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quarta-feira, 11 de março de 2026

Anders Nilsen : Chicago, Comics and Life (2 vol., 2022-25)



Acompanho o trabalho do norte-americano Anders Nilsen desde o zine Big Questions que era vendido numa loja de discos e BDs no Bairro Alto, a Eklet - por uns tempos parecia que Lisboa ia ser civilizada. No Sábado passado, na Tinta nos Nervos apanhei dois perzines do artista, fazendo autobiografia em prosa, o primeiro sobre a sua estadia em Chicago entre 1999 e 2012, e o segundo focado no restaurante Lula onde trabalhava como cozinheiro e como curador da galeria. Não pensem os poseurs que isto é chique ou "que giro"... Estamos nos EUA a vida não é fácil e isso significa trabalhar à séria (na cozinha e noutros dias a fazer BD) não é para fazer CV na ZDB ou no Damas. 

Nilsen reflecte sobre a sua vida neste período quando entrou para a universidade, numa altura que a BD (ainda) era completamente descurada no ensino. Para sustentar-se trabalhava como cozinheiro. Decide ser um "dropout" (alguém que decide abandonar o ensino superior), consciente que os cursos de Arte são armadilhas em que os estudantes acumulam uma dívida enorme, e ao contrário de outras profissionais (médico, advogado, etc...) que conseguem pagá-la ao fim de poucos anos, no caso de um artista (com sorte) consegue ter uma carreira 10 anos depois do final de curso e pagar a dívida - os merdas de Direita que querem privatizar tudo acham bem ficar escravo deste sistema infernal, claro, boa sorte estúpidos! Este pensamento sobre as possibilidades reais da carreira não me parece, apesar das diferenças, muito fora do comum em Portugal mas há outro ponto que ele toca que podemos ver também por cá, que é quem frequenta os cursos de Arte serão sempre classes favorecidas e que estas não tem nenhuma empatia com os que vivem abaixo deles na pirâmide social. Não que a Arte tenha de ser política, panfletária ou social mas a vibração que a Arte tem sobre nós, não é feita de certeza por pessoas que estão bem ou com probleminhas do 1º Mundo - não haveria Grindcore se o mundo não fosse uma merda, certo? Nilsen, preferiu portanto dedicar-se aos zines de BD autopublicando e preparando-se para fazer uma rede de pessoas que gostassem do seu trabalho. Até chegou a Portugal pelos vistos, e aqui este escriba não desiste de acompanhar os seus excelentes livros como a actual série Tongues. Bem jogado!

Os zine vão relatando também como Nilsen vai-se se inserindo na cena conhecendo Chris Ware, Jeffrey Brown, John Porcellino ou a loja Quimby's, até lhe aparecer a sua primeira encomenda por Chris Oliveros quando este geria a importante Drawn & Quarterly. Espera-se por mais volumes desta publicação, é bom os artistas escreverem as suas memórias sinceras para que não se criem mitificações idiotas e desnecessárias.

sábado, 19 de fevereiro de 2022

3 (+1) perguntas ao Harukichi


1. Senhor Harukichi, começou a fazer banda desenhada quando tinha 37 anos. Qual era o seu trabalho  e que relação tinha com a BD antes disso? Era um leitor apaixonado e o que lhe fez vir para a BD?

Primeiro, não era um leitor apaixonado por BD embora tenha lido os grandes nomes como Osamu Tezuka ou Shigeru Mizuki quando era jovem.
Estive em Tóquio a trabalhar em livrarias e em lojas de discos como ainda fui também assistente editorial para revistas durante 15 anos desde que conclui a Licenciatura. Durante esse tempo, o meu desejo era ser compositor de música clássica e concorri a vários concursos mas sem êxito. Um dia, talvez quando tinha 33 anos, li um livro do artista vanguardista Taro Okamoto. Ele dizia: “Tens de pintar agora. Tu podes dizer que o farás depois, ou que o irás fazer quando tiveres um bom tema. Não importa. Nada importa a não ser decidires para o fazer agora. Tu consegues facilmente fazer pinturas como as minhas." Fiquei muito impressionado e comece a pintar, não era BD. Passado algum tempo, estava mais interessado em pinturas de outros artistas e visitava sempre o sítio da Last Gasp que distribuía vários livros de Arte. E lá estava esta BD estranha (numa perspectiva japonesa e do Manga) intitulada Cão Capacho Bósnio [publicada em Portugal apenas a primeira parte na revista Quadrado #6 (3ª série)]. Comprei o livro, isto foi a primeira vez que comprei uma BD estrangeira - e já respondo a mais na segunda pergunta...

