domingo, 30 de janeiro de 2011

Vergonhas suomi...


Jarno Markuksen Kauneimmat, de Jarno Latva-Nikkola ; Setit ja Partituurit - Häpeällisiä tarinoita (Sets and Scores - Shameful Stories), de Hanneriina Moisseinen
(Huuda Huuda; 2010)

Dois livros de autores finlandeses de banda desenhada que em comum têm a participação na Glömp X - antologia e exposião que esteve patente na Feira Laica / Bedeteca de Lisboa (2009) - e terem livros cujo o tema central é a vergonha. No caso de Moisseinen é mais do que assumido, pediu estórias reais de situações embaraçosas de pessoas nos seus quotidianos finlandeses - como o episódio na sauna, por exemplo, em que uma tipa apalpa, na brincadeira, as nádegas de outra pensando que era uma amiga... Esta autora é bem relembrada por ter feito uma bd com bordados (que estavam dentro de uma tenda), aqui ela volta a esta técnica mas só num episódio ou noutro. O resto é pintura que lembra de alguma forma "ilustração para a infância" que tem um travo naíf para além de ser meio "free" meio desleixado. Desilude para quem esperava aventuras gráficas tecidas a agulha e linha...
Já o novo livro do Jarno também desilude porque não é um livro de material novo como foi o excelente Tunteiden Maisteri, mas sim uma compilação de bd's curtas, complementado por alguns desenhos. Mas as mágoas ficam por aqui porque é um abuso de páginas e páginas, estórias e mais estórias de episódios autobiográficos manhosos como este (em que participei), auto-ficções e parvoíces mundanas misturadas com fantasia épica da aldeia. As desgraças das personagens são sentidas mas invés de seguirem um caminho emocional linear, a dada altura tudo descamba para o rídiculo. Rimos do melodrama, do engodo e da miséria, tal como Lars von Trier, Jarno obriga as suas personagens a serem plásticas para manipularem os leitores. Há também "migalhas de Crumb" em algumas bd's, diria mais do início da carreira de Jarno mas infelizmente por falta de créditos não sabemos datas nem onde foram publicadas estas bd's para chegar a essa conclusão. Perkele!
Ah! Sim os livros estão redigidos em finlandês mas há as sempre úteis legendas em inglês no final das páginas.

Inteligent Dance Jazz Music


Lisbon Underground Music Ensemble (Jacc; 2010)

No Rescaldo recebemos o catálogo inteiro da Jacc Records - entidade discográfica da estrutura de promoção de música Jazz, responsável por festivais e a revista Jazz.pt - e ui-ui... que valente seca! Já não gostando de Jazz ou não sendo minha música de eleição, ainda ter que ouvir todos os clichés da coisa é mesmo do mais penoso. Mas no meio de coisas que nem consigo imaginar porque é gravado e editado (o CD do espectáculo dos putos é para fugir!) aparece estes L.U.M.E. que é de um "groove" feroz que raramente se encontra em Portugal. Relembramos que tudo que é criação artística em Portugal é sempre tudo muito paradinho, quietinho e calminho, mesmo que seja cinema de animação ou dança - o que parece paradoxal, não é? Mas estes L.U.M.E. abanam-se todos e explodem em rasgos de IDM misturado com uma Big Band sempre a dar em sopros foliões. Não sei se será inédito esta fórmula, de repente até me lembro do Matthew Herbert, produtor de música electrónica que saiu com uma Big Band em tempos. Nunca ouvi o Herbert Big Band não sei se é sequer comparável... no máximo lembra Mr. Bungle pelo caos-sample + cornetas em festa!
Num ano nada mau no que diz respeito a discos nacionais (Rudolfo, Red Trio, Yoshi o puto dragão, Tiago Guillul, Ghuna X, Besta Bode, HHY & The Macumbas, Apupópapa, ...) eis outro para juntar à festa. Estou mesmo a ver-me a por isso em sessões de unDJ, pá! Finalmente soltaram a franga!

Stand em Angoulême 2011

Stand da CCC e El Pep em Angoulême 2011:

sábado, 29 de janeiro de 2011

Objectos


s/t (ed. de autor; 2011?), de Lucas Almeida
O Baralho Belo Como (ed. de autor; 2010), de Ricardo Castro
Uma mão cheia de amoras (Massa Folhada, 4ª ed.; 2010) de Sara Simões

