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domingo, 3 de setembro de 2017

You'll never grow-up...


Não sei como se passa de uma banda de treta para uma das melhores deste país mas é isto o que aconteceu com os 10 000 Russos. Eis o segundo disco - Distress Distress (Fuzz Club; 2017) - em formação psy-kraut-post-rock-power-trio e nada esmoreceu, nada deteriorou, nada se perdeu. O disco é sólido como um tanque Kliment Voroshilov, sabiamente cabrão como o Putin, implacável como o Estaline e alucinado como o Rasputin. Máquina de drone orgânico que gera música perfeita para conduzir de carro com um gole de whisky a aquecer o estômago, ah, o mundo é uma merda mas de carro a bombar este disco, tudo parece calmo e estar bem... bem sabemos que não é bem assim, nada está porreiro na vida mas dentro do conforto da viatura num final da tarde em rota contrária dos merdinhas suburbanitas se nenhum gajo for a 50 km à nossa frente e nenhum sinal vermelho aparecer, até um gajo se esquece da cor do cócó do bébé, da desilusão que foi a queca com a amante secreta, que o "boss" anda a micar que te estás a cagar prós objectivos da semana, que A Guerra dos Tronos já não vale nada, etc... F*da-se, que álbum!

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Milhones de discos!

Foi bem fixe cuidar do "merch" das bandas que tocaram no Milhões de Festa - no âmbito do Necromancia Editorial - assim pude aceder a discos fixolas!

Colombianos e franceses fazem Pixvae que nada têm de Pixies nem de Vaee Solis embora poderia ter todos os fãs destas bandas, que seria uma atitude mais acertada neste mundo parolo. O disco de estreia, de 2016, é uma palmeira pintada de cor-de-rosa-choque como tão bem a capa ilustra. Para quem não quer mais ouvir as repetições do Pop / Rock caduco que passa na rádio, este colectivo dá-lhe numa "new world music" onde as linguagens do Afro-Latino, Noise Rock e do Jazzcore fundem-se sem dar flancos fracos. Orelhudo até mais não mas sem ofender o bom gosto... caramba este deveria ser o sexto álbum dos Pixies se os gajos não se tivessem levado pela grana suja da nostalgia!

E por falar nos Vaee Solis, não sabia da outra banda da vocalista Sofia Magalhães, os Lodge. Punk-Hardcore modernaço, alta energia e virtuosismo é a definição para esta banda que mete tudo o que é banda tuga num canto. Bom, vá lá, pelo menos é o que soa a k7 Orphaned Chants (Tapes she said; 2015) embalada como a de Plus Ultra.
Estalada na cara com vocais de demónio - creio que nunca ninguém berrou desta forma tão poderosa e livre em bandas pesadas 'tugas. Só isso merece o estatuto de clássico no punk-hardcore português. Depois disto, só se pode dizer das outras bandas o seguinte: que grandes meninos...
Questão: depois de Crisis, disto e Vaee, o que é feito da moça berrona? Onde ela pára? Espero que não tenha engordado e começado a parir crianças... Pleeeease!

Também da Tapes She Said e de 2015 temos Live 2014-2015 dos Bitchin Bajas, duo-agora-trio drone gringo que andam nas bocas do mundo. Por mim, tanto faz, é agradável o seu "ambient lo fi" sonhador e tal - recuso-me a escrever "psicadélico", a palavra mais abusada em 2017 depois de ter sido em 1967, Zeus! Não é nada de outro mundo... Heresia, dirão alguns! É só mais tralha "hype" neste universo,... 'tá-se!
De resto é a k7 mais feia da TSS mesmo que ela em si seja um belo de um verde! Em compensação iria descobrir a mais bela k7 de sempre!

Foi esta: Planetarisk Sudoku (Dridmachine; 2037) dos Psudoku! WTF!? Veio através dos Brutal Blues, banda Grindcore tão fria como as fiordes e que tocou nos Milhões. A boa cena foi terem trazido k7s destes noruegueses armados em P.K.Dick a quererem criar realidades paralelas. Dizem eles que som que fazem é como se o Grind não tivesse vindo do Punk / Hardcore mas de um mundo que teria vindo directamente do Prog dos anos 70! Jiiisus fuck!!! Claro que isto escrito no papel tem mais piada do que na realidade. Acho que os gajos não se meteram nesse papel extremo de tentar mesmo ser malta do Prog a evoluírem pró Grind, ficaram-se pelas intenções pois não é muito diferente de músicas dos Mr. Bungle ou Secret Chiefs 3 já fizeram. É divertido, inesperado e tem algo de japonoca pela premissa - Ruins? Melt Banana? É fixe mas não pensem que vão encontrar aqui "o som nunca antes feito"! A embalagem da k7 é que é um verdadeiro "state of the art". Impressa em serigrafia com tintas que expandem, quando secam criam um efeito de esponja. Meu, a embalagem é que veio de 2037!!! É a k7 mais linda que alguma vez comprei! LINDA!!!

Seriam os Psudoku capazes de desenvolver o Grind pelo Krautrock? Sim, quero falar de FaUSt... Nem sei se quero mesmo falar desta banda que foi seminal para quase tudo como o Industrial, por exemplo. Mais estranho é conhecer o instigador principal desta facção de Faust - o "US" está em maiúsculas porque há outros "Fausts" por aí - o Jean-Hervé Peron. Ele disse-me que o que gostava de BD era o Príncipe Valente... Credo, mais valia ele ter partido o dedo ao tentar abrir uma garrafa de vinho verde para mim e os Camaradas da Chili. E ficaria para a História: FaUSt não tocou por causa da Chili Com Carne! O concerto no festival foi uma freakalhada, parecia que estávamos em 1977 em que usar manequins em palco era a vanguarda máxima. Zeus, haviam gajas com burkas e duas betoneiras... Apesar da foleirada / freakalhada endérmica (por momentos pensava que estava num espectáculos com panelas e vassouras do CCB), lá 'tá, o gajo tem 70 anos e faz isto desde 1970, ergo, ele sabe o que faz num espectáculo ou nos discos.


Não é qualquer um que faz cagadas freaks e está à vontade para que soe bem! jUSt (Bureau B; 2014) e Oslo Rockeffeler 2009 (ed. de autor; 2016) tem a energia que não se vê em tanta banda "psicadélica", "post-rock", "post-metal" que andam por aí. Nestes discos, seja em estúdio ou ao vivo, há bons momentos e há alguns menos bons, há azeite experimental mas tudo resulta numa viagem sem complexos nem bocejos. Ide aprender com os velhinhos! Até eu já percebi melhor os Butthole Surfers ou os Pigface, por exemplo. Se queres alucinar tens de dar mesmo na fruta, não podes ser um betinho que comprou a guitarra vintage para seres "psicadélico"...

