blogzine da chili com carne

quinta-feira, 5 de março de 2015

I Like Your Art Much


Francisco Sousa Lobo fez um novo livro de banda desenhada sobre o trabalho de Hugo Canoilas
Chama-se I Like Your Art Much, tem 44 páginas, e vai ser lançada em Dundee (Escócia) no dia 5 de Março
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Na sala principal da Cooper Gallery vão estar livros, e versões da BD vão encher as paredes
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 É um trabalho singular de simbiose entre banda desenhada e artes plásticas
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As galerias de Hugo Canoilas, a Associação Chili Com Carne e a Universidade de Goldsmiths apoiam o projecto.

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Francisco Sousa Lobo has a new comic book coming out, on the work of artist Hugo Canoilas
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It's called I Like Your Art Much, it's in English and printed in the UK, has 44 pages, and will be launched on the 5th of March at the Cooper Galley in Dundee, Scotland
In the main gallery space of the Cooper Gallery there will be comic books and large versions of Francisco's comic
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The exhibition and book form a singular symbiosis between comics and fine art
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Hugo Canoilas' galleries, Goldsmiths University of London and Associação Chili Com Carne support the project.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Bestiário Ilustríssimo 2 : Bala @ Blitz


É Março de 2015 mas o Blitz parece que estamos em 1995: Kurt Cobain, Björk, Led Zep... e vá lá, uma notícia ao Bestiário Ilustríssimo 2... vá lá vá lá...

Como ser sócio da Associação Chili Com Carne?

O regime de sócios da Associação Chili Com Carne passa pelo pagamento de uma joia no valor de 30€ (15€ para menores de 30 anos) e o envio dos seguintes dados para o nosso e-mail: ccc@chilicomcarne.com

_nome
_data de nascimento
_morada
_tlm
_e-mail
_www
_fotografia (um jpg qualquer para fazer o cartão de sócio)

O valor da quota deve ser depositado na conta do seguinte NIB:003502160005361343153 ou através de paypal.

Quais as regalias de ser sócio da CCC?
_Oferta do livro Lucrécia, segundo (anti)romance do escritor Rafael Dionísio;
_50% de desconto sobre TODAS edições da CCC;
_30% de desconto sobre as edições da MMMNNNRRRG;
_20% de desconto sobre outras edições presentes no catálogo online da CCC: El Pep, Marvellous Tone, Huuda Huuda, etc...;
_informação em primeira mão de projectos da CCC;
_apoio a projectos editoriais*.
_descontos no uso do projector de vídeo.


E depois disto?
Passado um ano há um quota a pagar de 10€ e ainda recebe um exemplar da Crica Ilustrada #1!!!



* Apoio a projectos editoriais Ao longo do tempo a CCC tem vindo a definir de forma mais precisa qual a vertente de actividades para a qual está mais vocacionada, sendo que a edição em suporte de papel tem sido aquela que a CCC melhor tem sabido gerir. Os sócios da CCC com projectos editoriais poderão solicitar o apoio no campo da produção, distribuição e promoção. A selecção de projectos será discutida consoante cada caso. Sendo que seja imperativo ler este MANUAL!

sábado, 28 de fevereiro de 2015

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

exposição de pranchas originais de BD de josé smith vargas em Almada



Erzsébet na Linha de Sombra



Erzsébet
por
Nunsky

17º volume da Colecção CCC editado por Marcos Farrajota.
Design por Joana Pires
Capa por Nunsky
144p p/b 16,5x23cm, capa a cores
500 ex.
ISBN: 978-989-8363-24-4

Sinopse: Erzsébet Bathory, a infame condessa húngara contemporânea de Shakespeare, ao contrário deste, incarnou como poucos o lado negro e animalesco do ser humano. São-lhe atribuídos centenas de crimes inomináveis que lhe grangearam alcunhas como "Tigreza de Csejthe" ou "Condessa sanguinária" e que a colocam no mesmo lendário patamar de bestas humanas como Gilles De Rais ou Vlad, o Impalador. Por detrás do seu rosto pálido, de olhar impassível e melancólico ocultava-se o próprio demónio, Ördög.

