quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

MÁ ONDA E SUJIDADE #4

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Reeditado durante o ano de 2009 pela Hanson Records (editora de Aaron Dilloway, ex-Wolf Eyes) o primeiro LP dos americanos The Haters é um dos albúns fundamentais na História do Noise.

Afastado de alguns tiques recentes quer de idolatria de determinados efeitos e de uma certa formatação facilitista, tanto a nível de tácticas quer de conteúdos, quer de uma necessidade de ironia, "In the Shade of Fire" é um manifesto de celebração da força e das possibilidades do ruído. Sem interferências ou obrigatoriedade de referências que o contextualizem, subsiste pela fruição pura e dura. Hedonista e niilista.

À semelhança do que faziam os The New Blockaders em Inglaterra, este disco, assim como a maioria da sua extensa discografia, aponta para a cristalização de um momento sonoro e um esforço incisivo de análise microscópica do som, circular e repetitivo enquanto escava cada vez mais fundo sem chegar a lado algum.

Textural e orgânico, primitivo e imaginativo, "In the Shade of Fire" é uma colecção de curtas faixas variadas na sua contemplação auto-destrutiva. Títulos como "Explosions 3" e "Fire 5" são algo enganadores já que não é tão fácil como se poderia pensar descortinar como algumas das faixas foram produzidas e gravadas. Todo o albúm encarna um certo deslumbramento (estávamos em 1986) mas soa particularmente refrescante e relevante numa época de alguma sobreabundância e falta de direcção do Noise mais abrasivo.

Aqui apresentado pela primeira vez na sua versão integral, com liner notes de Sam McKinley / The Rita, afinal de contas sem discos como este não existiria HNW.

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Mais uma reedição fulcral no seio do metal mais obscuro, desta vez de uma das bandas mais injustamente remetidas ao esquecimento. Tão intensos e carregados de tanto negrume como os conterrâneos Witches Hammer ou Sacrifice, os Voor editaram apenas 2 demos em cassete durante a sua curta existência. Thrash Metal canadiano, do mais vil e sujo de que há memória, e uma das bandas que, tendo lançado tão pouco material, conseguiram uma influência tão marcante nas gerações futuras, a par dos Von ou dos Necrovore só para citar alguns exemplos.

Disponível pela primeira vez em vinil numa edição com a qualidade a que a Nuclear War Now! nos tem habituado, "Evil Metal" compila ambas as demos (há ainda uma versão die-hard com outtakes dessas mesmas sessões, assim com material dos Roswell, banda pós-Voor).

Mais uma peça chave no (inevitável) esforço de arqueologia do metal na última década.

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Após mais de 3 anos de preparação é bom saber que as elevadas expectativas foram atingidas, senão mesmo superadas. As Loud As Possible é o culminar de um esforço enorme de reflexão sobre o estado actual do noise e derivados, e se o seu olhar é também arqueológico (temos um artigo extensíssimo sobre o legado de má onda e ultra-violência da Broken Flag, a comemoração dos 30 anos dos The Haters, ou da zine de culto dos anos 80 Interchange), há igualmente uma análise do que melhor que se vem fazendo recentemente, da subversão da sexualidade submissiva do power electronics de Climax Denial à documentação do fervilhante underground de Gotenburgo pela figura de Dan Johansson (Sewer Election / Attestupa / Utmarken), até uma entrevista com Carlos Giffoni acerca do festival No Fun.

Como publicação atingiu a meu ver os propósitos a que se propôs, reunindo artigos, críticas e entrevistas de grande qualidade sobre algumas das figuras e momentos mais relevantes da História do género, sem o estigma da esquisitice de uma crítica outsider que tem vindo a incluir o noise pelo exotismo ou por outras razões menos louváveis, mas que muitas vezes não possui o conhecimento nem as ferramentas para o analisar e contextualizar da forma que merece enquanto género musical tão válido como qualquer outro.

Com a distância que 30 anos de História proporcionam mas sem um discurso hermético ou da nostalgia pela nostalgia, a As Loud As Possible é um momento marcante não só do noise como do jornalismo musical.

Fundamental.

