quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Brasileira com Cem

No dia dez de Novembro, pelas dezoito horas, no café A Brasileira em Braga, será apresentado o fanzine “A Brasileira com Cem”.

Com o propósito da comemoração do centenário da Brasileira, um grupo de frequentadores do café, tomou a iniciativa de lhe prestar um tributo, de uma forma alternativa e mais genuína. O desafio consistiu em realizar um trabalho até duas páginas, que poderia ser em forma de texto(s), fotografia(s), desenho(s), banda desenhada, etc., sobre o que a Brasileira representava para cada um, tendo como objectivo compor um possível retrato do café, pela altura do seu centésimo aniversário.
A resposta surgiu através de vinte e cinco trabalhos originais e heterogéneos, que são agora apresentados em formato de fanzine colectivo. Testemunho de uma forma peculiar de sentir a Brasileira, que ultrapassa a normal relação existente, num qualquer espaço comercial.

A preceder a apresentação do fanzine, está prevista a colaboração do Sindicato da Poesia, com a leitura de textos alusivos a cafés.
(ilustração "O melhor café é o da Araci..." de Helena Carneiro)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Beja poetry comics crew

Já lá foram alguns meses desde a terceira edição do (actual) melhor festival de bd português, o de Beja, e claro que agora todos andam com o pito aos saltos com as inesperadas novidades editorais que estão a sair na BD Porcalhota, mas a vida não dá para tudo, e só agora consegui divulgar as edições da Bedeteca de Beja, a saber, os terceiros volumes de Venham +5 (zine) e da colecção Toupeira (comic-book / mini-álbum na tradição da Lx Comics) com La Bellête. Mas mais vale tarde do que nunca.
No primeiro caso, houve uma redução de formato e de páginas, o que favoreceu os trabalhos (quanto maior o formato mais expostas ficam as deficiências gráficas) embora neste número a qualidade geral das bd's publicadas tenha subido. Aparecem alguns convidados, resultado da actividade do festival, como Pedro Rocha Nogueira e o espanhol Fritz. A revista encontra-se num ponto novo de partida, compromisso de promover os talentos locais e de editar bd de autores mais coesos. A poesia reina por estas páginas e pelos vistos os portugueses adoram poesia ao ponto que a Porcalhota deu um "Pacóvio& Grilinho" (Melhor Zine 2007).
Tal como reina em La Bellête, segundo livro de Pedro Rocha Nogueira - o primeiro tinha sido o Lx Comics, Dumb Angel (dumb me). Do primeiro para o segundo o autor refina o grafismo, aumentando-lhe a complexidade do traço, mais texturas e mais contrastes. O texto continua hermético e quase que cosmogónico mas sente-se melhorias imensas - realmente a Lx Comics servia a sua funçaõ de "primeiro livro".
[E ontem saíu o novo número do Venham +5, desta vez com colaborações estrangeiras de Alain Corbel, Alex Uyeno e Kike Benloch. É capaz de ser o melhor número deste zine e é de destacar a bd de Carlos Páscoa!]

