializada em K7 embora a embalagem do CD seja super-cool! É de estar atento a desenvolvimentos destes duo-putos...

Por falar em duos... Throes + The Shine são dois duos num projecto Rockduro (Lovers & Lollypops; 2012) em que se mistura Kuduro (The Shine) com Rock (Throes), ideia excelente num país cinzento que sempre teve problemas em lidar com África. É excelente ver projectos destes sairem por aí em mestiçagem cultural e sonora, para onde aliás o Futuro sempre rumou - neo-nazis, nacionalistas e outros estúpidos vão aprender História, sff. O único senão deste projecto é que ele é um projecto comercial que junta aquele hedoísmo parvo do Rock com a primitivismo intelectual do Kuduro, quando justamente o mundo o que menos precisa é de mais diversão monga. Nada mais fixe que soltar a franga mas ser um saco de chavões com nova roupagem não me interessa assim tanto. É só "dança, curte, etc..." com uma curiosa instrumentação - e é tudo. Infelizmente, nem todos podem ser Ghunaganghs...

Os E.A.K. já cá andam há alguns anos - ainda me lembro da primeira edição de autor em 2003 - mas pelos vistos estrearam-se em formato álbum oficial com Muzeak (Major Label Industries + Raging Planet ; 2011) - é na verdade o segundo álbum. Definem o seu som como "musclecore" mas o que temos mesmo é Metalcore, género contemporêneo de fusão de Metal com Hardcore que têm sobretudo os defeitos do Hardcore, ou seja, há milhares de bandas assim, com berros pseudo-desesperantes e riffs já ouvidos. As letras em inglês são de uma pobreza extrema - talvez o mais extremo da banda esteja aqui - cheio de chavões de quem está chateado com o mundo: a violência, a estupidez, a falta de amor, a futilidade dos media, etc... Curiosamente se tanto criticam o mundo de plástico então porque a fotografia promocional da banda parece uma parada da Casa dos Segredos? E estranhamente o único momento sonoro de interesse no álbum é o final de Sunday Afternoon Freak Show Cabaret um tema que parece criticar a xungaria dos "reality shows". Os opostos atraem-se muito fácilmente...

Outra estreia é Besta com Ajoelha-te perante a Besta (Raging Planet; 2012) que apresenta-se como Crust - mas os elementos da banda acho que tomam banho e só um é que tem um cão rafeiro. é barulho, barulho, barulho como bem falta às bandas portuguesas de Metal, sem letras no disco para se perceber o que se grunha por aqui, só nos podemos levar pela imaginação que os títulos sugirem: Pai das mentiras, Misantropo, Já foi tudo dito, Finantropia absurda ou O céptico, o crente e o bode... Um bocado linear, faltando loucura para ilustrar o século XXI... Podia ser ainda mais fodido? Eu acho que sim afinal o Scum já foi há mais de 25 anos, né?

Bernardo Devlin tem um novo álbum mas enquanto não o oiço ficou-me pelo anterior Ágio (Sinal 26 / Nau; 2008) que tem uma capa prateada deluxe que o scanner não apanha. Mas o facto da luz do scanner transformar a capa num negro néon talvez resume melhor o que é este disco na realidade, um "Pop de câmara" na linha dos álbuns de Scott Walker dos anos 90 para cá. Ao que parece as letras envocam os anos 70 de Lisboa à procura da modernidade que não chegou (é o que se lê na nota de imprensa do disco) mas por mim tudo isso passa ao lado, apenas parece música de cortar os pulsos numa noite em que tudo corre mal - o dealer enganou-nos, a gaja mandou-nos à merda, os amigos ficaram em casa a ver TV, os bares e discotecas fecharam / não te deixam entrar e sozinho um gajo anda por aí a meter nojo e/ou a passar-se. A música é um misto de electrónica e instrumentação eléctrico, ambos lentas e intimistas como qualquer produção portuguesa que se preze, que mostra o bom compositor que é Devlin - este é o quarto álbum, só conheci o terceiro. É o melhor álbum deste lote e deixa-nos a pensar que se toda a Pop fosse assim... Obrigado ao REP pela oferta deste disco.

O Tombo Primeiro (Raging Planet; 2012) da Tertúlia dos Assassinos é uma espécie de marco histórico na edição fonográfica portuguesa. Se em Portugal houve muitos discos de recitais de textos ou "spoken-word", é muito raro encontrar material deste editado desde os meados dos anos 80. Recentemente tem havido um regresso à oralidade da poesia ou de textos, seja com os Poetry Slams, episódios de combate social ou com uma atitude editorial definida como a excelente Mia Soave. A Tertúlia reúne cinco criadores a trabalhar neste campo, que por minha ignorância da sua existência (ou pelo menos regularidade pública de actividade) admira logo pela quantidade e qualidade dos intervenientes. Querendo fazer da literatura perigosa outra vez (uma utopia revivalista na realidade), estamos bem longe de Ary dos Santos, Manuel Alegre ou Mário Viegas (as origens "spoken-word" de Portugal?) para não dizer que estamos antes em campo oposto porque o que temos nesta Tertúlia é sátira (bocagiana?) de Charles Sangnoir, misantropia (Aires Ferreira o recitador tecnicamente mais impressionante!), esoterismo (Gilberto Lascariz), solipsismo (Melusine de Mattos) e ensaio com David Soares num poderoso, glorioso e (o mais) longo texto. O disco vêm acompanhado de um livro com a reprodução dos textos recitados (ou é o contrário?), gesto redundante depois da interessante gravação áudio. E infelizmente, o livro como objecto é terrível: em design (teen-goth?), paginação (esta malta gótica nunca viu os livros da &etc?), impressão e acabamentos. Espera-se com alguma ânsia por um "segundo tombo", tal como um ouvinte espera um novo capítulo do seu programa de rádio favorito...