2. Quando começou a trabalhar em BD e qual era o seu motivo inicial?
Eu não sabia nada sobre a Guerra na Bósnia nem da desintegração da Jugoslávia na altura que comprei o livro mas achei a história muito interessante e fiquei atraído pelo estilo de pincel bruto de Max Andersson e Lars Sjunnesson. E senti uma mensagem da BD: “Tu consegues desenhar assim.” Mas não tinha uma história para fazer tantas páginas. Entretanto comprava mais e mais BD estrangeira, um dia comprei uma BD do Jeffrey Brown. O seu estilo era também cru e fazia histórias curtas de uma ou duas páginas. Ouvi também uma mensagem daí: “Consegues fazer isto: desenhos amadores e pequenas histórias". Então comecei a fazer BD. Espero que elas enviem as mesmas mensagens para quem não faz BD.

3. E como descobriste o trabalho do Aleksandar Zograf? O que achaste de interessante no seu trabalho?
Como disse na reposta anterior eu continuava a comprar BDs estrangeiras como por exemplo da Fantagraphics, Drawn & Quarterly, First Second, Top Shelf, etc..., Um dos livros foi o seu Regards from Serbia. Nunca tinha lido algo assim. O seu estilo gráfico é também muito cru e o seu texto é muito informativo para quem não sabe dos temas de que ele trata. E também, Regards, conta a verdade do lado vencido. Poucos o podem fazer como Joe Sacco, Peter Kuper e Seth Tobocman. O Aleksander Zograf é a resposta sérvia a estes artistas.

pergunta extra (Marcos Farrajota). Ficaste fascinado com o Cão Capacho Bósnio e autores estrangeiros pelo seu fulgor mas no Japão há a "tradição" do estilo Heta e a revista Garo. Não conhecias isso?
Conhecia  estilo Heta e a revista Garo (ou AX lançada mais tarde pelo ex-editor da Garo) antes de encontrar o Cão Capacho Bósnio. Não sei porque é que essas BDs não me inspiraram a desenhar. Admito que não conhecia BD estrangeira antes do Cão, que me apresentou a mundo ENORME de BD estrangeira. Foi uma espécie de epifania ou revelação para mim. Ao mesmo tempo, já tinha mais de 30 anos e era e ainda é tarde demais para ser um autor de BD no Japão. Mas pensei que teria uma pequena chance de me tornar autor no estrangeiro. Por isso comecei a fazer BD.

As perguntas iniciais foram feitas para o Festival Nova 2019 em Pančevo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Publicações Áustria-Brasileiras

Os Tonto de tonto nada têm. É verdade que a Áustria não tem uma tradição de bd - ou visual, segundo se quixavam os elementos do colectivo durante o Boring Europa - mas isso não impede que haja pessoas a mexerem-se. Se a antologia Tonto é uma inspiração para qualquer editor o mesmo não sei o que dizer deste graphzine de serigrafia que reúne os artistas do grupo. São meramente 12 páginas deitadas com ilustrações (com uns textos minúsculos) com um tema em comum - creio, se o meu alemão estivesse em forma - sobre miséria, trabalho e comida... É o que parece. Falta garra neste livro parece que se ficaram pela técnica, uma vez que a impressão está perfeita, sem aqueles erros de impressão que tanto fascinam alguns serígrafos.

No pacote que vinha com esta nova edição "tonta", vinha também um "clássico": Wave Mash Target (Tonto#1, 1999) de Kaplan. Antes do Tonto se dedicar à bd, editava música - aliás, como bem puderam ler no Boring Europa. E este é uma velharia desses tempos musicais, um CD-R de música electrónica de nada mais nada menos de Helmut Kaplan, o mentor do Tonto.
É Electrónica experimental embora com uma estrutura simples e directa que deve depender da direcção que os samples dão - a falta de elementos na ficha técnica tornam dificil a desmontagem do som que ouvimos, embora, minta, existe um esquema sobre a composição dos temas na contra-capa do disco mas que mesmo assim não desvende a vontade do autor versus a imposição das máquinas. Um exercício electrónico sem dúvida... Ainda bem que os Tonto viraram-se prá bd!

Do Brasil, apareceu o primeiro número do Gibi Gibi (Out'11). Ao contrário da Áustria, o Brasil está bem habituado à bd mas com uma forte tradição humorística que quase nunca se consegue desligar. Mesmo quando as influências dos novos autores sejam o trash pop psicadélico reciclado pelo Fort Thunder ou a linha clara espanhola ou o "bedroompunk" de Jeffrey Brown e afins, no final, tudo acaba em piada e humor. É o que acontece com esta publicação feita a três cabeças e seis mãos.
Graficamente irrepreensível (quer as bds quer o aspecto da publicação) mas fica-se por umas boas gargalhadas.
Apesar deste caminho temático circular da bd brasileira, é nítida a energia que transborda por ali, tanto que nos últimos anos temos recebidos belas publicações cheias de desenhadores poderosos - Bongolê Bongoró, Prego, Samba, Pindura, La Permura!, Nik Neves, Diego Gerlach, Zarabatana Books, etc... Algures num blogue já li que já andam a chamar a esta vaga de iniciativas e autores da "nova bd autoral brasileira". É um previlégio poder segui-la mesmo que o nome GibiGibi* seja "retro"!

