sexta-feira, 31 de maio de 2024

Deserto e Nuvem [edição regular já disponível na Vida Portuguesa]

1 claustro vazio em Évora
1 ordem católica de silêncio e solidão
1 inquérito espiritual
2 livros num só 
20 cartas sem resposta 
Muitas visitas do autor em dúvida
 
+

uma reedição
uma edição regular
4 novas páginas de intodução
 


 A LowCCCost é a nossa colecção mais mediatizada, premiada, com sucesso de crítica e público. Assim foi inevitável reeditarmos o "livro-duplo" Deserto e Nuvem de Francisco Sousa Lobo, originalmente lançado em 2017. 

Verdadeiro marco teológico que regista os últimos sopros da vida monástica dos monges cartuxos no Convento de Évora. Passado pouco tempo estes emigraram para Barcelona, mais próximos do IKEA e da praia. 

É também um verdadeiro marco na BD portuguesa por ter ganho os "Jedis da Bedófilia", isto é, os prémios dos principais eventos de BD em Portugal mas também surpreendendo noutras áreas como a do Design pelo seu aspecto "duplo" ("split") com um acabamento em acordeão a segurar ambos os livros. De um lado Deserto sobre a visita de Lobo ao convento e de outro Nuvem que ilustra 20 cartas sem resposta endereçadas a um monge cartuxo. 

Esta nova edição, que lhe chamamos de "regular" porque é uma encadernação brochada, lê-se em primeiro a BD Deserto seguida pela Nuvem e inclui, antes, uma BD (inédita) de introdução (de quatro páginas) do autor. Daí a inclusão de "e" entre os "dois livros", já não é opção ler um ou ler o outro em primeiro... 





 





Sexto volume da colecção LowCCCost editado por Marcos Farrajota com arranjo gráfico de Joana Pires e publicado pela Chili Com Carne.

192 páginas a 2 cores, 16,5x23cm, capa a 2 cores

Disponível na nossa loja virtual e na BdMania, Kingpin Books, Linha de Sombra, Matéria Prima, Snob, Socorro, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, A Vida Portuguesa, Utopia e ZDB.








+

HISTORIAL


Edição original lançada na Feira do Livro de Lisboa em 2017. 
...
Nova edição lançada no dia 11 de Abril de 2024 na exposição Paper Wraps Rock na galeria da escola Ar.Co., em Xabregas com a presença do autor (que reside em Inglaterra)
...
Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal
... 
Prémio Nacional para Melhor Álbum Português e Melhor Argumento pela BD Amadora 2017 
...
Melhor Álbum e Melhor Argumento nos Galardões Comic Con 2017
...
Escolhas de 2017 no Expresso
...
Melhores de 2017 no Máquina de Escrever
...
Melhores 2017 no La Cárcel de Papel
...
Best Comics of 2017 in Paul Gravett site
...
apresentação no Festival Literário de Berlim de 2018
...
exposição retrospectiva na BD Amadora 2018
...
Obra seleccionada para Best Book Design From All Over the World, da Stiftung Buchkunst, no âmbito do Prémio Design do Livro 2018 + exposição na Torre do Tombo (entre 14/11 e 31/12/18)
...
artigo sobre Cartuxos e o livro no Diário de Notícias
...





Deserto e Nuvem são obras de longo curso que examinam a forma de vida na Cartuxa de Évora, onde alguns monges resistem aos costumes do mundo, em absoluto silêncio e solidão. Serve este exame de pretexto para focar a própria natureza da fé humana, do apego às coisas do mundo, do que nos faz sentido. 

Deserto é composto de uma única narrativa centrada numa semana passada junto a Scala Coeli (escada do céu), que é como se chama a Cartuxa de Évora. É um livro quase jornalístico. 

Nuvem é composto de 20 cartas endereçadas a um monge cartuxo, e pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé – o extremo que sabe que Deus não existe, e o extremo que se contenta com absurdos.

+

Francisco Sousa Lobo (1973, Lisboa) vive em Londres desde 2005. Faz BD desde 1980. Estudou e praticou arquitectura durante dez anos. Agora trabalha em artes plásticas e banda desenhada, e não distingue já bem entre as duas coisas. Expõe em Inglaterra e Portugal. Estuda a nível de doutoramento (arte) em Goldsmiths College. Participou em vários jornais universitários, no Público e na Art Review. Também publica nas áreas da crítica artística e estética. 

