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terça-feira, 12 de abril de 2005

Toupeira #1: "Bófias" ; Venham +5 #1

Bedeteca de Beja; Abr'05

E no Sul tudo de novo! Em Beja abriu uma Bedeteca, e com ela um modelo idêntico à de Lisboa, nomeadamente na publicação de novos autores. Tanto que a cópia à Lx Comics é descarada - e ainda bem que hajam mais iniciativas assim, mais vale um bom modelo bem copiado que algo completamente "original" mas mal feito ou uma cópia mal feita. Assim, agora também há uma colecção para novos autores em formato comic-book, chamada Toupeira, que se estreia com a bd "Bófias" de Véte. Chama-se Toupeira em jeito de homenagem ao Atelier Toupeira que desde 1996 tem feito um bom trabalho com jovens autores (locais), editado fanzines vários e foi a semente para a inauguração da Bedeteca de Beja. Sobre "Bófias" pouco de bom a dizer, história confusa e sem piada (embora tenha pretensões a isso), grafismo seguro de si mas paradoxalmente amador e "copiador" a várias imagens... É um policial em volta de um assassínio mas sem qualquer tipo de emoção, vontade de deixar uma marca pessoal e perfeitamente "anti-clímax" do princípio até ao fim. Um bocado triste, até! A iniciativa da nova colecção é de louvar no entanto, esperamos mais autores para os próximos tempos!
Quanto à "Venham +5" é uma revista em formato A4 cheia de autores bejenses que para o mal e para o pior, matam umas árvores para projectarem as suas experiências na bd. Destacam-se Lam e Susa Monteiro pela maturidade gráfica e originalidade dos textos, o resto é amador até dizer chega. É uma faca de dois gumes, por um lado, não percebo porque os editores e autores não tem olhos para perceber que ainda estão verdes e que meia-dúzia de fotocópias seriam suficientes para divulgar o trabalho deles, por outro lado, havendo uma nova revista, abre-se mais portas/estruturas com trato semi-profissional para novas colaborações/autores/bd's - venham elas para melhorar a "coisa"!
Como apontamento final, é de distinguir o design das duas publicações, moderno e bonito q.b. É engraçado, que apesar destas minhas criticas negativas, achei a "Venham +5" mais arrojada e à vontade nas suas bd's publicadas que por exemplo a recente Blastmagazine, editada na "cosmopolita" Lisboa pelos seus "artistas" das Belas-Artes. Contrapondo ao isolamento e/ou esquecimento da interioridade que o Alentejo sofre, os últimos estão bem melhores do que os resultados pretensiosos e falhados da Blastmagazine.
A Toupeira está de parabéns, mesmo!

2,1 ; 3 respectivamente

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

rápido... ainda mais rápido!

«Quando mais as coisas mudam mais elas ficam iguais» diz-se. E de certa forma é o que tenho sentido nestas últimas semanas depois de ter reeditado as Noitadas, Deprês & Bubas.

Choradinho nº1: falta a distribuição (o mercado antes aceitava livros de bd mas não havia produtos profissionais, agora que há boas edições o mercado livreiro está na mega-melda), falta a promoção nos media (o que é bom porque só se escrevia melda e da glossa) ou a divulgação é reduzida/localizada (e são outra vez as publicações de Rock que salvam a honra, como acontecia antes com o Blitz)...

Estarei em 1997 outra vez!? Será um flashback das dlogas? Uma tlip atlasada?

Choradinho nº2: falta de interesse da comunidade bedefila em geral - o que mostra também que há muitas comunidades de bd e não só uma como a maior parte das pessoas deve pensar. Autores "alternativos" tem dito bem do livro, o Pedro Moura mais uma vez saluta o meu trabalho (10 anos depois de o fazer na Flirt). As pessoas que não são da cena da bd também gostam do livro - algumas pessoas ligadas à música e outras que não costumam ler bd porque não se identificam com os livros de bd editados em Portugal. Mais uma vez, a história repete-se, são estas pessoas que me dão prazer despachar livros tal como há 10 anos eram com "essas mesmas" que trocava os meus zines por celveja em bales e conceltos! Realmente o que eu não quero é que os divulgadores coimbrões venham javardar sobre o meu livro: "a autobiografia só tem interesse se a pessoa tiver uma vida interessante" / "os desenhos em bd têm de ser bons para a bd ser boa" - e "bons" significa variações amorfas de desenhos dos dois únicos géneros que existiam até aos anos 60: o humorístico/caricatural ou o realista - a comunidade bedefila é puritana e conservadora, tal como a sociedade em geral, não admira que os casos de sucesso de crítica e de público na bd portuguesa sejam de autores que fazem desenhos nostálgicos e cinzentos (salazarentos?) como é o caso de Miguel Rocha e de José Carlos Fernandes... E por falar no último, espero que este também não me escreva um e-mail ou deixe um comentário no blogue (invés de um "snail-mail" como fez à 10 anos) a dizer que a autobiografia é um género preguiçoso - ele saberá que usar citação após citação também é preguiça?

Choradinho nº3: Invés de termos a Futura a reeditar o "Mandrake" temos os volumes completos do "Príncipe Valente" e do "Hägaar, o terrível" (é assim que se escreve?). Apesar de haver em Portugal três Bedetecas (caso inédito no mundo!) a quebra de investimento nestes equipamentos ou a falta de qualidade na programação destas instituições (refiro-me apenas ao CNBDI, neste ponto) mantêm o status quo da bd ser aquela coisa para atrasados mentais.

Por falar em instituições, e era por isso que queria "postar": houve este ano mais uma edição do recomendável Festival de Beja e sairam mais volumes das publicações oficiais das entidades organizadoras, o atelier Toupeira e a Bedeteca de Beja e apesar da qualidade dos objectos a "má tlip" mantêm-se.

Começemos pelo quatro volume da colecção para novos autores, Toupeira, que não tem problemas em mudar o formato "comic-book" dos três números anteriores para um formato quadrado de maneira a respeitar a bd A Carga de Susa Monteiro. Admito que gosto do trabalho desta autora - ou pelo menos respeito as suas qualidades técnicas e sentido estético, curiosamente é mais uma autora que facilmente as pessoas gostam porque também tem algo de "nostálgico & cinzento"...
De repente veio-me esta ideia tão estúpida que não me consegui conter: "10 anos depois invês de José Ruy temos Susa Monteiro?" Absurdo! Mas passou-me pela cabeça tal como flechas que serão atiradas pela autora quando ler isto... espero que ela não leve a mal, ela tem de pensar que este texto é como copofonia e o José Ruy, de todos os autores do Antigo Regime é o mais interessante e o mais "open-minded", não é a pior comparação, caraças!
Mas deixem-me explicar esta minha idiotice! Deve-se tal comparação não por culpa da autora ou do seu trabalho (não se pode comparar em nada, como é óbvio) mas vem antes deste mal-estar geral da edição em Portugal. Nos últimos tempos as poucas edições lançadas de autores portugueses foram livros com bd's instituicionais (as da Má Criação ou da Assírio & Alvim) e históricas (o Salazar de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha) tal como acontecia nos malditos anos 80 e meados dos anos 90 até ter aparecido a colecção Quadradinho, a Bedeteca de Lisboa e o movimento editorial independente. Relembro que nessas "Dark Ages" só saíam álbuns pedagógicos da Asa - 10 anos depois a casa faliu mas voltou como Asa II tão horrorosa como sempre foi e sempre será. Por momentos neste país até parece que o único que faz ficção é (outra vez) o Louro! (ui-ui!). Para quem não sabe do que se trata A Carga é uma adaptação da lenda dos Corvos de S. Vicente, o patrono de Lisboa - ei! isto não deveria ter saído pela Lx Comics!? Hips! Não percebo qual é a necessidade de contar esta história quando quer a colecção Toupeira quer a autora não têm nenhuma obrigação institucional ou comercial para o fazer - e sim, eu sei que vivemos em Democracia. O que ainda quero dizer é que se houvesse muitas edições a serem lançadas no mercado nacional não teria tido esta tlip de nostalgia forçada. This is a Jesus-Fuck Silly Season Remix!
Os desenhos afastaram-se do "McKeanismo" que a autora sofria nos seus primeiros trabalhos e começaram a incorporar outras influências europeias. Algumas imagens são inteligentes como aquelas que usa a "pespectiva medieval" - por acaso, o José Ruy sempre teve problemas com pespectivas, hehehehe... É confuso, bem sei, mas justamente vivemos tempos confusos, hein? Fico a aguardar pelo segundo livro a solo da autora...

