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terça-feira, 5 de março de 2024

Renda barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais --- ESGOTADO


volume 14 da colecção Mercantologia, dedicada à recuperação de material perdido no mundo dos fanzines e afins. Editado por António Baião e Marcos Farrajota, design de Joana Pires e co-editado pela Chili Com Carne e o jornal de expressão anarquista A Batalha - no âmbito do seu centenário em 2019.

O presente volume colige a totalidade dos cartoons de Stuart Carvalhais identificados pelos editores n'A Batalha e no seu Suplemento Ilustrado, entre 1923 e 1925.

192p A6 com capa em cartolina, tudo a preto e branco. ESGOTADO mas ainda poderão encontrar na Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia (Porto), Matéria Prima (Porto), Socorro e Linha de Sombra.



Historial:

Foi principalmente no jornal anarco-sindicalista A Batalha (...) que o artista conseguiu transmitir as sátiras mais amarguradas de toda a literatura gráfica portuguesa (...) A miséria atroz, o aspecto macilento da fome, a carga insuportável do trabalho desumano estão presentes em imagens tão particulares e tão universais que só um génio lhes poderia ter dado forma. (...) Porventura a produção mais ignorada de Stuart, aquela que arranca a máscara hipócrita da burguesia liberal, insolentemente triunfante, encontram-se nas páginas de papel de jornal, amarelas e frágeis, das publicações anarco-sindicalistas.
António Dias de Deus in Os Comics em Portugal (Bedeteca de Lisboa + Cotovia; 1997)



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Feedback:

Adoro o livro do Stuart!
Ondina Pires (via email)

Para a maioria dos cartoons, é apresentada uma pequena contextualização histórica para permitir a apreciação em pleno de cada cartoon. Deste modo, há uma tentativa de contrariar a efemeridade do cartoon enquanto crítica social, quando a distância temporal não permite ao leitor a identificação das referências (...) Esta contextualização revela-se de maior importância do que simplesmente colmatar a inexistência anterior de uma antologia que reunisse esses trabalhos.
Nuno Sousa in Bandas Desenhadas

Nunca mais Stuart confrontará o sistema como fez nas páginas do A BATALHA, a denuncia das injustiças sociais, a ganância dos arrendatários, a violência policial, o racismo e o colonialismo. Mas simplicidade poética e humanista de Stuart resiste nas centenas de desenhos, páginas de banda desenhada, pinturas, fotografias e cenografias que realiza até morrer, no ano de 1961. 
 Alguém disse um dia que a História nunca se repete. 
“Renda barata e outros cartoons de Stuart Carvalhais n'A Batalha” leva-me - enquanto cartunista e ilustrador dos dias de hoje - a suspeitar o contrário.
Nuno Saraiva

(...) estes desenhos de Stuart estão no espírito do jornal, (...) e o alvo era o sistema de poder: a falcatrua financista, a amoralidade burguesa e os seus instrumentos : a cozinha política, a autoridade fardada e a Igreja (...)
Ricardo António Alves in I

Um notável trabalho de arqueologia literária. (?)
Jornal de Letras

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Sobre o livro: Quando o nome de Stuart Carvalhais (1887-1961) é referido pela segunda vez no diário A Batalha, a 22 de Fevereiro de 1921, dificilmente se poderia augurar um futuro radiante para o cartoonista nas publicações periódicas ligadas à Confederação Geral do Trabalho. Nessa data, o jornalista Mário Domingues escrevia as seguintes linhas: “O sr. Stuart de Carvalhais, colega de Jorge Barradas, sujeito como este a ser amanhã vilmente caluniado por aqueles que ora o afagam, não se envergonhou de aceitar apressadamente o cargo de director do ABC a rir, sabendo como foi injustamente tratado o que o antecedeu. O sr. Stuart Carvalhais julga os seus actos como entende, bem sei; procede a seu bel-prazer. É possível que considere correcta a sua acção. Eu, porém, classifico-a simplesmente de traição”. (...) Apenas dois dias depois, Domingues retratar-se-ia deste duro julgamento. Alegadamente, o Barradinhas teria mesmo merecido ser despedido, mas isso não impediu o jornalista de sublinhar que “no lugar do sr. Stuart, não [aceitaria] esse lugar, não porque isso acarretasse para [si] rebaixamento moral, mas porque esse acto poderia fazer crer ao público, desconhecedor dos bastidores da questão, que não tinha sido leal a sua forma de proceder”. 

Por esta altura, o percurso de Stuart estava ainda afastado do periodismo libertário (...) tinha já colaborado proficuamente no Século Cómico, O Zé, Gil Blas, A Lanterna ou na Ilustração Portuguesa. Em 1914, contribui para o monárquico O Papagaio Real, sob a direcção artística de Almada Negreiros. No ano seguinte, regressa ao Século Cómico, onde inicia a série «Aventuras do Quim e Manecas», e em 1920 junta-se a Barradas em O Riso da Vitória. Depois de se tornar director do ABC a rir, colaborará no ABC e no ABCzinho. Até que se chega a 1923, mais precisamente a 30 de Novembro, e logo na primeira página do n.º 1539 de A Batalha pode ler-se: “Inicia hoje a sua colaboração em A Batalha o conhecido caricaturista e nosso prezado amigo Stuart Carvalhais, cujo lápis exímio e irreverente irá dar aos nossos leitores monumentos de incomparável prazer. Stuart Carvalhais, cujo mérito está acima dos nossos elogios, principia a sua colaboração no nosso jornal com uma série de desenhos, plenos de graça, de comentário ao caso da falsificação dos bilhetes de Tesouro, que tanto tem dado que falar”. 

Os diferendos entre Stuart e a redacção do jornal estariam, agora, plenamente sanados, iniciando-se uma colaboração de três anos com a Secção Editorial de A Batalha. Durante este período, não houve periódicos que tenham recebido mais contributos de Stuart do que o diário, o Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha e a Renovação. Significa isto que Stuart se teria convertido à Ideia anarquista? Ou que teria passado por uma fase monárquica, por ter colaborado em O Papagaio Real e na Ideia Nacional, de Homem Cristo Filho? Provavelmente o mais sensato será rejeitar qualquer uma destas conclusões apressadas. Talvez Osvaldo de Sousa não esteja muito longe da verdade quando afirma que “Stuart era um céptico na política, um anarquista na destruição ideológica e um político-desenhador na expressão do sofrimento, miséria e vida do povo”. 

(...) Ao viver de avenças, de uma produção de uma “média de 15 desenhos por semana”, certamente que não se pode afirmar que Stuart foi, pelo menos nesta década de 1920, “um homem livre” (...) Stuart foi um fura-vidas, que provavelmente viu nas publicações de A Batalha uma forma de se sustentar a si e à sua família e também um conjunto de jornais e revistas que seriam a casa natural para receber o seu golpe de vista impressionista sobre a desigualdade, a exploração infantil, o desemprego, a fome, a crise da habitação, a mendicidade, a prostituição e a questão feminina. 

(...) Apesar de a colaboração de Stuart se iniciar no diário A Batalha, no qual publicou 23 cartoons até à edição de 25 de Dezembro de 1925, é no Suplemento Literário e Ilustrado de A Batalha, fundado em Dezembro de 1923, que se podem encontrar mais trabalhos gráficos da sua autoria. Ao todo são 66, entre cartoons e ilustrações. 

(...) Stuart não mais regressaria aos periódicos de A Batalha, que passavam por uma situação interna complexa: além da instauração da ditadura militar (...), a direcção da secção editorial estava sob fogo do jornal O Anarquista, que acusava os colaboradores do Suplemento, do diário e da Renovação de serem jornalistas profissionais, sem ligação ao meio operário. (...) Não será displicente considerar-se que esta também foi uma das razões para que Stuart não mais emprestasse a sua caneta a A Batalha e que aqui terminasse a sua aventura libertária: à sua espera estava agora a redacção do Sempre Fixe, que o acolheu até à sua morte em 1961. 

