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sábado, 2 de novembro de 2013

ccc@doc.lisboa

Dia 2 de Novembro, às 15h, a Associação Chili Com Carne irá apresentar a sua colecção LowCCCost no Espaço APORDOC (no Palácio Galveias) do Doc Lisboa 2013 com a presença de Marcos Farrajota (editor) e David Campos (autor).

A Chili Com Carne tem uma colecção de livros de viagens, intitulada LowCCCost e é dirigida «a quem gosta de viajar sem apanhar transportes e gastar dinheiro!» A colecção conta com dois volumes lançados e com mais dois em vista, todos eles em banda desenhada.

O primeiro relata a turnê-punk-mas-com-livros de seis dos nossos autores por uma Boring Europa, o segundo é o diário de seis meses de David Campos na Guiné-Bissau - Kassumai. Para 2014 preparamos um sobre as Aldeias de Xisto mas antes sairá a Zona de Desconforto que junta as experiências dos nossos autores no estrangeiro enquanto estudantes ou trabalhadores, estando confirmados Bráulio Amado, João Fazenda, Ondina Pires, Daniel Lopes, Tiago Baptista, Amanda Baeza, Francisco Sousa Lobo, Jucifer e André Coelho...

A Associação Chili Com Carne é uma organização de jovens artistas sem fins lucrativos cujo funcionamento assenta na cooperação livre e espontânea dos seus associados. Desde a sua fundação em 1995 que temos promovido e desenvolvido as mais diversas realizações no campo das artes, que se têm concretizado, entre outros aspectos, na organização de diversas exposições e publicações. Temos entendido como sendo prioritária uma linha de actuação que privilegie a independência do autor, entendida como liberdade e autonomia de critérios do produtor de objectos artísticos, acentuando a diversidade de formas e conteúdos que caracterizam a expressão artística e cultural contemporânea. Desde 2000 que tem trabalho sobretudo na área da edição.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

ccc@DOC.lisboa.2018



Como tem sido tradição, a Chili Com Carne e a sua irmã MMMNNNRRRG mais uma vez têm uma selecção dos seus livros do DOC LISBOA.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

ccc@DOC.lisboa.2019



Como tem sido tradição, a Chili Com Carne e a sua irmã MMMNNNRRRG mais uma vez têm uma selecção dos seus livros do DOC LISBOA.

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

ccc@doc.lisboa.2021



Como tem sido "tradição" (excepto o ano passado por causa do covid19), a Chili Com Carne mais uma vez têm presente uma selecção dos seus livros do DOC LISBOA. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ccc@DOC.lisboa.2017


Como tem sido tradição, a Chili Com Carne e a sua irmã MMMNNNRRRG mais uma vez têm uma selecção dos seus livros do DOC LISBOA.

sexta-feira, 7 de abril de 2023

E de repente... (relatório 2022 sobre zines e edição independente)

Iá! Voltou tudo ao "normal"... mas com vingança! Outra vez as ruas cheias de turistas borregos a comerem no chão a comida que compraram no Pingo Doce - até os porcos no curral tem mais dignidade. Talões de papel enormes. Plástico por todo o lado e em todos os produtos. Parabéns, mundo da fantasia e afins. Tudo voltou ao normal e para pior. Espera, houve um "up-grade"!! As tão procuradas máscaras  de 2020 agora esvoaçam em arbustos, na rua ou no raio que o parta... Vão se foder!


Comemorações?

Um associado nosso, o Erradiador, lembrou-se de que este seria o ano para comemorar os 50 de existência de fanzines de BD em Portugal. não sei se os fanzines quererão um reconhecimento assim institucional mas mesmo que o quisessem deparam-se com dois problemas, o primeiro é que as instituições que tem acervos de fanzines em 2022 ou estavam em obras (Bedeteca de Lisboa) ou em estado Zombie (a Fanzinoteca Geraldes Lino na Amadora funciona? Nunca se ouve falar dela!) mas o problema mais grave é que na realidade já não há fanzines de BD em Portugal. Como assim?

O problema já vem antes da crise do Covid, poucos serão os títulos que se apresentam como uma publicação colectiva. Basta verificar isso nos nomes dos participantes das feiras "indies", é só nomes próprios de "artistas", nada de Olho do Cu (uma excepção à regra e que continua a bombar!) ou algum nome de um projecto editorial. De acordo com este individualismo e com a crise da falta de eventos durante os dois anos da pandemia, parece que ainda há menos publicações físicas do que antes.

Fizeram-se 30 anos do Mesinha de Cabeceira mas como é de BD não teve direito a livro de memórias ou festinhas como aconteceu com a SPH / Thisco. Ninguém quer saber de BD neste país... Seja como for, em 2021 tinha-me decidido de voltar às raízes das tiragens reduzidas (80 a 100 exemplares) para retirar trabalhos das gavetas de malta que já teria idade para ter juízo ou os verdinhos da cena. Destaco os últimos que foram boas lufadas de ar fresco: Alexandra Saldanha, Ângela Cardinhos, Matilde Basto, Luís Barreto e Rodrigo Villalba. Espero voltar a vê-los noutras aventuras agora que já aprenderam a editar!

A Oficina Arara também fez "10 + 2 anos" com um livro cheio de luxo mas com pouco interesse, uma oportunidade perdida para mostrar documentos dos seus eventos, viagens, produção e exposições. Entraram textos mas tudo pouco explicativo do que é (realmente) ou que foi este colectivo gráfico. Se esperam que alguém edite uma monografia quando forem velhinhos, é melhor esquecer, embora tenha sido um ano fora do comum na edição de obras de referência. Geralmente é neste relatório que se percebe que é raríssimo haver publicações sobre BD, e muito menos no sector privado porque "não se vendem", tendo de ser as instituições a editar catálogos para solidificar a História da BD portuguesa. Só que já nem isso existe porque desde 2015 que o Festival da Amadora não o faz, por exemplo. 

