sexta-feira, 31 de maio de 2019

ccc@beja.2019

cartaz de Susa Monteiro

Temos duas exposições nesta 15ª edição do Festival de Beja, a saber

- Nódoa Negra, colectiva com originais da primeira antologia organizada por autoras portuguesas de BD: Bárbara Lopes, Cecília SilveiraDileydi FlorezHetamoé, Inês Caria, Inês Cóias, Marta Monteiro, Mosi, Patrícia Guimarães, Sílvia Rodrigues e Susa Monteiro.

Fábio Zimbres, autor brasileiro de referência que se estreia com um livro a solo em Portugal com Música para Antropomorfos... O autor estará presente no Festival!

quinta-feira, 30 de maio de 2019

DESERTO e NUVEM @ XYZ



Deserto Nuvem
por

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1 claustro vazio em Évora
1 ordem católica de silêncio e solidão
1 inquérito espiritual
2 livros num só 
20 cartas sem resposta 
Muitas visitas do autor em dúvida

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Sexto volume da colecção LowCCCost editado por Marcos Farrajota com arranjo gráfico de Joana Pires e publicado pela Chili Com Carne.

Dois livros / split-book, 64p  impressas a 1 cor + 124p impressas a 2 cores, 16,5x23cm

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à venda na loja em linha da Chili Com Carne e na Linha de Sombra, ZDB, BdMania, Tigre de PapelTasca MastaiUtopia, StetMundo FantasmaLAR / LAC (Lagos), Matéria Prima, Sirigaita, Kingpin BooksYou to YouXYZ e Bertrand. 
UND Modern Graphics (Berlin)

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Lançado no dia 10 de Junho de 2017 na Feira do Livro de Lisboa com a presença do autor (que reside em Inglaterra) 
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Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal
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Prémio Nacional para Melhor Álbum Português e Melhor Argumento pela BD Amadora 2017 
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Melhor Álbum e Melhor Argumento nos Galardões Comic Con 2017
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Escolhas de 2017 no Expresso
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Melhores de 2017 no Máquina de Escrever
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Melhores 2017 no La Cárcel de Papel
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Best Comics of 2017 in Paul Gravett site
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apresentação no dia 9 de Setembro 2018 no Festival Literário de Berlim
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grande exposição na BD Amadora 2018
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Obra seleccionada para Best Book Design From All Over the World, da Stiftung Buchkunst, no âmbito do Prémio Design do Livro 2018 + exposição na Torre do Tombo (entre 14/11 e 31/12/18)
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Deserto e Nuvem são obras de longo curso que examinam a forma de vida na Cartuxa de Évora, onde alguns monges resistem aos costumes do mundo, em absoluto silêncio e solidão. Serve este exame de pretexto para focar a própria natureza da fé humana, do apego às coisas do mundo, do que nos faz sentido. 

Deserto é composto de uma única narrativa centrada numa semana passada junto a Scala Coeli (escada do céu), que é como se chama a Cartuxa de Évora. É um livro quase jornalístico. 

Nuvem é composto de 20 cartas endereçadas a um monge cartuxo, e pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé – o extremo que sabe que Deus não existe, e o extremo que se contenta com absurdos.

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sobre o autor: Chamo-me Francisco Sousa Lobo, tenho 43 anos e vivo no Reino Unido, entre Londres e Falmouth, onde ensino ilustração e faço banda desenhada. Já estive do lado dos católicos e dos que renegam as raízes católicas. Agora ando sossegado, sentado numa espécie de muro baixinho, a ler Simone Weil e Kierkegaard. A perspectiva que tenho de cima do muro é curiosa. Tão curiosa que me deu para escrever sem ver que três ou quatro anos se passaram nisto.



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 Acabei agora de ler o Deserto e a Nuvem. O meu obrigado sincero à Chili por tê-lo editado. 
M. Robin (via e-mail, 11/07/17)

Comics making as a form of prayer?

Pedro Moura / Yellow Fast & Crumble

No caminho que levou a Deserto/ Nuvem, que se pressente longo e hesitante (a vários níveis), Sousa Lobo tenta construir pontes frágeis entre estes vários aspectos, como o harmónio de cartão que une os livros. E, sobretudo, procura acreditar nelas. Para além do fascínio com a vida e opções dos cartuxos, e os paralelos que o autor estabelece com a sua arte, este é sobretudo um catálogo de dúvidas sem resposta. Como se duas obras semi-falhadas ou incompletas se resgatassem e engrandecessem mutuamente pela união enquanto gémeas siamesas invertidas; o onirismo poético de uma elevando-se na realidade de um Alentejo moribundo e sem rumo da outra; a qual, por sua vez, ancora a anterior. Na sua construção inclassificável este é um excepcional trabalho de Francisco Sousa Lobo, com elogios extensíveis à Chili Com Carne. Seria uma pena se (como os trabalhos de autores como António Jorge Gonçalves, Tiago Manuel ou Diniz Conefrey) não passasse bem para lá do universo da banda desenhada e dos seus rituais.