sábado, 3 de novembro de 2007

O projecto de fecundar a lua #1

Auto-edição; Jul'07


É difícil encontrar bd mais secreta e sem defesas do que estas de Janus e Marco Mendes. Não apenas por se tratar de uma obra fora dos circuitos, sistemas, rotinas, escolas, etc, mas principalmente porque ela não parece existir na aproximação a nenhum pensamento conhecido nem dá mostras de se render a qualquer dos habituais discursos com efes e erres e pontos nos is para sobreviver ou sentir-se sustentada. O que a segura é, dá ideia, outra coisa completamente diferente. A sua pura vontade, desejo ou loucura - esse seu imperfeito, inconveniente e tão esquisito porque-sim.
Bd's no reverso de caixas de cartão, embalagens, pedaços rasgados, o avesso do lixo. Porquê? Porque "a vida está cara", porque era o que estava "mais à mão", porque sim. Esta é uma bd negra, negra, negra, em que a ingenuidade de bonecos com bocas grandes (bidimensionais e vagamente totémicos) se mistura com a violência dos mais poderosos fantasmas do sexo e da morte. Uma bd de dualidades e oposições - positivo e negativo, frente e verso, fíguração e não -que não é nada óbvia ou "binária" no tempo do seu olhar. Pelo contrário, atravessa-a uma duração fluida e espessa que lembra o tempo dos pesadelos. Nas bd's de Janus e Marco Mendes há só o corpo do erotismo e o corpo do terror - nela a vida reduz-se, amplifícada, a isso, recusando tudo o resto. Os outros, as palavras. A ilusão, a tralha sentimental.
Mas isto, se é possível (e é: é esse o espanto!), no modo leve e cheio de graça desta arte-porque-sim.

[ehm, como não me apetecia escrever, saquei um texto de um catálogo de pintura com um texto de um escritor qualquer famoso, substitui pintura por bd e o nome do pintor pelos do Janus e Marco Mendes... não que faça muito sentido mas que se lixe! O zine é fixe porque-sim ao contrário do texto e a pintura dos outros que eram uma bela merda. Pedidos devem ser feitos aos gajos d'A Mula enquanto o Mendes não enviar uns exemplares para vender na CCC]

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Amanhã é dia de trabalho, caragu!

os editores a mostrar en primeira mão a embalagem e disco, it's fun to have fun...

Dino Felipe: "is sleeping" (Marvellous Tone; 2007)

A Marvellous Tone, editora DIY portuense de música electrónica, regressou à actividade e pela primeira vez com um lançamento de um projecto estrangeiro. Dino Meira, digo, Dino Felipe é um gajo do Equador que arrasta lixo sonoro ao longo de uma hora sem nos deixar dormir dado à desprogramação onírica de sons Noise e Glitch. Esquizofrénico e irritante até ao fim, o disco vai deambulando a um passo zombificante tal quando um tipo está a tentar dormir e afinal descobre que está com insónias. Este músico está a dar-nos uma tanga, Dino Felipe não está a dormir, não senhor, estão acordado e obriga-nos a ficarmos acordados com ele, o filho-da-puta! Mais uma excelente embalagem em serigrafia, e obviamente uma edição limitada... um mimo de objecto! Ou será antes um maldito pesadelo?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

ccc@bdporcalhota2007

Alguns títulos da CCC e associados (El Pep, Imprensa Canalha e MMMNNNRRRG) estarão disponíveis no eternamente imaturo Festival de BD da Amadora 2007 através do stand comercial da livraria Dr. Kartoon.
Na compra de qualquer título das editoras mencionadas, oferta do fanzine A Mosca #4 (uma raridade fanzinista dos anos 90 ou o melhor zine nacional nos idos anos 90). É um número especial de autores brasileiros, com Fábio Zimbes como editor convidado. Já agora a única de jeito para ver neste festival são mesmo os originais de Zimbres (e comparsas da exposição "dividir para curtir" ou isso). Ainda assim, valerá a pena o esforço? Sei lá...

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Italianati noizi, due

Fotos da exposição internacional e colectiva "European Comics Cartography" no Museo Nazionale de Ravenna, por Filipe Abranches. + umas do Filipe aqui e dos romenos-locos do Hardcomix aqui.

Italianati noizi, uno

fotos do Komikazen + vídeo da inauguração LdC (Kindergarden orgy: Pakito sampler persona + 2 bateristas italianos muita-novitos): www.flickr.com/photos/15062347@N07/sets/72157602422575492 ... www.flickr.com/photos/gianlucacostantini ... www.dropshots.com/Ines#albums



fotos da Inguine Crew e da Inês (www.stripopeka.com) e vídeo-móvel de Gianluca Costantini

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Zoolywoodland in CCC site

Pedro Zamith inaugura amanhã, entre as 19h e as 23h, um nova exposição individual na Galeria Arqué (Av. Miguel Bombarda, 12ºA, junto à Gulbenkian).

