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sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Agendas

vinhetas de Holocausto de Merda, de Carlos Carcassa

Este fim-de-semana que passou, a Chili Com Carne foi enganada, tal como muitas outras editoras e livrarias pela FLIFA, uma pretensa "Feira de Livro Independente" organizada pela Junta de Freguesia de Arroios, poiso de gente muito feia de direita em Lisboa (nitidamente com problemas de consanguinidade), o que coloca em questão onde está a "Comuna de Arroios", se não passa de um marketing de vendas de T-shirts...

O ano passado estivemos lá e foi um flop (de vendas) e com uma programação bizarra - lembro-me de uma tia e as suas crias bem treinadas a debitarem clichés sobre a "leitura". Mais, os carolas que se lembraram de fazer este projecto, dois gajos simpáticos armados em fura-vidas, já se queixavam que tinham sido enganados ou que o projecto tinha-lhes fugido do controlo, que a Junta pegou nas suas ideias e modificou como quiseram. Lembrei-me logo da história do Cais do Rock, em Póvoa de Varzim, que foi roubada ao Arnaldo Pedro e a sua "cru" nos finais dos anos 90, quando a Câmara da Póvoa registou o nome do evento. Para além de não ter feito mais nada com isso - e era um evento importante - impossibilitaram também ao Arnaldo de mudar de poiso se quisesse. Para quem ainda acredita no Estado...

Mas os carolas decidiram tentar outra vez! E novamente foram engrupidos - mas aceitaram de certeza o pagamento pelos seus serviços - e arrastaram umas série de editores que não concordavam com a programação, divulgada em cima do joelho, planeada maquiavelicamente, de forma a colocar no último dia e na última hora, uma conversa do decadente Pacheco Pereira com o Jaime Nogueira Pinto, um bostinha da extrema direita.

As Insurgentes foram as primeiras a recusar a participar no evento. O restante das grande maioria - claro que os cãezinhos da Junta disseram para a imprensa que só três editores é que boicotaram o evento - fechou as mesas por volta das 17h como forma de repúdio a ter presente um nazi num evento que se diz "independente" - mas que fez tudo para meter pessoas televisivas a promoverem o seu cuzinho ou que, pior, armou estas provocações infantis. Por isso, FLIFA nunca mais! Vão-se foder, palhaços!!!

Já no passado, numa Laica nessa mesma Junta - com regime PSD na altura - a coisa tinha sido amarga. O sucesso do evento foi estrondoso (de público, vendas, programação, tudo) mas o merdinhas do Presidente da altura, depois do fim do evento, só foi capaz de dizer isto: "não havia editoras de Direita", seja lá o que isso quer dizer...

Também neste mesmo fim-de-semana, recebemos um email a dizer "Remover" da Agenda Cultural de Lisboa. Foi o que fizemos imediatamente, tiramos da nossa "mailing-list", afinal, nunca foram capazes de divulgar um evento nosso ou uma publicação nossa. O "email do "remover" até era sobre o nosso jornal Carne Para Canhão, que só tem sido distribuído em Lisboa. Belo serviço público, putedo!

E já agora, em Agosto, andámos por Braga e acedemos à agenda do Theatro Circo. Na capa estava os nossos amigos dos Unsafe Space Garden (merecido!) mas reparei que de repente havia um suplemento na agenda intitulado O Dramatista, subintitulado O fanzine do Theatro Circo (o "bold" é deles!). Fanzine? Que me lembra, um fanzine nunca poderá ser editado por uma instituição (pública ou privada). Que eu saiba um fanzine é feita por pessoas que fazem por amor a uma causa e com poucos recursos. Que tenha reparado, um fanzine é uma publicação que edita informação pouco conhecida pela população, que se esforça em criar conteúdos originais e não apenas apenas reproduzir fotografias promocionais dos músicos que vão tocar num teatro público... Tudo isto cheira a a esturro. 

Em primeiro porque já devem ter reparado, nos últimos anos, como os programas de Culturgest, Gulbenkian ou vários teatros lisboetas, não poupam os tostões em fazer destas publicações hiper-luxuosas, cheias de brilhantes efeitos gráficos como vernizes localizados, cortes, papeis luxuosos e diferentes entre si, com pesadas gramagens, cores por todo lado mas também douradinhos e fluorescentes... Quem sou eu, editor pobreta, para criticar como as instituições gastam o seu dinheiro? Quem sou eu para pensar que um designer deve receber tanta importância versus os artistas dos programas? Mas não deixo de achar estranho, tal como as publicações das Juntas já agora, que haja tanto dinheiro para estes objectos gratuitos, enquanto que nós pequenos editores nos custa tanto fazer os nossos livros. Será que é assim que as Juntas e instituições pagam favores às empresas de comunicação por terem trabalhado nas  suas campanhas eleitorais? No caso das Juntas de certeza que é isso, com as instituições culturais, não sei, pode ser só corrupção e senilidade dos gestores deste capitalismo tardio?

Em segundo, já não basta a direita roubar constantemente as ideias dos radicais de esquerda ou anarquistas, as suas formas de luta social ou as suas manifestações contraculturais - por exemplo, o Metal cristão -, como ainda por cima, temos agora instituições públicas a quererem ser "cool" usurpando a cultura alternativa com "fanzines-agendas" ou "feiras de edição independente". Se com a GALP ou EDP vive-se o "greenwashing", nos museus de arte contemporânea é o "artwashing", então é melhor cunhar já um "zinewashing" para estes tempos manhosos que vivemos...

domingo, 20 de outubro de 2024

FLIFA 2024


Regressamos à FLIFA por duas razões: porque os nazis da Junta foram expulsos e porque a BD Amadora cagou em nós - é verdade que temos a capacidade da omnipresença mas dá trabalho, assim vamos mais relaxados para Arroios que é sempre mais perto de casa!

ENTRADA LIVRE E ATIVIDADES GRATUITAS 

Sexta-feira (18/10): 17-21h Sábado e domingo (19-20/10): 11-19h

+ info aqui

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Co.Mix (relatório 2025 das independências)


Foi bonito de se ver. O governo PSD fez merda com as Bolsas de Criação Literária, nomeadamente com as de BD e Ilustração para a Infância. Ao contrário do que aconteceu quando em o PSD deu cabo delas em 2003, desta vez houve uma reação da parte dos vários agentes da cena. Foi escrita uma carta aberta à Ministra da Cultura com centenas de assinaturas de autores, artistas, editores, formadores, curadores, jornalistas e quejandos, o que nitidamente fez o Governo mudar de atitude, voltando
atrás, remexendo tudo para ficar mais ou menos igual, desorientando as instituições subalternas (DGLAB) e ainda poupou uns cobres - uma vez que as bolsas em 2025 não foram atribuídas devido às referidas trapalhadas. Esta gente da política sabe que a Cultura é importante para o "show off" do capital simbólico, não haja ilusões sobre isso, talvez em 2003 não sabiam disso embora tenha visto uma vez o "Cherne" numa premiere do Manoel de Oliveira no CCB, sabe-se lá porquê... 

