blogzine da chili com carne

sábado, 18 de Outubro de 2014

Gémeos da Mãe

Mais boa música da 'net! Continuamos a ouvir excelente música portuguesa na World Wide dWeb:

Se no passado tivemos Derek Bailey (1930-2005) em que podemos encontrar Manuel Mota um seguidor, hoje com o aparecimento dos irmãos Sequeira essa linha de discípulos aumenta! Quis o trágico destino unir estes irmãos para sempre com os seus conflitos inerentes. Mas foi a Música que desde cedo lhes apaziguou os seus espíritos e os uniu num fito comum! Não tendo pejo em assumir a sua deficiência genética num nome de guerra, eis os Siameses da Mãe e o seu primeiro tema registado nos estúdios Outsourcing: Mexe-te devagar no barco.

Um tema que diz-nos muito, talvez demasiado (no bom sentido, claro); diz-nos que é na simplicidade que Siameses da Mãe se apoiam para nos oferecer músicas de corpo cheio, onde os vazios sonoros, são muito escassos, quase inexistentes. A música nunca pára, assume uma continuidade que nos mantém presos de uma ponta à última, porque talvez exista sempre algo que os Sequeiras nos queriam dizer. O modo como se prende o ouvinte é sublime, a magistralidade com que tocam são, hiperbolicamente, humanamente impossível. São tão ágeis que não nos parecem humano; será que têm mesmo quinze dedos?

Este tema dos Siameses da Mãe foi gravado por Assinante 35278/TW com a produção de Walt Thisney nos estúdios Outsourcing (Oeiras).


Erzsébet, o grande regresso de Nunsky, admirado pelo Lord of The Logos!



Erzsébet
por
Nunsky

17º volume da Colecção CCC editado por Marcos Farrajota.
Design por Joana Pires
144p p/b 16,5x23cm, capa a cores
500 ex.
ISBN: 978-989-8363-24-4

Sinopse: Erzsébet Bathory, a infame condessa húngara contemporânea de Shakespeare, ao contrário deste, incarnou como poucos o lado negro e animalesco do ser humano. São-lhe atribuídos centenas de crimes inomináveis que lhe grangearam alcunhas como "Tigreza de Csejthe" ou "Condessa sanguinária" e que a colocam no mesmo lendário patamar de bestas humanas como Gilles De Rais ou Vlad, o Impalador. Por detrás do seu rosto pálido, de olhar impassível e melancólico ocultava-se o próprio demónio, Ördög.

PVP: 15€ (desconto 50% para sócios CCC, lojas e jornalistas).
Já à venda na loja em linha da CCC, e na Mundo Fantasma, El Pep, Feira do Livro de BD e PoesiaArtes & Letras, Pó dos Livros,...










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sobre o autor: Nunsky é um criador nortenho que só participou no zine Mesinha de Cabeceira. Assina o número treze por inteiro, um número comemorativo dos 5 anos de existência do zine e editado pela Associação Chili Com Carne. Essa banda desenhada intitulada 88 pode ser considerada única no panorama português da altura (1997) mas também nos dias de hoje, pela temática psycho-goth e uma qualidade gráfica a lembrar os Love & Rockets ou Charles Burns. O autor desde então esteve desaparecido da BD, preferindo tornar-se vocalista da banda The ID's cujo o destino é desconhecido. Nunsky foi um cometa na BD underground portuguesa e como sabemos alguns cometas costumam regressar passado muito tempo...

Feedback: Muito boa BD, me inspira para criar logotipos Lord of The Logos (via e-mail) ...

