sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

E o disco do ano é


Turba (New Approach) de Metadevice.

Já perdi a conta das edições de Metamachine, projecto que aparece no meio da pandemia covid, ainda mais porque apanhei uma edição especial deste disco que inclui um CD-R limitado, Atomization, no meio de tanto luxo editorial: capas e posters e capas e posters e capas e posters, dentro uns dos outros e não sei o quê que a dada altura já nem sei voltar a montar a edição como estava. Queixas? Não, o sentido estético é tão exigente como a música, deixando de haver diferença entre André Coelho músico e desenhador. 

São discos que tratam deste mundo que acaba com um soluço e não com uma explosão, dada a impotência de todos contra uma máquina fora de controlo mas que nos controla e dirige. O alerta vai para a desmaterialização do ambiente humano para um digital zombie. E se a música soa a contínuos electrochoques com títulos colocados por um gajo inteligente e observador não significa que tenha conteúdo político - é uma questão debatida, o ruído per se é político? Para libertar as dúvidas venham as vozes de Rui Almeida sacando as literaturas ambientais de Nathaniel West e Thomas Pynchon, moldam um retrato de 2021 e a nossa paradoxal miséria humana - voltem Situacionistas, estão perdoados.

Por fim, destaque ainda para duas produções portuguesas deste ano, a saber Chroma (Nau) do lisboeta Bernardo Devlin a acrescentar mais desnorte existencial e Ata Saturna (Lovers & Lollypops) dos Conferência Inferno que apesar de ainda serem uns Suicide e New Order mitrados, tem potencial para algo mais.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

João Paulo Cotrim, the Smartest Kid on Earth

 

(retrato roubado ao André Carrilho - título do "post" gamado ao Chris Ware)


Ontem 

Cotrim era um homem muito generoso e dos mais inteligentes que conheci. 

O seu lugar de Director da Bedeteca de Lisboa permitiu-lhe fazer tudo para mostrar uma Banda Desenhada diferente do mofo imundo que em que vivia. Já tinha mostrado, em parceria com Renato Abreu, como deveria ser a BD do futuro com a revista Lx Comics mas com a Bedeteca cristalizou o passado - recuperando Rafael Bordalo Pinheiro, Cottinelli Telmo, Carlos Botelho, Sérgio Luiz e Fernando Bento em monográficos mas também com a publicação de investigações sobre a História da BD portuguesa. Incentivou um presente-urgente com exposições estrangeiras da vanguarda europeia - Amok, Fréon, L'Association -, encomendando obras e livros, apoiando as fracas editoras que existiam na altura e os novos autores cheios de tusa recuperando para eles o título Lx Comics numa colecção de "comic-books", formato adorado na altura. Muitos dos nossos autores tiveram o seu primeiro livro publicado nesta colecção, logo eu e o Pedro Brito nos primeiros dois números e mais tarde André Lemos, Rafael Gouveia, João Chambel, Pepedelrey, Isabel Carvalho, Pedro Zamith e Francisco Sousa Lobo, citando apenas aqueles que foram/são associados nossos ou que publicamos com mais frequência. Houve mais artistas em 17 números!

O futuro também estava previsto, uma Bedeteca que seria um centro cultural. Tudo estava preparado com toda uma nova geração de artistas e editores a produzir obras do seu tempo. Depois, foi tudo à vida, lentamente, perdoem-me o pudor místico, voltando a BD a algum retrocesso dos anos 90. Nem tudo regrediu, havia mais agentes em marcha, felizmente.


Hoje

Se o Presidente o homenageia, aposto que ele nem sabe o que é uma Bedeteca - nunca o vi a frequentar uma. Se há centenas de artistas e escritores a relembrarem Cotrim nas suas redes sociais, por outro lado, muita da gente da BD ignora-o. Não sabem o que ele fez e temo, dado que a cena é reacionária, que deverão arrotar postas de pescada imundas em breve. Talvez o silêncio ou ausência de discurso dos ditos amantes da BD seja uma benesse. 

Na BD portuguesa, um lado estranha Cotrim e do outro (público em geral ainda) se estranha o que é a BD. Só José Marmeleira no Público soube escrever sobre um Cotrim equilibrado nos mundos da imprensa, literatura, edição e "bonecada" - será que ele gostava do Jimmy Corrigan? Não me lembro... Só me lembro da sua cara de gato traquinas.