Curioso foi quem não assinou a tal carta: Catarina Valente - directora do maior certame de BD no país sendo que maior não quer dizer melhor - e Luís Louro que comemorou 40 anos de carreira, tendo sido este ano galardoado com várias medalhinhas do aparelho - é um autor perfeito para o sistema, especialmente de Direita, que quer espectáculo e inconsciência política. Realço um facto para não diabolizar os direitinhas em exclusivo, afinal a "gerigonça de Esquerda" não mexeu uma palha para que Fernando Relvas não morresse na miséria... 

É claro que o Louro nunca se sujeitou às Bolsas porque exige unhas que ele não tem, tudo bem, desculpa-se o idiotita, agora a Directora da BD Amadora estar ausente só mostra que, ou é uma menina bem comportada ou é ignorante - ou as duas coisas, porque não? Ambas personalidades gostam de se distanciar da maralha, armados em aristocratas da treta e são bons exemplos das contradições da BD portuguesa. Louro vende pouco mais do que qualquer outro autor português de BD (ou até menos se pensarmos que a Chili Com Carne tem reeditado vários títulos nos últimos anos) e a BD Amadora desde a saída de seu director Nelson Dona tem piorado na programação e no relacionamento com os actores da cena da BD. Apesar disso, ambos sabem usar os seus passados históricos para alavancar facilmente os seus nomes neste meio em que falta referência, reflexão e crítica. Ambos estão cada vez mais distantes do que se escreve nos jornais - como foi a capa do Ílpsilon / Público de 26 de Setembro - ou na TV - programa Pessoas que Desenham a Liberdade (RTP 2) de António Jorge Gonçalves que entrevistou vários artistas gráficos como José Feitor, Ana Margarida Matos, Ana Biscaia, João Fazenda, Amanda Baeza,... - ou do que se mostra em eventos como o WC/BD (que acabou este ano), Story Tellers, Flexágono (Festival Fólio, Óbidos) ou a Miragem que foi sem dúvida o evento do ano em relação à BD!

Comecemos por aí, a Miragem foi mais do que um mero mercado de edições independentes - que aliás proliferam pelo país: Autónoma (Almada), FLIFA, Raia, Parangona (Lisboa), Feira da Alegria, Mercado do Contra, Perímetro (Porto), Festival de BD e Fanzines de Alpiarça, Feira do Livro de Arte (Coimbra) e FLOP (Açores). Teve workshops, conversas incisivas (invés das punheteiras que acontecem nos festivais de BD), apresentou espetáculos que misturavam desenho e música - sem ser aquelas xaropadas dos "concertos desenhados" -, e apresentou a exposição Ponto Ponto Ponto que ultrapassava a mera prancha na parede. Durante dois dias de Maio, sob a batuta do colectivo A Goteira, na Biblioteca de Marvila, a civilização reapareceu na BD portuguesa. Uma ilusão, claro, antes e depois, a merda foi omnipresente.

Ainda assim o Festival de Beja recebeu Ana Margarida Matos e Amanda Baeza (finalmente!), a Tinta nos Nervos teve exposições de Miguel Rocha, Diniz Conefrey, Alexandre Piçarra e Beatriz Brajal - estes dois últimos no âmbito dos concursos Toma lá 500 paus e faz uma BD! de 2024 e 2025 respectivamente. A Bedeteca do Porto organizou a colectiva Próximos Capítulos com trabalhos de Carlos Pinheiro, Daniel Silvestre, Marco Mendes, Nuno Sousa e Sofia Neto.

Foi um ano pobre na internacionalização mas Ana Margarida Matos, Hetamoé e Ivo Puiupo participaram na antologia letã š! e Mao fez um mini kuš!. Matos e Bruno Borges participaram na revista eslovena Stripburger - aliás, o Bruno já faz parte da casa! O livro Andrómeda do Zé Burnay teve uma edição em Espanha pela Mondo Cane e o Mangusto de Joana Mosi voltou ao Canadá mas agora em língua inglesa - o livro originalmente apareceu primeiro lá em francês e em 2023. Também as participações em eventos internacionais foram mais reduzidos mas a Chili Com Carne esteve no Crack (salvo seja) em Roma e Viñetas desde o Atlântico n'A Corunha, Francisco Sousa Lobo na Feira do Livro de Leipzig, Burnay no Graf (Barcelona), Gonçalo Duarte, André Pereira e Bia Kosta no Autobán (A Corunha) e Ana Margarida esteve por Bruxelas na BD Comic Strip e na residência do Camões (salvo seja). Pedro Moura também foi ao Texas num projecto universitário com a š!, que ajudou a coordenar.

O contrário também é verdade. Tirando a presença do espanhol Miguel Ángel Martin na LouriBD e do grego-belga Ilan Manouach na Casa do Comum, não houve mais ninguém estrangeiro interessante para nos visitar, a não ser versões baratas da Marjane Satrapi e outros sucedâneos que se publicam neste mercado sem rasgo e amorfo que até já enjoa de tanto livro do Junji Ito. Finalmente publicou-se o Alack Sinner de Muñoz & Sampayo - se ignoramos o jornal Lobo Mau em... 1979 - pela Devir, que reeditou também o Silêncio de Didier Còmes (1942-2013) outra vez a preto e branco e é assim que deve ser impresso! Na colecção 25 Imagens a Levoir e o Público assaltaram à descarada as bolsas dos leitores, apesar dos bons nomes dos participantes: Tardi, Thomas OttNina Bunjevac e Joe Pinelli - lembram-se quando a Polvo era boa em... 2002? Sobra Flash Point de Imai Irata, uma parceria da Chili Com Carne e Sendai, um autor japonês com teor político, como tal, desconhecido e desafiante. Ficámos à espera do HP de Guido Buzzelli (1927-92) com argumento de Alexis Kostandi, pela Escorpião Azul, anunciado em Março mas que só sairá agora em Janeiro de 2026.