Em 2022 saiu pela Universidade de Leuven (Bélgica) Visualising Small Traumas : Contemporary Portuguese Comics at the Intersection of Everyday Trauma, um ensaio sobre BD portuguesa contemporânea e o trauma do quotidiano, tese de doutoramento de Pedro Moura. Logo a seguir The Reading Gaze :  "My" comics de Domingos Isabelinho - finalmente um livro deste lúcido crítico! Ambos livros foram redigidos em inglês, um porque é o Esperanto da academia, o outro porque ninguém quer saber de BD em Portugal - e é verdade que a grande maioria das vendas foram para pessoas dos EUA, Inglaterra, Itália, etc... Houve três livros ligados à "SHeITa" que foi um esbanjar de dinheiro da UE e escritos por cromos velhos colecionadores de "bêdê". Um dos livros faz revisionismo do que já estava feito pela Bedeteca de Lisboa, outro "homenageando" o passado de forma bacoca e por fim outro a entrevistar os autores de BD portugueses menos interessantes de sempre. Haja dinheiro...

Mas houve mais, uma entrevista a Robert Crumb e Aline Kominsky-Crumb (talvez a última pois a artista iria falecer no final do ano) na revista do Expresso, uma entrevista "cinekomix" impressa a Will Eisner (1917-2005) por Edgar Pêra na revista Argumento e houve vários artigos sobre Artur Varela (1937-2017) na revista Flauta de Luz. 

Importante referir a revista sobre ilustração Aguça que também tem um bocado de BD nas suas páginas, creio que é a primeira vez que surge um projecto em Portugal deste género. 

Outra situação inédita e ainda o Pêra, foram exibidas na grande tela, no Doc Lisboa, três entrevistas "Cinekomix" em que encontramos José Carlos Fernandes e o finlandês Tommi Musturi.

Outro inédito e que tinha potencial se não fosse dar em esquemas de flatulência, buzinadelas e outros efeitos circenses, o programa de rádio Pranchas e Balões que promove mediocridade sempre que pode na Antena 1.

Houve um volume dedicada à obra gráfica de Mário Henrique-Leiria (1923-80) na colecção dedicada à sua obra completa, pela E-Primatur, nela encontramos mais uma BDs deste escritor surrealista. Sem ser BD mas obrigatório para qualquer desenhador ou editor de BD eis que apareceu um Compêndio Cantiano, pela Barbara Says..., ou seja, outro monográfico dedicado ao obscuro-mas-brilhante Paulo de Cantos (1892-1979). 

E por fim, um documento importantíssimo para quem não percebeu a excelência do trabalho na BD pela parte de João Paulo Cotrim (1965-2021): Foi quase um prazer. Este livro reúne um conjunto de textos de Cotrim nas várias áreas visuais que se mexia / incentivava / pesquisava / publicava, ou seja, um animado bordel de cartoon, ilustração, BD, pintura, filme de animação e mais qualquer coisa. De importância máxima no livro são os verbetes redigidos pelo designer Jorge Silva, para quem não teve idade (ou que teve mas foi burro) de conhecer a revista Lx Comics e o catálogo ou a programação da Bedeteca de Lisboa.


Portuguese Contemporary Comics

Moi, HELLsínquia!!
Foi assim que a revista finlandesa de BD Kuti mostrou os trabalhos de Amanda Baeza, Ana Biscaia, Sara Boiça, Pedro Burgos, Ema Gaspar, Hetamoé, Daniel Lima, Ana Maçã, Tiago Manuel, Rodolfo Mariano, Rui Moura, Ricardo Paião Oliveira, André Ruivo, Rudolfo, Alexandra Saldanha e Cátia Serrão, num número dedicado à BD portuguesa. Foi lançado no Festival de BD de Helsínquia onde estiveram Rudolfo e Hetamoé como convidados especiais do evento.

Com o regresso dos festivais internacionais, o David Campos foi ao Festival de Varsóvia, Ana Margarida Matos ao Festival de Hamburgo, Gonçalo Duarte, Rui Moura e André Pereira ao Crack (Roma), onde também estiveram a Oficina Arara, que por sua vez tiveram uma exposição dos seus 12 anos em digressão por Marselha e Belgrado.

Ana Margarida Matos participou no número comemorativo da revista eslovena Stripburger (30 anos!), Miguel Santos na sueca C'est Bon, Dileydi Florez e Mao na letã Kuš!, que também editou os mini-kuš da Joana Mosi e Pedro Burgos. Ana Maçã e Simão Simões participaram no fanzine Amorcito #3 da Galiza. 

Em língua castelhana saíram os livros Abolição do Trabalho de Bob Black e Bruno Borges em Espanha, Terminal Tower de Manuel João Neto e André Coelho na Colómbia e Família de Júlia Barata na Argentina e Espanha - para quando uma edição portuguesa deste último?


Turismo rápido

Chloé Wary passou pelo Festival de Beja, na Amadora nem me lembra quem foi lá mas pelo menos foi menos festa da mangueira do que no ano passado! Mais interessante e como aconteceu nos "anos covid" foi a Tinta nos Nervos que apostou em exposições e presenças de artistas estrangeiros, em 2022 visitaram o galego Oscar Raña e o australiano Michael Fikaris.

Houve relâmpagos porque é malta do "rock'n'roll"! Passaram a 180 à hora as bandas Los Caballos de Düsseldorf (com Olaf Ladousse) por Lisboa e os Lightning Bolt (com Brian Chippendale) por Braga e Lisboa. Alguém pediu autógrafos a estes músicos-artistas?


Eventos públicos

Foi o regresso à normalidade: duas Raias e um M.A.L. em Lisboa, e um Perímetro no Porto.

Fora do baralho, aconteceu uma "BD 24h" na "Nova" (Carcavelos) organizada por dois autores estrangeiros residentes em Portugal, o turco Utku Yavaşça e o italiano Nicola Lonzi. Foram parar aquela escola de porcos capitalistas por só terem encontrado este sítio como um espaço aberto 24h - os tempos mudaram mesmo, porque em 1997, havia o espaço Ágora onde fiz também esta "performance" com o Rafael Gouveia... Para a próxima a ver se é no Desterro!!