Intitulada de "Zoolywood" a exposição contará com um catálogo (com um texto de Ana Ruivo) a lançar durante a inauguração.

A exposição estará patente até ao dia 10 de Novembro, de Segunda a Sábado das 12h às 20h.

Entretanto no site da CCC, desde do final do mês passado, podem espreitar algumas fotografias da preparação das telas que estarão em exposição.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Campo di Babà

Amanda Vähämäki
Canicola; 2006

Amanda Vähämäki é a debutante do grupo Canicola na edição de livros monográficos. O talento dela já era uma constante na revista homónima ao colectivo italiano e mais do que isso, as suas colaborações eram (são!) um prazer misterioso. Se a "escrita automática" na banda desenhada surgiu nos anos 60 com Robert Crumb e Moebius, ela já percorreu vários patamares de criação, como o traço "ratty" Garry Panter ou o "minimalismo" de Lewis Trondheim. Agora temos uma finlandesa que mora em Itália (estão justificados os tremas!) que usa o lápis para desenhar e redesenhar e (também) escrever e rescrever bd's surrealistas em que a infância é tratada em colisão com um mundo indefinível. Há um urso blasée a guiar um carro, há operações dentárias a cães e a crianças como quem acende um cigarro, há ainda uns legumes com caras muito expressivas, enfim, e também há um comportamento normal a toda esta anormalidade por parte dos personagens. O tratamento do carvão lembra alguns efeitos estéticos dos últimos trabalhos da alemã Anke Feuchtenberger, o desenho é bastante atraente e expressivo. Uma prova de vitalidade na cena "indie" internacional.

4,5

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Mercado português de bd, os autores da realidade e… tudo mais num texto curto!

Apesar da História da banda desenhada portuguesa remontar ao génio incontornável de Raphael Bordallo Pinheiro (1846-1905), o certo é que passadas as “épocas douradas” chega-se aos anos 70 do século XX sem mercado nem indústria de bd. O nosso estado geográfico periférico acompanhado do historial de isolamento imposto pelo fascismo (entre as décadas de 30 a 70) faz com que Portugal seja mais “insular” que continental. É uma metáfora que complementa outra: os trabalhos da bd portuguesa são barcos perdidos num Atlântico que raramente estabelecem laços entre eles ou que encontram uma continuidade de trajecto.

Será justo achar positivo o facto de não termos indústria nem mercado? Por um lado é aflitivo assistir o desnorteio de alguns “autores-capitães” face ao “oceano”, por outro a bd portuguesa não deixa de ter uma riqueza de obras e autores justamente pela ausência de vícios da formatação - um mercado obriga sempre a uma formatação de estilo ou tema! Assim, cada autor português tem encontrado o seu caminho individual.

No que respeita à “bd realista” (tema que interessa para este festival) e encurtando uma História rica e longa, temos desde logo o “pai da bd portuguesa” (Raphael Bordallo Pinheiro) já fazia autobiografia, em 1881, no seu segundo álbum No Lazareto de Lisboa – onde desenha a sua experiência de quarentena regressado do Brasil, essa quarentena era obrigatória para os viajantes que vinham de países onde havia epidemias. Tal como na origem da bd, Raphael eram um cronista sátiro da política de um tempo ainda dividido entre a Monarquia e os Republicanos mas também retratava os aspectos culturais, como o Teatro.

Saltando para os modernistas temos Stuart Carvalhais (1887-1961) e Carlos Botelho (1899-1982). O primeiro inventou a série «Quim e o Manecas» que apesar de seguir a tradição dos rapazes traquinas Max und Morritz tem a proeza de denunciar os acontecimentos do seu tempo como a miséria das ruas ou a 1ª Guerra Mundial. O segundo, entre 1928 e 1950, cria as crónicas Ecos da Semana (no jornal Sempre fixe) que critica e testemunha os acontecimentos culturais, sociais e culturais em bd, fossem uma “Volta a Portugal em Bicicleta” fosse a situação política internacional - em que até Mussolini aparece. Dedicou 22 anos a este trabalho até ao seu desgaste graças à censura do Estado Novo.