 As várias monografias acerca da vida e obra de Stuart (...), pecam todas pela quase total omissão da sua passagem pelos periódicos libertários. Se estas falhas são voluntárias ou mero desleixo pouco interessa aqui, mas certo é que as breves e raras menções a esse período se resumem a um punhado de reproduções gráficas, a considerações genéricas sobre o seu “anarquismo de rua”(?), tudo enquanto se aflora en passant que o autor também fez uns bonecos para as publicações libertárias. 

(...) Sirva então este modesto livro para dar melhor conta, a um tempo, da riqueza múltipla do trabalho de Stuart, sem no entanto cair numa ardilosa hagiografia do seu papel autoral, nem reivindicar uma actualidade que cabe apenas a cada leitor avaliar. E, por outro lado, para mostrar como Stuart foi, entre muitos, um importante contribuidor para a feitura da obra colectiva e centenária de A Batalha. - António Baião no prefácio do livro



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Banqueiro 00001 - Zé Povinho 26117* [um relatório atrasado sobre fanzines e edição independente 2020/21]

*John Hopkins Hospital (contagem portuguesa de mortes por covi19 a 17/02/23)


Depois de dois anos de pandemia covid-19 e o encarceramento das populações e das suas economias, ninguém aprendeu nada. Foram anos de oportunidades perdidas. Por isso, não vale a pena ser simpático com nada nem ninguém. Não, não quero a normalidade antiga. Não quero a poluição do mundo Antes do Confinamento (A.C.), não quero o esterco do turismo massificado, da especulação imobiliária, uma cidade (re)criada para os seus não-residentes - o que significa uma reestruturação social e económica, desde os transportes públicos às lojas ou até a forma de realização dos mercados de edição independente, como planeava uma Raia fazer no 25 de Abril de 2020 para apanhar a estrangeirada e que não aconteceu pelo óbvio.

Foram anos de quase pureza e expurgo. Ou talvez não, ninguém aprendeu nada ao continuar a comprar "bens essenciais" à Amazon ou por ser preguiçoso demais para cozinhar, preferindo mandar vir MacMerda pelos Ubers da vida. Antigos saberes estão sempre a perder-se, diz-se, o mais simples deles todos é que "o barato sai caro". Esse "barato" que já nos está a sair dos nossos bolsos incluindo para aqueles que não usam voos "lowcost", "air'n'b" ou ubers. Aliás, agradeçam ao turismo lowcost pela pandemia se ter propagado pelo mundo. Agradeçam ao consumismo desenfreado por desencadear estas doenças - ninguém quer assumir que é isto que cria estas desgraças e não uma conspiração do reptiliano chinês que nos quer matar a todos e ganhar guito comercializando vacinas logo a seguir. 

E sobretudo agradeçam aos ricos para terem trazido a doença para Portugal. Ainda havia a esperança, o dado público que o segundo morto por covid em Portugal tinha sido o Presidente do Santander - que foi esquiar para o norte de Itália - e que o bicho só batesse no patriarcado branco velho com pasta. Nada mais errado...


Cerca sanitária

Não podíamos sair de casa ou se quer do concelho mas turistas manhosos passaram pelos aeroportos sem um único teste ou quarentena...Seja como for não foram anos de viagens a certames estrangeiros. 

A.C. a Imprensa Canalha e Gonçalo Duarte estiveram no Tenderete (Espanha) e a Chili Com Carne no Festival de BD de Angoulême (França). "Ponto final" para dois anos, embora não seja de ignorar a Jornada de Banda Desenhada em Português na Maison des Sciences de l'Homme, em Clermont-Ferrand (França), evento académico com uma comitiva grande de portugueses e o Filipe Abranches que esteve no Festival de BD de Varsóvia, isto só em 2021, claro.

Em compensação a norte-americana Aidan Koch (A.C.) e o francês Edmond Baudoin passaram por Lisboa, cortesia da galeria / livraria Tinta nos Nervos, que manteve uma programação audaz de exposições - não esquecendo o regresso de André Lemos a estas lides. Em 2021 trouxeram o finlandês Tommi Musturi.

Num ano em que não houve o festival de BD de Beja e da Amadora, o que aconteceu? Nada! Ninguém deixou de aprender mais sobre BD por eles não terem feito as suas exposições promotoras de "loureados", melosos e betos. O Festival de Beja, em 2021, trouxe o espanhol Bartolomé Seguí e o francês Vincent Vanoli, o Festival da Amadora nada de jeito, só uma cambada de mercenários franco-belgas sem interesse, já para não falar da fábrica das sessões de autógrafos deste certame que era uma verdadeira festa da mangueira. Do que vale de muito ter mulheres como directoras deste festival? Lembrando que o covid em 2020 salvou o festival de passar a vergonha de ter um "date-rape" com as exposições dedicadas ao Drácula, Druuna e Luís Louro... Em 2021 a "nossa" Ana Margarida Matos safou este festival de não parecer um anacronismo dos anos 80, ainda assim a organização apresentava-a como "uma miúda e a sua primeira exposição". Espero que se tenham engasgado quando a "miúda" começou a aparecer em tudo o que era jornais, rádio e TV.


Internacional

Se a consequência maior que trouxe o covid foi este cancelamento dos eventos, o que não é propriamente mau se pensarmos nos certames de "bedófilia", mais grave terá sido para os editores independentes e os seus mercados. Sendo que as edições que produzem a maior parte das vezes não estão em sítios oficiais - como livrarias - criou-se este padrão de produção e consumo: os artistas só (auto)editam publicações para estes eventos e sem eles não faz sentido sequer produzi-los. O problema vem de trás, do sucesso da Laica (2004-12) seguido pela Morta, Raia, etc... que criaram este vício. A maior parte dos editores de zines e afins foram incapazes de alargar o campo de leitores e da distribuição nestas últimas décadas sem ser por estes "grandes" eventos. Talvez tenham esquecido de que os fanzines eram internet "avant-la-lettre" quando apareceram nos anos 30 do século passado. O seu sistema colaborativo incluía contactos de outros fanzines ou nos envelopes dos zines em que caíam à barda "flyers" e outra papelada efémera sobre os zines ou bandas ou distros. É certo que o que escrevo já não faz muito sentido (embora ainda hajam subculturas que o façam) mas também não sei qual seria a alternativa. Só acho estranho que apesar das redes sociais permitirem uma difusão muito maior do que o clássico "papel", parece que tudo bloqueou sem nenhum rasgo de génio ou um pensamento alternativo.