Hoje, a actual "gestora" da Bedeteca de Lisboa, a Junta de Freguesia dos Olivais, anunciou que vai fechar o equipamento para obras. A coincidência não poderia de ser de pior gosto, ou digna de conspiração cósmica. Espero, no entanto, que seja um bom sinal para tratar da incúria e desinvestimento de uma década da Câmara Municipal de Lisboa e da dita Junta em relação ao palacete "farsolas" (assim Cotrim referia o Palácio do Contador-Mor) e ao seu acervo. Veremos...


Amanhã

Gostaria de ser mais optimista mas o que tenho visto do lado da cena da BD, o trabalho de Cotrim cairá em ignorância, como toda a Cultura em Portugal. Se se recuperam certos autores de outras áreas artísticas aqui e ali, na BD tudo é fatal e no máximo aposta-se no R.B. Pinheiro ou no Stuart. O resto não parece interessar a mais ninguém. 

Para que serve uma Bedeteca no século XXI? Para combater a ignorância sobre e do próprio meio. Cotrim, o "rapaz mais esperto do mundo" já o sabia há 25 anos atrás.


Marcos Farrajota

sábado, 25 de dezembro de 2021

a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal a todos um pai natáaaaaaaaal



Precisamente um ano após a Chili Com Carne e a rotten / trash terem iniciado a série mais impactante do mercado musical português - servindo os Braille Zero de "Gatilho" - chega-nos agora a derradeira compilação desta Natalixo! 

NAU 25 - É ISTO QUE EU CHAMO DRONE NATALÍCIO contém os melhores temas natalícios alguma vez publicados, ideais para se ouvirem no aconchego familiar do seu lar e ajudar à sesta colectiva para que este dia 25 de comunhão e jubilo natalício passe o mais rapidamente possível para todos. 

Já não terá que aturar as piadas machistas do tio depravado ou a conversa da treta com factos altamente duvidosos dos avós fachos, basta apenas adquirir este singelo minicd que tudo ficará resolvido após uma soneca relaxante ao som de drones de canções populares como A Todos Um Bom Natal e Mundo Encantado dos Brinquedos, autênticos hits da pequenada no shopping center, ou de versões aprimoradas dos projectos originais Shoetos & Pontapés, Arcanjos e Boy que ajudarão os mais graúdos a curar a bebedeira solitária neste dia tão especial.

🎅🎅🎅 Feliz Natalixo 2021 🎅🎅🎅

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Vaidade vinílica

 


Pior que fazer discos em vinilo só de um lado é fazer discos duplos que não suportam certos tipos de música que não foram feitos para esse formato. O Rock psicadélico e o Prog tiveram os seus dias de glória porque banalizou-se o 12", da mesma forma que a música Illbient, Drone ou Doom aproveitaram os 80 minutos dos CDs para construírem mundos de muitas horas sonoras. Estranho caso este da estreia de VeganovA  com Nogod in Sirius (-Belligeranza; 2020) na editora do nosso amigo DJ Balli, em vinilo é uma chatice de 15 em 15 minutos ter de mudar de lado do disco para ouvir um álbum que soa bem em digital, seja no seu bandcamp seja nos ficheiros fornecidos na compra do disco. Já se está a ver tudo, ou as faixas não cabiam num lado do disco ou ficariam muito comprimidas perdendo qualidade no som. Pois amigos, é por isso que os artistas tem de perceber de restrições técnicas ou essa é a razão dos editores ainda existirem, para canalizar a criação para a publicação. Enfim...

A música é um ambiental-sideral do mundo do quarto, "cosmosplotation" e inclassificável - de resto talvez em sintonia com o mini-hype que houve em volta do colectivo / editora Arte Tetra. Soa melhor em digital, fazer o quê? Demorei um ano a perceber isso por mais que babe ao abrir a capa e descobrir uma cinta de moebius:


Ó Fetichismo pela Mercadoria! Feliz natalixo! Que esta música vos ilumine numa das piores noites do ano.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

a CCC está com o MAL


+info sobre o MAL

Nos baldios deixados ao abandono pelos grupos editoriais hegemónicos nasceram algumas editoras que aí instalam os seus enxovais e produzem livros com propostas diferentes — no conteúdo, no grafismo, nos meios de produção, na distribuição, no discurso e nas práticas. 

O MAL pretende tão só cultivar um espaço de respiração para o que ainda sobrevive no terreno devastado pela monocultura intensiva do livro. 

Em contramão à uniformização operada pelos cartéis editoriais, que produzem objectos-livro cada vez mais indistintos entre si, estas editoras que se apresentam no MAL ocuparam o espaço destinado à invenção e ao risco, revelando que é possível editar livros que ainda se esquivam a partilhar prateleiras com blocos de notas, porta-chaves de cortiça, sardinhas de faiança e peluches do Camões. 