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Dead Pombo

Novas de música na 'net que gostamos e queremos divulgar: os Dead Pombo!!!  Como eles dizem algures: Finalmente lançamos um projecto que nos ficou engasgado desde 2005 quando participamos na compilação Portuguese Nightmare, um tributo aos Misfits, e ouvimos a excelente versão de Dead Combo para o não menos excelente tema Angelfuck. Achamos na altura que esta dupla ‘tuga é que merecia ser homenageada e depois de muitos atrasos devido aos compromissos com os nossos outros projectos mais comerciais, finalmente Dead Pombo levanta voo! Eis o primeiro tema, uma rapsódia que reúne os temas Tejo Walking (2004), Um Homem Atravessa Lisboa (Na Sua Querida Bicicleta) (2007) e Blues da tanga (2011), que mostram como os Dead Combo conseguiram afirmar-se como uma força criativa nos últimos 10 anos. Esta é a nossa forma de homenagear um dos projectos nacionais mais interessantes de sempre. - Dead Pombo (Pica &  Zézinho), Almada 2014.  Gravado nos Estudios Outsourcing, Oeiras. Agradecimentos ao Walt Thisney pela produção.

 

QUADRADINHOS : Sguardi sul fumetto portoghese / Looks on Portuguese Comics



Treviso Comic Book Festival is the third most biggest Comics Festival in Italy but still is a relaxed event and most important it has a good eye on comics made outside of Italy! Blame Alberto Corradi for this, as curator he already made exhibitions about Sweden, New Zealand, Denmark and this year... Portugal!

And for the first time there's a catalogue thanks to the effort of Treviso Fest, Mimisol and Chili Com Carne with the important support of Portuguese government - DGLAB and IPDJ institutions.

This catalogue is a comics anthology made by the artists invited for the festival's exhibition and includes a preface by Marcos Farrajota and a small History of Portuguese comics by Corradi. Most of the comics have been published in Portugal but then... have you seen them?

So you can enjoy 88 pages of comics (most are full colour) of a wide range of authors, coming from the underground to the international mainstream and from the new breed to older artists: João Fazenda, André Coelho with Manuel João Neto (same team of Terminal Tower), José Smith Vargas, Ana Biscaia (Best Portuguese Illustration Prize 2013) with João Pedro Mésseder, Nuno Saraiva, Francisco Sousa Lobo (The Dying Draughtsman, Art Review), Afonso Ferreira (Love Hole), Pedro Burgos, Filipe Abranches, Miguel Rocha with Susana Marques, Joana Afonso with André Oliveira, Jorge Coelho (Image, Marvel) with Paul Allor (from USA), Pepedelrey and Rudolfo (Negative Dad).

Book written in Italian and English.

You can buy it HERE (15€, free postage for EU countries)
and soon in the following stores:

Bestiário Ilustríssimo (2ª edição)

O Bestiário Ilustríssimo foi reeditado com uma nova capa e mais ilustrações. Está disponível ao público na nossa loja em linha e em Setembro nas livrarias. Entretanto para quem tiver aquela pancada que a primeira edição valerá muito mais no "futuro-reforma-pensão-para-pagar-os-estudos-ao-puto" pode recorrer às lojas que têm ainda essa edição (ver mais abaixo) ou podem comprar os últimos 5 exemplares AQUI.



capa de Joana Pires
  Bestiário Ilustríssimo é uma nova colectânea de textos sobre música de Rui Eduardo Paes: O melhor jornalista de música em Portugal. Um musicólogo reconhecido entre alguns músicos portugueses e virtualmente desconhecido do grande público. É fiel à sua integridade, porque só escreve sobre música que considera merecedora de atenção: por a considerar esteticamente bela, mas também porque a sua imensa cultura musical lhe permite adivinhar e percorrer novos caminhos no preciso momento em que estão a ser trilhados pelos músicos. Contudo, nada tem de elitista.
Entre os vários músicos referidos nos 50 textos que compõem este livro vamos encontrar Elliott Sharp, Merzbow, Mão Morta, RED Trio, Carlos "Zíngaro", Sei Miguel, Rafael Toral, Charlotte Moorman, Ahmed Abdullah, Aki Onda, Steve Lehman, Thisco, Nate Wooley, Genesis P.Orridge, Metthew Herbert, Nobuyasu Furuya,... entre várias outras referências que passam pelo multi-media, artes plásticas e banda desenhada.
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Volume -2 da colecção THISCOvery CCChannel
Publicado pela Chili Com Carne e Thisco, em Abril 2012, com prefácio de Marco Santos, ilustrações de Joana Pires e design de Ecletricks
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268p. p/b 22x16cm, capa a cores
ISBN: 978-989-8363-12-1
ISBN e-book: 978-989-8363-13-8
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PVP: 15 euros (desconto 50% para sócios da CCC, jornalistas e lojas) à venda na shop da CCC, Matéria-Prima, Fábrica Features, Letra Livre, Artes & Letras, Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristovão, 18), FlurRastilho, AbysmoFeira de BD e Poesia e Pó dos Livros. Versão e-book na Todoebook.


