Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta livros. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Vanguarda de baixo

Ena que livrão este de Clemens Marschall: Avant-garde from Below: Transgressive Performance from Iggy Pop to Joe Coleman and GG Allin (Rokko's Adventures; 2016)... Luxuoso (até tem fitinha!), gordinho e com letra grande para não haver desculpas para não o ler por causa da idade da vista. O tijolo questiona o que é a transgressão na Arte usando três figuras radicais da performance "punk" como pontos de referência, de que forma a Arte pode ser criminosa, aonde estão os limites dos artistas quando ameaçam o público e até onde este tipo de Arte pode levar os artistas - o exemplo de GG Allin é sem dúvida o mais extremo. É entrevistada uma série de gente maldita ligada às franjas mais radicais do Punk e da cultura Industrial de forma que faz pensar nisto como um "up-date" à fabulosa Re/Search - em que o próprio editor desta colecção, V. Vale, é entrevistado. As questões são levantadas apenas no território norte-americano mesmo quando os nossos camaradas Alexander Brener & Barbara Shurz sejam referidos.

Como o mundo dá muitas voltas, ficamos a saber que a editora austríaca deste livro vai-nos apoiar no livro do DJ Balli... fixe! Está um bocado atrasado, bem sabemos, mas sairá mais tardar para o próximo mês! Grazie mille DJ Balli & Tasca Mastai

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Novas leituras cosmopolitas

Lisboa e gentrificação? Que cliché! Já se pode falar é mas é de "brasilificação". Cidade dos ricos e cidade dos pobres, a classe média que vá para o raio que a parta! Enquanto isso acontece, o que não faltam são eventos underground e visitas internacionais de ícones da Cultura alternativa como o engraçadinho do Momus (Zaratan) ou dos barulhentos Melt Banana (ZDB). Mais interessante, quanto mim, são os outros doidinhos menos conhecidos, como o neo-zelandês Ron Gallipoli ou o francês Etienne Brunet, que além de músicos mantêm uma actividade literária quase saudável, quase...

Black Lantern : Journal of Tropical-Industrial Art, vol. 2 (Matadouro; 2017) é uma espécie de Antibothis versão fanzine sobre o tema do "Tropical-Industrial". Objecto fragmentado de vários artigos consagrados a essa corrente cultural dos nossos antípodas, que não é muito diferente das ideias já geradas do Post-Punk, Industrial ou Plunderphonics, ou seja, submergir no lixo cultural e desse caos criar alguma ordem artística. Os manifestos e textos que aparecem neste "jornal" são mais poéticos do que funcionais, com algum cheiro de anti-política e a descoberta quase juvenil de uma ética pessoal. Gallipoli é o instigador deste movimento com a ajuda de Colin-Israel Fulgar e outros artistas. A seguir a ascensão e queda desta estética!




Acouphènes Parade (2012) e Parigot (2016) pela Longue Trïne Roll são dois livros modestos em formato e forma mas cheios de raiva e energia de um saxofonista que escreve como se fosse "sex, drugs & rock'nroll", embora o tom seja mais geriátrico, do tipo "transex, copofonia & free jazz". São relatos de sobrevivência para quem a vida lhe corre tudo mal: sofre de tinido - desculpem o mau gosto para este link -, perde o Amor, é difícil arranjar trabalho (quem é que quer ouvir um músico de Free? ainda por cima semi-surdo?) e o mundo que conhece desmorona-se a olhos vistos - sendo parisiense vive de perto os massacres na Charlie Hebdo e no Bataclan. Ao contrário de um "teenager" que provavelmente se suicidaria com tantos infortúnios, Brunet enfrenta o boi pelos cornos, c'est la vie, até porque há mesmo vida depois de explosões seja num ouvido seja num bar. Ainda é possível boémia mesmo sobre um estado policial, pelos vistos. A escrita dele é tão pot-pouri como as suas músicas. Se o Free é o início para Brunet, ele é um músico curioso e que se interessa por várias outras formas - Glitch, Techno, Rock, músicas de África, Ásia ou Balcãs - basta consultar a sua discografia para perceber isso. Na escrita é tão evidente esse seu espírito irrequieto pois escreve crónicas autobiográficas ou ensaios autoficcionados e não vai de modos, acopla ainda poesia visual ou partituras semi-funcionais. Ele que venha mais vezes a Lisboa e que traga destas prosas cortantes.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Livros do contra

Apontamentos rápidos de vários livros de editoras independentes que tenho apanhado por aí...

Tudo indicaria que este seria o livro do ano mas Desobedecer às Indústrias Culturais (Deriva; 2017) de Regina Guimarães desilude. Metade do livro é uma análise acertada às ideias neo-liberais das "indústrias criativas e culturais" e sobre os desastres do Porto sobretudo por causa do merdas do Rui Rio e a gentrificação / disneylização da cidade - fenómeno que está atingir quase todas as cidades no mundo. Mas a outra metade é uma preguiça que só se justifica porque já se sabe que os poetas não curtem trabalhar. Então para encher chouriços Guimarães mete as (poucas) respostas a um questionário que fez a grupos "do contra" que só dizem leviandades para despachá-la. O pior, é que nada é dito COMO desobedecer! Não que um gajo queira uma cartilha de (des)obediência mas pelo menos entender o que fazer num cenário tão complicado em que vivemos. Já se sabe que quem trabalha neste meio independente artístico e cultural (sobre)vive cheio de contradições e paradoxos, justamente por isso é que merecia mais análise e discussão, não basta manda uns bitaites a soar a ressabiado. Shame on tha hippie!


Prosa poética feminista-queer pós-25 de Abril é a forma mais fácil de apresentar Lábio/ Abril (Traveller + Presente; 2015) de Daniel Lourenço - o nosso "agente provocador" quando apresentamos publicamente o livro sobre o Queercore do Camarada REP. Para simplificar ainda mais, ou para ficar mais angustiado, é escrito que foi dito no 25 de Abril que "a revolução não foi feita para prostitutas e homossexuais reivindicarem" - General Galvão de Melo dixit. Com isto, nada melhor que uma revanche literária dedicada a todos que ficaram excluídos da "democracia". Mesmo que se possa dizer que no máximo este bandalho de militar poderia estar ser reaccionário de forma meramente coloquial (seriam as prostitutas os vendidos? e os homossexuais os covardes?), convenhamos, a declaração serve na mesma para posicionar as mulheres e queers num cantinho sossegado e servil em 1974. Sendo data zero da nossa actual sociedade então este servilismo ainda está presente em 1984 ou 2014. Lourenço escreve contra um evento político feito de espingardas e pilas (os standards mentais dos militares) onde nitidamente precisava de mais cus e de conas. Imaginem como seria Portugal se o Mário Soares fosse gaja, o Eanes paneleiro ou o Pinto Balsemão transgender? Teria sido um país bem melhor, sem dúvida...


A Grain of Sound além de ter voltado e continuar a lançar música experimental de qualidade (um dos melhores discos de sempre foi feito por eles - este), agora mete-se nos livros! Já antes - há muito tempo - tinha uma revista em linha, a Sonic Scope Quartely, que mostrava que não brincavam em serviço. Cinza (2016) é um livro de fotografia de Nuno Moita mas para os puristas não será nada disso. As fotografias tiradas entre 2009 e 2016, em viagens a vários continentes, estão sobrepostas umas sobre as outras criando um caldeirão de cinzas que não permite fazer reconhecimentos de lugares ou de situações, como se espera da "realidade" da fotografia. Se calhar o que temos aqui é um livro de "foto-montagem" em que as cidades reais são transformadas em locais dignos do Blade Runner ou Neuromancer. O "cinza" da excelente impressão lembra que esse locais imaginados futuristas (mesmo que distópicos) deram lugar ao deserto do nosso século incapaz de ter uma visão de futuro mesmo que seja só para os próximos cinco minutos. O livro é acompanhado com um CD de Carlos Santos, tão nubloso como livro, sendo impossível não o considerar uma banda sonora. A voz da quarta faixa lembra os manifestos "this" do Rasalasad dos Antibothis... Hum, ladrão que rouba ladrão, mil anos de perdão.