João Ramalho Santos in Jornal de Letras

(...) Livro que "pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé", por um lado o "que sabe que Deus não existe" e o "extremo que se contenta com absurdos".
Nuno Galopim in Expresso

el portugués confirma ser uno de los autores más sugerentes del panorama europeo actual. Una obra formada por dos relatos: por un lado, el que realiza sobre la Cartuja de Évora, una magistral reflexión sobre la existencia, sobre el silencio y la creencia, en la que Sousa entremezcla la arquitectura de la página con la real. Por otro, el relato del proceso creativo, de la investigación y de sus reflexiones personales, de cómo la obra puede cambiar al autor.
Álvaro Pons / La Cárcel de Papel

(...) a mais fascinante experiência de leitura de banda desenhada deste ano.
There is no doubt that Lobo’s obsessive and proficient output is even more surprising for both its aesthetic and philosophical commitment. I’ve argued elsewhere that Lobo’s overall project touches an incredibly original and complicated autobiographical or auto-fictional project, but this double book (two titles, Desert and Cloud, bound back-to-back) ticks all the boxes of a straightforward autobiography. Lobo spent some time visiting Évora’s Carthusian Monastery of Santa Maria Scala Coeli, with the goal of creating a sort of ‘live’ comic project. Based on his observations, talks and theological discussions with the monks, Deserto explores issues such as isolation, silence and the relationship with God, which genuinely concern Lobo as an anxious, suffering Catholic artist (a pleonasm, I’m certain). Nuvem, on the other hand, takes the shape of short letters, addressing the history of the order and this monastery, as well as some of the concerns mentioned above. One half complements the other, reinforcing the themes and clearly making them an intrinsic ingredient to the artist’s recurrent obsessions.
Deserto/ Nuvem es realmente una maravilla de Sousa Lobo -¡qué difícil, un cómic sobre la espiritualidad!- y también una maravilla de edición. Os felicito! 
Max (Peter Pank, Bardin, Vapor) por email

Todos os anos vou como um peregrino ao Festival de BD da Amadora (que este ano foi entre 26 de Outubro e 11 de Novembro) para completar colecções, comprar novidades ou descobrir antiguidades, mas desta vez saí de lá mais surpreendido do que o costume com um livro: não levei só heróis habituais como o Corto Maltese, o Árabe do Futuro ou um Paul Auster no saco das compras, mas também monges de clausura visitados por um autor português com raízes no Alentejo que vive em Londres e tem dúvidas existenciais sobre Deus e a religião: Deserto/ Nuvem (editora Chili com Carne) é uma novela gráfica original. Primeiro, porque é dois livros num só, que começam em cada uma da capas, ou melhor, em cada uma das contracapas: Deserto é sobre as visitas do autor, Francisco Sousa Lobo, ao Convento da Cartuxa, e a relação com os poucos e velhos monges com votos de silêncio que ainda lá vivem; Nuvem dá forma a 20 cartas de carácter sobretudo filosófico enviadas a um monge cartuxo; a ligá-los, uma planta desdobrável do convento dá ao livro uma textura de velho incunábulo, de lombada cosida à mão. É um belo objecto.
Mas não só. Sousa Lobo leva-nos em visita aos claustros, aos hábitos dos monges, à rotina e à perplexidade: seja-se religioso ou não, aquelas vidas suprimidas pelo silêncio naqueles espaços deixam-nos incrédulos. Abdicam do humano em favor do etéreo?, questiona o desenhador (e arquitecto) numa das cartas. O próprio autor está em cima do muro entre os crentes e os não crentes, mas tenta compreender o ponto de vista dos enclausurados e exprime um assombro perante aquela resiliência e desistência da vida comum: Há uma nuvem entre mim e os monges, uma admiração profunda deste lado, escreve. Francisco Sousa Lobo ganhou o prémio para o Melhor Álbum Português de BD em 2018. Percebe-se porquê. É merecido.
O trabalho de Francisco Sousa Lobo espelha uma experiência vivencial intensa no plano intelectual e artístico, a de alguém com uma forte capacidade para gerar nexos entre assuntos só aparentemente distantes – uma lonjura que o seu traço e dispositivo narrativo encurtam consideravelmente. Talvez por isso o autor se refira a si próprio como «uma ponte entre a banda desenhada e as outras artes» (Nuvem, carta 18.ª). E talvez o facto de ser um arquitecto tenha qualquer coisa a ver com tudo isto. 
Trata-se de um ilustrador de pensamentos, capaz de desenhar sobre conceitos abstractos, como em Deserto, livro que percorre o fio do tempo e dos gestos que, em 2014 (época já de grande crise de vocações), levaram Sousa Lobo à Cartuxa de Évora para pensar (escrever, desenhar) sobre os lendários monges do lugar. Ou seja, sobre o que levou o autor a querer pensar (escrever, desenhar) sobre a condição do homem que fez voto de silêncio, sobre o que o silêncio faz, sobre como se faz para alcançá-lo, porquê, para quê, tudo isso no desamparo desabafado de quem afirma ter-se sentido «como um clandestino a trepar as escadas para o céu». (...)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

BRUMA de AMANDA BAEZA / últimos exemplares!!!!!!!!!!!!!!!

El deslumbrante debut de Baeza (...) Autobiografía de vanguardia para el siglo XXI. 
The Watcher
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un estilo y una narrativa subversiva en la que la artista (...) utiliza el humor, juega con la ironía y desarrolla un discurso en el campo social y político que la propia autora ha decidido bautizar como activismo visual.
Cactus
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Amanda Baeza nasceu em Lisboa, em 1990, cresceu no Chile e regressou a Portugal com 10 anos. Talvez seja por ter crescido entre dois hemisférios que haja quem diga que os seus desenhos vêm de outro mundo.

No entanto sabemos que as bandas desenhadas seleccionadas neste volume baseiam-se em eventos e sentimentos reais. O seu grafismo tem tanto de assertivo como de mutante e é na fusão com as palavras que nos surgem estas originais narrativas e poesias visuais.

Baeza actualmente reside em Lisboa e desde 2012 que trabalha para várias publicações internacionais. Bruma compila quase duas dezenas de histórias, a maior parte delas inéditas em Portugal, uma delas com texto de Pedro Moura.

à venda na nossa loja em linha e na Linha de Sombra, Blau (Fac. Arquitectura de Lx), Sirigaita, A Ilha, BdMania, Matéria PrimaTasca Mastai, STET, Tigre de Papel, Bertrand, FNAC, Utopia, LAC (Lagos), Kingpin BooksMundo Fantasma e Ugra Press (Brasil).