PVP: 15€ (desconto 50% para sócios CCC, lojas e jornalistas).
Já à venda na loja em linha da CCC, e na Mundo Fantasma, El Pep, Feira do Livro de BD e PoesiaArtes & Letras, Pó dos Livros, Matéria Prima, Letra Livre, BdMania, FNAC, Bertrand, Vault, LAC, Linha de Sombra...









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sobre o autor: Nunsky é um criador nortenho que só participou no zine Mesinha de Cabeceira. Assina o número treze por inteiro, um número comemorativo dos 5 anos de existência do zine e editado pela Associação Chili Com Carne. Essa banda desenhada intitulada 88 pode ser considerada única no panorama português da altura (1997) mas também nos dias de hoje, pela temática psycho-goth e uma qualidade gráfica a lembrar os Love & Rockets ou Charles Burns. O autor desde então esteve desaparecido da BD, preferindo tornar-se vocalista da banda The ID's cujo o destino é desconhecido. Nunsky foi um cometa na BD underground portuguesa e como sabemos alguns cometas costumam regressar passado muito tempo...

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Feedback: Muito boa BD, me inspira para criar logotipos Lord of The Logos (via e-mail) ... Erzsébet, o livro, é o relato implícito, emudecido, de um receio: o de que a morte escape definitivamente ao controlo masculino. Afinal, é a morte que conduz cada um e todos os passos da humanidade, tal e qual como vem anunciando a estética gótica em todas as suas formas. Nunsky recorda-nos isso mesmo com esta edição… Rui Eduardo Paes ... O Erzsebet é um grande livro. Consegue ter aquele espírito dos filmes do Jess Franco e afins, em que por vezes é mais importante a iconografia e a imposição de elementos simbólicos / esotéricos ou fragmentos de actos violentos e ritualizados (como as mãos nas facas ou as perfurações e golpes) do que termos uma continuidade explicita e lógica da narrativa, o que cria toda uma tensão e insanidade ao longo do livro e de que há forças maiores do que a nossas a operar naquele espaço. André Coelho (por e-mail) ... o romântico está presente antes na sua dimensão histórica e o trágico se aproxima do monstruoso. Pedro Moura / Ler BD ... Para todos aqueles que apreciam uma viagem pelas profundezas negras do coração dos Homens, este é sem dúvida um livro a explorar, aliás, uma das publicações mais interessantes do ano passado Gabriel Martins / Alternative Prison


O Tempo da Geração Espontânea na Linha de Sombra




O Tempo da Geração Espontânea
[novo romance]
de Rafael Dionísio

Sinopse : Este livro Atravessa o arco temporal de fins do século XIX até aos anos oitenta do século XX. No entrelaçar da vida de algumas personagens estalam as contradições do colonialismo, da esquerda, da revolução e da vida depois disso. É um retrato de uma certa geração que nasceu em Angola e que cresceu dentro do regime, na posição de estarem contra ele, e das dificuldades e adaptações que sofreram para se manterem à tona, cada um à sua maneira. É uma obra de um maior fôlego narratológico, sendo, simultaneamente um romance histórico e uma reflexão sobre Portugal. Mas tudo isto a la Dionísio, como é evidente.

356 p. 21x14,5 cm, edição brochada, capa a cores
ISBN: 978-989-8363-26-8
Capa de David Campos
Design de Rudolfo

PVP: 15€ (50% desconto para associados da CCC, lojas e jornalistas) à venda aqui e na El Pep, Artes & Letras, Feira da BD e Poesia, Letra Livre, Bertrand, LAC, Pó dos Livros, Linha de Sombra...

Historial: lançamento brasileiro e universal n'A Bolha (Rio de Janeiro) ... lançamento lisboeta na IV Feira Morta por Pedro Madeira, nos Estúdios Adamastor ...