Para além dos zines a pontapé também se tem publicado vários outro tipos de objectos mais aliciantes para o fetichismo... O Lucas por exemplo apresenta uma bd numa lógica de "burning man" cheio de poluição industrial, fogo e decomposição. Um excelente trabalho de destruição de um sistema que aproveitou para imprimir em serigrafia (a imagem que foi selecionada não corresponde aos densos pretos e laranjas do livro). Foram feitas 10 exemplares em formato A6 e é certo que esta bd irá aparecer no Futuro Primitivo mas poderá estar misturado com outros trabalhos de outros autores... aqui está em estado puro e duro! (bem duro, que tinta pesada é esta!?)
Não consigo atinar com o Maldoror e toda o culto envolta do livro. E também não é desta que vou passar a ter interesse ou gostar. Castro fez um baralho de cartas, excelente ideia, não me lembro se alguém neste submundo da auto-edição já tinha feito isso. Baseou-se no livro do maldito Conde de Lautréamont para ilustrar as faces onde estão os valores das cartas (onde se identifica a Rainha de Copas e essa gente toda). Os desenhos balançam entre o desenho puro e signos mais artificiais do Design, sinceramente ainda não tive tempo para encontrar ligações entre cartas / desenhos ou esses signos, e perceber a lógica. Nem sei se há um cálculo mais sofisticado em relação à obra literária - que também não li e duvido que vá ler... Bom, o efeito é "cool" e fico-me por aqui. Mais vale ter um baralho assim do que um normal. Procurem-no!
E para o humano que ainda gosta de floresta que ainda falhou a completa mecanização tecnocrata do mundo. Sara Simões ilustra a floresta, tem o rigor do desenho científico para mostrar uma biodiversidade florestal cada vez em maior perigo de extinção. A edição é impressa no formato A6 em folhas em folhas de arquitecto, deixando transparências entre desenhos e dando a ilusão da «floresta primitiva, com carvalhos, sobreiros e azinheiras, que existiu na península ibérica».

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ccc@angoulême.2011

Chili Com Carne and associates labels El Pep and MMMNNNRRRG will have their own booth at the Comics Festival of Angoulême (F3 table / BD Alternative / Le Nouveau Monde / Place New York).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ufoja Lahdessa 3/4

Marko Turunen
Kreegah Bundolo; 2009

Este terceiro volume desta colecção de "comics" que compilam bd's deste finlandês marcou um intervalo da Daada Books, a editora que Marko criou e onde editou "luxuosamente" não só trabalho dele próprio mas também de outros autores finlandeses e estrangeiros. Não se sente que os valores de produção tenham caído e muito menos o conteúdo que continua a ser um tufão de ideias de como o quotidiano podia ser mais giro se fosse a preto & branco, a roçar o Sin City, com personagens fisicamente absurdas imersas em consumismo exasperante e alienação social e mental. A ironia é súbtil, os resultados lidos e vistos não!
De resto continua o belo suplemento de fenómenos bizarros com contribuições de pessoas que não percebem o mundo e acham que existem mesmo fantasmas e OVNI's - será uma forma de apimentar as suas bochechantes vidas? Acho que sim!

Para breve teremos todas novidades do regresso da Daada.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Zines a pontapé!

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O Atlas do Nada (Mosca; Dez'10) de João Ortega
Cleópatra #5 (Façam Fanzines Cuspam Martelos; Dez'10) de Tiago Baptista
Intro Espectro (Jun'10) de Tiago Araújo

Parece que os zines de bd voltaram - claro, já não existe outra vez nada! Logo os autores tem de pôr cá para fora a produção, até porque já perceberam que mostrar desenhos na 'net é uma grande treta! E assim, sem mais nem menos, têm aparecido produções, algumas com uma visão de work-in-progress, outras como uma experiência única. Claro que todas estas conclusões poderão estar erradas, as "work-in-progress" poderão deixadas cair (espero que não!) como as "auto-conclusivas" poderão ter alguma continuação.
O Atlas é um "one-shot" impresso em A4 mas dobrado na vertical sobre um tipo que vive isolado numa estação espacial. É miserável a sua condição pois é um excelente cartógrafo do Universo. Lembra uma bd de Filippo Scozzari, de um tipo da metereologia que vivia isolado num satélite para relatar as observações do tempo mas ao menos chagava a cabeça aos tipos que ouviam as suas observações metereológicas ao ponto de os levar ao suícidio. É muito dramático este Atlas...
O número cinco do Cleópatra é pela primeira vez um número especial: "Oh meu Deus! É o fim do cinema!". Truffaut, Manoel de Oliveira, Tarkovsky e Bergman acompanham Zé Cabeludo a verem as últimas bostas que Holywood produziu. Os diálogos desses filmes são reproduzidos enquanto os realizadores e Cabeludo se questionam porque raios estão a ver aqueles filmes. Há um ambiente Daniel Clowes nisto tudo - não é de admirar esta comparação porque parece assumida quando, na secção de resenhas, o Tiago Baptista escreve sobre um livro de Clowes. Indignado com o monopólio da distribuição cultural no país - o Tiago vive em Leiria, creio, ou pelo menos vai-se movimentando pelas Caldas da Rainha, Leiria e Lisboa - fez este zine onde não esconde a fúria no editorial e nas bd's. Também há racionalidade quando escreve: «devemos envolver-nos uns nos outros». A verdade é que a ilusão da Democracia deu a sensação que agora podemos ver / ouvir o que quisermos mas a máquina capitalista têm assimilado qualquer hipótese da produção de autor chegar às pessoas. Os Cineclubes nos tempos do fascismo ofereciam mais e melhor do que a Lusomundo nos dias da democracia. A questão é como revivar os Cineclubes ou qualquer iniciativa cultural independente que ofereça às populações locais um programa sem ser a cultura-pipoca. A luta continua, claro está! E é eterna, percebeu agora o Tiago?
O último título é um estranho híbrido de Emocore de segunda geração e personagens antropomorfizadas (tipo Sokal ou a série Blacksad) feito de páginas de vinhetas únicas e poesia da sarjeta teenager. Negro, solipsista e escatológico soft, passa-me tudo ao lado mas o texto parece-me que seja importante para o seu autor. Defeito máximo é a legendagem a computador! Esta bd é um tipo de trabalho que ao ser tão pessoal e introspectiva que ao ser legendada de forma mecánica perde o sentido. À la pata é que é!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Como se faz bd?


