terça-feira, 17 de julho de 2012

Nessuno mi farà del male (2ª ed.)

Giacomo Monti
Canicola; 2012

Este livro de Giacomo Monti foi recentemente adaptado para cinema por outro autor de BD mais ou menos famoso, Gipi (O Local, editado cá em Portugal pela VitaminaBD), o que deverá ser curioso narrativamente porque este livro compila várias BDs sem ligações entre elas, de Monti que saíram nessa publicação e noutras antologias - e talvez haja aqui uma ou duas BDs inéditas mas infelizmente não há créditos na ficha técnica do livro para descobrir as suas origens. Significa desde já que para quem tem todos os números da Canicola 70% do material aqui proposto encontra-se nessa publicação, o que poderá ser um "mau negócio"... Mas as "novas" BDs de Monti poderão facilmente convencer os espíritos mais tecnocratas a guardar este sólido livro de 168 páginas a preto e branco.
Criados de Casino que vão às putas, ameaças ligeiras de hooligans, o que se faz com um gato morto da vizinhança, visitas (simpáticas ou nem por isso) de alienígena e "paparazzis" atrás de fotos escandalosas de futebolistas homossexuais são algumas das desculpas esfarrapadas que Monti usa para nos manipular com "estórias-não-estórias" sobre a dor e solidão humana. Não interessa o motivo que ele descobre para parecer que vamos entrar num mundo diferente e excitante! Logo esse "motivo" se dissipa em "slices of life" desesperantes da vida moderna, em que pouco importa se vamos ser invadidos por OVNIS ou se assistimos a um programa televisivo de culinária. Se muitas vezes achamos as nossas vidas absurdas - e são, seja como for -  a única luz no fundo do túnel é esperar que Monti as transforme em verdadeiras pérolas de narração. Será absurdo comparar aos textos dos filmes do Tarantino? Talvez não...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Liberdade assusta



Hairybones: Snakelust
RED Trio + Nate Wooley : Stem 
(Clean Feed; 2012)

O primeiro CD é simples de se perceber: junta-se quatro monstros da cena Jazz / Free / Improv a tocarem ao vivo num festival de referência (Jazz em Agosto 2011 nos jardins da Gulbenkian) e temos disco (ao vivo). Peter Broetzmann, Toshinori Kondo, Massimo Pupillo (dos Zu) e Paal Nilssen-Love juntos em cerca de uma hora de inferno eléctrico massacraram a audiência e agora é a nossa vez de sermos dizimados - se tivermos o disco, claro. É um excesso sonoro que incomoda vizinhos e a capacidade de concentração - não vale a pena trabalhar a ouvir este disco, é mesmo inútil tentar. O mais interessante é que a energia deste "jazz" é mais rock que outra coisa - se pensarmos que o Jazz como um estilo cristalizado em standards burgueses de crooners, divas e casos amorfos. Isto mostra bem que quem têm capacidade de absorver tudo o que há à sua volta são os músicos do Free... Curioso!
O novo de RED Trio deve ser o primeiro disco desta banda portuguesa que não me entrou à primeira nem quarta audição... Não é a primeira vez que trabalham com outro músico que bate os caminhos do Jazz, só que a participação do trompetista Wooley dá entender logo início que a sua participação irá colar com o seu instrumento o aspecto fragmentário da banda e levá-los para o lugar-comum do Free-Jazz. Não será assim lá para o meio do disco mas custa-me ouví-lo até encontrar os campos abertos do RED Trio. É um disco bipolar onde temos de aturar uma seca jazzística até chegar ao que interessa... Não é fácil nem apetecível visitar este disco por cauda da sua dicotomia "fixe" e "não fixe" mas como os quatro tipos deram-se bem em concertos tinham de avançar com um registo fonográfico. Interessante o ensaio de Wooley sobre a dificuldade em quebrar um sistema hierárquico e praticar "verdadeira democracia" (quererá ele dizer anarquia mas tem medo de usar a palavra?) quando se toca Improvisação.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Body REP

ilustração: Joana Pires

Eis os link para uma entrevista a Rui Eduardo Paes, no âmbito do livro Bestiário Ilustríssimo:

http://bodyspace.net/artigos.php?rub_id=198

Realizada para o site de música portuguesa Body Space, é realizada por Nuno Catarino, o mesmo jornalista e crítico que escreveu sobre o livro no jornal Público. Será este o único jornalista que se interessou pelo livro do REP? Quando pensava que o jornalismo envolta da BD era rídiculo e inerte, eis uma surpresa, o da música não é melhor...

domingo, 8 de julho de 2012

Somos sempre os últimos a saber...