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Uma muito improvável reedição de luxo (duplo DVD carregado de extras) de "Vase de Noces" (também conhecido como "Pig Fucking Movie") pela austríaca Camera Obscura, um inenarrável filme de culto que circulava há muitos anos no circuito das bootlegs numa cópia de péssima qualidade.

Trata-se de um filme passado num contexto indeterminado de pós-grande episódio de devastação, uma história de amor em decomposição que se desenvolve em torno de um dos derradeiros tabus, o bestialismo. Último homem na terra ou descida sem rede aos recantos mais depravados da mente humana, esta experiência radical do belga Thierry Zéno, co-realizador de um dos melhores mondo de sempre, "Des Morts" (1979), é um dos clássicos absolutos do underground. Transgressivo, visceral e ainda tão desconfortável como em 1974.

Cinema de fim da linha.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tvvo tone

Tiago Guillul : V (FlorCaveira; 2010)

Este seria o Remain in light de Tiago Guillul, caso Guillul tivesse um Brian Eno a ajudá-lo como este produziu os Talking Heads. Este é o disco que deveria ser o "template" do Pop português há 20 anos atrás - curiosamente o citado disco dos Talking é de 1980 - fazendo a eterna marca de que Portugal está atrasado 20 anos em relação ao resto do mundo.
Vamos por partes, de "panque" este V nada têm, é Pope do Senhor. Pope nostálgica devedora à New Wave e No Wave que investiram nas polifonias africanas para fazer um Pop novo e aliciante. Em Portugal, pouco aconteceu no que respeita a relações musicais luso-africanas. A Cesária Évora foi invenção dos franceses. Houve ausência deste continente musical nos medias e em eventos públicos até os Buraka apareceram em 2006 para dar uma volta ao "som sistema", isto para resumir muito ao de leve a nossa ingratidão e racismo cultural.
Guillul, panque roquer e pastor protestante, assumiu o paradoxo e em cooperação com outros alinhados trouxe a língua portuguesa de volta à música moderna portuguesa, em parte fez um exercício de memória dos anos 80 (não é à toa que Rui Reininho participa neste disco), mostrou que o DIY rende e no meio apostou demasiado no cantautorismo -o seu pecadinho menor, até porque Guillul nunca esteve completamente embrulhado nessa fossa de choramingas. Uma costela africana saia-lhe de vez em quando, agora brotou uma espinha completa, só lhe falta a bunda de preta!
Samplou vários materiais evangélicos em loops, meteu a sua mensagem em letras Pop bem escritas e cá está o quinto volume de músicas Pop orelhudas e inteligentes. Falta-lhe é a agressão panque (esquecida por enquanto?) e a loucura Afro (a explorar no futura? a soltar a franga?). Talvez seja um álbum de transição mas sobretudo é um álbum de coragem afinal ele (acompanhado por Silas) gravou num estúdio profissional, o da Valetim de Carvalho, a "abbey road portuguesa". Talvez por isso que esteja limpinho? Talvez para a próxima precisam de um produtor (de música electrónica) cromo do Norte para aquecer este mambo.

Na versão vinilo de V foi incluído um CD-R grátis intitulado O Antes e Depois dos Gratos Leprosos, banda de Tiago & cia até 2005, antes dos Lacraus e dos sucessos mediáticos da FlorCaveira. As músicas foram reutilizadas ao longo da carreira das várias bandas de Guillul, sendo que em 2009 reuniram-se para regravar o legado. Este disco é o paradigma FlorCaveira antes de se estragar - ver resenhas críticas neste blogue.
Resta referir que fiz a capa para este disco e em troca o Guillul prefaciou-me o meu último livro, Talento Local. Por isso acabam aqui os meus comentários obviamente comprometidos.

Tenho cópias deste disco para quem quiser desde que compre um dos meus livros: Noitadas ou Talento. Limitado ao stock existente. E também a versão vinil (com o disco dos Gratos) e versão CD digipack - desconto 20% para sócios da CCC.