Dentro do atrasos na Chili somos culpados de não cumprir as datas redondas, a reedição da comemoração dos dez anos da edição original da Plana Press (e finalmente em português) de Propaganda de Joana Estrela não foi em 2024 mas este ano. Tal como reedição de Mr. Burroughs de David Soares e Pedro Nora não foi feita este ano - para comemorar os 25 anos da edição original da Círculo de Abuso - mas sairá em 2026. A nível de reedições ainda de assinalar a colecção da série Pós-Tugal de Diogo Barros, em formato zine auto-editado - e aproveitando a deixa, houve uma nova página da série n'A Batalha : Jornal de Expressão Anarquista.

Soares regressou com desenhos de Sónia Oliveira com o livro Atrahasis, pela Kingpin,tal como a revista Umbra (OK boomer!), o projecto Magma Bruta com How to kiss a crying man da ex-jugoslava residente no Canadá Andrea Laukic, o "Gato Mariano" aos zines (para comemorar 10 anos de existência), Filipe Felizardo com o Bestiário dos Rios e Sim Mau com o zine Super Mum. Continuou a colecção O Filme da Minha Vida, o jornal Carne Para Canhão, os zines Mesinha de Cabeceira e Olho do Cu e títulos vários de Gonçalo Duarte e Samir Karimo. Começou o zine Enfarta-Brutos sob batuta de Tetrateles. Não sendo BD, é de se referir sempre as gráficas Imprensa Canalha, Noturno Azul e Opuntia Books. Destaques para as edições de autor de Pats - especialmente o título Sortido - e claro o Rei da BD Rudolfo da Silva que fez uma obra-prima intitulada Fusão Dimensional na sua Palpable Press, e que trata da gunaficação da realidade. É o livro do ano!!! É por isso que este "post" abre com a imagem da capa do Fusão, dah!

Giro foi falar com a Pats na Autónoma, em que no seu mini-zine Eye-volution publica uma BD-ensaio sobre o seu estilo gráfico. Estava sem óculos quando estava a comprar o zine e vi algures numa vinheta referências aos grandes monstros da BOA BD: Julie Doucet, Robert Crumb, Lynda Barry, Jim Woodring, e... 

- Espera não estou a ver bem este, quem é este?

- Rory Hayes...

- O quê? [além de começar a ficar pitosga também começo a ficar surdo ou não perceber inglês, cóf cóf cóf]

- Rory Hayes!

- Ah!!!!!! Mas... isto são tudo excelentes referências!! Como conheces esta gente toda? Os teus pais tinham uma boa "bedeteca" em casa?

- Não, descobri na 'net...

- A sério!? Parabéns! Tiveste uma sorte no teu algoritmo!!!

"Sorte"! Num país em que as editoras não publicam livros de referência - ou se publicam é vómito absoluto como se viu com os livros da Escorpião e Polvo deste ano (sobre a carreira do Louro, as leituras e escritas inócuas do evangelista Pedro Cleto e algo sobre da série Astérix relacionado com Portugal, WTF!?) - alguém conseguir "sair da linha" e encontrar os verdadeiros e grandes artistas que também raramente se publicam cá é mesmo um "random" do caneco! Esta autora não ter ficado nas "mangacadas" ou nos "comics" dos fachos gringos, é mesmo algo de agradecer à entidade divina da "Sorte"! Resta saber o que Pats irá fazer com este maná de informação de futuro, se conseguirá alguma vez algo poderoso e original. O Sortido, colectânea de comix curtos, aponta já para aí. Que ela invista mais e melhor em 2026 é tudo o que lhe peço!

Fechando aqui a secção da referência: a Agenda Cultural do Porto deu tempo de antena ao Rudolfo e Goteira num especial BD (melhor que o paspalho do Gross na Agenda de Lisboa em 2021), reeditou-se o meu texto-metade-de-livro Punk Comix com actualizações e foi feita uma mostra no Festival de Alpiarça, editou-se também um texto da minha intervenção sobre BD do BIG de 2023 no catálogo deste ano (que espero a quem o ler lhe ajude a encontrar novos caminhos na BD), Mosi foi entrevistada no sítio em linha inglês Broken Frontier, publicam-se textos e resenhas no jornal Carne Para Canhão, continua o trabalho de recuperação da imprensa underground nacional no blogue My Nation Underground e por fim houve umas entrevistas em linha com Rodolfo Mariano (por causa d'O Filme da Minha Vida) e Diniz Conefrey por causa da exposição retrospectiva na BD Amadora, curada por António Jorge Gonçalves, na Galeria Artur Bual. Foi o ano Conefrey sem dúvida, ainda se acrescenta mais duas exposições, uma Lisboa na já referida Tinta nos Nervos e outra na Bedeteca do Porto, ambas no âmbito do seu último livro Estância do Sino Coberto, pela Quarto de Jade. Uma verdadeira comemoração de carreira que não merece medalhas histéricas mas serenidade artística.

Por fim, os que desapareceram em 2025. Logo em Janeiro faleceu Arlindo Fagundes, figura mais conhecida pela olaria ou pela ilustração, no entanto foi dos poucos autores portugueses a publicar um livro de BD nos anos 80 e talvez o único a abordar temas contemporâneos ou sobre a realidade portuguesa em formato de livro - claro que havia mais autores, como Relvas, com estes temas mas eram publicados nos jornais (que se deitam fora depois da leitura) ou nos fanzines (difíceis de encontrar). Era um Comunista convicto, não teve direito a condecorações, embora a Biblioteca Municipal de Alcântara tenha feito uma boa exposição retrospectiva da sua obra, entre Maio e Junho. Faleceram autores de peso como norte-americano Jules Feiffer - que mudou a escrita da BD - e egípcio-francês Édika - um badalhoco de peso. Menos conhecido e mais gráfico que narrativo, também faleceu o francês Y5/P5 que influenciou a malta d'A Vaca que veio do Espaço nos anos 80 quando passou por Lisboa. Longe da BD mas que puserem os seus dedos uma vez ou outra nela, morreu o realizador David Lynch e o pintor Eduardo Batarda, cujos respectivos cão raivoso e "pinguim cego" ainda são monumentos por tratar. O jazzman e amigo Sei Miguel também nos deixou. Não fez BD mas algumas imagens que queriam ser isso, publicadas em 2017 pelo Homem do Saco / Marmita Gigante, sobretudo mostrou que gostar de BD é saber ser exigente e crítico, coisa que os agentes que trabalham na cena não o são...

Que 2026 seja melhor! Bom Ano Novo!