10º volume da colecção Mercantologia
160p. 15x21cm a cores, edição brochada
edição apoiada pelo IPDJ

Sairam entre o final de 2016 e juntamente com esta edição, um livro em castelhano pela Fulgencio Pimentel - Nubes de Talco (128p., formato 17x24cm) - e em inglês pela letã kuš! - Brume (116p., formato A5). Na realidade isto foi uma parceria entre os três editores para reunir o trabalho desta estimada autora sendo a edição portuguesa a mais completa, a espanhola a mais bonita e a inglesa a mais universal.
:)

Dankas very muchas Cesar & David!

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sobre o livro:

Apresentado oficialmente no dia 26 de Março 2017 na Feira Morta na Estrela (Lisboa) com uma exposição dos trabalhos da autora.
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Quando a maioria das obras de banda desenhada portuguesa editadas anualmente é distribuída por canais alternativos às livrarias e aos pontos de venda de periódicos (...) cabe ao leitor interessado fazer um esforço extra para acompanhar as obras dos autores que lhe interessam, sem garantias absolutas de sucesso nesta demanda. A sua exposição reduzida implica que sejam lidas e analisadas por poucos, correndo o risco da memória histórica nem sempre as considerar. Foi a pensar em tal, que a Chili Com Carne concebeu a sua série Mercantologia, dedicada à reedição de “material perdido”. O seu 10.º volume (...) não poderia simbolizar mais o propósito da coleção. Amanda Baeza é uma das mais interessantes e prolíficas autoras nacionais – com o devido respeito à sua origem chilena – cuja obra mui raramente chegou às livrarias e, nesses poucos casos, sempre em antologias de vários autores. A acrescentar ao nem sempre fácil acesso ao mundo dos zines e demais edição independente, Baeza tem sido publicada em diversas línguas e países, por vezes com material inédito em Portugal. Por tudo isto, uma antologia dedicada à obra de Baeza era imperativa há já algum tempo e finalmente os leitores interessados poderão conhecer um importante conjunto de bandas desenhadas representativo do seu trabalho. 
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Foda-se, este livro é mesmo bom. Para além de ser um assombro, de ser bonito - coisa rara na Era Irónica -, para além de ser o melhor que a BD pode ser, para além de ser um livro em que se sente o que se está a ver como se fosse um deleite déjà-vu, é um livro que deve ser aberto quando precisamos de nos relembrar ocasionalmente de que somos humanos. Obrigado, Amanda Baeza. 

Uma compilação de quase duas dezenas de histórias, grande parte inéditas em território nacional, muito "focadas em temas sociais", conta a jovem de 26 anos ao P3. E "muito íntimos" e biográficos. (...) uma brevíssima BD em que Amanda fala da sua experiência ao chegar a Portugal e do "estigma" que enfrentou desde criança como imigrante. "Embora as ruas tenham um ambiente multicultural, é por trás de quatro paredes que as pessoas expressam todos os seus medos e preconceitos", lê-se, num dos balões. O traço tem sempre algo de mutante e alienígena, quebrando as barreiras tradicionais da BD ("Tenho muito a influência do design e, como não estudei banda desenhada, quebro muito a estrutura") e, hoje em dia, dando especial importância à cor ("Não é apenas decorativo, é outra linguagem"). 

Aquilo que é salientado, em primeiro lugar, é o campo magnífico visual em que Amanda Baeza trabalha. Há aqui um felicíssimo encontro entre uma figuração ultra-estilizada e uma liberdade dos espartilhos estruturais mais clássicos da banda desenhada que a lança a vários experimentos de organização do campo visual, da estruturação narrativa, da concatenação de linhas divergentes, modos de atenção, etc.(...) A re-descobrir de um modo sustentado ou como primeira apresentação, Bruma, esperemos, será um gesto de introdução de uma autora com uma voz particularmente original 

(...) Amanda consegue fazer um trabalho perfeitamente perturbador. 
Tiago Baptista in Cleópatra #10

Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal

Prémio Nacional para Melhor Desenho pela BD Amadora 2017

li o livro da Amanda Baeza e é uma maravilha, uma das melhores coisas que vi em quadrinhos nos últimos tempos.
Fábio Zimbres

This is an anthology of Baeza’s unrelenting output of short stories (...) The Chilean-Portuguese artist is a serious reinventor of comics’ specific visual storytelling possibilities, experimenting with page composition, multiple storylines, diverting attention, not to mention the sheer diversity of materials she uses, always looking for the best option in any given project. But thematically speaking, she is also creating a path of her own, mixing autobiographical traits such as identity-building and crisis with political stances, the deconstruction of prejudices and the questioning of nationality.

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Sobre a edição espanhola: Las escenas no responden a una lógica, porque Baeza parte de una certeza que muchos otros autores autobiográficos soslayan: los hechos tal y como sucedieron se han perdido para siempre y son irrecuperables. ¿Qué queda, entonces? Las emociones, las imágenes deformadas tras años de anidar en nuestro cerebro, a veces algo inconexas. Baeza no reconstruye lo que pasó, sino la impronta que dejó en ella. Es una autobiografía emocional, por inventar algún palabro que alcance a explicar un poco su trabajo. The Watcher

Sobre a edição em inglês: They experience a broad range of nuanced emotions, but they also seem to be completely untethered to our world of muddled pop-cultural references and political worries, as well as a little more physically amorphous than earthly people. Rookie 

terça-feira, 28 de maio de 2019

ANTOLOGIA da MENTE de TOMMI MUSTURI na XYZ



A Antologia da Mente (AdM) é uma colecção de histórias curtas pelo artista Tommi Musturi que inclui 37 trabalhos realizados entre 1997 e 2017. É um mergulho profundo na diversidade e formas diferentes de narrativa gráfica, pois Musturi usa estilos visuais e formas de contar histórias para nos entregar mensagens e ideias complexas. AdM inclui um artigo de seis páginas escrito pelo autor sobre o “Estilo” enquanto ferramenta artística.

