quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (2)

A split-tape de Thir e Death Posture já saiu em 2023, editada pela Tribunal of Penance, mas foi só no Perímetro que me apercebi dela. Fui na conversa do Durvena Cabina porque este fez um dos discos mais interessantes no ano passado pela Rasga

No cômputo geral é Industrial, sendo Thir mais próximo de experimentação electrónica a lembrar os saudosos tempos da Thisco, à procura do "fantasma da máquina", como escreveu Rui Eduardo Paes num Bestiário, enquanto que Death Posture é mais funcional num Dark Tekno que seria uma bela dança se houvesse pistas de dança para esta música em Portugal - existem? Duvido... Não impressionam apesar da qualidade do som, composição e produção mas sobretudo sabe a pouco, são apenas quatro temas apenas nem dá para atropelar ninguém, conscientemente ou não, ao ouvir a k7 no carro... I want more!!! 


Doghead #1 (The Mansion Press; 2024) também é "split" e sobretudo é o regresso à BD do canadiano Dave Cooper, artista gráfico virtuoso de tendências Neo-Pop e Crumbianas.

São duas histórias cada uma numa parte do livro, The Great Hierarchy é uma cosmogonia surreal e sexualizada, que só iremos perceber - ah, esqueci-me ambas BDs são de continuação, ou melhor divididas em 6 capítulos ou seja o Doghead irá ter 6 volumes - se tem pernas (e/ou pénis e/ou vagina) para andar depois de lermos esta "introdução". Longe da tontice do Suckle e a meio caminho do Crumple - embora este fosse uma ficção especulativa feminista. L'architecte já é outro animal completamente diferente, passa-se nos anos 70 em Nova Scotia (onde o artista nasceu) e mete uma trama com um edifício brutalista na narração. Uma personagem feminina voluptuosa leva-me logo a pensar que isto está na linha das tensões psico-sexuais do erótico Ripple mas cheira-me que isto vai dar em algo entre o Hitchcock ou o recém-falecido Lynch. Promete!!

O traço de Cooper está excelente, sempre com detalhes excessivos em matéria de vegetais e ovais, usando traços a duas cores. A editora é francesa mas está a publicar sobretudo artistas não-PCs norte-americanos e japoneses mas também o "nosso" Carlos Carcassa... Ou seja os livros estão para o pseudo-esperanto do inglês.

Por falar em "pseudo-esperanto", não será a BD sem palavras essa oportunidade de comunicação universal? Duvido muito porque o desenho, ou melhor, as representações pictóricas e as culturas nunca são uniformes, por exemplo, um quadrado com uma porta e janela (mais quadrado dentro do quadrado) e um telhado que é um triângulo não quererá dizer casa para algumas culturas em que estas não se assemelham a nada disso... Os dois números do ano passado da revista eslovena Stripburger foram "mudos", ou seja, publicaram BD sem palavras. Internacionalista como sempre encontramos vários nomes de toda a parte do planeta. O número 84 em especial tem uma boa selecção de BDs, bastante impressionantes como já não acontecia a algum tempo, em que destaco o português Bruno Borges, os alemães Alexandra Rügler, Andy Leuenberger, Lili Gaigal e Nadine Redlich (também autora da divertida capa), o belga Simon De Waepenaere, o grande gringo Peter Kuper e os franceses Nicolas Presl e Gary Colin.

Sendo um número especial, o tradicional "suplemento tradutor para inglês que costuma acompanhar a revista desta vez inclui o índice, a ficha técnica e um artigo sobre o mestre da BD muda Jim Woodring. Um grande número!!!

A revista encontra-se distribuída em Portugal na livraria Tinta nos Nervos e a colecção completa da publicação pode ser consultada no acervo da Bedeteca de Lisboa.

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