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Historial : lançado no dia 17 de Abril 2012 na Trem Azul no âmbito do Festival Rescaldo ... segunda edição em Julho 2014 com nova capa e novas ilustrações ...
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Feedback : 4 estrelas em 5 no Público ... Nascidos não com o propósito de terem forma de livro, os textos que compõem "Ilustríssimo Bestiário" partilham aquela partícula de coerência e complementaridade que o incessante virar de páginas tão bem faz evidenciar. Escritos em Marte, como Marco Santos afirma no prefácio, estes 50 textos têm de facto origens (artigos, folhas de sala de concertos, notas de discos) e temáticas dispersas (apesar da música ser obviamente o centro gravitacional), mas a cola cósmica que os une, sob a forma de metáforas, analogias e uma forma muito peculiar de pensar a música - buscando sinestesia na arte e reflectindo as plurais utilizações da tecnologia (...). Os nomes que pululam nesta obra vêm de diversos meios - artes plásticas, literatura, banda desenhada,... - e, entre outros, contam-se Genesis P. Orridge, Matthew Herbert, John Cage, Marguerite Duras, Archie  Shepp, Miles Davies ou Zeca Afonso, tendo alguns deles ganho vida também através do traço de Joana Pires, complemento e espécie de concretização visual do universo rendilhado, denso e imagético de Paes in Flur ... os temas e os textos surgem de forma clara e fluída, apenas não percorrem os caminhos trilhados habitualmente, mas é precisamente por isso que são fundamentais, pois iluminam com uma nova luz coisas que nos passariam despercebidas ou que apenas intuiríamos. Em suma, um livro indispensável para todos aqueles que procuram uma escrita apaixonada sobre a música mais desafiante dos nossos sentidos. in Under Review

L'oeuvre de Rui E. Paes est une encyclopédie à entrées multiples. Le pacte de lecture qui nous est proposé semble être la volonté de démasquer le discours officiel sur l'art(s). Dans un pays qui vient d'abolir "Le Ministère de la Culture", la lutte contre la peste noire (ou fascisme/ dictature) ne peut passer par le repli sur soi. Le mérite et le courage de l'auteur c'est d'avoir mis son savoir et ses idées au service de la compréhension du monde qui nous entoure. Autrement dit, en autorisant un regard critique sur le début du XXI siècle. in Cosméticas ... Todos estos artistas, grupos, etc. no vienen adornados en una abultada y anodina lista de datos biográficos ni una recomendada selección de sus mejores discografías (“Este es un libro con personas dentro”). Al contrario, la excelente información obtenida en Bestiário Ilustrissimo a partir de la documentación y enfoque ensayista de REP, le da un valor personal y erudito al autor; y acertado y ameno a su obra, fundamental para la lectura del libro y conocimiento de estas músicas minoritarias. in Oro Molido



