A minha excitação de saber que passadas duas décadas ia haver finalmente e outra vez um fanzine dedicado à reflexão sobre a Banda Desenhada, tornou-se inversamente proporcional à desilusão da sua leitura. Acho o Artifício #1 (Goteira; Mar'26) tão desapontante que esta resenha podia já estar acabada com apenas com estas duas frases. No entanto, dado ao excesso de solipsismo e fofura das autorias da publicação, acho que explicarei porquê...
Quem escreve no Artifício já são pessoas maiores, vacinadas, com mais de 25 anos - tirando a Emília Silva (mas que frequenta o ensino universitário) - e por isso tem a obrigação de serem mais críticas e exigentes em relação a tudo que escrevam. Ora o que se tem nas mãos é um "diário de uma adolescente" que não diz por quem está apaixonada com medo que o diário vá parar às mãos erradas. Por exemplo, o facto da BDteca de Viseu ser um depósito de livros de um "bedófilo" que usa um espaço público para ter lá a sua colecção intocável (os leitores não podem fazer empréstimo domiciliário) passa ao lado da Biakosta que prefere falar do pequeno almoço do hotel quando esteve presente no Encontro Nacional de Bedetecas, em Viseu no Maio passado. Os nomes da Chili Com Carne (e outras editoras? quais?), a minha pessoa (apesar de ter sido retratado) e a do italiano Andrea Bruno não são referidas na "BD-ensaio" de Emília Silva apesar de ela nos aludir, porquê? Não é questão de ego que reclamo aqui a minha identificação ou dos meus projectos que estou envolvido (Chili) ou dos meus amigos (o Andrea) mas se Silva quer comunicar, divulgar e expandir para as pessoas fora deste meio que "não é tão grande como lhe parecia" (as palavras são dela) então porque não refere ipso facto o que é o quê ou quem é quem?
O que é que interessa o orçamento do evento Miragem descrito pela Amargo? Que eu saiba a Goteira não roubou dinheiro (ao contrário do que deve ter acontecido com os três anos de obras da Bedeteca de Lisboa pela Junta dos Olivais) para estar a fazer estas contas públicas. Nem é o dinheiro que faz com que os artistas ou os organizadores DIY deixem de fazer coisas, especialmente porque neste meio existe solidariedade e respeito pelos pares - o dinheiro não traz felicidade, é o que se diz por aí, agora, discutir ideias e criticar trabalho isso sim, trás mais-valia para a cabeça. Por isso, em contrapartida à aula de contabilidade, ficou de fora a possibilidade dela descrever a excelente programação que a Goteira fez nesse evento. Não saberemos quão importante foi ver as performances do Luís Barreto ou da Mariana Pita, como eles fizeram o interface entre BD e música e como isso foi de longe mais divertido e interessante que aquelas punhetas dos desenhos ao vivo com bandinha a tocar que se vê em Angoulême ou em Beja. zzzzzzzzzzzzzzzzzzz E quem é a "Rosa" e o "Marcos", doce Amargo? "Amiguinhos" que vos arranjaram guita? Ou dois profissionais que tem apelidos e que já fizeram programação importante neste país e lá fora que vos convidaram para fazer o melhor evento de BD autoral de 2025? Ou achas que já toda a gente sabe quem eles são? Serão os leitores da Artifício exclusivamente gajos da BD que sabem de tudo deste gueto cultural ou são potenciais novos leitores sem vícios? Ou as editoras deste fanzine invocarão a desculpa é que com um dedinho no "smartphone" ficas logo a saber o que não se escreveu correctamente no fanzine? Nenhuma das opções me parecem saudáveis a qualquer nível.
Da Ucrânia onde Ana Margarida Matos esteve - "sim, ainda se pensa em BD e ilustração em plena invasão" - nada se transmite de lá: organizações, situações ou artistas para conhecermos a realidade deste país invadido. A Matos foi mesmo lá? Até fico desconfiado se não é "fake news"... Por alguma vergonha alheia não conseguiu escrever alguma coisa horrível que sentiu lá? Se não tem essa desculpa então deixou a malta da cena gráfica ucraniana ao abandono, o que me parece desonesto, pobre e egoísta. O texto da Rita Mota é igualmente inútil mas fiquei a saber que trabalho deverei colocar numa parede húmida...