Não sabiamos destes vídeos do Crack 2009 , descobrimos agora... Aqui está a terceira parte dedicada à visita da Chili Com Carne ao evento com o João Maio Pinto  a servir de  e a revelar o seu fascínio pelos... Whitesnake!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

ccc@Jazz.pt


As BD-reportagens sobre o XJAZZ realizadas por Marcos Farrajota com Joana Pires e por Jucifer já sairam no novo número da Jazz.pt - já está à venda nas bancas! Ah! Topámos que também há uma entrevista ao novíssimo sócio Filipe Felizardo nas suas páginas!

Valente mas perdido!

O camarada Martin passou-se! O número 4 do Kovra, zine de BD que ele edita via o selo Ediciones Valientes, engordou e perdeu parte da sua personalidade. É científico e está provado que antologias tem este percurso: começam com uma força inovadora, contactam artistas fora da estrutura inicial, engordam o número de páginas e perdem personalidade. Não que a qualidade piore mas apenas deixam de surpreender nas suas páginas - foi o que aconteceu com a Canicola ou Glömp no passado. Destaque para o trabalho de Carlos Maiques que continua a investigar a abstração na BD com técnicas de "cut'n'paste" - que nos remete para o dice industries ainda à pouco tempo aqui referido. De notar que os nossos associados Ricardo Martins e Rudolfo também participam neste número! Less is more? KISS (keep it simple stupid)?


Por falar em abstracto AA (2012) de Ellen Capriota e Aitor Pacnelle é um zine de experiência gráfica em que se juntaram uma série de "glitches visuais" que se podem ler de todas formas e por todos os lados - o zine é um split mas podems folheá-lo na horizontal ou vertical, de pernas para o ar (segundo uma indicação inicial da capa que nos dirige para uma direcção). Abstracção, erros ampliados digitais ampliados para folhas impressas, é um "artsy-fartsy" para designers e hipsters... Desconfio que os traços desenhados sejam do Martin mas ele recusa-se a abrir o jogo!
E por falar nele, o Martin (Lam López) é incansável, tanto que ainda publicou mais um volume da colecção TRRRzine intitulado Cantatas (2011). De sua autoria este objecto é um desdobrável alucinado que prova que o Martin é um desenhador impressionante que mistura as suas raízes peruanas, influências "comiqueiras", experiências gráficas e erotismo sem medos. Adapta duas canções com um desenho que se alarga até ao eterno retorno.

Portland Primitivo


Fotos de Amy Souza sobre o Futuro Primitivo na loja Floating World Comics (Portland, EUA).

Eu quero que o Fado se foda!!! (se ainda fossem putas bêbadas...)