Qu'Inferno

Os Gajos da Mula; Jul'09

Voltámos a ter acessível o último título estrabólico dos Gajos da Mula lançado durante o evento após o Mula Ruge. Antologia com trabalhos de Miguel Carneiro, Marco Mendes (ambos repetindo os trabalhos que estão no Crack On, os batoteiros!), Arlindo Silva, Filipe Abranches, João Maio Pinto, André Lemos, Von Calhau, José Feitor, Jucifer, Lígia Paz, Nuno de Sousa, Carlos Pinheiro e Carlos Zíngaro, "encapados" em serigrafia em que todos os 300 exemplares tem cores diferentes.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Puro Turbo Folk!


A Caravana Underground portuguesa saiu no semanário sérvio independente Vreme, duas páginas em bd por Aleksandar Zograf - aqui em pormenor, a preto e branco (sai a cores na revista) e em inglês, ou seja a versão a sair no livro da tour em breve.
...
Na capa, a Raínha do Turbo Folk a ser chamada de "putovanja" (putéfia? não pode ser!). Explica Zograf: «She definitelly is "puta", not "puto"! Putovanja means travels. Ceca went to Australia, just before another trial, I think, as she did some illegal money transfers while selling football players in her club... She did it years ago, but obviously some political figures are defending her from being prosecuted... Anyway, at Vreme they told me that magazine sells better whenever she appears on the cover, so it's good for the strip... » Mais sérvio não podia ser!

sábado, 15 de janeiro de 2011

Vida e mortes da Bedeteca de Lisboa

Como por certo saberão a Bedeteca de Lisboa vem definhando, num triste estado de abandono. Primeiro foi o desmantelamento da equipa de trabalho. Agora a Câmara parece preparar, da costumeira forma indirecta e difusa (cobardolas!!), a estocada final, com a ocupação das instalações para outros usos. Tudo isto sem assumir nada, bem entendido.

Pois é, aquele sítio onde durante mais de uma década fizemos livros, exposições, amigos, concertos e o mais que sabemos, esse sítio parece que é desta vai mesmo à vida!

Para já circula uma petição digital dirigida à CML - não sei qual a eficácia da coisa mas já assinei e sugiro que faças o mesmo

http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N5472

Suponho que devíamos avançar também para a acção directa e (re)ocuparmos todos, por um dia que seja, as instalações da Bedeteca!

Queremos a Bedeteca de volta, as ovelhas essas já têm onde pastar, na Quinta que é mesmo lá ao lado!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa



não é o cartaz oficial (não há!?) mas o André Lemos fez um fixe que decidimos roubar para este "post"!

Inaugura no dia 10 de Janeiro (Segunda-Feira) às 19h30, no Museu Berardo - no Centro Cultural de Belém - a exposição Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa comissariada por Pedro Moura.

«Esta exposição visa dar uma perspectiva ampla da criação da banda desenhada portuguesa, procurando o encontro com novos públicos diversificados e expandindo a percepção social desta linguagem. A banda desenhada é sobretudo conhecida como uma linguagem de entretenimento, de massas, afecta ao público infanto-juvenil, sendo muito difícil que alguém não conheça as muitas personagens famosas que compõem essa paisagem cultural. No entanto, tal como em quase todos os outros campos artísticos, a banda desenhada também tem um número de autores que a procuram empregar como um meio de expressão mais pessoal, ou uma disciplina artística aberta a experimentações várias, informadas pelos discursos contemporâneos. Seja pelo lado da escrita, com autores a explorar a autobiografia, uma abordagem da paisagem cultural nacional, problemas de género ou políticos, seja pelo lado da visualidade, explorando novas linguagens, estruturações da página e até graus de abstracção. O mercado de banda desenhada em Portugal, não sendo propriamente forte nem muito diverso, quer em termos de traduções de obras contemporâneas ou históricas quer de trabalhos originais nacionais, é contraposto por toda uma série de experiências em círculos da edição independente ou de projectos alternativos que tem sido um produtivo solo para criadores extremamente interessantes e inovadores.

