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terça-feira, 5 de maio de 2026

MASSA CRITICA /// na Utopia


 
Pergunta, que espécie de antologia de Banda Desenhada poderá entrar na colecção THISCOvery CCChannel? Talvez se encontre uma resposta aqui! 

Exacto! 

Numa preocupação constante de falta de obras de referência em Portugal - e apesar de alguns títulos sobre bd que já publicámos nesta colecção, como a Maga ou The Reading Gaze (de Domingos Isabelinho) - qualquer oportunidade é boa para arrancar pelo menos testemunhos sobre BD pelos artistas. Por exemplo, quando o australiano Michael Fikaris quis fazer uma antologia de bd portuguesa e australiana, foi convencido a pedir trabalhos sobre bd aos artistas convidados. A antologia Opposights saiu em 2021, e os resultados dos portugueses eram surpreendentes! Tinha de publicar-se em Portugal ou em português! Pouco importava se seria um livro pequeno! 

Felizmente, foi crescendo porque fomos encontrando sempre mais alguém que mostrava interesse em participar. Muito sinceramente, valia e valeu a pena esperar mais um bocadinho até que o artista entregasse o trabalho. 

 Bocadinho a bocadinho, já lá vão uns três anos para esta montanha parir este rato. Rato? Ratazana, isto é para picar!!! Cinzentinhos, bazem!

foto de Rodolfo Mariano


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128p p/b 16,5x23cm, capa a 2 cores. Editado por Marcos Farrajota. Publicado pela Chili Com Carne e Thisco. Capa e Design feito pelo Rei da BD Portuguesa!!
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disponível na nossa loja em linha e na Almedina, BdMania, Kingpin Books, Linha de Sombra, Matéria Prima, Snob, Socorro, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, ZDB (Lisboa), Cassandra, Mundo Fantasma, Utopia (Porto) e Velhotes (VN Gaia). E na Eventual (Espanha) e TFM (Alemanha).
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Tabela de conteúdos:

Editorial Arrivista (texto) por Marcos Farrajota

EXPERIÊNCIA
A cena por Amanda Baeza
(sobre feiras e estratégias) por Mariana Pita
Comic Trips por Rui Moura
(uma autobiografia sobre a sua relação com a BD) por Bruno Borges
(a primeira parte do livro "No tempo em que os meus medos falavam") por Miguel Ferreira

FORMA
Shapes found in Comics por Cátia Serrão
(sobre o vício da tinta da china, em inglês devido ao "punchline" intraduzível) por Pedro Burgos
Estudo do meio por André Lemos
Subtextual nihilism por Hetamoé

ENSAIO
Porquê BD? por André Pereira
Consciência Sequencial por Rodolfo Mariano
Breve e imprecisa História da Cienfuegos Press por Gonçalo Duarte
Melanina & a BD portuguesa no século XXI por Miguel Santos
O Hábito fez um monstro! por Lucas Almeida
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Feedback:

Ontem já estive a ler parte do livro à noite. Grande editorial arrivista! Já estava entusiasmado para ver o livro e agora que o tenho nas mãos fico ainda mais contente por ter participado. As histórias que li rendem bué e é um livro que parece sair na altura certa, com todas as discussões que me têm chegado aos ouvidos (sobre a BD ser um "género", sobre a "novela gráfica", sobre a falta de consciência história da BD PT...). Também me ocorreu que, no género de "BD a falar dela própria", e ao contrário do que se faz por aí, é um livro que dá destaque às vozes de autores e não de editores, o que me parece relevante no contexto actual. Enfim, considerações superficiais, mas genuinamente entusiasmadas; deixo a profundidade de reflexão para as várias histórias do Massa Crítica.
André Pereira (via email)

A Massa 'tava óptima!
David Campos (via email)

Excelente BD a do Miguel Santos na Massa Crítica.
André Oliveira (via email)

(...) A brincadeira começou na Austrália, (...) em que eu já participei com mais alguns artistas portugueses e de lá. Não fazia ideia que iriam querer publicar a versão portuguesa, que junta mais uns quantos nomes e é mais específica sobre a cena local - ou seja, portuguesa. Cada vez me faz mais confusão falar de arte ou bd portuguesa, ou sequer de Portugal, já que trazem o tema à conversa; ou mesmo de banda desenhada, por oposição a outras disciplinas ou circunscrita no seu meio. (...) Ainda assim, gostei muito do livro (...) Revejo-me naquilo, conheço a maior parte dos assuntos e as pessoas; para além de que me deu bastante gozo fazer a minha parte. E, claro, é com certeza um material de estudo necessário e interessante para quem vem depois para fazer a BD. O design do livro é do Rudolfo e está altamente!


Antologia de banda desenhada que eleva a BD portuguesa a patamares de distinção Raramente um livro de banda desenhada em Portugal consegue captar ao mesmo tempo a energia de um movimento artístico pulsante e a reflexão exigente sobre o próprio meio. Massa Crítica, antologia (...) consegue exatamente isso. (...) Do ponto de vista formal, editorial e estético, Massa Crítica é uma obra de afirmação. (...) As categorias de conteúdo — Experiência, Forma, Ensaio — indicam por si um ambicioso cruzamento entre autobiografia artística, teoria, crítica e prática. Por exemplo, (...) Porquê BD? de André Pereira, não só enriquecem o panorama teórico da BD portuguesa como oferecem leituras íntimas, pessoais, que reforçam a autenticidade do todo. Num panorama editorial em que por vezes se privilegiam fórmulas seguras ou estéticas de apelo imediato, Massa Crítica ergue-se como contraponto valioso: desafia, provoca, estimula. Não se contenta em apenas registar o que já existe; procura interrogar, abrir novas emoções, lançar pontes entre o meio e quem o consome. E faz isso de dentro, por quem vive a banda desenhada. (...) É um manifesto — artístico, intelectual, cultural — e uma prova concreta de que a banda desenhada portuguesa tem mais de onde extrair matéria, alma e espessura. Quem se interessa por BD, ou por cultura contemporânea que pensa para lá da superfície, vai encontrar aqui um livro obrigatório. A capa de Massa Crítica: manifesto visual da BD independente portuguesa Num mercado editorial onde muitas vezes a capa é pensada apenas como chamariz de consumo rápido, Massa Crítica apresenta-se com uma solução gráfica ousada, concebida por Rudolfo, que funciona como verdadeiro manifesto visual. O fundo magenta saturado contrasta de forma vibrante com as letras e figuras em amarelo, criando uma tensão cromática que prende o olhar e impõe presença. As formas orgânicas — meio tipográficas, meio escultóricas — evocam tanto o gesto manual como a experimentação plástica digital, transmitindo uma energia bruta, viva e indomável. Não há aqui a busca por uma “beleza polida”, mas antes a afirmação da autenticidade e da radicalidade criativa que caracteriza a Chili Com Carne. (...)
Paulo Pereira para um JL extinto

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Historial

14 de Dezembro 2024: primeira apresentação na Socorro, Porto, com a presença do editor Marcos Farrajota e o artista Rui Moura. no âmbito do Culturismo Hardcore II, o maior evento de nicho Pop!

11 de Janeiro 2025: lançamento oficial na Tinta nos Nervos, com presença do editor Marcos Farrajota e dos artistas Amanda Baeza, André Pereira, Hetamoé e Miguel Santos.

24 Fevereiro 2025: conferência "Melanina e a BD Portuguesa no século XXI" por Miguel Santos @ Sala 8.2.12 da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Referido sem crítica - porque a pobreza grassa na BD portuguesa - no jornal Jornal de Letras, o que diz muito da barriga burguesa do seu "crítico"...