Por fim, ufa!, David Soares volta com Charles Sangnoir para fazerem um horripilante CD intitulado Os Anormais : Necropsia de um Cosmos Olisiponense (Raging Planet; 2012). Soares explora o tema da "anormalidade" encarnando o papel de cicerone assustador e que é bem acompanhado por Sangnoir que faz uma banda sonora ambiental minimalista bastante eficiente - aliás, é ele que faz a parte musical da Tertúlia também? Tira-se o chapéu para ambos casos se se confirmar... Dois defeitos apenas, a monotonia na recitação do texto e falta de riqueza gráfica do CD. Deficientes em Lisboa daria pano para mangas para se fazer um livro com desenhos ou reproduções de material documental e gráfico a que Soares se baseou - quem sabe até seria uma boa desculpa para ele voltar a fazer alguns dos seus desenhos grotescos que não vemos há uma década. Seja como for, é um disco para se ouvir com muita atenção!

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

«Dentes de ouro e flow de platina»

Eis uma ressaca sonora da 5ª Feira Laica, que reuniu algumas das principais editoras de livros, zines e discos. É impossível não afirmar que dada à recessão da indústria fonográfica (auto-infligida, nunca esqueçamos!) são as pequenas editoras que tem feito o trabalho todo de apostar em novos nomes e tendências nacionais com boas edições e artistas interessantes ou projectos coerentes. O que é «Nacional é bom!» é um obtuso dogma - diria antes que na maior parte dos casos que «não é mau» - e enquanto estes editores não venderem discos de platina como os bostas dos "David Fonseca's & Mariza's" merecem todo o nosso respeito por arriscarem capital em excelentes discos - muitas vezes a música é capaz de não maravilhar mas como objectos são sempre bastante cuidados e bonitos, o mesmo não se pode dizer das "majors" em que a música e a embalagem são igualmente vulgares.

Começo pela colectânea Bota'sentido! 1995-2014 (Matarroa; 2006) que foi lançada para comemorar os 5 anos de existência da editora de Hip Hop Matarroa. Hip Hop? Não só, na realidade a editora tem apostado em mestiçagens de sons Black através da edição de artistas angolanos (Verbal, Crewcial, Conjunto Ngonguenha) e ritmos jamaicanos (Prince Wadada, Bezegol) em que se ouve crioulo (Factos Reais) ou a "pronúncia do Norte (MataZoo).
Para uma colectânea de comemoração - em que os limites temporais foram esticados para a pré-história da editora e para o futuro - temos uma selecção um bocado preguiçosa (não há raridades ou versões alternativas) nem bota-tanto-sentido-como-isso (nem tudo o que foi editado é reapreciado). Realmente parece que o que se ouve aqui é pensado para 2014 e não para 1995. A tendência da Matarroa é cada vez mais o Reggae / Dancehall / Ragga do que propriamente o Hip Hop - parece-me! Entretanto as escolhas de Hip Hop neste disco (curiosamente) tratam mais de temas sobre gajas e noitadas do que as habituais diatribes da cena - embora também haja no tema (sacado para o título deste "post") de Pródigo & Virus. Faixa porreira é do(s) Nerve com uns samples Jazz bem esgalhados. O futuro são fumaradas jamaicanas o que me deixa curioso do que vai ser a Matarroa de futuro... PS: e como sempre: excelente trabalho gráfico do Chemega.

No campo do Rock pesado (Metal, Hardcore), o especialista do momento é a Raging Planet do qual a última novidade é o álbum Volume II: The hollow dos More than a Thousand. Após um CD-EP de estreia com um título engraçado como Trailers are always more exciting than movies (Raging Planet; 2004) dá vontade de dizer que o segundo registo desta banda Emocore deveria ser Don't judge a record by it cover porque é a melhor capa dos discos da Raging (que o Zamith me perdoe!) autoria do norte-americano Sam Weber mas sem o correspondente musical. Igual a mil e uma bandas do género Emocore - tipo as últimas edições da Victory - com tudo certinho e no lugar, melodioso & orelhudo até à medula, sem emoção apesar das letras serem consideradas "negras", voz plástica e aborrecida como o mundo ocidental... Não temos aqui nem Lynch ou o selecionado do ano do Festival de Sundance mas sim um filme vindo de Holywood com tudo previsível do príncipio ao fim. Foda-se, o que se passa com os putos de hoje?

Surpresa foi a edição de Sucess in cheap prices (Bor Land; 2006) do projecto Most people have been trained to be bored, aka, Gustavo Costa, aka, papa-bandas e colaborações (Genocide, Stealing Orchestra, Três Tristes Tigres, John Zorn, ...) . Este novo projecto começa com Noise inesperado - da Bor Land espera-se as melodias-mais-melodias de índios e alt.countreiros - e revela-se pelos campos do Improv electro-acústico, Jazz não-purista, Glitch e lixo sónico cheio de fantasmas, ready-mades e peças de composição clássica contemporânea entre outras mil-e-uma fontes. O que se sente ao ouvir todo o álbum é que se concentrou quase todos restos mortais das vanguardas do século XX sem nunca parecer colocá-lo num cânone. Música Experimental? Sem dúvida, agora se começarem com as sub-variações, a coisa complica-se e ainda bem.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Poststressthing (2/3): discos



Continuando a saga dos artefectos recebidos nos últimos meses, para dizer a verdade neste acaso, apenas durante a Feira Laica:
- Ovoo (ed. de autor; 2010) de Felipe Felizardo é um CD-R limitado a 100 cópias, de uma improvisação do Felizardo em Abril deste ano na ZDB dentro da lógica Drone / guitarra e voz, em que existe uma tentativa cosmogónica que se concretiza em 30 minutos de deambulação hipnagógica que pode lembrar obscuros projectos ambientais da Suécia por exemplo. Não sei se foi por este caminho que o Filipe tocou na Feira Laica, seja como for, para quem gosta Do Inexplicável E Do Estrangeiro é favor de pedir o disco no myspace dele.
- Share the fire (Raging Planet; 2010) é o segundo álbum dos Murdering Tripping Blues é um grande álbum de Rock para quem ainda acreditar em Rock. Bem gravado, com potência orelhuda, energia suada e até alguns experimentalismos em doses homeopáticas. Há alturas que a voz lembra Mark Lanegan noutras que é um gajo português a cantar em inglês, noutras outra coisa qualquer de referência... Mas a pica deste trio perdoa todos os defeitinhos do Rock da Aldeia Global. Olha! a Raging Planet descobriu que a contra-capa dos CDs são melhores para capas - como os CD's dos Melvins e a rapaziada Man's Ruin. A pintura da Ana Batel fica bem assim...
- Old Age (Skinpin; 2009) dos norte-americanos The Pope... marca o fim das edições da Skinpin - por cansaço, vulgo, «já ninguém compra discos»... o que significa que ainda por cima tive de digitalizar a capa invés de a encontrar por aí, na 'net. Ainda por cima a capa é feia! Mas pior ainda é a banda que é feia: parecem os Marretas a fazerem Noise Rock. Grande barrulheira rock'n'rolesca com ruído cheia de interlúdios meramente Noise para picar-miolos. Dão-lhe bem os sacanas! Foi bem escolhida a banda para o catálogo da Skinpin mas Kaput! Agora não há uma editora portuguesa de Rock contemporâneo...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Miss Fava