Os portugueses continuam a ser uns broncos no que respeita à imagem. Prova disto é Fátima Kitsch : Outra estética (Fronteira do Caos; 2017) da Camarada Ondina Pires, um livro que deveria ser um "picture book" e não, é uma cagada digital... Depois de tratar do realizador maldito Kenneth Anger e o "rei do rock português" Victor Gomes, este terceiro livro de Ondina é sobre o "merch" que se produz naquele penico chamado Fátima. Para alguns poderá ser considerado oportunista lançar um título assim no ano em que se celebrou, com laivos de ecoterrorismo e acidente social, os 100 anos das revelações alucinadas dos três pastoritos. No entanto, conhecendo a autora, o interesse pelas santinhas de plástico e faiança é genuíno, a Ondina é uma coleccionadora nata, uma "nerd" pelo kitsch mais kitsch - não teria ela sido dos The Great Lesbian Show ou co-autora de fotonovelas com bonecada? Foi uma coincidência cósmica o livro ter saído por esta altura...
Feito de um texto simples e respeitoso, é explicado o kitsch, a criação e fabricação dos objectos de devoção a Fátima e para finalizar deveria ser uma galeria de fotografias da colecção de Ondina mas infelizmente as imagens são colocadas ao molho, mal impressas (impressão digital), com legendas pouco explicativas - aliás, nem são numeradas para indexar as referências no texto - e sobretudo mal-paginado sabe-se lá porquê! É preciso estar a rodar o livro centenas de vez para ver tudo como deve ser. A culpa, parece-me, é pelo facto de ser um "split-book" (de um lado em inglês e de outro em português) e por isso, talvez, os editores não quiseram colocar as imagens por uma ordem de leitura conforme se venha do lado inglês ou do outro. Assim colocaram todas as imagens na horizontal num sentido de quem vem do lado inglês e do outro de quem vem do português tornando-se num caos que dá jus ao nome da editora. É uma pena, este curioso acervo e extravagante conhecimento sobre o mesmo merecia ser melhor tratado. Diria que parece um livro da Paulus mas até estes emissários da ignorância fazem melhor...

Tonto (Ed. Valientes; 2017) é uma compilação de BDs, cartoons e cartazes para concertos punk do mexicano Abraham Diaz que também faz jus ao título... quanto à edição, antes demais, é excelente, o design de La Sanntera (aka, Camarada Lam López) melhora de edição para edição, julgo que se pode dizer que é um dos melhores designers de livros de BD do momento.
O conteúdo é divertido, desenhos porcalhões e tal, o grafismo é como se o estilo do Don Martin (da revista Mad) tivesse sido roubado pelo Vuillemin usando as "falhas" do Gary Pather. Tal como o Mike Diana quando foi para tribunal explicar os seus desenhos mostrou que o que fazia era por necessidade de deitar para fora os horrores da violência que lhe chegava pelos media e pela sociedade, também Diaz reage à ultra-violência da sociedade mexicana e deposita-nos em tanta merda sem sentido que se pode sufocar nela. A diferença entre os dois, é que o primeiro oferece ainda personagens inocentes, em que ainda se pode identificar naqueles bonecos toscos um bocado de humanidade que irá ser posta em prova com o Sade como Júri, em Diaz isso não acontece. Depois de fechar o livro, já não me lembro o que aconteceu de tão horribilis nas suas páginas...

Por fim, Comiczzzt! Rock e Quadrinhos : Possibilidades de Interface (Contato Comunicação; 2015) de Márcio Mário da Paixão Júnior - o granda-boss da Monstro Discos, Voodoo! e festival TRASH - é a sua tese de Mestrado, onde ele procura um interface entre o Rock e a BD.
Livro interessante que peca pelos trejeitos chatos da escrita académica - boooring - e pelo descuido gráfico do livro - nada de grave, como o livro da Ondina, mas percebe-se que quem o fez faltava-lhe amor pela coisa... Aprende-se várias curiosidades culturais no que respeita ao grafismo de discos ou sobre o underground comix dos anos 60, sendo que a procura de Márcio acaba por ir parar ao seu projecto musical, a banda Mechanics, mais concretamente no CD e o livro de BD Música para Antropomorfos de autoria do grande Fábio Zimbres - que assina uma bela capa, estragada pelo logótipo da editora, breargh... É este "making of" que acaba por ser mais incisivo pois se seguiram os "links" desta resenha já perceberam que a Música para Antropomorfos tem um conceito (e bom resultado, faça-se justiça!) muito interessante e híbrido. Food for brain!

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Novas do Turunen


O Marko Turunen é um irrequieto obsessivo autor de BD finlandês, daqueles que faz Arte com uma sistematização, classificação e ordenamento das coisas. É muito raro fazer-se boa arte com calculismo mas não sei porquê ele consegue. Vies de Marko Turunen (Frémok; 2016) é dos seus últimos trabalhos, em que ele se propõe a "biografar" todos os gajos chamados "Marko Turunen" na Finlândia. É claro que essa tarefa é impossível e o motor principal é a própria vida dele, misturada com excertos de vidas públicas (suponho que Turunen andou a recolher perfis na Internet dos outros Markos), com a dele, episódios que passam por Lisboa e os seus conhecidos portugueses, aqui irreconheciveís: eu, Pedro Moura e Nuno Neves (do Serrote). Dividido entre BDs feitas por ele, ou com a sua companheira da altura, Tea Tauriainen, e textos ilustrados, lê-se como um puzzle que tem o seu quê de George Perec e o livro Vida Modo de Usar...




ADHD Sheikki (3 volumes, Daada, Zum Teufel; 2015-17) é ainda mais estranho e perturbador. Um gajo vestido de árabe farta-se de cometer crimes ou acções erradas ou imorais em episódios desconexos, sem cronologia tal como como Turunen faz nas "Vidas de Marko Turunen" ou noutras obras suas - talvez seja uma recolha de histórias que viu ou ouviu em Lahti, conhecida por ser uma cidade de "barra-pesada". Como sempre ele abusa de referências Pop tornando o visual destas BDs uma espécie de território hiper-sexualizado do "Second Life" com toda a má-onda iconoclasta inerente. Ler estes livros soa a islamofobia, o que me perturbou imenso até ser-me desvendado que ler estes livros na Finlândia e fora dela têm significados muito diferentes. "ASHD Sheikki" é baseado numa pessoa real, um doidinho da aldeia, ou melhor, um finlandês dos anos 70/80 que se vestia de Sheik e vendia petróleo. Uma personagem provavelmente que sofria de esquizofrenia, o que explica os episódios absurdos das BDs, que Turunen conheceu e que lhe sempre fascinou. Doidinhos é coisa que não falta na Finlândia, felizmente, para fazer livros geniais como estes que não estão traduzidos noutra língua, sendo a tradução oferecida pelo o autor.

domingo, 28 de maio de 2017

Um Turbo prá Sofia...