Da poesia à prosa, da banda desenhada ao ensaio, da fotografia à ilustração, com hibridismos pelo meio, tudo isto mal cabe no MAL.

Da nossa parte teremos o novo livro de Francisco Sousa Lobo!!!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

E no Porto...


Tal como no ano passado estamos no Perímetro representados pela Senhora Presidenta!

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

A Fábrica de Erisicton // ESGOTADO

 


O fanzine Mesinha de Cabeceira voltou numa onda de "back to the basics" após cinco anos de ausência. Este retorno às origens humildes de uma tiragem baixa de 100 exemplares, como fanzine / zine / perzine (riscar o que não interessa), tal como em 1992 (ano do primeiro número) tem a razão de ser para dar voz a autores desconhecidos / novos / fora de qualquer radar (riscar o que não interessa).

Começamos com A Fábrica de Erisicton de André Ferreira que é uma BD eco-psicadélica inesperada sobre a destruição do Alentejo pelas culturas super-intensivas que se praticam. O grafismo é tão naíf como visionário, com poucos sítios para segurarmo-nos se não fosse o facto da mensagem ser tão desesperante. O aviso já pouco serve, o Destino está traçado, como se vê nestes anos estranhos que vivemos, em que nada mudou em termos de atitude ecológica, a borregada quer é viajar e poluir. 

Resta-nos estes pedaços de arte colorida e imaginativa em singelas 24 páginas. 
Obrigado André!



Mesinha de Cabeceira #29, edição da Chili Com Carne, Abril 2021, 24p a cores 18x25 cm, capa a cores, 100 5 exemplares.



ESGOTADO, ainda devem encontrar exemplares na Kingpin Books, Linha de Sombra, Neat Records, Snob, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia, Alquimia e na ZDB.



sobre o autor: faz música sob o nome de Goran Titol - que poderá participar este ano numa colectânea da nossa série Música Portuguesa a Melhora-se Dela Própria -  animação em técnica de "stop-motion" com ajuda da Mãe Natureza e é autor da BD tendo participado na antologia Venham +5 e com o livro a solo Ouro Formigas (2013), ambos publicados pela Bedeteca de Beja.


 FEEDBACK: 

Panfleto libelo anti-destruição da natureza em nosso torno, disfarçado de reconto mitográfico psicadélico (...), breve passeio alucinado que deveria antes servir de guia para redescoberta da nossa paisagem e manual de instruções para a sua recuperação... segundo a Tinta Nos Nervos


Entrevista no P3 / Público

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Centro de Cópias


Bela k7 que saiu a How nature speaks de Superalma Project pela editora do momento Rotten// Fresh. Embora ouvir isto pense sempre inevitavelmente em Fire-Toolz não fosse a mix feita de Vaporwave, Black Metal, Jazz e IDM num caos pensadinho. A desvantagem será que tudo é colagem e não performance, ao contrário de Fire-Toolz que sempre toca uma beca. Por outro lado no século XXI ninguém quer saber de virtuosos para nada - é de cagar a rir quando miúdos perguntam se os desenhos do João Maio Pinto são feitos a computador - interessa sim copiar bem o excesso de informação nem sei bem para quê... Quem o faz sabe? A capa revela a música, o bibelô surpreende mas a dada altura cria repulsa pelo cansaço do exagero digital - embora eu daria tudo para ter um bibelô assim em casa, claro! Tarefa cumprida, siga, qual a próxima edição?

domingo, 12 de dezembro de 2021

O belga e a monstra

 

A grande Parangona - graças ao Tasco do Natxo - pariu um rato de público. Infelizmente e que fazer quando a razão do evento é a que sofre por causa da sua animação paralela? Triste...

Positivo só algumas compras feitas no evento como este El Hoebrelobo & La Momia (Mamá Press; 2021) do brasileiro Eduardo Belga. Um "split-book" de pura escatologia e auto-mutilação Gore de quem sabe desenhar o que lhe apetece incluíndo humilhações sexuais e um atropelamento violento contra um carro, por exemplo. Impressiona à primeira vista e à segunda.

A distribuição está a cargo do nosso amigo Prego. Perguntem-lhe por este título editado em Espanha e redigido em castelhano



Outra que impressiona é o primeiro número de Incandescente (2021) de Mariana Pita. Por duas razões, a primeira porque ela revela um estilo de desenho que poderia (pode!) desafiar a qualidade de qualquer "comic-book" americano - Image bullshit, etc... - e porque por isso mesmo, habituados ao estilo "fofinho" e naive de Pita, de repente somos confrontados com um estilo "realista" de uns X-Men do século XXI - só falta o estúdio de cor digital para ficar tal e qual.