Rui Eduardo Paes
Com 30 anos de actividade repartida entre o jornalismo cultural, a crítica de música e o ensaísmo teórico, Rui Eduardo Paes é autor de vários livros sobre as músicas criativas, cobrindo o leque de tendências que vai do avant-jazz à música experimental, passando pelo rock alternativo, a música contemporânea, a new music, a música improvisada e a electrónica. É o editor da revista jazz.pt. É membro da direcção da associação Granular, dedicada à promoção do experimentalismo na música e nas artes audiovisuais e performativas portuguesas.
Vem colaborando com instituições como Fundação de Serralves, Fundação Calouste Gulbenkian, Culturgest e Casa da Música na elaboração de textos de apoio e folhas de sala. É o autor dos press releases da editora discográfica Clean Feed. Foi um dos fundadores da Bolsa Ernesto de Sousa, presidida pelo compositor e cineasta Phil Niblock (Experimental Intermedia Foundation), de que é membro permanente do júri em representação da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Assessorou a direcção do Serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian e integrou o júri do concurso de apoios sustentados do Instituto das Artes / Ministério da Cultura para o quadriénio 2005-2008.

O Espelho de Mogli



   
         
                                      


O Espelho de Mogli
Por

26º volume da MMMNNNRRRG
ISBN: 978-989-97304-7-2
56p a 2 cores, 25x30cm
500 exemplares

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PVP: 10€ (desconto 30% para sócios da CCC e jornalistas) à venda na loja em linha da Chili Com Carne e na 1359, El Pep, Mundo Fantasma, Fat Bottom Books (Barcelona), Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristovão, Lx), Feira da BD e Poesia, B Shop (CCB), Artes & Letras e Pó dos Livros.

ATENÇÃO: este livro é muito frágil, devido a esse factor terá uma distribuição extremamente limitada - e também a razão pelo desconto menor aos associados do que é habitual.

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Olivier Schrauwen não deixa nunca de me inspirar. É o autor mais original que encontro desde Ben Katchor e Chris Ware. - Art Spiegelman 

Pegando no Livro da Selva de Rudyard Kipling, quer dizer, apenas no cenário e o nome da personagem, Olivier Schrauwen apresenta-nos uma tragicomédia entre o encontro de um símio e um menino selvagem, numa Banda Desenhada que não usa palavras e que emprega estéticas gráficas com cheiros do passado sem que isso afecte o seu real valor contemporâneo que faz dele, segundo muitos especialistas como é um dos cinco autores de banda desenhada de vanguarda mais importantes no panorama mundial actual...

O autor flamengo emprega espelhos deformados para reflectir sobre o papel do Homem no Mundo e a fina fronteira que separa o homem do animal.

Este livro é um "remake" com um novo tratamento das cores, aumento de páginas e de formato, de um livro saído em 2011 que foi seleccionado para os Prémios do Festival de BD de Angoulême.




Feedback : Schrauwen tem já um passado na àrea da animação, da ilustração e da banda desenhada. Alguns dos seus trabalhos - que partem das premissas da escola da "linha clara" mas vão bem mais além destas -, são hoje clássicos contemporâneos que receberam aplausos por parte dos seus pares, críticos, leitores ou estudantes de design e de escolas de arte. Comicology ... ¿Cómo llamamos a esto? Como género, quiero decir. ¿Comedia primitivista? Da lo mismo, claro. Es una historia que precisamente por ser muda pude profundizar en una pulsión preverbal, que podría definirnos: son pocas las especies animales que pueden reconocer su reflejo en el espejo, y ser conscientes, por tanto, de su propia identidad. Vida, muerte, sexo e identidad: Mowgli en el espejo trata todos esos temas presentes en la ficción desde sus inicios pero consigue un contraste tan violento como acostumbra al abordarlo desde la vanguardia más radical y el estilo de dibujo más inhumano del que es capaz. Entrecomics ... Se hoje vivemos no “futuro negro" e só visitamos o passado enquanto nostalgia, a única solução é restituir os dois tempos e comunicar com eles. A banda desenhada é perfeita para isso e Schrauwen um acertado porta-bandeira. Clube de Leitura Gráfica


 




Papá em África

              
25º volume da MMMNNNRRRG, editado por Tommi Musturi e Anton Kannemeyer.
Posfácio por Marcos Farrajota e Crizzze.