Miss Lava (Raging Planet; 2008)

Desde que tiraram as favas e os brindes do Bolo-Rei - será que foi o Cavaco que proíbiu isso? - que essa iguaria natalixa deixou de ter piada. Por mais frutos cristalizados o facto de sabermos que não poderemos trincar num pedaço de metal envolto em papel e sair-nos uma Nossa Senhora ou uma figa para colocar num colar, tira imediatamente o gosto e gozo de comer o bolo. E é o que acontece com os Miss Lava, tem actualmente as capas mais porreiras do Rock português, a começar por este EP de estreia ao CD Blues for the Dangerous Miles (Raging Planet, 2009) envolveram Designers / ilustradores que criaram belos objectos de luxo para conter as suas músicas.
Este EP em vinil cor-de-sangue tem uma capa desdobrável que se transforma num impressionante cartaz, feito por José C. Mendes, que consegue cumprir o que o briefing da banda: psicadélico e sexy do Stoner Rock, uma piscadela ao passado Hard'n'Heavy mas com a contemporaneidade q.b. para o projecto ser Retro. O Designer percebeu e fez um bom trabalho. A banda é que se engana a si própria porque de sexy nada tem, psicadélico muito pouco, pisca mesmo para o passado confundindo o Hard dos anos 70 com o lado light do Grunge dos anos 90. Tendência essa que vai piorar no álbum de estreia - aliás, a melhor faixa desse álbum é justamente uma música das sessões deste EP que não entrou - mas por enquanto na rodela vinilica vermelha ainda não é grave. Ouve-se bem, o primeiro tema até nos apanha e o objecto é giro! Mas voltando à gastronomia tradicional: trinca-se uma fatia e não partimos os dentes, afinal era só uma... fava.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

E elas berram!


Reltih: 13 Years in Misery (Infected Records DIY + Zerowork; 2008)
We Are The Damned: The shape of Hell to Come (Raging Planet; 2008)

Até parece moda se antes não tivessem existido os No Oppression ou os Intervenzione com as suas "co-vocalistas" femininas. Em 2008 sairam discos dos Reltih e We Are The Damned cada um com a sua Sofia, no primeiro caso como acompanhante ou no segundo como a vocalista principal. A verdade é que o sucesso de Angela Gossow nos Arch Enemy (desde 2000) tem aberto terreno para as mulheres que queiram grunhir. Caso para perguntar se estas Sofias são genuínas ou se são réplicas de fenómenos Pop/Rock.
No primeiro caso, a "Sofia Reltih" acompanha a banda com um papel colectivo - a banda assina todo o trabalho do CD como um colectivo, sem distinguir quem escreve as letras ou quem compõe a música. Este é o segundo álbum de uma banda Crust, ou seja, para quem não sabe o que é Crust, é na verdade Metal mal tocado (ou tocado por Punks o que vai dar ao mesmo) embora há quem diga que o Crust é Punk/Hardcore fundido com Metal e com letras Anarkas e/ou pessimistas, pró-direitos dos animais - também é preciso lembrar que os Crusts são tipos nómadas com montes de cachorros atrás roçando aos Hippies mas com ar mais podre. Não sei se banda é burguesa ou não mas tocam como qualquer outra banda pesada. A única malha de jeito é Abused Child que tem uma composição mais elaborada do que o resto que é aquela pantufada tum-tum-tum de sempre. Será que alguém da banda sofreu abusos quando era menor? E por isso esforço-se mais a trabalhar nesta música? Seria positivo que tal tivesse acontecido para haver um bocado de personalidade na música portuguesa, caso contrário, não sei bem o que fazem por aqui com os seus samples de entrada para as músicas que parecem mais reaccionários que "anti" qualquer coisa... E samples de entrada de músicas é a coisa mais cliché deste tipo de bandas, diga-se.
A "Sofia Damned" e a sua banda já são outra história... tudo é melhor: desde a capa e design do CD, a música é mais rica e claro sempre com a Sofia a berrar. É Metal que reúne pedaços da "velha-escola" (Trash, Heavy - até fizeram uma versão de Parasite dos KISS) e da "nova" (Crossover, Death, Post - Lucifer VIP não deixa dúvidas o quanto Post que é) parecendo mais uma das bandas Metalcore que a Raging Planet costuma editar (TwentyInchBurial, etc...). Ainda assim a voz de mulher furiosa sempre é mais original do que meninos chateados. Não é uma maravilha mas também não é mau.

sábado, 9 de junho de 2012

Eu quero que o Fado se Foda! (mas os portugueses são mesmo saloios!)

Português ou não, o mundo do Pop desde os anos 90 que insiste em criar "dream teams" para fazerem discos, filmes, livros, etc... Como se a soma de nomes sonantes possam melhorar um produto na maior parte das vezes débil desde a nascença. Se é verdade que um encontro inesperado entre Faith No More e Boo-Yaa T.R.I.B.E. é capaz de criar uma bomba já Rammstein com Marilyn Manson é uma redundância triste. Em discos, seja de bandas de Hip Hop seja de Metal, tem sido uma procissão e convidados especiais que entram para nada acrescentarem à música. Servem apenas servirem de arma de marketing, para manter as figuras velhas em notícia sem terem de fazer nada de especial, para projectar os novos projectos que precisam de publicidade dos velhos, tudo isto colocando os fãs à espera de algo surpreendente, que acaba por não acontecer. A maior parte nem dá conta da fraude porque ficam satisfeitos em ver os seus "heróis" em situações diferentes.
Todos fazem isto... já nem admira ter mais um vocal do Adolfo Luxúria Canibal numa treta qualquer ou algo do tipo. Estas três edições partilham estas ideias não todos da mesma forma e nem todas com resultados iguais.