 22 Setembro 2025: BD de Hetamoé no projecto Story Tellers no Parque Silva Porto, Benfica, Lisboa



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (2)

A split-tape de Thir e Death Posture já saiu em 2023, editada pela Tribunal of Penance, mas foi só no Perímetro que me apercebi dela. Fui na conversa do Durvena Cabina porque este fez um dos discos mais interessantes no ano passado pela Rasga. 

No cômputo geral é Industrial, sendo Thir mais próximo de experimentação electrónica a lembrar os saudosos tempos da Thisco, à procura do "fantasma da máquina", como escreveu Rui Eduardo Paes num Bestiário, enquanto que Death Posture é mais funcional num Dark Tekno que seria uma bela dança se houvesse pistas de dança para esta música em Portugal - existem? Duvido... Não impressionam apesar da qualidade do som, composição e produção mas sobretudo sabe a pouco, são apenas quatro temas apenas nem dá para atropelar ninguém, conscientemente ou não, ao ouvir a k7 no carro... I want more!!! 


Doghead #1 (The Mansion Press; 2024) também é "split" e sobretudo é o regresso à BD do canadiano Dave Cooper, artista gráfico virtuoso de tendências Neo-Pop e Crumbianas.

São duas histórias cada uma numa parte do livro, The Great Hierarchy é uma cosmogonia surreal e sexualizada, que só iremos perceber - ah, esqueci-me ambas BDs são de continuação, ou melhor divididas em 6 capítulos ou seja o Doghead irá ter 6 volumes - se tem pernas (e/ou pénis e/ou vagina) para andar depois de lermos esta "introdução". Longe da tontice do Suckle e a meio caminho do Crumple - embora este fosse uma ficção especulativa feminista. L'architecte já é outro animal completamente diferente, passa-se nos anos 70 em Nova Scotia (onde o artista nasceu) e mete uma trama com um edifício brutalista na narração. Uma personagem feminina voluptuosa leva-me logo a pensar que isto está na linha das tensões psico-sexuais do erótico Ripple mas cheira-me que isto vai dar em algo entre o Hitchcock ou o recém-falecido Lynch. Promete!!

O traço de Cooper está excelente, sempre com detalhes excessivos em matéria de vegetais e ovais, usando traços a duas cores. A editora é francesa mas está a publicar sobretudo artistas não-PCs norte-americanos e japoneses mas também o "nosso" Carlos Carcassa... Ou seja os livros estão para o pseudo-esperanto do inglês.

Por falar em "pseudo-esperanto", não será a BD sem palavras essa oportunidade de comunicação universal? Duvido muito porque o desenho, ou melhor, as representações pictóricas e as culturas nunca são uniformes, por exemplo, um quadrado com uma porta e janela (mais quadrado dentro do quadrado) e um telhado que é um triângulo não quererá dizer casa para algumas culturas em que estas não se assemelham a nada disso... Os dois números do ano passado da revista eslovena Stripburger foram "mudos", ou seja, publicaram BD sem palavras. Internacionalista como sempre encontramos vários nomes de toda a parte do planeta. O número 84 em especial tem uma boa selecção de BDs, bastante impressionantes como já não acontecia a algum tempo, em que destaco o português Bruno Borges, os alemães Alexandra Rügler, Andy Leuenberger, Lili Gaigal e Nadine Redlich (também autora da divertida capa), o belga Simon De Waepenaere, o grande gringo Peter Kuper e os franceses Nicolas Presl e Gary Colin.

Sendo um número especial, o tradicional "suplemento tradutor para inglês que costuma acompanhar a revista desta vez inclui o índice, a ficha técnica e um artigo sobre o mestre da BD muda Jim Woodring. Um grande número!!!

A revista encontra-se distribuída em Portugal na livraria Tinta nos Nervos e a colecção completa da publicação pode ser consultada no acervo da Bedeteca de Lisboa.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Rentrée bédé!

Setembro é o grande regresso às actividades culturais - como se sabe os festivais de verão são life-style e não de música!

Começou a semana passada logo com a grande Mariana Pita no WC / BD onde se poderá ver originais das suas bandas desenhadas na colectânea Lá fora com os fofinhos.


E HOJE no Museu Nacional de História Natural e da Ciência vai inaugurar provavelmente a exposição de BD mais importante deste ano, não percam!!!

cartaz de Martin López Lam

Deep Time é uma exposição que reúne 14 artistas ibéricos convidados a explorar, através da banda desenhada, o conceito de “tempo profundo”—a passagem do tempo registada nas camadas geológicas. As marcas da transformação química e biológica do nosso planeta possuem uma poética que é familiar à banda desenhada, onde a justaposição de elementos produz uma sequência cronológica. Deep Time responde à urgência de integrar a escala humana na geológica, num momento em que já alterámos profundamente os sistemas terrestres.

Artistas: Amanda Baeza / Ana Maçã / André Pereira / Begoña García-Alén / Bruno Borges / Cátia Serrão / Daniel Lima / Hetamoé / Irkus / Mao / Martín López Lam / Ricardo Paião Oliveira / Roberto Massó / Rudolfo 

Curadoria: Ana Matilde Sousa e Hugo Almeida

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Relatório 2023 sobre zines e edição independente

Comecemos por um pequeno acto de coragem, uma singela mas acutilante BD digital de Tiago da Bernarda com o seu habitual Gato Mariano e Bruninho (és o maior!) publicado seu instagram sobre a guerra em Gaza - aliás, um outro Bruno até explica que o desenho ainda é arma contra a estupidez e controlo digital - uma vez que a falta de coragem grassa pelo mundo, com medo de perder a sua continha de rede social.




Os últimos anos do mercado de BD em Portugal tem sido um avalanche de mediocridade porque a BD - ops! perdão, a "novela gráfica" - está na moda. Lá fora o mesmo acontece, claro mas há muito mais oferta (e melhor), até porque foi uma construção de várias forças e de décadas de trabalho que permitiu que agora a BD seja omnipresente em qualquer "nicho de mercado" e que tenha oferta para "todos os gostos".

Cá não foi assim nem os resultados serão os mesmo. As editoras profissionais generalistas são absolutamente ignorantes nesta área, publicam as cenouras que os agentes literários internacionais lhes abanam: adaptações literárias em primeiro plano, seguida de biografias ou adaptações históricas, e por fim, "Manga" da sexta divisão e feito por ocidentais medíocres... aliás, tudo o que foi referido, tirando uma excepção ao outra, é perfeitamente medíocre! De realçar, apesar de ser um livro menor na sua carreira, O Segredo da Força Sobre-Humana de Alison Bechdel, graficamente pouco atraente e com algumas piadas parvinhas que estragam o peso autobiográfico da obra, não deixa de ser interessante ver a Relógio D'Água a sair do seu próprio catálogo imundo de adaptações literárias que criou ao começar a publicar "novelas gráficas".

Os editores especializados, tem conhecimento e "savoir-faire" mas o seu mau-gosto e pensamento reacionário, fez que ignorassem artistas que rotulavam de "alternativos" - ou pior ainda: basta ser "artista", que é palavra feia no meio bedófilo! - e que ficaram grandes nos últimos anos, ou seja, agora custam mais caro de quando eram "alternativos" e menos acessíveis como pessoas para criar relações entre autor e editor. É óbvio que se for a primeira vez que se publica um livro da Julie Doucet ou do Adrian Tomine, custará vendê-los ao público português que não os conhece - isto deveria estar entre aspas, pois há muita gente que conhece estes autores porque compram edições noutras línguas! Será mais fácil editar um Tardi - e foi das poucas coisas de jeito que saíram no ano passado, falo de Elise e os novos Partisans, com Dominique Grange, pela Ala dos Livros - do que o Yvan Alagbé. Isto apesar de todos os autores aqui referidos terem passado por Portugal, em presença física e com exposições de grandes festivais de BD... Também é fácil à Devir publicar Junji Ito, Naoki Urasawa ou Taiyo Matsumoto, quando até os putos da província tem t-shirts deles ou já viram os Animes na 'net, do que publicar os irmãos Tsuge. Gostamos destes autores, claro, mas falta audácia.