As suas bandas desenhadas são quase sempre mudas (sem texto) e de uma comicidade camuflada. Acima de tudo é um humanista que apresenta o seu mundo e as suas personagens de todos ângulos de forma a girá-los num círculo em que a verdade apresentasse sempre em mutação.

128 páginas a cores em formato A4.
Tradução de Anna Katajamaki.
Edição limitada a 400 exemplares pela MMMNNNRRRG e apoiada pela FILI.




Historial: 
lançamento no Milhões de Festa / Necromancia Editorial ao som dos CIRCLE 
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Disponível na loja em linha da Chili Com Carnena Linha de Sombra, BdMania, MOB, Tasca Mastai, Black Mamba, Mundo Fantasma, Matéria Prima, A Banca, Utopia, Letra LivreLAC, Stet, Bertrand, FNAC, SnobCotoviaNouvelle Librarie Française, XYZKingpin Books.

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Feedback : 

Gostei muito, adorei o texto do Tommi Musturi sobre o estilo. É incrível ver um trabalho que mais parece ter sido feito por várias pessoas. 
Goran Titol (via e-mails)

Um primeiro olhar, desprevenido, sobre estas mais de cem páginas poderia induzir a ideia de estarmos perante um volume colectivo, tamanha é a diversidade de registos, cores e estilos presente nas histórias curtas de Tommi Musturi. A amplitude cronológica poderia justificar essa diversidade, não fosse tal justificação não só desnecessária como contraproducente. Musturi é um autor que preza a experimentação, a descoberta enquanto processo de criação e a liberdade gráfica e isso reflecte-se neste livro de um modo muito evidente. 
(...) Não há um tema único, sequer dominante. Musturi cria histórias sobre as pequenas alegrias e misérias do quotidiano, os abismos existenciais ou a límpida observação de um fenómeno. (...) Entre os 37 trabalhos, encontram-se histórias pensadas para os mais novos, como «Amizade» – realizada a convite da colecção de livros infantis Nuppuset, reflexões abstractas e marcadas pela auto-referência, como «Matéria Negra», criada para uma antologia literária, ou adaptações como a que se mostra em «Milagres», que resgata o poema homónimo de Walt Whitman em duas pranchas de uma imensa beleza formal. 
Sara Figueiredo Costa in Blimunda

Na Lista de Melhores Livros de BD de 2018 do Expresso
Sara Figueiredo Costa




quinta-feira, 23 de maio de 2019

Chili Com Carne distribui "Variações Sobre o Anjo da História/ Ensaio de Walter Benjamin/ Inspirado por “Angelus Novus” (um Desenho de Paul Klee)"



Projecto do artista grego Ilan Manouach e do escritor português Pedro Moura, VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL), ou Variações Sobre o Anjo da História/ Ensaio de Walter Benjamin/ Inspirado por “Angelus Novus” (um Desenho de Paul Klee), é uma colecção de quarenta e oito poemas em prosa baseados - mas em permanente fuga - na possivelmente mais famosa imagem de Walter Benjamin, acompanhados por desenhos que exploram tensões quase insuportáveis entre texto e imagem.

Co-publicado por La Cinquième Couche, uma editora de banda desenhada experimental belga, e a Montesinos, a chancela editorial de Moura, com textos em francês e português, VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL) é também um objecto que desenha habitar a zona desmilitarizada e densa que existe entre os domínios da ilustração, da banda desenhada, dos livros de artista, das colaborações, das artes do livro, da reprodutibilidade e de um misticismo impoluto pós-tecnológico.

à venda na loja online da CCC, Matéria Prima, Mundo FantasmaXYZ BooksLinha de Sombra, STET e Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristóvão, Lx).

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Um movimento contraditório de dissolução e acreção de um processo de mitificação do mundo. As ruínas da História, tais como descritas por Walter Benjamin, assumem muitas formas, e muitos são os gestos que procuram restaurá-las, deslocá-las ou então abandoná-las de vez.

As configurações são por isso inúmeras, e as metamorfoses incessantes. VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL) não é mais do que uma sucessão de capturas das formas que se molda nessa tempestade caleidoscópica. As palavras de Pedro Moura apresentam uma paisagem a um só tempo desolada e vibrante populada por personagens dantescas, descritas ora vaga ora meticulosamente, emprestando vozes diferentes a ensejos diferentes, todas detectáveis na mesma localização. Os desenhos de Ilan Manouach, através de várias estruturas e fontes, moldam as proporções exactas destes fragmentos em ruína.

Manouach e Moura já haviam colaborado, mas como comissário e artista. Todavia, as afinidades de ambos foram imediatamente instigadas, encontrando um campo comum electrificado nos seus interesses pelas ruínas da tessitura da realidade, pela natureza efémera da beleza (e a beleza do efémero), pela falibilidade do monumental e a monumentalidade dos dejectos, pelos umbrais entre a vida e a morte, e por execuções precisas e automáticas dos gestos de desenhar e escrever com fim à evasão das costumeiras mistificações da arte, procurando antes concretas fantasmagorias que acabam de despontar.

O filósofo alemão Walter Benjamin - com a sua imagem potente do crítico como aquele que mortifica a obra de arte, que a despoja e desnuda, para transformar o objecto prístino em ruínas e, no seio delas, procurar libertar o seu fogo interior - tornar-se-ia o condutor desta colaboração. O fragmento do “Anjo da História” é um enigma. Tratar-se-á de um desenho de Paul Klee que espoletou um conceito em Walter Benjamin? Ou um ensaio descritivo-criativo sobre uma figura previamente existente? Existirá noutras paragens? Faz sentido falar de exisrência, seja ela actual ou virtual, neste caso?

VSAdH/ EdWB/ IpAN (uDdPL) tenta revisitar esse lugar de encontros para instigar outros tantos.


