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terça-feira, 18 de julho de 2017

Livros do contra

Apontamentos rápidos de vários livros de editoras independentes que tenho apanhado por aí...

Tudo indicaria que este seria o livro do ano mas Desobedecer às Indústrias Culturais (Deriva; 2017) de Regina Guimarães desilude. Metade do livro é uma análise acertada às ideias neo-liberais das "indústrias criativas e culturais" e sobre os desastres do Porto sobretudo por causa do merdas do Rui Rio e a gentrificação / disneylização da cidade - fenómeno que está atingir quase todas as cidades no mundo. Mas a outra metade é uma preguiça que só se justifica porque já se sabe que os poetas não curtem trabalhar. Então para encher chouriços Guimarães mete as (poucas) respostas a um questionário que fez a grupos "do contra" que só dizem leviandades para despachá-la. O pior, é que nada é dito COMO desobedecer! Não que um gajo queira uma cartilha de (des)obediência mas pelo menos entender o que fazer num cenário tão complicado em que vivemos. Já se sabe que quem trabalha neste meio independente artístico e cultural (sobre)vive cheio de contradições e paradoxos, justamente por isso é que merecia mais análise e discussão, não basta manda uns bitaites a soar a ressabiado. Shame on tha hippie!


Prosa poética feminista-queer pós-25 de Abril é a forma mais fácil de apresentar Lábio/ Abril (Traveller + Presente; 2015) de Daniel Lourenço - o nosso "agente provocador" quando apresentamos publicamente o livro sobre o Queercore do Camarada REP. Para simplificar ainda mais, ou para ficar mais angustiado, é escrito que foi dito no 25 de Abril que "a revolução não foi feita para prostitutas e homossexuais reivindicarem" - General Galvão de Melo dixit. Com isto, nada melhor que uma revanche literária dedicada a todos que ficaram excluídos da "democracia". Mesmo que se possa dizer que no máximo este bandalho de militar poderia estar ser reaccionário de forma meramente coloquial (seriam as prostitutas os vendidos? e os homossexuais os covardes?), convenhamos, a declaração serve na mesma para posicionar as mulheres e queers num cantinho sossegado e servil em 1974. Sendo data zero da nossa actual sociedade então este servilismo ainda está presente em 1984 ou 2014. Lourenço escreve contra um evento político feito de espingardas e pilas (os standards mentais dos militares) onde nitidamente precisava de mais cus e de conas. Imaginem como seria Portugal se o Mário Soares fosse gaja, o Eanes paneleiro ou o Pinto Balsemão transgender? Teria sido um país bem melhor, sem dúvida...


A Grain of Sound além de ter voltado e continuar a lançar música experimental de qualidade (um dos melhores discos de sempre foi feito por eles - este), agora mete-se nos livros! Já antes - há muito tempo - tinha uma revista em linha, a Sonic Scope Quartely, que mostrava que não brincavam em serviço. Cinza (2016) é um livro de fotografia de Nuno Moita mas para os puristas não será nada disso. As fotografias tiradas entre 2009 e 2016, em viagens a vários continentes, estão sobrepostas umas sobre as outras criando um caldeirão de cinzas que não permite fazer reconhecimentos de lugares ou de situações, como se espera da "realidade" da fotografia. Se calhar o que temos aqui é um livro de "foto-montagem" em que as cidades reais são transformadas em locais dignos do Blade Runner ou Neuromancer. O "cinza" da excelente impressão lembra que esse locais imaginados futuristas (mesmo que distópicos) deram lugar ao deserto do nosso século incapaz de ter uma visão de futuro mesmo que seja só para os próximos cinco minutos. O livro é acompanhado com um CD de Carlos Santos, tão nubloso como livro, sendo impossível não o considerar uma banda sonora. A voz da quarta faixa lembra os manifestos "this" do Rasalasad dos Antibothis... Hum, ladrão que rouba ladrão, mil anos de perdão.