É neste caldo de inconsistência que se circula, por cá. Mas há mais inconsistências, mesmo no meio "alternativo"...


Internacional

A Chili Com Carne esteve no Festival de Angoulême, Autobán (A Corunha) e Fexti (Badajoz). A Magma Bruta no Graf de Barcelona e a Oficina Arara no Novo Doba (Belgrado). Parece que todos  se baldaram ao Crack (Roma), talvez porque vieram de lá doentes em 2022?

Franciso Sousa Lobo participou na revista finlandesa Kuti e na letã Kuš!, nesta última também entrou o Ivo Puiupo. Na colecção mini kuš! dessa mesma editora, saíram os livrinhos de Ana Margarida Matos e João Fazenda. Pela Eslovénia, comemorando os 30 anos da revista Stripburger, participaram Bruno Borges e Filipe Abranches na antologia Dirty Thirty. Matos e Sofia Neto entraram no fanzine espanhol Soñario e Ana Maçã no dreamzine #2, ambos do projecto ElMonstruoDeColoresNoTieneBoca. Amanda Baeza voltou em forma internacional estando na antologia suiça «autre chose» com a "creme de la creme" da BD mundial e ainda no fanzine Amorcito da Galiza. Foi de lá também que veio o álbum Zeca Afonso – A balada do desterro, com texto da galega Teresa Moure e desenhos da portuguesa Maria João Worm. O livro foi publicado pela Acentral Folque, da Galiza, e a Tradisom, de Portugal, assim sim vale a pena fazer projectos internacionais. AngueSângue de Daniel Lima teve edição em português pela Chili Com Carne e em inglês pela Kuš!. Lima também viu a sua página do Le Monde Diplomatique - edição alemã - de 2018 compilada em Die große Salatschüssel des Lebens, pela Reprodukt, ou seja outra antologia "creme de la creme", diga-se de passagem! Borges continua com a Abolição do Trabalho, de Bob Black, a conquistar mundo, desta vez nos EUA pela Floating World. 

Nesta mesma editora que começou publicar a obra do primeiro grande artista de BD, o italiano Guido Buzzelli (1927-92) e Domingos Isabelinho entregou um texto introdutório para o primeiro volume. Não foi o único português a fazer trabalho de referência, Leonardo de Sá que investigou a passagem por Portugal do autor francês de BD "collabo" André Daix (1901-76) no livro Dans l’Ombre du Professeur Nimbus por Antoine Sausverd, pela P.L.G.


Visita ao zoo

Com programações cada vez mais fracas, os festivais de BD não tem trazido artistas estrangeiros que possa referir aqui, só o habitual putedo bedófilo, ficando as excepções (que confirmam a regra) para as espanholas Anabel Colazo (em Beja) e Mayte Alvarado (Amadora). Tem sido a Tinta nos Nervos a arriscar, como aliás, já é uma verdade há 3 anos, tendo trazido para exposições o finlandês Marko Turunen e o bom gringo Christopher Sperandio. De referir a passagem do editor da Floating World, Jason Levian também por lá, para apresentar o livro do Borges acima referido.

De resto, os nómadas em Lisboa tornou-se num fenómeno que não pode ser ignorado. Vários são os autores que passam por cá, ora ficam uns tempitos em residências artísticas, por exemplo, como o suíço Yves Hänggi que fez duas exposições em Lisboa, ora assentam os arraias e até começam por publicar livros como a irlandesa Rayne Booth ou o turco Utku Yavaşça que está a desenhar uma divertida BD num fanzine de "expats" (é assim que se escreve?) chamado Ble$$ed. Alguns já cá estão cá há anos e são gajos grandes como o francês Hervé di Rosa que teve uma exposição no MAAT com uma confusa data de final de exposição. O romeno Nicolae Negura, também residente há anos por Lisboa, participou no projecto Histórias de 89 no obscuro Instituto Cultural Romeno em Lisboa. E não esquecendo ainda o cromo norte-americano Flynn Kinney que meteu cenas tugas nos "melhores do ano" do fanzine Bubbles. Obrigado!


Eventos

Acontecimentos houve muitos, o habitual mercado de edições independentes que cada vez são mais feiras de cartazes - e infelizmente o antídoto que era o M.A.L. não sobreviveu para 2023. Trata-se de uma verdadeira gentrificação das publicações. Quando este tipo de eventos apareceu em Portugal, chamavam-se "Feiras de Fanzines" nos finais dos anos 90, ao longo da primeira década do novo milénio, devido à democratização dos meios de produção ligados à impressão, acrescentou-se "edição independente" de forma a entrar livros de autor, livros de artista, micro-edições e livros com distribuição restrita. Nos últimos 10 anos parece que os eventos de "edição independente" são uma feira de Carcavelos com imagens chatas e redundantes, onde pessoas (clientes) vão comprar serigrafias e afins para decorar os seus A.L. ou salas amarelas ou cozinhas azuis, sei lá... Houve a Raia, Parangona (Lisboa), Alegria, Perímetro (Porto) e Autónoma (duas edições em Cacilhas no abandonado Ponto de Encontro, justamente onde apareceu das primeiras "Feiras de Fanzines"!). Em Alpiarça fez-se um simpático Festival de BD e Fanzines. A Chili participou em mais umas feiras de outros temas: Feia (Música), Livro Anarquista, Livro de Arte (em Coimbra, imaginem isso!), Festival Rescaldo e Matiné Fetra. De realçar, pela negativa e como primeiras manifestações de "zinewashing" a "rip-off" Stolen Goods em que na sua própria sede, a organização pedia 75 euros por mesa aos seus participantes -  tendo uma série de estrangeiros caído na esparrela (e alguns portugueses); e a Direita monga cabotina da Junta de Freguesia de Arroios organizou a segunda FLIFA em que participaram VIPS de merda e um bosta de um facho.

Continuou a instalação Story Tellers no Parque Silva Porto (Benfica, Lisboa) com quatro conteúdos diferentes tal como as estações do ano e apareceu o ciclo Ilustraboom WC/BD na antiga casa de banho pública do Jardim Camilo Castelo Branco (Lisboa) com exposições mensais, das quais destacam-se as da Joana Mosi e Zé Burnay por trabalharam sobre o espaço e não terem colocado apenas pranchas nas paredes. Em Óbidos continua a mostra anual Flexágono, no festival In-Fólio, organizado por Pedro Moura. Em Torres Novas, na Biblioteca Municipal, fez-me uma exposição sobre os 50 anos do fanzine Impulso, seja lá o que isso tenha sido. Na Biblioteca Nacional, ainda a recuperar os atrasos do covid, comemora-se os 100 anos do ABCzinho (1921). Mais importante é a recuperação de trabalhos de Artur Varela (1937-2017) numa exposição na ZDB. Houve exposições da Rosa Baptista (aka Rroze Selavy) para inaugurar a Casa do Comum no Bairro Alto (que inclui livraria e onde foram feitas as feiras anarquista e Parangona) e este escriba teve uma expo-guerrilha em Guimarães, Ganza Metal, graças à malta da Magma Bruta, onde foram recuperadas peças do Zalão de Danda Besenhada (2000) e do Mistério da Cultura (2007).