O projecto Story Tellers, que está num parque em Benfica, disponibiliza BDs através de um "QR code", sendo que na selecção de Inverno tiveram conteúdo inédito envolvendo novos artistas, a saber: Alexandra Saldanha, Ângela Cardinhos, Inês Louro, Luís Barreto, Marco Gomes, Mina Anguelova, Rodolfo Mariano e Tomás Ribeiro.

O evento mais sentimental foi com certeza o EnCOTRIM na Livraria Verney (Oeiras) mas com um programa completo para todos envolta da memória de João Paulo Cotrim que nos deixou em 2021.

De referir ainda exposições várias, dentro dos festivais sobressaíram o Rodolfo Mariano e o inglês, residente em Serpa, Andrew Smith em Beja e o Nunsky na Amadora. O resto foi aquele deserto "bedófilo" com falta de programação para os tempos que vivemos. Para encontrar contemporaneidade é preciso procurar outras paragens como na Sirigaita onde foi comemorado os 10 anos da série Mapa Borrado, ou seja, as BDs de José Smith Vargas no jornal Mapa; ou ver um trabalho do João Sobral no Teatro Luís de Camões, a explicar o Dinheiro às crianças. Na "ilustração" tanto houve uma força 100% DIY com A fome e outras frieiras de José Feitor no Espaço Correntes, algo intermédio com Miguel Carneiro na Galeria Verão e a onda institucional com Mattia Denisse na Culturgest.


Por fim, e o que interessa, as edições!

Francisco Sousa Lobo acabou a publicação Palácio, de forma bizarra, já sem ser ele a editar mas a Tinta nos Nervos, com problemas técnicos de impressão e a um preço inexplicável - embora já toda a gente sabe que o papel subiu de preço, ou se preferirem tudo aumentou de preço como é típico nas crises capitalistas, onde os porcos fingem escassez e provocam especulação. 

Em compensação, também inexplicável mas de tão barata que é e para o livro que é, Na Prisão do japonês Kazuichi Hanawa, pela Sendai. Leitura obrigatória para quem sonha com um Japão "kiduxo"! Num mercado saturado de merda, são editoras assim que fazem diferença. A construção do catálogo desta editora está a ser fascinante, sendo sempre uma surpresa feliz cada vez que é anunciado um novo título. Outro com a mesma pinta de surpresa será a Magma Bruta que embora esteja no nível da edição limitada - devido à impressão em riografia. Este projecto entretanto instalou-se em Portugal e publicou o primeiro capítulo de Dew Beaded Fingers - que há de ser um livro maior - da Amanda Baeza, belo regresso!

O problema do mercado de BD português não é do lixo comercial per se, o problema é esse lixo nem é o mais óbvio. Saíram e saem todos os meses, álbuns inexplicáveis que lembra os anos 80: BD pedagógicas ou adaptações literárias e históricas... que estranho, com a Wikipedia acho que podemos saber quem foram os bastardos do Mao ou do Churchill. Precisamos de ler BD-sem-sal sobre eles? Outra situação do mercado de 2022, bués de Mangas de 5ª divisão para enganar os putos. Que triste...

E depois, em Portugal, está tudo ainda em aberto, continua-se sem edições de obras maiores ou de artistas de alta craveira. A extinta colecção Novela Gráfica (que de ano para ano ia piorando), fez um bom trabalho ao finalmente publicar, em livro, artistas como Max, Baudoin, Crumb ou Seth. Mas porque não a Julie Doucet que ganhou em 2022 o prémio principal do Festival de Angoulême? Não, nem pensarm preferiram publicar duas vezes o idiota do Bastien Vivés, que foi cancelado pelo mesmo certame,... Fabuloso não?

Há sempre livros curiosos apesar de tudo, ou seja, nem tudo é estúpido. Com orgulho digo que ainda bem que existe a Chili Com Carne que é capaz de editar peças delicadas compiladas em Sinapses do Ivo Puiupo, seja, um tijolo de 300 páginas sobre o Porto "gógó" dos anos 90 como o Companheiros da Penumbra de Nunsky - o grande regresso de 2022. Também houve novos livros de Marco Mendes (pela Turbina), Diniz Conefrey (Quarto de Jade), Miguel Rocha, do espanhol Miguel Angel Martin e duas reedições, uma de Max Ernst (Sistema Solar) e o Palestina de Joe Sacco, pela Tigre de Papel, que é um desastre gráfico. Mais uma vez, haja dinheiro...

Houve dois bons números da colecção Toupeira da Bedeteca de Beja, as já referidas surpresas, Andrew Smith e Rodolfo Mariano. Regressou O Filme da Minha Vida com um de António Jorge Gonçalves, o zine Invasão, ligado ao Marco Gomes que auto-editou um livro, Lethal Dose com BDs que adaptam letras e bandas Metal / Hardcore. Houve Opuntias Books à barda e o André Pereira fez um zine, 5-color Good Stuff.


Iá!


E como sempre são os "indies" os inovadores, estando a Inteligência Artificial na boca do povo, eis que foi um ano de experiências. Dois argumentistas usaram a coisa, Pedro Moura com uma curta na revista Cais e Mário Freitas com um "comic-book", A Polaroid em branco. A artista Hetamoé usou na referida Kuti e a Chili Com Carne ajudou na edição do monstruoso Fastwalkers (imagem ao lado) de Ilan Manouach.