Marcos Farrajota

 

desenho de Pats in Eye-volution

terça-feira, 4 de outubro de 2022

sexta-feira, 3 de maio de 2024

ccc@culturismo+anal


 

Neste fim-de-semana, uma selecção de títulos da Chili Com Carne estarão na analógica (uma feira de música organizada pelos mesmos tipos que foram enrabados pela Junta de Arroios na FLIFA, se calhar a Junta não tem fachos na música para meter no programa) nomeadamente na banca da Nariz Entupido; e estaremos também no Culturismo Hardcore, evento de jogos indies com um coche de tudo de cultura nerd indie - O Rei da BD portuguesa e o Culetivo Feira estão metidos nisto! Ah vai ser na loja coqueluche do Porto, a Socorro!

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Chili vai com todas!

 


Vai ser um fim-de-semana alucinado! Estaremos na FLIFA com todo o nosso catálogo, na Colina das Artes só com o nosso catálogo de BD (dias 13 e 14 no Mercado de Santa Clara) e na X Necromancia Editorial (na comemoração dos 20 anos da Lovers & Lollypops nas piscinas de Barcelos, dia 13) com uma selecção para Hispters! 'Pera lá ainda existe dessa gente?

 


 

domingo, 5 de janeiro de 2025

Chamar os bois pelos nomes (relatório zines + "indies" 2024)

Pouco a pouco vai-se lambendo as feridas da inércia e ignorância das editoras profissionais e das instituições públicas. É no mundo dos "indies" que se passam as coisas que interessam, mesmo quando a sua dimensão tão consegue influenciar a esfera pública. Azar do caralho...

Ú-quê!?

Começo com QEQTPQE?? (imagem do lado) que é uma antologia de um novo colectivo do Porto - é lá que aparece sempre as boas novas! - a Goteira. Foi o evento do ano na BD portuguesa... Para mim, significa estar menos sozinho contra a ignorância que grassa no meio da BD. (...) vou enaltecer o gesto das três editoras-autoras que meteram mão à massa, lançaram uma convocatória e descobriram artistas novos (...) Os "novos" significa que são novidade para o "mercado". Cada um deles tem os seus vocábulos e estéticas, mais inspirados ou menos, com influências mais óbvias que outras, pouco interessa! O que interessa é que estão aqui 132 páginas impressas (...) completamente diferentes do que se fez aqui na Chili e até no passado portuense (...) Que apareçam mais projectos assim! 

Dignos de novidade: Guarda-Livros de Teresa Arega, pelas Edições da Ruína, A Armação de Daniel Silvestre (sem o ter visto ainda mas acredito que deve ter qualidade) e os minizines de Tetrateles, que são um verdadeiro "work-in-progress" artístico pessoal. 

"O Gato Mariano" voltou ao papel para compilar a primeira parte da sua "graphic novel" (ai!) enquanto um tal de Michi compilou a sua série Meliel, um manga com desenhos super-poderosos. 

Continuaram projectos das editoras Chili Com Carne, Erva Daninha (zines), Imprensa Canalha, Opuntia Books (ambas gráficas) e Sendai (BD japonesa), os títulos O Filme da minha vida, O Hábito faz o Monstro, Invasão, Mesinha de CabeceiraOlho do Cu e Shithole, e foram publicados vários títulos por André Coelho, Gonçalo Duarte e Rudolfo.

Maldito Aquele Lugar (M.A.L.) de Rodolfo Mariano foi recuperado em formato livro, ou seja, os três zines publicados viram "bronze" na sua segunda vida. O que é bom tem de ser republicado para não ser esquecido em meia-dúzia de fotocópias para meia-dúzia de curiosos. Há boa produção em Portugal e ela precisa de ser mais visível, como é óbvio. Ora as editoras especialistas e profissionais parece que estão sempre de olhos vendados. Quando não estão atiram-nos areia para os olhos, como aliás se pode testemunhar que numa ano de muita oferta no mercado livreiro. Dessa fonte infinita a jorrar, só se aproveitou a segunda versão de Here / Aqui do norte-americano Richard McGuire, uma obra tão importante na BD mundial que a editora diz isso mil vezes na sua nota de imprensa - nesse caso não se percebe é porque demorou 10 anos a ter publicação portuguesa. Claro, que só saiu agora devido ao segundo filme que adapta esta obra estar nas salas de cinema! A hipocrisia é um dos maiores luxos já diziam os outros. Dos horrores que atormentam as estantes de BD destacamos, sem ainda não ter lido, os dois volumes de Chumbo do franco-brasileiro Matthias Lehmann, depois de estar desaparecido da edição portuguesa durante 24 anos - a Polvo cagou nele? O resto pouco interessa, esticando a corda há o Zodíaco, as memórias de Ai Weiwei adaptadas pelo casal graco-italiano Elettra Stamboulis e Gianluca Costantini (que no passado colaboraram connosco em vários projectos) mas cujos nomes eclipsaram dos registos do livro devido à gordura chinesa... "Quatro" livros de boa BD pelas "grandes"? Nada mau, já foi pior no passado... embora, percentualmente continua tudo na mesma, não?


Amorcito, Kuti & Kus!

Não é uma letra das "Mata-Ratas" mas a prova viva que a BD portuguesa continua afirma-se além fronteiras. O galego fanzine Amorcito publicou André Pereira, a Dileydi Florez saiu na revista finlandesa Kuti, Miguel Santos na revista sueca C'est Bon, Carlos Carcassa e Viviana Coelho na antologia Xorumin do Brasil, Bruno Borges duas vezes na revista eslovena StripburgerAna Margarida Matos no fanzine neerlandês Wobby; juntamente com Amanda Baeza e Daniel Lima foram publicados nas antologias letãs Kuš!. Desta mesma editora Sara Boiça teve direito a um mini kuš! 

Matos viu o seu Hoje não publicado nos EUA (e reeditado com nova capa em Portugal - imagem do lado), Carlos Carcassa viu uma colectânea publicada na Mansion House (França), Nunsky teve reeditado em capa dura Erzsebet no Brasil (Zarabatana), Xavier Almeida um livro inédito pela Belleza Infinita (Espanha) e na Colômbia saiu Babelikon, uma colectânea de trabalhos de André Coelho, pela Vestígio.