O Venham +5 também mudou de formato neste número 5 chupando os formatos do Mutate & Survive ou da Quadrado - Beja copia demasiado os modelos extintos de Lisboa... seja como for estes títulos já tinham chupado à revista Lapin que tinha chupado à segunda série da mítica Raw... começei mal, portanto... Aqui também estamos em 1991 em que invés de fanzines (daqueles mesmo fanzines: A4 e fotocopiados!) como o Shock, Banda e BD&Roll. Apesar da óbvia diferença entre o Venham +5 e esses fanzines comece logo pelo facto do primeiro editar 58 autores em 224 páginas a preto e branco. A estatística não satisfaz porque fiquei com aquela sensação que se repetem os mesmos gajos desde os anos 90!
Não escrevo isto com aquele mau-feitio reaccionário de "que são sempre os mesmos" mas mais por achar que algo de errado está acontecer na bd portuguesa e que no futuro é bem capaz de vir a ser o único país no mundo onde a bd será dada como extinta - ao contrário de todos os outros paises em que a bd está a rejunescer a olhos vistos (da Roménia à Àfrica do Sul, da Croácia à China, da Suécia à Rússia). Talvez os portugueses tenham a pior educação da Europa? É o país onde se lê menos? Onde os livros são mais caros? Onde o Governo sempre preferiu manter-se como um país de mão-de-obra barata e analfabeta ou um país de turismo xunga sem respeito nenhum pela arquitectura, património, cultura e ecologia?
Faz muito calor para pensar mais, voltemos ao puzzle Venham +5 que pode ser resolvido por três tipos de peças, quatro, não, três... ok! quatro!
1) novos autores que não enchem nem olhos nem a cabeça que desaparecerão como muitos desapareceram nos zines dos anos 90 - o que é normal;
2) gajos que andam aqui há mais de 10 anos e parecem (neste volume) que começaram a fazer bd pela primeira vez - o que não é normal!
3) a minoria interessante ou "diferente" que são exactamente os mesmos de há 10 anos - e só refiro estes porque não só merecem ser destacados como não quero mais chatices com este "post"... há mais uns quantos mas destacaria Filipe Abranches (participa com uma bd que saiu numa revista italiana de grande tiragem), André Lemos (he's the man!), Teresa Câmara Pestana, Paulo Monteiro, Susa Monteiro, Pedro Rocha Nogueira e Diniz Conefrey;
4) e os estrangeiros, alguns até bastante merdosos e outros porreiros como o Alex Uyeno (creio que é aluno do Alain Corbel nos EUA).
Claro que esta análise está incompleta mas assim a vida, e é verão! O Venham +5 é uma boa iniciativa, o problema sou eu que estou a ficar velho numa cena que está a caminho da extinção - ou será que irá ter um boom estranho outra vez como aconteceu no final dos anos 90? Seja como for, quando ficar mesmo gágá não quero ir para um lar de terceira idade com esta malta! Tudo menos isso! Seria um pré-Inferno... aliás, já é um Inferno!

Para acabar pelo menos em sangue fresco - serei vampiro? Infelizmente ou felizmente outro flashback! Desta vez, com um zine chamado Besta Quadrada! Não não é o "revival" do número único lançado por Tiago Gomes e João Fonte Santa (em 1992?) mas sim uma coincidência que o Tiago Baptista tenha dado o mesmo nome. Acontece... mas não deixa de ser tudo um ciclo vicioso de paranoia, não?
Este "novo título" já vai no terceiro número (Out'06/Jan'08) num formato quadrado bestial. O terceiro número tem uma capa em serigrafia sobre cartão prateado. Se juntarmos que o título e a numeração estão numa "font" gótica, o zine deve meter inveja a qualquer Black Metal que se preze.

O Tiago é um dos últimos moicanos em Portugal a fazer zines "old-school": bd's, desenhos, textos, reviews a zines, livros e discos naquela total liberdade que os zines dão. Não há justificações a dar, é mal educado, experimental, artístico e pirata porque-sim. Resta dizer que o Tiago faz três zines diferentes: Bolso, Facada e Besta Quadrada. A única aparente diferença entre eles é o formato, o primeiro é A6, o segundo é A5 e a Besta é quadrada.
O último número do Bolso que tive acesso (número 7; Out'07) a capa também é serigrafada como algumas páginas do interior. Os resultados dos trabalhos variam de qualidade e de intenções, tanto há segurança de conteúdo como a bd Teresa Câmara Pestana como à excitação juvenil de André Lopes. A mesma fórmula repete-se (mas com mais páginas e colaboradores) na Besta Quadrada.
Vale a pena investigar porque as publicações do Tiago vão contra todas as marés. Ora, como se bem sabe, quando vamos contra tudo e todos e porque só podemos estar certos...

domingo, 28 de maio de 2017

Um Turbo prá Sofia...

Foi o ano mais secante do Festival de BD de Beja, talvez por culpa de uma programção sem risco e subjugada ao mercado nacional, que (boas notícias) cada vez edita mais mas (más notícias) publica obras para crianças, jovens tótós, lolitas-wannabes e velhos "bedófilos". Surpresa agradável que perdoa a seca, o único livro que trouxe de lá: Bizarras (col. Toupeira #10, Bedeteca de Beja; 2017) de Sofia Neto.
Colecção que continua a colecção Lx Comics (da Bedeteca de Lisboa), a Toupeira modestamente tem sido um palco para novos autores e neste número mostra o trabalho mais consistente de Sofia Neto até agora, apesar das boas experiências com os títulos publicados pela Mundo Fantasma. A autora já tem uns 27 anos, idade para ter mais do que juízo, mas ainda procura uma voz própria. Acredito que rapidamente dará um salto, tem dado livro para livro. Formada em BD em Angoulême, ela têm técnica e formação para fazer o que lhe apetecer, topa-se isso pelo total domínio narrativo, o problema é que ainda não estebeleceu os temas de abordagem para a criação de uma Obra. O que faz o trabalho de Sofia ultrapassar muitos autores actuais que ainda não se decidiram entre trabalho comercial ou artístico, é que o seu desenho é expressivo, uma enorme vantagem sem dúvida, mesmo que um dia faça um trabalho qualquer de encomenda tipo "A História do Bill Gates".
Bizarras é uma compilação de várias BDs de duas páginas sem palavras - excepto a última BD - que não tendo ligações entre elas, lêem-se todas de seguida, sem respirar, porque não há títulos ou separadores. Não sei se a autora e/ou editores pensaram nisto conscientemente mas a leitura é bastante musculada porque inicialmente pensa-se que as personagens que desfilam nas várias situações terão alguma ligação. As BDs mostram cenas quotidianas, em esquemas de compensação psicológica, que podem ser patéticas como fatais. Apesar dos ritmos narrativos perfeitos e legibilidade gráfica das BDs, elas deixam sempre o trago de mistério insolúvel, que tem sido a marca principal do trabalho de Sofia. Já a última história próxima de um humor Fluide Glacial ou Jueves, é "gira" mas mancha o que foi feito anteriormente - culpa do uso de texto ou a ideia em si? Certeza absoluta, ela não deixa marcas para dúvidas, mata o "mistério" e torna-se numa vulgar laracha. Tirando a última BD, as outras tem uma figuração elástica que lembra Æon Flux (a série de animação, não o filme idiota) mas essa influência assumida não incomoda de todo, o que incomoda são as pessoas representadas, esse "o Inferno são os outros"...

terça-feira, 24 de maio de 2022

ccc@Beja.2022


MMMNNNRRRGunDJ Team vai por som na primeira noite no Festival de BD de Beja. Quando passar a ressaca toca a ir ver a exposição do Rodolfo Mariano e assegurar um exemplar do seu novo livro, editado pela colecção Toupeira da Bedeteca de Beja.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

10ª Feira Laica

cartaz da feira de André Lemos

Feira de Zines e Edição Independente: Associação Chili Com Carne, Imprensa Canalha, jornal Coice de Mula, MMMNNNRRRG, Opuntia Books, Thisco, Variz, zine Acto, Ordem dos Arquitectos / Delegação de Portalegre, autor Guillaume Soulatges (ex-Strategie Alimentaire), Reject zine, revista Big Ode, Atelier Toupeira + Bedeteca de Beja, colectivo Hulülülü, discos F.Leote, Via Óptima, Groovie Records, autor/editor Tiago Baptista (Faca, Bolso,...), colectivo A Mula, zine O Hábito faz o Monstro, Serrote, autora Maria João Worm e VivoEusébio.

Novidades editoriais:
- Alçapão - Fanzine de arquitectura dura #2 (OA/DP), v.a
- Besta Quadrada #4, Bolso #8 e Facada #10 (T. Baptista), v/a
- Big Ode #5 (Big Ode), v.a c/ tema "Pesadelo"
- Cabeça de Ferro (Imprensa Canalha), antologia gráfica da Revolução Industrial com participações de Luís Luís, Pedro Burgos, Filipe Abranches, Jucifer, Daniel Lopes, Júlio Dolbeth, Rui Vitorino Santos, João Maio Pinto, José Feitor, André Lemos, Joana Rosa Bragança, Zé Cardoso, Luís Henriques, Pedro Lourenço, Bruno Borges e Richard Câmara.
- Long Knives Through The Grapevine (Opuntia Books), de Les D. Turley / Filipe Abranches / Miguel Mocho
- Micro-Aviões – Os aviões mais rápidos do mundo, aviões de papel para montar de Manuel Leitão.
- Noitadas, Deprês e Bubas (col. Mercantologia; Chili Com Carne) de Marcos Farrajota - Ópera de sabão, fanzine de Robô Maria
- Post Shit (Crime-Creme), zine de Jucifer;
- A Vara Do Açúcar Da Meia Noite E Nos Bordos Dos Peixes (Opuntia Books), de Ilan Manouach.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Beja poetry comics crew

Já lá foram alguns meses desde a terceira edição do (actual) melhor festival de bd português, o de Beja, e claro que agora todos andam com o pito aos saltos com as inesperadas novidades editorais que estão a sair na BD Porcalhota, mas a vida não dá para tudo, e só agora consegui divulgar as edições da Bedeteca de Beja, a saber, os terceiros volumes de Venham +5 (zine) e da colecção Toupeira (comic-book / mini-álbum na tradição da Lx Comics) com La Bellête. Mas mais vale tarde do que nunca.
No primeiro caso, houve uma redução de formato e de páginas, o que favoreceu os trabalhos (quanto maior o formato mais expostas ficam as deficiências gráficas) embora neste número a qualidade geral das bd's publicadas tenha subido. Aparecem alguns convidados, resultado da actividade do festival, como Pedro Rocha Nogueira e o espanhol Fritz. A revista encontra-se num ponto novo de partida, compromisso de promover os talentos locais e de editar bd de autores mais coesos. A poesia reina por estas páginas e pelos vistos os portugueses adoram poesia ao ponto que a Porcalhota deu um "Pacóvio& Grilinho" (Melhor Zine 2007).
Tal como reina em La Bellête, segundo livro de Pedro Rocha Nogueira - o primeiro tinha sido o Lx Comics, Dumb Angel (dumb me). Do primeiro para o segundo o autor refina o grafismo, aumentando-lhe a complexidade do traço, mais texturas e mais contrastes. O texto continua hermético e quase que cosmogónico mas sente-se melhorias imensas - realmente a Lx Comics servia a sua funçaõ de "primeiro livro".
[E ontem saíu o novo número do Venham +5, desta vez com colaborações estrangeiras de Alain Corbel, Alex Uyeno e Kike Benloch. É capaz de ser o melhor número deste zine e é de destacar a bd de Carlos Páscoa!]