O que não é de estranhar é que muita da produção nacional passou pela edição estrangeira, provando que há mais estruturas funcionais lá fora do que cá. Desde a edição em polaco de livros como Kassumai de David Campos e Salazar : Agora na Hora da Sua Morte de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha, História de Lisboa de A.H. Oliveira Marques e Filipe Abranches e Selva!! de Abranches, Tu és a mulher da minha vida, ela é a mulher dos meus sonhos de Pedro Brito e João Fazenda (na verdade uma reedição na Polónia, caso inédito!), O Amor Infinito que te tenho de Paulo Monteiro na Turquia, O Cuidado dos Pássaros de Francisco Sousa Lobo em França, tudo isto em 2021; livrinhos inéditos de Hetamoé, Joana Estrela (2020), Ema Gaspar e Dileydi Florez (2021) na colecção mini kus, cuja "antologia-mãe", š!, publicou Ana Maçã, André Lemos, Cátia Serrão, Daniel Lima, Francisco Sousa Lobo e Joana Mosi (2020) e ainda Ivo Puiupo (2021). Lobo também publicou na revista C'est Bon (Suécia), Patrícia Guimarães na eslovena Stripburger - com direito a um ensaio sobre a sua bd, outro facto inédito! - e Rui Moura participou na Wobby (Holanda) e na croata Komikaze (2021). Bruno Borges, em 2021, tanto lançou um inédito na Austrália - Comics to the end of the world - como viu A Abolição do Trabalho, de Bob Black, editado no Brasil. Também participou em Opposights, colectânea de artistas australianos e portugueses a reflectirem sobre a BD, em que incluia ainda Pedro Burgos, Rui Moura, Hetamoé, Gonçalo Duarte, Amanda Baeza, Cátia Serrão e Mariana Pita. Borges, Serrão e ainda Diniz Conefrey, Sara Frágil, Carolina Martins com João Carola e Pedro Moura com João Sequeira, participaram em Autofagia, uma antologia do Brasil de BD abstracta...

Nunca houve tanta internacionalização, mostrando que é mais fácil publicar lá fora do que nas miseráveis editoras portuguesas ou deve-se interpretar que a qualidade destes autores cresce a nível internacional? A verdade é que Hetamoé teve direito a estar incluída nos "melhores do ano" no The Comics Journal, a "Bíblia da BD", outro facto inédito!


Diários do Corona

As edições em Portugal previstas para serem repartidas durante o ano inteiro tiveram atrasos, claro, passando-se quase oito meses sem novidades, tirando publicações que já estavam a ser impressas apanhando o fecho da vidinha em Março. Foi o caso da antologia Pentângulo #3, da Ar.Co. e Chili Com Carne mas o "pior" terá sido para o impressionante número dois da revista cultural Bestiário - que incluia uma BD de André Coelho que em si já seria um livro de BD! O "Monstro" (tema desse número) tinha 656 páginas superiores ao A4, imaginem a loucura de ter este "monstro" cá fora com tudo fechado. Em 2021, saiu pela editora Bestiário um álbum luxuoso de Coelho, Mnemosina.

Antes de tudo fechar a Chili Com Carne editou o livro/ disco eye18 dos Krypto (melhor banda portuguesa se pudessem ter incendiado os palcos em 202) com BD de Rui Moura e Paricutin de Gonçalo Duarte. Depois quando o país reabriu avançou com livros de Rodolfo Mariano, Tiago Manuel, Ana Margarida Matos e Francisco Sousa Lobo - este último lançou a sua publicação Palácio. Mantiveram-se a lançar novos números, os zines Shock em eterna homenagem ao Estrompa (1942-2014), Olho do Cu (e com um especial Salteador de Caralhos de Carlos Carcassa), Rodolfo Mariano com o MALS #00 (número 2), Lucas Almeida com O Hábito faz o Monstro e Planeta Satélite de Ricardo Baptista e a revista Umbra. Saiu O Filme da Minha Vida com Joana Mosi, Venham +5 e colecção Toupeira, da Bedeteca de Beja, em 2021. O Mesinha de Cabeceira voltou com André Ferreira e numa atitude "back to the basics", ou seja, zine de poucos exemplares. Melhor ainda foi o regresso do Opuntia Books de André Lemos, com tiragens menores mas com um rigor de qualidade que sempre teve. O mesmo foi publicado pela Antumbramucomorphia (de Filipe Felizardo) com o vitaminado Sasquatch. De referir também o desenhos compilados em Defects do norte-americano Thomas Grant Stetson pela Black Blood Press.

Inevitavelmente surgiu o fenómeno de registrar as aventuras com o bicho, indo desde o humorzinho em tirinhas de Gente confinada é Outra coisa de Zépestana ao burgesso islamofóbico do Luís Louro compensado pelos espertos Nuno Saraiva e André Ruivo (na onda de cartoon ou desenho), o experimental Hoje Não de Ana Margarida Matos e os dois volumes de Diários do Corona de Bruno Borges, co-editado entre O Gorila (de Borges) e a nova Fojo (de Pedro Nora), os dois volumes abarcam o início desta loucura pandémica incluindo os problemas laborais, as responsabilidades paternais, o absurdo da 'net, a casa com ratos e finalmente voltar a uma normalidade no Norte de Portugal, seja lá o que isso quer dizer. O desleixo de Borges é algo irritante, sabendo que ele poderia ser mais "comunicativo". Mas vale a pena ser mais formal num ausência de mercado A.C. ou Depois Covid? Quem liga a bonecada?

Ninguém liga! Dois projectos morreram em 2020, sem festas nem homenagens, foi-se a editora "só para gente bruta" MMMNNRRRG que desde 2018 já tinha anunciado a sua morte e a "não-binária" Sapata Press. Apesar da radicalidade de ambos os projectos (ou justamente por isso mesmo) ninguém se importou com os falecimentos, tirando uma entrevista à MNRG pelo sítio em linha Bandas Desenhadas. 

Dois nascimentos em 2021 para compensar estas perdas: a Magma Bruta com edições em risografias de meter inveja a qualquer produção mundial, João Silvestre e a sua parceira emigraram para Hamburgo e de lá fizeram um projecto de sonho - porque é que nunca o realizaram cá? Eu não sei...; e claro, a Sendai, editora especializada em Gekiga para nos salvar da modorra Manga para crianças que se edita neste país, talvez pelo responsável ser brasileiro que só assim que foi publicado Hideshi Hino ou Imiri Sakabashira.

O Clube do Inferno passou a ser MASSACRE, é o mesmo núcleo de artistas sem o Astromanta, mas já lá iremos... Desde já pode-se dizer que lançaram três maravilhosos livros, dois deles da autoria de Mao.


Digital sickness

Foram anos de consumo digital - fosse pela compra digital de bens e serviços com o fecho das lojas, incluindo o crime de não considerar as livrarias como fornecedoras de "bens essenciais" apesar de termos um Presidente da República que ganhou eleições à pala de ser um dito ávido consumidor de livros. Esse fecho de estabelecimentos fez com que se pensasse novas formas de organização para resistir aos grandes (Wook, por exemplo) tendo nascido RELI  - Rede de Livrarias Independentes Portuguesas. 

O consumo de cultura por Internet foi um fartote mas pouca coisa será de lembrar como "arte" (pelo menos na BD), a única surpresa digna de nota da BD portuguesa no mundo virtual foi Forceps de Ricardo Paião Oliveira, no já referido sítio Bandas desenhadas. 

Claro que ninguém irá esquecer-se das videochamadas em que pessoas não conseguiam retirar filtros/máscaras de gato virtuais ou de serem apanhadas a baterem punhetas em reuniões porque tinham a câmara ligada. Por cá, houve a galhofa total da Feira Gráfica e os seus vídeos de scandales de galeria. Sobre a Gráfica, digo apenas como um representante da cena editorial "indie" de que não precisamos deles para ter inspiração ou motivação no ano fora do normal de 2020. E muito menos precisamos de um slogan de merda (olha a pérola: Continua a publicar!) que só diz que quem organizou o evento mais risível do ano não fez um mínimo esforço de discutir ou solucionar o problema principal da edição "indie". Não é a publicação per se que corre risco de "morrer" por causa do covid19 mas é a distribuição dela que era preciso "resolver". Os intermediários NUNCA ajudaram este meio. Quem nunca percebeu que curadores, merchants, lojistas ou galeristas NUNCA fizeram parte da equação de quem luta como editor independente, aliás, sempre fizeram parte do problema. Também ninguém percebeu um caralho o que foi a Feira Laica e outros eventos idênticos em que a horizontalidade definia os eventos e não uma selecção vertical. Tudo ainda pior, quando mete uma Câmara Municipal de Lisboa que nada oferece de cultura aos seus munícipes desde que apareceu o rentável turismo de massas. Esta meteu dinheiro nos "curadores" para salvarem a "cena", ofereceu um espaço digno para dar nas vistas sem sujar as mãos e o streaming fez o espectáculo imundo que os aficionados da 'net querem. Foi demais! Em 2021 os "curadores" chatearam-se mais uma vez e morreu a Gráfica. Ámen!