Foi o ano mais secante do Festival de BD de Beja, talvez por culpa de uma programção sem risco e subjugada ao mercado nacional, que (boas notícias) cada vez edita mais mas (más notícias) publica obras para crianças, jovens tótós, lolitas-wannabes e velhos "bedófilos". Surpresa agradável que perdoa a seca, o único livro que trouxe de lá: Bizarras (col. Toupeira #10, Bedeteca de Beja; 2017) de Sofia Neto.
Colecção que continua a colecção Lx Comics (da Bedeteca de Lisboa), a Toupeira modestamente tem sido um palco para novos autores e neste número mostra o trabalho mais consistente de Sofia Neto até agora, apesar das boas experiências com os títulos publicados pela Mundo Fantasma. A autora já tem uns 27 anos, idade para ter mais do que juízo, mas ainda procura uma voz própria. Acredito que rapidamente dará um salto, tem dado livro para livro. Formada em BD em Angoulême, ela têm técnica e formação para fazer o que lhe apetecer, topa-se isso pelo total domínio narrativo, o problema é que ainda não estebeleceu os temas de abordagem para a criação de uma Obra. O que faz o trabalho de Sofia ultrapassar muitos autores actuais que ainda não se decidiram entre trabalho comercial ou artístico, é que o seu desenho é expressivo, uma enorme vantagem sem dúvida, mesmo que um dia faça um trabalho qualquer de encomenda tipo "A História do Bill Gates".
Bizarras é uma compilação de várias BDs de duas páginas sem palavras - excepto a última BD - que não tendo ligações entre elas, lêem-se todas de seguida, sem respirar, porque não há títulos ou separadores. Não sei se a autora e/ou editores pensaram nisto conscientemente mas a leitura é bastante musculada porque inicialmente pensa-se que as personagens que desfilam nas várias situações terão alguma ligação. As BDs mostram cenas quotidianas, em esquemas de compensação psicológica, que podem ser patéticas como fatais. Apesar dos ritmos narrativos perfeitos e legibilidade gráfica das BDs, elas deixam sempre o trago de mistério insolúvel, que tem sido a marca principal do trabalho de Sofia. Já a última história próxima de um humor Fluide Glacial ou Jueves, é "gira" mas mancha o que foi feito anteriormente - culpa do uso de texto ou a ideia em si? Certeza absoluta, ela não deixa marcas para dúvidas, mata o "mistério" e torna-se numa vulgar laracha. Tirando a última BD, as outras tem uma figuração elástica que lembra Æon Flux (a série de animação, não o filme idiota) mas essa influência assumida não incomoda de todo, o que incomoda são as pessoas representadas, esse "o Inferno são os outros"...

sábado, 27 de maio de 2017

Série Postal


Que fazer com doze postais em que estão publicadas BDs? Envia-se aos amigos ou guarda-se na colecção caseira? É daqueles dramas, sem dúvida, especialmente quando temos BDs do Pedro Franz (imagem), Paula Puiupo, Taís Koshino, Manzana, Bárbara Malagoli ou Marian Paraízo... Instigados pelo sítio em linha Vitralizado cada mês sai um novo postal - eu já tenho todos e deveria manter segredo, como se tal coisa fosse possível em 2017 - o lote separa-se pela BD tradicional com o eterno sabor brasileiro do humor e pela BD mais experimental e visual - ou seja todos os autoras, e sobretudo autoras, que me dei ao trabalho de referir. Este é o grupo vencedor a todos os níveis, afinal um postal cheio de quadradinhos não é das coisas mais bonitas de se ver. O Franz e a Puiupo souberam dar a volta ao formatinho, ele com texto politizado e ambos com o uso acertado de uma cor só. Se calhar vou guardar estes e enviar os outros postais por correio! Hum... piadinha: o que sentirá a Taís se lhe enviar o seu próprio postal?

Obrigado à Camarada Silveira que me deu a conhecer esta boa iniciativa, que pode ser seguida aqui.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Úlcera e cia.

Ed. autor; 2016?
Adonis Pantazopoulos e Puiupo

Puiupo é Paula Almeida, uma autora de BD portuguesa que foi para o Brasil. Por cá deixou pouco rastro, uma BD no saudoso Lodaçal Comix e outra mais duas ilustrações em Safe Place de André Pereira - aliás, os momentos mais desafiantes desse livro, desculpa lá, André...

Quanto ao gajo brasileiro com nome grego não sei nada dele, só sei que eles complementam-se ao ponto de fazerem este livro que parece Tsutomu Nihei em "crackinho", ou seja, um pseudo-manga sci-fi em decomposição e hermético em que não se sabe lá muito bem quem fez ou quê - será que foi "a quatro mãos" como o Cão Capacho Bósnio ou a dupla Dupuy-Berberian? Não parece mas pouco importa, estamos no campo da poética com mutantes. Estamos quase lá!

Resta dizer que há uma edição em versão inglesa pela Czap Books.


Por falar nesta editora, recebemos alguns dos seus livros. Dispersa em impressão DIY que significa fanzines fotocopiados, livros em impressão digital ou "chapbooks" em risografia, o catálogo é torto nas intenções, ora tontas ora cultas.

Das "tontas" (por terem um cariz popular) é de referir Witchlight (2016) de Jessi Zabarsky, que é um livro que reúne a história pré-publicada em formato zine. Com uma narração "ocidental" tem uma clara influência de "shoujo" ("manga" para miúdas "teens") com teor assumidamente humano imerso no género de "espada & feitiçaria", como os trabalhos de Hayao Miyazaki (influência assumida desde logo). Uma amizade entre duas raparigas numa caminhada (é sempre uma caminhada neste tipo de aventuras) num universo fantástico pode ser uma treta mas Witchlight consegue transpirar simpatia e positividade sem cair em lamechas artificiais nem na exibição de maminhas de feiticeiras ou de repteis sebosos caso fosse feito por um Conan. Ei! Isto é mesmo para miúdas "teens", porque raios li isto? Resposta: porque não me aborreceu nem me ofendeu. Duvido que volte e reler este livro mas não duvido é que o nome desta autora venha a ser ouvido mais vezes no futuro numa grande editora de entretenimento das Américas...

Tal como Witchlight também a colectânea Puppyteeth é impressa em digital dando alguma frieza e pobreza às edições e aos respectivos trabalhos. Ainda se ressente mais esta frieza dado aos "excessos digitais" dos trabalhos por mais sentimentais que eles sejam. Sentir empatia por eles é difícil, há uma distância que o grafismo mantêm, o que é uma pena porque a BD de Jenn Lisa merecia outro tratamento ou recepção.

Neste número quatro, de 2014, temos três norte-americanos e a Puiupo... Curiosamente ela que apresenta o trabalho mais "artificial" - desenhos degradados que parece que foram paridos num programa de desenho antigo - acaba por ser o que resulta melhor como leitura. Mais hermética e pós-moderna, não deixa ponto de segurança num conto que adivinha-se pouco mais do que se pode adivinhar em Úlcera. Como se costuma dizer não vale muito a pena combater fogo com fogo. Puiupo mostra que o que quer é uma chama maior. Conseguiu...

O melhor fica para o fim... os cadernos em risografia Ley Lines é um projecto que existe desde 2014, dedicado a fazer uma intersecção entre BD e a Cultura (sem ser bedéfila, yes!) lembrando imediatamente o excelente livro Playground do argentino Berliac. Os trabalhos justificam o título da colecção com supostos alinhamentos entre vários lugares de interesse geográfico e histórico percorrendo a ficção e o ensaio. Ou até a poesia gráfica de Warren Craghead com Golden Smoke, talvez o livro mais radical da colecção, em forma (o seu grafismo) e conteúdo (uma diatribe com o mercado da Arte). Sendo que a abrangência de temas nesta colecção é enorme, desde artistas como tão distintos como Bas Jan Ader (1942-75) e Egon Schiele (1890-1918) como catedrais góticas dão o mote às narrativas e imagens.