O mais importante de 2023 e onde o futuro se constrói foi Memórias Artificiais do Rei da BD portuguesa, Rudolfo, que mostrou originais de BD, tocou música e mostrou o seu videojogo (que mete BD) num armazém no Porto, em Junho, um dia antes da Feira da Alegria. Que alguém tenha olhos na majestade!


Publicações finalmente!

Não! Cada vez existe menos fanzines ou zines, não sei se é da crise que se vive, individualismo do neo-liberalismo que se vive ou apenas falta de tempo mas quase não se encontram projectos e artistas novos. Quase deixa de fazer sentido escrever este relatório. Só se justifica porque há sempre projectos independentes com qualidade para relembrar os mais incautos. Este ano a maior surpresa foi o caso da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas-Artes do Porto que fizeram o Coisas feias em Belas Artes, um fanzine em formato A5 catita com montes de BDs politizadas sobre a degradação do ensino superior em Portugal mas também sobre a tomada de consciência de como a cultura e o associativismo são importantes – prova dada pela qualidade da organização da Associação ao produzir a Feira da Alegria! Destaque especial para o autor Pedro Evangelho.

Na continuidade de projectos eis que houve mais volumes do Bomba Zine, O Filme da Minha Vida, Bancar0ta, Fosso (José Feitor), Mesinha de Cabeceira, Olho do cu, Opuntia Books (desenho) e Umbra. A Chili Com Carne, Magma Bruta e Sendai continuam de boa saúde a publicar o melhor da BD "artística".

Regressou o divertido fanzine É fartar vilanagem, tal como os artistas João Carola, André Coelho, Dois Vês e Rafael Gouveia voltaram às lides da auto-edição. O mesmo para o colectivo MASSACRE que logo no início do ano com um livro de algum investimento, falo do The End of Madoka Machina de André Pereira.

Os destaques vão para os projectos fora de comum, tudo da Chili e associados, modéstia à parte: Where's the ground? da banda Rock Unsafe Space Garden, pela Discos de Platão, em que a música,  a BD (de Alexandra Saldanha) e os espetáculos ao vivo parecem unos num caleidoscópio psicadélico. O jornal Carne para Canhão da Chili, só com um número ainda, que pretende chegar a públicos mais alargados por ser gratuito, inspirado noutros projectos passados como o finlandês Kuti. E o grande Vale dos Vencidos, obra de 11 anos de trabalho de José Smith Vargas, um "tour de force", com alguns laivos inéditos de composição editorial do livro mas sobretudo um marco histórico na BD portuguesa, pela complexidade narrativa e a temática das destruições das cidades que tanto nos aflige.


Referências

Depois das palhaçadas d'A SHeITa do ano passado, que apesar disso, ainda são úteis q.b., para pelo menos cartografar a BD portuguesa deste milénio, 2023 foi deserto outra vez nesta área. Apareceu uma simples brochura de Bibliografia de Banda Desenhada de Ficção especulativa Portuguesa por Marco Fraga da Silva, editada pela Associação Tentáculo. A Tinta da China para redimir dos desastres ecológicos do passado (Melo & su muchacho) reeditou os Cartoons de João Abel Manta. A Arte do Autor publicou mais uma BD sobre a vida de Edgar P. Jacobs, numa eterna bedófilia feita por uns gajos franco-belgas que nobody gives a shit! A revista sobre ilustração Aguça sacou o número três e apesar de ainda não ter visto nem lido, só os nomes aguçam o apetite: Amanda Baeza, João Sobral, Mariana Pita, Sara Boiça e Sofia Neto. E a mais "boring art magazine ever" Umbigo teve uma frikice qualquer que metia o acervo da Bedeteca Nacional [sic] da Amadora a ser discutido pelo Tiago Baptista num artigo. O que vale é que o Baptista é sólido...

Vencedor do ano, o blogue My Nation Underground do nosso associado "Erradiador" que todos os dias coloca um "post" (ou mais que um) de um fanzine da sua colecção - essencialmente de BD - criando um puzle e compendio deste tipo de publicações. Quem for de ano a ano poderá ter uma imagem mais nítida do que foi ou é a cena dos zines (e edição independente) em Portugal. Como diziam os outros: clap clap clap!


Tristezas não pagam dívidas

2023 foi um retrocesso civilizacional, não só pelas guerras, por exemplo, mas também pelo tratamento xenófobo que a Câmara Municipal da Amadora infligiu à artista luso-chilena Amanda Baeza, que não mereceu celebrar o 25 de Abril com a instituição. Tal mereceu boicote de um certo público ao Festival de BD, embora, não havia nada para esse público ir lá ver - tirando a exposição do Smith Vargas, claro.

De referir ainda a triste morte aos 60 anos do norte-americano Joe Matt, um caso in extremis de como o uso da autobiografia pode secar a vida de um artista. Matt era tão viciado em pornografia, tal como era tão pornográfico na forma como deitava para fora a sua vida nas BDs autobiográficas, sob o título de Peepshow. O seu falecimento deveu-se à falta de dinheiro para tratar da sua saúde.

Quem não é anarquista que tire as conclusões que quiser sobre estes dois casos...

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Será a caneta mais poderosa do que a espada?

 



A edição portuguesa do Monde Diplomatique tem publicado, sob a nossa coordenação, as respostas a este desafio em Banda Desenhada por uma série de artistas. 

Este mês é a vez do Bruno Borges que vive no Porto. Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa (2001), desviou-se desde cedo para a ilustração e BD, tendo realizado dezenas de zines e livros, entre eles, a adaptação de Abolição do Trabalho, de Bob Black, que tem tido várias edições, incluindo no Brasil, Espanha e EUA. Colaborou em vários projectos editoriais: Zundap, Opuntia Books, Imprensa Canalha, Chili Com Carne, Oficina Arara e Stripburger (Eslovénia). Fundou o selo editorial O Gorila, de onde saíram os dois volumes de O Diário do Corona.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Massa crítica?




Nestes anos estranhos de Covid só percebi em Junho deste ano que a antologia de BD Opposights pela Silent Army finalmente saiu. Junta nas suas páginas autores portugueses e australianos a tratarem das suas experiências com o meio da BD. Da parte portuguesa estão artistas fantásticos como a Amanda Baeza (que fez também a capa) ou a Hetamoé - hilariante a sua BD, parte com tudo!!!!!!!

Entretanto o editor e artista gráfico Michael Fikaris teve uma exposição inaugurada este Sábado na Tinta nos Nervos e tivemos uma conversa... e... foi o "high five" de missão cumprida!




Da minha parte ajudei o Fikaris na selecção e pelos vistos fui recompensado aparecendo nas BDs do Rui Moura e da Mariana Pita.



Se o Rui mostra uma homenagem porque lhe foi parar uma CriCa nos tempos do saudoso Milhões de Festa, já a Pita trata-me como se fosse um maluquinho. É merecido! Mas o melhor dela é algures na BD que mete o fofinho a dizer isto: Curators for a zine fair? What the f**k is this? Talvez a cena mais brilhante alguma vez escrita na BD portuguesa!!! Quem achasse que a Pita era só fofuras, fiquem então a saber que ela sabe dar uma doses de realidade crítica assim nas entrelinhas.

Por fim, mandar vir este livro da Austrália é uma dor de cabeça de guita e de burocracia - as alfândegas portuguesas deveriam entrar numa BD da Cátia Serrão ou do Pedro Burgos, por exemplo... Se calhar fazia-se uma edição portuguesa disto, não?



terça-feira, 5 de abril de 2022

Escola de Tradução para BD

 


Vários autores e editores da Chili Com Carne participam neste evento. Programação aqui.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

TRIP #10 portugal spleen special


Sai este fim-de-semana no TCAF o número 10 da revista TRIP, do Canadá, que inclui um dossier especial "Portugal" com BDs inéditas de vários artistas, a saber: Gonçalo Duarte, Francisco Sousa Lobo, Cátia Serrão, Mariana Pita, Tiago Baptista, Hétamoé, Daniel Lima, Bruno Borges e Xavier Almeida. 