Ilan Manouach é o criador de uma mão-cheia de livros que redefiniram a forma da banda desenhada, tais como Le lieu et les choses e Frag, tal como a relação entre texto e imagens com Limbo. Muitos dos seus projectos artísticos exploram “encontros fortuitos” lautreamontianos entre arte site-specific, a instalação, a apropriação, artes gráficas e música, área na qual ele é igualmente um virtuoso saxofonista e manipulador de electrónica.

Este é o primeiro livro de Pedro Moura enquanto escritor, embora tenha publicado contos, poemas e literários objectos não-identificados noutros locais (inclusive uma opereta). Ele é sobretudo um crítico de banda desenhada, escrevendo para o blog lerbd. No domínio da banda desenhada, ilustração e animação, já trabalhou como professor, tradutor, comissário, escritor, documentarista e editor.


sábado, 18 de maio de 2019

ccc@feira.de.autorxs


como no ano passado vamos estar !

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Outsider Metal


Insisto, a música mais excitante continua a ser lançada em k7 - quem acha que é na 'net, engana-se muito - e Windthrown é um belo exemplo disso. Lars Toverud, metade dos La Casa Phatom (que já passaram por Lisboa, pelo menos), este projecto solo lembra Filipe Felizardo se fosse punk invés de arte-metaleiro. A primeira faixa poderia ser um exercício à Orthrelm (álbum OV) mas segue depois por mais calmarias de guitarra em distorção sunnO))), drones e riffagem de dois Neil Youngs à luta no mesmo saco.
Já agora o registo gráfico chic-freak da Tarsiana Melnikava adequa-se bem a caixinha da k7 azul. Edição de 2018. Obrigado R.P. pela bela prenda.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Sapata Diplomatique


Como tem acontecido, de dois em dois meses desde Janeiro, eis na edição deste mês a participação de Cecília Silveira no Le Monde Diplomatique com uma banda desenhada segundo a seguinte premissa: Será a caneta mais poderosa do que a espada? Nestes tempos assanhados, desafiamos autores de Banda Desenhada a reagirem a esta pergunta. Nos próximos meses, a edição portuguesa do Le Monde Diplomatique vai publicar as suas respostas...

NOTA: infelizmente houve um erro feito no arranjo gráfico do jornal que deixou um detalhe da BD anterior sobrepor-se no trabalho de Silveira, mutilando uma parte importante do seu texto. No próximo número deste periódico, a BD será republicada em condições e sem interferência assustadora sino-nortenha!

sexta-feira, 10 de maio de 2019

quinta-feira, 9 de maio de 2019

TRIP #10 portugal spleen special


Sai este fim-de-semana no TCAF o número 10 da revista TRIP, do Canadá, que inclui um dossier especial "Portugal" com BDs inéditas de vários artistas, a saber: Gonçalo Duarte, Francisco Sousa Lobo, Cátia Serrão, Mariana Pita, Tiago Baptista, Hétamoé, Daniel Lima, Bruno Borges e Xavier Almeida

A capa é de José Feitor e a coordenação do dossier ficou a cargo de Marcos FarrajotaSara Figueiredo Costa, esta última escreveu também este texto introdutório: 


            
A ideia de uma unidade nacional continua a alimentar ilusões. Em Portugal, quando queremos falar de nós a quem não nasceu ou não vive cá, temos os oceanos, a expansão marítima, o fado, o futebol... os mesmos temas de sempre, pisados e repisados para melhor se adaptarem a uma narrativa onde somos sempre heróis, mesmo que em pequena escala, sonhadores, melancólicos e aventureiros. Falamos da expansão marítima, mas esquecemos a colonização e os escravizados que daí resultaram – às vezes falamos disso, mas sempre afirmando que “a nossa colonização foi mais benévola do que outras”, como se medir a crueldade e a opressão fosse um bom modo de olhar para o passado. Falamos do fado como se não houvesse outras expressões musicais, artísticas, a marcarem o nosso percurso comum. Falamos, sobretudo, de uma história cristalizada numa certa ideia de grandeza cruzada com falsa modéstia e andamos a falar nisso há demasiado tempo.
            
Quando começámos a pensar numa antologia de autores de banda desenhada portugueses, preferimos alterar o ângulo do olhar. Ver outras coisas, pensar de outra forma, questionar mais do que enaltecer. E procurar gente que quisesse assumir essa liberdade de olhar. Esta não é, por isso, uma antologia institucional, preocupada com a suposta representatividade dos autores incluídos ao nível do estilo, do reconhecimento ou da frequência com que publicam relativamente à produção portuguesa de banda desenhada. Ainda que aqui se incluam autores e autoras que seguramente integrariam uma antologia como essa, o que pretendemos, acima de tudo, foi reunir um conjunto de autores contemporâneos de banda desenhada que respondessem a esta ideia de um certo ar do tempo. Essa era a contemporaneidade que almejávamos alcançar, um olhar para aquilo a que Charles Baudelaire, na Paris do século XIX, definiu como spleen, a mistura indefinível de temas, emoções, dúvidas e pesadelos capaz de capturar o espírito de um tempo. E também de um lugar.

Curiosamente, spleen, em inglês, significa “baço”, um órgão que não será o primeiro a vir-nos à ideia quando pensamos no corpo humano mas que, ainda assim, é fundamental para a produção de novas células e para a eliminação das velhas. Foi também isso que quisemos fazer. Baudelaire está morto há muito mais de um século, os cafés sombrios onde se traficavam livros, drogas ou ilusões foram substituídos por estabelecimentos gourmet e Lisboa nunca foi Paris... Ainda assim, o spleen permanece como um bom conceito para lermos as cidades e a sua respiração, uma espécie de microscópio por onde observar o tempo e o lugar.
            