E voltando à vaca fria, não dava nada pelos Dreamweapon e o seu LP de estreia, de 2015 pela Lovers & Lollypops. Quer dizer no bandcamp parecia mais uma betalhice qualquer mas não não não! Isto ouvido como deve ser, numa aparelhagem analógica percebemos que é psicadélico direitinho ao coração, sem histerias post-metal nem fogo-de-artíficio Stoner. Dark q.b. e repetitivo como os portugueses adoram fazer.
Questão: ou estou a ficar mole ou neste caso a falta de movimento (típica da produção artística portuguesa) funciona bem neste caso. Como não posso dar o braço (ou a genitalia) a torcer, só pode ser o segundo caso.
Um dos membros é o terceiro tipo da nova formação dos 10 000  Russos, talvez isso ajude a explicar a qualidade deste projecto mas isso seria a menosprezar o resto da equipa Dreamweapon que tem aqui uma estreia incrível. Isto é música para sonhar no sofá ou na caminha, caso não fosse um vinilo e tenhámos que mudar de lado de x em x tempo... Meu, como é que os hippies tripavam nos anos 60 se tinham de mudar o disco cada 20 minutos!? Fuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuck...


Ifriqiyya Électrique é Putan Club com três tunisianos vindos do deserto. Música Sufi que afasta demónios com rock Industrial que faz justamente o contrário... bela mistura e maravilhoso paradoxo que não acabam por aqui. Enquanto Putan recusa-se a gravar discos (rumores dizem que sairá qualquer coisa este ano... rumores!) com este projecto foram logo editados pela grande Glitterbeat com este Rûwâhîne (em CD e LP). Tal como um Baco perdido no deserto, este projecto relembra que a grande panca do Industrial sempre passou pela música africana e esta é a forma mais pura de o fazer uma vez que há verdadeiro intercâmbio entre os europeus e os tunisianos - e não à distância com as rapinagens / samplagens do passado como fizeram outros grupos. O mais díficil de ultrapassar neste disco é a parte "Putan Club" para quem está habituado a vê-los tantas vezes como é o meu caso - quantas vezes já os vi? Sete? Oito vezes em três anos!? É complicado dissociá-los do disco e da imagem e recordações dos seus concertos, é quase como se ouvisse dois discos ao mesmo tempo... Não são mas é uma imagem mental pessoal que preciso de eliminar para curti-lo. Só há uma solução para mim, acho que vou ter de aumentar o volume!!!

Por fim, Moor Mother com Jewelry... Crimes Waves (Don Giovanni) é um mini-LP de colaboração entre estes dois. Música de 2017 para os EUA e resto do Império, Hip Hop mutante que deixou de fazer sentido chamar de Hip Hop mesmo que muita da atmosfera lembra o que o Tricky fazia nos anos 90 para chatear o comércio fonográfico - ninguém se lembra do seu "segundo" álbum intitulado Nearly God, certo? Engraçado que a tensão já não é pré-milenar mas os efeitos deste milénio novo são mais devastadores com tantos sacos de bosta como os "Trumputins" do mundo.  Apesar da comparação ao passado, eis música nova para quem pensa que nada há para ouvir... Já agora ide recuperar o álbum Fetish Bones (Don Giovanni; 2016) da Moor caso tenham estado desatentos, ou pior, estejam à espera que os media portugueses divulguem algo de jeito...

terça-feira, 18 de julho de 2017

Livros do contra

Apontamentos rápidos de vários livros de editoras independentes que tenho apanhado por aí...

Tudo indicaria que este seria o livro do ano mas Desobedecer às Indústrias Culturais (Deriva; 2017) de Regina Guimarães desilude. Metade do livro é uma análise acertada às ideias neo-liberais das "indústrias criativas e culturais" e sobre os desastres do Porto sobretudo por causa do merdas do Rui Rio e a gentrificação / disneylização da cidade - fenómeno que está atingir quase todas as cidades no mundo. Mas a outra metade é uma preguiça que só se justifica porque já se sabe que os poetas não curtem trabalhar. Então para encher chouriços Guimarães mete as (poucas) respostas a um questionário que fez a grupos "do contra" que só dizem leviandades para despachá-la. O pior, é que nada é dito COMO desobedecer! Não que um gajo queira uma cartilha de (des)obediência mas pelo menos entender o que fazer num cenário tão complicado em que vivemos. Já se sabe que quem trabalha neste meio independente artístico e cultural (sobre)vive cheio de contradições e paradoxos, justamente por isso é que merecia mais análise e discussão, não basta manda uns bitaites a soar a ressabiado. Shame on tha hippie!


Prosa poética feminista-queer pós-25 de Abril é a forma mais fácil de apresentar Lábio/ Abril (Traveller + Presente; 2015) de Daniel Lourenço - o nosso "agente provocador" quando apresentamos publicamente o livro sobre o Queercore do Camarada REP. Para simplificar ainda mais, ou para ficar mais angustiado, é escrito que foi dito no 25 de Abril que "a revolução não foi feita para prostitutas e homossexuais reivindicarem" - General Galvão de Melo dixit. Com isto, nada melhor que uma revanche literária dedicada a todos que ficaram excluídos da "democracia". Mesmo que se possa dizer que no máximo este bandalho de militar poderia estar ser reaccionário de forma meramente coloquial (seriam as prostitutas os vendidos? e os homossexuais os covardes?), convenhamos, a declaração serve na mesma para posicionar as mulheres e queers num cantinho sossegado e servil em 1974. Sendo data zero da nossa actual sociedade então este servilismo ainda está presente em 1984 ou 2014. Lourenço escreve contra um evento político feito de espingardas e pilas (os standards mentais dos militares) onde nitidamente precisava de mais cus e de conas. Imaginem como seria Portugal se o Mário Soares fosse gaja, o Eanes paneleiro ou o Pinto Balsemão transgender? Teria sido um país bem melhor, sem dúvida...


A Grain of Sound além de ter voltado e continuar a lançar música experimental de qualidade (um dos melhores discos de sempre foi feito por eles - este), agora mete-se nos livros! Já antes - há muito tempo - tinha uma revista em linha, a Sonic Scope Quartely, que mostrava que não brincavam em serviço. Cinza (2016) é um livro de fotografia de Nuno Moita mas para os puristas não será nada disso. As fotografias tiradas entre 2009 e 2016, em viagens a vários continentes, estão sobrepostas umas sobre as outras criando um caldeirão de cinzas que não permite fazer reconhecimentos de lugares ou de situações, como se espera da "realidade" da fotografia. Se calhar o que temos aqui é um livro de "foto-montagem" em que as cidades reais são transformadas em locais dignos do Blade Runner ou Neuromancer. O "cinza" da excelente impressão lembra que esse locais imaginados futuristas (mesmo que distópicos) deram lugar ao deserto do nosso século incapaz de ter uma visão de futuro mesmo que seja só para os próximos cinco minutos. O livro é acompanhado com um CD de Carlos Santos, tão nubloso como livro, sendo impossível não o considerar uma banda sonora. A voz da quarta faixa lembra os manifestos "this" do Rasalasad dos Antibothis... Hum, ladrão que rouba ladrão, mil anos de perdão.