A exposição presente focará sobretudo autores modernos e contemporâneos – ainda que haja um desvio por dois autores históricos, experimentais na sua época: Rafael Bordalo Pinheiro, o “pai” da banda desenhada moderna portuguesa, e Carlos Botelho, autor do magnífico Ecos da Semana – que procuram elevar a banda desenhada a uma linguagem adulta e inovadora artisticamente. Do desenho suave de Richard Câmara às experiências de Pedro Nora, do minimalismo a preto-e-branco de Bruno Borges à multiplicidade de Maria João Worm, da presença solta de Teresa Câmara Pestana à exuberância das cores de Diniz Conefrey, da austeridade de Janus à vivacidade de Daniel Lima, haverá um largo espectro, ainda que pautado por critérios de pertinência artística, representativo desta área no nosso país. Estarão presentes autores de algum sucesso comercial e crítico (como, por exemplo, José Carlos Fernandes, António Jorge Gonçalves, Filipe Abranches, Nuno Saraiva e Victor Mesquita) e outros autores de círculos mais independentes (de Jucifer/Joana Figueiredo a André Lemos, Miguel Carneiro e Marco Mendes); autores cujas bandas desenhadas parecem obedecer às regras mais convencionais e clássicas da sua fabricação mas para explorar temas disruptivos (como Ana Cortesão, Pedro Zamith e Marcos Farrajota) e outros que as parecem ultrapassar em todos os aspectos (como Nuno Sousa, Carlos Pinheiro ou Cátia Serrão); e ainda artistas que criaram objectos impressos que empregam elementos passíveis de aproximação a uma leitura ampla da banda desenhada, isto é, fazem-nos pensar numa sua possível definição ou apreciação mais alargada (como Eduardo Batarda, Tiago Manuel, Isabel Baraona e Mauro Cerqueira). Nalguns casos, a exploração que os artistas fazem do desenho ganham corpo noutros objectos que não de papel, e que serão integrados nesta mostra (animações, esculturas, bonecos, maquetas, e fanzines-objecto, com larga incidência para aqueles criados por João Bragança).

A lista, que não pretende, de forma alguma, o que seria impossível, ser vista nem como absoluta nem como exaustiva, dos artistas é como segue: Alice Geirinhas, Ana Cortesão, André Lemos, António Jorge Gonçalves, Bruno Borges, Carlos Botelho, Carlos Pinheiro, Carlos Zíngaro, Cátia Serrão, Daniel Lima, Diniz Conefrey, Eduardo Batarda, Filipe Abranches, Isabel Baraona, Isabel Carvalho, Isabel Lobinho, Janus, João Fazenda, João Maio Pinto, José Carlos Fernandes, Jucifer (Joana Figueiredo), Luís Henriques, Marco Mendes, Marcos Farrajota, Maria João Worm, Mauro Cerqueira, Miguel Carneiro, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Nuno Sousa, Paulo Monteiro, Pedro Burgos, Pedro Nora, Pedro Zamith, Pepedelrey, Rafael Bordalo Pinheiro, Richard Câmara, Susa Monteiro, Teresa Câmara Pestana, Tiago Manuel e Victor Mesquita.»

A exposição estará patente até 27 de Março e será acompanhada por um catálogo com textos de Domingos Isabelinho, Pedro Moura e Sara Figueiredo Costa, a ser distribuído pela Associação Chili Com Carne.




Edição Museu Colecção Berardo / Centro Cultural de Belém; 2011
Conteúdos: Reproduções de obras de 41 autores da exposição Tinta nos Nervos. Três ensaios com autoria de Pedro Vieira de Moura, Domingos Isabelinho e Sara Figueiredo Costa. Biografias e sinopse da obra de todos os autores. Textos em português.
Características: 21x27 cm, 396 pp (99 desdobráveis c/ 4 pp.), a cores, papel Inaset Plus offset 60 grs. (miolo), Popset Burgau 240 grs. (capa). Desdobráveis dobrados ao meio e alceados. Serrotados, brochados e aparados. Autocolante aplicado na capa. Design: Barbara says... Exemplares: 1000

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

BD em Portugal: Não é uma marcha, é um zig-zag!

Acabou-se! O pior já passou!? Os 10 anos da indefinição? Os anos do início de Século em que não se passa nada? A década tenebrosa que até lhe dedicamos um livro-vade-retro-satananás?