O colectivo Magma Bruta foi ao Graf (Barcelona), Rui Moura ao Crack (Roma), a Chili ao Tenderete (Valencia) e Vinhetas sobre o Atlântico (A Corunha) - com uma exposição a "comemorar" os quase 30 anos de existência; a Imprensa Canalha ao Tenderete e Autobán (A Corunha) e a Umbra também foi ao Autobán. Francisco Sousa Lobo esteve na Alemanha a convite do Camões. Matos e Ivo Puiupo estiveram com trabalhos representados em Praga, ao Festival Lustr com direito a entrevistas no catálogo do evento - sendo que Matos estve lá presencialmente. Ah! E o Filipe Abranches foi à Feira do Livro de Buenos Aires a representar Lisboa, cena oficial e tal...


Culturismo Hardcore

Foi um ano rico em "mercado dos indies": a FLIFA (como deve ser desta vez, sem direitinhas a foderem o esquema), Parangona (aliada à FEIA da música), Raia e Vieira da Silva em Festa (Lisboa), Feira da Alegria e Perímetro (Porto), Livindie (Arcos de Valdevez), Feira do Livro de Arte (Coimbra) e o Festival de BD e Fanzines de Alpiarça

Mas o que se fez de bom este ano foram duas edições do Culturismo Hardcore (imagem ao lado) na loja Socorro (Porto) que é o "maior evento de nicho" de cultura Pop: videojogos, BD, música feita por pessoas reais e não por palhaços profissionais. A última edição até se dedicou à BD e onde se viu uma divertida performance de Luís Barreto e Bugs a interpretarem diálogos da BD Partir a Loiça (toda) e com intervenções musicais (das bandas que entravam na história). Genial! Para além disso, o culturismo materializou-se em dois números do seu fanzine homónimo. E falo de um fanzine no seu sentido original: obra de vários autores, fãs de cultura Pop à margem e com notícias de situações que nenhum media oficial seria capaz de registrar, como a visita do tradutor de BD japonesa Ryan Holmberg a Portugal. Numa Era de zine washing, fakezines ou post-zines este é o único fanzine TRVE!!!


1000 paus pró galheiro

Barreto foi aliás o Gajo da BD do ano. O tal Partir a loiça foi o zine mais caro de sempre! Editado como mais um número do Mesinha de Cabeceira e publicado entre a Chili Com Carne e o Culetivo Feira, custou 1000 paus (porque foi o vencedor do concurso da Chili do ano anterior, Toma lá 1000 paus e faz uma BD!) mais os custos de impressão e de um CD que acompanhava a edição. Foram feitos 200 exemplares e com um PVP a 10 Euros nunca se conseguirá recuperar o investimento. É esta dose de loucura que se precisa... Barreto ainda fez prá Erva Daninha o Lado A / Lado B. Só mostra que o pessoal do Rock tem mais pica do que os da BD!


Família

A Aldeia Global confunde tudo. Então temos o gringo A Coxa Eléctrica a fazer fanzines em Lisboa, enquanto que o brasileiro Alex Vieira, residente no Porto faz regressar o mítico Prego - cheio de autores do outro lado do atlântico e com Carcasa e Rudolfo como representantes 'tugas. A residente em Buenos Aires Júlia Barata viu o seu livro Família (imagem ao lado) a ser traduzido em português, para a colecção RUBI - ao mesmo tempo que o seu trabalho é rejeitado pela BD Amadora para exposição.

O francês Charles Berberian regressou a Lisboa para falar do seu último livro (inédito em Portugal, claro), a luso-descendente francesa Madeleine Pereira veio mostrar o seu livro sobre os emigrantes portugueses que davam o salto nos tempos do fascismo - a ser editado em português -, e o norte-americano Christopher Sperandio voltou para mais uma exposição. Tudo isto na Tinta nos Nervos. Para quê os festivais de BD?

Sim, é verdade que Tardi e Antoine Cossé estiveram em Beja, e com exposição. E ao que parece estiveram na Amadora a sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim, Lehmann e o brasileiro Marcelo D'Salete. Todos estes artistas fazem BD "de intervenção" ou de denúncia social. Do que adiantou? Deram autógrafos a cromos da BD e mais nada!? Algum deles foi entrevistado nos jornais ou na TV? Ou até em sítios em linha especializados de BD??? Pelo menos o Sperandio voltou a ser notícia do decadente Diário de Notícias... Isto para dizer que para os Festivais terem lá "temas contemporâneos" ou uma javardice Pop qualquer é o mesmo. Não é a partir daqui que eles farão qualquer divulgação e/ou expansão do medium para além das suas paredes quadradas. Talvez seja por isso, que haja uma nítida fuga de exposições para outros espaços e que sejam estes que realmente impressionam ou que interessam. Aliás, quando um festival de BD cobra 6 euros para vermos fotocópias em molduras, o que dizer desta fatelada toda!?


Deeptime

Sendo um ano de comemorações do 25 de Abril houve um foco em retrospectivas de artistas gráficos que até criaram uma iconografia desse momento histórico. Excelente a de João Abel Manta, no Palácio Anjos em Algés. Também houve do grande cartoonista António (Vila Franca de Xira), Henrique Ruivo (1935-2020) na Tinta nos Nervos, Cristina Sampaio (Casa da Imprensa, Lisboa) e Fernando Brito (Clube do Desenho, Porto).

Lucas Almeida teve uma exposição de pintura na galeria Passevite mas também mostrou os originais de Contos do Campo. No meio de Arte à séria estavam páginas do Muchechoo : Trump Card de Rudolfo na exposição colectiva Singsong na ZDB. Sem medos!

Continuaram os ciclos de programação do WC / BD (com destaques para Rodolfo Mariano, Amanda Baeza, 40 ladrões, Mariana Pita e Ana Maçã), Storytellers (que acabou este ano) e Flexágono sob a batuta de Pedro Moura para o Festival literário Fólio (Óbidos) com trabalhos de Alexandra Saldanha, André Coelho, António Jorge Gonçalves, Filipe Abranches, José Smith Vargas, Maria João Worm, Miguel Rocha e Miguel Santos.

A mais nova Bedeteca - e também a mais velha - que abriu no Porto começou a sua programação, dela destacamos as exposições de Nunsky e Daniela Duarte. Havendo um historial detrás dos responsáveis pela Bedeteca do Porto - incluindo o saudoso Salão do Porto e a revista Quadrado - espera-se mais e sempre melhor desta instituição em progressão..