 Na Chili Com Carne participou nas antologias Mesinha de Cabeceira, Zona de Desconforto e Pentângulo. Em 2013, o seu livro The Dying Draughtsman – O Desenhador Defunto inaugurou o romance gráfico na Chili. Em 2015 é lançado The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros, romance gráfico vencedor do concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD! e que já viu edição em Espanha e França. Em 2021 é lançado Gente Remota, um romance gráfico que toca nas feridas colonialistas portuguesas, trabalho ficcionado a partir de entrevistas com quatro ex-veteranos da guerra colonial. O seu mais recente livro, Cartas Inglesas, colige 14 ensaios visuais planeados entre Londres e Tormes (graças ao apoio de uma residência literária da Fundação Eça de Queiroz), e desenhados em Tormes.





... 

FEEDBACK
 

No caminho que levou a Deserto/ Nuvem, que se pressente longo e hesitante (a vários níveis), Sousa Lobo tenta construir pontes frágeis entre estes vários aspectos, como o harmónio de cartão que une os livros. E, sobretudo, procura acreditar nelas. Para além do fascínio com a vida e opções dos cartuxos, e os paralelos que o autor estabelece com a sua arte, este é sobretudo um catálogo de dúvidas sem resposta. Como se duas obras semi-falhadas ou incompletas se resgatassem e engrandecessem mutuamente pela união enquanto gémeas siamesas invertidas; o onirismo poético de uma elevando-se na realidade de um Alentejo moribundo e sem rumo da outra; a qual, por sua vez, ancora a anterior. Na sua construção inclassificável este é um excepcional trabalho de Francisco Sousa Lobo, com elogios extensíveis à Chili Com Carne. Seria uma pena se (como os trabalhos de autores como António Jorge Gonçalves, Tiago Manuel ou Diniz Conefrey) não passasse bem para lá do universo da banda desenhada e dos seus rituais.
João Ramalho Santos in Jornal de Letras

(...) Livro que "pode ser lido como uma resistência contra ambos os extremos que circundam a fé", por um lado o "que sabe que Deus não existe" e o "extremo que se contenta com absurdos".
Nuno Galopim in Expresso

(...) a mais fascinante experiência de leitura de banda desenhada deste ano.
There is no doubt that Lobo’s obsessive and proficient output is even more surprising for both its aesthetic and philosophical commitment. I’ve argued elsewhere that Lobo’s overall project touches an incredibly original and complicated autobiographical or auto-fictional project, but this double book (two titles, Desert and Cloud, bound back-to-back) ticks all the boxes of a straightforward autobiography. Lobo spent some time visiting Évora’s Carthusian Monastery of Santa Maria Scala Coeli, with the goal of creating a sort of ‘live’ comic project. Based on his observations, talks and theological discussions with the monks, Deserto explores issues such as isolation, silence and the relationship with God, which genuinely concern Lobo as an anxious, suffering Catholic artist (a pleonasm, I’m certain). Nuvem, on the other hand, takes the shape of short letters, addressing the history of the order and this monastery, as well as some of the concerns mentioned above. One half complements the other, reinforcing the themes and clearly making them an intrinsic ingredient to the artist’s recurrent obsessions.
Deserto/ Nuvem es realmente una maravilla de Sousa Lobo -¡qué difícil, un cómic sobre la espiritualidad!- y también una maravilla de edición. Os felicito! 
Max (Peter Pank, Bardin, Vapor) por email

Todos os anos vou como um peregrino ao Festival de BD da Amadora (que este ano foi entre 26 de Outubro e 11 de Novembro) para completar colecções, comprar novidades ou descobrir antiguidades, mas desta vez saí de lá mais surpreendido do que o costume com um livro: não levei só heróis habituais como o Corto Maltese, o Árabe do Futuro ou um Paul Auster no saco das compras, mas também monges de clausura visitados por um autor português com raízes no Alentejo que vive em Londres e tem dúvidas existenciais sobre Deus e a religião: Deserto/ Nuvem (editora Chili com Carne) é uma novela gráfica original. Primeiro, porque é dois livros num só, que começam em cada uma da capas, ou melhor, em cada uma das contracapas: Deserto é sobre as visitas do autor, Francisco Sousa Lobo, ao Convento da Cartuxa, e a relação com os poucos e velhos monges com votos de silêncio que ainda lá vivem; Nuvem dá forma a 20 cartas de carácter sobretudo filosófico enviadas a um monge cartuxo; a ligá-los, uma planta desdobrável do convento dá ao livro uma textura de velho incunábulo, de lombada cosida à mão. É um belo objecto.
Mas não só. Sousa Lobo leva-nos em visita aos claustros, aos hábitos dos monges, à rotina e à perplexidade: seja-se religioso ou não, aquelas vidas suprimidas pelo silêncio naqueles espaços deixam-nos incrédulos. Abdicam do humano em favor do etéreo?, questiona o desenhador (e arquitecto) numa das cartas. O próprio autor está em cima do muro entre os crentes e os não crentes, mas tenta compreender o ponto de vista dos enclausurados e exprime um assombro perante aquela resiliência e desistência da vida comum: Há uma nuvem entre mim e os monges, uma admiração profunda deste lado, escreve. Francisco Sousa Lobo ganhou o prémio para o Melhor Álbum Português de BD em 2018. Percebe-se porquê. É merecido.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Lento, profundo e duro na Equilibrium Music




