domingo, 12 de abril de 2020
sábado, 11 de abril de 2020
ccc@noite.oráculo.online
Era para te sido no dia 21 de Março (equinócio da Primavera) nos Anjos 70 mas o vírus não deixou... Agora é tudo em linha e também a Noite Oráculo será assim neste Sábado para paganizar a Páscoa que bem precisa de tal!
Da nossa parte a simpática organização do evento irá mostrar as cartas-oráculo It's You da Amanda Baeza e o unDJ MMMNNNRRRG não fará lá nada mas prepara uma "playlist" New Age para vosso usufruto. É assim em tempos de pandemónio...
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sexta-feira, 10 de abril de 2020
O absurdo dos dias normais...
A inglesa Breakdown Press é daquelas editoras pequenas que tem lançado "clássicos desconhecidos" do Japão, com um cuidado extremo nos objectos editoriais, tendo publicado no ano passado The Pits of Hell de Ebisu Yoshikazu - livro culto no angora japonês, editado originalmente em 1981. São nove histórias, produzidas entre 1974 e 1981, que são perfeitamente selvagens, brutas, sujas, feias e violentas sobre o inferno que é o dia-a-dia na escola, escritório ou em casa - a violência doméstica também é contemplada - ou seja, todas as maleitas criadas pela sociedade industrial capitalista, que borregos como João Miguel Tavares estão desejosos que regressem "à normalidade" no seu esplendor. É verdade que os argumentos são dados a excessos e pesadelos mas o sentimento de que algumas das situações poderiam acontecer mesmo está no fio da navalha.
O estilo gráfico de Ebisu é pioneiro e insere-se no movimento "heta-uma" ("feio mas bom") que se tornou o ADN da mítica revista Garo da década de 70 e 80, e muito para além disso se pensarmos na segunda geração de autores praticantes do estilo como Yusaku Hanakuma, do celebrado Tokyo Zombie (1999), ou ainda mais próximo de nós, no tempo e território, a Hetamoé. De uma forma muito primária pode-se dizer que o que temos aqui é ao equivalente aos norte-americanos Rory Hayes (1949-1983) ou Mike Diana, especialmente a violência física lembra Diana - embora a comparação teria de ser invertida cronologicamente. Para quem já não tem cu a ouvir empresários a falarem sobre a Economia, eis a solução.
Quem são os autores clássicos de Itália? Quem responder Hugo Pratt é porque não conhece Guido Buzzelli, o primeiro verdadeiro artista na BD mundial - e, epá!, publicado em Portugal: Zil Zelub (Presença; 1973). Quem responde Manara é porque não conhece Pazienza!
Andrea Pazienza (1956-88) é uma instituição em Itália, o gajo da BD mais respeitado e adorado de sempre. Talvez por isso que a capa d'Os Últimos Dias de Pompeo (Veneta; 2015) tenha um ar bizantino, em volta de um artista junkie, Pompeo, alter-ego de Pazienza, que faleceu pelo uso de heroína. Uma auto-ironia profética? Porque não? La Pazienza ha un limite, Pazienza no!
Este álbum é o seu diário confessional e testamento artístico - embora a BD incompleta Astarte, seja considerado por outros. Aqui o verniz estalado é assumido, as folhas onde são desenhadas vários desenhos, algumas vinhetas e sequências são mesmo papeis de rascunho ou do que estivesse à mão de semear, enquanto na outra dava mais um caldo. Só com drogas é que se suporta esta realidade de merda, e Pompeo é o poeta de serviço para mostrar a verdade e a mentira desta afirmação, usando armas do pós-modernismo (o grafismo é muito 80s sem dúvida), as páginas são "slices of life" sobre arranjar doses, injecções bem ou mal paridas, estar lá por detrás do espelho de Alice e infelizmente regressar à terra. Não esperem Harvey Pekar ou outras (auto)biografias bem comportadas, isto é um ensaio para uma "arte total", falhada e triste.