Cabaret Portugal (Necrosymphonic / Chaosphere + Helloutro + Raging Planet + Raising Legends; 2012) de La Chanson Noire é o pico de como neste país se consegue fazer uma saloiada sem sentido e oportunista. Ao contrário de outras acusações às produções portuguesas neste blogue, há que dizer no entanto que La Chanson Noire (um tipo apenas) não sofre de falta de pica nem é um tipo calmo! Desenvolveu um projecto com alguma originalidade - pelo menos para este canto europeu - um "cabaret rock" em que a sua voz e piano são mais do que suficientes para entreter as hostes. Diria que o projecto em si é "arriscado" porque sendo um projecto solitário, não poderá partilhar ou esconder a vergonha com outros elementos da banda. Assim, só resta ao Chanson Noire "ou vai ou racha", o que lhe deve ter dado pujança para "ir" e "não rachar". Muito mau seria se não conseguisse o assumir o papel em que se colocou. Não há forma de tirar crédito à essência do projecto. É de se tirar o chapéu porque são poucos os artistas ou músicos portugueses que o conseguem fazer.
Mas falha nesta edição - e apesar de estar sozinho leva outros atrás - que é um livro de prosa e fotografia com um CD de música. A ideia de base do livro é o jogo surrealista do "cadáver-esquisito" em que atirou "frases" (títulos de futuras músicas suas) a vários criadores para gerarem textos e fotografias em volta delas. Chanson por seu lado fez músicas. No caso da parte literária conseguiu reunir uma "dream team" bastante curiosa que se divide entre os "suspeitos do costume" quando pensamos em "Darkismos" e que vão desde figuras "underground" como Gilberto de Lascariz ou Hyaena Reich até malta famosa como Fernando Ribeiro (Moonspell), Adolfo Luxúria Canibal e David Soares, e um segundo grupo de gente inesperada como o "rapper" Chullage ou duas mediocridades mediáticas como Nuno Markl e Fernando Alvim. Os resultados diferem como se podia esperar, a maior parte dos resultados são fáceis de esquecer com excepção de David Soares que até inventa um falso ritmo "cadáver-esquisito" sem que ele esteja ipso facto a participar num. Chason Noire arrotou apenas frases, os autores não andaram a continuar os textos um dos outros («da maneira que deseja, porém, dobrando o papel para que os demais colaboradores não tenham conhecimento do que foi escrito.»). Escusado dizer que o Fernando Alvim é um imbecil seja ao vivo na TV seja em papel impresso e se o Chason Noire gosta de brincar com a "iconoclastia" e o "kitsch" de Portugal, não conseguiu cozinhar esta caldeirada. Por um lado ficamos pelos clichés do "Gótico" com as habituais cabeças de porcos, campas de cemitérios e bonecas antigas, e por outro meia-dúzia de bocas a Portugal sem conseguirem ser profundas. O som entre o cabaret, a euforia dos Muse e a música de telenovela dos anos 90 não consegue ser ser subversiva - suponho que o autor gostaria de usar o Pop para "minar por dentro" mas só consegue ser azeiteiro. Não há glamour porque sentimos vulgaridade por todos os poros - essa vulgaridade também elimina o "choque" da mensagem libertina num mundo há muito habituado a imagens S/M, swing, etc... As composições repetem-se bem como a forma de cantar. Investigando na 'net, houve discos dele mais interessantes do que este, apesar de o músico apontar este como o derradeiro produto.
Gosto de dizer que cá em Portugal só gostamos das pessoas quando elas estão na merda, e quando um gajo tenta sair dela gostamos de o trazer de volta ao caldo de coliformes fecais. Eu gosto de pensar que sou uma excepção à regra - fico feliz pelo sucesso dos outros e o catano - mas o Chason Noire vai achar que não.Resta dizer que tenho muita pena...

Apesar de também colaborações inesperadas - David Soares (outra vez), o Chanson Noire (olha!) ou Fuse do grupo de Hip Hop Dealema  - neste quarto álbum dos Holocausto Canibal, Gorefilia (Raging Planet + Raising Legends; 2012) - pouco adiantam em alguma alteração do som da banda. Estamos perante Death Metal brutalizante de serial-killer Gore pornográfico, que é aliás um sub-género do Death Metal. Nada de novo por aqui, basicamante todas as letras são sobre "quero foder essa vagina toda gangrenosa desse teu cadáver infecto" sejam escritas pela banda seja pelos convidados - ei, isto é Death Metal e não um recital de poesia, meu!
Num lado ou noutro há algumas diferenças de som no típico Death (género e/ou banda), como por exemplo o recital dramalhão de Fuse (que parece ter sempre os polegares enfiados no anús), a parceria de Miguel Newton (Mata-Ratos) resulta numa correria Hardcore e há alguns "glitches" a lixar o disco - mas neste último caso trata-se do humor de merda da banda que os Holocausto Canibal habituaram nas suas produções. Para 15 anos de carreira faltam os tomates inchados de sangue para convidarem os Stealing Orchestra para os remisturar como fizeram no segundo disco, Sublime Massacre Corpóreo (So.Die.Music / Division House; 2002). Mas quem quer ouvir inovações no Death Metal? Aqui interessa atingir um orgasmo "porno-gore" conseguido pela falocracia do som e vaidade (do visual do disco que faz concorrência ao Fredox). Sobretudo são 15 anos de carreira a provar que se pode grunhir em português! Parabéns meus grandas javardolas!