Os portugueses continuam a ser uns broncos no que respeita à imagem. Prova disto é Fátima Kitsch : Outra estética (Fronteira do Caos; 2017) da Camarada Ondina Pires, um livro que deveria ser um "picture book" e não, é uma cagada digital... Depois de tratar do realizador maldito Kenneth Anger e o "rei do rock português" Victor Gomes, este terceiro livro de Ondina é sobre o "merch" que se produz naquele penico chamado Fátima. Para alguns poderá ser considerado oportunista lançar um título assim no ano em que se celebrou, com laivos de ecoterrorismo e acidente social, os 100 anos das revelações alucinadas dos três pastoritos. No entanto, conhecendo a autora, o interesse pelas santinhas de plástico e faiança é genuíno, a Ondina é uma coleccionadora nata, uma "nerd" pelo kitsch mais kitsch - não teria ela sido dos The Great Lesbian Show ou co-autora de fotonovelas com bonecada? Foi uma coincidência cósmica o livro ter saído por esta altura...
Feito de um texto simples e respeitoso, é explicado o kitsch, a criação e fabricação dos objectos de devoção a Fátima e para finalizar deveria ser uma galeria de fotografias da colecção de Ondina mas infelizmente as imagens são colocadas ao molho, mal impressas (impressão digital), com legendas pouco explicativas - aliás, nem são numeradas para indexar as referências no texto - e sobretudo mal-paginado sabe-se lá porquê! É preciso estar a rodar o livro centenas de vez para ver tudo como deve ser. A culpa, parece-me, é pelo facto de ser um "split-book" (de um lado em inglês e de outro em português) e por isso, talvez, os editores não quiseram colocar as imagens por uma ordem de leitura conforme se venha do lado inglês ou do outro. Assim colocaram todas as imagens na horizontal num sentido de quem vem do lado inglês e do outro de quem vem do português tornando-se num caos que dá jus ao nome da editora. É uma pena, este curioso acervo e extravagante conhecimento sobre o mesmo merecia ser melhor tratado. Diria que parece um livro da Paulus mas até estes emissários da ignorância fazem melhor...

Tonto (Ed. Valientes; 2017) é uma compilação de BDs, cartoons e cartazes para concertos punk do mexicano Abraham Diaz que também faz jus ao título... quanto à edição, antes demais, é excelente, o design de La Sanntera (aka, Camarada Lam López) melhora de edição para edição, julgo que se pode dizer que é um dos melhores designers de livros de BD do momento.
O conteúdo é divertido, desenhos porcalhões e tal, o grafismo é como se o estilo do Don Martin (da revista Mad) tivesse sido roubado pelo Vuillemin usando as "falhas" do Gary Pather. Tal como o Mike Diana quando foi para tribunal explicar os seus desenhos mostrou que o que fazia era por necessidade de deitar para fora os horrores da violência que lhe chegava pelos media e pela sociedade, também Diaz reage à ultra-violência da sociedade mexicana e deposita-nos em tanta merda sem sentido que se pode sufocar nela. A diferença entre os dois, é que o primeiro oferece ainda personagens inocentes, em que ainda se pode identificar naqueles bonecos toscos um bocado de humanidade que irá ser posta em prova com o Sade como Júri, em Diaz isso não acontece. Depois de fechar o livro, já não me lembro o que aconteceu de tão horribilis nas suas páginas...

Por fim, Comiczzzt! Rock e Quadrinhos : Possibilidades de Interface (Contato Comunicação; 2015) de Márcio Mário da Paixão Júnior - o granda-boss da Monstro Discos, Voodoo! e festival TRASH - é a sua tese de Mestrado, onde ele procura um interface entre o Rock e a BD.
Livro interessante que peca pelos trejeitos chatos da escrita académica - boooring - e pelo descuido gráfico do livro - nada de grave, como o livro da Ondina, mas percebe-se que quem o fez faltava-lhe amor pela coisa... Aprende-se várias curiosidades culturais no que respeita ao grafismo de discos ou sobre o underground comix dos anos 60, sendo que a procura de Márcio acaba por ir parar ao seu projecto musical, a banda Mechanics, mais concretamente no CD e o livro de BD Música para Antropomorfos de autoria do grande Fábio Zimbres - que assina uma bela capa, estragada pelo logótipo da editora, breargh... É este "making of" que acaba por ser mais incisivo pois se seguiram os "links" desta resenha já perceberam que a Música para Antropomorfos tem um conceito (e bom resultado, faça-se justiça!) muito interessante e híbrido. Food for brain!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Para mais tarde recordar...


Eis um disco que limpa as pistas todas. Sabemos de onde isto vem e para onde vai mas quando se ouve, nesse preciso momento estamos a Leste. Enter Humcrush (Shhpuma; 2017) é um CD que começa com uma explosão free-jazzística, coisinha irritante e cliché que felizmente só demora um minuto e tal, assim que entra o tema-título e segundo tema do CD, deixa qualquer um perdido, o que raios é isto? Krautrock? Jazz Cósmico? Hip Hop Illbient? Industrial para pequenos e médios intelectuais? Andamos em terrenos sonoros familiares, vizinhos dos sonhos só que... é estranho e como escrevi no início, já se ouviu tudo isto mas soa a novo, como se tivesse sido imaginado mas nunca gravado.
Humbug é um duo norueguês de músicos que tocam sintetizadores e bateria, experientes que são fazem música que parece simples, ainda mais com uma gravação quentinha - parece que estão a tocar aqui mesmo ao lado. De longe que fizeram o álbum do ano, perfeito e certinho mas é daqueles que deixa espaço para lá voltar mais tarde e redescobri-lo...