A capa é de José Feitor e a coordenação do dossier ficou a cargo de Marcos Farrajota e Sara Figueiredo Costa, esta última escreveu também este texto introdutório: 


            
A ideia de uma unidade nacional continua a alimentar ilusões. Em Portugal, quando queremos falar de nós a quem não nasceu ou não vive cá, temos os oceanos, a expansão marítima, o fado, o futebol... os mesmos temas de sempre, pisados e repisados para melhor se adaptarem a uma narrativa onde somos sempre heróis, mesmo que em pequena escala, sonhadores, melancólicos e aventureiros. Falamos da expansão marítima, mas esquecemos a colonização e os escravizados que daí resultaram – às vezes falamos disso, mas sempre afirmando que “a nossa colonização foi mais benévola do que outras”, como se medir a crueldade e a opressão fosse um bom modo de olhar para o passado. Falamos do fado como se não houvesse outras expressões musicais, artísticas, a marcarem o nosso percurso comum. Falamos, sobretudo, de uma história cristalizada numa certa ideia de grandeza cruzada com falsa modéstia e andamos a falar nisso há demasiado tempo.
            
Quando começámos a pensar numa antologia de autores de banda desenhada portugueses, preferimos alterar o ângulo do olhar. Ver outras coisas, pensar de outra forma, questionar mais do que enaltecer. E procurar gente que quisesse assumir essa liberdade de olhar. Esta não é, por isso, uma antologia institucional, preocupada com a suposta representatividade dos autores incluídos ao nível do estilo, do reconhecimento ou da frequência com que publicam relativamente à produção portuguesa de banda desenhada. Ainda que aqui se incluam autores e autoras que seguramente integrariam uma antologia como essa, o que pretendemos, acima de tudo, foi reunir um conjunto de autores contemporâneos de banda desenhada que respondessem a esta ideia de um certo ar do tempo. Essa era a contemporaneidade que almejávamos alcançar, um olhar para aquilo a que Charles Baudelaire, na Paris do século XIX, definiu como spleen, a mistura indefinível de temas, emoções, dúvidas e pesadelos capaz de capturar o espírito de um tempo. E também de um lugar.

Curiosamente, spleen, em inglês, significa “baço”, um órgão que não será o primeiro a vir-nos à ideia quando pensamos no corpo humano mas que, ainda assim, é fundamental para a produção de novas células e para a eliminação das velhas. Foi também isso que quisemos fazer. Baudelaire está morto há muito mais de um século, os cafés sombrios onde se traficavam livros, drogas ou ilusões foram substituídos por estabelecimentos gourmet e Lisboa nunca foi Paris... Ainda assim, o spleen permanece como um bom conceito para lermos as cidades e a sua respiração, uma espécie de microscópio por onde observar o tempo e o lugar.
            
O tempo é agora e o lugar é Portugal. Temos uma meteorologia invejada, muitos turistas, companhias low-cost, morangos no Inverno e toda a espécie de melhorias tecnológicas inimagináveis há uma ou duas décadas. Depois da Revolução dos Cravos, a 25 Abril de 1974, passámos a ter democracia, coisa que por vezes parecemos esquecer. Com a democracia vieram as condições sanitárias que faltavam em muitos lugares, a literacia, o acesso à saúde e à educação, os direitos que a ditadura negou durante décadas. Ainda assim, não estamos livres de problemas, tragédias e acidentes, como as centenas de mortos nos incêndios de Verão, a disfuncionalidade do sistema nacional de saúde, o racismo estrutural numa sociedade onde continuamos a achar que há pessoas que não merecem viver aqui, o facto de termos canais televisivos que podem dedicar quase uma hora às notícias do futebol e apenas um ou dois minutos à guerra na Síria, por exemplo. Talvez devêssemos pensar mais na nossa vida, e no modo como a vivemos em comunidade, em vez de nos dedicarmos a caçar unicórnios... E de que unicórnios falamos? Entre morangos no Inverno e juízes machistas a quem não parece mal que uma mulher adúltera seja vítima de violência doméstica, temos de tudo. É capaz de ser este o nosso spleen, cheio de sonhos de grandeza nas Eurovisões e nas Copas do Mundo e cheio de gente expulsa da casa onde sempre morou para alimentar a máquina infernal da especulação imobiliária. Umas vezes há coisas bonitas no meio da tempestade, claro, outras não é fácil respirar. Para reflectir sobre o que nos rodeia, aqui e agora, desafiámos dez artistas e demos-lhes temas que nos pareceram apropriados à sua obra, ou pela familiaridade, ou pelo desafio.
            
Até aos anos 90 do século passado, o mercado editorial de banda desenhada em Portugal era preenchido sobretudo pela publicação de álbuns oriundos do eixo franco-belga, alguma produção nacional muito associada aos temas históricos e à narrativa de aventuras (herdeira do registo de publicações que, décadas antes, tiveram sucesso entre os leitores, como O Mosquito, fundada em 1936 e activa até 1986, ou a Cavaleiro Andante, publicada entre 1952 e 1962) e trabalhos pontuais que não se inseriam em nenhum dos registos anteriores. Houve momentos de excepção, como o protagonizado pela revista Visão (entre Abril de 1975  e Maio de 1976), que congregou autores cujo discurso procurava pensar a banda desenhada, experimentar dentro e fora das suas possíveis fronteiras e trabalhar em direcções não limitadas pelo registo juvenil, mas não foram suficientes para tornar abrangente e múltipla a percepção do público e as intenções do mercado.
            
Durante a década de 1990, a percepção da banda desenhada como uma linguagem destinada às leituras juvenis ou nostálgicas (quando não como um género, facto tão decorrente do desconhecimento como da limitação de registos editados) altera-se, ainda que ligeiramente. O crescimento do mercado editorial, com o consequente aumento de canais de distribuição e colocação de livros, beneficiou a banda desenhada, permitindo que livros com registos mais experimentais encontrassem o seu espaço nas livrarias, agora atentas a outros modos de trabalhar a linguagem da banda desenhada. Por outro lado, os espaços de divulgação e exposição beneficiaram de uma evolução no que toca à diversidade, mantendo-se festivais como o da Amadora, onde a presença da banda desenhada de vocação receptiva mais massiva sempre marcou presença, acompanhada de exibições pontuais de trabalhos e autores exteriores ao mainstream franco-belga e norte-americano, mas surgindo outros, como o Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto e o Salão Lisboa de Ilustração e Banda Desenhada, fundamentais para a criação de um público que não se limitava aos fãs de banda desenhada, mas que se compunha igualmente por interessados pelas áreas da literatura, das artes visuais, do cinema de autor... A recepção da banda desenhada deixou de ser exclusiva dos fãs das aventuras juvenis e dos nostálgicos de uma suposta Idade de Ouro e iniciou a sua inscrição no território amplo e transdisciplinar das artes. Sem excluir o património que motivou edições e exposições antes desta década, sem abandonar a herança da comunicação de massas que ditou a sua percepção excluindo qualquer outra abordagem, a banda desenhada abandonou o seu gueto de fãs e nostálgicos e passou a estar à disposição de um público mais vasto e necessariamente heterogéneo. Esta abertura foi acompanhada por projectos editoriais que, no mercado ou nas suas margens, permitiram a edição de autores que até aí não teriam qualquer hipótese de ver o seu trabalho publicado, animando movimentos editoriais que passaram por chancelas como a Polvo, a Pedranocharco ou a Chili Com Carne, bem como edições institucionais associadas à Bedeteca de Lisboa (com a colecção Lx Comics, de autores portugueses) ou ao Salão do Porto (com a colecção Quadradinho).
            
