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sábado, 31 de outubro de 2015

SemConsenso. Banda desenhada, ilustração e política


Inaugura no Sábado, às 16h, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, a exposição SemConsenso. Banda desenhada, ilustração e política, comissariada por Pedro Moura.

Trata-se de uma mostra de trabalhos que compreenderá banda desenhada publicada em livros, jornais, revistas, publicações de vário cariz, assim como ilustrações editoriais, cartoons, e outros objectos menos comuns que, de uma forma ou outra, “abrem um novo espaço da política” (…). É uma constelação que não tem respostas nem pretende seguir os caminhos já trilhados ou pré-preparados para a “discussão séria”. Bem pelo contrário, são colocadas muitas perguntas. 

Esta exposição contará com a presença de trabalhos dos seguintes autores, de forma mais alargada ou mais concentrada: Alice Geirinhas, Álvaro Santos, Amanda BaezaAntónio Jorge Gonçalves, Bruno BorgesCarlos Pinheiro, Cristina Sampaio, Daniel Seabra Lopes, João Fazenda, José Feitor, José Smith Vargas, JuciferMarco Mendes, Marcos Farrajota, Marriette ToselMiguel Carneiro, Miguel Rocha, Nuno Saraiva, Nuno Sousa, Pepedelrey, Tiago Baptista e ainda mural de Pepedelrey & André Lemos.

Jucifer e Tiago Baptista


Zona de Desconforto à mostra...
Cristina Sampaio nas casas de banho do museu

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quantos š tem "desassossego"?


CHEGOU a antologia š! número especial dedicado à BD portuguesa e ao "Desassossego"!!! 

Chili Com Carne deu apoio na selecção dos artistas a incluir neste volume e numa discussão com a redacção da Letónia chegou-se à conclusão que Portugal tem a mania de dizer que é um "país de poetas". Se for verdade, ao menos que se actualize ao século XXI e que eles sejam "visuais"! Daí a razão de explorar explorar o "desassossego", um dos maiores marcos literários do século XX do "nosso" Fernando Pessoa, para definir as tensões gráficas e narrativas angulares que unem esta lista de artistas ímpares: Amanda Baeza, André Lemos, André Pereira, Bruno Borges, Cátia Serrão, Daniel Lima (imagem)Daniel Lopes, Filipe Abranches, Francisco Sousa Lobo, Joana Estrela, João FazendaMarta Monteiro, Milena Baeza, Paulo Monteiro, Pedro BurgosRafael Gouveia e Tiago Manuel.

à venda aqui




...
texto (original e em português) de Marcos Farrajota para este número: 


Tudo o que fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer*. 

Os meus olhos queimam de tanto tempo que passo em frente ao monitor para escrever algo de original sobre a banda desenhada portuguesa. Desta Arte só podemos dizer que ela será boa para ti se tu fores boa para ela. Ainda assim, ela é uma tontura, uma pechincha, um suplício, um esforço inútil sem causas nem consequências, sem glória ou recompensa. Em Portugal e noutras partes do mundo, fazer BD é simplesmente um acto isolado, sem consciência de classe e sem localização de parentescos e aliados - que safodam as redes sociais, elas não ajudam em nada para quem se mete numa mesa a tentar equilibrar imagens e textos.

Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito de viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação*. 

Perguntei a António Kiala** opinião. Ele responde-me com a sua habitual fúria: “o que distingue a BD portuguesa das outras é a História do seu próprio país que sempre se acomodou ao esclavagismo e colonialismo e que devido à periferia europeia não teve problemas de sustentar um fascismo “light” (tudo é leve no nosso país) durante 50 anos. Esse clima católico e bem-comportado (senão iam para fogueira da Inquisição) tornou o povo analfabeto e dócil num húmus nauseabundo o que não impede que o génio sobressaia em alguns autores!” Tem de ser assim, senão a palavra “génio” nem existiria. Poucos mas bons! De baixa estatura também. E morenos, embora essa pureza genética dê vontade de rir – só os ingénuos e idiotas é que acreditam em eugenias e raças puras de cavalos. Por acaso, só na selecção de autores feitos neste número do Kuš! muitos têm mais que um metro e setenta e alguns até são loiros. Podiam passar por letões ou um eslavo menos deslavado. Em comum são autores que se dissociam obviamente do cliché da BD masculina, heterossexual e caucasiana – embora pouco importa a cor de pele ou a opção sexual quando não se tem talento ou vontade de dizer o que lhe vai na Alma.