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Nha Cultura Crioula


2016 acabou com o melhor disco do ano, perfeitamente ignorado por ser tão híbrido - ou então espera que seja eleito de DISCO de VERÃO 2017. Passaporti (Kreduson Produson + Fazuma), terceiro disco disco de Karlon, essa metade dos brilhantes Niggapoison - sim, se Portugal desaparecer ao menos salvem os discos deles para alguém se lembrar que existiu este canto europeu.
Esta meia-hora de Hip Hop baseado em samplagem e música tradicional cabo-verdiana, não agrada aos que gostam música dos pobrezinhos (ele são tão giros a dançar) nem aos hip hopers porque a língua mais usada no CD é o crioulo cabo-verdiano e essa malta não curte mexer o corpo com funáná... É verdade que se percebe pouco do que é tratado mas dá perfeitamente para entender que é sobre a diáspora de um povo, a sua saudade pelas raízes, o desencanto em países para onde foram (racismo e capitalismo de mãos dadas), os sacrifícios dos pais e mães, etc... no fim de contas, não escapa à lista dos temas dos Nigga. Disco genial que vai crescendo a cada nova audição!
Realmente o maior desvio é sonoro que ficaria bem num Festival do Mundo de Sines... Isto se a organização não tivesse provavelmente medo que os pretos entrem pelo recinto adentro estragando as férias dos betinhos branquelas a curtirem o seu Alentejo litoral - os mesmo que na maior parte do tempo estão a olhar para os Smartphones invés do palco de música. Racismo Pt 2017? Sim é verdade, ou com balas nos putos de Setúbal ou ignorando discos. Façamos um bocado de Justiça!

sábado, 17 de junho de 2017

Cego pelo sol


Se os Pink Floyd ouvirem este mini-LP vão-se cagar todos. Nesta década os portugueses já sabem o que é Doom ou Sludge e seguem em frente como é o caso dos Wells Valey cuja a estreia deixou-me indiferente mas com este The Orphic (Chaosphere + Bleak + Raging Planet; 2017) já se pode dar o título de "disco metal português do ano". Tal é dinâmica e peso que o disco transmite pela psicadelia (sim, tem uma versão de um tema dos Floyd), Post Black, ruído e pára-arranca, que mostra que lá porque se faz este tipo de música não se precisa ser um lobotomizado. O laranja do vinilo indica que estamos em zona radioactiva e quem tocar nisto irá morrer de cancro, talvez seja melhor ouvir na 'net onde o som não terá o mesmo impacto que pela via analógica... Eu preferi o vinilo mas vocês é que decidem como querem ouvir este monstrinho!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Feira do Punk de Lisboa

A Feira do Livro de Lisboa é uma babilónia literária. Um paradoxo total de editoras que alimentam fraudes (Chiado), lixo (Leya) e merda total (cristianismo e cientologias). Mesmo a Tinta Da China é suspeita devido à BD que edita, restam as únicas que merecem o meu dinheiro: Letra Livre, Antígona, Relógio D'Água e pouco mais... Talvez por esta minha atitude pseudo-elitista que já arranjei mais discos do que livros por aquelas bandas...

Directamente com a BD saiu um novo LP dos Dirty Coal Train - os mesmos que participaram no recente Punk Comix CD - em que fazem um "back to basics", isto é, a banda começou como um casal, expandiu-se para sei lá quantos elementos e actualmente voltaram a duo. Neste Kirby Demos (2017) na realidade as gravações são do início mesmo, quando o casal andava a descobrir caminhos e gravavam temas dedicados ao Jack Kirby (1917-94), autor de BD norte-americana que fez o "template" de quase todos os super-heróis. Garagice primitiva e lo-fi também ela em modo "template" do género, é sem dúvida uma peça de colecção para qualquer cromo da BD e Rock, essas duas artes marginais do século XX. O Camarada João Maio Pinto fez a capa que se transforma num gigante cartaz cheio de criaturas replicadas de Kirby. Só ele é que podia fazer uma mimetice destas.

Miméticas são muitas nos últimos dez anos, uma delas é do homem e a sua guitarra desde que o Norberto Lobo tornou o "estilo" fixe outra vez. O Gajo era dos míticos Corrosão Caótica, actualmente dos Gazua e estreia-se com Longe do Chão (Rastilho) num modelo impossível de não o meter nas caixas de Paredes ou Fahey. Ou seja, Folk mais urbano ou menos rural, tanto faz... Depois ainda há os chavões lisboetas que os secas dos Dead Combo impingiram neste tipo de música instrumental. Pior, é para quem os segue, enfim...
A gravação merecia um toque "lo-fi", ou seja, um bocado de ambiente caseiro para dar um calorzinho ao CD que bem o merecia porque o gajo explora ambientes andaluzes e arabescos (oba oba!) mas o tom geral é o cinzentismo português tal como a embalagem do disco indica - embora deva dizer que sendo uma embalagem modesta é catita, melhor que muitos luxos que andam por aí... A guitarra está sempre "à frente" fazendo que ela sature e se dilua por mais que o gajo seja dinâmico a tocar. Mesmo com mais elementos que aparecem nas músicas não conseguem abalar a guitarra, infelizmente até se tornam kitsch como o caso do som do navio em Navio dos Loucos. O Gajo já fez tantas na vida que devia quebrar as regras invés de as seguir!

Se homens e guitarras cheira a andropausa precoce o estilo Oi! já nasceu velho nos finais dos anos 70 em Inglaterra. Música de proletários, anti-racista, anti-artsy-fartsy, juntou punks e skins ou quem nada queria com isso. Som que está pronto para pints e bola - moral e tremoços se for em Portugal.
Oi! Um Grito de União vai no quarto volume depois de passarem 17 anos desde que o último volume saiu. Nos anos 90 chegou a ter capas do Angeli da tão bem-amada revista Chiclete Com Banana, agora tem um amador que corta a palavra Portugal e tudo... Ainda bem que o nacionalismo desta malta passa apenas por fotografias com castelos por trás senão dava merda entre portugueses e brasileiros! Sim, são cinco bandas brazucas e cinco tugas, cada uma com dois temas mais ou menos inéditos. Vamos encontrar os Grito! que entram também no Punk Comix CD (logo a abrir e a fazer o erro de misturar BD com desenhos animados - isto no CD do Punk Comix...), Facção Opposta e os brasileiros Sindicato Oi! que visitaram Portugal estas últimas semanas. Para quem gosta de punk básico, este é um CD de uma hora cheia de não-inovação e fantasia urbana - falam de realidade mas não oiço nada que fale sobre proletariado em 2017... A editora tuga deste disco é a camarada Zerowork.