Os portugueses continuam a ser uns broncos no que respeita à imagem. Prova disto é Fátima Kitsch : Outra estética (Fronteira do Caos; 2017) da Camarada Ondina Pires, um livro que deveria ser um "picture book" e não, é uma cagada digital... Depois de tratar do realizador maldito Kenneth Anger e o "rei do rock português" Victor Gomes, este terceiro livro de Ondina é sobre o "merch" que se produz naquele penico chamado Fátima. Para alguns poderá ser considerado oportunista lançar um título assim no ano em que se celebrou, com laivos de ecoterrorismo e acidente social, os 100 anos das revelações alucinadas dos três pastoritos. No entanto, conhecendo a autora, o interesse pelas santinhas de plástico e faiança é genuíno, a Ondina é uma coleccionadora nata, uma "nerd" pelo kitsch mais kitsch - não teria ela sido dos The Great Lesbian Show ou co-autora de fotonovelas com bonecada? Foi uma coincidência cósmica o livro ter saído por esta altura...
Feito de um texto simples e respeitoso, é explicado o kitsch, a criação e fabricação dos objectos de devoção a Fátima e para finalizar deveria ser uma galeria de fotografias da colecção de Ondina mas infelizmente as imagens são colocadas ao molho, mal impressas (impressão digital), com legendas pouco explicativas - aliás, nem são numeradas para indexar as referências no texto - e sobretudo mal-paginado sabe-se lá porquê! É preciso estar a rodar o livro centenas de vez para ver tudo como deve ser. A culpa, parece-me, é pelo facto de ser um "split-book" (de um lado em inglês e de outro em português) e por isso, talvez, os editores não quiseram colocar as imagens por uma ordem de leitura conforme se venha do lado inglês ou do outro. Assim colocaram todas as imagens na horizontal num sentido de quem vem do lado inglês e do outro de quem vem do português tornando-se num caos que dá jus ao nome da editora. É uma pena, este curioso acervo e extravagante conhecimento sobre o mesmo merecia ser melhor tratado. Diria que parece um livro da Paulus mas até estes emissários da ignorância fazem melhor...

Tonto (Ed. Valientes; 2017) é uma compilação de BDs, cartoons e cartazes para concertos punk do mexicano Abraham Diaz que também faz jus ao título... quanto à edição, antes demais, é excelente, o design de La Sanntera (aka, Camarada Lam López) melhora de edição para edição, julgo que se pode dizer que é um dos melhores designers de livros de BD do momento.
O conteúdo é divertido, desenhos porcalhões e tal, o grafismo é como se o estilo do Don Martin (da revista Mad) tivesse sido roubado pelo Vuillemin usando as "falhas" do Gary Pather. Tal como o Mike Diana quando foi para tribunal explicar os seus desenhos mostrou que o que fazia era por necessidade de deitar para fora os horrores da violência que lhe chegava pelos media e pela sociedade, também Diaz reage à ultra-violência da sociedade mexicana e deposita-nos em tanta merda sem sentido que se pode sufocar nela. A diferença entre os dois, é que o primeiro oferece ainda personagens inocentes, em que ainda se pode identificar naqueles bonecos toscos um bocado de humanidade que irá ser posta em prova com o Sade como Júri, em Diaz isso não acontece. Depois de fechar o livro, já não me lembro o que aconteceu de tão horribilis nas suas páginas...

Por fim, Comiczzzt! Rock e Quadrinhos : Possibilidades de Interface (Contato Comunicação; 2015) de Márcio Mário da Paixão Júnior - o granda-boss da Monstro Discos, Voodoo! e festival TRASH - é a sua tese de Mestrado, onde ele procura um interface entre o Rock e a BD.
Livro interessante que peca pelos trejeitos chatos da escrita académica - boooring - e pelo descuido gráfico do livro - nada de grave, como o livro da Ondina, mas percebe-se que quem o fez faltava-lhe amor pela coisa... Aprende-se várias curiosidades culturais no que respeita ao grafismo de discos ou sobre o underground comix dos anos 60, sendo que a procura de Márcio acaba por ir parar ao seu projecto musical, a banda Mechanics, mais concretamente no CD e o livro de BD Música para Antropomorfos de autoria do grande Fábio Zimbres - que assina uma bela capa, estragada pelo logótipo da editora, breargh... É este "making of" que acaba por ser mais incisivo pois se seguiram os "links" desta resenha já perceberam que a Música para Antropomorfos tem um conceito (e bom resultado, faça-se justiça!) muito interessante e híbrido. Food for brain!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