Por fim, o melhor, uma retrospectiva de Francisco Sousa Lobo na galeria da escola Ar.Co. intitulada de PAPER WRAPS ROCK (imagem ao lado) e a colectiva Deeptime no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, uma parceria entre a rede Icon-Mics e o CIUHCT, onde participam Amanda Baeza, Ana Maçã, André Pereira, Bruno Borges, Cátia Serrão, Daniel Lima, Hetamoé, Mao, Ricardo Paião Oliveira, Rudolfo e os espanhóis Begoña García-Alén, Irkus, Martin López Lam e Roberto Massó. Em ambos casos houve um cuidado para que houvesse uma sobriedade e pensamento expositivo das pranchas - ou seja, não houve macaquices de cenografias kitsch a enfeitar os espaços como se fazem nos festivais de BD. Sendo alguns destes nomes os melhores artísticas contemporâneos portugueses é giro topar que foram parar a outras instituições mais sérias que as "bedófilas", porque será? (não é um pergunta, no máximo é apenas retórica)


Massa

E volto a bater no ceguinho. Todas as maleitas acima referidas revelam a falta de cultura na Banda Desenhada, transversal às instituições públicas ou empresas privadas. De resto, falar de BD como se fala de música ou cinema, continua a não acontecer. Aliás, até foi um ano em que acho que não houve nada na imprensa que fosse relevante - um artigo ou entrevista, por exemplo. No máximo as típicas resenhas com os caracteres bom contadinhos nos sítios do costume. 

Naquilo que é "especializado" pouco a declarar, destaque para as entrevistas a Miguel Rocha, Mosi e Nunsky no sítio em linha H-Alt. De continuar a recomendar o blogue My Nation Underground, claro está! E da minha parte, farto do Bordalo Pinheiro, fiz uma intervenção sobre Carlos Botelho (1899-1982) na Casa da Achada. O Quarto de Jade também fez uma apresentação na Casa Fernando Pessoa sobre o seu trabalho mas só assisti à excelente conversa intimista de Maria João Worm na STET, sobre o seu universo artístico que passa pela pintura, BD ou caixas de luz sem distinção ou hierarquia entre elas, foi lindo! Isto ao contrário da choradeira que foi a conversa para comemorar os 20 anos do blogue Ler BD. Apenas lastimável - como três pessoas que são críticas profissionais só falaram de lugares comuns, e pior ainda, de autores comuns. Para esquecer mais valia o Pedro Moura ter trazido uns copos e charros. Em compensação, organizou o livro Ilan Manouach in Review - Critical Approaches to His conceptual Comics, livro académico pela Routledge, sobre a obra de Manouach - em que encontramos um artigo pela Ana Matilde Sousa.

Já referi aqui a visita do tradutor Holmberg, tendo ido à escola Ar.Co e Tinta nos Nervos (quantas vezes já escrevi este nome neste texto!?) para  educar-nos sobre grande o artista japonês Yoshiharu Tsuge (inédito em Portugal, sim claro) e a emblemática revista Garo (1964-2002). Thanks man!

A Bedeteca de Lisboa continua em trânsito na Biblioteca de Marvila, devido às trapalhadas da Junta de Freguesia dos Olivais - que pela segunda vez teve a sede a ser revistada pela PJ! Já lá vão três anos num bairro inacessível de Lisboa que está aquela que foi uma instituição que deu à BD portuguesa brilho. Em compensação no Porto abriu uma nova Bedeteca, esta será a primeira que é privada (todas as outras são municipais), financiada pela loja Mundo Fantasma e recupera o acervo da primeira Bedeteca deste país, criada em 1990 pela Comicarte (que organizou o Salão do Porto!), um clube de BD da Comissão de Jovens de Ramalde.

Por fim, instiguei a antologia Massa Crítica, talvez a primeira que se fala de BD em BD - à la Scott McCloud, topam? - que aproveita as participações portuguesas da antologia australiana Opposights (Silent Army, 2021), ou seja, Amanda Baeza, Bruno Borges, Cátia Serrão, Gonçalo Duarte, Hetamoé, Mariana Pita, Pedro Burgos e Rui Moura; e junta novos discursos de André Lemos, André Pereira, Lucas Almeida, Miguel Ferreira, Miguel Santos e Rodolfo Mariano. Cada um à sua forma exprime sobre as suas experiências na cena, explora as formas da BD ou escreve ensaios sobre BD. Alguns são muito sérios, outros hilariantes, e há aqueles que disfarçados de avatares dizem muitas mais verdades que dezenas de blogues da treta... Tinha de ser publicado em português para combater a ignorância! Feito!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Relatório 2023 sobre zines e edição independente

Comecemos por um pequeno acto de coragem, uma singela mas acutilante BD digital de Tiago da Bernarda com o seu habitual Gato Mariano e Bruninho (és o maior!) publicado seu instagram sobre a guerra em Gaza - aliás, um outro Bruno até explica que o desenho ainda é arma contra a estupidez e controlo digital - uma vez que a falta de coragem grassa pelo mundo, com medo de perder a sua continha de rede social.




Os últimos anos do mercado de BD em Portugal tem sido um avalanche de mediocridade porque a BD - ops! perdão, a "novela gráfica" - está na moda. Lá fora o mesmo acontece, claro mas há muito mais oferta (e melhor), até porque foi uma construção de várias forças e de décadas de trabalho que permitiu que agora a BD seja omnipresente em qualquer "nicho de mercado" e que tenha oferta para "todos os gostos".

Cá não foi assim nem os resultados serão os mesmo. As editoras profissionais generalistas são absolutamente ignorantes nesta área, publicam as cenouras que os agentes literários internacionais lhes abanam: adaptações literárias em primeiro plano, seguida de biografias ou adaptações históricas, e por fim, "Manga" da sexta divisão e feito por ocidentais medíocres... aliás, tudo o que foi referido, tirando uma excepção ao outra, é perfeitamente medíocre! De realçar, apesar de ser um livro menor na sua carreira, O Segredo da Força Sobre-Humana de Alison Bechdel, graficamente pouco atraente e com algumas piadas parvinhas que estragam o peso autobiográfico da obra, não deixa de ser interessante ver a Relógio D'Água a sair do seu próprio catálogo imundo de adaptações literárias que criou ao começar a publicar "novelas gráficas".