De forma dissimulada, na BD de Mariana Pita publicada no já referido Opposights, uns "fofinhos" dizem tudo:


O Tiago Baptista é que foi esperto, lançou o seu fanzine de Skate num parque abandonado da EMEL. Assim ao ar livre, com uma toalha para piquenique pôs à venda o Skate Snake Zine e mostrou documentos seus ligados ao Skate. Um evento underground que fugia às paranóias higiénicas e à licença comercial - novamente era num espaço ao ar livre que permitiu o encontro de várias comunidades: malta da edição, malta do desenho e malta do desporto radical - e sim, havia skates para iniciados darem tombos. Como escrevi anteriormente, os zines e afins não podem estar apenas ligados "comercialmente" (distribuição) a "eventos grandes". Não é só por causa de uma catástrofe como foi da pandemia que se perde o canal de distribuição. Não pode haver um canal apenas mas vários, é a sua obrigação assumir-se uma figura de propagandista, de procurar novas pessoas que ignoram que os novos autores de BD são interessantes ou melhores que o lixo das editoras comerciais. Se cada editor "indie" não procurar novas formas de distribuir ou divulgar o seu trabalho (e por consequência de outros colegas seus) irá pregar apenas para os convertidos e colocar o termo tecnocrata na sua produção: "nicho". Palavra que anormais por aí adoram empregar para desprezar a produção deste mundo editorial cheio de Arte. Obrigado ao Tiago por esta lição de humildade.

A incapacidade de adaptar às mutações legais-higiénicas do Covid, em que dia para dia mudavam regras de acesso aos estabelecimentos comerciais atrapalhou a Raia que só em 2021 conseguiu fazer uma feira de manhã até às 15h30, em Junho. Em Dezembro foi o fiasco Parangona na ZDB, desta vez porque a galeria aceitou ter um mercado de editores mas não prescindiu de ser clube ou casa de espetáculos, obrigando ao público a testes de detecção do vírus, numa altura que se demoravam horas de espera nos centros de testes. O público retraiu-se, as vendas dos editores foram quase zero!!! A ZDB pareceu uma criança que ganhou um brinquedo mas que não quis partilhar com as outras crianças. Triste. 

Houve o regresso da Necromancia Editorial em Guimarães, o primeiro evento de edição independente depois do isolamento de 2020. A vida realmente voltou aos poucos no ano seguinte e destaco o que aconteceu no Porto, a gente esperta de lá soube contornar as confusões legais usando vários espaços no Perímetro. E também de referir a Feira Anarquista do Livro em Setembro num descampado lisboeta - onde se encontrava uma BD em português sobre as prisões pelo italiano Zerocalcare; e o MAL, Mercado Aberto do Livro, uma reação aos excessos de cartazes de ilustração em serigrafia ou risografia das outras feiras, e portanto apostou com sucesso no formato... livro!

Por fim, voltando à questão da falta de eventos em 2020, não havendo Amadora nem Beja, não deixou de haver boa programação e uma distância às organizações "bedófilas" que são as que menos arriscam em artistas novos ou ideias novas. Assim ainda A.C. nascia o colectivo MASSACRE com uma exposição intitulada Loot Box que era inaugurada em Janeiro na Biblioteca da FCT NOVA (Monte de Caparica), longe das pranchas nas paredes, os três artistas, André Pereira, Hetamoé e Mao preparam instalações, desenhos e vídeos que transpunham a ideia a ideia de "narrativa gráfica", a lembrar esforços do passado como o Zalão de Danda Besenhada (2000). Adiada com a pandemia, surpresa incrível a exposição de Rudolfo com uma retrospectiva na Galeria Municipal do Porto e o seu belo catálogo. Se pode parecer estranho uma retrospectiva de alguém tão novo, digo só que a quantidade da produção - sempre ignorada pelos festivais "bedófilos" - é superior em quantidade e qualidade até do que alguns "cromos" que são defendidos nesses festivais "especializados". Houve também o VAST/O de Carolina Martins e João Carola no Banco das Artes em Leiria e seguiu-se outras retrospectiva desta vez do Quarto de Jade, do duo Diniz Conefrey e Maria João Worm, no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa. E claro, relembro as muitas exposições já referidas da Tinta nos Nervos, suficientes para substituir qualquer programação dos Festivais. 

De repente até parece que a BD ganhou um estatuto de arte séria. Foram coincidências apenas, bem sei, estas exposições em museus e galerias. É pena termos de voltar a ir aos festivais de BD para ver exposições, sobretudo quando o que vemos é a papinha fornecida pelas editoras profissionais portuguesas e não produções vindas dos artistas, o elemento que mais sofre no meio disto tudo. Esta subversão comercial afecta a cultura da BD em Portugal, minimizando a ideia de BD a monstrinhos com machados & violações mutantes do corpo feminino, já para não falar da BD "light". Tudo isto tem regredido o gosto nacional aos níveis piores que infantis e juvenis dos anos 90. 

Voltem os confinamentos se só assim é que veremos BD em galerias e museus! Embora, convém dizer: foda-se a Gulbenkian com a sua exposição higiénica do Hergé! Estamos num novo milénio, não há melhor para expor? Os vizinhos espanhóis por exemplo preferiram o norte-americano Victor Moscoso, um dos heróis do underground comix, nos seus museus nacionais. É só esta a grande diferença entre betalhada tuga e nostros hermanos...


A Batalha

Lembram-se na greve de fome dos donos de restaurantes? Sim alguém cuspiu numa das mais radicais formas de combate politico nesta nossa sociedade do espectáculo. Idiotas e fachos também os há na BD portuguesa. Mas muitos mais existem os que não o são! Nestes anos de luta social, alguns estiveram em cozinhas comunitárias a servir refeições para os marginalizados da sociedade, outros em manifestações contra o racismo e outros a defender a Seara – Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara - podem ler sobre o assunto em BD n'A Batalha #288/289, autoria de Gonçalo Duarte, sobre mais um episódio de destruição capitalista em Lisboa.

Nesse mesmo número publicou-se ainda uma BD do mestre espanhol Max com uma obra nova sobre este Manifestamente Anormal curso dos governos na gestão da pandemia. Todo esse número deveria ser obrigatório estar nas casas das pessoas pela sua lucidez. No #292 outra jóia de BD, desta vez do polaco residente nos EUA Tom Kacznski sobre a farsa do empreendorismo. Um dos autores mais inteligentes do momento com uma tradução em português. Obrigado Batalha! 

Foi o único jornal que pensou invés de ter notícias sobre como fazer pão e aturar a puta da família que ajudaste a criar, fucking breeder, que desmontou o jogo dos governos. Na grande imprensa só se apanhou modorra burguesa, onde não havia pensamento dos sem-abrigos, vendedores, artistas e músicos de rua ou dos emigrantes em casas sobrelotadas. O enfado mórbido da classe média em que o trabalho é vida e vice-versa, foi emocionante. Tiveram de comprar livros e discos como nunca, alguns até aprenderam a ler se calhar... As vendas em linha subiram com as lojas fechadas. Tudo ficou à espera de reaberturas, e no meio deste fogo a Snob mudava de morada e continua a ser aquela livraria "generalista" que apoia a edição independente com unhas e dentes. Obrigado a eles por venderem bons livros.