No início deste século, uma outra conjuntura se formou, alterando o panorama que se criara nos anos de 1990 e definindo um outro, bem diferente, marcado pela contenção económica e pela redução do volume de edição. O entusiasmo da década de 1990 em torno da edição criou uma ilusão que não correspondia, apesar de todas as melhorias apontadas, à realidade de um mercado editorial pequeno, com livrarias pouco preparadas para definirem secções de banda desenhada que ultrapassassem a etiqueta do “infanto-juvenil” e com um espaço limitado na imprensa para a divulgação e a crítica de livros em geral. Por outro lado, talvez a ausência de uma preparação sólida para lidar com a gestão editorial e os condicionalismos do mercado do livro por parte de muitos editores (nem sempre com a experiência que um mercado como o do livro exige num país cujos níveis de leitura geral nunca foram famosos) tenha sido responsável por um entusiasmo que se saldou no estrangulamento do mercado, com o exíguo espaço disponível para a banda desenhada sufocado por centenas de títulos ao mesmo tempo.
            
A tentativa de traçar uma interpretação histórico-sociológica das últimas décadas no que à edição de banda desenhada em Portugal diz respeito não tem como passar disso mesmo. Para além da proximidade cronológica, que em caso algum é positiva para uma fixação rigorosa dos factos, quanto mais para uma interpretação, a inexistência de dados fiáveis impede o exercício: o mercado editorial nunca registou os seus dados em termos gerais e rigorosos (situação que não é exclusiva da banda desenhada e que continua a dificultar a análise e o trabalho de todos quantos lidam profissionalmente com a edição, sejam agentes directos ou não), o que nos deixa unicamente com os números das editoras e com as análises que foram sendo traçadas, em jeito de balanço, em sites como o da Bedeteca de Lisboa e em suplementos culturais que têm o hábito de encerrar o ano com uma retrospectiva que, frequentemente, inclui dados mensuráveis. Relendo essa documentação, bem como textos fundamentais como presentes nas actas dos encontros Hoje, a BD, que a Bedeteca de Lisboa realizou em 1996 e 1999, não será um mero exercício de especulação concluir que o encerramento do Salão do Porto, o decréscimo de actividade da Bedeteca de Lisboa (que inclui o fim do Salão Lisboa, a suspensão da colecção Lx Comics e de toda a actividade editorial e, mais recentemente, o encerramento da sala de exposições, que albergava, com alguma regularidade, mostras de autores que maioritariamente não estão editados em Portugal, apesar da consideração que o seu trabalho tem merecido por parte de críticos, investigadores e leitores de outras latitudes), o fim de várias editoras e o abrandamento muito significativo da actividade de outras constituíram os eixos essenciais de uma conjuntura que, provavelmente com a influência de outros factores difíceis de identificar a uma distância temporal tão curta, ditaram, na primeira década do século XXI, o regresso a uma inércia editorial em que a regra voltou a ser o entretenimento.
            
A reacção de autores, editores e outros envolvidos, no entanto, voltou a alterar o cenário entre a primeira e a segunda década do século. As peculiaridades do mercado editorial e o acesso cada vez mais democrático às tecnologias da informação e da comunicação permitiram aos autores portugueses a descoberta de caminhos alternativos ao processo tradicional de edição. Em alguns casos, os mercados estrangeiros constituíram um terreno fértil, tanto no plano comercial como no plano do intercâmbio artístico e da definição de espaços de publicação e divulgação. Os exemplos de autores que conseguiram encontrar o seu espaço na indústria dos comics norte-americanos, muitas vezes integrando equipas amplas e com vários trabalhos a decorrerem em simultâneo, são significativos. Por outro lado, a facilidade de estabelecer contactos, trocas e parcerias com autores e projectos editoriais e artísticos de qualquer ponto do mundo abriu vias interessantes de colaboração, levando vários autores a publicarem os seus trabalhos em países como França, Espanha, Eslovénia ou Rússia, quer com títulos individuais, quer integrando-se em antologias internacionais.
            
Também o acesso facilitado às tecnologias associadas à edição, sobretudo com o desenvolvimento da impressão digital e com a vulgarização de empresas que oferecem serviços que começam na pré-impressão e culminam na entrega do número de exemplares combinado à porta de casa do autor, autores sem espaço no mercado tradicional (e sem intenção de adaptarem a sua criação ao registo considerado “vendável” pelas editoras) editaram o seu próprio trabalho, individualmente ou em plataformas colectivas. É o caso de artistas como André Lemos, Júcifer, Marco Mendes, Hetamoé, Lucas Almeida, Tiago Albuquerque ou Sílvia Rodrigues, e de projectos como a Opuntia Books, Os Gajos da Mula, a Chili Com Carne, o Clube do Inferno, a Imprensa Canalha ou a Sapata Press, bem como de editoras de média dimensão e com um trabalho cuidadosamente gerido, como a Kingpin Books, ou outras que vinham dos anos 90 e souberam adaptar-se à nova realidade, como a Polvo. Com o avançar deste novo século, agora já com quase duas décadas, estes caminhos deram os seus frutos e criaram novos espaços na circulação de banda desenhada em Portugal. Hoje, aquilo a que chamamos mercado já não é um monolito constituído pelo circuito autor-editora-distribuidora-livraria. Há muitos autores que se auto-editam, individualmente ou em projectos colectivos, e muitos projectos editoriais de pequena dimensão que fazem chegar as suas criações aos leitores em espaços que nasceram do esforço colectivo de autores, leitores e outros entusiastas do do it yourself, como as feiras de edição independente (casos da Feira Laica, entretanto descontinuada, da Feira Morta, da Raia, etc) que acontecem em diversos pontos do país, muitas vezes com convidados estrangeiros cuja presença em Portugal acaba por resultar em novos projectos partilhados, novos livros editados em Portugal ou nos países de origem desses convidados. Editoras que vinham dos anos 90, como a Polvo e a Chili Com Carne, e novos projectos como a Kingpin Books, ou, numa escala mais pequena, a El Pep, firmaram-se num espaço que inclui as livrarias (no caso da Kingpin Books, com uma livraria própria, no centro de Lisboa), mas que passa igualmente pela presença nos festivais de banda desenhada e, nalguns casos, pelas mesmas feiras de edição independente onde circulam livros e outras publicações com tiragens menores, por vezes impressas artesanalmente. O mercado reinventou-se e parece ter decidido ignorar as dificuldades do mainstream, criando os seus próprios caminhos e abrindo espaços onde eles não existiam. A vitalidade criativa e editorial de projectos como estes e outros tem assegurado diálogos constantes e frutuosos entre artistas, e entre estes e o público minoritário que os conhece, acabando por alcançar outros públicos e confirmando que a auto-edição, a edição em pequena escala e a atenção aos circuitos não-generalistas que há uns anos se apontava como futuro possível para a edição de banda desenhada em Portugal é, hoje, o seu presente.
            