RIP

Justin Green, o pai da autobiografia. Miguel Gallardo, vida loca na democracia espanhola. A referida Aline e Diane Noomin, mulheres corajosas do underground comix. Kevin O'Neill, um gozão! José Ruy, um senhor que marca o fim de uma Era da BD portuguesa.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Dossier 2013 de fanzines e edição independente

Todos os anos arranjo fotografias parvas para colocar nestes resumos do que aconteceu no ano anterior referente à edição independente de / sobre Banda Desenhada e Ilustração. Esta fotografia foi tirada pelo sueco Lars Sjunnesson em minha casa, quando preparava um embrulho para enviar por correio, um livro encomendado durante as minhas férias de Verão (Agosto 2013). Queria só defender este pequeno solipsismo, mostrar que ele não é assim tão ordinário como isso. Ora, quem é que se mete nestas coisas da edição independente, não só tem as habituais dores de cabeça com toda a produção e comercialização dos produtos que lança como ainda por cima trabalha durante as férias!!!

“Quem corre por gosto não se cansa” diz-se por um lado e por outro, há quem diga que no mundo profissional estas coisas de trabalhar quase 24h tornaram-se até banais – algo impensável antes da histeria da crise e consequente degradação do mundo do trabalho no Ocidente, em particular em Portugal.

Trabalhar nada tem de glamoroso por mais quer a propaganda capitalista ou a comunista nos tentem enfiar pelas nossas goelas abaixo. Seja um mineiro ou alguém frente a um computador, o trabalho dá sempre cabo do nosso físico, deforma-o e coloca-nos em perigos desnecessários. É o que relembra a nova BD de Bruno Borges, que adapta Abolição do Trabalho (Crise Luxuosa; 1998) de Bob Black, editada num livro "chic-freak" intitulado The Abolition of Work, vol.1 (Arara/ Buraco). Trata-se de uma adaptação integral do texto e que esperamos para breve saírem os restantes volumes em BD.

O que Black diz é que só deveria haver trabalho que nos fosse útil, pedagógico e divertido, algo que num sistema como o nosso onde se produz as bugigangas mais idiotas e "apps" para estarmos 100% ligados ao mundo fascista do Big Brother, será uma Utopia difícil de alguma vez se concretizar. Apesar de tudo, se há coisa que me dá felicidade é trabalhar prá Chili Com Carne ou MMMNNNRRRG, mesmo que interrompa o descanso das férias, é porque neste mundo da edição independente não impingimos nada a ninguém. Quando surge uma encomenda de alguém sinto que estou enviar não apenas um livro qualquer para uma pessoa qualquer. Sinto que quer o livro quer a pessoa são especiais. O livro porque foi feito com amor e dedicação contra os esquemas mercantilistas e no caso da pessoa porque fez um esforço para encontrar o livro. Não o fez num impulso consumidor sem consciência porque foi bombardeada com publicidade o tempo inteiro. Deve ter ponderado até nos contactar, e fez isso também nas suas férias…

Infelizmente tudo isto relatado soa a “hobby” de meia-dúzia de cromos, e mesmo com a população portuguesa a diminuir, é estranho que não apareçam mais pessoas interessadas para este tipo de publicações. Como se consegue expandir a cena da BD em geral e a de autor em especial? Esta parece-me que foi a preocupação da cena independente em 2013.


Rendez-Vous

Um problema que se colocava em 2013 era como seria a edição independente depois do final da Feira Laica, local de encontro e venda de material independente que se concretizava duas vezes por ano, sobretudo em Lisboa. Foi o grande evento do género nos últimos oito anos, chegando até a criar um ritmo sincopado para o lançamento de novidades. Não foi preciso entrar em pânico, pelos vistos, porque a Laica foi imediatamente substituída pela Feira Morta na essência dos seus moldes, chamando a tribo à mudança, mantendo o encontro duas vezes por ano e com um programa idêntico: concertos, exibição de filmes, exposições / instalações, etc...

Há quem diga que é uma "Laica mais punk” e topa-se isso pelo lado mais desbundado da programação, que parece que irá pouco a pouco criar a sua própria identidade fugindo à característica mais aberta ao público que tinha a Laica. Parece que a morte da Laica fez ressuscitar mais duas feiras que andavam dormentes, a F.E.I.A. (com uma terceira edição como sempre no Montijo) e a Feira do Jeco (com duas novas edições, ambas no Porto). Voltaram maiores do que nunca mas tal como na Feira Morta, estes eventos não conseguem sair da armadilha que é preciso concertos de música para virem pessoas ao mercado do livro... A Laica em 2012 conseguiu mostrar que a "edição independente" tinha público por ela própria, como se provou na afluência de público das últimas duas Laicas. Este potencial no entanto não está ser aproveitado por nenhuma destas três organizações. Esperemos no entanto que 2013 tenha sido apenas um ano de transição para que 2014 seja mais assertivo.

Até porque o tempo urge porque o conceito (ou será "soundbyte"?) de “feira de edição independente” parece que está na moda, o que significa que já começaram a aparecer abusos de organizações a quererem capitalizar o conceito em situações de que cultura DIY nada têm - e têm ainda muito menos vergonha para pedir 15 euros por uma mesa, por exemplo, não compreendendo que quem faz destas publicações, faz na sua maior parte do tempo livre e parcos recursos, e não por necessidade económica e exploratória. Não se trata de colocar a "edição independente" numa patamar de virtudes, fria ao dinheiro e ao lucro mas antes de pensar que este é um mundo que tanto se encontram putos pré-universitários com zines baratos como colectivos com livros mais bem produzidos e luxuosos mas que se regem ambos por ideais de "preço justo", e que já são explorados por estágios profissionais e outras sacanices, não o precisam de ser também explorados pelo suposto meio que ajudam a criar.

Parece-me dogmático mas talvez os únicos que devem organizar "feiras de edição independente" são os que realmente o praticam e não pessoas de "fora" - com o risco de se banalizar o conceito e um dia até termos uma FNAC ou o Pingo Doce a fazer uma feira destas, não? 

Ao longo de 2013 ainda houve outras pequenas iniciativas como a Pulga do Gato (na livraria Gato Vadio, Porto), a Edita (evento espanhol mais ligado à poesia) passou por Lisboa, a Necromancia Editorial no Festival Milhões de Festa (Barcelos) e Jeux Sans Frontières no âmbito da Trienal de Arquitectura, Lisboa.