Pelo Monde Diplomatique foram dois anos de BDs publicadas de alto nível artístico com trabalhos de Hetamoé, Sara Boiça, Tiago da Bernarda, Ana Biscaia, Rodolfo Mariano, André Lemos, Cátia Serrão, André Pereira, Alexandra Saldanha, Mao, André Ferreira e Rudolfo.


Digital outra vez, pá!

É sabido que a cultura sobre BD não é dieta dos portugueses, até mesmo por aqueles que a consomem. Longe vão os anos 90 quando a revista Quadrado + distribuidora Neuromanso + Salão do Porto divulgaram a Fantagraphics ou Drawn & Quarterly. Ou se pensava na BD no fanzine Nemo ou na década seguinte, na revista Satélite Internacional ou no livro Sobre BD de David Soares. O espaço de divulgação aumentou com a 'net mas diminuiu quem divulgue de forma crítica, informada, adulta e reflexiva. Terreno vago em que transitam badalhoquices e tentativas bacocas de "influencers". Nada que faça abrir mundos. Com bicho covid ou sem ele, quase nada mudou neste panorama da referência ou crítica. Só meia-dúzia de curiosidades e apontamentos:

- a revista polaca Zeszyty Komiksowe, sobre BD e que dedicou um número especial à BD portuguesa e brasileira em 2021. Não sabemos o que dizem da cena portuguesa mas topámos o artigo inesperado de Pedro Réquio intitulado A Banda Desenhada enquanto produto das mudanças sociais e políticas em Portugal durante a década de 1970 a ser publicado em português na Revista Libertária um dia destes;

- duas participações portuguesas no sítio de referência norte-americano Solfad com três artigos de Joana Mosi e uma entrevista a Tânia A. Cardoso;

- uma entrevista antiga mas inédita a Carlos "Zíngaro" publicada na Pentângulo #4,

- com o jornal A Batalha parado durante o confinamento, voltei a escrever e a promover alguns livros  de BD neste blogue - houve quem ficasse feliz, nunca pensei... Eu é que fiquei feliz pelo regresso, embora nostálgico, de Domingos Isabelinho ao seu blogue; 

- Hugo Almeida escreve um brilhante ensaio sobre Yuichi Yokoyama numa brochura que acompanha, a maior parte das vezes, o livro Viagem;

- surgiu (e desapareceu) uma revista de música, Pista, que fez um artigo sobre o Rudolfo enquanto músico, tornando este ano de merda no "ano do Rudolfo", uma vez que toda sua breve vida já ficou toda registada com este artigo na revista e com o seu catálogo da exposição da Galeria do Porto acima referido;

- nos campos gráficos para quem gosta de BD é de referir VelvetNirvana, exposição da colecção particular de António Neto Alves (um cromo?) que aconteceu no Pavilhão Branco do Museu da Cidade de Lisboa onde se viu cartazes do melhor grafismo punk: Gary Panter, John Holmstrom e Raymond Pettibon; 

- também pela via museu, focado na pintura houve a exposição de Eduardo Batarda, Great Moments na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva;

- o mais importante foi a reedição de No Lazareto do Rafael Bordalo Pinheiro, não era a primeira vez que tenha havido uma reedição desta obra importante de 1881 - em 2003 foi a Frenesi que o fez num gesto de coragem que nenhuma editora "bedófila" seria capaz de  o fazer. É um diário de viajem, autobiografia, comentário social e político para quem ficou em quarentena vindo do Brasil, isto tudo umas décadas antes do Crumb ou Pekar! Edição da Pim! e Museu Bordalo Pinheiro.


FIM

Entre toda a mortandade neste mundo, houve várias mortes de autores e artistas de BD. Pareceu que estávamos no fim de uma Era dada a importância de nomes como Uderzo, Quino, Sokal, José Garcês e Juan Gimenez - este último, o único falecido com relação directa com o vírus. 

De referir também o falecimento do editor Jorge Machado-Dias da Pedranocharco e do BD Jornal. 

Mas sobretudo a tristeza chamou-nos por aqueles que nos fizeram crescer artisticamente e intelectualmente como Claire Bretécher, Gene Deitch, Richard Sala, Gary Leib, Ron Cobb e S. Clay Wilson.

Noutra dimensão surreal foi desaparecimento daqueles que publicámos ou que nos eram amigos, Henriette Valium, Ward Zwart, João Paulo Cotrim e Isabel Lobinho. 

Neste final de relatório sobre a cena portuguesa, as nacionalidades pouco valem, só os sentimentos íntimos.

terça-feira, 24 de março de 2026

Nódoa Negra - ESGOTADO


Projecto vencedor da edição de 2018 do concurso interno, Toma lá 500 paus e faz uma BD (2018), a antologia Nódoa Negra reúne as participações de doze autoras: Bárbara Lopes, Cecília Silveira, Dileydi Florez, Hetamoé, Inês Caria, Inês Cóias, Marta Monteiro, Mosi, Patrícia Guimarães, Sara Figueiredo Costa, Sílvia Rodrigues e Susa Monteiro.

No nosso imaginário a Dor pertence ao campo físico, neste pensamento associamos sempre o nosso corpo a um estado de dor físico e facilmente nós esquecemos que existem vários níveis de dor, entre eles, a dor emocional/ psicológica, que por sua vez, ocupa o mesmo peso que a dor sentida fisicamente. Assim, partindo da vontade de trabalhar a plasticidade da temática da dor e de querer perceber os vários entendimentos ao seu respeito, foram convidadas onze artistas e uma escritora, que partilham a paixão pelo desenho, a banda desenhada e a ilustração, para que através do seu olhar e desenho/ escrita, reflectissem sobre a dor. Ao longo da antologia, será perceptível que cada artista tento tido como ponto de partida a temática geral da dor, escolheu desenvolver graficamente uma dor específica: do parto, do confronto com o outro, dor menstrual, de amar, da solidão, de esconder a dor, da ausência, do luto, do crescimento, de alma...

NN

Curiosamente e historicamente esta poderá ser a primeira antologia de autoras coordenado exclusivamente por autoras. Isto é, apesar de alguns números especiais de revistas, fanzines ou livros de "BDs no feminino" que apareceram nos anos 90 (G.A.S.P. ou Azul BD3) e no novo milénio (Quadrado #3 / 3ª série, Allgirl'zine e QCDA #2000) estas publicações não foram organizadas pelas próprias autoras como acontece no presente projecto vencedor.

NN

19º volume da Colecção CCC. 138p. p/b, 16x23cm, capa a cores, edição brochada. Coordenação, design e capa por Dileydi Florez. Contra-capa: Marta Monteiro. Projecto apoiado pelo IPDJ
In Portuguese with English translation. 

NN

Historial: 
lançamento no dia 18 de Outubro 2018 na ZDB com exposição de originais e apresentação por Catarina Cardoso (Portuguese Small Press Yearbook) 

Apresentação na BD Amadora 2018 dia 10 de Novembro, com presença de algumas das autoras seguido de sessão de autógrafos
 
 
artigo de Pedro Moura na Mundo Crítico com BD sobre o livro por Dileydi Florez 

exposição no Festival de BD de Beja de 29 Maio a 16 Junho 2019 



NN

O livro está ESGOTADO mas ainda pode ser que se encontre na Tigre de Papel, Linha de Sombra, BdMania, Greta, Matéria Prima, ZDB, Mundo Fantasma, Kingpin Books, Stet, Snob, Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristóvão), Tinta nos Nervos e Insurgentes.