Deve-se a mudança - não é mudança! - de estilo porque como já escreveu o Tommi Musturi a forma ou estilo deve acompanhar a mensagem / conteúdo da ideia. Como Pita quer fazer uma BD de uma "Magical Girl" então desenhou de forma mais naturalista. 

Nota negativa apenas são as poucas páginas que deixam saliva no leitor e se a Pita não concluir a "série" toda tenho a certeza que vai haver revoltas nas ruas, quedas de governo e carros incendiados! A sério!

sábado, 11 de dezembro de 2021

MAXIMUM TROLL-ON de BENJAMIN BERGMAN @ Fábrica Features


Maximum Troll-on por Benjamin Bergman editado pela MMMNNNRRRG

Troll On é uma BD de dois elfos e um cavalo metidos em várias aventuras que devem mais aos Freak Brothers ou aos Blue Brothers que ao Senhor dos Anais ou a Guerra dos Cornos ou lá o que é. 

As BDs são mudas mas canta-nos as aventuras destas personagens fantásticas entre ácidos e Sword & Sorcery, cogumelos mágicos e ZZ Top, MDMA e Conan, o BárbaroComparando com muita freakalhada da produção contemporânea como o Matthew Thurber ou Joe Daly, que parecem sempre pálidas imitações de Gary Pather, venham antes para este livro. 

Ele rocka prá caralhu!

Benjamin Bergman quando era puto deve ter absorvido demasiado desenhados animados e bonecada em PVC, daí ser um autor do famoso atelier de Helsínquia Kutikuti. Já nos visitou em 2009 numa Feira Laica na Bedeteca de Lisboa (2009) e até sobreviveu até hoje um mural seu na entrada da biblioteca, feita colectivamente com Tommi Musturi, Jarno Latva-Nikkola e Tiina Lehikoinen. 





 108p TODAS a CORES e MUDAS (sem palavras) 12,5x17cm. edição brochada. Tiragem de 666 exemplares, publicado pelo autor na Finlândia e pela MMMNNNRRRG em Portugal - para cá estão disponíveis apenas 333 exemplares. Este 43ª volume da MNRG foi possível graças ao apoio do FILI - Finnish Literature ExchangeEsta série foi originalmente publicada em quatro fascículos pela Kutikuti e Boing Being, entre 2008 e 2013.

capa do primeiro fascículo

Livro distríbuido pela Associação Chili Com Carne
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à venda na Linha de Sombra, Tigre de Papel, Tasca Mastai, Utopia, Mundo Fantasma, Matéria Prima e LAC, Kingpin BooksBdMania, Nouvelle Librarie Française, Sirigaita, Snob, Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristóvão), FNAC, Fábrica Features, Bertrand, Rastilho and... Floating World  and Quimby's (USA), Just Indie Comics (Italy), Ugra Press (Brazil) und Big Brobot (Berlin)



Historial: 

Lançamento do Festival de BD de Helsínquia 2018
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Lançamento português no 8º Necromancia Editorial no Milhões de Festa no dia 7 de Setembro como os CIRCLE como "banda sonora"
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Autor presente nos dias 1 a 3 de Novembro na BD Amadora 2019




Feedback:

(...) extravasa a concepção clássica de BD, aliando as técnicas da ilustração ao mais puro expressionismo pop.
Time Out (Lisboa)

Num registo gráfico só aparentemente infantil, o autor finlandês Benjamin Bergman cria histórias em banda desenhada onde ecoam referências populares como os ZZ Top ou a série Conan, o Bárbaro, sempre atravessadas por um psicadelismo desencantado onde a acidez omnipresente parece dever tanto às substâncias químicas como à ironia mais aguda.
No final dos anos 1970 e depois 1980, existiam bonecos de PVC com cores garridas de todas as séries de animação, banda desenhada e outras. Tendo todas o mesmo tamanho, era prática comum guardá-las no mesmo local e não haveria quaisquer limitações a, quando se brincava, criar crossovers. O Estrumpfe de óculos e o Marco da Montanha podiam perfeitamente juntar-se para dar cabo do Flip, da Abelha Maia, enquanto o pai do Vickie e Willy Fog faziam apostas. E havia uma certa beleza em tê-los simplesmente empilhados, onde as formas de plástico e as cores garridas se misturavam num padrão promissor, numa espécie de alucinação visual sem drogas e confortavelmente caseira. Folhear Maximum Troll On partilha dessa energia.