XVI Feira Laica


cartaz de Salão Cauboi

Nos jardins da Bedeteca: concertos, segunda mão, workshops de tipografia e claro editores independentes e artistas gráficos: A Estante, Ana Oliveira, Associação Chili Com Carne, Atac, Averno, zine B74, Blam Blam + Toys Are Evil, Dr. Makete, zine É fartar vilanagem + Dedomau + Antónia Tinturé, grupo Entropia, Fade In - Associação de Acção Cultural, discos F.Leote + Ana Menezes, Os Gajos da Mula + revista Detritos, Imprensa Canalha, Mike Goes West, Mini Orfeu, MMMNNNRRRG, autor Nevada Hill (EUA), Noori, Oficina do Cego, Opuntia Books, Pedranocharco, Quarto de Jade, Raging Planet, Reject'zine, Ruru Comix + Latrina do Chifrudo, Soft Porn Coloring Book, Thisco e zine Znok.

Novidades editoriais:
- Comboio da Noite (Mike Goes West), serigrafia de Jakob Klemencic
- Detritos 04, revista com o tema Terror / Terrorismo
- É fartar vilanagem! #3, zine de Alexandre Esgaio
- Grimm Portraits of Doom (Ruru Comix), zine de Conde Rudegrarrr
- Mass #3, zine de Nevada Hill
- O Pénis Assassino (MMMNNNRRRG, 2ª edição), livro de bd de Janus
- Putan Club (Mike Goes West), serigrafia de Igor Hofbauer
- A Segunda Vida de Djon de Nha Bia (Chili Com Carne), romance de Nuno Rebocho
- serigrafia de João Chambel (Mike Goes West)
- Simplesmente Rudolfo #1 (Ruru Comix), fanzine dedicado ao Rudolfo
- Soft Porn Coloring Book, zine de ilustração
- Souffle au Coeur, serigrafia de Miguel Carneiro
- To A stranger (Opuntia Books), graphzine de Tommi Musturi

Concertos:
Sábado:
Filipe Felizardo + Rudolfo nos jardins da Bedeteca de Lisboa durante a tarde;
Nevada Hill (violino + electrónica) com Pedro Sousa (saxofone), Nuno Moita (electrónicas) e Gabriel Ferrandini (bateria + percussão) na loja Trem Azul às 22h. DJing: unDJ MMMNNNRRRG (a confirmar)
Domingo:
Filho da Mãe + Nevada Hill (violino + electrónica) com R- (electrónicas), Travassos (electrónicas) e Manuel Gião (guitarra) nos jardins da Bedeteca durante a tarde.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Toing! Toing!

Mais ressaca Laica, esta mais virada para os campos experimentais.

Começo com o horror sónico de Resonant objects (Sirr-ecords; 2005) de André Gonçalves & Kenneth Kirschner. A explicação do projecto está neste link - objectos suspensos ressoam e esse som é processado - o resultado é puro "white noise" irritante durante 50 e tal minutos, em que o único momento de interesse é quando ao minuto 36 um tipo do público tosse - e mais tarde outro - dando um sentimento monty-pythiano à coisa. Serve este CD para registro da performance de uma exploração sonora, de resto também serve para irritar os vizinhos brasileiros ao fim-de-semana, o que é bom...

Dissolution (Fario; 2005) de Troum e Christian Renou enquadra-se na veia ambiental electrónica criadora de ligeiras opressões anti-new-age, drones misturados com restos de industralismo poético e que se prolongam por uma hora fantasmagórica. O francês Christian Renou inicia o "caminho para o céu", o alemão Troum acompanha-o nesse caminho até concluir a obra com uma peça de 27 minutos, IN-GALEIKON. Nada de novo para quem já tiver Coil na sua colecção de discos. De salientar a agradável embalagem (simples cartão dobrado e impresso com imagens fotográficas, formato ao alto) que me fez comprar o produto via Thisco.