Longe de caravelas e melancolias preparadas para exportação imediata, os barcos onde navegamos hoje são instáveis. E navegamos todos, os que nunca pisaram um convés, os que andam entre Portugal e o estrangeiro em rotas aéreas low-cost para ganhar a vida, mas também os que tentam chegar à Europa arriscando a vida para fugir da guerra, porque essa ideia de uma nação com as suas fronteiras há muito que se esboroou, para o bem e para o mal. Vivemos aqui, alguns somos daqui desde sempre, outros passámos a ser, porque é aqui que estamos. E aqui é em Portugal, mas não deixa de ser nesse não-lugar criado pela internet, pela globalização, pelo capitalismo, e também pela vontade de conhecer os outros, pela necessidade de circular, pela ânsia de abrir mundos sem ser à força. Temos bom tempo e temos canções, temos corrupção e dificuldades económicas, temos turistas e muitas interrogações. E temos, seguramente, autores com vontade de pensar nisto tudo sem a ilusão de um passado glorificado mas com os pés bem fincados no que somos, fomos e vamos sendo.

domingo, 4 de novembro de 2018

Relatório 2017 é no Portuguese Small Press Yearbook 2018 (finalmente!)

foto do ZineFestPt 2017
O Relatório sobre Fanzines e Edição Independente 2017 foi publicado no Portuguese Small Press Yearbook como aconteceu há dois anos atrás. Era para ter saído no fanzine Mariano #3 mas que se atrasou bastante. O João Carola fez umas belas ilustrações para acompanhar o texto.
E entretanto para a edição deste ano, fui convidado para editar o dito cujo, complementando com um texto sobre a BD portuguesa e os seus pecados de ignorância. O Rudolfo fez uma revolução no Design do PSPY e recuperei uma BD perdida do artista Paulo Mendes que conclui a edição - uma provocação necessária...
Foram convidados uma série de autores de BD para contarem sobre as suas experiências sobre edição independente - em BD. Participam Bruno Borges, Ema Gaspar, Mao, Filipe Felizardo, Francisco Sousa Lobo e Xavier Almeida.
Já está disponível aqui e no stand na BD Porcalhota (ex-BD Amadora)...

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Çuta Kebab & Party / ESGOTADO / SOLD OUT / digital download only


Çuta Kebab & Party é um projecto devoto à música popular e "fast-food" euroasiáticas, protagonizado por três produtores portugueses que se deixaram seduzir pela colisão entre antiguidade, modernidade, tradição e imediatismo que ambas propõem. Durante uma semana a fluxo de Falaffel, Kebabs e Narguilé, foi produzido um EP que homenageia esta cultura híbrida, evocando-a a partir de uma perspectiva ocidental, com o uso de "found tapes" oriundas de bairros turcos de cidades europeias, gravações feitas em "kebab shops" e ritmos da música tradicional turca e curda.
O disco de 10" de estreia deste projecto é uma co-edição Chili Com Carne e Faca Monstro. Edição limitada a 300 exemplares, a capa é em serigrafia e inclui um encarte-poster com ilustrações das músicas por André Lemos, Bruno Borges, João Chambel, Jucifer, Marcos Farrajota, Margarida Borges e Ricardo Martins.
Porquê é que nos pusemos a editar um disco em vinil? Porque achamos este projecto de suma importância cultural para o nosso país cinzento e rural. Negámos África até há pouco tempo ficarmos de Kuduru. E o nosso lado sarraceno? Aquele que nós absorvemos de tal forma que já nem sabemos que somos mais mouros que celtas? Çuta Kebab & Party será um marco na História como o regresso do espírito árabe à cultura portuguesa mesmo que seja IDM com "found-tapes" turcas.
De resto, até prova contrária, não nos interessa editar mais nenhum outro disco.
...
FIRST VYNIL RECORD at CHILI COM CARNE
(and maybe the last one, we like only this music to make a physical record!)
Çuta Kebab & Party it's project devoted to popular music and Euro-asian fast-food, made by three Portuguese producers seduced by the clash of Ancient, Modern, Tradition and Contemporary.
During one week consuming Falaffel, Kebabs and Narguilé, they produced this EP, true homage to hybrid culture in an Occidental perspective using "found tapes" from Turkish neighborhood in European cities, recordings in Kebab shops and Turkish and Curd traditional rhythms.
It's an edition of 300 copies, silkscreened with poster and 6 different illustrations by Ricardo Martins, João Chambel, André Lemos, Margarida Borges, Marcos Farrajota, Jucifer and Bruno Borges.
credits: released 25 June 2011 at Feira Laica / Trem Azul, all tracks produced by Pedro What, HHY and Ghuna X. Mixed by HHY. Mastered by Ghuna X at The Environment. Released by Faca Monstro and Chili Com Carne
.
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ESGOTADO / SOLD OUT [maybe there's still some copies @ Staalplaat, Digelius, Urgence Disk or Neurotitan] 

Digital download @ facamonstro.bandcamp.com

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Feedback: lançado dia 25 de Junho 2011 na Trem Azul, no âmbito da Festa da Feira Laica ... lançamento portuense no dia 5 de Agosto 2011 no Café au Lait ... Yes Kebab rules. I like it a lot as a vegetarian. I must find my dancing shoes. Jyrki Heikkinen ... the Kebab mix, I really like first song on A side and the “Halhat” on B side, perfect for LSD kebab fiesta!!!! its a good LP for my collection of “strange vyniles” Bertoyas ... Kebab 10" is a great record. Our boss, Stephane, really liked it! VP / Ici d'Ailleurs

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quantos š tem "desassossego"?


CHEGOU a antologia š! número especial dedicado à BD portuguesa e ao "Desassossego"!!! 

A Chili Com Carne deu apoio na selecção dos artistas a incluir neste volume e numa discussão com a redacção da Letónia chegou-se à conclusão que Portugal tem a mania de dizer que é um "país de poetas". Se for verdade, ao menos que se actualize ao século XXI e que eles sejam "visuais"! Daí a razão de explorar explorar o "desassossego", um dos maiores marcos literários do século XX do "nosso" Fernando Pessoa, para definir as tensões gráficas e narrativas angulares que unem esta lista de artistas ímpares: Amanda Baeza, André Lemos, André Pereira, Bruno Borges, Cátia Serrão, Daniel Lima (imagem), Daniel Lopes, Filipe Abranches, Francisco Sousa Lobo, Joana Estrela, João Fazenda, Marta Monteiro, Milena Baeza, Paulo Monteiro, Pedro Burgos, Rafael Gouveia e Tiago Manuel.

à venda aqui




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texto (original e em português) de Marcos Farrajota para este número: 


Tudo o que fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer*. 

Os meus olhos queimam de tanto tempo que passo em frente ao monitor para escrever algo de original sobre a banda desenhada portuguesa. Desta Arte só podemos dizer que ela será boa para ti se tu fores boa para ela. Ainda assim, ela é uma tontura, uma pechincha, um suplício, um esforço inútil sem causas nem consequências, sem glória ou recompensa. Em Portugal e noutras partes do mundo, fazer BD é simplesmente um acto isolado, sem consciência de classe e sem localização de parentescos e aliados - que safodam as redes sociais, elas não ajudam em nada para quem se mete numa mesa a tentar equilibrar imagens e textos.

Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito de viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação*. 

Perguntei a António Kiala** opinião. Ele responde-me com a sua habitual fúria: “o que distingue a BD portuguesa das outras é a História do seu próprio país que sempre se acomodou ao esclavagismo e colonialismo e que devido à periferia europeia não teve problemas de sustentar um fascismo “light” (tudo é leve no nosso país) durante 50 anos. Esse clima católico e bem-comportado (senão iam para fogueira da Inquisição) tornou o povo analfabeto e dócil num húmus nauseabundo o que não impede que o génio sobressaia em alguns autores!” Tem de ser assim, senão a palavra “génio” nem existiria. Poucos mas bons! De baixa estatura também. E morenos, embora essa pureza genética dê vontade de rir – só os ingénuos e idiotas é que acreditam em eugenias e raças puras de cavalos. Por acaso, só na selecção de autores feitos neste número do Kuš! muitos têm mais que um metro e setenta e alguns até são loiros. Podiam passar por letões ou um eslavo menos deslavado. Em comum são autores que se dissociam obviamente do cliché da BD masculina, heterossexual e caucasiana – embora pouco importa a cor de pele ou a opção sexual quando não se tem talento ou vontade de dizer o que lhe vai na Alma.