A obra de Pazienza nunca foi publicada em Portugal - podem agradecer aos editores de BD que nos deram tanta ignorância durante todas estas décadas de democracia. Em português há BDs na amadíssima Animal - incluíndo Astarte - e este livro que já agora conseguiu o impossível, traduzir com rigor o texto de Pazienza, que é italiano, iá, e também mil dialectos "daquela bota", jogos palavrosos e invenções linguísticas do autor. Parabéns!
Se o livro de Ebisu deve ser fácil adquirir pela editora, o de Pazienza vindo do Brasil terá preços proibitivos - e meninos, nada de usar a Amazon que é má para todos! Alternativas, ou ler em Italiano, ou esperar por 2021 porque estão previstas uma edição francesa pela Revival e outra em castelhano pela Fulgencio Pimentel, creio.
O último livro de Gabrielle Bell intitulado Inappropriate (Uncivilized) saído este ano, é também uma compilação de BDs curtas. Não conhecendo muito bem o seu trabalho, diria que é daquelas autoras que vai reunindo esse material vindo de zines, "comic-books" (como o seu Lucky), antologias de referência (Mome, Kramers Ergot) e muita 'net por aí.
Bell possui tanta displicência como humor - diria até "humor britânico", uma vez que o pai das autora era inglês, após o divórcio, a mãe norte-americana levou-a, com dois anos, para os EUA. Na primeira característica topa-se logo pela forma como as suas BDs não tem um limite de vinhetas e páginas, parece que a autora tem um à vontade narrativo para contar desaventuras do dia-a-dia com elementos surrealistas sem que isso perturbe a normalidade do universo. Quando decide parar, pára, que se lixe que depois em livro fique com páginas e meia de BD e o resto a branco. Estranhamente ela até tem uma disciplina monótona (mas que que não cansa) de fazer tiras de duas vinhetas e três tiras por página. No entanto como disse, quando tem de parar para fechar uma história ela pára e acabou-se. Talvez procure um final durante a produção até que o encontra sem pensar em consequências de formatos editoriais. com este processo acerta sempre e fazer das narrativas verdadeiros contos "clássicos" (princípio, meio e fim) e não aquele flutuar constante das pequenas autobiografias.
O humor dela é subtil - daí a referência ao britânico - não nos (a)traí para facilidades de "punch-lines", é maneirinho, evidencia o ridículo da sociedade ocidental sem o querer modificar, se não fosse assim o que poderia ela contar? Tem algo de inocente e infantil - lembra-me a Jucifer - contrabalançado pelo mundano e aflitivo. Senti nela uma energia que tinha nos tempos do Eightball de Daniel Clowes, aquela aura norte-americana que surpreende sempre pela irreverência da juventude e a observação sagaz dos nossos tiques civilizacionais. Espero que ela não se estrague como o gajo e que continue a bater no ceguinho.
Qualquer livraria de BD que seja de importação norte-americana deveria ter este livro ou facilmente o consegue por encomenda - comprei o meu exemplar na BdMania (era o que se destacava no meio do lixo habitual) e foi mesmo a tempo antes do "co(n)vid(a-a-casa)-19", perfeito para escrever sobre ele no fim de semana comemorativo do porco nazareno mais fixe de sempre! (o fim-de-semana, não o porco, dah!)
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sábado, 4 de abril de 2020
Assim não vale...
Lo Corona shit deu cabo da edição física da Loud! deste mês - ainda bem, meu, a capa são os Nightwish, credo, que azeite!! - mas há PDF grátis aqui. E pá, se está na 'net então meto aqui as minhas resenhas críticas, que se lixe! Ah! Tem pontuação de 0 a 10 porque os metaleiros obrigam a tal!
Já agora uma boa entrevista a André Coelho AQUI.
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quarta-feira, 1 de abril de 2020
Santa Camarão / últimos 8 exemplares
José Santa "Camarão" (1902-1963) foi um dos maiores boxistas do mundo e com uma história de vida avassaladora.
Esquecido pelo tempo, Xavier Almeida propõe trazé-lo à memória com uma biografia baseada num caderno escrito pelo próprio Santa que relata a primeira parte da sua vida: da sua infância em Ovar à juventude em Lisboa, onde culmina com o inicio da sua vida profissional.