64p. a cores, capa dura, álbum A4
ISBN : 978-989-97304-8-9
500 exemplares

PVP: 15€ (50% desconto para sócios CCC, lojas e jornalistas) já à venda na loja online da CCC e na El Pep, Feira do Livro de Poesia e BD, Livraria do Simão (Escadinhas de S. Cristovão, Lx), Mundo Fantasma, Sr. Teste (Soc. Guilherme Coussol), Bertrand, Artes & Letras, Pó dos Livros e em breve na Livraria Luar (Moçambique)

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O que é que choca mais a um puritano do que uma imagem pornográfica? Um negro a foder uma branca! Os Public Enemy “rapavam” isso no LP Fear of a Black Planet (1990), onde aliás, o sul-africano Anton Kennemeyer (n.1967) foi roubar o título para uma exposição de pintura em 2008.

Antes demais Anton usa muitas vezes o pseudónimo de Joe Dog, criado em 1992, para assinar BDs, porque ouvia música punk e entrou naquele esquema do pseudónimo podre, como é hábito dessa subcultura. Além do mais, nesse mesmo ano juntamente com Conrad Botes (que nos visitou recentemente numa exposição na Fundação Gulbenkian) tinham criado revistas de BD bastante polémicas na África do Sul. A dois anos antes do fim oficial do Apartheid, um pseudónimo sempre ajudava a ter menos problemas com a sociedade africânder.  O título mais famoso foi o Bitterkomix, onde Joe Dog e Botes faziam BDs que chocavam os africânders e os supostos liberais ingleses, denunciando a loucura ideológica e religiosa do Partido Nacional, perito em segregação racial e deseducação sexual e colocavam em questão a identidade do sul-africano, especialmente a do homem branco. Não será à toa que o artista Joe Dog tenha colaborado com os Die Antwoord, também eles iconoclastas com os códigos de identidade naquele país.

Papá em África é uma crítica à dominação racial e colonial que atravessa, ainda hoje, em pleno pós-apartheid, a sociedade sul-africana, mostrando como certas estruturas sobrevivem à destruição dos quadros legais que lhes deram origem. Mas não se enganem, não vão encontrar na obra de Anton, caminhos ou sonhos para uma “nação arco-íris”; nem é oferecida nenhuma reinvenção do lugar do negro na BD ou alguma espécie de “herói” negro da resistência que pudesse ser “voz” da população negra sul-africana, de que Anton, aliás, na realidade não faz parte nem tem a pretensão de ser.

O objectivo central de Papá em África é pontapear com escárnio e pontaria certeira a hipocrisia e a (má) consciência da África do Sul branca, num pós-apartheid lobotomizado. Anton sampla e crítica corrosivamente o imaginário colonialista e racista, como aquele oferecido por Hergé em Tintim no Congo (1931), álbum que Anton admite ser a sua Bíblia visual, onde volta sempre para sacar mais uma imagem ou uma sequência narrativa.

Numa entrevista o autor adverte sobre esse livro de Hergé: (…) eu penso que não é um bom álbum, é mais direccionado para um público infantil. E é aí que o problema reside para mim. Porque se fosse dirigido para um público adulto, ele funcionaria melhor. Mas porque é para crianças, elas vêem os estereótipos e (…) pensam que esses estereótipos são reais (…). Eu lia o álbum com a minha filha, quando ela era muito jovem, talvez com dois anos, e a certa altura, ela perguntava-me: “o que este macaco está aqui a fazer?” e eu dizia-lhe: “Isso não é um macaco. É uma pessoa negra.” E ficava completamente confusa, não conseguia perceber: “estes são os macacos!”

Após processos judiciais, nos últimos anos e em alguns países (como no Reino Unido), o acesso à obra Tintim no Congo tem sido restringido à população adulta ou explicitamente sinalizado. Na sua terra natal, na Bélgica, Tintim no Congo, apesar da acção judicial instaurada pelo congolês Bienvenue Mbutu Mondondo em 2007, continua a circular sem problemas. Recordamos que Mondondo queria que a edição deste álbum de BD tivesse uma introdução a explicar que se trata de uma obra feita sobre a perspectiva colonialista da época, para que os estereótipos racistas que o álbum vincula pudessem ser entendidos à luz dos nossos dias. Tal não foi permitido e os fãs aplaudiram cegamente o veredicto sem se olharem ao espelho.