Ainda tenho domingo para comprar livros, ufa!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Belos pesadelos


Odeio saxofone e é por isso que não consigo ter uma higiene jazzistica. Talvez daí não aguentar uns poucos minutos da discografia da Clean Feed mas curtir (muito!) os seus discos RED Trio (quando não têm saxofonistas convidados!) ou Jorge Lima Barreto (piano). Por acaso, tropecei neste quarteto euro-americano Starlite Motel que se estreia com Awosting Falls (2016) e admito que surtiu um efeito inesperado mesmo com o Sax irritante. Acho que o segredo está nos sintetizadores de Jamie Saft que tornam todo o som mais "spacey" e "funky" sem ser pura cacofonia do Free - estilo musical que adora dizer que não quer ser idiomática mas há décadas o que se ouve e que se percebe é já um idioma do Free e Improv. Aqui há uma fusão de linguagens jazz, rock e funk sem fazer grandes concessões, conseguindo dar energia ao disco. Destaque para o contrabaixo do norueguês-texano Ingebrigt Haker Flaten que é uma sujeira linda. Ouvi dizer que a série de TV Twin Peaks voltou, bem... este grupo poderia fazer a sua banda sonora!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Metalada entalada


O regresso dos Sacred Sin é motivo de alegria para qualquer metaleiro 'tuga que se preze. Esta é a banda barulhenta que teve mais momentos de glória desde os inícios dos anos 90. Nessa década nada era fácil para quem curtia som pesado e esta banda fez carreira sem as foleirices góticas (cóf, cóf) explorando Thrash / Death Metal. Andou a hibernar de vez em quando neste milénio e volta com o explosivo Grotesque Destructo Art (Chaosphere; 2017), um CD tradicional que não avança nem uma pontinha para a evolução do sub-género musical. Até volta a atrás com uma podre versão de Comandos dos V12 (outra instituição metaleira nacional que preferia não escrever) ou com o instrumental Sounds of Despair, uma cavalgada que de desesperante nada tem (não se percebe o título!) que soa a trashy-glitch primordial. Este primitivismo é logo visto no artwork do disco de tão inapto que parece que ainda estamos em 1997 a aprender ainda a fazer grafismo para estas pequenas embalagens destas coisas chamadas de CD - o vinil tinha "morrido", certo? Come on Chaosphere!? Não nos podes dar esta bomboca e depois deixar descuidarem os Sacred Sin!!!
Os melhores momentos do disco são Euthanize it e The Sentinel que começam lentos justificando as práticas dos títulos para depois desdobrarem-se em orgias de solos típicos deste tipo de som. Aliás, após The Sentinel não vale a pena ouvir o resto do disco, ou seja, nem o tema-título do álbum que é um "death wishful thinking" sem sentido nem a tal versão de V12. Baaaaaaaaaaaaaaza!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O Presidente Drógado apresenta Quatro Dramas de Faca e Alguidar



Este Sábado que passou, finalmente saiu um disco - um vinilo 12" gravado de um só lado - que marca não só o regresso da saudosa Imprensa Canalha como o do Presidente Drógado a edições decentes, isto para quem tem feito uma carreira fonográfica de CD-Rs pobrezitos (excepção prá edição da Burning Desire). Escrevi "edições decentes"? Meus caros, esta edição é a razão porque se compra discos em vinilo.
'Tá Top! É bem capaz de ser a melhor edição em vinilo em Portugal nesta década ou milénio, já não digo melhor edição fonográfica porque ninguém até hoje bateu as edições da Matarroa desenhadas pelo designer Chemega. Capa em serigrafia, textos explicativos da enorme saga de três anos que demorou para sair o disco - o problema principal, é que com a moda do vinilo, as fábricas de discos estão a ignorar os pedidos de editoras mais pequenas.
Baseado num caderno antigo do século XIX descoberto pelo João Bragança (Succedâneo) que contava uma estória de drama e crime, foi dado o mote para uma pequena recolha im-popular de "murder ballads" em que o Drógado é perito. As gravações vão de 2008 a 2015 e inclui excelentes participações de Patrícia Filipe (com quem partilham o projecto Come-se a Pele), Filipe Felizardo e Rita Braga - que várias vezes apareceu marciana em concertos e gravações do Drógado.
Advertência aos fãs agarrados: as músicas do Drógado neste disco são "dark" e mais trágicas que cómicas, o que poderá fazer algum choque a quem espera apanhar letras irónicas sobre o consumo de estupefacientes ou os clichés da vida contida de Rock'n'Roll deste Lou Reed de Linda-A-Velha. Há um tom de seriedade que casa com o grafismo do disco em perfeição. O simples facto de se colocar o disco na aparelhagem e ouví-lo à medida que se consulta os textos percebe-se que estamos num mundo Pop em estado de "slow food", há que apreciar isto com calma e gosto. Há o espectro "trash" que paira no disco, claro, afinal falamos de baladas populares e que até são descobertas literalmente no lixo mas é daquele "trash" que foi transformado em luxuo e será guardado para sempre nas prateleiras dos doze polegadas...
Parabéns Zé!

terça-feira, 16 de maio de 2017

Pelo amor da tia...

Pá, a sério, Panelak!? É que já não se fazem piadas destas em 2017... Por acaso o Sto. Wikipedia diz-me que "panelák" é uma palavra checa para habitação social do tempo soviético e deve ser por isso que este projecto tem esse nome - é que soa a tal. E a panelas! A terceira faixa a guitarra soa a panelas a serem batidas e não há nada a fazer! Os instrumentos reais são guitarra e laptop que são abusados por um músico de Leeds - agora residente em Lisboa. Músico Noise / Improv está apto a sobreviver ao mundo pós-web 0.2 com todos os seus excessos digitais e respectivos glitches. Tal como peluche da capa que parece ter óculos especiais para ver unicórnios fluorescentes na verdade ele está a ver a um carrossel com falta de óleo, a ranger de zumbidos que dão dores-de-cabeça, porra, sei lá, acho que vou vomitar algo em RGB... Isto é um ambiente doente de quem bebeu vodka barata e jurou nunca mais beber e fumar na vida mas como não cumpriu a promessa vê-se agora arrependido e indefeso, sem conseguir desligar o "play" da aparelhagem. Este CD-R homónimo de 2013 (da Augurosakuson) é uma coisa doente de se ouvir e espero que nunca mais se grave nada assim! Thanks mate!


Entretanto... comprei o CD de Corman intitulado The Corman Film School (Sinais; 2013), verdadeira meia-hora de tortura sonora não pelo ruído mas pela inaptidão da banda, verdadeira "Cafetra do Metal" - ou Crap Metal como assume a banda. Os músicos são uns "não-músicos" desajeitados como o famoso realizador de filmes de série B Roger Corman era quando era pobrezinho e independente. Entesados pelo imaginário "B", os Corman tocam Hard 'n' Heavy dos primórdios em que os fantasmas de Black Sabbath ou Pentagram assombram as gravações. Ensaíaram, gravaram e lançaram o disco tudo em puro espírito DIY, atitude Punk afastado da subcultura Metal cada vez mais armada em Diva - e como tal, cada vez mais aborrecida e inócua.
A voz lembra a do Nunsky quando este tinha os The ID's mas isso pouco importa porque ninguém os ouviu nos finais dos anos 90. As semelhanças não ficam por aqui por causa da fixação mútua pelo "B". Nesta espiral de auto-nostalgia, o CD soa-me a essas k7s dos The ID's, ou seja, negras e lo-fi com sentimento, apesar do bedum do "kitsch". A capa está na mesma linha estética, tanto que foi graças a esta imagem tão insólita e maravilhosamente amadora em 2017 que o disco me chamou a atenção na prateleira do Metal na Glam-O-Rama. É linda! Incluindo a contra-capa e "artwork" do livrinho do CD. Ninguém já faz coisas assim...