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

O Mesinha 40 tem um Lobisomem, 3 pastorinhos e tripes!!!! ESGOTADO

 


Eis o novo Mesinha de Cabeceira! É o #40 (#1 do vol. XIII) de autoria do inglês Andrew Smith, em que voltamos a um formato "comic-book" de 28 páginas a preto e branco.

Quanto ao conteúdo temos dificuldades em meter numa gaveta. Há autobiografia light com autoficção, BD cómica-religiosa com um elemento "meta" e ainda alucinações de drogaria e um lobisomem. Olha, o melhor é mesmo ler, meu, ou achas que vais encontrar algo melhor no quiosque?

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ESGOTADO mas pode ser que encontrem ainda na Snob, Kingpin, Tigre de Papel, Matéria Prima, Alquimia,  Tinta nos Nervos, Linha de Sombra e Universal Tongue.

...

Sobre o autor: Andrew Smith (1966; Suffolk) estudou Belas Artes em Londres. Publicou as suas primeiras BDs em fanzines punk, tendo seguido para revistas profissionais como a Punch e Spectator entre outras. Foi professor e tendo descoberto Portugal com a sua esposa e cão mudaram-se todos para Serpa. Por cá tem publicado nas colecções Venham + 5 e na Toupeira, ambas da Bedeteca de Beja. Nesta última lançou o "comic-book" O Desastre do Palhaço que foi uma bela surpresa em 2022!

...




Feedback:

A Ondina Pires gostou!!!

O Bandas Desenhadas entrevistou!!

sexta-feira, 4 de março de 2011

Dossiê 2010 : Fanzines

Não sei se o sítio www.bedeteca.com terá futuro, para já é verdade que o habitual Dossiê anual do Estado na Nação da BD Portuguesa nem está funcionar mais... Como a papa já estava feita, vêm para aqui a publicação deste "relatório" sobre os Fanzines de BD de 2010. Podem (re)ler este outro texto que repete algumas coisas e acrescenta outras.

Talvez já tenha mostrado o optimismo no blogue da Chili Com Carne, numa onda de “Mensagem do Presidente para 2011”. Aqui a análise é retroactiva, menos ampla, mais focada e isenta mas os sintomas de optimismo sentem-se – por ter sido escrita pela mesma pessoa, claro está. Aliás, é preciso mesmo olhar para o passado, neste acaso, em 12 meses para perceber que aconteceu muita coisa, tanta que a cabeça ficou tão cheia e insensível que se esqueceu da actividade dinâmica. Foi bom rever o que aconteceu em 2010 ao fazer a pesquisa para este Dossiê.

Com a decadência das grandes estruturas comerciais e institucionais são os “pequenos” que suportam e criam novas estruturas. Este ano faço questão até de fazer uma listagem em vertical para mostrar a força da coisa.

Lista a) Começamos pelo básico! Continuaram a editar:
- Reject’zine (de Andreia Rechena)
- Opuntia Books
- Imprensa Canalha
- Gambuzine
- MMMNNNRRRG
- Associação Chili Com Carne
- El Pep
- Zona BD
- Le Sketch
- Plana Press
- Boletim CPBD
- Kingpin Books
- É Fartar Vilanagem! (de Alexandre Esgaio)
- autora Jucifer (Techno Allah)
- Pedranocharco
- Venham +5
- Toupeira Comix
- colecção Filme da minha vida
- autor Rudolfo (vários títulos)
- Tertúlia BD’zine
- Cleópatra (De Tiago Baptista)
- Znok (de Filipe Duarte)

Lista b) Regressaram:
- Polvo
- Kzine

Lista c) Agora sim, o importante (já explico). Apareceram novos projectos:
- Yoshi, o puto dragão (edição de autor e reedição profissional pela Raging Planet)
- Apupópapa
- Soft Porn Coloring Book
- B74
- Thou the Latrina spoken
- Sou daquelas (de Sílvia Rodrigues)
- Fígado da República (de José Smith)
- dois zines de David Campos
- dois zines de João Ortega
- Intro Espectro (de Tiago Araújo)

A Lista a) mostra uma continuidade de trabalho que insinua uma “profissionalização” dos projectos como é o caso da MMMNNNRRRG, El Pep, Zona BD, Plana Press e Kingpin Books – esta última nitidamente é uma casa comercial que coloca problemas em estar aqui a ser metida mas tendo em conta a pequena expressão no mercado faz sentido estar aqui.
No meio da lista a biblio-biodiversidade domina em objectos e objectivos: do carácter mais coleccionista do Boletim CPBD ao lúdico Le Sketch, do fetichismo dos Opuntias Books à necessidade de exteriorização artística de Andreia Rechena, do conteúdo programático da colecção Filme da minha vida (da Associação Ao Norte) ao institucional de Venham +5 (editado pela Bedeteca de Beja)... Há de tudo para todos neste universo de edição independente em que misturo aqui fanzines, zines, livros de autor, livros impressos em tipografia ou em digital, colecções organizadas, números únicos, etc… Ao acrescentarmos os debutantes da Lista c) ficamos ainda mais ricos: zine/CD contra o Papa, Manga Cosplay-Metal, pornografia para colorir ou bds de continuação a seguir (mesmo!) com atenção.
Duas notas para a lista b) a Polvo que em tempos foi uma editora “média” (para a “média portuguesa”) e detentora de um catálogo histórico, inclui-se nesta análise porque suspeito que o capital da empresa, as tiragens dos livros e a sua projecção comercial está reduzida actualmente a quase qualquer outra iniciativa privada de “edição independente”. O Kzine é um fanzine dedicado à Manga (bd japonesa comercial).
Como repararam a Lista c) além de aplicar novidades em termos de conteúdo também mostra pujança em quantidade, isto se comparamos em relação com os últimos anos – a queixa mais bem registada está no Dossiê de 2007.
Durante os últimos anos, os zines em papel desapareceram gradualmente – ou melhor perderam a força ou foram substituídos pela febre “graphzine”. Em 2010 num “zeitgeist” qualquer apareceram não só novos títulos e novos autores, em que modéstia à parte, deve-se juntar o esforço da antologia Destruição (Chili Com Carne) que reuniu 15 novos talentos da bd portuguesa. Esta lufada de ar fresco há muita que era esperada dada ao fim do ciclo produtivo da geração dos anos 90. A questão que se colocava era se a bd de autor tinha desaparecido de completo? Que não havia novas pessoas a criarem bd de autor?
Talvez até tenha acontecido isso mas estão aqui as novas raízes que esperamos ver florescer em 2011 e para a frente. Quem sabe talvez do panorama desolador dos últimos anos venha a dar frutos como aconteceu há 20 anos atrás quando só havia Meribérica-Liber, Jim Del Monaco e o Clube Português de BD.

Internacional:
+ do mesmo, isto é a Aldeia Global já é uma Cidade em que não estranha os estrangeiros que entram nos seus terrenos… Miguel Carneiro e Marco Mendes publicados na revista eslovena Stripburger (Mendes duas vezes!), André Lemos no Lazer Art’zine (Bélgica), no ZI-NE (Roménia), na antologia Gazeta (EUA) e provavelmente em muitos mais sítios mas que não conseguimos seguir todos; José Feitor, Marcos Farrajota, Pedro Zamith e Pepedelrey no calendário brasileiro Pindura 2011, vários autores da Chili Com Carne no zine espanhol Combate (Ediciones Valientes), Teresa Câmara Pestana na La Bouche du Monde (França) e ainda um livro de autor de Marta Monteiro pela Café Royal (Inglaterra). Também houve presenças em festivais internacionais como o Crack (Itália) e Alt Com (Suécia), para além de participação de André Lemos nas exposições “Leaf and Signal” e “Not Tex Not Mex #1” (ambas nos EUA). Seis criativos da Chili Com Carne fizeram uma “tour” pela Europa fora, iniciativa inédita que passou por Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França. Estas “férias peculiares” irão gerar um livro de viagens até agora no prelo.
Mais autores estrangeiros das veias alternativas que visitaram Portugal: o esloveno Jakob Klemencic no Festival de BD de Beja com o projecto europeu Greetings from Cartoonia, o croata Igor Hofbauer para duas exposições de sucesso em Lisboa e Beja, o texano Nevada Hill para a Feira Laica de Verão, e o sueco Mattias Elftorp, o francês Albert Foolmoon e o espanhol Martin Lopez Lam na Feira Laica de Natal. E claro, ainda tivemos um ícone da bd alternativa, a Dame Darcy que passou por Beja e por várias datas nortenhas.