Tommi Musturi @ Todas as Palavras



Todas as Palavras: Ana Daniela Soares e Inês Fonseca Santos apresentam os livros e os autores que nos emocionam - como o Tommi Musturi!!!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O livro mais "todo público" da Chili Com Carne: "Bottoms Up" de Rodolfo Mariano - Vencedor dos 500 Paus 2020



Bottoms Up 

de


- obra vencedora do concurso interno Toma Lá 500 Paus e Faz uma BD! de 2020 - 


64p. a cores 18x24,5cm 
500 exemplares


à venda na nossa loja em linha e na BdMania, Kingpin, Linha de Sombra, Matéria Prima, Mundo Fantasma, Senhora Presidenta, Snob, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia, Fábrica Features e ZDB.


Sinopse: Depois de uma longa viagem, o Simão chega finalmente à grande cidade cheio de sonhos e motivação para vencer na sua nova vida. Apesar do transtorno de ansiedade generalizada e introversão natural de que padece, o Simão depressa conquista o coração de alguns amigos e amigas que o vão acompanhar numa aventura improvável de desfechos imprevisíveis.







Historial:

Lançado oficialmente e virtualmente na Tinta nos Nervos, 31 de Outubro 2020 com conversa com Pedro Moura



E para quem não percebeu o objecto:







FEEDBACK

o livro do Rodolfo Mariano só têm um problema, um gajo fica a pedir por mais, não me importava nada que tivesse 600 páginas.
David Campos (via email)
 
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Obra seleccionada na Bedeteca Ideal

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Leiria sabe


As edições vão estar na Feira Torta, em Leiria, através da Paperview... Leiria sabe que não vale a pena fazer uma feira de edição independente que obriguem os seus editores exaustos dos dias de trabalho a ficarem mais de oito horas a apanhar seca como foi este fim-de-semana na ZDB (vulgo, o Tasco do Natxo).

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

ccc@Museu.Bordalo.Pinheiro


O Museu do Bordalo Pinheiro - o pai da BD portuguesa, mother-fucker! - organiza um mercado de BD e ilustração e nós vamos. E aproveitamos para apresentar no dia 12 de Dezembro, às 15h, o Hoje Não da Ana Margarida Matos porque merece a filhota! 

Vovô Industrial

Este EP 7" dos Los Humillados, Rua do Gin, The Barbie Lovers e HIST (Grabaciones Góticas + Facadas na Noite; 1990) é um pedaço de história curiosa. Raramente naquela altura, em Portugal, havia edições em vinil de bandas underground e aponta que houve uma altura em que existia algum intercâmbio cultural com os nossos hermanos e que fez fade out nos anos 90 - hoje nenhum dos dois países se interessam pelo que passa num ou no outro país, tristeza...

"Os espanhóis humilhados" soam a escuteiros à fogueira com vontade de suicídio. Rua do Gin é uma desilusão pois esperava uma réplica de um dos temas mais selvagens de sempre do Rock tuga - refiro-me a Rebeca no primeiro volume das colectâneas bracarenses À Sombra de Deus - aqui parece apenas um Pop bizarrito. Os catalães "amantes da Barbie" parecem ter vozes distorcidas de Frank Zappa com um Industrial light e nerd. Por fim, Hist é EBM em speed com samplagem repetitiva como era normal na altura porque a tecnologia era primitiva - queria ver os Rotten / Fresh e afins a fazerem música com os programitas da altura!

Agora que um espectro de música menos convencional começa a ser descoberto, percebendo-se que em Portugal a década de 80 não foi só Mão Morta, Pop Dell'Arte e a Ama Romanta mas que existia outras editoras e projectos com perfis mais "radicais" para uma sociedade portuguesa estagnada, este EP tem também o seu encanto gráfico e sonoro. Co-edição de duas editoras, uma portuguesa e outra espanhola, cada uma a editar dois projectos dos seus países, aparece com uma capa dourada porque, de certeza, os espanhóis adoram coisas que brilham e com o grafismo que está ao nível europeu do que se fazia na altura na onda Industrial - aliás este tipo de música sempre esteve sempre mais nivelado ao que se fazia no resto do mundo do que os outros géneros de música cá em Portugal, gostaria de perceber porquê um dia! Problema é o som que está baixo mas há uma razão, a "master" foi enviada para a fábrica em Espanha e os CTT perderam a dita cuja. Ao que parece o disco já estava pago e algo tinha de acontecer, senão era dinheiro para o lixo. Resultado, pegou-se numa gravação inferior que existia e gravou-se este vinil. Narrativa curiosa de amadorismo e independência que acontece frequentemente nestes meios, sem razão para humilhação pública, diria até pelo contrário, é uma glória perante as dificuldades de um mundo pré-digital. 