Em Portugal, o primeiro país a traduzir a obra de Hergé, pelas mãos do padre e sociólogo Abel Varzim e por Adolfo Simões Müller, director do jornal infantil O Papagaio, Tintim no Congo foi rebaptizado em 1939 precisamente para essa publicação como Tim-Tim em Angola (seja como for para muitos ainda hoje, África é apenas um país enorme). Aqui, a obra não é alvo de qualquer controvérsia e ainda hoje conseguimos encontrá-la sem dificuldade ou especiais advertências nas secções infantis/ juvenis das livrarias. Na edição de 1996, da Verbo, no seu interior continua lá a degradante expressão “Siô”...

Chegamos ao fio condutor que liga o trabalho de Anton a Portugal, em que só a MMMNNNRRRG é que poderia editar um álbum destes - perdoem-nos a falta de modéstia. Esta selecção da obra de Anton, quer como autor de BD quer como pintor deveria reavivar todos os “traumas” que o branco, seja ele sul-africano, europeu ou português, tem em relação ao negro, fazendo repensar como a relação com esse outro é constitutiva da própria concepção de si mesmo e de como esses espinhos históricos que são a escravatura, a colonização e a segregação racial estão cravados no convívio e interacção social, nas relações político-económicas entre “norte e sul” e no próprio capitalismo. A crítica à sociedade sul-africana do pós-apartheid cabe que nem uma luva a países ex-colonialistas como o nosso. Poder-se-á estender a crítica de Anton em Preto e Die Taal à questão da lusofonia e da língua portuguesa? Vejam-se palavras como “catinga”, “escarumba”, “mulato” ou expressões como “trabalhar como um preto”, “e eu sou preto, não?” Poderemos nós encontrar em fenómenos como o do pseudo-Arrastão na praia de Carcavelos, criticamente esmiuçado no documentário de Diana Andringa gratuitamente disponibilizado na Internet, como sinais parecidos àquela distorção da realidade fabricada pelo misto de sentimento culpa e preconceito da população branca sul-africana que os faz temer e esperar uma “revolta” bárbara dos negros? 

Será que África do Sul desmemoriada do pós-apartheid, criticada por Anton, tem alguma semelhança com o Portugal “pós-colonial” que teima em vangloriar-se dos “Descobrimentos” (veja-se o novo museu inaugurado no Porto, World of Discoveries, mas também os manuais escolares de história) e de uma colonização “branda” (o dito luso-tropicalismo), sem assumir a sua quota-parte na chaga global que é a exploração e subjugação dos países africanos e dos afro-descendentes onde quer que estes nasçam? É que não sejamos ingénuos ou hipócritas, Portugal foi o primeiro e maior traficante de escravos africanos no Atlântico, portanto, um dos maiores responsáveis do chamado “holocausto africano”; foi dos últimos países europeus a reconhecer a independência das suas colónias em África - quem ainda duvidar que leia Viagem ao Fundo das Consciências (Colibri; 1995) de Maria do Rosário Pimentel. Se os portugueses puderam até aqui “fechar os olhos” e “fazer ouvidos moucos” às históricas trapaças portuguesas no Ultramar, eis que com o acelerar da globalização, com o desnorte português e europeu e com a progressiva ascensão a potências mundiais do Brasil (onde o movimento negro e afro-cultural tem peso) e de Angola (onde as chagas da colonização e da guerra são grandes), a história fará rewind e vir-se-á chapar na nossa cara.