“Profissional”
Apareceram duas novas associações, a Oficina do Cego dedicada à arte de bem imprimir – tendo já lançado dois números do jornal homónimo – e a Tentáculo que se dedica à publicação da antologia Zona BD. São obviamente associações sem fins lucrativos mas que dão um cunho mais profissional e de continuidade a projectos de edição. São mesmo bem-vindas!
A MMMNNNRRRG comemorou 10 anos, uma longevidade a respeitar para o tipo de material que edita e pelo ódio que lhe é alvo pelos agentes da “cena”. Talvez por isso tenha ido para o Porto lançar o Pénis Assassino, trabalho Janus feito em 2001 mas que só em 2010 alguém teve os “tomates” para o editar. Aliás, para uma editora odiada até houve “amor” logo no início do ano quando lhe foi atribuído o Prémio Titan para o livro Já não há maçãs no Paraíso (2007) de Max Tilmann (Tiago Manuel).
A Chili Com Carne e a El Pep ganharam um prémio em Itália para melhor fanzine (3º prémio) com o Seitan Seitan Scum (Mesinha de Cabeceira #22) no evento Slow Comics. Só o Festival da Amadora é que o fenómeno da edição independente é que lhe passa ao lado, não admira que este ano tenha estado às moscas…

Exposições
Em compensação, apesar da filosofia “easy come, easy go” que afecta as galerias / lojas / espaços lisboetas, as exposições “O Último Fósforo” (colectiva internacional vinda da Estónia), Mike Diana (recriação da exposição de 2008) e Igor Hofbauer (cartazes) na Artside estiveram cheias. A galeria de artes urbanas já fechou entretanto… Ao contrário das galerias portuenses Dama Aflita (ilustração) e Mundo Fantasma (bd) que são estáveis e mantêm uma programação exemplar. Que durem todos os anos que quiserem! Voltando a Lisboa. Porque sou lisboeta e tenho sempre Esperança que esta cidade melhore, as lojas de música Matéria Prima e Trem Azul deram o ano passado os primeiros passos no sentido de terem patentes exposição gráficas nas suas instalações. Se fosse cristão até acendia duas velinhas…

Extras
Na falta de espaços para divulgação da edição independente, a Associação Chili com Carne promoveu várias sessões sobre o assunto na Casa da Achada. O PEQUENO é bom! tratou de lançamentos, discussões sobre zines, música e animação DIY. Acabou o verão e teve se retirar, talvez volte em 2011.
Nem tudo o que vem da ‘net é mau – pelo menos ao que diz respeito à bd – como se provou este ano quando Simples Alquimia entrou em linha em http://spiraltap.net/simplesalquimia, aplicando as teorias que Scott McCloud apresentou em Reinventing Comics (2000) sobre a expansão da forma narrativa da bd pelo espaço infinito das páginas Web. Demorou 10 anos até alguém fazer a coisa com o deve ser. Parabéns ao Diogo Barros.

É caso para escrever com orgulho e expectativa o clássico “(continua…)”.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

brasil.pt (Brasil XIV)



Mundo Anão
Piqui #2
(O Piqui; 2013)

Ninguém sabe mas elas andam por aí, já tiveram na FEIA e no Jeco, as miúdas do Piqui, Livia Viganó e Taís Koshino! Fazem mini-zines de BD com pinta "friqui" (não resisti a piadinha-que-rima!) e naíve assim mesmo, de forma espontânea a lembrar o André Ferreira (mais conhecido por Goran Titol) que se meteu na BD recentemente (ver o último número da colecção Toupeira pela Bedeteca de Beja) ou o Van Ayres. Todos eles e muitos outras pessoas que andam por aí, são uma nova geração de autores que passaram a fazer BD mas sem passarem pelo imundo processo da cultura "nerd" da BD industrial, e por isso a sua frescura e poeticidade incomodam os puristas da BD do quadradinho-menino! Claro que os resultados mostram-se muitas vezes verdes em relação a estilo mas estas autoras (ou o Van Ayres) têm domínio sobre as técnicas de narração ou que permite uma leitura limpa do que se conta mesmo que seja "surrealista".
Assim sim dá gozo ler... o Brasil pouco a pouco vai mostrando as suas garras fora das piadinhas eternas.

sábado, 12 de junho de 2010

Uma arte a fritar!


Até começa bem com a reprodução da capa do último MdC (hahaha) mas depois é só tolices: "banda desenhada nacional prefere crescer à margem das grandes editoras" - prefere? Ou será não tem outra escolha?

A preferência dos autores porque «as "pequenas" são uma alternativa interessante, pela liberdade temática, estilística e de formato que permitem» (afirma Nuno Duarte no artigo) ou porque tem «maior controlo sobre o processo» (Miguel Rocha) poderia ser interpretado como algo positivo, de um entendimento maior entre o autor e o editor em criar melhores objectos editoriais, caso a maioria das obras não roçassem a mediocridade a vários níveis e que obviamente nenhuma "grande" editora gostaria de publicar estas coisas - embora a Asa fosse capaz ou a Tinta da China a julgar pelo indiscritível Dog Mendonça & Pizzaboy.
Se calhar até há mérito nas pessoas envolvidas no mundo da bd que acreditam no que fazem e que lhes dá uma dimensão artística que doutra forma não teriam. Quero dizer com isto que a crença num formato independente estimula o romantismo sobre a Arte que todos sabem que só é boa quando "não é entendida no seu tempo" - ao que parece é cool ser artista "maldito" sabe-se lá porquê... A militância nestes tempos em que não se acredita em nada poderá ser outro ponto positivo, claro. Mas o que interessa aqui é a a pergunta que não foi feita, e que seria quantos destes autores foram a uma "editora grande" propor os seus trabalhos?
Depois sem uma análise crítica das obras como validar a sua "marginalidade"? Querendo meter tudo no mesmo saco, como fazem sempre os "divulgadores / críticos / coleccionadores", apenas porque as editoras são "pequenas" este artigo comete o erro de não perceber que existem objectivos programáticos em cada "objecto": o Venham +5 e Toupeira Comix são publicações institucionais (da Bedeteca de Beja / Câmara Municipal de Beja) que investem em "talento local" (fora do "baralho marginal" portanto), o Lisbon Studio Mag é um portfolio de um atelier de autores comerciais (fora do baralho), o Zona quer mostrar novos talentos - estará dentro do baralho? E o Seitan Seitan Scum ao publicar os (re)conhecidos Filipe Abranches e Fábio Zimbres é o quê? (não sabe / não responde - na realidade apesar de nos terem sido enviadas perguntas para a realização deste artigo não chegamos a tempo de as responder) O que se pode acrescentar mais a esta "marginalidade"?
A bd portuguesa voltou à pobreza pública neste novo milénio, as tácticas são de sobrevivência que lá porque sejam "pequenas" não significam que não sejam "comerciais", basta pensar que uma das casas editoriais é antes de tudo uma livraria de bd - falo da loja Kingpin Books. Acredito que economicamente que muitos destes projectos até poderão crescer competindo no mercado com as "grandes" porque serão mais inovadoras e estarão a preencher nichos de mercado que as grandes tem deixado em aberto.
Editoras e autores "marginais" só são por estigma da bd em geral, não pela "raison d'être" dos conteúdos e das qualidades das suas obras, e por isso acho que vale a pena separar as águas.
Quanto ao "fervilhar de criatividade" referido pelo Paulo Monteiro (Director da Bedeteca de Beja), acho que merecia outro "post". Não parece que o Hans ou os outros títulos sejam capazes de fervilhar seja o que for mesmo que "aplaudidos pela crítica".

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Os 500 paus de 2016


Os cinco membros do Juri desta edição do concurso interno da CCC, Toma lá 500 paus e faz uma BD já decidiram sobre o projecto vencedor! 

O vencedor é Pinheiro-Bravo (título provisório) de autoria de Tiago Baptista, futuro livro de 50 páginas a publicar no final do ano na Colecção CCC, que trata da Greve Geral de 18 de Janeiro de 1934.

Uma sinopse possível segundo as palavras do autor:
Cresci numa aldeia perto de Leiria e quando era criança para irmos à praia passávamos geralmente pela Marinha Grande. O meu pai costumava contar, quando parávamos nos semáforos, que ali naquelas ruas tinha sido a primeira vez que tinha visto mulheres a conduzir bicicletas, ou pelo menos várias ao mesmo tempo. 

Eu era uma criança sem noção de que a Marinha Grande era um forte centro da Esquerda em Portugal devido ao grande número de operários naquela zona, sobretudo da industria vidreira. Só mais tarde me apercebi disso e a partir daí vejo a cidade com outros olhos, com respeito, talvez. Bem, as mulheres que o meu pai via, iam para as fábricas trabalhar. Eu imaginava-as vigorosas, cheias de energia, decididas. Emancipadas. Sei eu agora que era isso que pensava, mas não conhecia a palavra nem o seu significado. 

Esta imagem ficou marcada na minha cabeça! Há poucos anos tropecei, por acaso, num livro sobre uma Greve Geral que houve, ou que foi convocada em Portugal, durante o Estado Novo, a 18 de Janeiro de 1934. Em 1933 há uma "salarização" dos sindicatos que passam para o domínio do estado, face a isto é convocada uma Greve Geral. Essa Greve foi um fracasso, a maior parte dos dirigentes sindicais, anarquistas e comunistas são presos e alguns deles vão inclusive estrear o Campo de Concentração para presos políticos no Tarrafal em Cabo Verde. 

 A partir daqui tento desenvolver, uma estória do que aconteceu na Marinha Grande, contando com alguns documentos e teses do que se passou. Não se assegura a realidade dos facto. Este não será um documento válido para estudo catedrático. É uma pequena homenagem.