Por fim, o disco de remisturas... Os Process of Guilt são actualmente venerados pela crítica especializada da cena Metal facção Doom / Sludge. The Circle (Bleak; 2012) é um tema do álbum anterior e é misturado neste CD por diferentes músicos como Sanford Parker, Echoes of Yul, DJ Mofo, Bosque, Sons of Bronson. Falta dizer que foi masterizado pelo grande monstro James Plotkin como manda o figurino - nos dias de hoje todos discos de Rock portugueses são "masterizados" por cromos estrangeiros, o que se suspeita a dada altura que também faz parte das manobras de marketing do "convidado especial".
Longe de completar um círculo musical - ou qualquer outro, assim me parece visto de fora - é sobretudo um exercício do que se pode fazer com um tema Doom transformando-o em algo"dronesco", Noise ou ambiental, sendo interessante as alterações da sua forma. Talvez seja um mau disco para começar a ouvir esta banda porque vamos parar a dimensões que não lhes são habituais. Este disco de misturas (como todos os de mistura aliás) é nitidamente para fãs embora não seja de todo inutil ou ofensivo à inteligência de quem os segue. Interessante apesar da sua eterna lentidão lusa...

sábado, 17 de junho de 2017

Cego pelo sol


Se os Pink Floyd ouvirem este mini-LP vão-se cagar todos. Nesta década os portugueses já sabem o que é Doom ou Sludge e seguem em frente como é o caso dos Wells Valey cuja a estreia deixou-me indiferente mas com este The Orphic (Chaosphere + Bleak + Raging Planet; 2017) já se pode dar o título de "disco metal português do ano". Tal é dinâmica e peso que o disco transmite pela psicadelia (sim, tem uma versão de um tema dos Floyd), Post Black, ruído e pára-arranca, que mostra que lá porque se faz este tipo de música não se precisa ser um lobotomizado. O laranja do vinilo indica que estamos em zona radioactiva e quem tocar nisto irá morrer de cancro, talvez seja melhor ouvir na 'net onde o som não terá o mesmo impacto que pela via analógica... Eu preferi o vinilo mas vocês é que decidem como querem ouvir este monstrinho!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Keep it boring, make it fast!

Com a web 0.2 e a revolução digital, a produção de informação aumentou que é coisa doida, numa escala inacreditável que não tem equivalente à explosão DIY do Punk nos anos 70 e décadas seguintes. Eis-nos numa Aldeia Global em que todos produzem e consomem conteúdos em simultâneo, sem pensamento crítico e moral - essa é feita pelos Padrecos da 'Net que nos tiram fotos de mamas (com ou sem cancro) do "fezesbook".
Há documentários de tudo, sobre queijo ou a vida sexual dos rinocerontes ou sobre o punk português como é o caso deste Bastardos: Trajetos do Punk português (1977-2014) produzido pelo projecto KISMIF. Todos acabam por ter o mesmo apelo e qualidade estética quando a máxima é "filma-se, edita-se, mete-se na 'net e tá feito".
É positivo que a informação apareça e no caso do punk português que vivia de obscuridade, é de salutar qualquer tipo de iniciativa. Só que ficamos por aqui no que diz a Bastardos, os agentes que se envolveram em fazer Punk sucedem em filmagens em locais feios e sem imaginação, a maior parte é do Norte (abaixo de Lisboa nem se fala!), com discurso fragmentado e pouca ou nenhuma documentação visual a ser mostrada. E quando mostrada é de forma tão fria que nem dá para perceber os artefactos. Ah! E sempre tudo centrado na música, como se o Punk se reduzisse a isso... Felizmente Joe Corré recentemente relembrou-nos que não, que a música não tinha nada haver com o Punk! Cheers, mate!
Este tipo de produção poderia vir de um amador, o que tudo lhe seria perdoado mas infelizmente este documentário veio do meio académico, onde deveria haver mais rigor e discurso, sobretudo de quem se está a tornar (em teoria, ó dupla ironia) na referência sobre o assunto. Nem o Sid Vicious era inocente nem o KISMIF o é. Entre pontos de avaliação pró CV e subsídios da praxe, o que vale é apenas fazer por fazer para que essa máquina de pontinhos e dinheiro não pare.
De resto, a edição em DVD (2015) com as chancelas da Chaosphere, Raging Planet e Zerowork é de uma pobreza atroz, em o que safa ainda é a capa do Esgar Acelerado (espero que tenha sido pago!) porque de resto é isso, uma rodela dentro de uma caixa de DVD. Pelo conteúdo ou pelo objecto o que se pode resumir é que Bastardos não é o "livro branco" do Punk português, é apenas uma marca branca.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Música de Natal

Que mês intenso que foi este no que diz a música, a começar pelo regresso dos Mécanosphère. Nove anos depois da sua obra-prima Limb Shop, o que dizer deste Scorpio que saiu pela Raging Planet? Pouca coisa infelizmente quando estamos em 2015 e o seu "Dub Hip Lit Industrial" carregado de fantasmas do Rock e do Jazz não é propriamente uma ruptura inédita nos campos sonoros mesmo sendo os únicos deste "género" em Portugal.
Trata-se sem dúvida de um disco com potência como poucos são feitos em Portugal mas obrigava a ter uma bomba acoplada pronta a fazer vítimas dada à equipa de alto calibre (além do habitual Adolfo Luxúria Canibal, temos elementos dos Sektor 304 e entre eles os "nossos" André Coelho e Manuel João Neto) e à ausência discográfica tão prolongada... Sei que me bate pouco porque sou um "freak má onda" que só fica satisfeito ao testemunhar um gajo a desmaiar no meio do público com o barulho da "banda" no seu recente concerto lisboeta... Pela lógica magnética, má onda com mais má onda não se atraem e assim se explica com rigor científico esta minha falta de afectividade com o disco. Vejam vocês o que vos acontece...

Coincidência cósmica foi quando no lançamento do graphzine Evan Parker relativo à acção principal do X Jazz, pensava eu que a Chili Com Carne seria a primeira e única a editar um produto cultural envolta deste ciclo de programação que combinava Jazz e Aldeias de Xisto e afinal... afinal havia outra! Outras! Duas rodelas chamadas CDs! São gravações por alguns dos músicos que fizeram parte da residência artística com Parker. O quinteto Pedra Contida apresenta Xisto (JACC; 2014) num processo de pica-miolos soft em que se experimentam várias parelhas à procura de barulhinhos num ambiente rural. Concentric Rinds (Cipsela) é o encontro entre Marcelo dos Reis (guitarra) e a harpista Angélica V. Salvi - ambos de também de Pedra Contida - depois de terem tocado pela primeira vez durante essa residência com Parker. Fazem um diálogo dócil e sóbrio apesar do grafismo do CD e até os títulos parecerem antes de um projecto Harsh Noise nórdico! Só no final do disco é que decidem entrar pela estridência ruidosa mas tudo bem, tudo se perdoa pelos anteriores bons momentos. É fixe ver coisas a acontecerem devido ao X Jazz, apesar da morte de comunicação entre a CCC com a JACC e a ADXTUR sabe-se lá porquê...