 

 

  

 


   

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Feedback:  o melhor álbum publicado em Portugal durante o corrente ano (...) Atenção que isto não é assunto para rapazes ou raparigas sensíveis. Comicology ... um petardo editorial (...) é o melhor álbum traduzido publicado este ano em Portugal e também um dos mais significativos de sempre na edição nacional. A Garagem ... Mestre dos estereótipos a preto e branco Deutschlandfunk Corso ... Kannemeyer refere-se ao álbum de BD original mas de forma modificada, expondo o racismo que lhe está completamente inerente Spiegel

quinta-feira, 16 de Outubro de 2014

ccc@doclisboa.2014



Tal como aconteceu o ano passado, a Associação Chili Com Carne volta ao DocLisboa mas infelizmente este ano só com a venda de livros - não nos foi possível organizar uma apresentação de um livro...

quarta-feira, 15 de Outubro de 2014

Luso-Kraut-Gringo-Crazy-Shit-Man!



The Loosers : Hot Jesus (Lovers & Lollipops; 2013)

Eis uma banda que nunca me inspirou confiança nem em disco nem ao vivo mas que agora tiro o chapéu graças a este (bizarro) disco. E não é porque o camarada João Maio Pinto toque práqui baixo porque não há payola nem lobby neste blogue! Fico até arrependido não ter seguido as metamorfoses da banda mas se calhar não resolvia nada porque estes Loosers são outra entidade com a saída do co-fundador Tiago Miranda, e a entrada de Pinto mas sobretudo de Jerry The Cat, um norte-americano que fez parte dos míticos Parliament! E realmente à primeira audição parece ser ele o homem que conduz o resto da banda com o seu discurso de Pastor alucinado. No lado B do LP é que se nota que não é bem assim com a banda a puxar-se para um Krautrock tribalista que mostra que até poderia estar outro tipo a cantar por cima, embora o resultado fosse diferente, não iria abafar os objectivos hipnóticos dos temas. De alguma forma, e provavelmente porque ando a ouvi-los, há algo de Legendary Pink Dots neste disco... I brake for Hot Jesus!

O Desenhador Defunto / The Dying Draughtsman


Eis o novo volume da Colecção CCC!!! The Dying Draughtsman / O desenhador defunto de Francisco Sousa Lobo é o primeiro livro de BD a solo nesta colecção e realmente é o primeiro romance gráfico no catálogo da Chili Com Carne!

O autor foi premiado em Outubro do ano passado no nosso concurso interno "Toma lá 500 paus e faz uma BD" com um trabalho a surgir para Abril de 2014, por isso, até lá, este "desenhador defunto" ainda dará muito que falar a quem se atrever abri-lo! Mas tenham cuidado, não devem abanar muito o livro nem engoli-lo com riscos de graves para a sua saúde, riscos esses mais agudos e perfurantes que ler Will Self, Aldous Huxley e Graham Greene todos juntos e ao mesmo tempo.

O trabalho de Francisco Sousa Lobo, no campo da banda desenhada, tem sido esparso e dilatado no tempo, mas não é de forma nenhuma negligenciável, sendo alguém que vai ocupando o seu espaço de um modo tranquilo e certeiro, com uma produção pouco dada à espectacularidade e aos géneros mais usuais. Em termos tópicos, The Dying Draughtsman / O desenhador defunto (…) centrar-se-á precisamente nesse diálogo, e no espaço de tensão existente entre ambas as áreas. Francisco Koppens é um funcionário de um escritório de arquitectura, antigo projectista que agora se vê obrigado a trabalhar com programas digitais com os quais não se dá muito bem, numa Londres aparentemente inóspita a este imigrante português. É possível que haja projecções auto-ficcionais da parte do autor, mas não sendo isso nem explícito nem confirmável através de outras informações textuais, é questão de somenos (no entanto, a bem da correcção, leia-se a breve correspondência do autor com Hugo Canoilas, no fim do volume, para abrir pistas nesse sentido). Se temos alguma oportunidade para ir compreendendo algumas das crises da vida pessoal e quotidiana deste Francisco – o trabalho que corre cada vez pior, a distante relação com a mulher, a pressão da herança católica, inescapável e doentia -, é a sua posição enquanto corpo face à arte que ocupa o lugar central do livro.