Belos livros graças também à impressão e produção gráfica "quentes". E uma boa lição editorial!

domingo, 22 de janeiro de 2017

El título no corresponder


Martín López Lam
Ed. Valientes; 2016

O que é este livro? Uma residência artística, um livro de viagens, prosa poética (esse "big no no" para quem diz gostar de BD), tudo isto em trilingue (castelhano, italiano e inglês) e quadricromia. Durante o ano de 2016 Lam esteve em Roma ao abrigo de uma residência da Real Academia espanhola e criou este livro que junta todas as obsessões do século XXI como o movimento eterno, o coleccionismo e catalogação, o "random", o "object trouvé" e o "remix". Conta mais do que parece à primeira vista e primeira leitura. Quem conhece Roma sabe que é uma cidade que precisava de ser terraplanada para ter um novo começo - outra obsessão tosca do século XXI, já agora - e para esquecer todas as ruínas dos monumentos que fomentam o seu incrível caos urbano. É uma cidade de tropeções, labirintos, acidentes, anacronismos, sujidade e esconderijos, onde nada funciona e pouco parece interessar à primeira vista para quem a percorre tal é o espírito romano tão prático como nos tempos em que crucificaram o Porto Nazareno.
Fantasmas a vermelho, urina amarela, azuis arquitectónicos e verdes para as ervas que se confundem com os entulhos são as propostas de Lam para uma cidade que não dorme nem deixa dormir, onde tudo é histérico e exausto. El título no corresponder é o epitáfio que Roma merece. Ámen.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Instruction Manual for Lonely Mountains

Silent Army; 2016
Nicola Gunn (a) e MP Fikaris (d)

O pessoal da Austrália é bem maluco e encontrei-me ontem em Lisboa com um casal que fez este livro de BD - e claro que eles conhecem o Sam Wallman, a organização de apoio a refugiados e o Simon Hanselmann, o microcosmos da BD australiana deve ser ainda menor que a portuguesa onde todos fingem-se não conhecer...
Trata-se de uma adaptação para BD de uma peça de teatro que ronda uma reunião de grupo de Protesto Contra a Extinção da Raça Humana. Os "bedófilos" passam a vida a comparar a BD ao Cinema (de merda) e é engraçado que se esqueçam sempre do dos refinados diálogos do Teatro. O que quer dizer que quem lê BD vai mais ao Cinema do que ao Teatro? Sem comentários...
As quatro personagens que são realmente "montanhas solitárias" (e egoístas) demonstram a sua incapacidade de se conciliarem e de se focarem no assunto a que foram chamadas, provam que a Humanidade merece ser extinta. Obrigado aos "aussies" por nos relembrarem isso... Graficamente o desenho é muito simples e abonecado, sendo que há uns estranho apontamentos gráficos que aparecem sem aviso ao longo da narrativa. Pontuam algum sentimento das personagens que não pode aparecer escrito? Curioso...

PS - A imagem deste "post" é uma página do interior do livro, ao que parece este título ainda não foi lançado oficialmente e daí não ter encontrado imagem da capa...

PPS - Entretanto é de referir, que Fikaris é um verdadeiro instigador da cena australiana e edita uma revista, Dailies, cheias de participações daquele continente e vizinhos como a Nova Zelândia, Timor (Alfe Tutuala) ou Indonésia (Oik Wasfuk e Fitri DK).
Impressa a cores em papel jornal, uma das características que a tornam coerente é o facto de quase todas as BDs elegerem temas sociais e pessoais como conteúdo. Não quer dizer que não haja também algum experimentalismo "artsy" ou o humor "b-a-bá". Hanselmann aparece aqui e é um tampão vivo entre as duas possibilidades. Mais claro ainda nas intenções é o jornal Bread & Roses que assume o papel panfletário ao tornar as suas páginas todas em potenciais cartazes que apelam à União e contra a Corrupção. Curiosamente encontra-se lá o nosso Camarada Musturi!

sábado, 29 de outubro de 2016

Já não sou eu que vivo /// MUNDO FANTASMA até 29 de OUTUBRO




It's no longer I that liveth é um livro sobre ter treze anos em 1986. Relata alguns meses na vida de Francisco Ferreira, entre a região de Lisboa e Évora. Francisco Ferreira tem a pior das idades. Uma idade em que o Deus da infância já não existe e não há ainda outro Deus que o substitua. Uma idade em que já não se brinca e ainda não se tem amigos verdadeiros. Uma idade niilista. Uma idade sem nada. Mesmo assim Ferreira descobre qualquer coisa, agarra-se a qualquer coisa.

inaugurou no passado dia 6 de Agosto na Galeria da MUNDO FANTASMA [Shopping Center Brasília Avenida da Boavista, 267 1o. Andar, Loja 509/510, Porto] e estará patente até 29 de Outubro

Francisco Sousa Lobo nasceu em 1973, em Moçambique, e vive entre Londres e Falmouth, no Reino Unido. Estudou primeiro arquitectura, depois arte. Em Londres acabou recentemente um doutoramento em arte, em Goldsmiths. Em Falmouth University ensina na licenciatura de Ilustração. Publicou vários livros de banda desenhada: Câmara Escura (Bedeteca de Lisboa; 2003), O Desenhador Defunto / The Dying Draughtsman (Chili Com Carne; 2013), O Andar de Cima (Ar.Co + Chili Com Carne; 2014), I Like Your Art Much (ed. de Autor; 2015), The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros (Chili Com Carne; 2015) e O Problema Francisco (Gulbenkian; 2015), também publicado em Espanha pela Ediciones Valientes. Prepara agora dois novos livros: Os Quarenta Ladrões (inquérito a artistas e críticos sobre a questão da influência) e Nuvem (sobre a Cartuxa de Évora).

ENTRETANTO:


O novo livro de Francisco Sousa Lobo, co-edição entre a Chili Com Carne e a Mundo Fantasma, não saiu na inauguração, devido a atrasos de impressão - o trabalho afinal é, como sempre com as BDs de Sousa Lobo, extenso... São 88 páginas e a duas cores, o que requer tempo quando se imprime em risografia.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Dead Scene

Aconteceu mais uma Feira Morta este Sábado (na porreira Cinemateca) mas há  poucos motivos de entusiasmo tirando o facto de ter sido uma festa para encontrar amigos e conhecidos logo a seguir às férias, e claro, a visita do Camarada Lam de Valência - um grande artista e editor que parece-me que pouca gente reparou, na típica timidez parva dos portugueses. De resto? Mesma coisa de sempre, promoção fraca, programação paradoxal... E infelizmente, as mesas dos editores e dos artistas têm se apresentado como já há algum tempo em apenas meia-dúzia de folhitas agrafadas que voam muito facilmente quando vêm uma rabanada de vento. O que se passa com os estes ilustradores / autores de BD que pouco fazem? Que produzem ligeirezas? Será impossível de (ser eu a) responder a tal mas o inverso de tudo isto estava a poucos minutos a pé da Cinemateca quando se comemorava o dia de "open studio" na escola MArt. Falo de Rodolfo Mariano que nesse mesmo dia apresentou o seu trabalho enquanto artista residente, onde finalizou e lançou o livro Outro Mundo, Ultra Tumba.

Em formato A4 auto-publicou 44 poderosas páginas, trabalho desenvolvido durante os últimos cinco meses entre Coimbra e Lisboa. Ao que parece, para além dos livros, no "open studio" tinha os originais para consulta/ apresentação e estava disponível para toda e qualquer questão acerca do seu trabalho e projectos que está a desenvolver. Não deveria ser a Morta ser assim ou então o Mariano estar nela? Estamos num mundo às avessas sem dúvida...

Este OMUT é um pequeno colosso gráfico DIY que mostra trabalho, esforço e persistência. Tem uma estrutura clássica de narração, tipo Sherazade ou Os Contos de Canterbury, ou seja, personagens contam histórias uns aos outros ou se preferirem, há histórias dentro de histórias. Neste caso é uma guitarra, uma caveira e três alienígenas a mamarem vinhaça num descampado que vão contando cenas, topam? É o que as pessoas, se fossem ainda humanas, deveriam fazer sempre desligando os smart-phones e o fezesbook...