Foram entregues dezasseis propostas, a maior participação de sempre desde que começamos a promover este concurso em 2013, sendo que o nível médio da qualidade das propostas é bastante aceitável.

A maioria do Júri inclinou-se para o trabalho de Baptista por tantas razões que tornaria este acto de oficialização do vencedor deste concurso num ensaio! Invés dos argumentos fúteis (forte documentação e pesquisa, percurso do autor e a sua qualidade gráfica e narrativa, obra inédita e tema político) preferimos dois aspectos que são mais sólidos como a abordagem poética do autor sobre um tipo de trabalho que normalmente se insere na categoria de "BD Histórica" e pela ousadia do autor em querer reavivar episódios revolucionários nacionais que vão sendo saneados com as ideias tolas de que as revoluções em Portugal devem ser pacíficas ou feitas nas redes sociais.

A Associação Chili Com Carne agradece a todos os sócios que participaram nesta iniciativa, em especial aos que pagaram a sua quota anual e permitiram o prémio monetário - relembramos que actualmente as quotas anuais dos sócios tem como objectivo financiar o concurso "Toma lá 500 paus!" invés de serem apenas um mero pequeno investimento para o consumo com descontos das nossas publicações.

Esta iniciativa tem o apoio do IPDJ e relembramos que graças a este concurso foram publicados quatro livros, a saber: O Cuidado dos Pássaros / The Care of Birds (vencedor de 2013) de Francisco Sousa Lobo, Askar, O General de Dileydi Florez, O Subtraído à Vista de Filipe Felizardo e Acedia (vencedor de 2015) de André Coelho.


foto: Catarina Domingues
Tiago Baptista (1986, Leiria) licenciou-se em 2008 em Artes Plásticas na ESAD nas Caldas da Rainha onde começou a publicar fanzines em 2005. Em 2006 fundou a editora Façam Fanzines e Cuspam Martelos onde publica trabalhos seus no fanzine Cleópatra, e na forma de colectivo no fanzine Preto no Branco.
Vencedor do Prémio Aquisição Amadeo de Souza-Cardoso 2015 e do Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores em 2009. Das suas exposições destacam-se em 2016 Obscuro ver, Edifício do Banco de Portugal, Leiria e Questionamentos, Palácio Vila Flor em Guimarães e na Sala de Arte Joven em Madrid; em 2015 A pequena realidade, Galeria 3+1, Lisboa; em 2013 Prémio EDP Novos Artistas, Fundação EDP e Casa da Música, Porto, Under the influence of, João Cocteau, Berlim; em 2012 Tem calma, o teu país está a desaparecer, Galeria Zé dos Bois, Lisboa; em 2011 Guimarães Arte Contemporânea 2011, Palácio Vila Flor e Laboratório das Artes, Guimarães; em 2010 A culpa não é minha - Obras da Colecção António Cachola, Museu Colecção Berardo.
Em 2013 participou na residência artística da Culturia em Berlim e desde 2010 está em residência artística na Galeria Zé Dos Bois.
Em 2012 a publicação Fábricas, baldios, fé e pedras tiradas à lama co-editada pela Oficina do Cego e pelo colectivo a9)))) ganhou o Prémio de Melhor fanzine do Festival Amadora BD, que compilava bandas desenhadas suas feitas entre 2008 e 2012. Participou na antologia Zona de Desconforto da Chili Com Carne.

Bibliografia
- Fábricas, baldios, fé e pedras tiradas à lama (Oficina do Cego + a9)))); 2012)
- Stalker (col. O Filme da Minha Vida, Ao Norte; 2015)
- Imagem Viagem (col. Toupeira, Bedeteca de Beja; 2016)
colectivos: 
- Zona de Desconforto (Chili com Carne; 2014)
- Maga (entrevista, Chili Com Carne + Clube do Inferno + Thisco; 2015)

terça-feira, 4 de julho de 2006

Mais esforços aborrecidos... ou quantas aspas podes usar num texto?

Depois de uma Feira Laica em que se apostou forte e feio numa programação dedicada às edições independentes (zines, discos, livros, revistas, jornais ... fotocópias, edições limitadas, CD-R's, Netlabels, e tudo o mais que é paradigma do funcionamento DIY), e dado à emergência de uma nova vaga de edições portuguesas (de bd) que estavam lá todas representadas, acho que seria interessante, deixar algumas considerações e pensamentos.

Em parte o que se passa é que saíram mais umas "coisas" que remetem no "bater no ceguinho" já escrito no Dossiê 2005 do http://www.bedeteca.com/index.php?pageID=dossie§ion=fanzine&set_year=2005 (parte X. Novos Rituais de Passagem) e até em algumas "bocas" virtuais no blogue lerbd... Ser "indie" é um valor em si? Ser auto-editor, zinista, editor underground cria algum valor de qualidade per se?

- Não, há merda auto-editada tão má ou pior como o que sai pela Marvel, da Lombard ou da Universal. E vice-versa, os "grandes" também deitam cá para fora bons produtos.

- Sim, porque representa um "empowerment" para quem os faz, numa altura em que os grandes meios de comunicação submergem em oligopólios e a acção civil na sociedade vai tendo os índices de participação mais baixos de sempre.

Apesar disso, não acho que como consumidor activo (ou seja que divulga e critica) seja levado por um excesso de zelo em apoiar os trabalhos realizados destas micro-edições apenas porque são "pequenas" ou "frágeis". Posso achar "simpáticas" e apoiá-las dando alguma visibilidade pública e desejando "politicamente" (nos dias de hoje qualquer acto é um acto político) que elas cresçam e evoluam, e que sirvam de contrapoder às criações repelentes "mainstream".
O que me irrita mais no mainstream, são quando aqueles ressabiados das "boys-bands" ou aquelas escritoras lambidas dos "desculpa lá, mãe" (não sei o nome da porquita mas nem me vou dar trabalho de ir ao Google sacar o nome dela) vêem cá para fora armarem-se em artistas e/ou pessoas sensíveis. Que elas escrevam, cantem ou criem "trash", tudo bem, precisamos de nos rir de alguém mas terem o descaramento de se passarem por "artistas" é que é nojento. No mundo alternativo também há "wannabies", "arteistes" e carreiristas, mas também podes-lhe ir ao focinho porque ao contrário dos "stars", eles não tem guarda-costas, advogados, agentes e paneleiros à volta. Com um tipo de um zine ou de uma banda ranhosa sempre podemos atirar um tomate no concerto ou chamá-los de "azeiteiro" a noite inteira numa "vernisage" no Bairro Alto... Bem, o Bill Gates já levou com tartes, o que quer dizer que nem os "stars" sejam invulneráveis mas não é de violência a que me refiro. No "underground" existe este "terra-a-terra" que permite aceder a criação artística (quando é!) e quase que participar nela sem ser um mero consumidor. E esta "interactividade", ou melhor, esta capacidade de ver os projectos a aparecerem sem corrupções aparentes que faz deste mundo subterrâneo uma experiência forte, real e íntima ao contrário da produção corrupta Hollywood ou Rock in Rio onde os artistas estão em patamares de Deuses Olímpicos, a maior parte deles criaturas inacessíveis e deformadas - o Michael Jackson é um caso óbvio de uma psicopatologia vindo dos excessos Pop como ainda a Madonna que aderiu à Cabala ou o Tom Cruise à Igreja da Cientologia entre outras aberrações.

Independentemente das redundâncias que possam aparecer neste meio, sempre as prefiro, na esperança de encontrar algo genuíno e francamente poderoso, religioso, artístico, humano, e tudo mais no universo. Só assim é que explico a MMMNNNRRRG que vive de "gente bruta" como o Janus, Mike Diana, André Lemos, Christopher Webster entre outros. E que as melhores edições que sairam nos últimos meses foram edições "não-oficiais" como a revista Cospe Aqui ou os zines da Opuntia Books e Imprensa Canalha. E voltando atrás, houve outras edições de boas de intenções mas fracas de conteúdo:


24h Volta a Portugal em BD (Dr. Makete; 2006) foi dirigido por Phermad (do zine Terminal, participante do Mutate & Survive) e tem uma ideia fixe: percorrer Portugal (com autores estabelecidos pelo país) em 24h (cada autor fica com "uma hora" para desenvolver uma história / bd). Começa com Andreia Rechena (na Aldeia de Monsanto) à meia-noite e vai acabar na Serra da Estrela com Phermad, passando por Castelo de Vide (uma bela prancha de Teresa Câmara Pestana), Vilamoura (com o sarcástico José Carlos Fernandes) sem mais a acrescentar. Esta produção amadora (que até passa pelos arquipélagos da Madeira e Açores!) pouco opina (sobre as coisas, sobre eles próprios, sobre o que lhes rodeia) e pouco nos enche o olho graficamente falando. É este vazio (mental?) que me irrita nestas publicações - não me preocupa as "falhas" técnicas, seja lá o que isso quer dizer, mas sim o vazio "político" dos seus autores.
Com mais do que 24 páginas A5 bem impressas e bem paginadas - Fernando Madeira, aka Phermad, há muito tempo tem dado provas que é um bom designer - sabem a pouco. [3]