O tempo é agora e o lugar é Portugal. Temos uma meteorologia invejada, muitos turistas, companhias low-cost, morangos no Inverno e toda a espécie de melhorias tecnológicas inimagináveis há uma ou duas décadas. Depois da Revolução dos Cravos, a 25 Abril de 1974, passámos a ter democracia, coisa que por vezes parecemos esquecer. Com a democracia vieram as condições sanitárias que faltavam em muitos lugares, a literacia, o acesso à saúde e à educação, os direitos que a ditadura negou durante décadas. Ainda assim, não estamos livres de problemas, tragédias e acidentes, como as centenas de mortos nos incêndios de Verão, a disfuncionalidade do sistema nacional de saúde, o racismo estrutural numa sociedade onde continuamos a achar que há pessoas que não merecem viver aqui, o facto de termos canais televisivos que podem dedicar quase uma hora às notícias do futebol e apenas um ou dois minutos à guerra na Síria, por exemplo. Talvez devêssemos pensar mais na nossa vida, e no modo como a vivemos em comunidade, em vez de nos dedicarmos a caçar unicórnios... E de que unicórnios falamos? Entre morangos no Inverno e juízes machistas a quem não parece mal que uma mulher adúltera seja vítima de violência doméstica, temos de tudo. É capaz de ser este o nosso spleen, cheio de sonhos de grandeza nas Eurovisões e nas Copas do Mundo e cheio de gente expulsa da casa onde sempre morou para alimentar a máquina infernal da especulação imobiliária. Umas vezes há coisas bonitas no meio da tempestade, claro, outras não é fácil respirar. Para reflectir sobre o que nos rodeia, aqui e agora, desafiámos dez artistas e demos-lhes temas que nos pareceram apropriados à sua obra, ou pela familiaridade, ou pelo desafio.
            
Até aos anos 90 do século passado, o mercado editorial de banda desenhada em Portugal era preenchido sobretudo pela publicação de álbuns oriundos do eixo franco-belga, alguma produção nacional muito associada aos temas históricos e à narrativa de aventuras (herdeira do registo de publicações que, décadas antes, tiveram sucesso entre os leitores, como O Mosquito, fundada em 1936 e activa até 1986, ou a Cavaleiro Andante, publicada entre 1952 e 1962) e trabalhos pontuais que não se inseriam em nenhum dos registos anteriores. Houve momentos de excepção, como o protagonizado pela revista Visão (entre Abril de 1975  e Maio de 1976), que congregou autores cujo discurso procurava pensar a banda desenhada, experimentar dentro e fora das suas possíveis fronteiras e trabalhar em direcções não limitadas pelo registo juvenil, mas não foram suficientes para tornar abrangente e múltipla a percepção do público e as intenções do mercado.
            
Durante a década de 1990, a percepção da banda desenhada como uma linguagem destinada às leituras juvenis ou nostálgicas (quando não como um género, facto tão decorrente do desconhecimento como da limitação de registos editados) altera-se, ainda que ligeiramente. O crescimento do mercado editorial, com o consequente aumento de canais de distribuição e colocação de livros, beneficiou a banda desenhada, permitindo que livros com registos mais experimentais encontrassem o seu espaço nas livrarias, agora atentas a outros modos de trabalhar a linguagem da banda desenhada. Por outro lado, os espaços de divulgação e exposição beneficiaram de uma evolução no que toca à diversidade, mantendo-se festivais como o da Amadora, onde a presença da banda desenhada de vocação receptiva mais massiva sempre marcou presença, acompanhada de exibições pontuais de trabalhos e autores exteriores ao mainstream franco-belga e norte-americano, mas surgindo outros, como o Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto e o Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, fundamentais para a criação de um público que não se limitava aos fãs de banda desenhada, mas que se compunha igualmente por interessados pelas áreas da literatura, das artes visuais, do cinema de autor... A recepção da banda desenhada deixou de ser exclusiva dos fãs das aventuras juvenis e dos nostálgicos de uma suposta Idade de Ouro e iniciou a sua inscrição no território amplo e transdisciplinar das artes. Sem excluir o património que motivou edições e exposições antes desta década, sem abandonar a herança da comunicação de massas que ditou a sua percepção excluindo qualquer outra abordagem, a banda desenhada abandonou o seu gueto de fãs e nostálgicos e passou a estar à disposição de um público mais vasto e necessariamente heterogéneo. Esta abertura foi acompanhada por projectos editoriais que, no mercado ou nas suas margens, permitiram a edição de autores que até aí não teriam qualquer hipótese de ver o seu trabalho publicado, animando movimentos editoriais que passaram por chancelas como a Polvo, a Pedranocharco ou a Chili Com Carne, bem como edições institucionais associadas à Bedeteca de Lisboa (com a colecção Lx Comics, de autores portugueses) ou ao Salão do Porto (com a colecção Quadradinho).
            
No início deste século, uma outra conjuntura se formou, alterando o panorama que se criara nos anos de 1990 e definindo um outro, bem diferente, marcado pela contenção económica e pela redução do volume de edição. O entusiasmo da década de 1990 em torno da edição criou uma ilusão que não correspondia, apesar de todas as melhorias apontadas, à realidade de um mercado editorial pequeno, com livrarias pouco preparadas para definirem secções de banda desenhada que ultrapassassem a etiqueta do “infanto-juvenil” e com um espaço limitado na imprensa para a divulgação e a crítica de livros em geral. Por outro lado, talvez a ausência de uma preparação sólida para lidar com a gestão editorial e os condicionalismos do mercado do livro por parte de muitos editores (nem sempre com a experiência que um mercado como o do livro exige num país cujos níveis de leitura geral nunca foram famosos) tenha sido responsável por um entusiasmo que se saldou no estrangulamento do mercado, com o exíguo espaço disponível para a banda desenhada sufocado por centenas de títulos ao mesmo tempo.
            