Por falar em HIST, foi reeditada a k7 desta banda de Setúbal, na actual segunda vida da SPH. O livrinho de letras e imagens está um mimo, diga-se.

The Greytest Hi$t 1983 85 são uns 15 temas de puro lo fi muito antes de se rotular de Industrial ou Experimental ou Electrónico - hoje diria-se post-punk, suponho eu. Lembra sobretudo Tuxedomoon talvez pelos ritmos esquizóides com guitarras angulares, uivos e o contínuo musical que não sabemos bem para onde nos leva.

É penoso q.b. ouvir estas gravações, a não ser que sejam freaks do lo fi, claro, o que aliás demostra o quanto os nossos ouvidos e cérebros já foram higienizados pela perfeição do digital. Mas é uma questão de hábito e desprogramação afinal a História não pode ser dos vencedores, não pode!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Einstein, Eddington and the Eclipse. Travel Impressions @ Non-Fiction Comics Webninar #1



1 ECLIPSE / 5 COUNTRIES / 2 LANGUAGES /
A WEB OF KNOWN AND UNKOWN PEOPLE, ANIMALS PLANTS AND ENVIRONMENTS / CRAVINGS FOR STRAWBERRIES 


Einstein, Eddington and the Eclipse. Travel Impressions integrates an essay by Ana Simões and a graphic novel by Ana Matilde Sousa.

 The essay analyses the scientific, social, political and religious aspects of the two British expeditions, which headed towards Príncipe and Sobral to observe the 1919 total solar eclipse, and test Albert Einstein's light bending prediction. 

The graphic novel takes excerpts from A.S. Eddington's correspondence as a starting point for a graphic narrative of experimental and impressionistic contours.




248p (128p full color) 18,5 x 27cm
 ISBN: 978-989-8363-41-1

BUY at our online shop or at Quimby's (USA)


History of the book:

Sample published in Polish magazine Zupelnie Inny Swiat

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Non-Fiction Comics Webninar #1 - user code 5269827455 - Wednesday, 8th December at 17h.





(...) Ana Matilde Sousa (better known in the world of comics by the pen-name Hetamoé) took the correspondence exchanged by Eddigton with his mother, sister and the Lisbon Observatory to recreate visually this famous trip. Her collection and processing of digital images, as well as her explorations with the printing and inking of these pages, emerge in a very impressionistic and unique graphic story. It’s for sure one of the most beautiful pieces of comics imagery we had this year, giving us a sense of what this voyage could have been like and the feelings experienced by the participants.

(...) exciting, experimental recent release in Portugal (...) Einstein, Eddington and the Eclipse: Travel Impressions by Ana Simões & Ana Matilde Sousa combines a text essay about the 1919 total solar eclipse with a graphic novel interpreting and transforming excerpts from scientist A.S. Eddington's letters.
Paul Gravett in FB

(...) it fits the definition of a “travelogue” in both the broadest and strictest sense — but it’s so much more than that, as well, taking in the sights, sounds, feelings and textures of his journey to create a kaleidoscopic whirlwind that explores the very act of exploration itself, as well as its sub rosa “ripple effect” ramifications on people, places, animals, and even inanimate objects. If I said I’d experienced anything quite like it before I’d be lying, and I say that as someone who reads a hell of a lot of comics. 
 Stated plainly, then, I can’t recommend this book strongly enough (...). If I’d been aware of it when it first came out (my bad!), it would have most certainly landed a spot on my “best-of” list for that year — instead, it’ll have to settle for a spot on my “best-of” list of all time.

(...) This book is a true jewel, to be recommended to historians, to scientists, and to the broader public alike, and in particular to those who are fascinated, as I am, by the powerful imagery of graphic novels — particularly when they are so deeply rooted in historical knowledge as is this wonderful book. 
Jürgen Renn (Max Planck Institute for the History of Science) in Centaurus

Einstein, Eddington e o Eclipse. Impressões de Viagem @ Non-Fiction Comics webinar #1


Einstein, Eddington e o Eclipse. Impressões de Viagem 
por
Ana Simões (ensaio e argumento) e Ana Matilde Sousa (banda desenhada)

oitavo volume da colecção LowCCCost, uma colecção de livros de viagem ... para quem gostar de viajar sem apanhar transportes e gastar dinheiro!