quarta-feira, 29 de março de 2017

Música Morta

Bem sei, sou um leviano a comprar cultura underground e tal. A k7 de estreia dos Veenho está bem sexy com um artwork fixe e o plástico da k7 é um azul a lembrar as k7s dos jogos para o Zx Spectrum! Claro, comprei a coisa na última Feira Morta sem saber o que fazia. Não me arrependo completamente, o Garage Rock dos Veenho lembra os Us Forretas Ocultos e a pandilha Beekeeper ou o quebrar de gelo das Pega Monstro - a Xita Records (colectivo/ editora) é vista como uma segunda geração do "modelo Cafetra". Ok, estamos perante mais bandas de putos descontraídos, o que é melhor que as poses de puta das starletes 'tugas. Se é verdade que em 1997 estava-me a cagar para os sucedâneos de Dinosaur Jr. e que não será que em 2017 que vou ficar atento a isso, também é verdade que não fiquei ofendido a ouvir esta k7. Ao perceber que o lado B era a repetição do lado A até achei piada voltar a ouvir os mesmos temas, como se tivesse voltado a por a agulha na música de um single em vinil para voltar a ouvir aquele tema orelhudo - só que aqui este single tem 5 temas! Estranho, conquistaram-me, estou a ficar mole?

Infelizmente o gato da fotografia aqui ao lado não está incluído na compra da k7. Apesar do design/ embalagem parece ter sido feito pela C+S de Odivelas a música é insidiosa para esquecermos esse facto. Não sei qual o título desta k7 (em plástico branco paneleiro) editada pela Nariz Entupido - e lançada na Morta -, acho que é Folclore Impressionista na SMUP Parede ou talvez Folclore Impressionista & convidados | Smup Parede | 15 de Janeiro 2017, quem sabe? Nem o Sombra sabe!
Os convidados é gente má-onda - e ainda bem! -como o Ondness, Caramelo e Jejuno. A música é glória 1987 experimental assim dronaria dark pós-pós-industrial, que ao ouvir em loop durante horas torna-se tão promiscua que se perde a autoria das músic@s tornando-se num som infinito de sonho e meditação. Mais do que perfeita para o gato aninhar-se ao colo!

Cena otária foi comprar o 10" Tracked Love From The Electric (Nooirax Producciones + Odio Sonoro + RodeoFest + Noma Records + Radix Records + The Bloody Dirty Sanchez; 2011) dos The Happiness Project. Auto-otário, bandas espanholas nunca me bateram - estou a ser injusto com o punk basco, o breakcore da costa este (jajajajaja) e os Grabba Grabba Tape! O "projecto alegria" é Power Violence o que me alegrou como ideia mas sei lá pá! Já ouvi tanto Man is the Bastard que não quero sequelas ainda por cima com uma vozinha de toureiro. Bela produção gráfica!
Quem está distribuir este material é a Boira Discos, editora espanhola que mudou de instalações para Lisboa, tem um catálogo excelente para jovens-já-velhos...

Mas o melhor de música nesta Morta foi o fanzine Cleópatra #10 (Façam Fanzines & Cuspam Martelos) de Tiago Baptista. É o título "perzine" deste autor que fica pasmado com muita coisa na vida, uma delas é que já se passaram 10 anos desde que criou o zine. Ao menos comemorou-o com pompa e circunstância (como aliás todos os zines merecem) com uma bela edição onde publica BDs e ilustrações suas - em que se vê uma mudança subtil do seu registo gráfico, cheira-me que o Tiago vai dar muitas surpresas nos próximos tempos. O que deu-me gozo especial neste número foram as suas resenhas críticas a discos e livros de BD, em especial a selecção de música que juro-que-é-verdade se o Cleópatra saísse nem que fosse uma vez por ano deixava de assinar a The Wire. O Tiago tem bom gosto, caramba: Edward Artemiev - compositor russo que fez bandas sonoras para o Andrey Tarkovsky (um realizador que é uma obsessão de Tiago) -, Sonny Sharrock, Mal D'vinhos ou Munir Bashir... não é qualquer um! Que um gajo já tenha ouvido falar neles é uma coisa, mais nomes entre mil referências, mas com alguém como o Tiago a filtrar a informação, a digeri-la e a servi-la com nova apresentação, dá mesmo gosto ir à procura e ouvir dos discos que ele comenta. Obrigado!

PS - Not music: é de estar atenta a esta autora: cargocollective.com/sondelwondel - do colectivo Confio - Desisto, Confio, Dor de Cotovelo,... que se passa com os nomes desta malta!?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Sonic Hentai


O imaginário Manga / Anime na Aldeia Global é absorvido de forma subreptícia, por mais que os fachos da Disney e da Marvel (o que significa a mesma coisa desde 2009) tentem sabotar a sua divulgação, a verdade é que o processo é imparável, dos bebés aos adultos todos adoram os olhos grandes das personagens, as linhas cinéticas das BDs e aqueles "stills" psicodramáticos a fingirem movimento. A nível sonoro a coisa é menos óbvia embora a freakalhices do J-Pop já tenha poiso até em Portugal - um submundo fedorento de farçolice e kitsch. Os Atari Teenage Riot verdadeiros terroristas anarco-ecuménicos começaram cedo por samplarem sons dos Animes mas não sei se houve grandes continuações destas ideias. Recentemente encontrei o Yeongrak (da Nova Zelândia, ali perto do Japão) e este italiano Venta Protesix editado no ano passado pela Urubu Tapes.
Ambos projectos musicais remetem para a iconoclastia sonora como se fossem irmãozinhos da "nossa" Camarada Hetamoé. A embalagem da k7 Hello Kitty Box Cutter For Emasculation parece que foi feita por ela com técnicas 3D. Desde já é de referir que a Urubu não só está-se a tornar na editora de k7s mais interessante de sempre em Portugal, pelo catálogo heterogéneo dentro de um espectro "experimental" mas também pelo excelente trabalho gráfico das suas edições. Esta é mais uma prova disso com o seu ar "slick" e plástico cor-de-rosa que faz qualquer fetichista chorar como uma Maria Madalena. A música é que é mera pica-miolos toing-toing, Noise e Glitch já mais do que visto, chato como a potassa sem aproveitar nada dos sons nipónicos como nos é vendida como ideia - se samplou Hentai só se ouve um gemido fofinho algures... Não estamos nos humores de V/VM ou de Vomit Lunchs nem na fantasmagoria de Yeongrak, infelizmente. É daquelas merdas que se ouve uma vez e fica-se a pensar "o que raios vou fazer com esta k7 tão gira?"