Porque se sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura (Alberto Caeiro)* 

Pediram-me para escrever sobre a BD portuguesa. Um exercício inútil. Que adianta escrever aqui nomes de autores, publicações ou obras se nem os portugueses os conhecem ou se dignam a reconhecer? (incluindo as gentes da cena da BD que são uns merdas ignorantes) Para quê o “name-dropping” se não se pode encontrar os trabalhos de forma acessível? Se vierem a uma livraria portuguesa estranhamente até poderão encontrar duas obras reeditadas dos anos 70 - Wanya, de Augusto Mota e Nelson Dias e Eternus 9 de Vitor Mesquita - mas irão se rir da naivitée da época. Dos anos 80 nem há livros para falar. Só a partir dos anos 90 que até podem encontrar livros de BD portuguesa no estrangeiro como História de Lisboa de A.H. Oliveira Marques e Filipe Abranches e Mr. Burroughts de David Soares e Pedro Nora, ambos em francês. Neste milénio até há mais livros editados, alguns 14 anos depois da sua publicação portuguesa como os do Pedro Burgos e o do Pedro Brito com o João Fazenda em França, Polónia e Itália.

Por cá, o mercado da BD popular foi desaparecendo ao longo do século XX mas os seus autores sempre estiveram bem alinhados aos sabores dos tempos: dos grandes mestres do desenho realista e aventura (Victor Péon, Fernando Bento) aos fabricantes dos “grandes narizes” (Carlos Roque, António Fernandes Silva), dos que esmiuçam os políticos na imprensa (Nuno Saraiva) até aos que mostram as cuecas dos super-heróis no seu mercado (Jorge Coelho), houve sempre um pouco de tudo em doses homeopáticas e sempre com qualidade técnica irrepreensível. Mas não é destes que interessa escrever nem dos seus problemas profissionais – tal pode ser lido em Quadradinhos: Looks on Portuguese Comics, catálogo-antologia editada no âmbito do Festival de Treviso 2014.

Viver não vale a pena. Só olhar é que vale a pena. Poder olhar sem viver realizaria a felicidade, mas é impossível, como tudo quanto costuma ser o que sonhamos. O êxtase que não incluísse a vida!* 

Os movimentos da BD portuguesa não são de fluxo em progresso mas de interrupções contínuas que não oferecem passado nem futuro. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) deu o verdadeiro arranque editando jornais e álbuns humorísticos que deveriam ser modelo para todos e até fez o primeiro acto de autobiografia com No Lazareto de Lisboa (1881). Não teve seguimento... Carlos Botelho (1899-1982) será excepção à regra da História com o seu misto de crónica, autobiografia, jornalismo e sátira, sabe-se lá como resistiu entre 1928 e 1950 a fazer uma página semanal no jornal Sempre Fixe! O Estado Novo tinha sido instalado dois anos antes embora seja verdade que algumas vezes a Censura deixou passar desenhos seus em que Mussolini e Hitler seminus eram expulsos do Paraíso – já agora, o ditador italiano fazia de “Eva” e é nomeada de “Mussolina”. Os especialistas internacionais da BD não pensam nestes dois autores como património mundial, Pinheiro ou Botelho não tiveram impacto internacional (nem poderiam com um país fechado ao mundo) por isso: continuem a brincar com as pilinhas da Krazy Kat (apesar de ser uma gata) e do Calvo!

Logo após a revolução de 25 de Abril de 1974 já havia Visão (revista entre 1975-76) aberta ao psicadelismo e à anti-autoridade. O anarquismo era “light” (Kiala dixit) mais a dar para o maoísmo resminga e não foram longe nem parecem ter tido consequências… É preciso esperar pelo pós-modernismo da revista Lx Comics (1990-91) para se ver a amplitude que a BD poderia ter mas ninguém percebeu aquilo. Depois veio a instituição pública da Bedeteca de Lisboa para conduzir a geração “indie” dos anos 90 para um “boom” mediático e editorial em que de repente, tudo parecia ser possível. Esse trabalho destes tempos foi decaindo lentamente a partir de 2002 até ao esquecimento de hoje, embora a biblioteca continue num edifício amarelo e com o maior acervo de BD nacional para consulta e empréstimo domiciliário. Desde 2005 que a cena portuguesa em geral vive um vazio existencial mas que não tem durado mais tempo do que os intervalos entre as outras referências históricas aqui indicadas neste parágrafo.