Seguem-se duas rápidas passagens pelo tempo. Nos anos 50, tal nos EUA ou em França, os cómics portugueses também tinham um código de conduta. As «Instruções sobre a literatura infantil» (1950). A bd portuguesa tal como no resto do mundo foi transformada num médium destinado ao público infanto-juvenil predominando as duas linhas mais conhecidas de cómics popular: o estilo “realista” explorado no género de aventuras, que no caso português significou na sua maioria cómics enquadrados nos temas de história ou adaptação literária desde que enaltecessem o espírito nacionalista e o estilo caricatural que é usado no humor ou ainda, hibridamente, na aventura humorística. Daqui pouco haverá de interesse para contar. Depois, veio a Revolução do 25 de Abril de 1974 e não faltaram “cronistas-cartunistas” da situação que se vivia.

A liberdade permitiu o aparecimento de uma bd contemporânea perdida durante 40 anos de fascismo. A “primeira geração livre” materializou-se na revista Visão, influenciada pela Pilote e por outras revistas francesas “adultas”. Era, no entanto, um periódico demasiado luxuoso para um país pobre e demasiado vanguardista para um país atrasado. Um oásis impensável. Teve apenas 12 números e um ano de vida (Abr. 75 / Maio 76). Nas suas páginas encontraremos algumas das poucas bd’s sobre a Guerra nas Colónias por Victor Mesquita (1939) e Machado da Graça (que também realizaram outra sobre a guerra do Vietname), e por Pedro Massano (1948).

Os anos 80 são reconhecidos pelo o lento fim dos periódicos dedicados à bd e o começo de mais novas abordagens estilísticas pelos autores portugueses. Os universos abrem-se para questões mais intimistas, urbanas e marginais embrulhadas com grafismos ousados e experimentais. Apesar de serem autores com estruturas narrativas e estéticas ainda tradicionais, gostaria de referir Fernando Relvas (1954) com L123 e Cevadilha Speed, duas obras que tratam com algum realismo fenómenos como a delinquência juvenil, as drogas ou as alemãs no Algarve. Relvas acabou por criar uma obra carismática sobre as novas gerações nos anos 80. Arlindo Fagundes (1955) no seu álbum La Chavalita e o seu personagem “Pitanga, barbeiro a domicílio” escreveu-nos sobre a prostituição e escravatura branca - sobre o tráfico de mulheres portuguesas para bares de prostituição em Espanha, tema que na altura ninguém falava. Esta abordagem urbana e suburbana continuou, uma década depois com “Loverboy”, de Marte (1973) e João Fazenda (1979), histórias de geração dos anos 90, da ressaca grunge, pré-universitários, drogas e Raves. Os autores são precisamente dessa geração dos anos 90 que durante essa década foram influenciados pelos alternativos norte-americanos e a movimentação das editoras independentes, criando entre 1997 e 2001 um verdadeiro boom dos cómics portugueses. Desta fornada que também foi ajudada pela intensa actividade da Bedeteca de Lisboa e pelo Salão Internacional de BD do Porto, que por exemplo mostrou pela primeira vez em Portugal o trabalho de editoras alternativas norte-americanas Fantagraphics e Drawn & Quarterly, e os seus autores que tratavam de autobiografia e reportagem como Joe Sacco, Julie Doucet, Chester Brown,… o que para foi sem dúvida uma inspiração para autores como Pedro Brito (1975) ou Isabel Carvalho (1977), por exemplo.