Ao contrário ao estado geral de desânimo, a Chili Com Carne não acha que a nova década será pior que a anterior... mais baixo não podíamos ter chegado!!!

A cena da bd portuguesa nos últimos 8 anos foi deslizando pelo cano abaixo, mostrando que o sector privado era mesmo desastroso - ou seja que os "grandes editores" eram (e são) umas grandessíssimas bestas que conseguiram matar tudo o que havia ou que estava a ser construído. As pequenas ou médias editoras (simpaticamente apelidando desta forma) mostraram-se demasiado dependentes dos apoios da Bedeteca de Lisboa que teve um papel principal da renovação da bd no final dos anos 90 e princípios dos 00's. Hoje esta instituição é um edifício abandonado onde por acaso ainda deixam dois funcionários atenderem (da melhor forma que podem) os utentes interessados em bd. Depois de anos a defender bd e ilustração como nunca antes foi feito, esta Bedeteca merecia um destino menos triste, ou pelo menos reacções públicas dos autores e outros agentes que durante anos usufruíram dos seus serviços e esforços.

Todo o trabalho que a Bedeteca de Lisboa de mudar a imagem bedófila da bd parece até que foi razão para ser contra-atacada com mais força pelos “suspeitos do costume” que insistem em ter uma atitude restritiva da bd como um objecto de cultura Pop, em que toda e qualquer aproximação que não seja infantil ou infantiloíde é rejeitada. Mas o Ancien Régime cai a olhos vistos e o recente livro do Leonardo de Sá será o seu Canto do Cisne.

Que fique para trás as distribuidoras de livros que não pagam e provocam danos às editoras que se esforçam num mercado em autofagia capitalista, sem controlo e em colisão constante. O livro tornou-se num produto tão vulgar como um sapato - e nada pior que entrar numa loja de sapatos, acreditem! As lojas de referência fecham, cá e lá fora... como sustentar uma biodiversidade do livro num panorama assim?

Com dignidade e independência será a resposta para a anterior pergunta seja ela retórica ou não... é o que temos feito como Associação ou em projectos a solo dos nossos associados (Imprensa Canalha, MMMNNNRRG, etc…) ou em parcerias mais ou menos indisciplinadas cujo zénite é mostrado nas duas edições semestrais da Feira Laica.

A CCC ao longo da sua actividade nunca dependeu nada de nada para fazer o que já fez, estando contra tudo e todos. Raramente recebemos apoio de críticos, do mercado ou de instituições. Ocasionalmente tivemos apoios da Câmara Municipal de Cascais ou do Instituto Português de Juventude mas são tão parcos que não nos influenciam nas acções que tomamos, tanto que até existe uma certa censura da Câmara Municipal de Cascais em apoiar as nossas publicações porque elas cospem no Dalai Lama ou publicam o Mike Diana. Ainda assim insistimos em crescer a olhos vistos: livros a saírem com maior regularidade, livros que esgotam, livros que quase esgotam em menos de um ano, mais sócios interessados e interessantes, descoberta de novos talentos, o dobro e novo recorde de vendas – só não percebemos é porque continuamos com a conta bancária na mesma… é mesmo estranho!; participação ou criação de eventos nacionais e internacionais: O Último Fósforo, Festival Rescaldo, Feira(s) Laica(s), PEQUENO é bom, 10 anos da MMMNNNRRRG, Greetings From Cartoonia (no Festival de Beja), Crack, Festa do Cinema do INATEL, Even my mum can make a book, F.E.I.A., Alt Com, Not Tex Not Mex, Matanças… Do Texas à Turquia, portanto!

Isto já para não falar micro-epopeia inédita (pelo menos em Portugal) da Spreading Chili Sauce around Boring Europa, para mostrar que podemos ser mais bem recebidos do que no país de origem. O que não espanta muito quando o primeiro prémio sobre uma edição nossa – o Seitan Seitan Scum - alguma vez recebido foi em Itália no evento Slow Comics 2010. Embora, no início do ano passado, a MMMNNNRRRG tenha recebido um Prémio Titan...