*Gibi é bd no Brasil, nos tempos em que a bd era só para putos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O último fósforo em Lisboa

Lisboa recebe da Letónia O Último Fósforo (The Last Match), uma exposição de ilustração e banda desenhada de 200 autores de todo o mundo e que cabe em sete caixas de fósforos! Como disse? Mas está tudo doido?

Não propriamente! A crise, a famosa crise, fez e continua a fazer estragos, e por isso a revista Kuš! e o Latvian Center for Contemporary Art, entre 12 e 19 de Setembro, em Riga, criaram no âmbito do projecto Survival Kit, a maior pequena exposição de ilustração e banda desenhada com participantes de toda a parte do mundo – de Hong Kong à Finlândia, de Portugal aos EUA, do Líbano à Estónia – e que cabe em sete caixas de fósforos. Com nomes conhecidos como os do polémico Mike Diana, passando pelos famosos Jeffrey Brown, Roberta Gregory e Tom Gauld ou ainda pelo reconhecido japonês Daisuke Ichiba, a Associação Chili Com Carne tinha de trazer esta mostra para Lisboa!!!
E é o que acontece entre 16 de Janeiro e 8 de Fevereiro no novo espaço de Arte Urbana lisboeta, a Artside, que inaugura as suas paredes com 200 fósforos a segurarem 200 trabalhos minúsculos e minuciosos com um porto de honra às 16h30, gentilmente cedido pela Embaixada da Letónia, sendo o evento aberto com a presença do Sr. Embaixador Artis Bertulis.
E no meio deste frenesim visual ainda aproveitamos para lançar a antologia MASSIVE, que reúne ilustração de vários autores espalhados pela Europa e Américas, muitos deles coincidentes na exposição como Ilan Manouach ou André Lemos. São cerca de 100 páginas em papéis coloridos editados pela Chili Com Carne em colaboração com o colectivo Hülülülü. Espera-se a presença de todos os autores nacionais que participaram nesta orgia de desenho.

Por aqui não há crise criativa, obrigado!

Participam na exposição os seguintes autores (em “bold” os mais conhecidos pelo público português): Afra Katastrofa (CH), Aistė Mo (LT), Aivars Baranovs (LV), Aleksandar Zograf (SRB), Alex Baladi (CH), Allison Cole (USA), Amanda Vähämäki (FI), Ana Albero (D), André Lemos (P), Andrej Štular (SI), Andy Leuenberger (CH), Anete Melece (LV), Anna Anjos (BR), Anna Maria Łuczak (PL), Anna Sailamaa (FI), Ben Katchor (USA), Brecht Vandenbroucke (B), Chihoi (HK), Dace Sietiņa (LV), Daisuke Ichiba (J), Daniel Cantrell (UK), Daniela Witzel (D), David Collier (CA), David Sandlin (UK), diceindustries (D), Dunja Janković (HR), Edda Strobl (A), Eikantas (LT), Emelie Östergren (S), Ernests Kļaviņš (LV), Fahad Faizal (IND), Fede Pazos (AR), Filipe Abranches (P), Frau Franz (D), Gabriella Giandelli (I), Gatis Šļūka (LV), Gašper Rus (SI), Geneviève Castrée (CA), Giacomo Nanni (I), Gorand (MK), Gustė Poc (LT), HAZ (E), Helmut Kaplan (A), Henriette Vogtherr (D), Hironori Kikuchi (J), Ilan Katin (USA/H), Ilan Manouach (GR), Ines Christine Geißer (D), Ingrīda Pičukāne (LV), Isabel Seliger (D), Itzik Rennert (IL), Jan Solheim (DK), Janek Koza (PL), Jari Vaara (FI), Jeffrey Brown (USA), João Chambel (P), Jochen Schievink (D), Jorge Perez-Ruibal (PE), Juanita (D), Jucifer (P), Juhyun Choi (ROK), Kai Pfeiffer (D), Kaja Avberšek (SI), Kaspars Groševs (LV), Katja Tukiainen (FIN), Kavi (LV), König Lü. Q. (CH), Keisei Kanamachi (J), Kerascoët (F), Klungel (NL), Knut Larsson (S), Kolbeinn Karlsson (S), Lai Tat Tat Wing (HK), Laura Jurt (CH), Laura Kenins (CA), Laurent Cilluffo (F), Léo Quiévreux (F), Liesbeth De Stercke (B), Lilli Carré (USA), Lisa Röper (D), Lorcan White (ZA), Lovatto (BR), Luis Henriques (P), Luka (LT), Līga Koklače (LV), Maija Kurševa (LV), Maija Līduma (LV), Malin Biller (S), Marcos Farrajota (P), Margarida Borges (P), Mark Newgarden (USA), Marko Turunen (FIN), Markus Häfliger (CH), Martin Ernstsen (N), Massimo Milano (CH), Matey Lavrencic (SI), Matthew Thurber (USA), Matti Hagelberg (FIN), Max Andersson (S), Michael Jordan (D), Michael Meier (D), Mike Diana (USA), Milorad Krstić (H), Milva Stutz (CH), Minoru Sugiyama (J), Miriam Katin (USA), Māris Bišofs (LV), Mārtiņš Zutis (LV), Nick Abadzis (UK), Nicolas Mahler (A), Nicolas Robel (CH), Nicolene Louw (ZA), Olegti (RUS), Olislaeger (B), Olive Booger (F), Oskars Pavlovskis (LV), Paul Paetzel (D), Peggy Adam (F), Rajiv Eipe (IND), Reinis Pētersons (LV), Remo Keller (CH), Ricardo Martins (P), Rita Fürstenau (D), Roberta Gregory (USA), Rokudai Tanaka (J), Roman Maeder (CH), Roni Fahima (IL), Ruedi Schorno (CH), Rui Tenreiro (MOC), Rutu Modan (IL), Rūta Briede (LV), Sara Varon (USA), Sekhar Mukherjee (IND), Sergio Ponchione (I), Shaun Tan (AUS), Shintaro Kago (J), Shinya Komatsu (J), Silvia Rodrigues (P), Takeshi Tadatsu (J), TeER (D), Tetsu Kayama (J), The Stamm (D), Tiemo Wydler (CH), Till D. Thomas (D), Till Hafenbrak (D), Tinet Elmgren (S), Tom Gauld (UK), Ulli Lust (A), Vladan Nikolić (SRB), Yoshi (LT/UK) e Zeina Abirached (RL).