Francisco Koppens parece dedicar a sua vida mais íntima, e os momentos livres, a uma obra de banda desenhada, que mescla ficção científica e social (uma sociedade no ano 3000 em que uma ditadura de mulheres terá quase exterminado os homens e mantém um poder fascista sobre a terra), possível forma de expiação dos seus pecados. Nesse sentido, Koppens tem alguns laivos de obsessivo similares à vida e obra de Henry Darger, se bem que esta personagem de Sousa Lobo aparente ainda algum grau de integração e comunicação com o mundo, pelo menos simulando algum aspecto de “normalidade”. No entanto, jamais temos acesso a essa obra propriamente dita: com a excepção de algumas vinhetas pela mesma mão do autor/narrador, o que nos leva a pensar ser somente uma projecção mental de Koppens. As pranchas desenhadas por este (uma banda desenhada dentro de uma banda desenhada) aparecem sempre com estruturas regulares mas de vinhetas ora despidas ora totalmente cobertas a negro, com linhas sobrepostas e riscadas. (…) Pedro Moura in Ler BD

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Design de Joana Pires
128p. 16,5x23 cm a duas cores
500 exemplares
ISBN 978-9898363-22-0

Historial : O livro foi lançado oficialmente no dia 1 de Novembro na Galeria Kamm, em Berlim ... Originais na exposição Abecedário Ar.Co 40 anos no Museu do Chiado ... Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal ... Seleccionado por Pedro Moura como um dos cinco dos melhores livros portugueses de BD (2013) no site de Paul Gravett ... BD de Lobo na Art Review ... Originais expostos no Festival de BD de Treviso ... nomeado para Prémios da BD Amadora ...


O livro custa 15 euros ao público (50% desconto para sócios da CCC, lojistas e jornalistas), pode ser adquirido no nosso sítio oficialTrem AzulFábrica FeaturesMundo Fantasma, Abysmo, Feira da BD e Poesia, BdMania, Matéria Prima, Artes & Letras, Kingpin Books, Pó dos livros, UtopiaLetra Livre, LAC, B Shop (Colecção Berardo), FNAC, NAU e Rough'Nough.
You can buy this book at Quimby's (Chicago), Gosh Comics (London), Orbital (London) and Lambiek (Amsterdam)

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Podem ver aqui as primeiras páginas:

Feedback : já li O Desenhador Defunto, nunca tinha lido nada assim, acho que amanhã vou ler outra vez, é capaz de ser um dos melhores livros publicados pela Chili, e um dos melhores do ano. David Campos ... isto é mesmo o melhor livro da Chili. Perfeita simbiose entre arte e argumento, sem nenhuma ofuscar a outra e que no final não te deixa simplesmente arrumar o livro. Andre Coelho ... Recomendando por Sara Figueiredo Costa in Expresso ... Se Duchamp havia descontextualizado e recontextualizado os seus trabalhos através da fotografia, Sousa Lobo fá-lo agora através da BD. Gabriel Martins in Rua de Baixo ... um dos melhores livros nacionais desta última década Rudolfo in Vice  ... It seems that comics finally provide Koppens, and his creator Lobo, with the style and method to write that postponed suicide note, as the remarkable graphic novel The Dying Draughtsman - Paul Gravett in Art Review ... O efeito gráfico vinca a sensação que o protagonista é ele mesmo parte de uma exposição, que a sua vida é a sua Arte, o livro uma meta-galeria onde espectadores/leitores comentam as suas desventuras. Ou, em alternativa, que a sua loucura é irremediável. O estoicismo da composição retangular e o desenho quase anódino contrastam admiravelmente com a violência extrema que fervilha logo abaixo da superfí­cie, nas reflexões e nas BDs incompletas de Francisco (Koppens). (...) Mas tudo isto são apenas elementos adicionais para um livro surpreendente, que estimula tanto pelos diálogos que tenta, como pelos silêncios que não resolve. João Ramalho Santos in Jornal de Letras ... Nomeado para os Troféus Central Comics para melhor Livro, Argumento e Desenho...