Para mim, lançar o livro Talento Local – e concluindo a compilação das minhas bd's autobiográficas – é o mesmo do fecho de um ciclo maior. Poderá ser pretensioso adaptar esta “edição de intimidades” como um marco macroscópico mas estando “Deus morto”, a “História finalizada” e tudo mais, são as referências pessoais que marcam cada um de nós - também pode ser lido ao contrário, há um novo ciclo e eu também começo um como formiga bem-comportada do Universo. Para mim, 2011 e a nova década são nitidamente um novo ciclo a explorar – não serei o único a sentir isso, creio.

A tristeza eterna de ver horas de trabalho em pranchas de bd que ninguém quer saber – incluindo as ditas pessoas da “cena” – é deprimente. A luta de procurar alguém que nos dê atenção sempre teve de ser desviada para outros olhares menos quadrados, durante um período de tempo pensou-se que ia mudar essa perspectiva mas os agentes económicos insistiram em esmagar as conquistas, chegando a sacrificarem-se a eles próprios – em Portugal, todos gostam de estar juntos na merda.

Como dito anteriormente, continuou a haver resistentes e os resultados vão aparecendo pouco a pouco – a verdade é que quando o trabalho é bom ele não pode ser simplesmente apagado! Assim para a semana inaugura no Museu Colecção Berardo (no Centro Cultural de Belém), a exposição Tinta nos Nervos. Banda Desenhada Portuguesa comissariada pelo Pedro Moura, estando a exposição patente entre 10 de Janeiro a 27 de Março. O objectivo é divulgar uma bd de autor, uma bd que em Portugal tem origens nobres em Raphael Bordalo Pinheiro, continuando pelo regime fascista com Carlos Botelho, depois com o “reboot 25 de Abril” e a geração da revista Visão até aos dias de hoje. Haverá críticas dos sectores conservadores sobre a escolha de Moura, à qual defendemos a 100% - mesmo quando muitos autores não são do nosso gosto. É o mínimo de respeito que podemos ter porque sendo mais ingénuos ou menos ingénuos, todos eles fizeram algo para não deixar a bd sujeita a lugares-comuns e fórmulas gastas. Alguns até desistiram de fazer bd, alguns voltaram a fazer, outros foram fazendo de forma intermitente, mas esperamos que este lento reconhecimento institucional sirva de lição para todos nós.

Sendo o “dinheiro o nosso Deus”, muitos irão perguntar que ganharão os autores com esta exposição. Será a Vaidade o único proveito mais directo que se poderá retirar daqui? Se for, este pecadilho capital não fará mal a ninguém, numa área onde nunca houve proveitos financeiros ou sociais de relevância. Mas o tempo irá responder a tudo isto…

Vamos todos morrer! Que se lixem as redes sociais!

Por fim, um descortinar de que vai ser 2011 na CCC: vamos ter um novo livro de Rafael Dionísio e uma nova colecção, ambos para este primeiro trimestre. O melhor será para Maio em que lançaremos um livro e exposição, Futuro Primitivo, que será uma demonstração de força. Bom... pelo menos de força interna, porque tentaremos mostrar o trabalho de todos os nossos criativos – até dos músicos, colaborando numa banda sonora a compilar pela net-label You Are Not Stealing Records.

Já mete-nojo, a verborreia das “redes sociais” e as porras dos myspaces e facebooks, é muito útil para saber que a Zézinha vomitou de manhãzinha logo poderá ser engatada pelo grupo fetichista por grávidas-de-3-meses, ou que há 10 pessoas gostaram (polegares no ar!) deste “post” mas como sempre nada acontece para além de meia-dúzia de observações fúteis que só servem de observatório de comportamentos para empresas e controlo social - é o que as redes virtuais parecem, muito francamente, a substituição física da porteira do prédio! Antes da modinha, a Chili Com Carne foi criada para ser uma rede social que serve para trabalhar em conjunto – se a solidão é uma doença do século XXI, tentem fazer bd: uma das actividades mais solitárias do mundo!

O desafio assumidamente egoísta de meter todos os que são da Associação num livro é cheio de ratoeiras mas vamos tentar que resulte num projecto singular. A exposição está projectada para o Festival de BD de Beja seguindo para Roma, países escandinavos e somewhere in Texas.