Companheiros da Penumbra é um livro gigantesco, lançado em Outubro de 2022, que marcou o regresso de Nunsky à Banda Desenhada, desta vez, em modo de memória flutuante para relatar um período específico de uma tribo específica no Porto. Falamos da cena Gótica dos anos 90 em envolvia sobretudo as festas no Heaven's. 

Todas estas pessoas, com um ou outro nome, existiram, sonharam e viveram num Porto “podre”, sombra caricatural de uma cidade europeia, que sonhava com a promessa do novo milénio. Filhos bastardos de um tempo menos distante do aos olhos românticos parecia, de uma Northampton ou Londres ida e de uma Los Angeles decadente que nunca existiu senão nas mentes dos rejeitados que vomitou para as margens da história. 

Empregados de mesa e armazém que ao cair da noite – qual Bruce Wayne – se transformavam em Lordes Vitorianos, meninas confusas que queimavam na “má vida” o grito que os seus pais acreditavam investir numa educação de excelência, adolescentes que encontravam na escuridão da noite o manto protetor para as suas angustias e a garantia de um alter-ego suficientemente forte para resistir à porrada da vida, esbarrando-se com adultos com síndrome de Peter Pan, que reforçavam obstinadamente o universo de fantasia, rejeitando, com um magnânimo pirete o que comumente reconhecemos como “mundo real”.




Artista premiado pelo Festival da Amadora em 2015 com o romance histórico Erzsébet, desde 2016 que preparava este extenso retrato de uma época entesada. Voltou assim à BD Amadora, em 2022, originais de Nunsky para serem admirados - e falamos a sério tal é o rigor das suas pranchas, acrescentada com uma habitual exagerada cenografia. 

Em 2024, os originais giraram na Mundo Fantasma reabrindo a sua galeria entre Fevereiro e Março. A exposição está entretanto no Forum Maia até 16 de Junho.


São 300 páginas a preto e branco, 19x26cm, capa a 2 cores com badanas

O livrão esgotou a sua primeira impressão mas cá canta uma nova na nossa loja em linha 
e agora deverão encontrar os últimos exemplares da primeira misturados com a segunda na Snob, Tigre de Papel, ZDB, BdMania, Linha de Sombra, Neat Records, Matéria Prima, Tasca Mastai, Cult, Kingpin Books, Universal Tongue, Matéria Prima, Socorro, Utopia, FNAC, Mundo Fantasma, Senhora Presidenta, Vida Portuguesa, Alquimia, VelhotesLouie Louie Porto, Equilibrium Music e Piranha!








Mais títulos do autor: 
88 (Mesinha de Cabeceira #13, Chili Com Carne; 1997)
Erzsébet (Chili Com Carne; 2014) com edição brasileira na Zarabatana
Nadja - Ninfeta Virgem do Inferno (MMMNNNRRRG; 2015) com edição em inglês
Espero chegar em breve (MMMNNNRRRG; 2016)



Feedback

(...) parabéns pela edição dos Companheiros da Penumbra. O livro é muito bom, um trabalho de fôlego coerente, sincero, com coração e realismo de um tempo e atitude, nada comum neste "mercado" lusitano. Uma enorme surpresa positiva para mim, mesmo conhecendo bem o trabalho do Nunsky. 
André Lemos (via email)