A melhor prenda de Natal que qualquer melómano 'tuga poderá oferecer a si próprio é a k7 Akusekijima (Tapes She Said) dos 'nocas KufukiÉ "apenas" o melhor disco estrangeiro editado em Portugal - é certo que também merece o título de "pior capa portuguesa 2015" mas é para isso que aqui estamos nós para ajudar o braço armado-da-k7 da Lovers & Lollypops.
Imaginem uma música para um jingle de uma esfregona ou de rebuçados de anis feita pelos Legendary Pink Dots mas que foi raptada por hackers japoneses doidos varridos (eu sei que é estereótipo achar todos japoneses malucos mas caramba, eles são mesmo "fora"!) que a prolongaram até ao caldeirão sonoro do psicadélico Kraut & Folk & Freak. Temos neste disco os sons exploratórios para quem quer viajar pelos Cosmos a preço low cost mas tendo como guia uns cosmonautas sábios. É que isto de explorar o Universo não é para ficar a babar-se a contemplá-lo, não, meus amigos, é preciso também mexer o cu... pelo menos sete vezes!

O colectivo Cafetra organiza todos os anos um evento cultural lisboeta incontornável para quem acredita em DIY e independência artística à séria. Lançaram uma colectânea em formato k7 (sim, 2015 é definitivamente o ano do "regresso" deste formato áudio) com todas as bandas e projectos que tocaram nesse dia, o que se transforma num documento histórico para investigadores no futuro (nunca se sabe, há doidos para tudo) como uma recordação sentimental para quem lá esteve. É o meu caso, que ao ouvir a k7 recorda-me os melhores momentos - e os piores e os medíocres - dessa maratona na Caixa Económica Operária.
Há um pouco de tudo nesta colectâncea o que a torna excitante de ouvir porque os géneros musicais estão todos misturados, sem uma ordem, por isso só para dar alguns exemplos, salta-se do cantautorismo iconoclasta de Lourenço Crespo para tortura de chips dos Calhau acabando o Lado A com a Virgem Maria do Techno que foi a grande revelação profética Bleiddwn - mais uma vez foram as mulheres a tomarem conta do recado tal como no ano passado.
Pró ano há mais? Festival + k7? Digam que sim... pleeeease!!!

quarta-feira, 29 de abril de 2015

MÁ ONDA E SUJIDADE #666

O Camarada Pereira da Narcolepsia começou com esta secção mas abandonou-a sabe-se lá porquê. Como provocação eis um "número" especial para instigá-lo a voltar! Talvez uma das razões da desistência do Narcolepsia Man ter continuado com estes "posts" foi porque anda a editar muita K7, CD e zines como estes três pela sua Black Blood Press:



Absurdum Compil Decembre 2013 (!) é de Romain Perrot, ou seja, Vomir, ou seja, aquele gajo do Harsh Noise que actua com um saco de plástico na cabeça... Perrot será mais um caso in extremis do punk / outsider art / etc... ou seja, admite que não sabe fazer nada mas isso não o faz desistir de fazer Noise violentíssimo, tocar guitarra como um Neandertal (embora este duo da Estónia tenham mais piada) e desenha pessimamente. O seu charme transcende o trabalho e Pereira editou um zine enorme A4 de cento e tal páginas de desenhos de meter medo ao susto. E o "zinão" ainda vem com um suplemento intitulado France Lucifer que pode ser visto como um "catálogo" de grafismos da label de Perrot remisturado por Manuel Pereira. Não curti nada porque estou a ficar um velho conservador, claro...



The repetition of unappealing moments de Andy Krupinski (metade da banda "outsider black metal" Crooked Necks) é estranhamente narrativo apesar de se perceber que se trata uma compilação de colagens sem essa ligação. Mas "lendo" as imagens de seguida chega-se ao tema do "trabalho das 9 às 5" e os tempos modernos da rotina. Pena a impressão ser a fotocópia barata que deixa pouca definição sobre estes trabalhos...




Dog-Tired de Kevin McEleney (da Heavy Psych) é o contrário, uma fotocópia (e/ou papel) xunga iria dar-se bem com as composições mais abstractas e "graphic-glitch". Deve ser uma das poucas edições da Black Blood que foge ao cliché da escatologia da cultura Noise. Interessante...




Ainda mais inesperado, sobretudo prós puristas do Harsh Noise é a edição em CD [Que heresia! Harsh Noise tem de ser editado em k7 ou vinil, NUNCA em CD diz a Bíblia dos "noisers"] de Great Northern Love de Fecalove que está com uma produção super-limpa - quer de imagem, com capa do próprio Fecalove - aka Nicola Vinciguerra - quer no som. Mas "limpo" não significa que não seja um terror sonoro que fazem as obras no prédio parecer melodias para crianças. Uma besta este disco co-editado entre a Narcolepsia e a finlandesa Untergeschoss.


Da Finlândia chegou-me umas ricas peças!... DES (Institute of Paraphilia Studies; 2013) é um livro de Arte que recolhe um trabalho do artista sueco Martin Bladh envolta do "serial killer" inglês Dennis Nilsen preso em 1983. Reúne fotografias, desenhos, correspondência com o criminoso e ainda com o filho de uma das suas vitimas. Bladh cria discursos sobre as relações entre Arte e assassinato que no mínimo provocam perturbações intelectuais mais do que as imagens que são publicadas. Já agora, para os mais distraídos Bladh já colaborou com Sektor 304 no Sonores e no recém-lançado disco Ruby.


Erotic Perversion #1 (2002) é um fanzine finlandês sobre sexo perverso, que pouca utilidade terá quem quiser masturbar-se a não ser que goste de ver pás a serem enfiadas numa vagina, S/M a roçar o snuff, piercings na genitalia, resenhas a filmes de Bukkake, etc... Diz no editorial, que o fanzine é feito para satisfazer os desejos pessoais do editor, o que torna o acto editorial numa perversão erótica por ela própria. A entrevista a Nalle Virolainen é interessante como quem está metido neste tipo de cena sexual é (ou pode) ser crítico à pornografia - como uma arma do capitalismo e da monocultura - mas já a Alexia que gosta de levar com urina e fezes, enfim...