Se em 1997 já não tinha paciência para Indie-Rock, o que faço em 2012 com uma mão cheia de CDs da Cafetra Records? A resposta é simples, os putos são uns bacanos e percebem que a cultura DIY é uma cultura "desinteressada" - que dá mais do que recebe. Na última Feira Laica ofereci-lhes uns livros e recebi deles uma catrefada de discos! O problema é ouvir isto tudo quando nunca curti Pavement e há muito que ignoro Dinosaur Jr. ou Pixies - no caso desta última banda que foi a minha loucura de juventude recuso-me a participar no seu regresso monetário e à nostalgia do seu público gordinho, careca, cheios de filhos e dívidas ao banco.
O Rock que a Cafetra pratica é sujo, barulhento e sónico, não trazem nada de novo no horizonte da música embora o seu fascínio em escreverem canções (sub)Pop são boas polaróides dos universos juvenis de Lisboa / Portugal em 2011/12. Há intervalos para guitarras angulares e dedilhadas, gritarias, cataroladas e tudo o mais que esteja abrangido neste estilo de música "indie" e "lo fi". É assumido que não há orçamentos para produções com "Albinis" e por isso a mais-valia deste colectivo lisboeta onde se inserem uma dúzia de 10 bandas / projectos diferentes é que dificultam a audição para os ouvidos limpos de quem "post-rocka" e outras paneleirices contemporâneas. Neste mundo cheio de higiene e pro-tools os Cafetra Crew gravam "mal" como já ninguém faz - nem os punks! - o que poderá ser interpretado como "ar fresco" no típico ambiente "pop will eat itself".
Os passos em volta são os mais dolorosos de se ouvir porque guicham letras que não se percebem no Até morrer (2011), sinceramente eu deveria prestar mais atenção pois bastaria levantar o som e estar atento às letras mas desde puto que nunca percebi as letras portuguesas de bandas bem-gravadas como os Xutos ou Rádio Macau, por isso, sou um caso perdido e não serão os Passos que me meterão na linha... Que se lixe! E este "que se lixe" é positivo porque a Cafetra não me causa nenhum ódio ou desprezo ao contrário de quase toda a produção musical deste país de atrasados-mentais. Kimo Ameba com o seu disco de estreia, Rocket Soda (2012) são mais sónicos, acelerados e não falam tanto... melhor assim! Podiam era ser ainda mais sónicos, acelerados e cantarem ainda menos que estariam no ponto se assim fosse! Apesar de dedicarem o disco ao Seth Putnam (1968-2011), se o vocalista dos Anal Cunt estivesse vivo provavelmente faria uma música grunhida como Kimo Ameba is gay! Entre estas duas bandas há outra que é mais equilibrada, as Pega Monstro, duas miúdas a rockarem fodidamente parvoíces teenybooper sem papas na língua em binómio "quero / não quero" (sindroma Ramones) que deixará muito macho músico à rasca. Estas miúdas (e toda a crew da Cafetra para dizer a verdade) só precisam é de ler livros do Bakunine, Phillip K. Dick e o Revolta contra o Mundo Moderno do Julius Evola para se livrarem desta existência mundana. Claro que deixariam de ser o que são, perderiam o "glamour" burguês da juventude que tanto têm entesado os velhadas dos críticos musicais... Claro que os Cafetras irão transformar-se noutra entidade muito rapidamente,  isso é normal que venha a acontecer, basta ver a evolução do Rudolfo, por exemplo, que começou com as letras "xixi-cócó" para letras cada vez mais sofisticadas e longe das borbulhas. It's Fetra time...
Compila (2012) é nova compilação de projectos da Cafetra, eclética q.b. e porreira de se ouvir graças às fugas ao esquema sónico pelos Go Suck a Fuck, Éme (cantautorismo) e Smiley Face (trash pop). Bem fixe! Por falar em fixe, as capas da Cafetra tem melhorado e sim, é isso, são fixes! Assumo a limitação das palavras! É fixe, pooooorra!  Desenhos e pinturas naives com capacidade de atrairem o olho de qualquer ser humano, bem longe das photoshopadas esteréis que pupulam por aí. Hey! É o Harvey Pekar na capa do Compila?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Infecção urinária de Deus


Considerando que em Portugal não existe um único instituto público – ou privado? – que coleccione os fonogramas editados no país, é realmente de considerar as colectâneas À Sombra de Deus como um caso de salutar pelo o objectivo do projecto e pela regularidade do mesmo. Este ano por âmbito de uma comemoração qualquer da em volta da Juventude lança-se o quarto volume.

Suponho que o Governo português – tenha ele acabado com o Ministério da Cultura ou não – nunca tenha pensado o quão importante poderá ter um acervo público de discos de música portuguesa. Nem que seja pelo caso mais fácil de pensar que é pela necessidade do seu estudo seja na vertente popular seja na de vanguarda, já para não falar da importância de património dos objectos e colecções. A verdade é que se alguém quiser estudar o Rockabilly em Portugal ou música electrónica portuguesa, eu pergunto, onde uma pessoa poderá investigar? As respostas não são satisfatórias:

1) Através de colecções privadas de “cromos” (coleccionadores alucinados e outras espécies de ser humanos) – o que significa que se o cromo for doido ou se fartar de aturar malta a mexer-lhe nos discos, acaba-se a mama!
2) Pela cultura digital: youtubes, wikipedias, mp3, etc… giro, giro mas a internet não é segura em dados, não se pode consultar embalagens (pode ser importante para um trabalho sobre grafismo Punk, por ex.), etc…
3) Fonoteca de Lisboa… espera lá? Essa merda ainda existe? Parece que sim, havia rumores que ia acabar mas parece que mudou de sítio apenas… bom, afinal ainda existe uma colecção pública para irmos consultar discos. Ainda assim é um equipamento municipal e não nacional, significa que é mais fácil de desaparecer do que uma instituição do governo central, por exemplo – ou talvez não, alô Ministério da Cultura?