Venham +5 #2 (Bedeteca de Beja / CMB; Abr'06) está melhor que o primeiro número a começar pela capa de teor homo-erótico. Curiosamente o estilo gráfico da capa nada tem a ver com a bd no interior, do mesmo autor, Zé Francisco - menos conseguido e uma pastiche do "Traço de giz" de Miqueanxo Prado. Dizia eu que estava melhor na essência pelos grafismos mais sólidos dos seus autores, a começar pela Susa Monteiro ("davemckeanesca" mas muito bem executada), continuando por Paulo Monteiro (em registo David B assumido) e acabando no violento Pedro Amorim (Janus meets Manga? Hohohoho). Na essência pelas páginas vamos quase sempre encontrando uma "teenage angst" pouco arrebatadora. A revista neste número encontrou-se aberta a colaboradores fora do talento local (de Beja) mas não foi desta que nos conseguiu agarrar pelas mesmas razões apontadas acima no "24h". [2,8]


Space & Co. (Bedeteca de Beja / CMB; 2006) é o segundo título da colecção Toupeira, uma colecção idêntica à Lx Comics (da Bedeteca de Lisboa) por editar as primeiras bd's a solo de autores num formato "livro" - embora seja um "comic-book" de formato. Lam é o autor de uma bd pantomima, cómica e paródica à ficção científica estereotipada: naves espaciais, monstros-aliens, armas lazer, etc... Apesar de Lam ser um dos autores mais capazes da pandilha de Beja no que diz ao grafismo (de longe um amador, fazia os divertidos "Kama-sutras Obeso" n'O Fiel Inimigo), falha os seus objectivos de não usar palavras - a dada altura não pára de usar balões com números e/ou desenhos dentro dos balões - para além de ser pouco extravagante e pouco ritmado na narração. O que é mesmo uma pena! [2,7]



Allgirlzine #1 (Daniel Maia; Abr'06) é mais uma experiência de colocar em papel (de registo e de incentivo) bd feita por autoras - há uma década o Azul BD3 fez 2 números com o mesmo objectivo embora houvesse uma forte participação de autoras estrangeiras. Neste vamos encontrar bd infantiloíde e juvenil, e não é por acaso que as melhores bd's são de duas jovens adultas: Carla Pott (com texto de Alain Corbel) e Rosa Baptista. O que parece um erro, assumir que uma edição terá interesse em aglomerar uma jovem que goste de animaiznhos, outra que poderá gostar de sofrer uma depressão, e outras que já tem uma visão artística mais definida. Não faz muito sentido mesmo sobre o mote de "vamos fazer uma mostra de talentos femininos". Ficamos mais uma vez pelas boas intenções e pouco mais, para não repetir o que já foi dito no Dossiê 2005. O que aliás, me desconsola imenso, perdendo ligeiramente a fé nestas coisas dos zines. [2,8]

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Banqueiro 00001 - Zé Povinho 26117* [um relatório atrasado sobre fanzines e edição independente 2020/21]

*John Hopkins Hospital (contagem portuguesa de mortes por covi19 a 17/02/23)


Depois de dois anos de pandemia covid-19 e o encarceramento das populações e das suas economias, ninguém aprendeu nada. Foram anos de oportunidades perdidas. Por isso, não vale a pena ser simpático com nada nem ninguém. Não, não quero a normalidade antiga. Não quero a poluição do mundo Antes do Confinamento (A.C.), não quero o esterco do turismo massificado, da especulação imobiliária, uma cidade (re)criada para os seus não-residentes - o que significa uma reestruturação social e económica, desde os transportes públicos às lojas ou até a forma de realização dos mercados de edição independente, como planeava uma Raia fazer no 25 de Abril de 2020 para apanhar a estrangeirada e que não aconteceu pelo óbvio.

Foram anos de quase pureza e expurgo. Ou talvez não, ninguém aprendeu nada ao continuar a comprar "bens essenciais" à Amazon ou por ser preguiçoso demais para cozinhar, preferindo mandar vir MacMerda pelos Ubers da vida. Antigos saberes estão sempre a perder-se, diz-se, o mais simples deles todos é que "o barato sai caro". Esse "barato" que já nos está a sair dos nossos bolsos incluindo para aqueles que não usam voos "lowcost", "air'n'b" ou ubers. Aliás, agradeçam ao turismo lowcost pela pandemia se ter propagado pelo mundo. Agradeçam ao consumismo desenfreado por desencadear estas doenças - ninguém quer assumir que é isto que cria estas desgraças e não uma conspiração do reptiliano chinês que nos quer matar a todos e ganhar guito comercializando vacinas logo a seguir. 

E sobretudo agradeçam aos ricos para terem trazido a doença para Portugal. Ainda havia a esperança, o dado público que o segundo morto por covid em Portugal tinha sido o Presidente do Santander - que foi esquiar para o norte de Itália - e que o bicho só batesse no patriarcado branco velho com pasta. Nada mais errado...


Cerca sanitária

Não podíamos sair de casa ou se quer do concelho mas turistas manhosos passaram pelos aeroportos sem um único teste ou quarentena...Seja como for não foram anos de viagens a certames estrangeiros. 

A.C. a Imprensa Canalha e Gonçalo Duarte estiveram no Tenderete (Espanha) e a Chili Com Carne no Festival de BD de Angoulême (França). "Ponto final" para dois anos, embora não seja de ignorar a Jornada de Banda Desenhada em Português na Maison des Sciences de l'Homme, em Clermont-Ferrand (França), evento académico com uma comitiva grande de portugueses e o Filipe Abranches que esteve no Festival de BD de Varsóvia, isto só em 2021, claro.

Em compensação a norte-americana Aidan Koch (A.C.) e o francês Edmond Baudoin passaram por Lisboa, cortesia da galeria / livraria Tinta nos Nervos, que manteve uma programação audaz de exposições - não esquecendo o regresso de André Lemos a estas lides. Em 2021 trouxeram o finlandês Tommi Musturi.

Num ano em que não houve o festival de BD de Beja e da Amadora, o que aconteceu? Nada! Ninguém deixou de aprender mais sobre BD por eles não terem feito as suas exposições promotoras de "loureados", melosos e betos. O Festival de Beja, em 2021, trouxe o espanhol Bartolomé Seguí e o francês Vincent Vanoli, o Festival da Amadora nada de jeito, só uma cambada de mercenários franco-belgas sem interesse, já para não falar da fábrica das sessões de autógrafos deste certame que era uma verdadeira festa da mangueira. Do que vale de muito ter mulheres como directoras deste festival? Lembrando que o covid em 2020 salvou o festival de passar a vergonha de ter um "date-rape" com as exposições dedicadas ao Drácula, Druuna e Luís Louro... Em 2021 a "nossa" Ana Margarida Matos safou este festival de não parecer um anacronismo dos anos 80, ainda assim a organização apresentava-a como "uma miúda e a sua primeira exposição". Espero que se tenham engasgado quando a "miúda" começou a aparecer em tudo o que era jornais, rádio e TV.


Internacional

Se a consequência maior que trouxe o covid foi este cancelamento dos eventos, o que não é propriamente mau se pensarmos nos certames de "bedófilia", mais grave terá sido para os editores independentes e os seus mercados. Sendo que as edições que produzem a maior parte das vezes não estão em sítios oficiais - como livrarias - criou-se este padrão de produção e consumo: os artistas só (auto)editam publicações para estes eventos e sem eles não faz sentido sequer produzi-los. O problema vem de trás, do sucesso da Laica (2004-12) seguido pela Morta, Raia, etc... que criaram este vício. A maior parte dos editores de zines e afins foram incapazes de alargar o campo de leitores e da distribuição nestas últimas décadas sem ser por estes "grandes" eventos. Talvez tenham esquecido de que os fanzines eram internet "avant-la-lettre" quando apareceram nos anos 30 do século passado. O seu sistema colaborativo incluía contactos de outros fanzines ou nos envelopes dos zines em que caíam à barda "flyers" e outra papelada efémera sobre os zines ou bandas ou distros. É certo que o que escrevo já não faz muito sentido (embora ainda hajam subculturas que o façam) mas também não sei qual seria a alternativa. Só acho estranho que apesar das redes sociais permitirem uma difusão muito maior do que o clássico "papel", parece que tudo bloqueou sem nenhum rasgo de génio ou um pensamento alternativo.

O que não é de estranhar é que muita da produção nacional passou pela edição estrangeira, provando que há mais estruturas funcionais lá fora do que cá. Desde a edição em polaco de livros como Kassumai de David Campos e Salazar : Agora na Hora da Sua Morte de João Paulo Cotrim e Miguel Rocha, História de Lisboa de A.H. Oliveira Marques e Filipe Abranches e Selva!! de Abranches, Tu és a mulher da minha vida, ela é a mulher dos meus sonhos de Pedro Brito e João Fazenda (na verdade uma reedição na Polónia, caso inédito!), O Amor Infinito que te tenho de Paulo Monteiro na Turquia, O Cuidado dos Pássaros de Francisco Sousa Lobo em França, tudo isto em 2021; livrinhos inéditos de Hetamoé, Joana Estrela (2020), Ema Gaspar e Dileydi Florez (2021) na colecção mini kus, cuja "antologia-mãe", š!, publicou Ana Maçã, André Lemos, Cátia Serrão, Daniel Lima, Francisco Sousa Lobo e Joana Mosi (2020) e ainda Ivo Puiupo (2021). Lobo também publicou na revista C'est Bon (Suécia), Patrícia Guimarães na eslovena Stripburger - com direito a um ensaio sobre a sua bd, outro facto inédito! - e Rui Moura participou na Wobby (Holanda) e na croata Komikaze (2021). Bruno Borges, em 2021, tanto lançou um inédito na Austrália - Comics to the end of the world - como viu A Abolição do Trabalho, de Bob Black, editado no Brasil. Também participou em Opposights, colectânea de artistas australianos e portugueses a reflectirem sobre a BD, em que incluia ainda Pedro Burgos, Rui Moura, Hetamoé, Gonçalo Duarte, Amanda Baeza, Cátia Serrão e Mariana Pita. Borges, Serrão e ainda Diniz Conefrey, Sara Frágil, Carolina Martins com João Carola e Pedro Moura com João Sequeira, participaram em Autofagia, uma antologia do Brasil de BD abstracta...