Este vazio nem deveria ser problemático porque há muito que vivemos sem Deus ou qualquer outro tipo de centro. É impossível agrupar estes artistas que entram neste livro a qualquer movimento até porque há aqui idades e percursos muito diferentes, isto ao ponto de apesar os conhecer quase todos, nem sabia que a Marta Monteiro fazia BD – foi o David Schilter que “descobriu” esse facto. Tal como foi ele que me indicou a Joana Estrela (tudo bem, ela andava pelos países bálticos) mas o mais importante foi que o Kuš! publicou o primeiro livro da Amanda Baeza.

Chegamos ao ponto deste mistério total que é porque raios a Kuš! está recheada de dissidentes? Existe outra palavra para eles? É certo que alguns até se movem em colectivos organizados como a Chili Com Carne (Daniel Lopes, André Lemos, Francisco Sousa Lobo, Rafael Gouveia), Oficina Arara (Bruno Borges) ou Clube do Inferno (André Pereira) – esse fenómeno incompreensível para os portugueses: a colectividade – mas a maior parte são “lobos solitários” como a Cátia Serrão e o Daniel Lima. Há “lobos” cheios de gente como o Tiago Manuel que deverá ultrapassar “as pessoas do Fernando” com o seu projecto de 25 heterónimos – a sua belga Marriette Tosel foi seleccionada pela Society of Illustrators no ano passado! E há o Paulo Monteiro que apesar da sua faceta institucional à frente da Bedeteca de Beja e respectivo Festival de BD, tem poesia pelos poros que afecta editores estrangeiros – é o autor português com mais edições estrangeiras do seu único livro! Estas internacionalizações são um fenómeno recente, durante muito tempo Portugal não participava na festa do intercâmbio. Sentia-se bem a comer gordura animal e batatas vindas da aldeia, era preciso que “viessem cá” para perceber o que se passava. O génio cria para a gaveta e é preciso que o chateiem!

Eles ficam comovidos com os desafios, claro. Afinal, o isolamento que sofrem é digno de um Arthur Dent*** que durante anos foi abandonado sozinho num planeta qualquer no Universo. As respostas sobre tudo isto da BD portuguesa que não consegui escrever na verdade estão nas sábias palavras que Dent pronunciou ao aparecer-lhe o primeiro ser inteligente, Bowerick Wowbagger the Infinitely Prolonged, nesse exílio e faço questão de citá-las: Whh...? Bu...hu...uh ... Ru...ra...wah...who?




*Frases do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
**Prof. Universitário angolano de Sociologia que reside entre Lisboa e Belfast, um dos fundadores do zine Mesinha de Cabeceira e “think tank” na cena alternativa nos anos 90.
***Atenção, estamos no domínio d’O Guia Galáctico do Pendura de Douglas Adams!






quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Amazónia: a selva possível...



O 'barraco' de Valdo, nas margens do rio...

[De um caderno de apontamentos]
1 de Outubro
Planeando uma possível visita à Amazónia, consultando guias de viagem em formato pdf, sítios na Internet… Viagem de barco, hotel na selva ou expedição privada? Nas imediações de Manaus ou mais longe? Armar em explorador intrépido ou aceitar a impossibilidade de escapar ao pacote turístico, à convivência forçada com companheiros de ocasião imersos nas suas situdes e vendo o regresso como coisa segura? Não adianta iludir a questão fazendo notar que tudo é, como aliás sempre foi, mediado. O que importa perceber é se existe alguma possibilidade de sair dos contornos previamente definidos de uma viagem e encontrar uma qualquer dissonância, uma abertura. Nas cidades pode-se pelo menos escolher os percursos. No meio da floresta ficamos nas mãos de quem nos guia e os limites da experiência tornam-se mais claros. Que forma assumirá então o imprevisto? Um dejecto de plástico arrastado pelo rio? Uma inundação súbita?

[De um e-mail]
24 de Novembro
Li o teu ensaio sobre o contributo da dupla Saidenberg-Canini para a personagem Zé Carioca. Edificante, como sempre. Acerca de Renato Canini, há um detalhe que me parece revelador. Diz-se que ele nunca pôs o pé no Rio de Janeiro, tendo vivido sobretudo no sul do Brasil. Ora, boa parte do encanto gráfico do Zé Carioca desenhado por Canini advém precisamente do retrato sintético mas bastante sensível que ele nos dá do Rio de Janeiro, com os seus morros toucados de favelas, a sua colorida e engenhosa malandragem, etc. Neste sentido, Canini insere-se numa tradição de autores de banda desenhada que ― num movimento de sentido inverso ao do registo autobiográfico ― levaram os seus heróis para mares, desertos e selvas que eles próprios nunca conheceram pessoalmente e que todavia conseguiram representar de modo eficaz, jogando com os ícones disponíveis. 
A propósito, parto em breve para uma curta expedição pela Amazónia que, no meu imaginário, também terá algo a ver com Tintim, Spirou e Fantásio, Corto Maltese, Bernard Prince ou o Monstro do Pântano...