Por estas razões, mais até que a qualidade da música propriamente dita, é que as colectâneas À Sombra de Deus são importantes até porque a primeira saiu em 1988, seguido pela segunda em 1994, a terceira em 2004 e agora o quarto volume que aliás é duplo. Produzidas pelas mãos dos Mão Morta e da Câmara Municipal de Braga, são preenchidas com temas inéditos de bandas Bracarenses. O grande objectivo é fazer uma apresentação do panorama da música bracarense, e ao longo da progressão cronológica dos volumes vamos ter uma visão abrangente não só das bandas da capital minhota mas também da evolução da cultura musical urbana em Portugal e até um raio xis da sociedade portuguesa – pode-se fazer História com estes discos!
Logo no início, nota-se nos dois primeiros volumes (também eles com menos tempo de intervalo entre eles) que o “post punk”, o “industrial” e o “dark” eram os vectores musicais que mexiam Braga (e o resto do país) através da “gangue” que circulava em volta dos Mão Morta, sem dúvida a banda mais conhecida da cidade. A colectânea de 2004 já explode em várias frentes: alt.country, Funk, Metal, Electrónica e até Hip Hop. Em 2012 as “divergências sonoras” continuam numa alegre salganhada de estilos representados pelas 23 bandas.
É quase impossível ouvir os dois discos deste 4º volume sem ficar irritado com uma ou duas músicas, não porque os estilos sejam repreensíveis – quem ache isso ainda tem de crescer ou deixar de ser um fascistazinho do gosto – mas sobretudo porque haverá sempre músicas insuportáveis para gregos e para troianos.
Quem ouve Pop redondinha vai ficar lixado em ouvir as três bandas Metal que aparecem: Vai-te Foder, Spitting Red e Hunted Scriptum – já agora todas elas com algum interesse! Quem não suporta Pop/ Rock e “cantautores” (como eu) vai-se passar com Governo (que treta este walter hugo mãe! Quem é que lhe incentiva a cantar?), Cavalheiro (cristãos chatos em ressaca FlorCaveira?), Balão de Ferro (rock de letras mongas), Smix Smox Smux (um terrível orelhudo com uma letra freudiana), The 1969 Revolutionary Orgy (Blues de látex que engana as expectativas do nome da banda)…
Depois há as coisas que não batem bem, não que elas sejam propriamente boas mas pelo menos deixam-nos confusos como Anguria e Monstro Mau fazem funks fatelas (Monstro Mau rapina Parliement/ Funkadelic) mas pelo menos as letras não são óbvias, Nyx um exercício electro-acústico com voz de Diva lírica, Palmer Eldritch com “glitches” simpáticos, e Ermo que não se percebe se querem ser uma banda de Dark Folk ou apenas um grupo de coro gregoriano que nos faz gregoriar.
Todo o resto é a produção profissional musical Pop/Rock que este país alcançou sem que isso mostre rupturas sonoras de nenhuma forma ou até mereça referência – convenhamos quem quer dar mais “hype” a bandas betas como Peixe:Avião? Acho que não merecem… E claro, no meio há toda a “família” Mão Morta que não desiludem, como é óbvio. Os próprios com uma participação com ar retro, Estilhaços com o Adolfo Luxúria Canibal a recitar Mário Cesariny (1923-2006) e os Mundo Cão. De enaltecer os feitos dos Mão Morta em instigar essas colectêneas fazendo um trabalho público que poucos se lembrariam de o fazer ou que poucos se dignariam em fazé-lo e sobretudo em continuá-lo. Ministério da Mão, já!
Concluíndo, este retrato possível de Braga é mais ou menos igual ao que poderia ser o de Lisboa ou outras cidades do país, ou seja, temos música Pop / urbana que replica os modelos anglo-saxónicos sem grandes feitos de originalidade ou de vontade de sair da mediocridade, acrescentados por um ícone. As bandas mostram-se limpas e profissionais com vontade de ir até ao Templo da Fama sem quererem fazer pactos com o Diabo. Sendo Braga a cidade que deve ter mais igrejas e capelinhas por metro quadrado, pelos visto mesmo sendo a cidade mais jovem da Europa, os seus jovens não desejam ser irreverentes – como o foram os Mão Morta – mas preferem ser atinhadinhos. O “Sr. Atinado” é aliás um sinal dos tempos que se vive nesta Europa envelhecida que contagia o pensamento, a acção e a arte. Vamos ter de esperar por boa música numa colectênea a intitular-se “À Sombra de Deus – Neo-Bracara 2017”! Como sabemos por volta dessa data o Mundo já acabou e os Mutantes governarão o Século XXI. Amén!

sábado, 30 de junho de 2012

20ª FEIRA LAICA internacional : edição independente


É mesmo o maior evento de edição independente em Portugal! E diz-se que este ano tem «mais 20% de exposições, concertos e convidados estrangeiros»!!! Falamos da FEIRA LAICA que nesta edição de Verão desloca-se, após 7 anos na Bedeteca de Lisboa, para o Palácio de Laguares (Campolide, futuras instalações da Sociedade Guilherme Cossoul).
A Associação Chili Com Carne vai lá estar, claro! O Bráulio Amado fez o cartaz desta edição e amigos nossos estrangeiros estaraão presentes como o italiano Andrea Bruno (Boring Europa) e o alemão dice industries (vários números do Mesinha de Cabeceira). Menos boas notícias é que um livro que tinhamos pensado em lançar não deverá sair a tempo...