O livro está muito bom e é um óptimo apanhado de uma certa atmosfera que se perdeu neste Porto gentrificado e de papelão, cheio de patetices circenses e tourist-trapsClaro que fico com o coração cheio (...) ao reconhecer (literalmente ou por associação) algumas personagens, locais, modus operandi do underground, imbróglios amorosos, conflitos, mitificações e delírios inerentes ao "tribalismo", etc... Capta-se o arco em que a fantasia teen atinge o um pico criativo e anímico para se desvanecer como o fumo de qualquer concerto rock. Mas este é já um mundo perdido e que o Nunsky conseguiu captar muito bem sem o bafejar com melancolias e sem que o leitor sinta que está perante um relicário. Mais uma vez, a arte do Nunsky é incrível, e acho que a par do Erzsébet, este é o seu melhor trabalho gráfico. (...) Em termos narrativos, há algo que por vezes parece meio encravado, como se os episódios que compõem a história fossem cortados e colados de forma abrupta. No entanto, consigo encontrar um certo charme nisso, tornando tudo mais rude e por vezes confuso (num sentido positivamente estético - como uma parede com múltiplos cartazes sobrepostos ou um fanzine realizado nas franjas entre "corte e cola" e o "photoshop").
Só uma nota: creio que o Yura que aparece a dançar no Heaven's é o famoso "Iur" que o Gustavo Costa gravou para o projecto Derrame Sanguineo, cujas faixas foram publicadas num split com Sektor 304 (...) Nunca o conheci, mas conta-se que ele era o "freak com cabelo à Blixa" e que vagueava pelo Porto com a cara pintada de dourado. Era um dos alvos perfeitos para os skins. Existe o mito que ele queria montar um projecto de música experimental em que iria amplificar lâminas de barbear montadas verticalmente numa caixa e largaria centopeias lá para dentro. Mas mitos são mitos e bocas dizem o que dizem. 
PS - (...) agora é que liguei os pontos!!! A última faixa desse split é com o João e o baterista dos Martyrium (AHAHA) nas percussões!
André Coelho (via email)  

Este livro é uma viagem de comboio fantasma com destino à nostalgia. O texto está incrível e o desenho está lá em cima ao pé dos melhores.
Rodolfo Mariano (via email)

blá blá blá de tótós

Companheiros da penumbra é um marco significativo da produção contemporânea de banda desenhada, sobretudo de um registo realista, e plenamente ancorado na realidade portuguesa – o que não implica menos potencialidade de espelhar outras experiências distintas. No panorama actual, em que a esmagadora maioria da produção roça sempre um qualquer campo do fantasioso, do género, ou até mesmo de fórmulas escapistas, muitas vezes até pouco buriladas e medíocres, um livro desta natureza sobressai sobremaneira. Não iria ao ponto de o o chamar “jornalístico”, “antropológico”, “documental”, mas há sem dúvida elementos desses registos presentes ao longo desta narrativa. Esse ancoramento está presente não apenas através dos muitos momentos de referencialidade, mas com a vivência da cidade do Porto e os movimentos espaciais, a magnífica escrita com diálogos vívidos, variados e verdadeiros, as personalidades acabadas das personagens, e até o cunho tão específico que Nunsky consegue criar com os rostos de tantas personagens/pessoas. (...) No entanto, uma das vantagens de Companheiros sobre todos esses modelos é que não se entrega a nenhum exercício facilitista com uma intriga melodramática, lamechas ou de crise central. Há um plot, sim, mas simples. Há uma história de amor, há um road movie, há um conflito entre amigos, há uma missão a cumprir, há mesmo uma morte. Mas pela sua fluidez e estranha calmia de execução, em que um episódio flui para o próximo, não tanto na cadeia aristotélica de causa e consequência, mas na inevitabilidade do tempo, o que sobressai é mais um ambiente, que recorda uma “fase”, imaginamos, da vida dos dois jovens protagonistas, Paulo “Nunsky” e Alex “Hipnos”. Com efeito, o autor opta muito menos por elementos dramáticos e conflitos reconhecíveis como tal, de uma maneira flagrante – por hipótese, um conflito com os pais, uma decisão fulcral de vida, uma adição fatal, um crime espantoso –, do que uma espécie de testemunho, quase de mera afirmação, do sucedido nessa tal fase.

(...) o discurso visual e narrativo de Nunsky faz desta cena um espaço onde a memória se convoca como espaço de resistência, mas também de solidariedade, partilha de afectos e barricada protectora contra uma sociedade consumista que, confirmamos agora, já se desenhava com ímpeto nessa década final do século XX e é hoje a regra num Porto gentrificado como quase todas as grandes cidades europeias.

Companheiros da Penumbra conduz-nos por um tempo, um lugar e um universo específicos. Magistral retrato de época em BD, vai mais além.