Feedback: pretexto para reflectir sobre colonialismo, esquerda e revolução e pós-revolução I

Errata online aqui







Sobre o autor: nasceu em 1971 e é sobretudo escritor. Presente desde a primeira hora na Chili Com Carne publicou seis livros nesta Associação. Começou a publicar pequenos textos no já há que tempos extinto DN Jovem. Durante os anos 90 participou com textos em publicações alternativas como a Ópio, Número, Utopia, Bíblia,... Participou em diversas exposições de artes plásticas e durante um pequeno período escreveu recensões na revista Os meus livros. Auto-editou dois fanzines de poesia, refúgios e alguns slides, numa altura em que se ainda não tinha decidido definitivamente pela narrativa. Continua a publicar textos em publicações como Nicotina ou Flanzine.
Andou a estudar para engenheiro no Técnico e, depois, para arquitecto na Faculdade de Arquitectura de Lisboa tendo desistido a meio dos dois cursos. Também estudou Desenho no Ar.Co e houve uma época em que quis ser artista plástico, tendo pintado bastantes quadros e destruído muitos deles. Entretanto atinou com os estudos e enveredou por Estudos Portugueses, na Nova, onde tirou sucessivamente, licenciatura, mestrado e doutoramento em Crítica Textual estando aos papéis do Ernesto de Sousa.
É monitor de cursos de Escrita Criativa, especialmente vocacionados para a narrativa. Em 2014, com os Stealing Orchestra fez um EP que foi recebido com boas criticas pela imprensa.

Bestiário Ilustrissímo II : Bala ... na Linha de Sombra



Bestiário Ilustríssimo II /  Bala de Rui Eduardo Paes é o nono e novo título da provocante colecção THISCOvery CCCHannel.
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Bestiário Ilustríssimo II / Bala é a continuação de Bestiário Ilustríssimo, “(anti-)enciclopédia” de Rui Eduardo Paes sobre as músicas criativas editada em 2012 e reeditada em 2014 com nova capa e novas ilustrações de Joana Pires. Como esse primeiro livro, está dividido em 50 capítulos, cada um dedicado a uma figura ou conjunto de figuras. Desta feita, porém, a 50ª parte autonomiza-se e constitui como que um outro livro. Trata-se, pois, de dois livros num só volume, um novamente ilustrado por Joana Pires, o outro por David de Campos.  

O jazz criativo, a música livremente improvisada, o rock alternativo e os experimentalismos sem rótulo possível voltam a ser as áreas cobertas, sempre associando os temas com questões da filosofia, da sociologia e da teoria política, num trabalho de análise e desmontagem das ideias por detrás dos sons ou das implicações destes numa realidade complexa. Os textos reenviam-se entre si gerando temáticas que vão sendo detectadas pelo próprio leitor, mas diferentemente de Bestiário Ilustríssimo há um tema geral nesta nova obra de Paes: o tempo.

A tese é a de que quem escreve sobre música, mas também todos os que a ouvem, está sempre num tempo atrasado em relação à própria música, um “tempo-de-bala”, de suspensão de um tiro no ar, como no filme Matrix. O alinhamento dos capítulos não se organiza segundo tendências musicais ou arrumando os nomes referidos em sucessão alfabética, como numa convencional enciclopédia. Todos os protagonistas e suas músicas surgem intencionalmente misturados, numa simulação do caos informativo em que vivemos nos nossos dias. Propõe-se, assim, que se leia Bestiário Ilustríssimo II / Bala como se se navegasse pela Internet, procurando caminhos, relações, cruzamentos, desvios.

A mente não é uma estante, é um bisturi.

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336p. impressas a duas cores (preto e vermelho), 22x16cm, capa a cores
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volume -4 da colecção THISCOvey CCChannel
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ISBN: 978-989-8363-30-5

com prefácios de Marco Scarassatti (compositor, artista sonoro e professor da Universidade de Minas Gerais, Brasil) e Gil Dionísio (músico)

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edição apoiada pelo IPDJ e Cleanfeed Records

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PVP: 20€ (50% desconto para sócios, jornalistas e lojas) à venda na loja em linha da Chili Com Carne e na FlurLetra Livre, Artes & Letras, Linha de Sombra e brevemente na Matéria Prima, FNAC, Bertrand,...
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Historial: lançamento 6 de Fevereiro na Casa dos Amigos do Minho com discursos de Gonçalo Falcão (designer, músico, crítico de música) e Gil Dionísio e concerto de uma banda especialmente formada para o efeito: Gil Dionísio & Os Rapazes Futuristas; lançamento 7 de Fevereiro na SMUP (Parede) com palavreado de Pedro Costa (Clean Feed) e José Mendes (jornalista cultural) e concertos de Wind Trio e Presidente Drógado & Banda Suporte; 

algumas páginas deste livro-duplo:


Feedback: O jazz é o fogo inicial, mas este propaga-se alto e largamente. REP deita 50 + 50 textos, capa-contra-capa, neste duplo Bestiário Ilustríssimo II / Bala. Música como arte física mas também psicológica, improvisada, estruturada, Ciência, Arte, ícones culturais, tonelada de referências que se ligam na cabeça do autor para uma organização, no papel, em benefício do leitor. Muitos músculos exercitados em 31 anos, nesta relação entre escrita e música. Flur 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Kovra #6 (Ed. Valientes; 2015)


Não sei como aconteceu mas de repente - não, não não, de repente não, ele tem vindo a evoluir para tal - o Kovra transformou-se na antologia de BD contemporânea mais importante do mundo. Hiperbólico? Também não!!! Com talentos espanhóis, sul-americanos e da Europa centro-oriental enche-se 220 e tal páginas - a "coisa" começou naquele raquítico número de 32 páginas -, com o Design exemplar heio de todas as mariquices desse pessoal (sobre-capas com posteres, papeis de cor, etc...) e com nomes fortes como Igor Hofbauer, Martin López Lam - el jefe de la "coisa" -, Ulli Lust, Diego Gerlach, Pedro Franz, Berliac - yo! façam uma pesquisa só neste blogue para ver o que achamos como eles são OS gajos! - entre outros. E ainda a "nossa" Amanda Baeza - com duas BDs, rica fartura! - o que é preciso mais para achar esta publicação A cena do momento!? O "experimentalismo" figura nesta nova geração narrativa não deixa de haver "tradicionalismos" como é o caso de Lam mas com a vantagem que ele escreve tão bem como desenha, um verdadeiro segredo que deveria ter maior reconhecimento alm do mundo latino... Antologia obrigatória para 2015!

Quantos š tem "desassossego"?


CHEGOU a antologia š! número especial dedicado à BD portuguesa e ao "Desassossego"!!! 

Chili Com Carne deu apoio na selecção dos artistas a incluir neste volume e numa discussão com a redacção da Letónia chegou-se à conclusão que Portugal tem a mania de dizer que é um "país de poetas". Se for verdade, ao menos que se actualize ao século XXI e que eles sejam "visuais"! Daí a razão de explorar explorar o "desassossego", um dos maiores marcos literários do século XX do "nosso" Fernando Pessoa, para definir as tensões gráficas e narrativas angulares que unem esta lista de artistas ímpares: Amanda Baeza, André Lemos, André Pereira, Bruno Borges, Cátia Serrão, Daniel Lima (imagem)Daniel Lopes, Filipe Abranches, Francisco Sousa Lobo, Joana Estrela, João FazendaMarta Monteiro, Milena Baeza, Paulo Monteiro, Pedro BurgosRafael Gouveia e Tiago Manuel.

à venda aqui




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texto (original e em português) de Marcos Farrajota para este número: 


Tudo o que fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer*. 

Os meus olhos queimam de tanto tempo que passo em frente ao monitor para escrever algo de original sobre a banda desenhada portuguesa. Desta Arte só podemos dizer que ela será boa para ti se tu fores boa para ela. Ainda assim, ela é uma tontura, uma pechincha, um suplício, um esforço inútil sem causas nem consequências, sem glória ou recompensa. Em Portugal e noutras partes do mundo, fazer BD é simplesmente um acto isolado, sem consciência de classe e sem localização de parentescos e aliados - que safodam as redes sociais, elas não ajudam em nada para quem se mete numa mesa a tentar equilibrar imagens e textos.

Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito de viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação*. 