Esta é a parte menos conhecida do Santa Camarão, no entanto a mais épica. Pois é neste período que se constrói a sua personagem e a sua carga melancólica, triste, solitária, perdida...e talvez a mais fascinante.
É de referir a colaboração de Pato Bravo (aka de B Fachada, que por sua vez é aka de Bernardo Fachada) no argumento desta banda desenhada. Uma colaboração com Almeida que já vem do tempo da Violência Electro-Doméstica.
O livro teve o apoio das Câmaras Municipais de Ovar e Lisboa.
Loved the boxing story...
Andy Brown (Conundrum Press)
nomeado para Melhor Álbum, Argumento e Desenho na BD Amadora 2018
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domingo, 29 de março de 2020
terça-feira, 24 de março de 2020
Saúde e Anarquia
Como sabem desisti de divulgar edições que escapam ao radar público desde que passei a colaborar no jornal A Batalha, tendo transferido essa tarefa para esse enorme prazer que se chama papel impresso.
Dado ao drama que vivemos e sabendo que a maior parte dos leitores tem medo de fazer assinatura de um jornal de expressão anarquista, decidi voltar a este blogue divulgar uma coisita ou outra para evitarem o lixo da edição nacional - já agora, para quem procura o melhor dos livros de BD em Portugal, consultem o sítio Bedeteca Ideal.
Não foi desistir de escrever em linha que me fez abandonar este blogue mas também alguma confusão de projectos - a participação no sítio oficial da Mundo Fantasma - que me levaram a acumular pilhas de livros e zines para um limbo promocional, desculpem! Entre as coisas para divulgar ficaram edições da canadiana Conundrum Press.
Science Fiction (2013) de Joe Ollmann parece uma peça de teatro entre um casal que passa uma crise gerada após o visionamento de um filme de ficção científica que irá incutir ao elemento masculino do casal, à beira de um ataque de esgotamento nervoso, a lembrança de ter sido raptado por um OVNI, quando era jovem. Ora como podem imaginar isto irá criar um stress em Sue (a mulher) que terá de sobreviver uma situação paradoxal, por um lado não pode acreditar no rapto e por outro que não pode abandonar o companheiro de seis anos de harmoniosa relação, que está em negação, recusa visita médica e mete-se no esterco da 'net à procura de comunidade de "idênticos" raptados.
É quase uma comédia de costumes, que pelo toque caricatural do grafismo e acutilantes diálogos lembra Hate do Peter Bagge, mas também é um livro inteligente sobre relações humanas, que sete anos depois torna-se ainda mais evidente dada a esta fase de isolamento social que estamos a viver - com toda a gente a queixar-se que vão ter de viver os próximos meses com a sua cara-metade e pimponhos que meteram neste planeta todo fodido.
O final, SPOILER!!!!, é pouco conclusivo e interessante, infelizmente, ainda por cima, o final da BD é imediatamente seguido por uma caricatura do autor a desculpar-se se está a ofender ou não os que acreditam em raptos alienígenas. Tontice final que estraga o livro. Uma solução é rasgar as páginas do livro a partir da página 105.
The case of the Missing Men (2017) é um tijolo de 300 e tal páginas que invoca vários imaginários do passado (a acção para começar passa-se em 1996) e os ambientes dos tais géneros literários Pop, a começar logo pelo grafismo rigoroso de Forbes, a lembrar esteticamente alguma ilustração inglesa do início do século passado mas também muito da BD "indie" dos anos 80/90 como as de Dave Sim, Chester Brown, David Collier (Epá! Todos eles do Canadá! Curioso!!), quando isso significava trabalho árduo da técnica de traços cruzados, fundos detalhados e texturados.
É importante pensar que este livro extenso como é, com esta arte assertiva, sabendo (acho eu) que o livro / série não tenha uma grande exposição de vendas nem de traduções internacionais, que autores doidos serão estes para se dedicarem a anos de produção para a qualidade de livros assim??? É que isto não se faz desde do virar do milénio. Definitivamente não são assalariados da indústria dos "comic-books" e só tenho pena a CCC não tenha um modelo económico para lançar esta obra na sua Colecção Rubi.
