sábado, 30 de julho de 2016

FACTORY : The Story Behind "Made in Taiwan"

Yang Yu-chi
Slowork; 2014

Fui a Varsóvia em Maio de 2014 mas não comprei nada da Polónia - mentira, comprei um volume da BD infantil Tytus dos anos 70 (creio) que não percebendo nada do polaco não deixa de ser uma peça curiosa de BD psicadélica e a adivinhar a música Industrial! - mas comprei um livro de Hong Kong numa livraria!

É o lado espectacular da Aldeia Global mas que este livro dá-nos o "outro lado", aquele que faz as pessoas com cabeça serem Anti-Globalização. Yu-Chi conta a história laboral da sua mãe e que é a história laboral do "milagre" económico da Formosa, um dos "quatro tigres asiáticos". As pessoas são metamorfoseadas de pinguins (o texto final explica o porquê desta escolha antropomórfica) nesta BD e são mostrados os sacrifícios de uma geração de trabalhadores que deram toda a sua vida no trabalho das fábricas (neste caso para uma fábrica de brinquedos para o Ocidente) e que tudo perdem quando estas mudam-se para outros países com mão-de-obra mais barata ou quando mudam o seu modelo de produção - por exemplo, quando a Formosa optou em investir em produção de tecnologia de ponta, um fabrico que exige outro tipo de mão-de-obra mais especializada...

Edição cuidada com uma sobre-capa em serigrafia, este é o primeiro livro da Slowork, editora que pretende lançar mais "documentários gráficos" sobre daquela parte oriental do mundo. É uma BD estranha pela sua falta de "pureza" autobiográfica, "real", documental ou jornalística para quem espera algo na linha de Joe Sacco, Emmanuel Guilbert ou Aleksandar Zograf. Se calhar está mais próximo do Ivan Brun ou do QCDI #3000 por usar metáforas ou ficção para descrever os horrores do Capitalismo.

Ontem na loja El Pep entre uma cerimónia qualquer que envolve chá tradicional daquelas bandas, inaugurou a exposição desta editora da Formosa, com originais e serigrafias que vale a pena visitar! Creio que estará patente duas semanas, atenção não se esqueçam!!!!

Na loja estão todas as edições da Slowork, algumas delas em serigrafia, versões das edições em offset. O mais curioso destas edições são os tipos de papeis e tipos de tinta que imprimem. São realmente diferentes aquilo que estamos habituados, ou seja, a lógica atravessa o planeta para Oriente sem dúvida,  é impossível ficar indiferente às edições, uma delas como 4/28 AM 4:00 de Chen Che é impressa em papel vegetal a duas cores e protegida por uma cartolina grossa que faz lembrar quase plástico. A BD está integrada na versão offset de Frontline Z.A. (2015), uma antologia com pinta de panfleto sobre movimentos sociais na Formosa. As BDs querem oferecer uma faceta humana para estes movimentos geralmente conotados como subversivos ou "do contra" (ei! estúpidos, esta gente está a lutar por vocês!) pelos meios de informação. Acaba por matar dois coelhos de uma cajadada só porque cumpre o seu objectivo e ainda denuncia mais podres do Capitalismo Global e os governos corruptos - como a RCA que matou milhares de pessoas através da poluição que as suas fábricas produziram.

Outro livro que achei interessante é Halo-Halo Manila (2016?) de Jimmeh Aitch, um autor filipino que ficou fascinado (quem não fica?) com Robert Crumb, Joe Sacco e Harvey Pekar - e sente-se as influências deles. Muito menos talentoso que estes três "Monstros da BD" (Monsters of Rock?) Aitch tenta mostrar um país, que assim à distância, parece ser um caos demográfico, político, ecológico e tudo mais. São várias BDs que vivem mais das boas intenções do autor do que o talento e técnica. Não deixa de ter bons momentos, claro, quando desmonta o que é o nacionalismo ou pelo facto dos bófias serem representados por porcos - é incrível como o polícia é um animal universal!

ccc é por cerveja, cães e chacras, vamos lá afinal!


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Metal

Se calhar já não se sabe o que quer dizer metaleiro há muito tempo. E quando se vê estas publicações fica-se ainda mais à toa... Aquilo que era uma tribo urbana muito bem definida até aos anos 90 deixou-o de o ser porque, tal como todos os géneros musicais, fragmentou-se em mil sub-géneros. Metal, será a guitarra em distorção e temática obscura? Música à abrir e espírito Rock do excesso? Música para 10 000 cabeças tocado num palco gigante ou uma k7 limitada a 10 noruegueses broncos? Tudo isto ou nada disso?