Nunca houve tanta internacionalização, mostrando que é mais fácil publicar lá fora do que nas miseráveis editoras portuguesas ou deve-se interpretar que a qualidade destes autores cresce a nível internacional? A verdade é que Hetamoé teve direito a estar incluída nos "melhores do ano" no The Comics Journal, a "Bíblia da BD", outro facto inédito!


Diários do Corona

As edições em Portugal previstas para serem repartidas durante o ano inteiro tiveram atrasos, claro, passando-se quase oito meses sem novidades, tirando publicações que já estavam a ser impressas apanhando o fecho da vidinha em Março. Foi o caso da antologia Pentângulo #3, da Ar.Co. e Chili Com Carne mas o "pior" terá sido para o impressionante número dois da revista cultural Bestiário - que incluia uma BD de André Coelho que em si já seria um livro de BD! O "Monstro" (tema desse número) tinha 656 páginas superiores ao A4, imaginem a loucura de ter este "monstro" cá fora com tudo fechado. Em 2021, saiu pela editora Bestiário um álbum luxuoso de Coelho, Mnemosina.

Antes de tudo fechar a Chili Com Carne editou o livro/ disco eye18 dos Krypto (melhor banda portuguesa se pudessem ter incendiado os palcos em 202) com BD de Rui Moura e Paricutin de Gonçalo Duarte. Depois quando o país reabriu avançou com livros de Rodolfo Mariano, Tiago Manuel, Ana Margarida Matos e Francisco Sousa Lobo - este último lançou a sua publicação Palácio. Mantiveram-se a lançar novos números, os zines Shock em eterna homenagem ao Estrompa (1942-2014), Olho do Cu (e com um especial Salteador de Caralhos de Carlos Carcassa), Rodolfo Mariano com o MALS #00 (número 2), Lucas Almeida com O Hábito faz o Monstro e Planeta Satélite de Ricardo Baptista e a revista Umbra. Saiu O Filme da Minha Vida com Joana Mosi, Venham +5 e colecção Toupeira, da Bedeteca de Beja, em 2021. O Mesinha de Cabeceira voltou com André Ferreira e numa atitude "back to the basics", ou seja, zine de poucos exemplares. Melhor ainda foi o regresso do Opuntia Books de André Lemos, com tiragens menores mas com um rigor de qualidade que sempre teve. O mesmo foi publicado pela Antumbramucomorphia (de Filipe Felizardo) com o vitaminado Sasquatch. De referir também o desenhos compilados em Defects do norte-americano Thomas Grant Stetson pela Black Blood Press.

Inevitavelmente surgiu o fenómeno de registrar as aventuras com o bicho, indo desde o humorzinho em tirinhas de Gente confinada é Outra coisa de Zépestana ao burgesso islamofóbico do Luís Louro compensado pelos espertos Nuno Saraiva e André Ruivo (na onda de cartoon ou desenho), o experimental Hoje Não de Ana Margarida Matos e os dois volumes de Diários do Corona de Bruno Borges, co-editado entre O Gorila (de Borges) e a nova Fojo (de Pedro Nora), os dois volumes abarcam o início desta loucura pandémica incluindo os problemas laborais, as responsabilidades paternais, o absurdo da 'net, a casa com ratos e finalmente voltar a uma normalidade no Norte de Portugal, seja lá o que isso quer dizer. O desleixo de Borges é algo irritante, sabendo que ele poderia ser mais "comunicativo". Mas vale a pena ser mais formal num ausência de mercado A.C. ou Depois Covid? Quem liga a bonecada?

Ninguém liga! Dois projectos morreram em 2020, sem festas nem homenagens, foi-se a editora "só para gente bruta" MMMNNRRRG que desde 2018 já tinha anunciado a sua morte e a "não-binária" Sapata Press. Apesar da radicalidade de ambos os projectos (ou justamente por isso mesmo) ninguém se importou com os falecimentos, tirando uma entrevista à MNRG pelo sítio em linha Bandas Desenhadas. 

Dois nascimentos em 2021 para compensar estas perdas: a Magma Bruta com edições em risografias de meter inveja a qualquer produção mundial, João Silvestre e a sua parceira emigraram para Hamburgo e de lá fizeram um projecto de sonho - porque é que nunca o realizaram cá? Eu não sei...; e claro, a Sendai, editora especializada em Gekiga para nos salvar da modorra Manga para crianças que se edita neste país, talvez pelo responsável ser brasileiro que só assim que foi publicado Hideshi Hino ou Imiri Sakabashira.

O Clube do Inferno passou a ser MASSACRE, é o mesmo núcleo de artistas sem o Astromanta, mas já lá iremos... Desde já pode-se dizer que lançaram três maravilhosos livros, dois deles da autoria de Mao.


Digital sickness

Foram anos de consumo digital - fosse pela compra digital de bens e serviços com o fecho das lojas, incluindo o crime de não considerar as livrarias como fornecedoras de "bens essenciais" apesar de termos um Presidente da República que ganhou eleições à pala de ser um dito ávido consumidor de livros. Esse fecho de estabelecimentos fez com que se pensasse novas formas de organização para resistir aos grandes (Wook, por exemplo) tendo nascido RELI  - Rede de Livrarias Independentes Portuguesas. 

O consumo de cultura por Internet foi um fartote mas pouca coisa será de lembrar como "arte" (pelo menos na BD), a única surpresa digna de nota da BD portuguesa no mundo virtual foi Forceps de Ricardo Paião Oliveira, no já referido sítio Bandas desenhadas. 

Claro que ninguém irá esquecer-se das videochamadas em que pessoas não conseguiam retirar filtros/máscaras de gato virtuais ou de serem apanhadas a baterem punhetas em reuniões porque tinham a câmara ligada. Por cá, houve a galhofa total da Feira Gráfica e os seus vídeos de scandales de galeria. Sobre a Gráfica, digo apenas como um representante da cena editorial "indie" de que não precisamos deles para ter inspiração ou motivação no ano fora do normal de 2020. E muito menos precisamos de um slogan de merda (olha a pérola: Continua a publicar!) que só diz que quem organizou o evento mais risível do ano não fez um mínimo esforço de discutir ou solucionar o problema principal da edição "indie". Não é a publicação per se que corre risco de "morrer" por causa do covid19 mas é a distribuição dela que era preciso "resolver". Os intermediários NUNCA ajudaram este meio. Quem nunca percebeu que curadores, merchants, lojistas ou galeristas NUNCA fizeram parte da equação de quem luta como editor independente, aliás, sempre fizeram parte do problema. Também ninguém percebeu um caralho o que foi a Feira Laica e outros eventos idênticos em que a horizontalidade definia os eventos e não uma selecção vertical. Tudo ainda pior, quando mete uma Câmara Municipal de Lisboa que nada oferece de cultura aos seus munícipes desde que apareceu o rentável turismo de massas. Esta meteu dinheiro nos "curadores" para salvarem a "cena", ofereceu um espaço digno para dar nas vistas sem sujar as mãos e o streaming fez o espectáculo imundo que os aficionados da 'net querem. Foi demais! Em 2021 os "curadores" chatearam-se mais uma vez e morreu a Gráfica. Ámen!

De forma dissimulada, na BD de Mariana Pita publicada no já referido Opposights, uns "fofinhos" dizem tudo:


O Tiago Baptista é que foi esperto, lançou o seu fanzine de Skate num parque abandonado da EMEL. Assim ao ar livre, com uma toalha para piquenique pôs à venda o Skate Snake Zine e mostrou documentos seus ligados ao Skate. Um evento underground que fugia às paranóias higiénicas e à licença comercial - novamente era num espaço ao ar livre que permitiu o encontro de várias comunidades: malta da edição, malta do desenho e malta do desporto radical - e sim, havia skates para iniciados darem tombos. Como escrevi anteriormente, os zines e afins não podem estar apenas ligados "comercialmente" (distribuição) a "eventos grandes". Não é só por causa de uma catástrofe como foi da pandemia que se perde o canal de distribuição. Não pode haver um canal apenas mas vários, é a sua obrigação assumir-se uma figura de propagandista, de procurar novas pessoas que ignoram que os novos autores de BD são interessantes ou melhores que o lixo das editoras comerciais. Se cada editor "indie" não procurar novas formas de distribuir ou divulgar o seu trabalho (e por consequência de outros colegas seus) irá pregar apenas para os convertidos e colocar o termo tecnocrata na sua produção: "nicho". Palavra que anormais por aí adoram empregar para desprezar a produção deste mundo editorial cheio de Arte. Obrigado ao Tiago por esta lição de humildade.

A incapacidade de adaptar às mutações legais-higiénicas do Covid, em que dia para dia mudavam regras de acesso aos estabelecimentos comerciais atrapalhou a Raia que só em 2021 conseguiu fazer uma feira de manhã até às 15h30, em Junho. Em Dezembro foi o fiasco Parangona na ZDB, desta vez porque a galeria aceitou ter um mercado de editores mas não prescindiu de ser clube ou casa de espetáculos, obrigando ao público a testes de detecção do vírus, numa altura que se demoravam horas de espera nos centros de testes. O público retraiu-se, as vendas dos editores foram quase zero!!! A ZDB pareceu uma criança que ganhou um brinquedo mas que não quis partilhar com as outras crianças. Triste. 