Os editores especializados, tem conhecimento e "savoir-faire" mas o seu mau-gosto e pensamento reacionário, fez que ignorassem artistas que rotulavam de "alternativos" - ou pior ainda: basta ser "artista", que é palavra feia no meio bedófilo! - e que ficaram grandes nos últimos anos, ou seja, agora custam mais caro de quando eram "alternativos" e menos acessíveis como pessoas para criar relações entre autor e editor. É óbvio que se for a primeira vez que se publica um livro da Julie Doucet ou do Adrian Tomine, custará vendê-los ao público português que não os conhece - isto deveria estar entre aspas, pois há muita gente que conhece estes autores porque compram edições noutras línguas! Será mais fácil editar um Tardi - e foi das poucas coisas de jeito que saíram no ano passado, falo de Elise e os novos Partisans, com Dominique Grange, pela Ala dos Livros - do que o Yvan Alagbé. Isto apesar de todos os autores aqui referidos terem passado por Portugal, em presença física e com exposições de grandes festivais de BD... Também é fácil à Devir publicar Junji Ito, Naoki Urasawa ou Taiyo Matsumoto, quando até os putos da província tem t-shirts deles ou já viram os Animes na 'net, do que publicar os irmãos Tsuge. Gostamos destes autores, claro, mas falta audácia.

É neste caldo de inconsistência que se circula, por cá. Mas há mais inconsistências, mesmo no meio "alternativo"...


Internacional

Chili Com Carne esteve no Festival de Angoulême, Autobán (A Corunha) e Fexti (Badajoz). A Magma Bruta no Graf de Barcelona e a Oficina Arara no Novo Doba (Belgrado). Parece que todos  se baldaram ao Crack (Roma), talvez porque vieram de lá doentes em 2022?

Franciso Sousa Lobo participou na revista finlandesa Kuti e na letã Kuš!, nesta última também entrou o Ivo Puiupo. Na colecção mini kuš! dessa mesma editora, saíram os livrinhos de Ana Margarida Matos e João Fazenda. Pela Eslovénia, comemorando os 30 anos da revista Stripburger, participaram Bruno Borges e Filipe Abranches na antologia Dirty Thirty. Matos e Sofia Neto entraram no fanzine espanhol Soñario e Ana Maçã no dreamzine #2, ambos do projecto ElMonstruoDeColoresNoTieneBocaAmanda Baeza voltou em forma internacional estando na antologia suiça «autre chose» com a "creme de la creme" da BD mundial e ainda no fanzine Amorcito da Galiza. Foi de lá também que veio o álbum Zeca Afonso – A balada do desterro, com texto da galega Teresa Moure e desenhos da portuguesa Maria João Worm. O livro foi publicado pela Acentral Folque, da Galiza, e a Tradisom, de Portugal, assim sim vale a pena fazer projectos internacionais. AngueSângue de Daniel Lima teve edição em português pela Chili Com Carne e em inglês pela Kuš!. Lima também viu a sua página do Le Monde Diplomatique - edição alemã - de 2018 compilada em Die große Salatschüssel des Lebens, pela Reprodukt, ou seja outra antologia "creme de la creme", diga-se de passagem! Borges continua com a Abolição do Trabalho, de Bob Black, a conquistar mundo, desta vez nos EUA pela Floating World

Nesta mesma editora que começou publicar a obra do primeiro grande artista de BD, o italiano Guido Buzzelli (1927-92) e Domingos Isabelinho entregou um texto introdutório para o primeiro volume. Não foi o único português a fazer trabalho de referência, Leonardo de Sá que investigou a passagem por Portugal do autor francês de BD "collabo" André Daix (1901-76) no livro Dans l’Ombre du Professeur Nimbus por Antoine Sausverd, pela P.L.G.


Visita ao zoo

Com programações cada vez mais fracas, os festivais de BD não tem trazido artistas estrangeiros que possa referir aqui, só o habitual putedo bedófilo, ficando as excepções (que confirmam a regra) para as espanholas Anabel Colazo (em Beja) e Mayte Alvarado (Amadora). Tem sido a Tinta nos Nervos a arriscar, como aliás, já é uma verdade há 3 anos, tendo trazido para exposições o finlandês Marko Turunen e o bom gringo Christopher Sperandio. De referir a passagem do editor da Floating World, Jason Levian também por lá, para apresentar o livro do Borges acima referido.

De resto, os nómadas em Lisboa tornou-se num fenómeno que não pode ser ignorado. Vários são os autores que passam por cá, ora ficam uns tempitos em residências artísticas, por exemplo, como o suíço Yves Hänggi que fez duas exposições em Lisboa, ora assentam os arraias e até começam por publicar livros como a irlandesa Rayne Booth ou o turco Utku Yavaşça que está a desenhar uma divertida BD num fanzine de "expats" (é assim que se escreve?) chamado Ble$$ed. Alguns já cá estão cá há anos e são gajos grandes como o francês Hervé di Rosa que teve uma exposição no MAAT com uma confusa data de final de exposição. O romeno Nicolae Negura, também residente há anos por Lisboa, participou no projecto Histórias de 89 no obscuro Instituto Cultural Romeno em Lisboa. E não esquecendo ainda o cromo norte-americano Flynn Kinney que meteu cenas tugas nos "melhores do ano" do fanzine Bubbles. Obrigado!


Eventos

Acontecimentos houve muitos, o habitual mercado de edições independentes que cada vez são mais feiras de cartazes - e infelizmente o antídoto que era o M.A.L. não sobreviveu para 2023. Trata-se de uma verdadeira gentrificação das publicações. Quando este tipo de eventos apareceu em Portugal, chamavam-se "Feiras de Fanzines" nos finais dos anos 90, ao longo da primeira década do novo milénio, devido à democratização dos meios de produção ligados à impressão, acrescentou-se "edição independente" de forma a entrar livros de autor, livros de artista, micro-edições e livros com distribuição restrita. Nos últimos 10 anos parece que os eventos de "edição independente" são uma feira de Carcavelos com imagens chatas e redundantes, onde pessoas (clientes) vão comprar serigrafias e afins para decorar os seus A.L. ou salas amarelas ou cozinhas azuis, sei lá... Houve a Raia, Parangona (Lisboa), Alegria, Perímetro (Porto) e Autónoma (duas edições em Cacilhas no abandonado Ponto de Encontro, justamente onde apareceu das primeiras "Feiras de Fanzines"!). Em Alpiarça fez-se um simpático Festival de BD e Fanzines. A Chili participou em mais umas feiras de outros temas: Feia (Música), Livro Anarquista, Livro de Arte (em Coimbra, imaginem isso!), Festival Rescaldo e Matiné Fetra. De realçar, pela negativa e como primeiras manifestações de "zinewashing" a "rip-off" Stolen Goods em que na sua própria sede, a organização pedia 75 euros por mesa aos seus participantes -  tendo uma série de estrangeiros caído na esparrela (e alguns portugueses); e a Direita monga cabotina da Junta de Freguesia de Arroios organizou a segunda FLIFA em que participaram VIPS de merda e um bosta de um facho.