Porque se sou do tamanho do que vejo / E não do tamanho da minha altura (Alberto Caeiro)* 

Pediram-me para escrever sobre a BD portuguesa. Um exercício inútil. Que adianta escrever aqui nomes de autores, publicações ou obras se nem os portugueses os conhecem ou se dignam a reconhecer? (incluindo as gentes da cena da BD que são uns merdas ignorantes) Para quê o “name-dropping” se não se pode encontrar os trabalhos de forma acessível? Se vierem a uma livraria portuguesa estranhamente até poderão encontrar duas obras reeditadas dos anos 70 - Wanya, de Augusto Mota e Nelson Dias e Eternus 9 de Vitor Mesquita - mas irão se rir da naivitée da época. Dos anos 80 nem há livros para falar. Só a partir dos anos 90 que até podem encontrar livros de BD portuguesa no estrangeiro como História de Lisboa de A.H. Oliveira Marques e Filipe Abranches e Mr. Burroughts de David Soares e Pedro Nora, ambos em francês. Neste milénio até há mais livros editados, alguns 14 anos depois da sua publicação portuguesa como os do Pedro Burgos e o do Pedro Brito com o João Fazenda em França, Polónia e Itália.

Por cá, o mercado da BD popular foi desaparecendo ao longo do século XX mas os seus autores sempre estiveram bem alinhados aos sabores dos tempos: dos grandes mestres do desenho realista e aventura (Victor Péon, Fernando Bento) aos fabricantes dos “grandes narizes” (Carlos Roque, António Fernandes Silva), dos que esmiuçam os políticos na imprensa (Nuno Saraiva) até aos que mostram as cuecas dos super-heróis no seu mercado (Jorge Coelho), houve sempre um pouco de tudo em doses homeopáticas e sempre com qualidade técnica irrepreensível. Mas não é destes que interessa escrever nem dos seus problemas profissionais – tal pode ser lido em Quadradinhos: Looks on Portuguese Comics, catálogo-antologia editada no âmbito do Festival de Treviso 2014.

Viver não vale a pena. Só olhar é que vale a pena. Poder olhar sem viver realizaria a felicidade, mas é impossível, como tudo quanto costuma ser o que sonhamos. O êxtase que não incluísse a vida!* 

Os movimentos da BD portuguesa não são de fluxo em progresso mas de interrupções contínuas que não oferecem passado nem futuro. Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) deu o verdadeiro arranque editando jornais e álbuns humorísticos que deveriam ser modelo para todos e até fez o primeiro acto de autobiografia com No Lazareto de Lisboa (1881). Não teve seguimento... Carlos Botelho (1899-1982) será excepção à regra da História com o seu misto de crónica, autobiografia, jornalismo e sátira, sabe-se lá como resistiu entre 1928 e 1950 a fazer uma página semanal no jornal Sempre Fixe! O Estado Novo tinha sido instalado dois anos antes embora seja verdade que algumas vezes a Censura deixou passar desenhos seus em que Mussolini e Hitler seminus eram expulsos do Paraíso – já agora, o ditador italiano fazia de “Eva” e é nomeada de “Mussolina”. Os especialistas internacionais da BD não pensam nestes dois autores como património mundial, Pinheiro ou Botelho não tiveram impacto internacional (nem poderiam com um país fechado ao mundo) por isso: continuem a brincar com as pilinhas da Krazy Kat (apesar de ser uma gata) e do Calvo!

Logo após a revolução de 25 de Abril de 1974 já havia Visão (revista entre 1975-76) aberta ao psicadelismo e à anti-autoridade. O anarquismo era “light” (Kiala dixit) mais a dar para o maoísmo resminga e não foram longe nem parecem ter tido consequências… É preciso esperar pelo pós-modernismo da revista Lx Comics (1990-91) para se ver a amplitude que a BD poderia ter mas ninguém percebeu aquilo. Depois veio a instituição pública da Bedeteca de Lisboa para conduzir a geração “indie” dos anos 90 para um “boom” mediático e editorial em que de repente, tudo parecia ser possível. Esse trabalho destes tempos foi decaindo lentamente a partir de 2002 até ao esquecimento de hoje, embora a biblioteca continue num edifício amarelo e com o maior acervo de BD nacional para consulta e empréstimo domiciliário. Desde 2005 que a cena portuguesa em geral vive um vazio existencial mas que não tem durado mais tempo do que os intervalos entre as outras referências históricas aqui indicadas neste parágrafo.

Este vazio nem deveria ser problemático porque há muito que vivemos sem Deus ou qualquer outro tipo de centro. É impossível agrupar estes artistas que entram neste livro a qualquer movimento até porque há aqui idades e percursos muito diferentes, isto ao ponto de apesar os conhecer quase todos, nem sabia que a Marta Monteiro fazia BD – foi o David Schilter que “descobriu” esse facto. Tal como foi ele que me indicou a Joana Estrela (tudo bem, ela andava pelos países bálticos) mas o mais importante foi que o Kuš! publicou o primeiro livro da Amanda Baeza.

Chegamos ao ponto deste mistério total que é porque raios a Kuš! está recheada de dissidentes? Existe outra palavra para eles? É certo que alguns até se movem em colectivos organizados como a Chili Com Carne (Daniel Lopes, André Lemos, Francisco Sousa Lobo, Rafael Gouveia), Oficina Arara (Bruno Borges) ou Clube do Inferno (André Pereira) – esse fenómeno incompreensível para os portugueses: a colectividade – mas a maior parte são “lobos solitários” como a Cátia Serrão e o Daniel Lima. Há “lobos” cheios de gente como o Tiago Manuel que deverá ultrapassar “as pessoas do Fernando” com o seu projecto de 25 heterónimos – a sua belga Marriette Tosel foi seleccionada pela Society of Illustrators no ano passado! E há o Paulo Monteiro que apesar da sua faceta institucional à frente da Bedeteca de Beja e respectivo Festival de BD, tem poesia pelos poros que afecta editores estrangeiros – é o autor português com mais edições estrangeiras do seu único livro! Estas internacionalizações são um fenómeno recente, durante muito tempo Portugal não participava na festa do intercâmbio. Sentia-se bem a comer gordura animal e batatas vindas da aldeia, era preciso que “viessem cá” para perceber o que se passava. O génio cria para a gaveta e é preciso que o chateiem!

Eles ficam comovidos com os desafios, claro. Afinal, o isolamento que sofrem é digno de um Arthur Dent*** que durante anos foi abandonado sozinho num planeta qualquer no Universo. As respostas sobre tudo isto da BD portuguesa que não consegui escrever na verdade estão nas sábias palavras que Dent pronunciou ao aparecer-lhe o primeiro ser inteligente, Bowerick Wowbagger the Infinitely Prolonged, nesse exílio e faço questão de citá-las: Whh...? Bu...hu...uh ... Ru...ra...wah...who?




*Frases do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa
**Prof. Universitário angolano de Sociologia que reside entre Lisboa e Belfast, um dos fundadores do zine Mesinha de Cabeceira e “think tank” na cena alternativa nos anos 90.
***Atenção, estamos no domínio d’O Guia Galáctico do Pendura de Douglas Adams!