A tentativa de traçar uma interpretação histórico-sociológica das últimas décadas no que à edição de banda desenhada em Portugal diz respeito não tem como passar disso mesmo. Para além da proximidade cronológica, que em caso algum é positiva para uma fixação rigorosa dos factos, quanto mais para uma interpretação, a inexistência de dados fiáveis impede o exercício: o mercado editorial nunca registou os seus dados em termos gerais e rigorosos (situação que não é exclusiva da banda desenhada e que continua a dificultar a análise e o trabalho de todos quantos lidam profissionalmente com a edição, sejam agentes directos ou não), o que nos deixa unicamente com os números das editoras e com as análises que foram sendo traçadas, em jeito de balanço, em sites como o da Bedeteca de Lisboa e em suplementos culturais que têm o hábito de encerrar o ano com uma retrospectiva que, frequentemente, inclui dados mensuráveis. Relendo essa documentação, bem como textos fundamentais como presentes nas actas dos encontros Hoje, a BD, que a Bedeteca de Lisboa realizou em 1996 e 1999, não será um mero exercício de especulação concluir que o encerramento do Salão do Porto, o decréscimo de actividade da Bedeteca de Lisboa (que inclui o fim do Salão Lisboa, a suspensão da colecção Lx Comics e de toda a actividade editorial e, mais recentemente, o encerramento da sala de exposições, que albergava, com alguma regularidade, mostras de autores que maioritariamente não estão editados em Portugal, apesar da consideração que o seu trabalho tem merecido por parte de críticos, investigadores e leitores de outras latitudes), o fim de várias editoras e o abrandamento muito significativo da actividade de outras constituíram os eixos essenciais de uma conjuntura que, provavelmente com a influência de outros factores difíceis de identificar a uma distância temporal tão curta, ditaram, na primeira década do século XXI, o regresso a uma inércia editorial em que a regra voltou a ser o entretenimento.
            
A reacção de autores, editores e outros envolvidos, no entanto, voltou a alterar o cenário entre a primeira e a segunda década do século. As peculiaridades do mercado editorial e o acesso cada vez mais democrático às tecnologias da informação e da comunicação permitiram aos autores portugueses a descoberta de caminhos alternativos ao processo tradicional de edição. Em alguns casos, os mercados estrangeiros constituíram um terreno fértil, tanto no plano comercial como no plano do intercâmbio artístico e da definição de espaços de publicação e divulgação. Os exemplos de autores que conseguiram encontrar o seu espaço na indústria dos comics norte-americanos, muitas vezes integrando equipas amplas e com vários trabalhos a decorrerem em simultâneo, são significativos. Por outro lado, a facilidade de estabelecer contactos, trocas e parcerias com autores e projectos editoriais e artísticos de qualquer ponto do mundo abriu vias interessantes de colaboração, levando vários autores a publicarem os seus trabalhos em países como França, Espanha, Eslovénia ou Rússia, quer com títulos individuais, quer integrando-se em antologias internacionais.
            
Também o acesso facilitado às tecnologias associadas à edição, sobretudo com o desenvolvimento da impressão digital e com a vulgarização de empresas que oferecem serviços que começam na pré-impressão e culminam na entrega do número de exemplares combinado à porta de casa do autor, autores sem espaço no mercado tradicional (e sem intenção de adaptarem a sua criação ao registo considerado “vendável” pelas editoras) editaram o seu próprio trabalho, individualmente ou em plataformas colectivas. É o caso de artistas como André Lemos, Júcifer, Marco Mendes, Hetamoé, Lucas Almeida, Tiago Albuquerque ou Sílvia Rodrigues, e de projectos como a Opuntia Books, Os Gajos da Mula, a Chili Com Carne, o Clube do Inferno, a Imprensa Canalha ou a Sapata Press, bem como de editoras de média dimensão e com um trabalho cuidadosamente gerido, como a Kingpin Books, ou outras que vinham dos anos 90 e souberam adaptar-se à nova realidade, como a Polvo. Com o avançar deste novo século, agora já com quase duas décadas, estes caminhos deram os seus frutos e criaram novos espaços na circulação de banda desenhada em Portugal. Hoje, aquilo a que chamamos mercado já não é um monolito constituído pelo circuito autor-editora-distribuidora-livraria. Há muitos autores que se auto-editam, individualmente ou em projectos colectivos, e muitos projectos editoriais de pequena dimensão que fazem chegar as suas criações aos leitores em espaços que nasceram do esforço colectivo de autores, leitores e outros entusiastas do do it yourself, como as feiras de edição independente (casos da Feira Laica, entretanto descontinuada, da Feira Morta, da Raia, etc) que acontecem em diversos pontos do país, muitas vezes com convidados estrangeiros cuja presença em Portugal acaba por resultar em novos projectos partilhados, novos livros editados em Portugal ou nos países de origem desses convidados. Editoras que vinham dos anos 90, como a Polvo e a Chili Com Carne, e novos projectos como a Kingpin Books, ou, numa escala mais pequena, a El Pep, firmaram-se num espaço que inclui as livrarias (no caso da Kingpin Books, com uma livraria própria, no centro de Lisboa), mas que passa igualmente pela presença nos festivais de banda desenhada e, nalguns casos, pelas mesmas feiras de edição independente onde circulam livros e outras publicações com tiragens menores, por vezes impressas artesanalmente. O mercado reinventou-se e parece ter decidido ignorar as dificuldades do mainstream, criando os seus próprios caminhos e abrindo espaços onde eles não existiam. A vitalidade criativa e editorial de projectos como estes e outros tem assegurado diálogos constantes e frutuosos entre artistas, e entre estes e o público minoritário que os conhece, acabando por alcançar outros públicos e confirmando que a auto-edição, a edição em pequena escala e a atenção aos circuitos não-generalistas que há uns anos se apontava como futuro possível para a edição de banda desenhada em Portugal é, hoje, o seu presente.
            