Eu não estou mesmo nada a par de como anda o panorama da bd nacional, mas este gajo está a um nível que apanhei poucas vezes por cá. Tenho ideia que no contexto local, é mesmo muito raro apanhar um volume destes, em que há a mesma coesão quer a nível narrativo quer gráfico do principio ao fim. (...) Na parte da narrativa, li uns comentários/ críticas (...) que malhavam um bocado na construção da narrativa, no sentido de haver cortes abruptos, etc... Não senti nada disso. Os saltos e interrupções que acontecem fazem todo o sentido na forma como a história é contada a través de memórias pessoais e de recordações maisou menos dispersas, embora sempre a seguir uma suposta linha cronológica. É absolutamente fantástico revisitar o porto do final dos 90s/ principios de 2000. (os bares da ribeira e o cubo à pinha, o luso…)
F.Q. (via email)

(...) Desengane-se quem pensa que este é um livro de nicho, pensado para quem andou pelas noites góticas ou pela música de Bauhaus ou Love and Rockets. Companheiros da Penumbra é uma ode às partilhas intensas da juventude, e não necessariamente da juventude gótica. Por trás das roupas negras, dos adereços e dos ambientes existencialistas marcados por um determinado tipo de música, o que lemos nestas pranchas é universal, não se fecha numa qualquer tribo, ainda que a linguagem partilhada dessa tribo ajude a definir o enredo e a estruturar o seu desenvolvimento. Por outro lado, há neste livro uma presença tão forte da cidade do Porto que impossível assumir a geografia apenas como um elemento narrativo; na verdade, o Porto é aqui mais do que cenário, uma espécie de seiva que dá configuração a estas vivências e aos episódios lembrados. E tal como o grupo de personagens no centro da história, também a cidade é uma memória que se convoca como parte de uma construção identitária, e não tanto como uma nostalgia. Toda a narrativa de Companheiros da Penumbra assenta nesse gesto de olhar o passado, não com o olhar do saudosismo mais plano, mas como parte integrante do que se foi construindo – com as lembranças, as festas, as descobertas e as dores que se foram acumulando – e que agora é também presente, ainda que as roupas pretas e os adereços soturnos tenham ficado esquecidos nas gavetas.

(...) obriga a uma leitura atenta e activa. (...) Em mãos menos capazes, este livro facilmente resvalaria para um relato nostálgico de um tempo que já lá vai: nas de Nunsky, ele canta; em tons lúgubres e sinistros, mas carregados de uma força e alegria que vai para além daquelas catacumbas.
André Pereira in A Batalha

Banda Desenhada ou Novela Gráfica? Da ou De Penumbra? Traço genial!

(...) Novela gráfica sobre a tribo gótica do Porto. As aventuras, sobretudo noctívagas como convém, as amizades que se engendram em torno da música, os 1001 esquemas dos donos do bar, o traçadinho e a Ribeira, descampados e casas abandonadas.

2ª impressão do livro em Setembro 2023, ou seja, mais 666 exemplares!!!

nomeado para Melhor Obra Portuguesa pela BD Amadora 2023

Já li o Nunsky!!! É bom, é competente, e é, sem dúvida, entertaining. Entra-se facilmente naquilo e, tudo ponderado, acaba por resistir à pergunta (que me fiz a mim mesmo algumas vezes): “porque é que eu estou a ler trezentas páginas de bebedeiras e góticalhices foleiras da província?” A escrita é boa, é fluída e é competente. (---) No fim do dia, uma boa leitura. Uma boa obra!!
RG por email

Entrevista no portal Central Comics

(...) Nunsky retrata-nos o lugar de uma forma extremamente verosímil e pareceu-me sempre ter o cuidado em não magoar em vão, sem querer ferir as pessoas à sua volta e isso é muito à Porto. Por contradição.

(...) É desse tempo, em que podíamos ser músicos, editores, organizadores de espectáculos, estilistas, realizadores de cinema, autores de banda desenhada, sem ter de gastar uma vida em cada uma dessas vocações, que nos fala esta banda desenhada ímpar. Anos feitos de conspirações à mesa do café, sessões de cinema em casa de amigos, palcos improvisados em casas de alterne, incursões ao Portugal “real”, excessos e amores suspirados, conquistas e derrotas amargas. Mesmo para quem não se entregou às trevas da nação gótica, mas abraçou uma qualquer tribo urbana, Companheiros da Penumbra é um local perfeitamente reconhecível, nostalgicamente familiar.

The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros - Obra vencedora do concurso "500 paus!" (2013) --- últimos 6 exemplares!!!


The Care of Birds / O Cuidado dos Pássaros
de

Obra vencedora do concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD! 2013

"Peter Hickey is to paedophiles what birdwatchers are to hunters". Peter Hickey dixit. What is meant by this oblique statement is the crux of this graphic novel. Peter Hickey is a godless catholic perv. Peter hickey has a saint syndrome. "Peter Hickey está para os pedófilos como os observadores de aves estão para os caçadores", assim diz Peter. O possível sentido desta frase obscura forma o próprio cerne deste romance gráfico. Peter é um católico tarado e sem deus com um síndroma de santo.