Perguntei a António Kiala** opinião. Ele responde-me com a sua habitual fúria: “o que distingue a BD portuguesa das outras é a História do seu próprio país que sempre se acomodou ao esclavagismo e colonialismo e que devido à periferia europeia não teve problemas de sustentar um fascismo “light” (tudo é leve no nosso país) durante 50 anos. Esse clima católico e bem-comportado (senão iam para fogueira da Inquisição) tornou o povo analfabeto e dócil num húmus nauseabundo o que não impede que o génio sobressaia em alguns autores!” Tem de ser assim, senão a palavra “génio” nem existiria. Poucos mas bons! De baixa estatura também. E morenos, embora essa pureza genética dê vontade de rir – só os ingénuos e idiotas é que acreditam em eugenias e raças puras de cavalos. Por acaso, só na selecção de autores feitos neste número do Kuš! muitos têm mais que um metro e setenta e alguns até são loiros. Podiam passar por letões ou um eslavo menos deslavado. Em comum são autores que se dissociam obviamente do cliché da BD masculina, heterossexual e caucasiana – embora pouco importa a cor de pele ou a opção sexual quando não se tem talento ou vontade de dizer o que lhe vai na Alma.

Porque se sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura (Alberto Caeiro)* 

Pediram-me para escrever sobre a BD portuguesa. Um exercício inútil. Que adianta escrever aqui nomes de autores, publicações ou obras se nem os portugueses os conhecem ou se dignam a reconhecer? (incluindo as gentes da cena da BD que são uns merdas ignorantes) Para quê o “name-dropping” se não se pode encontrar os trabalhos de forma acessível? Se vierem a uma livraria portuguesa estranhamente até poderão encontrar duas obras reeditadas dos anos 70 - Wanya, de Augusto Mota e Nelson Dias e Eternus 9 de Vitor Mesquita - mas irão se rir da naivitée da época. Dos anos 80 nem há livros para falar. Só a partir dos anos 90 que até podem encontrar livros de BD portuguesa no estrangeiro como História de Lisboa de A.H. Oliveira Marques e Filipe Abranches e Mr. Burroughts de David Soares e Pedro Nora, ambos em francês. Neste milénio até há mais livros editados, alguns 14 anos depois da sua publicação portuguesa como os do Pedro Burgos e o do Pedro Brito com o João Fazenda em França, Polónia e Itália.

Por cá, o mercado da BD popular foi desaparecendo ao longo do século XX mas os seus autores sempre estiveram bem alinhados aos sabores dos tempos: dos grandes mestres do desenho realista e aventura (Victor Péon, Fernando Bento) aos fabricantes dos “grandes narizes” (Carlos Roque, António Fernandes Silva), dos que esmiuçam os políticos na imprensa (Nuno Saraiva) até aos que mostram as cuecas dos super-heróis no seu mercado (Jorge Coelho), houve sempre um pouco de tudo em doses homeopáticas e sempre com qualidade técnica irrepreensível. Mas não é destes que interessa escrever nem dos seus problemas profissionais – tal pode ser lido em Quadradinhos: Looks on Portuguese Comics, catálogo-antologia editada no âmbito do Festival de Treviso 2014.

Viver não vale a pena. Só olhar é que vale a pena. Poder olhar sem viver realizaria a felicidade, mas é impossível, como tudo quanto costuma ser o que sonhamos. O êxtase que não incluísse a vida!* 

Os movimentos da BD portuguesa não são de fluxo em progresso mas de interrupções contínuas que não oferecem passado nem futuro. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) deu o verdadeiro arranque editando jornais e álbuns humorísticos que deveriam ser modelo para todos e até fez o primeiro acto de autobiografia com No Lazareto de Lisboa (1881). Não teve seguimento... Carlos Botelho (1899-1982) será excepção à regra da História com o seu misto de crónica, autobiografia, jornalismo e sátira, sabe-se lá como resistiu entre 1928 e 1950 a fazer uma página semanal no jornal Sempre Fixe! O Estado Novo tinha sido instalado dois anos antes embora seja verdade que algumas vezes a Censura deixou passar desenhos seus em que Mussolini e Hitler seminus eram expulsos do Paraíso – já agora, o ditador italiano fazia de “Eva” e é nomeada de “Mussolina”. Os especialistas internacionais da BD não pensam nestes dois autores como património mundial, Pinheiro ou Botelho não tiveram impacto internacional (nem poderiam com um país fechado ao mundo) por isso: continuem a brincar com as pilinhas da Krazy Kat (apesar de ser uma gata) e do Calvo!