A "coisa" quase roça para o Heavy Metal fajuto de "Espada & Bruxedo" mas usa calão da streeta para não cair no ridículo. É que ridículo já o é a fantasia e o palavreado do Metal mas como Rodolfo eleva-a ao quadrado, a coisa torna-se airosa de se ler. Ehm... Mesmo assim, admito que adormeci duas vezes ao ler a sua prosa literária mas a desculpa é que além de não perceber nada da exagerada confusão que vai práqui (mete meta-física à Hawkwind acho) e estar-me a cagar para o que está acontecer na realidade (o pós-modernismo não perdoa), o livro tem ainda "power" - é das poucas edições DIY actuais que se não tivesse texto e fosse mais um dos milhares de "graphzines" que andam praí, ainda assim o compraria!

Desenhos lambidos para quem curte o Dark sem homo-erotismo ou folhados à D'Artagnan, grafismo de autista Art Bruteiro (quem viu os originais diz que são maravilhosos!) ou para quem esta em sintonia com o Petit Comitê del Terror e outros monstros pictóricos pela Europa fora. Tem algo de excitante como os primeiros zines de David Soares ou o Carneiro Mal Morto de Rafael Gouveia nos finais dos anos 90, é material negro mas não cheira a mofo. Seja quais as razões que Mariano tem para escrever ou desenhar assim, independente do que transmite ou que o leitor perceba, topa-se que a produção vêm do fundo do seu corpo (da próstata ou do dedo médio do pé tanto faz) e que essa pujança não pode ser apagada nem esquecida. No meio de tanto zines e/ou livros monográficos que pupulam na Morta poucos se erguem e mantêm-se de pé como este pequeno menir impresso do século XXI. Parabéns, meu!

sábado, 24 de setembro de 2016

Lapsos

Inês Estrada
Ed. Valientes; 2016

O Camarada Lam já chegou há dias e arranjou-me a nova produção das Valientes, o seu selo editorial. Trata-se de um romance gráfico da mexicana Inês Estrada, autora que não lhe dava grande credibilidade ou pelo menos achava o hype à sua volta demasiado grande, a começar pelo facto de que escrevia para a Vice, enfim... mas este livro é imprevisível e bonito. Insere-se, desculpem o cliché, no literário "realismo mágico sul-americano" mas temos de pensar que em 2016 o "mágico" é a teoria quântica e todo o fractal científico acoplado.
Numa história simples de jovens mex-punkitos com empregos de merda e vidas complicadas, acontece o imprevisível e acaba com uma moral positiva - tipo a vida afinal é do caraças. Estrada faz com elegância mesmo com o seu desenho tosco e energia narrativa sem nos deixar respirar muito. Obra que pode ser colocada na "Categoria Feminina" de obras termodinâmicas e geracionais como o Love Hole ou a Molly (?)... O livro é impresso a duas cores com o irrepreensível design que as Valientes nos tem sempre oferecido.
Eis mais uma razão para passar HOJE pela Feira Morta onde está lá o editor... Ah! o castelhano mexicano é realmente cheio de expressões pouco habituais para o nosso "portugnol" mas felizmente esta edição tem legendas em inglês para quem não entende "pendejo" ou "guama". Va!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Olha a "concorrência"...





Uma concorrência na cena "indie" portuguesa não passa pelo dinheiro ou dimensão das "empresas" - é o que dá ter um mercado precário. Em compensação a concorrência mostra-se pela qualidade dos trabalhos e das edições apresentadas. Por isso, é mais quem tem a maior pila...
Não! Nem isso! É mais "pipis" e estão tapados... Not so Nude - Nus Vestidos (Serrote; 2016) saiu na mesma altura que o Harvested onde se atiçam as relações (sexuais?) entre Arte e pornografia - isto se quisermos votar as obras da pintura entre os séculos XVI e XX como pornográficas. Mas o autor Neo Nuvens (tem pinta de anagrama, quem será?) acha que sim e maravilhosamente desenhou com umas banais canetas esferográficas um livro que é uma homenagem a Daniele da Volterra - "o pinta-cuecas", odiado pintor maneirista italiano, encarregue de cobrir a genitália das personagens do Juízo Final de Miguel Ângelo na Capela Sistina, com andrajos e folhas de figueira, daí a sua alcunha. O autor deste livro foi além das recomendações do Concílio de Trento (que condenou a nudez na pintura religiosa e que empregou Volterra) e desenhou, a esferográfica, roupa interior em treze nus reclinados da pintura profana. Odaliscas, deusas, ninfas, amantes, prostitutas e esposas, expostas nas paredes de museus famosos, ficaram assim, de um momento para o outro, vestidas com combinações, camisas de dormir, soutiens, cuecas e meias. A única coisa que a edição peca é justamente este texto em itálico que sacamos do sítio oficial da editora não estar algures no livro para contextualizar melhor o trabalho publicado. De resto é bem divertido, menos genial que o Porno-Tapados e mostra que em Portugal há mais malta marota do que se pensa.

domingo, 21 de agosto de 2016

A casa dos 10 000 cadáveres

Tarados coleccionadores e outro animais do livro de artista: querem uma máquina do tempo inesperada? Chama-se 10.000 Humans e é de Maiorca, a ilha com mais talentos gráficos por metro quadrado do mundo - Max, Pere Joan, Alex Fito,... e Lluís Juncosa, a cabeça desta editora.

Entre 1989 e 1994 lançou livros e graphzines e parece que nestes últimos anos lembrou-se de promover o trabalho feito e o "fundo de catálogo". O que significa que quem é fã deste tipo de edições passa a ter acesso a uma pequena máquina do tempo, uma vez que os livros estão em excelente estado passados estes anos todos. É mais impressionante quando são edições agrafadas ou manuais (as serigrafadas) mas não o deixa de ser para os álbuns em offset como o Sutze Atlas (1993) um "atlas visual" na esteira punk / surrealista em que Juncosa foi coleccionando imagens várias, de temas completamente diferentes de nascimentos, freaks da natureza, cadáveres, celebridades ou animais vivissecados, fazendo depois uma montagem dos mesmos em várias páginas numa ordem pessoal que oferecem leituras elípticas sobre as imagens. Um livro fora do "normal" do trabalho deste artista.

Se calhar até é o "normal" dele no que respeita a "universo" mas ele é mais conhecido é pelo desenho. Um catálogo como Frenologia, vol.1: Miss Mallorca Über Alles (Museu de Mallorca; 2007) ou o CD de Comelade e Pinhas dão melhor impressão do que é o seu estilo gráfico e temático. Linhas finas e certeiras com vários elementos dispersos, muita escatologia e mutações corporais tiradas da Interzona fazem parte deste autor e não será à toa que ele tenha editado o número 40 (?) do graphzine Elles sont de sortie


Se há um título emblemático do mundo DIY em França é este "ESDS" de Bruno Richard e Pascal Doury (1956-2001) criado em 1976. Contemporâneo do grupo Bazooka e muito anterior ao Hôpital Brut (do Le Dernier Cri), o ESDS é quase um "template" para tudo o que apareceu depois, sendo a sua influência ainda a ser avaliada. Doury abandonou o projecto algures nos anos 80, passando a ser este o meio de produção de Richard (embora a sua assinatura desaparecesse com a sobreposição da sigla ESDS) e os seus desenhos de sexo e violência em batuta de S/M decadente sacado aos Men's Adventures mais Hardcore. O que não impede que de vez em quando (como neste número) aparecessem desenhos de Gary Panter, Doury, Mark Beyer e Bartolomeu Cabot (não é o Juncosa disfarçado? parece!). Resta saber de quem é a autoria das adoráveis fotografias da capa e contra-capa...