Continuou a instalação Story Tellers no Parque Silva Porto (Benfica, Lisboa) com quatro conteúdos diferentes tal como as estações do ano e apareceu o ciclo Ilustraboom WC/BD na antiga casa de banho pública do Jardim Camilo Castelo Branco (Lisboa) com exposições mensais, das quais destacam-se as da Joana Mosi e Zé Burnay por trabalharam sobre o espaço e não terem colocado apenas pranchas nas paredes. Em Óbidos continua a mostra anual Flexágono, no festival In-Fólio, organizado por Pedro Moura. Em Torres Novas, na Biblioteca Municipal, fez-me uma exposição sobre os 50 anos do fanzine Impulso, seja lá o que isso tenha sido. Na Biblioteca Nacional, ainda a recuperar os atrasos do covid, comemora-se os 100 anos do ABCzinho (1921). Mais importante é a recuperação de trabalhos de Artur Varela (1937-2017) numa exposição na ZDB. Houve exposições da Rosa Baptista (aka Rroze Selavy) para inaugurar a Casa do Comum no Bairro Alto (que inclui livraria e onde foram feitas as feiras anarquista e Parangona) e este escriba teve uma expo-guerrilha em Guimarães, Ganza Metal, graças à malta da Magma Bruta, onde foram recuperadas peças do Zalão de Danda Besenhada (2000) e do Mistério da Cultura (2007).

O mais importante de 2023 e onde o futuro se constrói foi Memórias Artificiais do Rei da BD portuguesa, Rudolfo, que mostrou originais de BD, tocou música e mostrou o seu videojogo (que mete BD) num armazém no Porto, em Junho, um dia antes da Feira da Alegria. Que alguém tenha olhos na majestade!


Publicações finalmente!

Não! Cada vez existe menos fanzines ou zines, não sei se é da crise que se vive, individualismo do neo-liberalismo que se vive ou apenas falta de tempo mas quase não se encontram projectos e artistas novos. Quase deixa de fazer sentido escrever este relatório. Só se justifica porque há sempre projectos independentes com qualidade para relembrar os mais incautos. Este ano a maior surpresa foi o caso da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas-Artes do Porto que fizeram o Coisas feias em Belas Artes, um fanzine em formato A5 catita com montes de BDs politizadas sobre a degradação do ensino superior em Portugal mas também sobre a tomada de consciência de como a cultura e o associativismo são importantes – prova dada pela qualidade da organização da Associação ao produzir a Feira da Alegria! Destaque especial para o autor Pedro Evangelho.

Na continuidade de projectos eis que houve mais volumes do Bomba Zine, O Filme da Minha Vida, Bancar0ta, Fosso (José Feitor), Mesinha de Cabeceira, Olho do cu, Opuntia Books (desenho) e Umbra. A Chili Com Carne, Magma Bruta e Sendai continuam de boa saúde a publicar o melhor da BD "artística".

Regressou o divertido fanzine É fartar vilanagem, tal como os artistas João Carola, André Coelho, Dois Vês e Rafael Gouveia voltaram às lides da auto-edição. O mesmo para o colectivo MASSACRE que logo no início do ano com um livro de algum investimento, falo do The End of Madoka Machina de André Pereira.

Os destaques vão para os projectos fora de comum, tudo da Chili e associados, modéstia à parte: Where's the ground? da banda Rock Unsafe Space Garden, pela Discos de Platão, em que a música,  a BD (de Alexandra Saldanha) e os espetáculos ao vivo parecem unos num caleidoscópio psicadélico. O jornal Carne para Canhão da Chili, só com um número ainda, que pretende chegar a públicos mais alargados por ser gratuito, inspirado noutros projectos passados como o finlandês Kuti. E o grande Vale dos Vencidos, obra de 11 anos de trabalho de José Smith Vargas, um "tour de force", com alguns laivos inéditos de composição editorial do livro mas sobretudo um marco histórico na BD portuguesa, pela complexidade narrativa e a temática das destruições das cidades que tanto nos aflige.


Referências

Depois das palhaçadas d'A SHeITa do ano passado, que apesar disso, ainda são úteis q.b., para pelo menos cartografar a BD portuguesa deste milénio, 2023 foi deserto outra vez nesta área. Apareceu uma simples brochura de Bibliografia de Banda Desenhada de Ficção especulativa Portuguesa por Marco Fraga da Silva, editada pela Associação Tentáculo. A Tinta da China para redimir dos desastres ecológicos do passado (Melo & su muchacho) reeditou os Cartoons de João Abel Manta. A Arte do Autor publicou mais uma BD sobre a vida de Edgar P. Jacobs, numa eterna bedófilia feita por uns gajos franco-belgas que nobody gives a shit! A revista sobre ilustração Aguça sacou o número três e apesar de ainda não ter visto nem lido, só os nomes aguçam o apetite: Amanda Baeza, João Sobral, Mariana Pita, Sara Boiça e Sofia Neto. E a mais "boring art magazine ever" Umbigo teve uma frikice qualquer que metia o acervo da Bedeteca Nacional [sic] da Amadora a ser discutido pelo Tiago Baptista num artigo. O que vale é que o Baptista é sólido...

Vencedor do ano, o blogue My Nation Underground do nosso associado "Erradiador" que todos os dias coloca um "post" (ou mais que um) de um fanzine da sua colecção - essencialmente de BD - criando um puzle e compendio deste tipo de publicações. Quem for de ano a ano poderá ter uma imagem mais nítida do que foi ou é a cena dos zines (e edição independente) em Portugal. Como diziam os outros: clap clap clap!


Tristezas não pagam dívidas

2023 foi um retrocesso civilizacional, não só pelas guerras, por exemplo, mas também pelo tratamento xenófobo que a Câmara Municipal da Amadora infligiu à artista luso-chilena Amanda Baeza, que não mereceu celebrar o 25 de Abril com a instituição. Tal mereceu boicote de um certo público ao Festival de BD, embora, não havia nada para esse público ir lá ver - tirando a exposição do Smith Vargas, claro.

De referir ainda a triste morte aos 60 anos do norte-americano Joe Matt, um caso in extremis de como o uso da autobiografia pode secar a vida de um artista. Matt era tão viciado em pornografia, tal como era tão pornográfico na forma como deitava para fora a sua vida nas BDs autobiográficas, sob o título de Peepshow. O seu falecimento deveu-se à falta de dinheiro para tratar da sua saúde.

Quem não é anarquista que tire as conclusões que quiser sobre estes dois casos...