Houve o regresso da Necromancia Editorial em Guimarães, o primeiro evento de edição independente depois do isolamento de 2020. A vida realmente voltou aos poucos no ano seguinte e destaco o que aconteceu no Porto, a gente esperta de lá soube contornar as confusões legais usando vários espaços no Perímetro. E também de referir a Feira Anarquista do Livro em Setembro num descampado lisboeta - onde se encontrava uma BD em português sobre as prisões pelo italiano Zerocalcare; e o MAL, Mercado Aberto do Livro, uma reação aos excessos de cartazes de ilustração em serigrafia ou risografia das outras feiras, e portanto apostou com sucesso no formato... livro!

Por fim, voltando à questão da falta de eventos em 2020, não havendo Amadora nem Beja, não deixou de haver boa programação e uma distância às organizações "bedófilas" que são as que menos arriscam em artistas novos ou ideias novas. Assim ainda A.C. nascia o colectivo MASSACRE com uma exposição intitulada Loot Box que era inaugurada em Janeiro na Biblioteca da FCT NOVA (Monte de Caparica), longe das pranchas nas paredes, os três artistas, André Pereira, Hetamoé e Mao preparam instalações, desenhos e vídeos que transpunham a ideia a ideia de "narrativa gráfica", a lembrar esforços do passado como o Zalão de Danda Besenhada (2000). Adiada com a pandemia, surpresa incrível a exposição de Rudolfo com uma retrospectiva na Galeria Municipal do Porto e o seu belo catálogo. Se pode parecer estranho uma retrospectiva de alguém tão novo, digo só que a quantidade da produção - sempre ignorada pelos festivais "bedófilos" - é superior em quantidade e qualidade até do que alguns "cromos" que são defendidos nesses festivais "especializados". Houve também o VAST/O de Carolina Martins e João Carola no Banco das Artes em Leiria e seguiu-se outras retrospectiva desta vez do Quarto de Jade, do duo Diniz Conefrey e Maria João Worm, no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa. E claro, relembro as muitas exposições já referidas da Tinta nos Nervos, suficientes para substituir qualquer programação dos Festivais. 

De repente até parece que a BD ganhou um estatuto de arte séria. Foram coincidências apenas, bem sei, estas exposições em museus e galerias. É pena termos de voltar a ir aos festivais de BD para ver exposições, sobretudo quando o que vemos é a papinha fornecida pelas editoras profissionais portuguesas e não produções vindas dos artistas, o elemento que mais sofre no meio disto tudo. Esta subversão comercial afecta a cultura da BD em Portugal, minimizando a ideia de BD a monstrinhos com machados & violações mutantes do corpo feminino, já para não falar da BD "light". Tudo isto tem regredido o gosto nacional aos níveis piores que infantis e juvenis dos anos 90. 

Voltem os confinamentos se só assim é que veremos BD em galerias e museus! Embora, convém dizer: foda-se a Gulbenkian com a sua exposição higiénica do Hergé! Estamos num novo milénio, não há melhor para expor? Os vizinhos espanhóis por exemplo preferiram o norte-americano Victor Moscoso, um dos heróis do underground comix, nos seus museus nacionais. É só esta a grande diferença entre betalhada tuga e nostros hermanos...


A Batalha

Lembram-se na greve de fome dos donos de restaurantes? Sim alguém cuspiu numa das mais radicais formas de combate politico nesta nossa sociedade do espectáculo. Idiotas e fachos também os há na BD portuguesa. Mas muitos mais existem os que não o são! Nestes anos de luta social, alguns estiveram em cozinhas comunitárias a servir refeições para os marginalizados da sociedade, outros em manifestações contra o racismo e outros a defender a Seara – Centro de Apoio Mútuo de Santa Bárbara - podem ler sobre o assunto em BD n'A Batalha #288/289, autoria de Gonçalo Duarte, sobre mais um episódio de destruição capitalista em Lisboa.

Nesse mesmo número publicou-se ainda uma BD do mestre espanhol Max com uma obra nova sobre este Manifestamente Anormal curso dos governos na gestão da pandemia. Todo esse número deveria ser obrigatório estar nas casas das pessoas pela sua lucidez. No #292 outra jóia de BD, desta vez do polaco residente nos EUA Tom Kacznski sobre a farsa do empreendorismo. Um dos autores mais inteligentes do momento com uma tradução em português. Obrigado Batalha! 

Foi o único jornal que pensou invés de ter notícias sobre como fazer pão e aturar a puta da família que ajudaste a criar, fucking breeder, que desmontou o jogo dos governos. Na grande imprensa só se apanhou modorra burguesa, onde não havia pensamento dos sem-abrigos, vendedores, artistas e músicos de rua ou dos emigrantes em casas sobrelotadas. O enfado mórbido da classe média em que o trabalho é vida e vice-versa, foi emocionante. Tiveram de comprar livros e discos como nunca, alguns até aprenderam a ler se calhar... As vendas em linha subiram com as lojas fechadas. Tudo ficou à espera de reaberturas, e no meio deste fogo a Snob mudava de morada e continua a ser aquela livraria "generalista" que apoia a edição independente com unhas e dentes. Obrigado a eles por venderem bons livros.

Pelo Monde Diplomatique foram dois anos de BDs publicadas de alto nível artístico com trabalhos de Hetamoé, Sara Boiça, Tiago da Bernarda, Ana Biscaia, Rodolfo Mariano, André Lemos, Cátia Serrão, André Pereira, Alexandra Saldanha, Mao, André Ferreira e Rudolfo.


Digital outra vez, pá!

É sabido que a cultura sobre BD não é dieta dos portugueses, até mesmo por aqueles que a consomem. Longe vão os anos 90 quando a revista Quadrado + distribuidora Neuromanso + Salão do Porto divulgaram a Fantagraphics ou Drawn & Quarterly. Ou se pensava na BD no fanzine Nemo ou na década seguinte, na revista Satélite Internacional ou no livro Sobre BD de David Soares. O espaço de divulgação aumentou com a 'net mas diminuiu quem divulgue de forma crítica, informada, adulta e reflexiva. Terreno vago em que transitam badalhoquices e tentativas bacocas de "influencers". Nada que faça abrir mundos. Com bicho covid ou sem ele, quase nada mudou neste panorama da referência ou crítica. Só meia-dúzia de curiosidades e apontamentos:

- a revista polaca Zeszyty Komiksowe, sobre BD e que dedicou um número especial à BD portuguesa e brasileira em 2021. Não sabemos o que dizem da cena portuguesa mas topámos o artigo inesperado de Pedro Réquio intitulado A Banda Desenhada enquanto produto das mudanças sociais e políticas em Portugal durante a década de 1970 a ser publicado em português na Revista Libertária um dia destes;

- duas participações portuguesas no sítio de referência norte-americano Solfad com três artigos de Joana Mosi e uma entrevista a Tânia A. Cardoso;

- uma entrevista antiga mas inédita a Carlos "Zíngaro" publicada na Pentângulo #4,

- com o jornal A Batalha parado durante o confinamento, voltei a escrever e a promover alguns livros  de BD neste blogue - houve quem ficasse feliz, nunca pensei... Eu é que fiquei feliz pelo regresso, embora nostálgico, de Domingos Isabelinho ao seu blogue; 

- Hugo Almeida escreve um brilhante ensaio sobre Yuichi Yokoyama numa brochura que acompanha, a maior parte das vezes, o livro Viagem;

- surgiu (e desapareceu) uma revista de música, Pista, que fez um artigo sobre o Rudolfo enquanto músico, tornando este ano de merda no "ano do Rudolfo", uma vez que toda sua breve vida já ficou toda registada com este artigo na revista e com o seu catálogo da exposição da Galeria do Porto acima referido;

- nos campos gráficos para quem gosta de BD é de referir VelvetNirvana, exposição da colecção particular de António Neto Alves (um cromo?) que aconteceu no Pavilhão Branco do Museu da Cidade de Lisboa onde se viu cartazes do melhor grafismo punk: Gary Panter, John Holmstrom e Raymond Pettibon; 

- também pela via museu, focado na pintura houve a exposição de Eduardo Batarda, Great Moments na Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva;

- o mais importante foi a reedição de No Lazareto do Rafael Bordalo Pinheiro, não era a primeira vez que tenha havido uma reedição desta obra importante de 1881 - em 2003 foi a Frenesi que o fez num gesto de coragem que nenhuma editora "bedófila" seria capaz de  o fazer. É um diário de viajem, autobiografia, comentário social e político para quem ficou em quarentena vindo do Brasil, isto tudo umas décadas antes do Crumb ou Pekar! Edição da Pim! e Museu Bordalo Pinheiro.


FIM

Entre toda a mortandade neste mundo, houve várias mortes de autores e artistas de BD. Pareceu que estávamos no fim de uma Era dada a importância de nomes como Uderzo, Quino, Sokal, José Garcês e Juan Gimenez - este último, o único falecido com relação directa com o vírus. 

De referir também o falecimento do editor Jorge Machado-Dias da Pedranocharco e do BD Jornal. 

Mas sobretudo a tristeza chamou-nos por aqueles que nos fizeram crescer artisticamente e intelectualmente como Claire Bretécher, Gene Deitch, Richard Sala, Gary Leib, Ron Cobb e S. Clay Wilson.

Noutra dimensão surreal foi desaparecimento daqueles que publicámos ou que nos eram amigos, Henriette Valium, Ward Zwart, João Paulo Cotrim e Isabel Lobinho. 

Neste final de relatório sobre a cena portuguesa, as nacionalidades pouco valem, só os sentimentos íntimos.