Miserere (1991) é uma colecção de desenhos de Miracoloso, aka Fernando Fuentes, ilustrador que fez parte dos gloriosos anos 80 participando na mítica revista Madriz mas também nos anos 90 na singular Nosostros somos los muertos. Álbum de grande formato, junta desenhos em que não se se sabe o destino deles - seriam ilustrações para outros projectos? trabalhos realizados para o prazer do autor? Sombrio e sujo, alguma temática lembra o Filipe Abranches com as distâncias gráficas pois exploram um imaginário sórdido do século XX com homens e mulheres a fingirem uma normalidade ou a posarem para um retrato quando o meio onde vivem parece podre e negro. Um livro que testemunha mais uma vez a qualidade gráfica que sempre existiu na vizinha Espanha.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Freakarte II

BD e frekalhada é uma união especial, daquelas que fixes, que duram para a vida, até a Chili já aderiu uma vez ou outra ao género (ou será subgénero?). A cena de ler BD freak é que os desenhos vão-te dar tanta vertigem que não vais perceber nada do argumento, embora já se saiba que a história será uma cagada que pouco interessa. Será no desenho que terás (hippi)epifanias embora seja melhor tomar qualquer coisita. É tipo Free Jazz, é para curtir no momento, topas?

Uma das maiores características neste tipo de BD é "a caminhada", tipo, uma personagem vai à descoberta do mundo e sofrerá acontecimentos incríveis a interromper o seu percurso. Fobo de Gabriel Delmas é um desses casos, embora aqui uma lagartixa com arma laser encontre apenas mais uns mutantes sem se perceber a razão de tudo. Os desenhos de Delmas safam a coisa, claro está, o franciú é um cromo cheio de estilo gráfico. Editado pela italiana Hollow Press que tem feito um trabalho incrível no meio "Dark Underground Fantasy Crazy Shit" mas sobretudo tem é um cuidado gráficos com os seus dos livros, como é o caso de Crystal Bone Drive de Tetsunori Tawaraya! Uma BD cheia de mutantes junkies traficantes de orgãos, cuja a acção não se percebe pevas mas também não interessa, é impressa a tinta prateada sobre papel preto. Se os desenhos de Tawaraya já são impressionantes normalmente, ao serem "invertidos" tornam-se ainda mais selvagens e vindos daquele pesadelo que te deixa urina nos lençóis... Resta dizer que volta meia volta mandamos vir livros da Hollow para os nossos sócios ou temos à venda (percam) aqui (toda a esperança).

Acho que nem sei se escrevo correctamente os títulos do doido do Bertoyas... Um é Norak: Le fils de Parzan (Kobé 24?; 2015?) e o outro acho que (acho que!) é Flugblatt #1 (Kobé #25; 2015?) que poderiam ser descritos como o encontro aleatório de papeis numa casa de uma família popular expulsa pela Câmara Municipal do Porto - não é ficção como sabemos o que bem aconteceu há poucos anos atrás. No meio da tralha abandonada antes da bófia ter arrancado as crianças da cama à chapada lá conseguimos fazer uma pilha desses papeis e olha, os gajos curtiam BD! Vamos enpilhando BDs do Tarzan, BDs porno e umas de aventuras, estilo fumetti, onde tudo se mistura seja como for. A ordem dessas BDs está toda trocada, os papeis estão molhados e a tinta da impressão de algumas imagens e palavras passaram para outras páginas... Depois levas para casa, um francês doido aparece-te à meia-noite, leva-te essa pilha de bosta para França, desenha por cima desse caos, reescreve algumas partes e inventa outras, aboneca uma cena, mete uns elementos aleatórios aqui e ali, bem como uma boa dose de nahanha poética e temos obra. Acho que é isso... É genial mas convém usar luvas.


Por fim, temos Binoculars do finlandês Sami Aho, que para dizer a verdade acho que nem se enquadra neste perfil mas vai empurrado, que se lixe. Apesar do ar "artsy" não só não se percebe bem o que se passa por aqui como tem elementos freaks: partidas de jogos (ampliadores da mente, né?), mutações orgânicas, algum non-sense, jogos de óptica (aqueles olhos são afinal mamilos, spoiler, desculpem) e fotografias de animais. É ou não é freak? Editado pela galeria Thee Order ov The Hobohawk (antiga Watdafac) é distribuído em Portugal pela Rough Nough (também organizadora da Pangeia).

Também não merece estar aqui mas como é época de preguiça intelectual - e se os jornais que cobriram cheio de erros a Revisão desculpam-se desta forma porque não posso eu fazer o mesmo? - vai também no mesmo barco o Ping Pong de Amanda Baeza e a filipina Camille Dagal. Mini-zine A6 trata-se de uma "BD de metamorfose" (daí também poder estar neste "post") ou melhor, é um jogo entre duas ilustradoras que vão acrescentando elementos gráficos nos desenhos de uma e da outra (ping pong, topam?), tornando-o em algo narrativo ao jeito de "cadavre exquis". Mucho nice!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Brasil XX

O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 (Narval + Veneta; 2015) é um grande livro: muitas páginas e capa dura, páginas a cores e é um "best of" do que se faz de BD no Brasil... mas são os livros pequenos e modestos que mostram realmente o melhor da BD brasileira. O Fabuloso fica bem numa estante de uma Bedeteca privada ou pública, impressiona os incautos e o melhor do livro é sem dúvida a capa de Luciano Drehmer! Além da falta de mais autoras que é coisa parva - "menina não entra" no clube de BD dos rapazes, pelos vistos - também falta o Camarada Zimbres, que se calhar não entrou porque não tem produzido BD nos últimos tempos (pena!). O resto já se sabe, os autores que tem interesse já os conhecemos há muito tempo: Diego Gerlach, Pedro Franz (que nos visitou recentemente), Marcelo D'Salete (com uma BD de Cumbe, publicado em Portugal), Rafael SicaGuazzelli e mais um bom punhado de outros autores a marcarem a diferença à tirinha humorística, ao humor e outras tretas que compõe o livro... A dinâmica da BD brasileira está em alta e em mutação, o Fabuloso só apanha "a alta" e não "a mutação", não deixando de ser um projecto de se tirar o chapéu por ser um "tour de force" para colocar o Brasil no mapa da BD e/ou para forçar a barra institucional de reconhecimento da BD. Era bom haver algo assim em Portugal se houvesse algum editor com bons critérios...

Mas o verdadeiro raio X dos mutantes brasileiros é nas publicações mais à margem como o Coral da Camarada Taís Koshino ou nos livros que recentemente comprei na loja do Camarada El Pep - no fundo somos todos camaradas. Embora já sejam "velhos" (mais de um ano é velho?) ainda não ficaram desactualizados para serem divulgados neste blogue, como é o caso de Flores (Samba; 2014) de Gabriel Goés. Em formato A5 e a cores, esta BD é uma parábola sobre o mundo moderno, da infância à morte em que a pior parte é o mundo laboral (claro). O existencialismo é aquela amargura à Chris Ware, o que mostra que o Brasil não é só festa, bundinha, sambinha e bola. O pessoal apanha deprês também! Boas Goés! As melhoras! Que a depressão passe...
Feio pra caramba é o Alvo Roco (Vibe Tronxa Comix; 2012) do Diego Gerlach e ainda bem... já chega de tanta coisa bonitinha por aí! Talvez este livrinho A5 seja parte do "work-in-progess" Pinacoderal ou talvez não, não se sabe e se calhar nem o autor sabe. Aqui tudo é drogaria urbana com diálogos de cortar à faca enquanto os desenhos de Gerlach sugam-nos para o seu mundo de distorções e alucinações. O que raios é um agente independente? E a letra "A cabeça de um burocrata / Linda e altiva / Numa bandeja de prata"? Este gajo é o que conheço mais próximo aos primeiros discos d'Os Mutantes. 'Tá lá! E aconselho a ir visitar a lojinha El Pep para sacar estas pérolas.