Houve no entanto outros eventos que não deixaram de ter a sua graça ou importância, como o divertido lançamento do livro O Hábito Faz o Monstro de Lucas Almeida que incluía corridas de “sofás-skates” nas ruas da Parede, o encontro de criativos Pitchzin em Santa Maria da Feira, a importante exposição “Lixo Futuro” na galeria da livraria de BD Mundo Fantasma que apostou numa nova geração de autores portugueses, o convite do Doc Lisboa para apresentar a colecção LowCCCost da Chili Com Carne e a inesperada “exposição-memória” da loja Mundo da Banda Desenhada / Op (1977-1987) em Setembro nas Escadinhas do Duque – espaço onde muita gente se cultivou no passado com publicações alternativas.



Up!

Uma coisa insólita que aconteceu em 2013 é que a BD profissional ou comercial de autores portugueses deixou de existir! A grande editora Asa (do grupo Leya) que editava algumas “coisas” – a maioria inexplicável e contra a maré dos tempos – deixou de o fazer. Ainda há o “Piçaboy Mendonça”, uma produção luso-argentina que consegue ser ainda pior que o velho Jim Del Monaco dos anos 80, que tem chancela da Tinta da China mas toda a produção BD portuguesa está actualmente entregue a editoras independentes.

Sem futurologia possível, desde meados de 2013 que ficou o campo aberto para as editoras resistentes como a Chili Com Carne, Kingpin Books, MMMNNNRRRG, Mundo Fantasma / Turbina e Polvo, que continuaram activas e com alguma dinâmica, com a hipótese de aumentarem a sua importância no mercado livreiro, face a uma ausência de qualquer tipo de BD editada de autores portugueses nesse mercado. E mesmo em termos de BD estrangeira! A única a trabalhar regularmente é a Devir, uma vez que a Contraponto deixou de publicar BD apesar do sucesso (?) de Marjane Satrapi e Alison Bechdel…

A  única estratégia que acho interessante, independentemente se o espaço abriu mais ou não, é que a BD que se edite tenha de ser interessante para um público fora desse "guetho". Para isso tem de ser uma arte “viva”, que conte ou que esteja envolvida no dia-a-dia das pessoas, ou que traga ideias novas como aliás qualquer outra arte faz. Num mundo de blogues e redes sociais que se pode criar comunidades do mais microscópico elemento subcultural, cada um pode ser o maior do bairro. O problema é depois do Bairro, na Aldeia não há espaço para a BD. Nos meios de comunicação social mais tradicionais quase desapareceu, por exemplo. Há mais de 10 anos haviam muitas colunas de crítica nos jornais e agora quando se fala de BD é para anunciar anacronismos como o novo álbum do Astérix ou de mais um original do Tintin vendido por uma barbaridade de dinheiro que deveria ser taxada para remediar o nojo colonialista do rei Leopoldo II - já agora, para quem esteve desatento, ver Vumbi de Rita Carvalho, editado pela Plana Press.

A BD que sempre teve um problema de visibilidade e reconhecimento público em Portugal nunca antes atingiu níveis tão baixos como agora. Só que o problema não é da “BD” mas sim do que se edita. Ora o que se edita geralmente não tem interesse nenhum para as pessoas, mesmo que os actuais filmes de Hollywood sejam todos sobre gajos com cuecas à mostra com super-poderes. Também têm aparecido uma tendência de alguma BD de ficção usar o nosso imaginário histórico (os tempos do fascismo, o PREC ou as guerras coloniais) infelizmente com resultados artísticos tão inócuos e/ou desastrosos que é natural que só se premiando em capelinhas "bedófilas" é que eles ganham relevância - para o próprio "guetho"! E isso é uma coisa que os cromos da BD (que continua a ser um grupo de crianças, jovens com borbulhas e adultos reaccionários) não percebem nem nunca perceberão. A Fantasia ou a Ficção não se cria por ela própria, e quando o faz, ou seja, auto-reproduzindo-se, cai no exercício de estilo pouco ou nada interessante – e isto tanto é verdade prá BD de patos sem cuecas como para quem gosta de Rock Gótico ou Harsh Noise. Os “bedófilos” bem podem admirar o génio do Alan Moore ou do Grant Morrison mas esquecem-se que eles foram formados por uma vida rica em experiências e não porque andaram a ler todos os livros de ficção científica do mundo (embora também o tenham feito!). Essas boas ideias se calhar surgiram porque eles trabalharam a limpar retretes…

Dentro da lógica deste mercado da BD tradicional está a Kingpin Books, uma loja de BD que tem apostado numa série de livros que dão nas vistas no "guetho bedófilo" mas acima de tudo parece ter “alegria no trabalho” no que faz. Há ambição e esforço técnico na produção dos conteúdos e dos livros, coisa que não parecia acontecer na Asa, por exemplo. Passa uma imagem de empreendorismo e dinâmica, justamente o oposto da Polvo que apesar do seu catálogo histórico, é a que menos comunica para fora (nem um blogue é capaz de ter!) e até para dentro (testemunhado no texto de António Kiala no Loverboy na Feira das Vanessas), por isso mesmo que tenham editado um livro do Ricardo Cabral, autor famoso q.b. por ter quatro livros da grande Asa, pouco ou nada irá significar na expansão da editora, que há muito que aceita tudo o que lhe ponham à frente. Ambos casos, até agora, uma por dinamismo, outra por historicidade parecem só mover-se pelos restos mortais do público "bedófilo", cujo palácio-para-burro-ver ainda é o Festival da BD Amadora, onde vão lá lançar novidades e colecionar prémios pacóvios.

Não é de estranhar que uma colecção como a nossa sobre viagens, a LowCCCost, cada vez que sai um novo volume acaba por interessar alguma "media" que geralmente ignoram BD. Seja pelo facto de estarmos num on the road numa “Europa aborrecida” ou a trabalhar numa ONG na Guiné-Bissau (falo de Kassumai de David Campos, claro), imediatamente estes temas atraem revistas de viagens ou a RTP Africa, enquanto que o “Piçaboy” tem de pagar para dar nas vistas... Mas adiante!