Quando a exposição voltar pode ser que o país esteja diferente!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Rodrigues Palmtree Zine




Rodrigues Palmtree Zine
Venda exclusiva no site da Chili Com Carne!
Zine colectivo produzido como oferta ao Sr. Rodrigues
do Restaurante Palmeira pela sua reforma ao fim
de 57 anos a nos servir as melhores imperiais e
batata frita salgada.
Edição única de 30 exemplares.
24 páginas.
Miolo impresso a laser em papel Navigator 90 gr/m2.
Capa impressa em serigrafia pelo Atelier Mike Goes West.
Dezembro 2010.
Participantes:
André Lemos, Bruno Borges, Diogo Tavares,
Filipe Abranches, João Chambel, José Feitor,
Jucifer, Luís Henriques, Marcos Farrajota,
Miguel Frazão e Piggy.
Organizado, editado e impresso por André Lemos.
ESGOTADO

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Dicionário Universal da Banda Desenhada : pequeno léxico disléxico

Leonardo De Sá
Pedranocharco; 2010

Eis uma valente edição do ano passado que merece ser promovida. Sim! É um dicionário (ou será mais antes um glossário ou um léxico?) de expressões, termos e palavras únicas empregues na BD – e na cultura popular uma vez que a bd sempre teve uma forte componente popular ao longo da sua história. Há logo três pontos fortes nesta edição, a começar pela quase ausência de obras de estudo ou de investigação ou de referência em Portugal, logo é inesperado uma edição deste género estando a Pedranocharco de parabéns! Segundo, é realmente um apanhado de 99,9% do que se pode falar de bd em Portugal e no Brasil – e nos Palop’s em geral? – mostrando por parte do autor uma enorme sabedoria sobre o assuntos dos dois países e também do resto do mundo. Terceiro, é um guia bastante interessante para qualquer curioso do mundo editorial e da cultura Pop – para quem tinha uma vaga ideia do que é um “Pulp” ou que é a “serigrafia” poderá aqui ter uma excelente e sintetizada oferta cultural.
Falhas, há muitas, algumas graves, outras ridículas e outras leves, como seria natural numa obra deste género apesar da tendência para o “completismo” acaba sempre por haver erros, gralhas e omissões (espontâneas ou propositadas). Talvez o leitor não saiba mas nunca haverá um livro perfeito (sem erros de qualquer espécie) por mais que o editor ou o autor se esforce... haverá sempre uma vírgula que falta ou sabe-se lá porquê uma palavra com uma letra trocada ou mal-traduzida.
Mas não é este tipo de “falhas” que acontecem aqui (nem detectei nenhuma desse género), começa por algo de perverso e doentio ao estilo do romance 1984 em que muitos significados não são dados sendo que temos de saltar com as remissivas antagónicas – para sabermos o que é “mainstream” somos obrigados a saltar para “underground”, o que convoca a tal ideia de 1984 em que o “Ministério da Guerra” era o “Ministério da Paz”, ou posto de outra forma, quem domina a linguagem domina a sociedade. Alguns casos parece que estamos frente uma preguiça – sei que poderá ser uma acusação injusta dado a todo o conjunto da obra – mas não me parece bem feito e piora quando para “vignettista” (cartoonista em italiano”) remete-se o significado para “vinheta” (e aí é explicado o que é “vignettista”).
O problema de ser “cromo da bd” é que parece que o “outro mundo” não existe daí que linguagens mais modernas e urbanas falhem, como por exemplo “webcomics” (não está contemplado) ou “Zine” é remetido para “fanzine” quando desde há muito tempo, pelo menos em países anglo-saxónicos, os termos separaram-se. “Fanzine” continua a ser uma publicação amadora que celebra um tema enquanto que o “zine” é uma publicação amadora que nada deve a ninguém a não ser ao imaginário dos seus autores e editores. Felizmente o autor não incluiu uma expressão do divulgador Geraldes Lino que é “fan-editor” ou “edi-autor” (ou algo assim!) mas inclui a infeliz expressão “Fanálbum” que nada é mais que uma “edição de autor” ou “livro de autor”. O Lino começou a divulgar (desde 1996 pelos vistos) e agora ficou sacralizada por este Dicionário. É triste, ainda por cima a justificação dada é que a expressão apareceu na Alemanha para álbuns de música amadora – gosto muito da língua alemã mas é uma língua que para “isqueiro” diz “coisa-de-fogo”… Para quem acha que tem rigor científico, o Dicionário começa-se a desmanchar com estas situações. Outra, a inserção de “cartoon desdobrado”, neologismo do autor do Dicionário, que pelos vistos é o único a usar e por isso a imortalizar nesta compilação única no género em Portugal.
Aliás, o egocentrismo do autor é galopante ao longo de toda a obra, não faltando várias vezes auto-referências que se algumas vezes são merecidas noutras podia ser modesto e auto-crítico. E por falar nisso, a entrada “crítico” é a anedota maior deste trabalho. Se é verdade que o autor vai usando um humor mais ou menos saudável – manda bocas ao excesso de exemplares para o Depósito Legal, por exemplo – mostra-se um verdadeiro imbecil (não me lembro de outra palavra muito sinceramente) quando define os críticos como “autores falhados, mas com conhecimento e experiência suficientes para analisar o trabalho dos outros”. Talvez noutro Dicionário menos disléxico mereça uma entrada do tipo “investigador é um crítico falhado mas que colecciona muitas coisas de interesse relativo”. Mas o ainda mais ridículo é que o livro recebe um prefácio de Carlos Pessoa, crítico de bd do jornal Público, que por acaso encaixa em quase todos os chavões que Leonardo propõe para crítico... Quem será mais ridículo entre os dois? «The Shadow Knows…»