Em 2002 o mercado implodiu. A Bedeteca de Lisboa perdeu protagonismo, as editoras de bd comercial abafaram as pequenas editoras, com material que nem sequer interessava ao público mas que ocupavam bastante espaço comercial nas livrarias – a distribuição de edição de bd em Portugal é feita em livrarias generalistas, há poucas lojas especializadas que para além do mais importam sobretudo comics norte-americanos e quase nunca tem edição nacional nas suas prateleiras. O mercado encontra-se moribundo seja para bd comercial seja para a “alternativa”. Ainda assim as resistências continuam com algum número de projectos editorais de tiragens pequenas: a Associação Chili Com Carne, El Pep, Opuntia Books, Nova Comix, Imprensa Canalha, MMMNNNRRRG, A Mula são algumas sobreviventes do “apocalipse 2002”.

É neste quadro, em que queremos mostrar uma bd portuguesa em sintonia com o resto mundo e em especial com a “realidade”. É uma tarefa difícil de empreender porque apesar da contemporaneidade dos temas retratados pelos autores dos anos 90, foram poucos a que se propuseram a explorar a “reportagem”, o “jornalismo”, a “crónica” ou a “autobiografia segundo a lógica Pekar”. Ainda assim, de assim podemos relatar alguns projectos como Para além dos Olivais (Bedeteca de Lisboa; 2000), um trabalho colectivo dedicado ao bairro lisboeta dos Olivais, a maior parte do material divide-se mais para a ficção do que para a “realidade”; Nós somos os Mouros (Assírio & Alvim; 2003), um projecto ibérico sobre várias questões islâmicas com a participação de autores portugueses e espanhóis sobre argumentos do espanhol Felipe Hernández Cava (1963) e o português João Paulo Cotrim (1965); Á Esquina (Campo das Letras; 2003) de João Paulo Cotrim e Pedro Burgos (1968; autor publicado em Itália no segundo número da revista Orme) que é uma colectânea que reúne tiras/crónicas sobre o dia-a-dia lisboeta publicadas no maior jornal nacional Público (entre 1998 e 1999), na tradição de Carlos Botelho; e, Cotrim com Miguel Rocha (1968) produziram o livro Salazar : Agora, na hora da sua morte (Parceria A. M. Pereira; 2006), um "best-seller" (dentro dos parâmetros do mercado da bd) e chamaram os media para um livro de bd, coisa rara, como bem sabemos.

Ainda assim, foram escolhidos outros autores, dois autores das duas principais cidades portuguesas, Lisboa e Porto, que tem trabalhado em projectos em comum, como as Feiras Laicas (um evento de edição alternativa) ou partilhado formatos editoriais pouco convencionais como são zines e pequenas editoras.

Filipe Abranches (1965), tendo o trabalho espalhado de várias formas, a sua obra de peso será História de Lisboa (Assírio & Alvim, Bedeteca de Lisboa; 2 volumes, 1998-2000; primeiro volume editado pela editora francesa Amok) que trabalhou com o recém-falecido historiador A.H. Oliveira Marques. As diferenças formais e de conteúdo deste trabalho em relação ao resto das bd’s históricas da velha-guarda ou da indústria francesa Glénat são muitas, a começar que a personagem principal que é a Cidade de Lisboa e não figuras emblemáticas. Também não temos a grandiosidade telúrica ou o charme de lenda como geralmente são retratadas os factos e figuras históricas no pior sentido da cultura institucionalizada. Daí que até tudo pareça mundano: os muçulmanos defecam de uma torre entre insultos com os cristãos na tomada da cidade. Graficamente as várias páginas desta bd são camaleónicas (como muitas experiências de Abranches foram ao longo dos anos 90) porque simulam a iconografia de cada época da cidade: páginas vermelhas para a Peste Negra, páginas a branco e azul como se azulejos do século XVIII se tratassem, as caricaturas feitas de Bordalo Pinheiro também são “sampladas” para tratar o capítulo “A cidade renovada” que se decorre por volta de 1886.