Longe de caravelas e melancolias preparadas para exportação imediata, os barcos onde navegamos hoje são instáveis. E navegamos todos, os que nunca pisaram um convés, os que andam entre Portugal e o estrangeiro em rotas aéreas low-cost para ganhar a vida, mas também os que tentam chegar à Europa arriscando a vida para fugir da guerra, porque essa ideia de uma nação com as suas fronteiras há muito que se esboroou, para o bem e para o mal. Vivemos aqui, alguns somos daqui desde sempre, outros passámos a ser, porque é aqui que estamos. E aqui é em Portugal, mas não deixa de ser nesse não-lugar criado pela internet, pela globalização, pelo capitalismo, e também pela vontade de conhecer os outros, pela necessidade de circular, pela ânsia de abrir mundos sem ser à força. Temos bom tempo e temos canções, temos corrupção e dificuldades económicas, temos turistas e muitas interrogações. E temos, seguramente, autores com vontade de pensar nisto tudo sem a ilusão de um passado glorificado mas com os pés bem fincados no que somos, fomos e vamos sendo.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Espero chegar em breve / metade da edição esgotada e na Universal Tongue



Novo número (#28) do zine Mesinha de Cabeceira e outra vez com o Nunsky!!!

Edição Nunsky Comics com o apoio da MMMNNNRRRG
44p. p/b, 16x23cm
ed. brochada, capa a cores em cartolina texturada

disponível na nossa loja em linha e na 

Nunsky (1972) é um criador nortenho que só participou no Mesinha de Cabeceira. Assinou o número treze com 88 considerada única no panorama português da altura (1997) mas também nos dias de hoje, pela temática psycho-goth e uma qualidade gráfica a lembrar os Love & Rockets ou Charles Burns. O autor desde então esteve desaparecido da BD, preferindo tornar-se vocalista da banda The ID's cujo o destino é desconhecido. Nunsky foi um cometa na BD portuguesa e como sabemos alguns cometas costumam regressar passado muito tempo...

Desde 2014 que este autor regressou à BD e com toda a força: primeiro com Erzsébet sobre a infame condessa húngara que assassinou centenas de jovens na demanda da eterna juventude, e em 2015 com Nadja - Ninfeta Virgem do Inferno, verdadeiro deboche gráfico entre o Hair Metal de L.A. dos 80 e a distopia do RanXerox.

Agora apresenta este um belo trabalho sobre um homem que recupera consciência do seu sono criogénico a bordo de uma nave especial. A Inteligência Artificial não consegue reparar o problema e Kemmings vê-se obrigado a manter-se acordado mas fisicamente paralisado durante dez anos da travessia sideral. Como a maior parte da obra de Philip K. Dick (1928-82), este conto questiona o que é ser humano e o que é a realidade.



Feedback 

O isolamento criativo dos autores, mesmo numa cena incipiente como a portuguesa, poderá dar francos frutos. Num curto período, o elusivo Nunsky, que havia apresentado uma fulgurante mas fugaz novela com 88 (...) há 20 anos, regressou para apresentar toda uma bateria de trabalhos acabados, coesos, densos, inteligentes e graficamente vincados, cada qual com a sua própria personalidade de humor, género, tradição, e exigência de leitura. (...) Apesar do tema ser claramente a do cerne que torna um ser humano tal coisa, isto é, a teia da identidade, a verdade é que as implicações filosóficas mais tipificadas de Dick não deixam de se fazer sentir imediatamente. (...) A adaptação do conto pelo autor português é fiel, precisa, quase extrema, quase ipsis verbis, mesmo, (...) Apesar dos desenhos de Nunsky serem reconhecíveis como tal, com a sua austera e sólida figuração, notar-se-á de forma evidente que a assinatura do traço acompanha um registo distinto daquele de Erzsébet e de Nadja, seguindo métodos de artes-finais particulares. O uso de linhas paralelas para marcar as sombras, a oscilação entre momentos melodramáticos, de poses estáticas e construções simbólicas – a recorrente apresentação simultânea do rosto de Kemmings tal qual no seu semi-sono criogénico e a sua consciência interna acordada (usada de forma excelente e retro-psicadélica na capa) - , faz recordar muitas das assinaturas clássicas que emergiram nos comics de terror e de ficção científica da EC Comics (...) Em 41 pranchas, a densidade intelectual de Dick (chamar isto de “ficção científica” somente é falhar o alvo) e expressiva de Nunsky unem-se para apresentar uma soberba novela. 
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Melhores livros de BD de 2016: Nunsky é cada vez menos um cometa na BD nacional, (...) afirmando-se como um dos mais relevantes autores no panorama nacional. Que se mantenha sempre presente. 
Gabriel Martins in Deus Me Livro
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(...) A obra é uma deliciosa inversão da IA perseguidora, trocando os papéis: quem inflige o terror é o protagonista a si mesmo. (...) Nunsky demonstra, uma vez mais, a sua qualidade, ao adaptar-se ao estilo e exigências da história, com uma cuidada estruturação da narrativa e uma adaptação de estilo. Nos momentos em que isso é exigido, o autor dança entre a sombra e a luz, num equilíbrio que já o caracterizava na adaptação da depravação de Erzsébet (...) Este autor português consegue a proeza de justificar o seu regresso, insistindo em ser um dos melhores a trabalhar na 9.ª Arte. 
Acho que Acho
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Nunsky trabalha de forma brilhante, com o traço grosso e o uso do negro a iluminarem com as suas qualidades opressivas
Jornal de Letras
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Nomeado Melhor Álbum, Argumento e Desenho no Comic Con 2017
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Nomeado Melhor Álbum, Argumento e Desenho nos Troféus Central Comics 2017
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Por onde anda este (bom) autor? (...) Ah, gostei também bastante da capa (incluindo a textura do papel).
Jorge Ferraz (por email)