140p. duas cores 16x23cm, capa duas cores, edição brochada
ISBN: 978-989-8363-32-9
In English with Portuguese subtitles / Em inglês com legendas em português


Buy: Neurotitan (Berlin), Orbital (London), Quimby's (Chicago), Dead Head Comics (Edinburgh), Just Indie Comics (Italy), Ugra Press (S.Paulo), Modern Graphics (Berlin), Mont en  L'Air (Paris) and Floating World (Portland).



Historial: 

Obra vencedora do concurso Toma lá 500 paus e faz uma BD! (2013) 
... 
Lançamento na BD Amadora 2015 
...
Lista dos Melhores Livros de 2015 no Expresso 
...
...
Best Graphic Novels (Portugal) by Pedro Moura in Paul Gravett site 
...
Nomeado para Melhor Argumento pela BD Amadora 2016 
... 
Um dos Melhores Livros de 2016 no Expresso (apesar de ter saído em 2015... mucho weird!)
...
Nomeado para Melhor Publicação Nacional, Melhor Desenho e Melhor Argumento pela Central Comics 2016 
...
Spanish edition El Cuidado de los Pájaros by Reservoir Books / Penguin - Random House Spain (2019)
...
Best of 2019 by La Cárcel de Papel
...
French edition by Rackham (2021)



"peeping tom" aqui / here





Feedback:  

Já li o livro do Francisco Sousa Lobo. Gostei, apesar de toda a problemática do pedófilo e de às vezes ser difícil lidar com o que se possa sentir pela personagem (mas pensei que em relação a isso o livro era mais problemático e comprometedor), tem momentos muito bonitos, dos pássaros presos na rede, ele a conversar com as aves, desadequação do personagem ao mundo... e a parte final em que enlouquece (não estaria já louco?) e se deita do chão de cara para baixo à espera de um raio que o fulmine. Achei bastante poético. 

I like its mysteries and allusions, the gaps left in the dialogues, great use of the gaps and faultlines between what we are shown and what we are told.  Congrats, it’s further proof of Francisco's great work and development.
Paul Gravett (by e-mail)

Um dos mais discretos e interessantes autores portugueses de banda desenhada regressa com uma edição bilingue, uma narrativa que revolve as vísceras da natureza humana para as mostrar frágeis e inúteis enquanto conta a história de um homem que podia ser o nosso vizinho do lado. 
Sara Figueiredo Costa in Parágrafo, suplemento de Ponto Final (Macau) 

Desta vez Sousa Lobo debruça-se sobre um dos assuntos mais sensíveis, o da pedofilia. Esta é a história de Peter Hickey, um homem que parece acreditar que “está para os pedófilos como os observadores de aves estão para os caçadores”, um conceito que será explorado ao longo destas páginas naquele que é, sem qualquer hesitação, um dos mais portentosos livros do ano.

Is eager birdwatcher Peter Hickey ‘a godless Catholic perv’ or does he have ‘a Saint syndrome’? Deeply discomforting themes of sin and sincerity are cleverly underplayed and implied. I enjoy the book’s allusiveness, the gaps Lobo leaves in the dialogues, and his great use of the faultlines between what we are shown and what we are told, leaving what is left for us to tease out. “Words can become phantom limbs we never knew we had…”

LE PETIT OISEAU VA SORTIR... The Care Of Birds est un roman graphique de Francisco Sousa Lobo publié initialement en 2014 par Chili Com Carne, une maison d'édition post-psychanalytique portugaise dédiée à la BD et au dessin. Peter Hickey est ornithologue: il a été formé à 9 ans par un homme qui aimait beaucoup lui tenir la main. A présent, à 60 ans, il aimerait transmettre sa passion pour les oiseaux, en tout bien tout honneur. Dans cette histoire, où "les mots sont des membres fantômes", le dessin ne fait que suggérer ce que le langage ne recouvrira jamais. Le personnage principal communique avec les oiseaux, qu'il aime plus que tout étudier en compagnie de jeunes garçons. Les oiseaux lui disent des choses, et semblent lui obéir. L’ambiguïté de ses rapports avec ses petits collaborateurs est développé à la manière d'un malaise onirique, d'une torpeur fiévreuse.
Benjamin Efrati in Droguistes (e-mail newsletter)