Por fim, para quem não aguenta tanta violência, pode-se ficar pelo split-7" de Hellbastard e Perpetratör lançado pela "joint-venture" Chaosphere / Raging Planet / Hellprod. A primeira banda é inglesa e uma instituição do Punk-Crust de fusão com o Metal - como os seminais Discharge - e mostra que os punks à muito que sabem tocar além de que são capazes até de fazer uma balada para acalmar os nervos. A segunda banda é música para tomar speeds regados com tintol da terra, ou seja Trash à séria! Num país de paradinhos como o nosso é de ficar embasbacado com este trio pois cumprem todos os requisitos do género: barulheira, complexidade e velocidade. A melhor banda do momento de Metal daqui do canto? É bem capaz... Procurem esta pérolazinha!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Façam apostas!

Merda! Gostei do disco dos Facção Opposta, o Lendas Urbanas (Dunkel; 2013)!!! Juro que não queria porque o disco tem tudo o que menos gosto desde há muitos anos: directo, revivalista, skins e futebol. A sério, malta sem imaginação a querer ser algo que já não podem ser nem nunca poderiam ser, ou seja, elementos de uma subcultura criada na xungaria da Inglaterra nos finais dos anos 70 - man, nem houve Revolução Industrial em Portugal! Assumem-se Skins apolíticos sendo meramente reaccionários, nada contra. Não são racistas ainda que usem imaginário e letras com laivos nacionalistas que irritam mas como se calhar é para enganar e converter os Skins Nazis até passa. Algumas letras são sobre a bola e hooliganismo ou sobre malta proletária mas que se calhar até gastam uma milena para ter as marcas certas de roupa para o curtir este non-stop de síndroma Peter Pan que todas as subculturas da Humanidade sofrem desde que a web.2 passou a ser parte da nossa vida. Seja como for este será dos melhores projectos de Punk em Portugal nos dias que correm pois há aqui força masculina e letras contudentes - a maior parte delas acho de dificil identificação burguesa mas outras como Esquema é universal q.b. Claro que é estranho ouvir músicas sobre uma tradição urbana importada quando se quer fazer hinos à cultura portuguesa num disco editado no Brasil mas na pós-modernidade tudo se engole e tudo se perdoa. A nível instrumental 'tá bem tocado dentro do cânone Oi! mas há pequenas situações inesperadas como umas cordas em Celtiberos ou pífaros no História do 12. Para quem gosta dos brasileiros Garotos Podres (lembrei-me deles porque estão em digressão por Portugal esta semana) este é o disco! E caramba até ao o artwork impressiona de estar tão bem feito e telúrico ao ponto que se eu fosse um jovem Nazi cagava-me todo!

E por falar em boas edições de Punk 'tuga (coisa rara!) destacava o Split-EP lançado o ano passado pela Zerowork e Raging Planet dos Albert Fish e Grito! que tem uma capa super-porreira (quem é que fez a ilustração? não há créditos quando as cenas são boas!?). A mesma anuncia que vamos encontrar um encontro entre Skins e Punks com o cliché todo ao de cima - vendo as fotografias das bandas o que menos temos é moicanos e suspensários. As tribos urbanas em 2000 é todo um mundo Cosplay... A música dos Grito! é também um Oi! com pronúncia do Norte - um orgulho bairrista que só se encontrava ainda há alguns anos na cultura Hip Hop (a excelente e saudosa Matarroa ou o Rey por exemplo). Albert Fish é Albert Fish, Hardcore de sing-a-long escorreito que já não precisa de apresentações, só não sei se os temas são inéditos ou são de registo anteriores que nunca sairam em vinil (é verdade o pessoal desculpa-se com esta!). Quem desenhou a capa carago?

E ainda em vinil temos reedição dos únicos temas gravados dos Grito Final, ou seja Ser Soldado e Bairro da fome, temas que sairam em 1986 originalmente na compilação Divergências (da mítica Ama Romanta). Esta edição (pirata?) pela Teia Edições é deste ano e usa um estilo minimalista gráfico para apresentar uma banda da segunda vaga punk portuguesa. Podia ser um grafismo para uma banda Dark da altura do que para punks... Um erro de "casting"? Ao ponto de ser um design muito mais bonito que a música que ouvimos que é um Punk mais ou menos a abrir a lembrar bandas dessa altura como os Vómito. Talvez porque o som seja rançoso de "vintage" que o design envoque justamente esses outros tempos quando havia ainda esse nojo que era o serviço militar obrigatório e mal se sabia que ia haver o Cavaquistão I e II.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Negócios simples



A Tree of Signs : Saturn (Chaosphere + Raging Planet; 2014)
Sektor 304 : Engage... Forwards (New Approach; 2014)

Há realmente algo de desonesto nas bandas de Rock que gerem o seu nome de banda como se fosse uma empresa. Pouco importa se o vocalista bazou e voltou, continua a ser Iron Maiden com ou sem o pilas do Bruce. Continua a ser Sepultura mesmo que sobre praí um brasileiro na banda, etc... Acho que o único exemplo de integridade que conheço até é um exemplo português: Jorge Ferraz mudava o nome da banda sempre que um elemento saía, daí que tenhamos primeiro os Santa Maria, Gasolina em teu Ventre para depois passar a ser God Spirou e depois para Muad'Dib Off Distortion, Fatimah X, etc...
A verdade é que se ouve melhorias entre o meia-leca de LP de estreia dos A Tree of Signs e este novo single em que a vocalista mudou mantendo-se apenas os gajos feios de barbas que cuidam da bateria e guitarra. É estranho isto? É machismo? Não, é apenas... Rock'n'Roll bizzzzness! Avanti! Eis uma peça de colecção, um single com três temas tão retro como só o século XXI permite - mas ao menos não é Garage ou Blues - ir ao tempo setenteiro do Hard & Heavy, até porque está muito na moda na cena Metal. Temos uma banda mais coesa e groovie que na encarnação anterior mas ainda falta muito para soltar a franga. É preciso dar tempo, coisa que ninguém parece ter a julgar pelas ejeculações editoriais. Belo desenho de capa mesmo que "sobre-capitalizado" e especialmente bom o último tema do disco, Red Lune III, um instrumental de droneira tosca que rende ritualizações no sofá.
Quanto aos Sektor 304, a banda tem engordado as suas fileiras com mais membros - é um quarteto desde o segundo álbum "oficial" - e com isso tem alargado as veias dos primeiros registos que entravam em campos dogmáticos do Noise e do infinito sincopado ritmo tribal. Nestes dois temas do single recém-editado, sente-se aproximação a Metal Industrial que já o tema By the Throat (do tal segundo álbum "oficial") deixava adivinhar. Engage... Forwards parece ser um manifesto do que Sektor 304 pensa do que significa Industrial em 2014 - embora quase todos os seus discos sejam isso, manifestos para o futuro do Industrial. O lado B é uma regravação do tema Voodoo Machine (do Soul Cleansing) agora com os quatro elementos (na altura foi apenas com os dois elementos fundadores) e com uma atitude mais "live" da coisa. Um dos melhores projectos de música urbana portuguesa especialmente porque ninguém pode levar o Rock a sério nos dias que correm... Ainda assim, vale a pena rectificar que os Sektor nem estão nesse terreno pantanoso!