Topografias não estará lá nas estantes porque acabou de sair. Editada pela Piqui, eis uma resposta indirecta de falta de autoras d'O Fabuloso... Seis maravilhosas autoras entre elas duas conhecidas pelos leitores portugueses se estivessem atentos, a já referida Camarada Taís, e Puiupo, que era mais conhecida por Paula Almeida. Esta antologia A4 impressa a duas cores directas - como O Espelho de Mogli, passe a publicidade - coloca a BD brasileira no século XXI! Escrevo isto não porque existe um tema camuflado de "ficção científica" para as seis BDs/autoras mas justamente pela atitude e forma de abordarem esse tema, com a sensibilidade e inteligência de uma Ursula K. Le Guin. Os raios lazer são enfiados na próstata e vai-se para pequenas ilhas da utopia, havendo até uma relação inesperada entre as BDs de Júlia Balthazar (que abre o livro) e LoveLove6 (que o fecha). Grafismos sérios para um livro à séria. Cuidado com o Piqui!


sábado, 30 de julho de 2016

FACTORY : The Story Behind "Made in Taiwan"

Yang Yu-chi
Slowork; 2014

Fui a Varsóvia em Maio de 2014 mas não comprei nada da Polónia - mentira, comprei um volume da BD infantil Tytus dos anos 70 (creio) que não percebendo nada do polaco não deixa de ser uma peça curiosa de BD psicadélica e a adivinhar a música Industrial! - mas comprei um livro de Hong Kong numa livraria!

É o lado espectacular da Aldeia Global mas que este livro dá-nos o "outro lado", aquele que faz as pessoas com cabeça serem Anti-Globalização. Yu-Chi conta a história laboral da sua mãe e que é a história laboral do "milagre" económico da Formosa, um dos "quatro tigres asiáticos". As pessoas são metamorfoseadas de pinguins (o texto final explica o porquê desta escolha antropomórfica) nesta BD e são mostrados os sacrifícios de uma geração de trabalhadores que deram toda a sua vida no trabalho das fábricas (neste caso para uma fábrica de brinquedos para o Ocidente) e que tudo perdem quando estas mudam-se para outros países com mão-de-obra mais barata ou quando mudam o seu modelo de produção - por exemplo, quando a Formosa optou em investir em produção de tecnologia de ponta, um fabrico que exige outro tipo de mão-de-obra mais especializada...

Edição cuidada com uma sobre-capa em serigrafia, este é o primeiro livro da Slowork, editora que pretende lançar mais "documentários gráficos" sobre daquela parte oriental do mundo. É uma BD estranha pela sua falta de "pureza" autobiográfica, "real", documental ou jornalística para quem espera algo na linha de Joe Sacco, Emmanuel Guilbert ou Aleksandar Zograf. Se calhar está mais próximo do Ivan Brun ou do QCDI #3000 por usar metáforas ou ficção para descrever os horrores do Capitalismo.

Ontem na loja El Pep entre uma cerimónia qualquer que envolve chá tradicional daquelas bandas, inaugurou a exposição desta editora da Formosa, com originais e serigrafias que vale a pena visitar! Creio que estará patente duas semanas, atenção não se esqueçam!!!!

Na loja estão todas as edições da Slowork, algumas delas em serigrafia, versões das edições em offset. O mais curioso destas edições são os tipos de papeis e tipos de tinta que imprimem. São realmente diferentes aquilo que estamos habituados, ou seja, a lógica atravessa o planeta para Oriente sem dúvida,  é impossível ficar indiferente às edições, uma delas como 4/28 AM 4:00 de Chen Che é impressa em papel vegetal a duas cores e protegida por uma cartolina grossa que faz lembrar quase plástico. A BD está integrada na versão offset de Frontline Z.A. (2015), uma antologia com pinta de panfleto sobre movimentos sociais na Formosa. As BDs querem oferecer uma faceta humana para estes movimentos geralmente conotados como subversivos ou "do contra" (ei! estúpidos, esta gente está a lutar por vocês!) pelos meios de informação. Acaba por matar dois coelhos de uma cajadada só porque cumpre o seu objectivo e ainda denuncia mais podres do Capitalismo Global e os governos corruptos - como a RCA que matou milhares de pessoas através da poluição que as suas fábricas produziram.

Outro livro que achei interessante é Halo-Halo Manila (2016?) de Jimmeh Aitch, um autor filipino que ficou fascinado (quem não fica?) com Robert Crumb, Joe Sacco e Harvey Pekar - e sente-se as influências deles. Muito menos talentoso que estes três "Monstros da BD" (Monsters of Rock?) Aitch tenta mostrar um país, que assim à distância, parece ser um caos demográfico, político, ecológico e tudo mais. São várias BDs que vivem mais das boas intenções do autor do que o talento e técnica. Não deixa de ter bons momentos, claro, quando desmonta o que é o nacionalismo ou pelo facto dos bófias serem representados por porcos - é incrível como o polícia é um animal universal!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Metal

Se calhar já não se sabe o que quer dizer metaleiro há muito tempo. E quando se vê estas publicações fica-se ainda mais à toa... Aquilo que era uma tribo urbana muito bem definida até aos anos 90 deixou-o de o ser porque, tal como todos os géneros musicais, fragmentou-se em mil sub-géneros. Metal, será a guitarra em distorção e temática obscura? Música à abrir e espírito Rock do excesso? Música para 10 000 cabeças tocado num palco gigante ou uma k7 limitada a 10 noruegueses broncos? Tudo isto ou nada disso?


O que dizer sobre Metal do Olho do Cú? Para além de começar mal como frase, este zine "old school" é mesmo "old" porque é feita por velhotes quarentões que se calhar não fizeram um fanzine assim quando tinham 16 anos. Seria a idade certa para fazer esta javardeira... e no entanto... Torna-se realmente divertido em 2016 ter em papel meia-dúzia de fotocópias A5 um humor de ir ao cuzinho S/M. O gesto é completamente anacrónico, a lembrar outras situações como o Bom Apetite de João Marçal e Miguel Carneiro. Tem graça de tão deslocado de tudo, seja do mundo da BD seja do comércio, é lançado nos festivais de Metal que abundam pelo país, daí que a maior parte das BDs e cartoons sejam ligados ao Metal e alguns dos seus cromos - como um dos irmãos Veiga, organizadores de Barroselas que aparece como "Ramboselas", herói de todo o metaleiro em perigo. De forma geral, este zine encaixa-se na nova tendência do Metal ter deixado o lado político ou sério, para entrar numa onda de curte non-sense, ao nível de Enapá 2000, como são as bandas Grind Vizir ou Serrabulho. Talvez porque alguns dos sub-géneros do Metal chegaram a um limite estético onde pouco poderão avançar, então decidiram voltar atrás, à parvoíce da juventude mesmo sendo muitos cotinhas - no #3 até lhes enviei um desenho rejeitado por uma banda punk. Síndroma de Peter Pan escarrapachado mas o que se pode fazer com música Pop/Rock? Sempre foi juvenil... Ainda assim, o Metal como festa pagã e de idolatria, quando não está alinhado à cultura "normal", é de salutar pois acredito que cada um de nós deve inventar o seu próprio Carnaval, os seus próprios rituais, media e tudo mais. É disto do que se trata quando se fala do Olho do Cú. Muito sinceramente, quem quer saber dos Gatos Fedorentos (essa cambada de vendidos)?