Elaborado no âmbito do centenário do eclipse de 1919, este livro está associado à exposição E3 — Einstein, Eddington e o Eclipse e está dividido em duas partes (ensaio e banda desenhada), ambas bilingues, português e inglês, as duas principais línguas usadas durante a expedição. 

A banda desenhada toma a correspondência de Arthur Eddington trocada com sua mãe, irmã e o Observatório de Lisboa antes, durante e após a sua expedição à Ilha do Príncipe para estudar o eclipse solar total de 1919, como ponto de partida para uma narrativa gráfica de contornos experimentais e impressionistas. Focando-se na teia de actores humanos e não-humanos envolvidos nesta expedição – pessoas conhecidas e desconhecidas, animais, plantas, factores ambientais e afetivos – a BD, que também compila alguns documentos da exposição, estabelece uma relação intertextual com o ensaio teórico sobre as implicações científicas, políticas e sociais dessa viagem cujos resultados confirmaram a revolucionária teoria da relatividade de Einstein. As “impressões” da viagem assumem um duplo significado, referindo-se ao relato de Eddington por palavras e às marcas nas páginas, alusivas à presença material dos lugares visitados.

248p (128p a cores) 18,5 x 27cm, capa a cores com badanas 
 ISBN: 978-989-8363-41-1

à venda na nossa loja em linha e na Tinta nos Nervos, Tigre de Papel, Kingpin Books, Mundo Fantasma, Matéria Prima, Utopia, Linha de Sombra, STET, BdMania, Tasca Mastai, Vida Portuguesa, Bertrand, Palavra de Viajante, FNAC, Sirigaita, Snob e Alquimia.






Historial: 

apresentado no CIUHCT a 19 Dezembro 2019 
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apresentação virtual em V/Ler BD 
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Artigo no Público
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excerto publicado na revista polaca Zupelnie Inny Swiat
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Boa crítica por Jürgen Renn (Max Planck Institute for the History of Science) na Centaurus
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Participação no Non-Fiction Comics Webninar #1 - user code 5269827455 - quarta-feira, 8 Dezembro, às 17h.




Feedback

(...) narrativa de enorme intensidade emocional (...) Eis um livro de viagens com vocação renascentista (...)
Sara Figueiredo Costa in ACERT

(...)  O encontro entre Hergé e Lovecraft tem perfeitamente o seu papel num livro sobre uma conclusão feliz da observação da ciência. 
 Livro desafiador que estende as condições de produção e o modo como a banda desenhada dialoga com o mundo, bem para além do veículo de ficção de género ou de narrativas dominadas a que a maioria das suas prestações nos habituou, Einstein, Eddington e o Eclipse poderá vir a tornar-se um exemplo maior da verdadeira inter- e transdisciplinaridade.
Pedro Moura in Ler BD


Além da notável originalidade da junção de dois registos – um científico e outro artístico, neste caso a história da ciência casa-se com a “nona arte”, que costumam andar apartados, - a obra é também original pela sua rara qualidade. O ensaio, que foi pensado tendo em conta leitores desconhecedores da matéria, sendo claro, é absolutamente rigoroso, indicando as fontes para os factos relatados (...). Na banda desenhada, delimitada pelos registos epistolares ou diarísticos, a imaginação já voa, mas o registo não deixa de ser rigoroso: vê-se que a artista se procurou documentar sobre os cenários que descreve visualmente, tendo consultado o material fotográfico disponível. Fugindo ao realismo, faz-nos entrar na atmosfera da época.
Carlos Fiolhais


Voltando ao que melhor li de BD feita por cá (...) Trata-se de um livro composto por um ensaio da historiadora e professora Ana Simões e uma banda desenhada da artista Ana Matilde Sousa. (...) Gosto muito de ver este tipo de parcerias, bem como das explorações gráficas desenvolvidas aqui pela Ana Matilde Sousa, mais conhecida nos meandros da BD por Hetamoé. Conheci-a no Clube do Inferno, esse conjunto de enfants térribles cheios de garra e vontade em fazer BD, e desde aí que tenho tentado seguir o seu trabalho. Aqui conquistou-me logo nas primeiras páginas com esta BD impressionista. Muito trabalho interessante na forma como trabalha a cor e também a fotografia, tudo para nos ir dando uma imagem/ sentimento da viagem de Eddigton (usando como base a correspondência que o cientista trocou com mãe, irmã e o Observatório de Lisboa).
Gabriel Martins via Facebook

 