The Care of Birds é, sem qualquer dúvida, um livro maior. Um livro que se desprende de toda e qualquer amarra de género e dos mecanismos (narrativos, visuais, estruturais) habituais da banda desenhada, portuguesa ou outra. Um título que não tem qualquer ambição de chegar a “todo o público”, nem sequer de serenar ou emocionar aquele ao qual chegará. A poeticidade de Francisco Sousa Lobo é sofrida, exigente, abole quaisquer consensos possíveis. Sem efeitos de pirotecnia emocional, lê-lo é uma armadilha se se toca a raia dos seus perigos. Difícil, profundo, angustiante, de uma lentidão que não significa tranquilidade, desprovido de quaisquer adornos e de efeitos, The Care of Birds é um jogo de tensões entre o melodrama de um Dostoievsky e a paralisia de um Kafka.
Pedro Moura in Ler BD

Despite its 100-plus pages, The Care of Birds is a tale mostly made of silences and doubts, both of the protagonist and the reader. Peter Hickey is an older man, an accomplished birdwatcher, birdsong imitator and bird draughtsman. But he is assaulted by strange feelings of seemingly innocent friendship toward children, which might be interpreted by many as pedophilia. A profound Catholic, Hickey is at the same time well aware of an uncrossable line but also haunted by sinning, that may or may not have taken place. All the questions that arise from the little plot there exists, if answered, are ambiguous. Difficult, profound, agonising, slow-paced but not tranquil, bereft of adornment and effects, The Care of Birds is a tour de force between Dostoevskyan drama and Kafkesque inaction, making it not only a great book within the Portuguese context but internationally as well.
Pedro Moura in Paul Gravett site

I just red The Care of Birds, liked the how the narration goes and the angle, remind me a bit of Hornschmeier work 
Franky (Les Requins Marteaux)

Se quisermos reduzir Sousa Lobo ao Santo Graal da assinatura do artista, podemos falar num programa que é recorrente no seu trabalho e que envolve estruturas de autoridade, doença mental e perversão. (...) Com um pezinho dentro e outro fora, entrar na galeria de arte ou na igreja com uma BD debaixo do braço continua a ser mais que uma provocação. É um acto de rebelião.
Hugo Almeida in Mundo Fantasma

The books look amazing, really nicely presented and designed. So far I've only had time to read the first section of The Care Of Birds, which I really enjoyed - looking forwards to continuing, also looking forwards to reading the other books as well. Andy Martin, one of the chaps in the band UNIT is a total bird fanatic, so maybe I'll pass The Care Of Birds on to him when I've read it
pStan Batcow (Pumf, Howl in the Typewriter) by e-mail

Même si quelques points d’appui, assez rares, quasi hors champ (à l’exception de la dispensable image de couverture) viennent peut-être inutilement-nous rappeler de quoi nous sommes en train de parler, c’est de loin le travail le plus subtil, le plus saisissant et le plus intelligent que j’ai vu traiter de la pédophilie depuis bien longtemps. Cette position, évoquée ici par un prisme clinique dont je n’ai jamais entendu parler — le syndrome de sainteté — mais qui n’est peut-être qu’une métaphore de l’auteur lui-même, se superpose à celle du birdwatcher — l’observateur ornithologique. Chaque touche nous faisant lentement approcher la psyché de la figure centrale est amenée de manière à produire, très finement, plus de questionnement et de trouble que de réponses ; ce sont les mouvements de fond des représentations de l’enfance chez l’adulte qui sont décortiquées, exposés à la lumière de désirs informulables, conduits dans de beaux couloirs métaphoriques, plutôt que la lecture factuelle d’une criminalité sexuelle tangible (et rien, d’ailleurs, dans le récit, ne laisse imaginer que la pédophilie soit menée ici à son terme ; ce n’est pas l’objet). Je me suis laissé faire assez rapidement par ce dessin au départ un peu rebutant, ces montages de plans exsangues, pour y voir pas à pas tout ce que cette claudication ouvrait comme inattendu de la marche, comme sortie de champ, comme invention. Il faut vraiment traduire urgemment ce truc, les gens. Il y a une intelligence warienne assez rare de la métaphore et des jeux de durée, mais également une solide culture littéraire qui affleure sous cette écriture subtilement polysémique.
The Care of Birds was definitely my favourite. There was something about the character that made me think of Raymond Briggs' book When The Wind Blows (the old man character in that story seemed to have similar mannerisms and characteristics). Your character is appealing, despite being a little twisted.
pStan (Pumf) by email