[De um postal]
30 de Novembro
Cheguei hoje a Manaus. Não sei se por ser Domingo ou por causa do calor imundo, mas as ruas do centro estavam desertas à hora de almoço. Fechei-me no hotel para recuperar algum sono perdido. Pelo fim da tarde, fui dar uma volta pelo Largo de São Sebastião e assisti, no Teatro Amazonas, a um concerto de Bach. Depois de amanhã embrenho-me na selva com um guia caboclo. O programa: navegar de canoa ao longo de um rio, parando de quando em quando para umas caminhadas pela mata, onde também acamparemos. (…)

[De um diário de viagem]
3 de Dezembro
Primeiras impressões da floresta: uma verticalidade impressionante, marcada pelas linhas aprumadas dos troncos das árvores, que ascendem duas dezenas de metros e só depois, numa espécie de segundo patamar da mata, se desdobram em ramos cheios de folhas e de onde pendem, por sua vez, dezenas de cipós. O padrão vertical é todavia complementado, mais próximo do solo, por uma quantidade de árvores tombadas pelo vento e que se atravessam incessantemente no nosso caminho. Aqui e ali, são visíveis os vestígios de passagens anteriores do meu guia: restos de uma grelha de madeira, uma corda estendida entre duas árvores para pendurar um toldo impermeável, algumas garrafas vazias…

Grelha de madeira
4 de Dezembro
Seguimos ao sabor da corrente, focando as margens com a lanterna como fazem os caçadores da região, procurando interceptar o brilho dos olhos dos animais noturnos (o grupo com o qual nos cruzámos ao fim da tarde disse ter visto uma onça a atravessar o rio…). Nada. Abstraio-me, por momentos, na contemplação de Orionte, cujo belo desenho domina o corredor de céu por cima das nossas cabeças…

4 de Dezembro: acampamento na mata...
 5 de Dezembro
Diz-me o guia que foi ele quem baptizou os vários lugares por onde passámos (antes não viveria aqui ninguém). Assim, as duas grutas do primeiro dia receberam os nomes, respectivamente, de Gruta do Morcego e Gruta dos Taititús, em virtude dos animais que as frequentavam. A cascata do segundo dia foi chamada de Duas Cachoeiras, por ser precedida de uma pequena queda de água. Uma outra cascata foi chamada de Lua Branca, porque o seu caudal lembra a forma de um quarto crescente quando o igarapé corre na máxima força. Uma língua de areia onde descansámos ficou conhecida como Praia da Ilha, dado haver uma ilha em frente. E o caminho proposto para amanhã é a Trilha Central, por levar ao «centro da mata, longe da casa, longe do rio».

6 de Dezembro
O tempo decorrido desde a última utilização deste percurso foi suficiente para que muitas árvores tombassem e outras começassem a crescer, apagando o leve sulco da trilha. Valdo partiu há um bom bocado, de facão em punho, tentando descobrir a continuação do caminho. Os cães foram com ele. Sinto-me cansado e algo nervoso perante a ausência prolongada do meu guia, que me deixou especado, em plena floresta, munido de um bloco de desenho Canson e marcadores Uni Pin. E se Valdo não conseguir regressar para o sítio onde me encontro? A mata é tão cerrada… Por enquanto, tudo parece tr



domingo, 28 de dezembro de 2014

Fazer de novo, fazer do nada (Holambra)