Iconolatry (Universal Tongue; 2016) de André Coelho saiu num festival de Metal em Junho e trata-se de um portfólio de imagens de Coelho feitas para bandas e os seus discos ou eventos de Metal - e algum para o Punk e o Industrial. As ilustrações foram libertas do espartilho do design dos produtos a que se destinavam, deixado-as assim respirar com mais força e evitando o livro de se tornar num catálogo de vendas.
Não deixa de mostrar que existe todo um mercado - um nicho, como os merdas dos tecnocratas chamam - em que até há um artista português que preenche os requisitos, ao ponto de estarmos perante até de uma profissionalização do mesmo nesse "nicho". Mesmo quando se vê muito imaginário que lembra Barry Windsor-Smith (o primeiro desenhador do Conan nos anos 70) para além de muitos bodes 666, bárbaros vikings, caveiras & machados & bigornas, gajas podres de boas (muitas vezes só podres), repteis sebosos (e não falamos das escaramuças públicas do PCPT/MRPP), simbologia alquímica e esotérica para quem nunca viu o palhaçito do Crowley, não deixa de haver força e energia nas imagens (zeus, é isso que define o Metal?). Ou seja, lá porque Coelho trabalhe muito não quer dizer que o material não passe a esmorecer e a vulgarizar. O que o livro mostra é que o Coelho tem garra - resta saber que tipo de garra de águia ou de grifo?

domingo, 17 de julho de 2016

Pior que as drogas duras é o Santana Lopes

Fortopìa : Storie D'amore e d'autogestione
v/a
Forte Pressa; 2016

Há 30 anos que existe o Forte Prenestino CSOA em Roma. Desde 1 de Maio de 1986 que este forte militar do século XIX, situado nos subúrbios de Roma, foi "okupado" e transformado num centro cultural único na Europa. Não é brincadeira, merecia comemoração à séria e foi o que fizeram, montaram um livrão com centenas de testemunhos de pessoas que viveram e fizeram lá coisas - como o famoso Festival Crack.
Redigido em italiano e com 440 páginas merece uma leitura atenta para perceber como foi possível sobreviver estas três décadas. Ao contrário de Portugal cujas últimas casas "okupadas" foram destruídas maioritariamente por governos autárquicos PSD - Casa da Praça de Espanha / Santana Lopes (já para não falar dos Artistas Unidos no Bairro Alto...), Es.Col.A / Rui "fdp" Rio e a S.P.C.C. / António Costa (com Sócrates também com culpa indirecta). Falo daquelas que tinham um programa sério, não das "okupas" para simples habitação (o que não é nada uma situação desprezível!) em que infelizmente transformavam-se rapidamente em antros de drogaria pesada - inevitável, afinal os poucos punks portugueses que existiam com ganas para acções deste tipo eram poucos e os seus aliados mais próximos, os punks de rua, estavam ser dizimados pela heroína nos anos 90.
"Okupa e resiste" é a máxima de quem pega num prédio abandonado, o Forte Prenestino é uma resistência ao Capitalismo selvagem. Por lá já passaram milhares de gerações de pessoas, ora para procurar um abrigo, para tocar ou fazer algo que não seja exploratório, racista e sexista. Se a Utopia foi originalmente descrita como uma ilha, em 2016 ela poderia ser pensada como um Forte. Bravissimo, amichi!

terça-feira, 31 de maio de 2016

Gaijas Comix

No Graf de Barcelona encontramos a gaja do Meu Namorado Cavalo, que não assina os trabalhos numa anonimato bizarro em que a série de BD e autora são homónimas: Mi Novio Caballo. Lançava o seu segundo livro Aventuras en el Asteroide, 90 e tal páginas quadradas de alucinação naíf da autora e o seu namorado pelo mundo das traições, do mar e do espaço.
Se nos fanzines que já se tinha aqui escrito resultava bem devido à estranheza de um cavalo em situações rotineiras, quando a estranheza soma-se a mais bizarria, o cavalo perde tesão... Não deixa de ser admirável o esforço feito mas parece que é preciso mais garra para não parecer apenas tolo...

Mais poéticas são Klari Moreno e Andrea Ganuza Santafé com os seus zines / chapbooks. A primeira tem uma linha frágil ora para mostrar ambientes bucólicos como Origen, nudo y origen (La Malvada; 2015) como para manifestar Relacionarse muy duro (La Malvada; 2016). Roça o freak mas tem boa pinta. A segunda é mais vulgar no traço e na exibição, aliás o seu fanzine chama-se Puta Mierda (Morboso y Mohoso; 2015) por alguma razão... Conta autobiografias, masturbações e mistura desenho e fotografia para tudo ser mais realista. É uma sem-vergonha! Como é sabido por todos, as espanholas são umas badalhocas!

Não conhecia a Conundrum do Canadá, casa editorial de autores como Chi Hoi, Igor Hofbauer (Prison Stories), David Collier ou Richard Suicide (ver Mutate & Survive) e uma centena de canadianas como Elisabeth Belliveau ou Kat Verhoeven. O livro One year in America da primeira autora deixa-me frio mesmo que seja um diário de um ano da vida da autora ou é porque ela desenha como uma sopeira ou porque é "arte contemporânea", tanto faz... Towerkind é mais funcional e ganha logo o coração devido ao reduzido formato do livro - um fofinho A6! Infelizmente um bom princípio que daria para uma grande história - um "guetho" em Toronto com milhares de emigrantes que falam 150 línguas diferentes - não vai longe. Verhoeven faz homenagem ao sítio mas parece que nunca entrou numa casa de um emigrante ou que tenha convivido com alguém de lá. Parece antes uma exploração da miséria com pitadas de "realismo mágico" que está tanto na berra no mundo hipster da BD...

Aporia (2015) de Sallim é um zine desta música e artista que publica uma BD que se confunde com Poesia visual e vice-versa, de desenhos e escrita simples para quem curte de crise existencial juvenil. Há de lhe passar mas espero que faça mais "coisas" destas num futuro qualquer, seria muito interessante ver mais evoluções desta autora, que também tem uma série de títulos com colagens...

Parece que "zine" para as novas gerações significa "chap book" ou "livrinho" ou "livro de autor". O conceito de serialização passa ao lado, e mais ainda o zine enquanto esforço colectivo. O individualismo impera para o melhor e para o pior porque quando se lança numa publicação a solo, tudo o que é bom ou mau virá ao de cima sem perdão ou hipótese de camuflar entre mais outras páginas de outros autores. Da Joana Teixeira e da Joana Éfe espera-se mais de Viúva (2015) e Starman (2016) respectivamente. No primeiro caso porque espera-se a continuação de algo que sabe a pouco e no segundo porque nem se sabe se há continuação sequer... No lado oposto está a "nossa" Sofia Neto que com Down Below e Eco (Mundo Fantasma; 2015-16) prova que tem tudo para ser ou uma grande autora de BD comercial ou uma grande autora de BD ponto final. Down Below aliás parece uma metáfora para essa dúvida inútil se deve ser "underground" ou não, quando se assiste o "avatar" da autora trabalha como inspectora de sedes marítimas abaixo do nível do mar a ser enganada... Hum... Eco é um "slice-of-neo-gótico" impresso a branco sobre papel negro confirmando o que já se sabia, que a produção gráfica da Mundo Fantasma é para além do excelente.

Por fim, para desenjoar de todos estes monográficos solipsistas eis o regresso de Durty Kat, o número 10, da Camarada Ana Ribeiro que faz com as interrupções da vida este fanzine desde os finais dos anos 90. Prova que fazer zines não é um estágio de emprego mas um modo de vida. Talvez seja o zine mais imperfeito de todos aqui relatados mas é aquele que me dá mais prazer ler e ânsia ao receber por correio, especialmente quando este número é dedicado a delírios religiosos - justificando assim a inesperada participação de Francisco Sousa Lobo. O Durtykat deixou de ser um "perzine" de Ribeiro para abrir portas a mais colaboradores e tem uma saudável fórmula de misturar poesia, desenho, BD e fotografia. Caguei, chamem-me de velho...