O que dizer sobre Metal do Olho do Cú? Para além de começar mal como frase, este zine "old school" é mesmo "old" porque é feita por velhotes quarentões que se calhar não fizeram um fanzine assim quando tinham 16 anos. Seria a idade certa para fazer esta javardeira... e no entanto... Torna-se realmente divertido em 2016 ter em papel meia-dúzia de fotocópias A5 um humor de ir ao cuzinho S/M. O gesto é completamente anacrónico, a lembrar outras situações como o Bom Apetite de João Marçal e Miguel Carneiro. Tem graça de tão deslocado de tudo, seja do mundo da BD seja do comércio, é lançado nos festivais de Metal que abundam pelo país, daí que a maior parte das BDs e cartoons sejam ligados ao Metal e alguns dos seus cromos - como um dos irmãos Veiga, organizadores de Barroselas que aparece como "Ramboselas", herói de todo o metaleiro em perigo. De forma geral, este zine encaixa-se na nova tendência do Metal ter deixado o lado político ou sério, para entrar numa onda de curte non-sense, ao nível de Enapá 2000, como são as bandas Grind Vizir ou Serrabulho. Talvez porque alguns dos sub-géneros do Metal chegaram a um limite estético onde pouco poderão avançar, então decidiram voltar atrás, à parvoíce da juventude mesmo sendo muitos cotinhas - no #3 até lhes enviei um desenho rejeitado por uma banda punk. Síndroma de Peter Pan escarrapachado mas o que se pode fazer com música Pop/Rock? Sempre foi juvenil... Ainda assim, o Metal como festa pagã e de idolatria, quando não está alinhado à cultura "normal", é de salutar pois acredito que cada um de nós deve inventar o seu próprio Carnaval, os seus próprios rituais, media e tudo mais. É disto do que se trata quando se fala do Olho do Cú. Muito sinceramente, quem quer saber dos Gatos Fedorentos (essa cambada de vendidos)?

Iconolatry (Universal Tongue; 2016) de André Coelho saiu num festival de Metal em Junho e trata-se de um portfólio de imagens de Coelho feitas para bandas e os seus discos ou eventos de Metal - e algum para o Punk e o Industrial. As ilustrações foram libertas do espartilho do design dos produtos a que se destinavam, deixado-as assim respirar com mais força e evitando o livro de se tornar num catálogo de vendas.
Não deixa de mostrar que existe todo um mercado - um nicho, como os merdas dos tecnocratas chamam - em que até há um artista português que preenche os requisitos, ao ponto de estarmos perante até de uma profissionalização do mesmo nesse "nicho". Mesmo quando se vê muito imaginário que lembra Barry Windsor-Smith (o primeiro desenhador do Conan nos anos 70) para além de muitos bodes 666, bárbaros vikings, caveiras & machados & bigornas, gajas podres de boas (muitas vezes só podres), repteis sebosos (e não falamos das escaramuças públicas do PCPT/MRPP), simbologia alquímica e esotérica para quem nunca viu o palhaçito do Crowley, não deixa de haver força e energia nas imagens (zeus, é isso que define o Metal?). Ou seja, lá porque Coelho trabalhe muito não quer dizer que o material não passe a esmorecer e a vulgarizar. O que o livro mostra é que o Coelho tem garra - resta saber que tipo de garra de águia ou de grifo?

sábado, 23 de julho de 2016

necro.666.milhões

cartaz de Kimkiduk

 co-organizada pela
Chili Com Carne e a Signal Rex,
 regressa às origens: 

Atenção bêbados do caralho:
o Taina este ano mudou de localização 
- peçam direcções a alguém com melhor aspecto de que vocês... 

23 e 24 de JULHO, 
Sábado e Domingo, 
naqueles dias quando já estiveres cheio de chatos e pedras nos rins, 
vem masé relaxar e comprar edições cheias de vida e frescura intelectual. 
Só entre as 15h e as 20h...

Os melhores zines, BD, discos, livros, k7's do underground!
Vindos das seguintes entidades:
Chili Com Carne, Gato Mariano, MMMNNNRRRG, Signal Rex e Xavier Almeida
...
Não, não são banhadas! 
Isso é nos outros festivais...
E levem guito porque não há Multibanco nem se aceita paypal ou cheques mesmo visados.
...
Haja paciência!