Holambra: Rua Dória Vasconcelos
Ao contrário do que sucede na Europa, onde o espaço é confinado e as construções, encavalitadas umas sobre as outras, dão azo à formação de sucessivas camadas arqueológicas, no território brasileiro as marcas arquitectónicas transactas são, em boa parte dos casos, e na melhor das hipóteses, simplesmente ténues. A herança das civilizações indígenas mantém-se viva na toponímia, nas práticas alimentares, no hábito do sono em suspensão. Mas ela não se inscreveu de todo na pedra, como no México ou no Peru. Mesmo os vestígios do passado colonial ― igrejas, sobretudo ― preservados nas chamadas cidades históricas se afiguram insuficientes para afastar a impressão de um espaço imenso e que se mantém disponível para ser explorado de múltiplas formas, senão cultivado, alinhado, aterrado, escavado, transformado até ao absurdo. No domínio urbanístico, determinadas soluções que noutro contexto seriam prontamente rejeitadas como pirosas, sugerem, ao invés, uma modalidade anti-arqueológica de usar a história, uma modalidade segundo a qual tudo é válido, desde que não redunde em ruína: jardins japoneses, fachadas decoradas com colunas romanas, motéis à beira da estrada imitando castelos medievais, palácios das mil e uma noites ou aldeias esquimós, cidades planeadas apontando decididamente para o futuro, como Belo Horizonte ou Brasília…
O ónibus 693 aproxima-se de Holambra. Pela janela desfilam o antiquário-restaurante Carroça, o motel Obsessão e uma loja que vende cercas, pórticos e outras infraestruturas de roça, expostas a céu aberto ao lado de estátuas decorativas de bois em tamanho natural. O ambiente é marcadamente rural. Pouco depois avistam-se as portas da cidade, erguidas à imagem de um prédio holandês, com grandes janelas quadriculadas e frontões em degraus. O ónibus abranda. É altura de sair. 
Holambra: o nome deriva da junção das palavras ‘Holanda’ e ‘Brasil’. O lugar começou por ser uma colónia de imigrantes holandeses que vieram para o Brasil logo após a II Guerra Mundial e aqui formaram uma cooperativa agrícola dedicada ao cultivo de flores. Tornou-se depois numa povoação e, em 1991, foi elevada à categoria de município. Alguns anos mais tarde, Holambra passou a ser reconhecida como estância turística pelo governo do Estado de São Paulo, muito por causa da sua Expoflora, evento que se realiza todos os anos em Setembro e que granjeou a reputação de maior feira de flores e plantas de toda a América Latina. Para além disso, a paisagem urbana remete-nos, sem mais delongas, para o universo do norte da Europa ― embora, no fim de contas, e como a sequência do próprio nome indica, seja o Brasil que acabe por sobressair. 
A Rua Dória Vasconcelos, também conhecida como Rua Turística, encontra-se em obras nesta segunda-feira de início de Novembro, o que talvez ajude a explicar a ausência de movimento. Nos primeiros quarteirões, as fachadas mantêm-se fiéis ao padrão tradicional indiciado pelas portas da cidade. O único café aberto oferece doçaria variada à base de frutos silvestres, para degustar ao som de música pop cantada em holandês. Do lado oposto da rua, uma loja de souvenirs exibe um escaparate com socas de diversos tamanhos. A roda dos cinco sentidos completa-se. 
Moinho dos Povos Unidos
Perambulando, flanando por Holambra… Ruas praticamente sem movimento, vivendas atrás de vivendas, todas elas com jardins bem cuidados, algumas continuando a seguir o estilo holandês, ainda que de forma mais discreta. A estrada leva-nos até um lago artificial cercado por grandes árvores. Talvez num dia de inverno e com o céu coberto de nuvens se possa experimentar a sensação de estar a caminhar por um qualquer subúrbio da Europa. Agora, no calor de uma Primavera adiantada, é mais difícil chegarmos lá. Avançamos até ao outro extremo da cidade, balizado pelo Moinho dos Povos Unidos, também ele apresentado como o maior de toda a América Latina (assim se constrói uma história à revelia da história…). E pronto. Resta voltar para trás e seguir tranquilamente até ao terminal central: um confortável alpendre a imitar uma casa, de novo com enormes janelas em quadrícula. Os passageiros que esperam, porém, são bem brasileiros: homens de bigode e chapéu de aba larga, com a pele escura e curtida pelo sol, mulheres avantajadas e de blusa justa, moças de minissaia… O ónibus para Campinas passa às quatro horas…