Logo após a revolução de 25 de Abril de 1974 já havia Visão (revista entre 1975-76) aberta ao psicadelismo e à anti-autoridade. O anarquismo era “light” (Kiala dixit) mais a dar para o maoísmo resminga e não foram longe nem parecem ter tido consequências… É preciso esperar pelo pós-modernismo da revista Lx Comics (1990-91) para se ver a amplitude que a BD poderia ter mas ninguém percebeu aquilo. Depois veio a instituição pública da Bedeteca de Lisboa para conduzir a geração “indie” dos anos 90 para um “boom” mediático e editorial em que de repente, tudo parecia ser possível. Esse trabalho destes tempos foi decaindo lentamente a partir de 2002 até ao esquecimento de hoje, embora a biblioteca continue num edifício amarelo e com o maior acervo de BD nacional para consulta e empréstimo domiciliário. Desde 2005 que a cena portuguesa em geral vive um vazio existencial mas que não tem durado mais tempo do que os intervalos entre as outras referências históricas aqui indicadas neste parágrafo.

Este vazio nem deveria ser problemático porque há muito que vivemos sem Deus ou qualquer outro tipo de centro. É impossível agrupar estes artistas que entram neste livro a qualquer movimento até porque há aqui idades e percursos muito diferentes, isto ao ponto de apesar os conhecer quase todos, nem sabia que a Marta Monteiro fazia BD – foi o David Schilter que “descobriu” esse facto. Tal como foi ele que me indicou a Joana Estrela (tudo bem, ela andava pelos países bálticos) mas o mais importante foi que o Kuš! publicou o primeiro livro da Amanda Baeza.

Chegamos ao ponto deste mistério total que é porque raios a Kuš! está recheada de dissidentes? Existe outra palavra para eles? É certo que alguns até se movem em colectivos organizados como a Chili Com Carne (Daniel Lopes, André Lemos, Francisco Sousa Lobo, Rafael Gouveia), Oficina Arara (Bruno Borges) ou Clube do Inferno (André Pereira) – esse fenómeno incompreensível para os portugueses: a colectividade – mas a maior parte são “lobos solitários” como a Cátia Serrão e o Daniel Lima. Há “lobos” cheios de gente como o Tiago Manuel que deverá ultrapassar “as pessoas do Fernando” com o seu projecto de 25 heterónimos – a sua belga Marriette Tosel foi seleccionada pela Society of Illustrators no ano passado! E há o Paulo Monteiro que apesar da sua faceta institucional à frente da Bedeteca de Beja e respectivo Festival de BD, tem poesia pelos poros que afecta editores estrangeiros – é o autor português com mais edições estrangeiras do seu único livro! Estas internacionalizações são um fenómeno recente, durante muito tempo Portugal não participava na festa do intercâmbio. Sentia-se bem a comer gordura animal e batatas vindas da aldeia, era preciso que “viessem cá” para perceber o que se passava. O génio cria para a gaveta e é preciso que o chateiem!

Eles ficam comovidos com os desafios, claro. Afinal, o isolamento que sofrem é digno de um Arthur Dent*** que durante anos foi abandonado sozinho num planeta qualquer no Universo. As respostas sobre tudo isto da BD portuguesa que não consegui escrever na verdade estão nas sábias palavras que Dent pronunciou ao aparecer-lhe o primeiro ser inteligente, Bowerick Wowbagger the Infinitely Prolonged, nesse exílio e faço questão de citá-las: Whh...? Bu...hu...uh ... Ru...ra...wah...who?




*Frases do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
**Prof. Universitário angolano de Sociologia que reside entre Lisboa e Belfast, um dos fundadores do zine Mesinha de Cabeceira e “think tank” na cena alternativa nos anos 90.
***Atenção, estamos no domínio d’O Guia Galáctico do Pendura de Douglas Adams!