Uma das pessoas com quem gostei falar na Laica foi o Nuno Moita, da editora de "freelectronica" Grain of Sound, pessoa bastante simpática e que me ofereceu dois CD's da "série mutante". A ideia principal é pegar numa peça com pouco tempo de duração, como o 747 de Noto ou Creamy burst de Rafael Toral, e usá-la para criar uma maior - mas tendo exclusivamente os sons da peça original como matéria-prima. Assim Etch, PL, Draftank e João Castro Pinto originam One mutant minute: based on Noto's 747 (Grain of Sound; 2003) enquanto Richard Chartier, Ent, Ian Epps, John Kannenberg, Stapletape, @C, Kim Cascone, Sawako, Blake Stickland, Pita e Allto exploram "35 mutant seconds: based on Rafael Toral's Creamy Burst (Grain of Sound + Baskaru + Fonoteca de Lisboa; 2005). No primeiro caso a maior partes da (re)composições assumem em média 15 minutos de duração, o que não deixa de ser curioso se a peça original só tem 1 minuto. Em regra, os sons são "minimalistas" e "concretos", ruídos de quotidiano electrónico alinhados em repetição estática. João Castro Pinto revela-se o mais audaz sacando um ritmo (funcional) seguído de ambientes (de) líquidos e Noise. O segundo CD, tem maiores variações de tempo (dos 3m aos 8m) e começa com a peça original do Rafael Toral para podermos comparar - o que é uma boa ideia! Mais próximo do conceito de "landscape" electro-acústico (a marca de Toral é difícil de suprimir) mas ainda assim há mais "biodiversidade" neste disco do que no primeiro: da barulheira à melodia, do white noise aos blips soluçados, do silêncio à irritação auditiva...

A Grain, além de editora de discos e uma revista PDF, Sonic Scope Quarterly, ainda organiza um festival de Freelectronica e Improv. Sonic Scope 04: the portable edition (Grain of Sound + Fonoteca; 2004) é a "versão caseira e transportável" da edição de 2004 onde vamos encontrar ainda mais ecletismo em relação às antologias já referidas. Além das experimentações & improvisações electrónicas que entram em óbvias referências e situações já ouvidas noutros sítios - é estranho falar em Música Experimental quando se seguem cânones - entram também projectos menos ortodoxos como as "baladinhas com loops" de Audiopixel (o mais sofisiticado), Davide Balula e The Patriotic Sunday, verdadeiros nenúfares depois da asfixia no lago do transístores torturados, acabando com beats contidos dos The Producers. Dos 18 projectos que enchem este CD destaco ainda Soundtrap, por nenhum motivo especial...


PS - de referir o óptimo trabalho de fotografia de Nuno Moita (também responsável pelas fotos do CD de André Gonçalves & Kenneth Kirschner)

Por fim, ainda temos Calenda (Rudimentol; 2006) que é mais um CD de barulheira e outros poemas Improv com um conceito engraçado de ter sido dado a cada participante uma faixa que representa um mês do ano. Sendo assim temos então 12 faixas com 12 autores: F.Leote, nalalana, Guilherme Proença, Miguel Cabral (mentor deste projecto, bem como do Nevermet Ensemble, dono desta interessante editora e que em tempos editou um zine de bd!), Rodrigo Magalhães, Iff + Travassos, Paulo Razoável + João Matos, Frango, Miguel Leiria Pereira, Pedro Alçada, João Silva + Carlos Santos e Emídio Buchinho. Como o projecto é apresentado: «um calendário ilustrado com as visões de vários autores sobre cada mês do ano. Da electrónica, passando pelos instrumentos convencionais, eléctricos e acústicos, até à samplagem ou às gravações de ambientes, tudo cabe neste calendário. Uma viagem sonora ao longo de um ano. Do ano que quisermos.» A faixa que gostei mais foi do F.Leote - não só porque o gajo é fixe! O Leote é fixe! - mas porque consegue fazer Noise com humor!