Lourinhã indie


sexta-feira, 22 de julho de 2016

Fezesbook


Apesar da bíblia fatalista (redundância, qualquer texto sagrado é fatalista) Retromania de Simon Reynolds insistir na impossibilidade de novas revoluções na música e que assistimos a mera combinações e fusões de estilos de música devido à enorme mediateca que o século XX e XXI criou. Pode ser até verdade mas talvez fosse altura de assumir o "mutant dancefloor" (cito DJ Balli) como o denominador comum e/ou unificador que pode trazer à baila projectos tão diferentes em coordenadas geográficas, estéticas, sonoras e logísticas como Putan Club, Sly & Familly Drone, The Ex com Getachew Mekuria, Golden Teacher, Älforjs, 10 000 Russos, Albatre, Kufuki, Bernardo Devlin, HHY & Macumbas, Sektor 304 / Le Syndicat (o disco), Jazz Iguanas, DJ V/A, Lace Bows...
Ontem apareceu mais um grupo para meter neste saco de incongruências, apareceu é como quem diz, vi eu ontem um concerto dos noruegueses Ich Bin N!ntendo - e que vão tocar nos próximo 3 dias pelo país, Milhões incluído. Imaginem uns putos a lembrar The Fall mas com a segurança técnica de quem veio do Free/Noise/Improv, ou seja, fazem um post-punk tão certeiro mesmo quando passaram o tempo inteiro a improvisar... Vê-los a tocar é o "must", cheios de trejeitos do Rock mas com a energia necessária para não deixar ninguém indiferente - o baixo deles é letal! Em disco parece mais histérico e rápido do que ao vivo mas admito que ainda não tive tempo para respirar e pensar muito no assunto. Ah! falo de Lykke lançado pela portuguesa Shhpuma. Mas ide aos concertos primeiro... depois falamos.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Falta de visão...

Uma BD de Isabel Lobinho na Revisão
Esquecimento pequeno, nada de grave, mas que merece rectificação: esqueci-me nos "Chaimites de pensamento" (o editorial do livro Revisão) de referir que não foi só os álbuns de BD dos anos 70, Wanya e Eternus 9 que tiveram reedições no Novo Milénio. Como sabem reeditar BD em Portugal é um caso raro para um mercado livreiro que não quer saber da BD para nada... Também aconteceu, e antes dos citados, com o Mário e Isabel, um álbum de 1975 editado pela Forja para uma colecção Erótica mas que só teve este volume. Este álbum é uma leitura em BD de Isabel Lobinho dos textos surreais de Mário-Henrique Leiria. A reedição nos Cadernos Moura BD (#3) em 2002, infelizmente tinha uma má impressão apesar da boa-vontade dos seus responsáveis.
Por fim resta dizer que a Chili Com Carne chegou a ter, durante este último ano, algumas cópias deste livro, aliás, a edição original em excelente estado - qual máquina do tempo! - assinados e numerados pela autora.

domingo, 17 de julho de 2016

Pior que as drogas duras é o Santana Lopes

Fortopìa : Storie D'amore e d'autogestione
v/a
Forte Pressa; 2016

Há 30 anos que existe o Forte Prenestino CSOA em Roma. Desde 1 de Maio de 1986 que este forte militar do século XIX, situado nos subúrbios de Roma, foi "okupado" e transformado num centro cultural único na Europa. Não é brincadeira, merecia comemoração à séria e foi o que fizeram, montaram um livrão com centenas de testemunhos de pessoas que viveram e fizeram lá coisas - como o famoso Festival Crack.
Redigido em italiano e com 440 páginas merece uma leitura atenta para perceber como foi possível sobreviver estas três décadas. Ao contrário de Portugal cujas últimas casas "okupadas" foram destruídas maioritariamente por governos autárquicos PSD - Casa da Praça de Espanha / Santana Lopes (já para não falar dos Artistas Unidos no Bairro Alto...), Es.Col.A / Rui "fdp" Rio e a S.P.C.C. / António Costa (com Sócrates também com culpa indirecta). Falo daquelas que tinham um programa sério, não das "okupas" para simples habitação (o que não é nada uma situação desprezível!) em que infelizmente transformavam-se rapidamente em antros de drogaria pesada - inevitável, afinal os poucos punks portugueses que existiam com ganas para acções deste tipo eram poucos e os seus aliados mais próximos, os punks de rua, estavam ser dizimados pela heroína nos anos 90.
"Okupa e resiste" é a máxima de quem pega num prédio abandonado, o Forte Prenestino é uma resistência ao Capitalismo selvagem. Por lá já passaram milhares de gerações de pessoas, ora para procurar um abrigo, para tocar ou fazer algo que não seja exploratório, racista e sexista. Se a Utopia foi originalmente descrita como uma ilha, em 2016 ela poderia ser pensada como um Forte. Bravissimo, amichi!

sábado, 16 de julho de 2016

Zás-trás!

Há sempre uma coisa fixe nos putos - duas! A primeira é que mesmo quando "tudo já foi inventado" eles arranjam sempre algo de novo para irritar os mais velhos e graças a isso mostram que o mundo não está morto.
Simão Simões (come on!? é mesmo o teu nome?) é desses casos. O seu primeiro disco Za! (auto-edição; 2015) é uma verdadeira aventura nos seus poucos 22 minutos de duração. Começa por samplar uma criança a "chorar", o que é logo um indício que isto vai ser um terror sonoro - tal como acontece quando Dave Phillips sampla os seus cães raivosos - e avança em nove andamentos (que pretensão!) numa mutação progressiva e excitante. Entre a música Drone, Pop estragada e Improv de caloiro, SS elabora distorção inteligente com um estilo descomprometido - é natural, acho que ele deve ter menos de 18 anos... Só peca pela embalagem do CD-R que é das coisas menos inspiradas que já vi!