Em 2013, como colectivo de fanzines, destaco os cinco títulos do Clube do Inferno, com o material mais refrescante de quem faz produções de páginas fotocopiadas. Dentro do mesmo género, mantiveram-se o CVTHVUS e o Tiago Baptista manteve o Cleópatra e o Preto no branco. Enquanto com maiores meios continuaram BD Jornal, Buraco, Toupeira (da Bedeteca de Beja), Cru, Filme da Minha Vida (Ass. Ao Norte) e Mesinha de Cabeceira. Sentiu-se a falta do Lodaçal Comix mas Rudolfo lançou um novo volume de Musclechoo. E regressou The Killer Season Fanzaine de Pepedelrey – depois de quê? 14 anos!? A sério?

A Chili Com Carne recuperou BDs perdidas de Loverboy de Marte e João Fazenda [et al.], a Turbina as Crónicas da Arquitectura de Pedro Burgos e a Polvo aproveitando no trilho do comboio feito pela El Pep (em 2012) pegou em mais um clássico do Fernando Relvas. São pequenos gestos editoriais mas necessários para que o passado da BD portuguesa não seja esquecido, já que ninguém quer saber disso para nada.

O Quarto de Jade e o Panda Gordo iniciam-se na BD, no primeiro caso com um livro de Diniz Conefrey e no segundo com uma pequena antologia com sete autores "novos", João Sobral, Bárbara Fonseca, Diogo Bessa, Zé Cardoso, Sofia Palma, João Drumond e Amanda Baeza. André Oliveira e Joana Afonso começaram uma série de “comic-books” intitulada Living Will, pela nova Ave Rara, enquanto os Cabidela Ninjas e Imvincible Comics estrearam-se com zines mamados.

Fora do baralho: o Festival de Metal de Barroselas lançou um DVD comemorativo dos 15 anos de existência deste festival de música e que inclui um livrinho de BD sobre o evento feito por este vosso escriba, Marcos Farrajota; a Marvellous Tone lançou a banda sonora do filme O Coveiro (de André Gil Mata) que inclui um livro ilustrado de Sandra Neves; e, o Nicotina’zine que é de poesia continuou aberto à BD descobrindo até uns novos talentos, dos quais destaco o jovem e promissor Sim Mau.

Mas o vencedor do ano foi Lençóis Felizes de Van Ayres! O zine mais simples e boa-onda. Se há alguém que mereça um prémio de BD é ele! O Prémio Frescura!


In / out

Mas 2013 não trouxe só mais dois talentos refrescantes! Outro, ou melhor, outra foi a Amanda Baeza que se estreou em três edições estrangeiras, uma da Letónia e as outras em Espanha. Graças a isso será a autora com direito a uma exposição na Trem Azul Jazz Store durante o Festival Rescaldo, festival que faz um resumo do melhor que se fez em música portuguesa no ano anterior mas que tem dado espaço para a BD! De salutar a iniciativa!

Houve mais autores com trabalho publicado internacionalmente, sendo o mais mediático o de Rudolfo que também se estreou profissionalmente com o primeiro volume de Negative Dad sob argumento dos norte-americanos Nathan Williams e Matt Barrajas, para além de ter continuado a participar no fanzine Kovra (Espanha).

Houve participações de Bruno Borges, Teresa Câmara Pestana, Miguel Carneiro e Marcos Farrajota na revista eslovena Stripburger. Farrajota, Rudolfo e Wasted Rita participaram no Prego (do Brasil). Pedro Burgos teve o seu livro Airbag e outras histórias (Mundo Fantasma; 2003) editado em Itália pela Mal Edizioni. Ainda escrevi textos sobre “comix-remix” no jornal Kuti (Finlândia) e com Pedro Moura participamos no livro Metakatz (Bélgica). E claro André Lemos, mais calmo este ano, ainda assim participou em projectos na Alemanha e Inglaterra.

As viagens ou representações em festivais estrangeiros mantiveram-se: Crack (Roma), MEA 2 (Madrid), Edita (Punta Umbria, Espanha) e Bergen Art Book Fair, e na exposição "Workburger" (Eslovénia) sendo de destacar o Buraco que, tal como a Chili com Carne em 2010, meteu-se na carrinha e fez-se à estrada na sua “Trans-mediterranean Cargo Tour” passando por País Basco, França, Eslovénia, Sérvia e Itália. A exposição do Futuro Primitivo finalmente acabou a sua itinerância em Espanha e no Brasil, depois de ter percorrido países escandinavos, EUA e Itália desde 2011.

Autores estrangeiros que passaram por cá: Alex Vieira (Brasil) veio lançar o último Prego na saudosa Livraria Sá da Costa, Ilan Manouach (Grécia) veio ao Festival de Beja, Weaver (Brasil) ao Sete Sóis Sete Luas (Ponte de Sôr), Lars Sjunesson (Suécia / Berlim) com uma exposição individual na Trem Azul Jazz Store, Alex Baladi (da Suiça), Pedro Franz e André Diniz (ambos do Brasil) vieram ao Festival BD Amadora. Vivendo temporariamente em Portugal estão os brasileiros Sama que editou cá um livrinho de esboços, as autoras do fanzine Piqui (estiveram presentes com mesa na FEIA e Feira do Jeco) e de saída o casal russo-austríaco Alexander Brener e Barbara Schurz lançaram por cá um segundo livro, o Fuck Off and Die Alone.