O enredo lembra o cruzamento das aventuras dos Cinco com o Twin Peaks, referências mais do que gastas pelas críticas ao livro e desde logo exposta pela sua própria sinopse oficial. Certo! Só falta acrescentar o elemento fantástico que não irei revelar para não estragar o prazer da leitura. Sabem quando há livros de BD que nos levam umas boas horas de leitura mas não por verborreia? Eis um desses casos raros! Não comprem em Amazones e outros poluidores, existem ainda lojas de BD importada, é mais caro mas é mais justo, amigos!
Já referi aqui o David Collier. O seu livro Chimo (2011) estava guardado para escrever no sítio oficial da Mundo Fantasma, ia ser um artigo extenso porque este livro bem o merece, o autor também porque é daqueles que foram esquecidos com a cores histriónicas da geração "riso" deste milénio e porque tenho especial admiração pela sua obra. Também tenho de reconhecer que o esqueci durante uns anos e que só há poucos me apercebi que foi um autor influente no meu trabalho, sem eu ter dado por isso. Collier é daqueles autores que facilmente poderão colocar numa baliza entre Robert Crumb e Joe Sacco mas que tem uma voz própria, não é displicente e agressivo como Crumb nem político e formal como Sacco. É um observador, que tal como Aleksandar Zograf, sabe escrever crónicas interessantes em BD, seja sobre atletas ou sobre memórias de amigos punks dos anos 80. Pequenas estórias da História. Teve o seu próprio "comic-book" pessoal como todos tiveram direito nos anos 90, o Collier's que foi publicado em duas séries, a primeira pela Fantagraphics e a segunda pela Drawn & Quarterly. A primeira editora encomendava-lhe sempre umas BDs prá inacreditável antologia Zero Zero, foi daí que conheci o seu trabalho, destacava-se por ser o mais (o único?) sóbrio entre "animais" como Mike Diana, Richard Sala, Blanquet ou Kim Deitch. E a segunda editora publicou a maior parte dos seus livros a solo, até a Conundrum ser a sua nova casa.
Chimo (saudação inuíta) conta como Collier alistou-se no exército aos 42 anos, casado e com um filho! Aliás, realistou-se porque ele já tinha feito serviço obrigatório sem bem me lembro de BDs suas na Collier's. Porque raios este gajo fez isto!? Não foi para se armar em palhaço como o líder do CDS que só se ofereceu para motivos meramente mediáticos. É muito mais marado e interessante, Collier quis ser como o jornalista Sacco e ir para a frente de guerra no Afeganistão para participar num histórico programa artístico do exército canadiano mas o máximo onde ele conseguiu chegar nesse programa foi uma missão num barco militar e repreender uma traineira portuguesa a pescar fora dos limites de território - I shit you not! O exército não o deixa ir para uma frente de risco por questões de segurança (e de seguro). Frustrado, decide voltar prá tropa, naquela de ir para o conflito mas... fuck!, spoiler ou não, acaba por lixar o joelho nos treinos. A idade não perdoa! Isto dito desta forma não rende justiça às 130 páginas desta obra, tal a minúcia gráfica que referi em HMS e da informação en masse, desde a sua experiência militar - semelhanças e diferenças em 20 anos de vida - à história do SNS do Canadá, ufa! Tal como em Paying for it de Chester Brown, mistura-se autobiografia, ensaio e reportagem, deixando a sensação que ainda há BD excitante a descobrir caminhos.
Claro, que é daqueles obras que os parvinhos da BD vão dizer que só graças a vidas interessantes é que se faz boas BDs autobiográficas. Será? Claro que não e por várias razões, algumas poéticas que esses imbecis nunca perceberão... Mais Collier:
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quarta-feira, 18 de março de 2020
IMPUNIDADE DE MANADA
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Francisco Sousa Lobo
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segunda-feira, 16 de março de 2020
WE
Genesis P-Orridge (Neil Andrew Megson), musician, writer and performance artist, born 22 February 1950; died 14 March 2020
Talvez o artista mais comentado e admirado na nossa colecção de ensaios partiu num mundo que ficará em casa nos próximos meses a ouvir os seus discos e a ler os seus feitos.
Dia 20 de Março a sua memória seria celebrada num evento entretanto cancelado.
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