BUY @ Le Mont-en-L'air (Paris), Quimby's (Chicago) and Ugra Press (Brazil)

NN

Feedback:

um livro-barómetro no feminino sobre a dor
Amanda Ribeiro in P3 / Público

O título é duro (...)
João Morales in Time Out (Lisboa)

ontem li o Nódoa Negra. é tão bonito que até dói, meu. a história da Patrícia Guimarães é incrível. parabéns! 
Francisco C. (por e-mail)

São testemunhos no feminino, são força, são ruído, são rasgos de agitação num panorama - ainda - pouco dado a movimentos bruscos. A primeira antologia totalmente construída por autoras em Portugal é muito mais do que uma afirmação, é a casa de uma intimidade que fende tabus e nos mostra que a existência inevitavelmente dói.
Tiago Neto in Vogue Portugal

Um livro sobre dores que desenham e escrevem num mais difíceis exercícios...
Inês Fonseca Santos in Todas as Palavras (RTP)

Tive conhecimento desta edição enquanto folheava um dos últimos números da Vogue. Como a recepção do livro na imprensa também passava pelo P3, Time Out e por um programa de TV apresentado por uma das tipas do Câmara Clara, tudo indicava que se tratava de mais um livro do ano. São só autoras a fazer este livro e ao que parece esta ideia surgiu da Dileydi Florez, que há uns anos tinha desenhado o Askar, o General, em tempos em que a associação Chili Com Carne estava imbuída por um espírito de masculinidade militar. Mas isso foi lá atrás, agora a associação pugna diariamente pelos direitos dos mais fragilizados pela ideologia dominante no tardo-capitalismo: entre essas figuras encontra-se a mulher. A premissa para o livro é interessante e tem um importante significado político: não há espaço na edição de banda desenhada para mulheres, por isso é preciso arregaçar as mangas e pôr mãos à obra. Quando estamos à espera que a bd da organizadora deste volume seja, então, um grande manifesto feminista, eis que termina com dois enormes paradoxos: primeiro, ao escrever que se alguém tiver uma vida mais consciente está a dar um passo para sofrer menos, Florez parece estar a preparar uma sólida carreira como autora de manuais de auto-ajuda; segundo, a bd termina com o salvamento da mulher frágil pelo seu príncipe encantado, desvirtuando a ideia da autonomia feminina. No entanto levanta um problema importante que será transversal a todo o livro: o corpo e a sua vulnerabilidade. (...) Mas o sofrimento também se revela de outras formas e é aqui que o livro se transcende (...) é também o sufoco provocado pelo assédio doméstico que acompanha o crescimento da futura «dona-de-casa» - eufemismo para «escrava da família patriarcal», se puxar do meu jargão a transbordar de ideologia. É este o tema dos «Bons costumes», de Sílvia Rodrigues. A Nódoa negra beneficia ainda de uma multiplicidade de linguagens gráficas, destacando-se a manga da Hetamoé e a arte bruta da Inez Caria (...) há ainda a contribuição da Susa Monteiro, que me parece estar cheia de referências eruditas à arte contemporânea, ou então mostra apenas a tristeza profunda de um tenista que não consegue jogar ténis contra um cavalo. A fechar o livro, a Patrícia Guimarães colabora com a melhor bd do volume, não só porque ataca o importantíssimo tema da apatia provocada pela rotina quotidiana, como estiliza a narrativa num daqueles puzzles de deslizar peças, como que a dizer que a efemeridade da arrumação é mera ilusão e que o próprio caos é só mais um episódio da organização da vidinha. Mas a vida é só pathos? Não: a Cecília Silveira diz que também há espaço para minetes e para fisting com luvas de boxe, como que a lembrar que o sexo falocêntrico é também uma forma de violência e de exercício de poder sobre o corpo feminino.
Russo in A Batalha

(...) o muito interessante Nódoa Negra.
Jornal de Letras

NN




Bibliografia das autoras na Chili Com Carne: 
- MASSIVE (2009) c/ Marta Monteiro
- Destruição ou BDs sobre como foi horrível viver entre 2001 e 2010 (2010) c/ Sílvia Rodrigues
- Boring Europa (2011) c/ Sílvia Rodrigues
- Futuro Primitivo (2011) c/ Inês Cóias, Sílvia Rodrigues e Susa Monteiro
- Mesinha de Cabeceira #23 : Inverno (2012) c/ Sílvia Rodrigues
- QCDA #2000 (2014) c/ Hetamoé e Sílvia Rodrigues
- Askar, o General (2015) de Dileydi Florez
- Malmö Kebab Party (2015) c/ Hetamoé
- QCDI #3000 (2015) c/ Hetamoé
- Maga : Colecção de ensaios sobre Banda Desenhada e afins (2015) c/ Hetamoé
- Lisboa é very very Typical (2015) c/ Dileydi Florez
- Anarco-Queer? Queercore! (2016) de Rui Eduardo Paes, c/ Hetamoé
- Pentângulo #1 (2018) c/ Cecília Silveira e Dileydi Florez

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Corta-e-Cola / Punk Comix - terceira edição - na Cult

Sim, voltou a ser "livro-duplo"!!!
(iá! será preciso rodar a publicação para ler cada um dos livros)

Eis a terceira edição de Corta-e-Cola : Discos e Histórias do Punk em Portugal (1978-1998) de Afonso Cortez e Punk Comix : Banda Desenhada e Punk em Portugal de Marcos Farrajota


 

Reedição do famoso livro de 2017 que no ano passado foi também reeditado como "benefit" para a compra do espaço do Disgraça. Pouco mais há acrescentar a essa edição que já tinha sido rectificada, emendada e com posfácios a actualizar meia-dúzia de coisas, até porque não há muito a declarar desde 2017, por mais incrível que pareça! 
Tal como a edição de 2025 também nesta não está incluído o CD Punk Comix mas graças ao mundo virtual podem sacar no bandcamp da Thisco.  
De salientar as novas capas: do Lado Corta é um desenho original de José Smith Vargas recuperando uma tradição bem antiga de riscar punkarias sobre imagens alheias. Do Lado Comix temos uma vinheta da BD "Inadaptados" de Nunsky, publicada em 1994 no fanzine Mesinha de Cabeceira #4 e que tem sido usada como imagem para a exposição-entretanto-itinerante Punk Comix.

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Já está disponível na nossa loja em linha e na BdMania, Clockwork Store, Cult, Flur, Kingpin, Linha de Sombra, Louie Louie, Snob, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, ZDB (Lisboa), Louie Louie, Matéria Prima, Socorro, Utopia (Porto), Subtil (Almada) e A Batalha. Em breve Larvae, Rastilho e em mais lojas...
 
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Sobre o livro

Saído no ano em que se “celebram” os 40 anos do punk em Portugal, a Chili Com Carne, eis agora que se celebram os 50 anos à escala planetária! ENA, que o Punk está envelhecido!

Corta-e-Cola : Discos e Histórias do Punk em Portugal (1978-1998) de Afonso Cortez e Punk Comix : Banda Desenhada e Punk em Portugal de Marcos Farrajota foram escritos a partir de um levantamento exaustivo de fanzines, discos e demo-tapes, ao longo de 256 páginas, os autores dissecam todo esse material para tentarem perceber como através de uma ética - do-it-yourself - se conseguiu criar uma (falta de) estética caótica e incoerente que hoje se identifica como punk. 

Através da produção gráfica desse movimento se fixaram inúmeras estórias - até agora por contar - de anarquia e violência; de activismo político, manifestações e boicotes; de pirataria de discos e ocupação de casas; de lutas pelos direitos dos animais; de noites de copos, drogas e concertos...