Zona VIP

Apesar de toda esta cultura da edição independente vir dos fanzines, e sendo os fanzines publicações de fãs que de alguma forma prestavam vassalagem a algo, é o que menos há na edição independente, material de referência. Claro que no mundo da web.2 ter fanzines como o Nemo, Epitáfio ou O Moscardo seria um anacronismo completo mas ainda assim nem tudo está na ‘net, nem esta permite leituras profundas ou reflexão, embora seria injusto dizer isso quando se consulta os blogues de Domingos Isabelinho e de Pedro Moura. Este último e eu, como já referi, participamos no Metakatz, edição da editora belga 5éme Couche em que se discute todas as implicações da destruição e proibição do livro Katz, obra que “desviava” o sacrossanto Maus de Art Spiegelman. Aproveitando a deixa, é de referir também que a Letra Livre editou O Negócio dos Livros : como os grandes grupos económicos decidem o que lemos, de André Schifffin (1935-2013), responsável pelo Maus nos EUA quando editar livros significava alguma coisa, mesmo numa grande editora. Existe essa referência no livro mas como é óbvio não é uma obra sobre BD mas sobre a questão da edição de livros.

Também tive direito a uma entrevista no número 62 da revista eslovena Stripburger, que ajuda a compreender os projectos Chili Com Carne e MMMNNNRRRG. Claro que a revista chega a uma comunidade internacional interessante que irá saber mais sobre estes projectos do que cá, onde se tentam ignorá-los… O universo exagera na ironia!

A iniciativa mais importante no campo da referência foi sem dúvida o Portuguese Small Press Yearbook 2013 projecto dirigido por Catarina Figueiredo Cardoso e Isabel Baraona. É uma compilação relativa à edição independente nacional, sejam livros de artistas, fanzines, zines e outros mutantes bibliográficos publicados entre Junho 2012 a Junho 2013. Pelo meio há textos sobre edição, listas de arquivos públicos, etc...

Entretanto também é interessante referir o projecto de sociologia Keep it simple, make it fast! Prolegómenos e cenas punk (1977-2015) da Universidade do Porto, que está a estudar a cultura Punk em Portugal e que finalmente vai dar valor ao acervo de fanzines e publicações do género que se encontram na Bedeteca de Lisboa. Em princípio haverá algum estudo sobre a BD e a Ilustração punk portuguesa mas só em 2014 é que haverá resultados…


Roleta Russa

E é essa mesma Bedeteca que vai ser despachada prás Juntas de Freguesia, colocando em risco não só todo o sistema de funcionamento bastante racionalizado e optimizado, diga-se de passagem, das bibliotecas municipais (BLX) e pior ainda, esse acervo da Bedeteca, constituído não apenas por várias publicações históricas e patrimoniais - as primeiras revistas de BD como o ABCzinho ou a emblemática Visão, os primeiros álbuns como o Cruzeiro do Sul de Carlos Roque ou o esgotado Mr. Burroughts de David Saores e Pedro Nora, vários livros de BD de referência, revistas e livros estrangeiros - mas sobretudo, e o que interessa aqui, uma colecção única de fanzines, zines, livros de autor, livros de artista, graphzines, etc… que começa nos anos 70 e vai até aos dias de hoje, e que pelos vistos pode ter leituras transversais à BD como a tal tese sobre o Punk da Universidade do Porto.

Lendo a secção "Mapa Borrado", uma BD de Miguel Castro Caldas com desenhos de José Smith Vargas, no “jornal de informação crítica” Mapa, no número 3 (Set’13) vemos o Socialista António Costa a vender Lisboa ao desbarato a Woody Allen, para este último fazer um filme sobre a cidade. Se o velho jarreta o fizesse realmente só poderia fazer um filme lisboeta em hostels e portos de cruzeiros, porque é isso que a capital portuguesa se transformou.

A cultura em Lisboa está a desaparecer a julgar pelo populismo das iniciativas públicas e a morte lenta das iniciativas privadas. A última e mais cruel foi o fecho da Sá da Costa, numa Baixa deixada às marcas multinacionais, que provou ser um “spot” excelente para a venda destas “edições estranhas” que aqui relatamos.

Por fim, apesar de ser uma ideia da CCC e tendo o solipsismo a cegar-me, admito, tenho de dizer algo sobre o concurso interno “Toma lá 500 paus e faz uma BD!” – cujo vencedor foi Francisco Sousa Lobo com The Care of Birds a publicar em 2014. Tratou-se disso mesmo, um concurso para fazer um livro de BD com a oferta de um prémio monetário. O incentivo de podermos oferecer uma recompensa monetária revelou uma estratégia necessária neste país miserabilista, embora saibamos que 500 Euros não cobre todo o trabalho que existe para fazer uma BD de muitas páginas - um romance gráfico. Apesar de todos os criativos / autores de BD andarem a trabalhar de graça ou a receber mesmo muito pouco dinheiro (muito menos do que qualquer outra área criativa onde existe "mercado"), existe uma resiliência que a tem mantido viva.

Não existindo nem actividades nem espaço para a BD de autor em Portugal, especialmente depois da extinção das bolsas de criação literária e o “fade out” da Bedeteca de Lisboa, o que fizemos é muito pouco mas para uma primeira edição, recebemos oito trabalhos inesperados de nove autores (havia uma dupla), alguns deles que nem sabíamos que existiam e que graças ao concurso já começamos a trabalhar com eles – como a Júlia Tovar que vai estar na Zona de Desconforto.

Tudo indica que estamos no caminho certo para 2014. Não?

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ccc@doc.lisboa.2016


Mais uma vez a Associação Chili Com Carne regressa ao DocLisboa com exposição comercial de livros nossos que estejam na senda do "documentário" em BD... E já agora destacamos a retrospectiva de Peter Watkins e em especial o seu filme proíbido The War Game.

domingo, 12 de abril de 2026

Tommi Musturi @ Cinekomix

Já tinha sido mostrado no Doc Lisboa em 2022 mas agora passou na RTP2, o Cinekomix de Edgar Pêra com o Tommi Musturi entrevistado

 


Os livros ainda disponíveis de Musturi estão aqui e aproveitamos para anunciar que em 2027 sairá o terceiro volume do Samuel!!!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Kassumai / ESGOTADO



segundo volume da colecção LowCCCost - porque é realmente barato viajar lendo estes livros de viagens. Depois de uma "Boring Europa", a Associação Chili Com Carne, edita agora uma experiência mais excitante e exótica na Guiné-Bissau pela mão de David Campos 

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Kassumai (saudação Felupe)
uma palavra para designar: Liberdade, Paz e Felicidade...