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Inflamação Buffa


A estreia de Rancid Opera com o mini-LP Azionismo Bolognese in Rap (Sonic Belligeranza; 2016) é outro tiro de 2016 que bem perfurar intacto até 2017 para arrebentar a cabeça de alguém - salvo seja. O nosso Camarada Balli voltou a fazer das suas para combater o ennui europeu e a melhor forma de o fazer é reunir os amigos amantes de Alta Cultura capazes ao mesmo tempo de amar a vérmina. Aliás, a Ópera e o giallo são coisas tão italianas como pasta e pizza que até estranho nunca se terem cruzado, teve de ser uma linguagem pós-moderna como o Rap Horrorcore, que os Rancid Opera praticam, para fazer o arranjinho sonoro-genético alla marcia! Descansem quem desatina com o italiano, o libretto do vinil reproduz "em inglês-esperanto" as líricas mash-up deste projecto crítico ao Bel Canto. 
Ao vivo há quem cague de fininho pela intensidade da performance e a encenação dos seus actores MC PavaRotten, MC DominGORE e MC CarreAXE. Quem assistiu diz que parece mesmo uma ópera, só que vinda direitinha d'Inferno de Dante. Talvez pelo uso das máscaras e pela imaginação violenta que Rancid Opera está para o Hip Hop como Faxed Head está para o Black Metal... Assai!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Nos jardins de Neuromancer


Sorry Stars (Ed. de autor; 2016) é um LP de Van Ayres candidato a ser o disco de 2017 em Portugal caso não tivesse saído em Outubro de 2016, sendo que andou a sua comercialização andou a ser arrastada até hoje devido a um ligeiro erro de impressão da capa. Este é daqueles discos que me faz sair da letargia de escrever sobre música neste blogue (ou no Mesinha de Cabeceira) porque Ayres tem essa capacidade de iluminar caminhos sejam eles sonoros, gráficos e narrativos - alguém ainda se lembra da bomba que foi Lençóis Felizes?
De vez em quando, seja um Mr. Burroughs (Círculo de Abuso; 2000) ou os discos de Allen Halloween dou-me conta que as melhores criações artísticas não vem obviamente nem dos meios oficiais nem da "cafetrice" das famílias "indies" mas das margens ainda mais à margem, aquela que obriga a 100% de independência e que o autor tem de pegar o boi pelos cornos. Sorry stars é uma fotografia desta década - por alguma razão que todo o grafismo do disco é feito de imagens fotográficas - em que a Electrónica balança de trás para a frente, de passados épicos do Techno e House para relaxados ambientes cyber, fazendo sínteses Hegelianas e outras manobras retro-futuristas. Um bocado como os panhonhas da Hyperdub fazem mas sem o cinismo da falta de futuro ou o excesso de depressão urbanística. Surpresa, Ayres qual Enya dos Bijagós diz-nos que que há mais coisas na vida nem que seja um temporário bling bling pós-freakista que custa a engolir para os existencialistas desiludidos que andam praí.
O som em vinil está gigantesco, em que o Rabu Mazda (um Cafetra boy que costuma actuar com Ayres ao vivo) deve ser o grande responsável para clareza e pujança da produção sonora. Sim, é daquelas coisas que se tem ouvir com o espaço do analógico. Na compressão do digital o som passa ao estatuto de pila frouxa após uma banhoca na praia em Janeiro.

PS - O disco em rotações mais rápidas também é bom, isso é raro acontecer nos discos. Foram avisados!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Música caseira

Quando soube que os The Dirty Coal Train iam participar no CD Punk Comix pensei "olha mais uns garageiros tristes, ainda por cima vou ter de os aturar um dia destes"... Mal sabia eu que já tinha conhecido o simpático casal Reverend Jess e Conchita Coltrane (hum... Coal Train? I get it!) e que em conversa na Dona Edite iria comprar o EP 7" Weird (Zip-a-dee-doo-dah; 2015)... O que me convenceu foi pelo facto de me terem dito que este disco foi gravado em casa e ter percebido que havia da parte destes Coltranes sujos uma profunda ética DIY. O vinil é branco virgem e tem seis temas que soam naturalmente ao espectro Garage/Blues/Surf mas pelo lo-fi e falta de dogmatismo pelos cânones dos géneros revelam ser mais interessantes do que a média "retro" de que já não cu que aguente. Este pode ser um bom disco para se começar a apreciar a banda... Nice to meet you!

A k7 Música testada em animais (Baby Yoga; 2016) do Banana Metalúrgica é um retomar de insanidade musical em Portugal que há muito se perdeu com os Kromleqs - e retomado timidamente pelos nado-mortos dos Go Suck a Fuck... Num país de gente séria, poseur e/ou beta - as opções não são muitas nem muito boas - é saudável ouvir música psicótica, se desculparem o contra-senso. Isto para além que uma capa com uma pila/vagina a ejacular e com duas bolas vermelhas sci-fi são sempre uma vantagem contra qualquer capa "photoshopada" ou com ilustrações da modinha. Entre Nurse With Wound com dificuldades e MMP dado ao MDMA, são 11 temas absurdos que desfilam perante ouvidos cépticos. De asséptico isto não tem nada, foi uma boa descoberta nesse grande evento que foi o Zinefest Pt.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Natalixo b.s.o.

Depois de uns discos virtuais e umas k7s este é a primeira vez que um disco de AtilA sai imediatamente em CD e em LP (para 2017) como se fosse quase o seu primeiro disco "oficial" - só V é que depois de sair em k7 é que depois foi lançado em CD.
Body (Dissociated + Hið Myrka Man; 2016) é um disco algo estranho ao que AtilA habitou com IV e V, não que tenha ficado mais suave ou menos Dark, nada disso... Apenas ficou mais sofisticado e complexo, menos bruto, o que lhe dá menos impacto nas primeiras audições e quem sabe até desilusão aos fãs mais primários. Tal como o "artwork" do disco é feito de nus artísticos também o som é mais dado a uma pose coreográfica e um ambiente controlado. Ironia dos destinos, para um disco intitulado de "corpo" este será o disco menos físico de AtilA. Dupla ironia é que um corpo humano é daquelas coisas mais sujas que há no Universo, segrega ranhocas ilimitadas e liberta gases inesperados que é coisa estúpida, isso é o que este disco não faz...