É sempre um desatino quando alguém pergunta como se faz bd. É constragedor quando se vê nos manuais escolares ou noutras situações com aquela coisa do "primeiro escreve-se o argumento, depois planifica-se a página, blá-blá-blá". Basta lembrar exemplos de "escrita automática" como as bd's de Jucifer ou ainda o Paris Morreu em que começou com 6 páginas desenhadas por Pepedelrey em que depois é foi colocado texto pelo Nuno Duarte, para dar conta de que há 1001 maneiras de cozinhar a bd. Estes dois números da colecção Dystopia (Wormgod + Sociedade Sueca de BD; 2010) - da Suécia e dirigida por Mattias Elftorp que esteve na última Feira Laica - são exemplos da fuga dessas ideias fordianas de como fazer bd.
No primeiro caso, trata-se do finlandês Jyrki Heikkinen (Salão Lisboa 2005, Greetings from Cartoonia,...) que desenlaça uma estória passada num mundo pós-apocalíptico em que tudo se confunde: a falta de ética, mutantes e animais falantes, a morte sob o aspecto de uma caveira falante e um grupo de rastafaris, e uma promessa de New Age qualquer. O estilo gráfico solto de Jyrki bem como a composição irregular das páginas (em que as vinhetas certinhas são completamente abandonadas) devem-se à sua carreira como poeta (intercalada com a de autor de bd), em que sentimos que a bd não está a ser "desenhada" mas a ser "escrita". E quando digo escrita não é num processador de texto mas sim à "velha guarda", ou seja caneta ou lápis em folhas de apontamentos, logo sem arrumação e cheios de urgência. As bd's de Jyrki são um caderno de apontamentos à primeira vista mas com rigor gráfico e narrativo apurado. O que parece é que quando "passou a limpo" deixou a mesma composição de página tal quando a escreveu/ desenhou em esboço e só assim se explica porque o frenesi deste The Moonboy!
Zombies dos suecos Mattias Elftorp e Susanne Johansson foi feito primeiro como uma exposição durante o Alt Com, ou seja era uma enorme pintura sobre os mortos-vivos e que percorria as paredes todas de uma sala (no bar de uma sala de cinema) e para vê-la era necessário entrar com um foco de luz (na cabeça) porque a sala estava à escuras. Esta pintura entretanto foi fotografada, montada para o formato desta colecção (uma espécie de A5) e acrescentado um texto que resulta numa bd. Engenhoso, não?

Já não temos estes volumes mas ainda existem outros disponíveis.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Segunda mãe



Initiated by Gamze Özer, Timothée Huguet and Kristina Kramer this project shows alternative publishings like zines, fanzines, artist books and self made editions. Following an open call participants from all around the world submitted their works.
The presentation at Apartment Project is the second in a series as the project has the aim to create an archive that will be expanding and traveling through different venues.
Chili Com Carne is represented (again) in this event with some nice books of ours.
Crazy organization by Bakkal Press.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Bárbaros do Norte!


Duas edições ligadas ao Festival Matanças - Dezembro 2010, Porto - ambas ligadas à adoração do Grande Bode.
A primeira é um CD, Aural Bowels (Latrina do Chifrudo + Let's go to war + Soopa; 201) que reúne bandas que já passaram pelo festival como Besta Bode, TendaGruta, Brutos da Natureza, New Tradicional Fang Music From Porto e outros projectos com nomes tão carismáticos que transitam do Metal para o experimental (e vice-versa?) passando pelo Free e o Industrial / Noise. No fundo o Metal já há muito tempo que passou a ter uma elite intelectual, tão activa e militante como os metaleiros normais, o que é melhor sempre que uma elite intelectual arrogantemente passiva como acontece em outras áreas artísticas. Seja como for, falta lumpen e toscaria porque Riffs com ambientes mórbidos já cá cantam! Capa de André Coelho, claro!
A segunda edição é já uma tradição, ou seja, outro "número" (o terceiro) do Enxebre, desta vez intitulado Meixedo Enxebre (Latrina do Chifrudo; Dez'10). É o número mais luxuoso e sofisticado a nível gráfico com a cópia lazer macia como a pele de Vénus e impressão brilhante como Apolo. Faltam os textos "think tank" que haviam nos números anteriores mas a entrevista aos Legião de Santa Comba Dão é bastante boa em que nem o puto Rudolfo (que fez o design deste número) é perdoado! As resenhas críticas aos discos continuam a ser o melhor do fanzine e a minha favorita é esta:«Eu gostava de Ash Pool. Agora já não." (e é tudo!). O André Lemos também faz aqui um bode para ser venerado!