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Aos pares




Missing Dog Head : Cerberus One (Delphy; 2013) + Cerberus Two  (Delphy + Sonoscopia; 2003)
shhh... : + vol.1 + + vol.2 (Thisco; 2013)
Shrine : 1990-1996 (Glam-O-Rama + Chaosphere + Raging Planet ; 2013)

MDH é um trio com dois guitarristas austriacos e o Gustavo Costa e que lançaram mais dois discos ambos com o nome de Cerberus, o cachorrão de três cabeças que guarda o "inferno" greco-romano. Para quem gosta de Post-Rock, termo que nada quer dizer na realidade, poderá encontrar aqui escapatória à mediocridade do género porque novamente, o termo nada quer dizer e quem toca aqui não se mete em "géneros". O trio mete-se Jazz de fusão com Noise Rock mas pelo meio entram em ambientes bafientos como se estivessemos num bar em que sabemos que não tarda nada começa tudo à porrada. O som nunca chega a ser violento como Albatre porque o que MSH indica é que algo está mal, muito mal à nossa volta. Talvez por isso que as ilustrações de André Coelho tenham sido reduzidas a cromos de caderneta nas capas dos discos? O segundo volume é nitidamente mais experimental que o primeiro, a começar porque são incluídas gravações de campo nas montanhas do Tirol que Costa fez. Diria que o primeiro volume é "ao vivo" (ou de improvisação) e o segundo é o "de estúdio".

Os dois novos discos de shhh... são o símbolo "+" e foram feitos exclusivamente com colaborações externas, daí o "mais" visto que shhh... é um projecto de Rui Bentes, sendo que não são discos de "remix" sobre temas que já existiam. A maior parte são participações estrangeiras de cromos da música experimental / electrónica como Francisco López, Dave Philips, Phillipe Petit, ThisQuietArmyAnla Courtis,... Os discos parecem "errados" de várias formas, sendo impossível separar a forma e o conteúdo. Começo pela apresentação dos discos, de pobreza franciscana e muito incongruente. O pior, é que não se explica nada sobre o projecto, sobre as formas de trabalho entre os vários artistas, etc... Quem quiser ouvir os discos e pensar no que ouve obriga a que se tire notas antes de inserir o disco na aparelhagem (porque as colaborações e títulos das músicas só estão impressas nas rodelas dos discos) ou que se decore os músicos de cada faixa. Claro que no mundo da web.2 se calhar nada disto importa... Pergunto também se uma das faixas não fosse editada neste grupo de CDs não seria tudo "compacto" e mais fácil de ouvir num único disco invés de estar a mudar de CD em CD de meia-em-meia hora? Talvez seja a maldição dos álbuns-duplos (e estes dois são um álbum-duplo? não sabe / não responde) que criam ânsia em querer ouvir as duas rodelas mas que nos obriga sempre a escolher entre os dois discos! Qual deles o melhor? Qual deles o pior? Qual oiço primeiro? O mais estranho disto é que apesar de todas as colaborações parece que nada acrescentam ao universo de shhh... ou de outra forma, dificilmente se percebe o universo dos outros artistas - onde se topa mais facilmente, curiosamente até é o menos "famoso" deles todos, o Rasal.Asad. O fascínio "breakbeat cinematográfico pós-industrial" de shhh... continua em alta mas a pureza da captação de som que ele é muito bom parece que se perdeu no meio deste caos ou então não consigo ouvir com clareza devido ao formato editorial. Há quem diga que menos é melhor e é capaz de ser bem verdade ou então... [cut]

Ao contrário dos outros projectos em que há dois CDs em embalagens separadas, o 1990-1996 é um CD duplo e recolhe a discografia completa dos Shrine, uma importante banda nacional de Metal dos anos 90. Só lançaram um álbum, Pespective (Morgana; 1994), e nesta recolha é incluido não só demo-tapes anteriores à estreia oficial mas também o segundo álbum gravado, Servants of the glow, que apesar do título nunca viu a luz do sol - isto desde 1996! Apesar de ser mais uma banda que tocava Trash/Death como era normal no seu tempo, os Shrine não se ficaram pelos "templates" de Sepultura ou de Obituary e na realidade conseguimos perceber que o que eles gostavam era de Voivoid, o que já mostra que eram anormais em relação aos outros metaleiros. Topa-se numa das fotos que estão no livro do CD, em que a banda está sentada no chão a fumar uma chicha (cachimbo de água marroquino) e não em pose de macho como eram as fotos de outras bandas da altura e de hoje! Se nos primeiros registos topa-se neste "power trio" a influência de nítida Voivoid, ora nos breaks de bateria, que de tão abruptos que soam a amadorismo (o que é um elogio!), em algumas guitarradas dissonantes e na voz longínqua, no segundo disco a banda vai evitando a velocidade do Metal e vai atraindo peso-lento do Doom e experimentação psicadélica a que se chama hoje de Stoner mas na altura era um efeito directo do Prog dos 70s. Deve-se agradecer às editoras envolvidas neste projecto que tenham feito o trabalho perfeito de arquivo fonográfico, coisa rara em Portugal. Depois de reedições em vinil de Thormenthor e Sacred Sin, pergunto se o Estado português não lhes deveria dar um prémio de conservação patrimonial?