Corta-e-Cola / Punk Comix é ilustrado com centenas de imagens, desde reproduções de capas de discos a páginas de fanzines, cartazes, vinhetas e páginas de BD, flyers e outro material raramente visto.

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Volume -8 da colecção THISCOvery CCChannel publicado pela Associação Chili Com Carne e Thisco, editado por Marcos Farrajota com o arranjo gráfico de Joana Pires. 

256p 16,5x23cm impressos a 540U, capa a duas cores.





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HISTORIAL

Saiu no 10 de Junho na Feira do Livro de Lisboa 2017 ... lançamento oficial no Disgraça a 30 de Junho com apresentações de José Nuno Matos, Diogo Duarte e Nônô Noxx, concertos de Presidente Drogado e Scúru Fitchádu ...  sessões de autógrafos e apresentações no LAR / LAC (Lagos), Louie Louie (Porto), Feira do Livro do Porto e na higienizada Casa da Cultura de Setúbal ... reedição em 2025 ... lançamento da reedição no dia 1 de Junho 2025 no Disgraça com conversas e concertos de Vaiapraia e Bas Rotten ... reedição 2026 ...

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FEEDBACK
 
(...) dois livros unidos pela mesma lombada que sistematizam informação e recordam, de forma cronológica, quem foram os protagonistas do punk em Portugal que deixaram discografia e como o movimento foi representado na BD. "O punk não foi um movimento contínuo, mas fragmentado, esporádico, dissolvido entre outras propostas, em permanente mutação, como aliás qualquer movimento juvenil", afirma Afonso Cortez na introdução. (...) Depois de mais de 150 páginas, Afonso Cortez conclui que ao longo daqueles vinte anos (1978-1998) o grafismo foi entendido "apenas como um pormenor. E que a falta de cultura visual, ou mesmo de estudos, se reflecte de forma catastrófica na falta de qualidade do que é produzido". Embora os Faíscas e os Minas & Armadilhas sejam referenciados como os iniciadores do punk na música portuguesa, Cortez assume "Há que violentar o sistema", de 1978, dos Aqui d'el Rock, como o primeiro disco punk português. A partir daí, faz um levantamento dos discos editados, comenta a vertente gráfica das capas, mapeia os locais de concertos e a crítica na imprensa e complementa com testemunhos de músicos recolhidos pelo próprio. Mata-Ratos, Crise Total, Kus de Judas, Cães Vadios, Censurados, Nestrum, Desarranjo Cerebral, Renegados de Boliqueime, Vómito, Peste & Sida, X-Acto são algumas das bandas referidas no livro (...) Já sobre a BD, Marcos Farrajota explica o mote do livro: "Serve como uma base de referência para quem quiser pegar na BD para relacioná-la com o punk, subculturas urbanas, música, cultura DIY, artes gráficas e editoriais". (...) Farrajota recua a finais dos anos 1970 para encontrar as primeiras referências ao punk na BD portuguesa. Surgem na revista Tintin, assinadas por Fernando Relvas e Pedro Morais, "mas são situações em que os punks são apenas paisagem urbana". Será Fernando Relvas a assinar, em 1983, no semanário Se7e, "o primeiro trabalho de corpo inteiro" sobre punk, "sob a forma de uma personagem forte e feminina" chamada Sabina. Marcos Farrajota faz ainda referência à atitude "militante e amadora" de publicação, da auto-edição, dos fanzines, das colectâneas e da tecnologia da fotocópia e enumera vários autores que desenharam sobre o punk (...)
Lusa / DN
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De leitura rápida, Punk Comix não deixará de ser um instrumento de leitura obrigatória para compreender alguma da história da banda desenhada moderna e contemporânea em Portugal. 
Pedro Moura in Ler BD
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(...) ambos os estudos são preciosos e sumarentos, revelando uma investigação criteriosa e mais intensiva do que exaustiva. O resultado é um brilhante mapeamento historiográfico do punk e da sua relação com a banda desenhada em Portugal.
Professora Marcivânia / A Batalha
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O Afonso tinha-me deixado boa impressão e para o encontro levara Candy Diaz, baterista dos saudosos Les Baton Rouges. Yaay! (...) O texto dele é uma catadupa de informação: estão lá Faíscas, Minas & Armadilhas, Crise Total, Ku de Judas, Corrosão Caótica, Mata-Ratos, Estado de Sítio, Anti-Porcos, Kristo Era Gay, Caos Social, Censurados, Bastardos do Cardeal, e muito mais. (...) É informação em bruto, não digerida. Só lhe recrimino isso, o não haver mais reflexão sobre os factos. Mas se calhar é mais um problema meu do que dele, pois até os sentimentos intelectualizo. Quanto à prosa do Marcos (...) falei, fiquei a perceber que o jeito dele para a narrativa não se fica pelos quadradinhos das suas BDs. Dá gosto seguir-lhe as palavras. 
Rui Eduardo Paes
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Dos poucos livros existentes no mercado nacional em termos de abordagem ao universo do Rock feito em Portugal ao longo dos anos, há dois livros que sempre foram os meus preferidos: A arte eléctrica de ser português: 25 anos de Rock’n Portugal de António Duarte e o Escrítica Pop de Miguel Esteves Cardoso. Desde há duas semanas tenho mais um como preferido: Punk Comix/ Corta-e-Cola (...). Quando pensas que já não há surpresas, ou até pessoas com interesse para agarrarem de forma inteligente e com alguma prudente distância analítica, um período da história de um subgénero do Rock em Portugal, como é o Punk, situado num tempo específico (1978-98), eis que levas, qual murro no estômago, com uma agradável surpresa com este livro precioso. O que esta obra tem de diferente e de excelente, não é tanto a análise cronológica e meticulosa das bandas dum certo universo Punk nacional e seus intervenientes, bem como a sua ligação à banda desenhada que se foi e se vai fazendo aqui pelo burgo, mas sim o mote que direciona todo o livro e que é essencialmente isto: se és Punk, controlas todos os meios de produção da tua arte (Do It Yourself - DIY), assim só tu és responsável por aquilo que dás a conhecer publicamente, sem manipulações de outros, e se falhares (porque se falha quase sempre), falhaste gloriosamente, o que é sempre melhor do que nada fazer. Se ganhares algo, sabes que mais tarde vais perder, por isso não vale a pena fazer a festa antes do tempo. Não entrando em muitos pormenores (até porque este deve ser um livro lido por todos os melómanos nacionais, independentemente de gostos musicais), este está muito bem redigido, é agradavelmente informativo e formativo q.b, sem ser chato; é graficamente interessante dentro de uma estética Punk, mas sem entrar nos seus lugares comuns; há nele uma personalidade própria. (...) É desde já, um livro para o futuro, daqueles que mais cedo ou mais tarde, as novas gerações, amantes da música underground, terão de se socorrer para se informarem sobre… 
Guilherme Lucas (GG Ramone)

Se o punk não fosse ateu diria que estava aqui uma bíblia do punk (...) Indispensável.
Luís Rattus in Loud

(...) não é possível escrever uma história do Punk, mas é certamente possível escrever muitas histórias do punk. Diria que tantas quantas quem decide escrevê-las ou tantas quantas as experiências individuais de quem o vive ou viveu
Diogo Duarte in Mapa

Estive a folhear e de repente um blast from the past: no inicio dos 90's um tipo da minha turma na secundária da Maia conhecia os Kristo Era Gay e convidou-me para ir assistir ao ensaio da banda na garagem do baterista, que era muito perto da escola. Cheguei lá e perguntei que som é que eles tocavam; ficaram meio à toa a olhar uns para os outros, até que o vocalista (Fino) lá se descoseu - "pá, sei lá... É rock português..." Seja como for, adorei a experiência e a partir daí a ideia fixa de formar uma banda nunca mais me largou.
Nunsky via email