Curiosa y compleja aproximación la que hace Francisco Sousa Lobo al meterse dentro de la mente de un pedófilo, no practicante, que deambula en su día a día atrapado por sus bajas pasiones y su amor por el mundo de los pájaros. Una historia que remueve la conciencia y de paso también las tripas del lector, no tanto por lo que cuenta sino por lo que sugiere. Lleno de silencios, este cómic es una verdadero prodigio de narración demostrando que no siempre lo que se muestra es todo lo que se cuenta. (...)
El escritor, Francisco Sousa, se ha metido en un jardín y ha salido de él con nota. (...) De lectura sencilla, amena y reflexiva, este libro editado por Reservoir Books es un pequeña joya que podría pasar desapercibida si el mensaje no fuera la angustia vital de un hombre destinado a no encajar en la sociedad.
(sobre a edição espanhola) in Negra y Mortal

Hay que apostar por los cómics y los autores valientes, que arriesgan adentrándose en cuestiones de lo más espinosas, explorando las posibilidades que el medio proporciona. Es el caso de El cuidado de los pájaros del portugués Francisco Sousa Lobo, que publica Reservoir Books (...) El mérito de Francisco Sousa Lobo es lograr sumergir al lector en una obra tan tensa y oscura sin cargar las tintas de un asunto tan sensible ni subrayar el drama. Su uso de la elipsis narrativa es sensacional, sugiriendo —esas páginas 94 y 95— más que mostrando, y sin miedo a las viñetas que no necesitan texto para contarlo todo —esos sudores—. Una sutileza que asimismo se refleja en el aspecto visual, austero hasta el extremo, tanto en el parco uso del color —verdes y negros—, como en la simplista ilustración. Elementos que ahondan en lo enfermizo y la comezón interna del personaje central, y que permiten al lector centrarse en el meollo de un relato perfectamente armado, y de indiscutible pegada, sobre la oquedad y fragilidad humanas.
(sobre a edição espanhola) in Indienauta

Franciso Sousa Lobo se atreve, ni más ni menos, que a abordar el tema de la pedofilia. Pero lo hace sin amarillismo, sin efectismos, de una manera intima, y personal, casi tratando de comprender qué pasa por la mente de un pedófilo, en este caso, la de Peter Hickey, un hombre que vive agobiado por las dudas, por lo que sabe que es y no quiere ser, por tratar de entenderse, y siempre bajo la atenta mirada de la fe cristiana. No es un tebeo fácil, pero merece la pena enfrentarse a estos temas y alabar la valentía del autor.
(sobre a edição espanhola) in Blog de Comics

A slow-paced story that I’m not entirely sure how to describe, but that I enjoyed in all its mundanity.
The Care of Birds is so simple and beautiful

surprisingly subtle and bitter but not condescending
Łukasz Nowak (por email)

Une bd qui surprend par son choix de sujet et de traitement qui répulse et donne envie de vomir.
(sobre a edição francesa) 22h05 Rue des Dames

Comment réagir à de tels propos on ne peut plus dérangeants ? Comment ne se pas se sentir mal à l’aise envers cet homme qui dénie ses pulsions ? Et surtout, quel propos central a voulu soulever Francisco Sousa Lobo avec un tel album ?
(sobre a edição francesa) Planete BD

Le regard singulier de Francisco Sousa Lobo sur ce sujet complexe oblige le lecteur à regarder de front cette question répulsive, avec un récit qui mêle habilement crudité et expression métaphorique. Un album dérangeant, le premier de l'auteur traduit en France, dans lequel les oiseaux font figure de lanceurs d'alerte.
(sobre edição francesa) France Info

(...) é uma banda desenhada adulta, forte e estremecedora. (...) Peter Hickey é um personagem profundo, com várias camadas que se vão revelando à medida que viramos as páginas. é um homem mais ou menos idoso, que tem o passatempo de anilhar pássaros. Para isso, gosta de se fazer acompanhar de meninos com idades entre 10 e 12 anos. Mas porquê? Diz ele que há uma certa pureza na amizade entre um homem e uma criança. Mas os pássaros têm outras coisas a dizer. Vemos o personagem entrar numa espiral de loucura e auto-comiseração: o que ele procura, a companhia infantil, não pode ser conseguido. Os pássaros sabem disso. No entanto, quando ele encontra outras pessoas que o apreciam, não é capaz de lidar com as vozes dos pássaros. Os pássaros falam com ele frequentemente, e frequentemente dizem coisas terríveis.. Mas não só as aves são simbólicas. Também as pessoas, os outros personagens, têm diversos significados dentro da mente de Peter Hickey. Assim, todos os momentos de convívio acabam por ter mais profundidade do que aquela que poderíamos pensar à primeira vista. (...) Um livro poderoso que toca num assunto que ainda é tabu. A não perder.

Não me apetece estudar