Marcos Farrajota (1973) desde 1994 que explora a “realidade” na bd. Começou com pequenos episódios, sagas de amores de verão, e documentação da “má-vida” no seu zine Mesinha de Cabeceira. Considera-se o “pior desenhador de Portugal” para fazer auto-promoção, isto porque as pessoas dizem que gostam das suas histórias mas não dos seus desenhos nitidamente naífs. Desde 1998 que começou a documentar o mundo da música ora com bd’s no tradicional formato de tiras humorísticas (embora o humor nunca acaba por ser um fim em si) fazendo crítica a concertos a discos, de gente tão diferente como Boyd Rice, Dälek, Antibalas, Brujeria, bandas locais, ou até a conferências sobre música, locais (o Museu de Instrumentos Musicais de Bruxelas), teatro (Jesus Christ Super Star) e instalações sonoras (Forty Part Motet no Museu de Arte Contemporânea de Barcelona). Algumas das tiras são feitas por encomenda para periódicos de música portugueses e filandeses, outras são feitas apenas porque o autor se divertiu num concerto.

O dionísiaco Janus (1971) tem O Macaco Tozé (MMMNNNRRRG; 2000) a sua obra principal, não só porque é o único registo oficial – o resto do trabalho tem sido espalhado em vários zines, alguns auto-editados – mas também porque nas suas 72 páginas retrata a cidade do Porto como nenhum outro autor conseguiu. O cinzentismo e aspecto bruto da cidade é mostrada não só pela estética “underground” de um autor auto-didacta cujas influências são imprevisiveis – e não, não revelarei o segredo. O retracto do Porto é completado com as desaventuras do“looser” proletário Macaco Tozé, que nada mais são as desaventuras do próprio autor. O mundo é povoado por macacos (antropomorfos das pessoas) talvez para o autor contra com alguma distância física, as suas tragédias. [as pranchas de Janus expostas acabaram por ser as que saíram no Mutate & Survive]

Em comum, com todos estes autores, Marco Mendes (1978) também ele um autor de “slices-of-life”. Se uma bd perdida no número cinco da revista Quadrado (2003) mostrava ser um virtuoso desenhador “Pop Art”, desde 2004, através dos zines com os nomes escabrosos, que o choque estético é evidente. A perícia técnica classicista a que a maior parte da bd está associada está lá é certo, no entanto, os desenhos estão inacabados, estão “ainda” a lápis, não estão passados a preto, algumas pranchas até tem cor como se o autor estivesse a ensair um resultado. Mais: os textos parecem estar cheios de erros, algumas palavras são riscadas porque o autor enganou-se a escrever. A urgência de puxar a realidade para uma folha de papel ultrapassa os formalismos e convenções de escrita e desenho da bd porque o que é necessário é colocar o Janus, outros autores, os amigos e os conhecidos de Mendes nas bd’s a falarem uma banalidade, de preferência bêbados. A boémia e a cena artística do Porto são aqui mostradas com alguma inocência mordaz.


Bibliografia internacional:
Em francês:
Le Portugal en Bulles : Un siècle et demi de bande dessinées (Bedeteca de Lisboa ; 2000), João Paulo Paiva Boléo & Carlos Bandeiras Pinheiro.
Em inglês:
Portuguese Comics in the 90’s (IPLB ; 2000), João Paulo Cotrim
Em castelhano:
A Banda Desenhada portuguesa: um universo paralelo (www.absysnet.com/recursos/comics/esp2ptgal.html; 2006), Adalberto Barreto & Marcos Farrajota
Portugal Paradójico: el panorama del cómic portués (La Guia del Cómic; Mai’03), Marcos Farrajota
Em italiano:
Sobre o Salão Lisboa 2003 e Feira Laica 2007, respectivamente em Scuola di Fumetto #13, 56 (Coniglio; 2003, 2007), Alberto Corradi

Texto publicado no catálogo do Komikazen 2007