(...) regressa com a força do activismo, reforçando intenções com a prática: a própria decisão de o reeditar vem no sentido de entregar todo o lucro das vendas à Disgraça (...) Mas, tal como antes, não doura o panorama, nem o da época coberta (1978-1998) nem dos oito anos após a edição original. Antes pelo contrário, Cortez lamenta a falta de continuidade no mapeamento desta(s) história(s) e talvez tenha de ser ele mesmo a dedicar-se a outros aspectos do punk e hardcore em Portugal. A leitura fluída da implantação do punk no país, os diferentes períodos, definidos por diferentes grupos e atitudes, são de apreensão fácil mesmo para quem é forasteiro na cena. A lógica seguida é a dos discos, com comentário muitas vezes pormenorizado e ácido em relação à arte das capas, uma mágoa diversas vezes exposta durante a narrativa (...) Mesmo a música é sujeita a apertado escrutínio. No fundo, não se trata de uma celebração superficial do fenómeno mas sim uma análise profundamente crítica que deixa a impressão de focar nas entrelinhas o que poderia ter sido, tanto como o que foi. Abordagem curiosa, fresca e obviamente insurrecta, por contraponto a outro tipo de celebrações punk ou rock que, em Portugal, o autor já entende como reaccionárias. Extensa (ainda que seleccionada) discografia, bibliografia útil. Sobre a Banda Desenhada, (...) Farrajota oferece uma visão geral sobre BD em Portugal, publicações punk no estrangeiro e em Portugal, neste caso com visão detalhada sobre autores, estilos, processos, difusão, pertinência. A sua escrita também irreverente e empática informa e comenta criticamente, comprometida com segmentos menos visíveis e com palavras menos simpáticas para o circuito comercial. É assim que se aprende sobre as margens e até como as margens muitas vezes só o são porque alguém fora delas decide contar outra História. Importante documento para melhor entender ao nível da rua a realidade musical e artística de um país que não trata muito bem a dissidência cultural. (...)


domingo, 12 de janeiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (1?)

Aparentemente o pessoal cagou prá minha sugestão de passar a escrever mensalmente sobre edições que não conseguem entrar n'A Batalha - ou por falta de periocidade em que se encontra o jornal ou por alguns dos objectos não fazerem sentido numa publicação anarquista. 

O certo é que Dabstep dos Greengo já é de 2018 mas só agora é que arranjei uma cópia do CD, editado pela Raging Planet. Apesar de fazerem parte dois terços dos "nossos" Krypto, só agora dei-me ao trabalho - uma aparelhagem à séria ajuda imenso - de ouvir isto com a seriedade que merece. Seriedade!? Má escolha de palavra nem que seja porque todas as imagens do disco são sobre erva - sim, aquela que tem THC - chegando ao cúmulo que a versão CD (existe também um LP) tem um recorte em cartolina da "planta maldita". Som pesadão na senda do Stoner que esteve tão em voga no pré-covid, ali onde Sleep largou as botas para os punks. É incrível o que um baixo + bateria fazem - e uma voz (já agora) que não sendo nada de especial, é funcional para o "género"... obviamente  que a união com Gon para se transformarem em Krypto fez uma diferença brutal nesse nível (e nos concertos ao vivo). Sim, para simplificar isto é música brutal para ganzados...

Só faltam agora o fanzine e o livro. 

Sendo as diferenças ténues nos dias que correm nem sei muito bem por qual começar. Pode ser este Bonança (Imprensa Canalha; 2024) de José Feitor - autor/editor que já sofre de preguiça digital a julgar pelo abandono do blogspot em preferência ao instagram... Ou será puro aceleracionismo? 

Belo A4 todo DIY, ainda tem a ousadia de fazer 150 exemplares num mundinho chato o nosso em que o pessoal faz tiragens tão caganitas e cheios de cagufa.

Com uma prosa tão deliciosa como esta: Até os mais pobres vivem agora melhor que os ricos de antanho - a comida é-lhes entregue à porta, ainda fumegante, por mensageiros de fraque emprestado que se deslocam em traquitanas rocinantes. (...) Não há luta de classes que resista. É complicado saber por onde começar a escrever sobre este livro de autor (zine?). Visualmente Feitor está em modo de "bonança" (aproveitando o título), sempre imaginativo, com fusões gráficas inesperadas e cada imagem produzida é uma fofura de opressão - que dizer daquele giríssimo Yeti capitalista (o chapéu do capitalista representado à 100 anos) com uma corrente e cadeado? É um banqueiro que nos vêm prender prá vida com um empréstimo a contrair? Que seja! Ele é bem giro para ampliar e meter numa parede lá em casa. A melhor opressão é aquela que não sentimos já alguém o deve ter dito... 



UFOs in Lahti
(Auto-edição, 2024) de Marko Turunen é a colectânea dos quatro "comic-books" do que aqui escrevi há mais de 10 anos! O tempo passa... 
 
Roubo a mim mesmo o que escrevi sobre ele n'A Batalha: O Xeique PHDA do finlandês Marko Turunen foi um dos livros de BD mais impressionantes e dos mais ignorados do ano passado. Pessoal da BD esquece, tudo parvo como sempre. Pessoal da psicologia & psiquiatria, também nickes, se calhar só sabem ler bulas médicas… Bem sei que como editor deveria estar caladinho em lágrimas mas chateia-me que (...) não ligaram pevas à coisa. Que raiva! Mas o problema nem é só português, a obra de Turunen existe quase toda publicada em francês pela Fremok e ninguém quer saber. Mesmo na Finlândia, o autor queixa-se que lhe ignorem. Bóf!
 
Entretanto Turunen meteu em marcha um plano de reedição em inglês de quase todos os seus livros. Deve pensar que o mundo anglo-saxónico seja mais aberto, ou que esta língua franca ajude a chegar a mais público. (...) Para quem não sabe Turunen faz BDs sobre a realidade, da sua vidinha ou de outros à sua volta, o que é inesperado na sua obra é o imaginário, em que desenha essas banalidades com representações da cultura Pop. Por isso Marko é o “Alien”, um ET baixote com buraco na cabeça (uma vez que Turunen quando era criança foi atingido por uma bala) e Annemari é a Greater Woman (uma espécie de super-heróina toda em latex fetichista S/M - e que gralhas no passado, e que persistem nesta edição também, aparece como Grater Woman, o que me levou a escrever algumas vezes como "Mulher Raspadora", ops!). Como uma crónica disfuncional, vamos assistindo à vida do casal, (...) As banalidades ganham pujança existencial com o lixo Pop que Turunen utiliza para ilustrar estes “slices-of-life”. Uma poesia emerge desta lixeira que parece quase uma afronta aos detourments dos Situacionistas que usavam a BD pop para mostrar a miséria da vida capitalista. Algumas destas reedições em inglês foram mexidas – supressão ou acrescento de vinhetas, algumas foram agora publicadas a cores ou justamente o contrário, aparecem a preto e branco quando eram originalmente a cores. Porquê? Pouco importa para vocês, nunca souberam da existência deste autor, né? Para quê entrar em detalhes agora? Oh, lembrei-me que ele já cá esteve duas vezes com belas exposições, no Salão Lisboa 2005 e na Tinta nos Nervos em 2023. Os livros do autor podem ser encomendados no seu sítio em linha superturunen.fi (com portes horríveis porque os correios finlandeses foram privatizados) ou em Portugal pela livraria Tinta nos Nervos.

Ufa, foi mais fácil que pareceu, prometo ser menos preguiçoso em Fevereiro...