E ainda: Aleks Deurloo (NL), Boris Peeters (NL), Christian G. Marra (I), Fermín Solís (E), Gregor Hinz (D), Irkus M. Zeberio (E), Jeroen Funke (NL), Kriebaum (A), Matt Broersma (USA), Oskars Weilands (LV), Pascal Girard (CA), Polina Petrouchina (RUS), Sam Peeters (NL) e Sunaina Coelho (I).

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imagens das participações portuguesas:



Artside, Art Gallery / Urban Art Shop
Rua São João da Mata Nr. 53
Santos-o-Velho
1200-846 Lisboa
Horário: 2ª/6ª das 14h às 20h, Sáb das 14h às 18h

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Breakcore comix... finalmente!

Alto e pára o baile! (2007), Jungle Comix #1 (2009), Vomitcore #1 (2008)
Rudolfo Comix

Tem sido uma batalha por o Destruição de pé (como se pode por uma destruição de pé, seja como for?) e felizmente topei um puto ranhoso que gostava de Otto Von Schirach e Breakcore e também que desenhava - pelo menos cartazes. Fiz-lhe um convite pessoal via myspace (eis algo finalmente positivo na porra do myspace!) e Rudolfo (é o nome do bicho) surge como uma caixinha de surpresas quando enviou o seu trabalho para o apartado da CCC, em que o envelope despejou lixo mental a rodos: desde cromos da bola "black metalizados" (ver lá para baixo), desenhos inéditos que não foram para o caixote do lixo porque ele lembrou-se de os enviar no envelope, um póster em stencil e três zines mal-paridos de esperma de boi e óvulos de macaca velha. As bd's e desenhos do Rudolfo são ordinários, cheios de ritmo & sangue, palavrão e piada seca, feitos de desenhos Pop de quem comeu muito Pokemons e vomitou Digimons dentro do pacote daquelas batatas fritas com sabor a chouriço. Mas ei! os desenhos dele são tão respeitáveis como são os do Evan Dorkin ou Jeffrey Brown. O puto sabe o que desenha!
Diz ele sempre com orgulho no meio de mil e uma tretas que nasceu em 1991 e faz bd, zines e música desde 2006. Se for verdade já pode morrer em paz porque fez-me vir ao quebrar a modorra do apartado nesta época do digital-em-que-já-não-existe-mais-matéria-para-a-cultura. Soa a pedófilia rasca mas posso assegurar que nenhum ser vivo foi abusado na escrita desta resenha. É tudo ficção e drama... Cuidado com ele!