Einstein, Eddington e o Eclipse é magnífico! (...) tirei a barriga cerebral da miséria.
Rodolfo Mariano (via email)

sábado, 4 de dezembro de 2021

Lodo gaitinhas



Mulk / Golem of Gore / Nyctophogia / DJ Balli 
(Still Fukin Angry + DDP; 2021)

Queria ver se o Malefic não ia chorar como um menino numa ressonância magnética. Ia lacrimejar-se (mijar-se!) todo porque aquilo é um sarcófago de boas intenções para descobrir as maleitas, que servirão para um diagnóstico e respectiva cura. Dentro do túnel do RM ouvem-se sons parecidos com esta split-tape que junta o francês Mulk, a dar no Cybergrind mas com toques de quem curte Breakbeat e Glitch sem nunca esquecendo The Berzerker; os italianos Golem of Gore são os mais óbvios desta grupeta da k7 com o seu Goregrind exposto em "gorefilia" e um interlúdio Giallo - mais italiano impossível!; o texano Nyctophagia é triturador com toques Death e nesta altura já é de tocar de botão de pânico dentro do túnel branco! O golpe final e para enlouquecer de vez na brancura clínica é dado pelos italianos DJ Balli e Ralph Brown que acabam a edição em grande com as suas duas faixas de Extratone - ou seja 1000 BPM para cima, são tantas as batidas que fazem um "tom", não, não um ritmo dançante bem "headbangeriano", apenas insanidade sónica e renascença. 

Os Atari Teenage Riot já tinha alertado para não acreditarmos na velocidade (ou nos "speeds", a letra é dúbia), eis a prova de que há limites técnicos e humanos no mundo sónico. Sobretudo, a k7 serve de treino pra quem almeja a terceira idade, quando o corpo começa a desfiar e a agenda começa a ficar cheia de encontros com médicos, análises e exames médicos invés de flirts, drogas recreativas e concertos em caves imundas. Nada pior pior para um Trve BM do que isso, pá, a Vida!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

CHILI com YUZIN


E vai ficar concluída a nossa colaboração com a agenda cultural açoreana Yuzin com uma "BD cadáver-esquisito" em sete partes, começada por Gonçalo Duarte, seguida por Alexandra Saldanha, a dupla (açoreana, yo!) Francisco Afonso Lopes e Francisco Lacerda, Rodolfo MarianoDois Vêsgato mariano Tiago da Bernarda e concluída por Mariana Pita.

ccc@Parangona


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terça-feira, 30 de novembro de 2021

Novos Opuntias

 


Nestes anos de pandemia é absolutamente incrível ter assistido ao quase desaparecimento da cena gráfica portuguesa, isto apenas porque deixou de haver eventos de edição independente ora cancelados ora eternamente adiados. Ou seja, sem esta "distribuição" a cena não existe porque os seus editores não souberam na última década pensar fora do baralho - com excepções que confirmam a regra. A maior parte da produção portuguesa publicada em estruturas estrangeiras - antologias ou livros a solo - e houve claro os velhos da cena aguentaram-se em actividade: a Chili Com Carne, claro, mas também o Fojo, Imprensa Canalha, o Rudolfo a insistir nos Musclechoos mas também os recém-chegados Bestiário (com o livro do André Coelho) e o regresso da Opuntia. 

E eu é que regresso sempre aos Opuntias porque vale bem a pena, num mundo de espaço virtual infinito mas que não passa de um depósito de "likes" e chi-corações, é importante ocupar electricidade e pixels a divulgar projectos de qualidade, aliás, havendo este fim-de-semana a Parangona, largue o smart-phone assassino e ide lá gastar dinheiro neste projecto editorial, sff. Eis as duas últimas novidades: 

Ungodly Forsaken Place do seu próprio editor André Lemos, que parte a tradição dos formatinhos A5 do Opuntia. Pela primeira vez há um A4 que se explica pelo facto que os últimos desenhos de Lemos estejam mais detalhados e telúricos - viu-se este fim-de-semana na exposição no Homem do Saco - impondo um formato maior e de maior legibilidade e presença física. Assim temos uma edição tesuda de imagens de animalário, acidentes e vivas naturezas, um "meltdown" premonitório que fez algumas pessoas cancelarem a viagem naquele barco chamado Titanic.

Repent! do finlandês Lauri Mäkimurto é uma mini-galeria portátil (não são todos os graphzines?) de pintura e desenho deste artista. Do seu imaginário diria que Palsa estará sempre presente mas também algo de Jukka Siikala na decomposição dos materiais representados. Aqui também há sonhos e fantasmas, cenas de arrepiar a espinha, se ela ainda existir.