O Dyscomica seria o escritor que poderia fazer mais contacto com o "exterior" (leitores que não sabem quem é o Farrajota ou a Barreto, por exemplo) ao escrever pequenas resenhas sobre livros de BD (quase todos eles bons) mas esqueceu-se dos nomes das editoras (um marco de qualidade para quem não tem referências!), anos de publicação (os livros serão geração espontânea ou intemporais?), uma dica sobre onde arranjar os livros (ou esta gente consome tudo da Amazon sem um pingo de consciência social?),... e é imperdoável que alguém escreva sobre o Imai Arata sem referir que o seu segundo livro que foi publicado em Portugal. Novamente, não é por ser edição da Chili Com Carne (com a Sendai) que chamo a atenção a isto mas porque é um autor desconhecido (até no Japão) e não é todos os dias que autores fora do sistema comercial são publicados em Portugal - se até o Chester Brown alguma vez fosse publicado cá pela Levoir acho que ia até fazer um stencil a dizer "Leiam Chester Brown" e bombá-lo por Lisboa inteira para comemorar isso.
Os textos em geral lembram-me o que a Joana Mosi escrevia o seu "blogue" - Estante da Mosi - em 2014 ou coisa que o valha. Era uma escrita simples de uma miúda universitária mas que deveria ser a única da sua geração a fazê-lo, a única a escrever sobre a sua descoberta de livros de BD ou assuntos relacionados - como as ordinárias Comic Cons - e se o conteúdo não era o mais relevante do universo, era importante o acto em si! Isto porque as pessoas deixaram de escrever (ou saber escrever?) quando veio o fenómeno das "redes sociais" que ao contrário da época das blogosfera, é muito mais visual (geralmente partilham-se fotos, vídeos, cartons ou mini-BDs) e menos intelectual, não só porque não se escreve tanto como está viciado com os seus polegares-para-cima e corações de apoio. Seja como for, a Mosi apagou esse seu "blogspot" há poucos anos, se calhar, para não sentir "cringe" (que moderno usar este termo, hein!?) do seu passado "literário". "Coisa-Cringe" que as "Goteiras" não vão poder fazer ao terem tido esta coragem inabalável (e de tirar o chapéu!) de publicar em papel, por isso, isto só irá desaparecer quando o último exemplar arder no Inverno Nuclear!
Todos os conteúdos parecem feitos por adolescentes mimados - como foi a Mosi há 10 anos atrás e antes dela outras pessoas na 'net ou em papel - em que tudo é fantástico ou fascinante o que descrevem, tudo é maravilhoso e tudo é feito em torno dos autores dos próprios textos - mas sem a piada do jornalismo gonzo. Parece que o mundo não existe apesar de terem ido à Alemanha, Ucrânia, Itália e Bélgica. O relato mais sensato e que ainda se aprende algo será a da Rita Torres sobre o festival Snail Eye em Leipzig. Obrigado!
Terá esta geração sido educada a ouvir aquele Hip Hop Xunga em que os MCs fartam-se de referir milhares de inimigos nas letras que lhes vão roubar as rimas mas que na realidade não é verdade, eles apenas não existem... é só para o estilo!? Isto foi-me confirmado por um rapper do Porto, o Ex-Peão. Estarão com medo de escrever sobre as coisas negativas? Ou terem uma opinião assertiva que ofenda alguém? Não se preocupem, minhas caras, num meio tão ignorante como o da BD, rapidamente farão inimigos! Não é preciso mutilar o intelecto ou o sentido crítico, a xungaria irá vos aparecer mais dia menos dia! De certeza que já há uns idiotas que não curtem as BDs da Goteira & cia...
Este número inaugural foi pensado como um especial "BD fora das páginas" e prometia. Não é pelos seus "relatores" afunilarem-se em experiências muito próximas da sua própria autoria - este fanzine poderia ser intitulado de "Relatório Anual d'A Goteira 2025", pode soar a irónico mas não haveria nenhum mal se assim se chamasse, foi um ano importante para este colectivo portuense. Mas escrevia, não é por centrarem-se em si que o conteúdo tenha de ser mau ou uma perda de tempo, pelo contrário, é importante registrar esses momentos mas é preciso pensar mais sobre eles, ser mais profundo do que o brilho do écran.
Nitidamente que o Artifício ficou aquém do seu potencial por falta de experiência de escrita impressa. Espero pelo segundo número ainda com fervor porque acredito nas pessoas envolvidas mas vai ser dura a espera dos próximos seis meses!

'tás um bocado amargo...
ResponderEliminardesiludido apenas...
ResponderEliminarainda não tive oportunidade de adquirir um exemplar. o projecto é meritório e merece boa sorte.