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3 companheiros / 6 meses numa O.N.G. / 30 e muitas etnias / 1 nova grande família / milhões de sorrisos / muitas tabancas e estradinhas de areia...

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116p. 23x16,5 cm impressas a castanho escuro, capa em cartolina com badanas; 
ISBN: 978-989-8363-16-9

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pode ser que ainda apanhem algum exemplar na Matéria Prima, Palavra de Viajante, Mundo Fantasma, ZDB, Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristovão), BdMania, Utopia, Mundo Fantasma, LAC, Luar (Maputo) e Black Mamba.

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sobre o livro: David Campos visitou a Guiné-Bissau entre Novembro de 2006 e Maio de 2007 no âmbito de um projecto de apoio à população de S. Domingos, numa parceria entre uma O.N.G., a Acção para o Desenvolvimento, e a Câmara Municipal do Montijo. Durante a sua estadia apaixonou-se pelas pessoas que conheceu e este livro, mais que um relato de viagens neste país africano, é um diário fragmentado de vivências e contactos humanos feitos pelo autor entre o seu trabalho como voluntário e os seus tempos livres. 

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O autor nasceu em 1979 em Medons La Florett (França) mas veio para Portugal aos 4 anos, crescendo no Montijo. Tirou o curso de Formação Profissional de Desenho Animado (ETIC) e também o de Escrita para Multimédia e Audiovisuais, e na Ar.Co o curso de Ilustração e BD. Trabalhou em Cinema de Animação, têm editado alguns fanzines e participado em algumas antologias da Associação Chili Com Carne, nomeadamente Destruição ou bandas desenhadas sobre como foi horrível viver entre 2001 e 2010 e Futuro Primitivo.

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Edição apoiada pelo IPDJ 

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historial: lançado no dia 22 de Março na Livraria Sá da Costa ... no mesmo dia: exposição + festa com no Adufe Bar ... reportagem na RTP Internacional / programa Rumos ... exposição de originais no Festival de BD de Beja, 1 a 16 de Junho 2013 ... Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal ... apresentação no DOC LISBOA 2013 ... Seleccionado por Pedro Moura como um dos cinco dos melhores livros portugueses de BD (2013) no site de Paul Gravett ... exposição de originais na BD Amadora 2015 ...
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feedback: 
está muito fixe (...) surpreendeu-me muito tanto ao nivel do desenho como ao nivel de texto. Parece-me agora muito mais fluido e natural (talvez por ser autobiográfico?). 
André Coelho (via e-mail) 
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Campos não parece interessar propriamente o registo jornalístico ou de literatura de viagens, as quais quase obrigariam à procura do exotismo, a uma permanente tensão entre um “eu” (“nós”) e um “eles”, mas antes essa escrita diarística que abraça desde logo o interrelacionamento humano. Até podemos mesmo dizer que este livro é uma forma de demonstrar como a banda desenhada, se entendida (somente, redutoramente) como meio de comunicação, ela pode adaptar-se a todas e quaisquer expressões. 
Pedro Moura in Ler BD 
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Curti dos livros, só não gostei de um: aquele da viagem Bla bla bla previsível ah e tal que experiencia magnifica bla bla bla e o camandro 
Rattus (Albert Fish) via e-mail 
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é um livro muito interessante, captando instantes do percurso pessoal do autor à medida que se adapta a um país pobre, muito mais estranho do que aquilo que contava. (...) sendo um bela iniciativa de uma editora fundamental (...) Sente-se algum pudor, mas a verdade é que o livro não se liberta de uma visão pessoal (a todos os níveis), e é pena, porque se trata de um excelente ponto de partida, e o estilo do autor (entre o fotográfico e o esboço) é particularmente eficaz a retratar as distorções que a memória faz no real. 
João Ramalho Santos in JL 
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Nomeado para Melhor Publicação Nacional dos Troféus Central Comics 2014 
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Acho que a cooperação portuguesa devia distribuir um exemplar de Kassumai a todo e qualquer cooperante que partisse para África, tão intensa é esta generosidade, tão autêntica foi esta dádiva, tão festiva é toda esta experiência realçada por um desenho ingénuo, franco e leal, como leal é a amizade que ele estabeleceu com aquele chão felupe, sabe-se lá se para todo o sempre. 
Luís Graça & Camaradas da Guiné 
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Rememorar momentos da sua própria vida é uma tendência comum a escritores e a autores de BD em especial. (...)  Na novela gráfica Kassumai (...) Assistimos, graças às imagens realistas que David desenha - muitas delas com subtil apoio fotográfico - a sequência de momentos que desenha e escreve, desde confissões inesperadas (algo como "vou acabar de ler os Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez e passar a usar o livro para o pôr em cima dos desenhos quando quero digitalizá-los"), ou análises amargas das realidades que enfrenta naquele país, onde o trabalho duro é executado maioritariamente por mulheres e crianças. David Campos inclui-se como personagem na participação das situações ou, no mínimo, como observador. É uma obra que se sente prenhe de emotividade perante uma realidade tão dura, que claramente se imprime na sensibilidade de um observador jovem e sensível ao registar literária e imageticamente vários momentos marcantes da sua imersão, mesmo que apenas durante cerca de sete meses, num contexto social e humano com aspectos de desigualdade gritantes. 
Geraldes Lino 
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Durante a sua estadia apaixonou-se pelas pessoas que conheceu e este livro, mais que um relato de viagens neste país africano, é um diário fragmentado de vivências e contactos humanos feitos pelo autor entre o seu trabalho como voluntário e os seus tempos livres. É possível acompanhar o percurso do autor e a voz pessoal com que narra esta viagem, ficando deste modo registada a sua visão do que restou da memória e das fotografias capturadas. 
Nuno Sousa

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