A Chili tem 5 exemplares deste disco a preço de pré-lançamento. Prioridade para sócios. O Natalixo é para esquecer com música que limpe as cabeças...

domingo, 11 de dezembro de 2016

Diz Mantra

Continua a série de edições de Rasalasad em colaboração com algum cromo deste planeta. Desta vez é com o francês Amantra e em formato mini-CD - as outras edições foram em k7. Infelizmente pela negativa continua o grafismo pobre que se tem pautado desde sempre e o que é mais infeliz é que a Thisco tem escolhido formatos e embalagens bem giras que permitiriam ter "algo mais" (seja lá isso que quer dizer) a acompanhar o objecto.
Resta-nos a música que é de qualidade, "mash-up" de guitarra em registo drone com um "ambient" em sintonia. E quem espera ficar em posição fetal engane-se, a "coisa" começa com ruído e só depois é que acalma (spoiler sorry!), o que não deixa de fascinar para apenas 19 minutos de música desta rodelinha perfeitinha intitulada de Thisturbia!

sábado, 10 de dezembro de 2016

Pipocas Botox Neve Doce

Ricas edições que me chegaram recentemente! Tudo graças ao facto das capas serem feitas pelo Camarada Uránio! Esse monstrinho da colagem bling bling sci-fi moino-mutante! Felizmente a música é bem fixe e pode-se falar dela, ufa...

DW Robertson é a nova personagem de Ergo Phizmiz, um reconhecido ilusionista sonoro que trabalhou com People Like Us, por exemplo. Disco Carousel, vol. 1 é a sua estreia e foi lançado numa pequena editora inglesa, a Discrepant. A segunda coisa mais bonita deste disco depois da capa (claro) é a contra-capa que, à antiga, tem uma sinopse do que se propõe a rodela deste mini-LP. E é música mecânica levada in extremis, apenas porque dizem que esta é a forma de entretenimento mais gratificante de sempre, infelizmente abandonada pelo machismo da electricidade e pelo euro-dance. Eis a alavanca vinilica para isso mudar!

A dupla k7 Samboia Kanguick é mais atinada e cerebral, como os portugueses preferem. O músico é português embora Gonzo soe a marreta anglo-saxónico. Sem sabermos quais os nomes dos temas nem que ordem seguir, é pegar numa das k7 e siga para bingo, ou melhor para "memórias distorcidas da infância & sonhos inventados", diz muito bem a parte detrás da embalagem. Realmente um gajo perde-se a ouvir estes quatro lados das k7s, entre frases cortadas e ambientes oníricos, sem saber muito bem o que pensar. Ao mesmo tempo a música tem corpo presente para quem espera adormecer a ouvir isto. Um corpo de Cristo V.A.L.I.S. que não poder ser ignorado, não foi assim na infância? [Não sabe/ Não responde]

A Discrepant é distribuída pela Matéria-Prima, que já reabriu o seu espaço físico no Porto mas não é uma loja aberta ao público. Infelizmente vai ser preciso agora bater à porta, tipo segredinho da cidade do loúcóst... Mas porquê!?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Estivemos no III Mercado de Música Independente

Tal como já fomos à primeira edição, regressamos a este Mercado de Música Independente na companhia da nossa parceira Thisco, com a qual dividimos a mesa...

Havia poucos concertos atraentes nesta edição, coisas terríveis como os conichas dos Ghosthunt - ou Ghostkunt como passou a ser conhecido nesse dia. O mais ousado ou com atitude foi Scúru Fitchádu, projecto que era impossível de perceber o sonoro real devido à péssima acústica do espaço mas agora que se ouve bem no bandcamp soa a Death Grips a tocarem Funáná!!!

A nível de editoras de música havia uma boa oferta e foi um gastar de dinheiro... Em 2016 a fita magnética é o formato de eleição para se editar música longe do Pop/Rock chato. Seja Harsh Noise (Aló Narcolepsia!) e Metal (Olá Signal Rex!) que sempre mantiveram-se neste formato, a k7 tem dado para outros lados como a música Electrónica e Hip Hop (olé Marvellous Tone!). Entre as editoras mais simpáticas do evento estavam os madeirenses da Casa Amarela que lhes saquei o último exemplo da split'tape Liminal / Aires (pela checa Genot Center) ficando os gajos com menos material na mesa, foi mesmo má onda minha! Ambient / Noise / Field Recording com dinâmica o suficiente para se perceber que ainda se podem fazer coisas sem ser do mesmo. O mesmo não se pode dizer de Twistedfreak e Dragão Inkomodo que não percebi o que era a auto-edição (do Twistedfreak) devido a um confuso design mas entretanto já me disseram que o lado A é um set feito para a Rádio Quântica e ouve-se bem, com um fio vaporwave que gamou o que tinha a gamar ao Zamia Lehmanni e aos Ferraros. Do outro lado é um split com o Dragão Inkomodo e parece um bocado Big Beat à Fatboy Slim mas sem dinâmica. Mais vale ir ouvir Cannibal Corpse! E por falar em Gore,... As imagens do CD Khmer Rouge Survivors : They will kill you, if you cry (Glitterbeat) distribuído pela Megamúsiva em Portugal, mostra como como as capas do pessoal do Harsh Noise são uns meninos! O CD faz uma apanhado de música tradicional que sobreviveu aos Khmer Rouge, uma das maiores forças genocidas que existiu neste planeta em que bastava alguém usar óculos escuros para ser considerado intelectual e como tal abatido, tal era demência destes animais do Camboja. Música que vive de fantasmas e o desconforto de sentirmos "voyeurs" ("écouteurs"?) desta tragédia gigantesca...

Depois disso, o que pensar então de O Mundo Vai Acabar   por evoluir (Aros Art + Big Factory + Fábrica do Som; 2013) de Kapataz? Ou pior, de Lo-fi Hipster Trip (Meifumado; 2015) de Corona?

O primeiro caso é gunaria das Fontainhas (Porto), bairro que irá ser gentrificado quando menos se esperar, o granda bossa do Kapataz sabe disso? Deveria pensar no futuro invés de falar dos seus "beefs" (fictícios? reais? Who cares!?) com os "boys" e o seu amor incondicional com o Hip Hop (grandes beats neste álbum!!!). Pouco mais se aprende aqui como 99% da produção de Hip Hop 'tuga, como sempre, os seus protagonistas não sabem ser realmente sinceros (biográficos) à realidade envolvente - pecadilho que aliás que sofre toda a cultura portuguesa. Kapataz destaca-se do rebanho de padrecos com o seu flow nortenho fodido mas acaba quando os 48 minutos do CD acabam.

O segundo caso, acaba quando limpar a "pen USB" e lá meter música lá à séria como The Soft Pink Truth ou Plus Ultra... Hip Hop cómico que avacalha sem pica, conceito tão mole como uma alheira negra, mais valia não ter sabido que isto existia. Comprei o "disco" porque é uma embalagem de comprimidos com a música, fotos e vídeos dentro de uma "pen" - que parece mesmo um comprimido. E a edição ainda dá direito a uma bula médica! Excelente edição, música de merda! Mas tal como se pode desgravar uma k7 também se pode meter outra música (ou outros ficheiros) nesta "pen", no fundo no fundo, acho que comprei apenas uma "pen" e uma boa ideia de embalagem... Valeu, "Cagona"!