ResponderEliminarclaro que sim! como escrevi fiquei com grandes expectativas à espera do seu lançamento... mas depois... bóf!
ResponderEliminarViva,
ResponderEliminarAinda não li, mas já percebi que não é (como eu esperava que fosse) um desenvolvimento (escrito) das pistas deixadas pelo Miragem, com o detalhe e aprofundar do novo modelo (muito interessante e desafiante) que se propunha para um evento sobre BD, com (entre outras coisas) um novo tipo de envolvimento por parte do visitante. Para memória futura, pelo menos.
Mas tudo certo. Fez-se o evento, que é o mais importante, e a verdade é que os primeiros números dos fanzines de reflexão sobre BD não costumam ser particularmente certeiros. Importa dar continuidade ao Artifício, e, principalmente, à Goteira.
Abraços,
Pedro Mota
claro que sim!!!
ResponderEliminarsó acho piada isto "a verdade é que os primeiros números dos fanzines de reflexão sobre BD não costumam ser particularmente certeiros" ... porque não me parece que tenham havido muitos nas últimas décadas - para dizer que não houve nenhum - para que isto ser verdade...
Lá está: ou não acertaste com eles, ou não acertaram contigo. ;-)
ResponderEliminarO comentário também veio disto: "...passadas duas décadas ia haver finalmente e outra vez um fanzine dedicado à reflexão sobre a Banda Desenhada".
Abraços,
Pedro Mota
Acho que não houve... vários titulos nos anos 70, o Nemo (entre os 80 e 90), em 1991 dois números do divertido e assertivo O Moscardo... mas quando apareceu o Quadrado tudo isso desapareceu... houve depois o #4 do Satélite Internacional exclusivamente feito de textos. Que me lembro desde 2004 que não há nada ou posso estar enganado?
ResponderEliminarSe for para referir o Juvebêdê, deixa-me ir buscar já o balde pró vómito... e o BD Jornal, bom, é como o nome indica era um jornal, na verdade tão amador como um fanzine mas separaria as águas ainda assim...
ResponderEliminarObrigada pela crítica tão ponderada e construtiva Marcos, não falhas uma em me apontar (mais uma vez!) a ingenuidade ou falta de conteúdo – talvez um dia eu consiga subir às tuas expectativas!
ResponderEliminarSe os nossos textos parecem ter sido escritos por adolescentes apaixonadas, esta tua crítica parece ser um ataque de ciúme por a tua crush não ser correspondida. Queres criticar a bedeteca de Viseu, porque não nos elucidas tu sobre isso? 🥱 O meu texto era sobre o Encontro de Bedetecas pelo qual estou muito grata, e me foi pedido para RELATAR, com um número de caracteres limitado – e no qual não me ocorreu falar de coisas que... não sabia! Ups, tenho mesmo de aprender mais com o tio Marcos...
Nem toda a crítica tem de ser negativa (nem uma facada!) E, por sorte ou azar, nem todo o nosso público tem sido tão elevado quanto tu – por acaso temos tido boas críticas ao primeiro número da Artifício e, admitindo que não é necessariamente o melhor número de "crítica" de BD (não sei se leste o editorial, mas estavas ESCRITO que seria maioritariamente sobre encontros), não percebo se te querias ver refletido em estilos e opiniões mázonas, birrentas e desagradáveis como a tua. Da minha parte, vais continuar a ler fofuras 💖
Deixo ainda a minha grande desilusão quanto à tua opinião sobre o texto da Margo, que é sem dúvida o que mais me choca: não sei se é por estares habituado a que te caiam orçamentos e salários camarários no colo, ou se é por teres construído uma base de associados que financia o que TU queres editar, mas eu acho muito bem que se partilhe como se financiam projetos no meio artístico, não como prestação de contas mas como uma base solidária de partilha de informação, interajuda e... amizade. Parece-me de facto ingénuo da tua parte achar que se consegue/se quer manter o tecido cultural à tona com o "respeito entre pares" que mencionas (e que me parece ter um significado muito diferente para ti).
Com "amiguinhos" como tu Marcos, não preciso de inimigos 💅 Parece-me que queres clout, como os rappers. Cá o tens 💋
nem sei o que é "clout" mas achares que me cai dinheiro como dizes, realmente além de ser uma acusação parvinha só mostra que é o que interessa à geração cheia de hip hop, iá, só se fala disso, de dinheiro e sem perceber nada.
ResponderEliminar'tá-se bem, um dia o tio explica-vos, no problemo!
lê fofuras, é o que sobra...