sábado, 27 de dezembro de 2014

De Belo Horizonte ao Inhotim





Belo Horizonte: Vista para a Avenida Afonso Pena, com parque de estacionamento em primeiro plano e favela em fundo
A pátina ainda não desceu sobre a capital de Minas Gerais. Fundada em 1900 à imagem de Paris para servir, décadas mais tarde, de laboratório de experimentação urbana à parelha Kubitscheck-Niemeyer, a cidade de Belo Horizonte brinda o viajante com algumas linhas elegantes e ousadas, alguns contrastes pensados, dando a impressão de não ser nem demasiado velha nem demasiado nova. Os prédios ainda são prédios, as ruas ainda são ruas. Será, no fundo, uma cidade vivível e onde se sobrepõem diversas modalidades de ocupação urbana ― das precárias tendas dos sem-abrigo que se erguem ao crepúsculo nalgumas zonas nobres do centro ao recém-construído edifício Michel Foucault, no bairro classe média do Prado. Mas adiante. Saindo da capital para sudoeste, atinge-se, ao fim de hora e meia, o Instituto Inhotim, nas imediações da povoação de Brumadinho. O Inhotim é um enorme parque consagrado à arte contemporânea, repleto de galerias e instalações ao ar livre, com jardins desenhados pelo arquitecto paisagista Burle Marx. A instituição, fundada em 2002 nos terrenos de um insigne empresário mineiro, assume-se hoje como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público e ponto de interesse turístico, onde a estética e a botânica se encontram com a responsabilidade social e o grande capital.

Instituto Inhotim

É domingo e faz bastante calor. No eixo laranja, a Galeria 15 alberga as célebres Cosmococas de Hélio Oiticica e Neville de Almeida. No interior arrefecido pelo ar condicionado, o visitante pode escolher entre cinco salas diferentes, cada uma delas propondo uma combinação particular de sons, imagens e experiências tácteis: por exemplo, balançar numa rede de dormir ao som de Jimi Hendrix ou, quem sabe (se o ar condicionado não se intrometesse tanto…), refrescar o corpo numa piscina equipada com balneário, por ora abandonada.
Mais à frente, a Galeria 18 é um velho estábulo que esconde uma obra de Carlos Garaicoa, Ahora Juguemos a Desaparecer (II), de 2002. No meio da escuridão, acercamo-nos de uma mesa de metal sobre a qual jaz uma cidade em miniatura bruxuleando à luz das velas. Aproximamo-nos ainda mais e percebemos que as velas são os próprios edifícios, feitos em cera, e que vão derretendo lentamente sob as chamas dos pavios que se mantêm acesos. Reparamos então tratar-se de uma metrópole compósita, misturando prédios perfeitamente anónimos com construções emblemáticas: é possível distinguir a catedral de Notre Dame, o Vaticano, o Empire State Building e o que resta da torre Eiffel. Dizem que o desvanecimento demora três a quatro dias a completar-se. Ao fim desse tempo, a massa de cera é recolhida e colocada em moldes com a forma dos mesmos edifícios. A maqueta volta a ser disposta sobre a mesa e, uma vez acendidos os pavios, o jogo recomeça. A instalação compreende ainda umas quantas câmaras de vídeo que vão registando e projectando o lento desaparecimento da cidade (a legenda da obra refere «vídeo, mesa de metal e velas»). Se o que aqui se entrevê reenvia, inevitavelmente, para uma genealogia de delírios urbanísticos onde também se inserem as fantásticas construções em Lego de Douglas Coupland ou a versão comestível de São Paulo confecionada por Song Dong a partir de bolachas e rebuçados, o que surpreende em Garaicoa é a sensação de intemporalidade que se desprende da sua cidade de sonho. Não fosse o vídeo, que dá ao conjunto o ar expectável de uma instalação contemporânea, e juraríamos estar em presença de um fantasmagórico divertimento barroco da era pré-industrial…
Regressamos ao exterior e damos com uma segunda Piscina, esta do argentino Jorge Macchi, esculpida em 2009 especialmente para o recinto do Inhotim. Aparentemente, uma piscina comum: distingue-se apenas pelos degraus que levam para dentro de água, descendo a todo o comprimento de um dos lados à imagem dos marcadores de uma lista telefónica, o primeiro com a inscrição ‘AB’, segundo com a inscrição ‘CD’, etc. Não seria preciso tanto. Como o calor aperta e o tanque está cheio, alguns visitantes atrevem-se à performação da obra de arte. As pessoas descalçam-se e entram na piscina de jeans, saias, calções, t-shirts… O facto de se estar entre amigos convida à descontração, ao chiste, ao despudor. Uma mulher de t-shirt molhada justifica-se perante uma amiga: «É que o seu homem está aqui, o meu tá em São Paulo!» Portanto, Macchi - 1, Oiticica / Almeida - 0. Resultado justo, mesmo reconhecendo que o time vencido actuou condicionado…

http://www.inhotim.org.br/