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

As serigrafias valentes do Martin!

Para acabar com os "posts" da visita do Martin à Laica nada melhor do que acabar com o melhor, o seu próprio trabalho. Tal como ele brincou na sua biografia: De Valência, cidade onde vive trará (...) edições do seu projecto Gráfica Valiente, que desde o Inverno de 2006 tenta destruir o mundo destabilizando a economia europeia com os seus zines e serigrafias caseiras e, eventualmente, com exposicões. Edita o zine El Temerario, dedicado à ilustração, e Kovra, dedicado à bd.

As palavras citadas resumem os seus projectos principais, o Temerário é uma antologia quadrada de ilustração com uma capa serigrafada. Ilustrações com pica (sobretudo as do Martin) que andam pelo puro hedonismo, pelo quotidiano non-sense e alguma mensagem política (pouca). O zine é super-atraente (pelo formato e objecto) tanto que logo no ínicio da Tour europeia da CCC trocamos exemplares e não chegou nenhum exemplar a Portugal - ficaram todos pela Itália, Eslovénia, etc... 
Sem o sucesso de vendas do Temerário, Kovra (ver aqui a capa do segundo número de Outubro 2010) é muito mais importante. É um zine de bd em castelhano - daí a "falha" das vendas. É a eterna injustiça das "línguas" que nos impede de adquirir publicações que não se consegue ler. Não será o caso em Portugal que podemos ler sem grandes problemas o "espanhol" por isso adquirem antes que se esgote este zine. Porquê o grande alarde? Apesar de não ter o mesmo aspecto profissional das outras revistas de vanguarda como a Canicola ou a Glömp, ou a conterrânea Argh!, julgo que poderá estar ao mesmo nível de interesse e qualidade. A verdade que o aspecto modesto esconde experimentalismos próximos do OuBaPo, o abstratismo, o seguimento da técnica narrativa dos “The Upside-Downs of Little Lady Lovekins and Old Man Muffaroo" (1903-05) de Gustave Verbeek, recuperação do psicadelismo 60/70 ou ainda do italiano Jacovitti. Isto tudo em 56 páginas A5. Uma publicação obrigatória para quem gosta de bd!
Por fim, Martin fez umas marionetes que se puxam a pila ou a língua e os membros dos bonecos levantam-se - ver as primeiras imagens deste "post". A impressão é em serigrafia e a colecção chama-se Jala Jala. Mostra que quando um desenhador e impressor tem ideias mete qualquer "artesanato urbano" no canto da mediocridade.