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domingo, 31 de janeiro de 2021

Troubled Sleep #4


Saiu o ano passado e temos agora acessível no nosso Bazar (da loja em linha da Chili) o quarto número de Troubled Sleep. Edição da Narcolepsia em que só os conhecedores não-poseurs é que saberão qual a editora tal é a descrição da inserção de um mero logotipo com zero palavras na contra-capa deste fanzine.

Publicação dedicada ao Harsh Noise e ao Underground - sim ainda é possível de falar disso nesta década - é impressionante, logo à primeira vista-cortada-à-andaluz, o trabalho do editor em montar as páginas corta-e-cola à antiga ao longo de 80 e tal páginas. Ninguém com os seus "photoshops & instagrams" terá esta capacidade para fazer este trabalho manual nos dias que correm.

Constituído por quatro "grandes" entrevistas, neste número só tem uma seca - Legless - por ser o Harsh Noise de sempre, sendo as outras boas descobertas no campo do Black Metal ritualista (Reptile Womb), Industrial italiano dos 80s (Zona Industriale) e artes plásticas (pelo incrível finlandês Jukka Siikala). Os discursos destes artistas na realidade pouco interessam porque sendo eles nitidamente bichos-do mato, cagões do BM e misantropos, é a Arte fala por eles. Aliás, a tendência a ser reaça - tirando os velhos italianos de ZI com simpatias pelos autonomistas e anarquistas dos anos 70 - até assusta um bocado ler a leviandade de algumas afirmações, considerando que vivemos tempos complicados de "nazos", conspiradores ignorantes e outros "chegas" a capitalizarem das nossas angústias. Mais do que nunca o título deste fanzine faz sentido, e ficamos com o sono atribulado.

sábado, 9 de maio de 2020

Regresso à anormalidade


Anda tudo entesado com a "normalidade" quando as narrativas são iguaizinhas, quer à Esquerda (trabalho, trabalho!) quer à Direita (a economia, temos de salvar a economia!), só merda, todos desejam voltar a vender patinhos de plástico e ir no fim-de-semana para a quinta muito-ecológica limpar a consciência com a prole (ops, herdeiros, prole é prós miseráveis). Felizmente há coisas que sairam nestas semanas para mantermos a cabeça sã e contra a velha ordem, como este livro Defects do norte-americano Thomas Grant Stetson pela Black Blood Press - editora de graphzines que há 10 anos que nos oferece as imagens mais chocantes aqui da periferia.
Na linha de arte grotesca, que se pode localizar nos punks anos 70 com o movimento graphzine dos franceses Bazooka vindo até aos dias de hoje com os Le Dernier Cri, eis uma galeria de corpos em formol, dissecados e esfolados, colocados em poses estatuárias a posarem arrogantes. Para quem? Talvez para quem as vendeu comida envenenada, para quem poluiu os ares que respiram, para quem lhes vendeu remédios que geraram abortos, quem sabe? Estes corpos corrompidos ter ar de desafio, isso é certo, fazem-nos mijar nas calças.
Edição menor que o formato A4 (o A4 é para parolos!) com 40 e tal desenhos feitos em caneta esferográfica cuja impressão offset capturou bem, eis a publicação mais "pro" da Black Blood, parabéns! Do autor nada se sabe, fez algum "artwork" para fonogramas pós-industrialitas mas também, queriam saber o quê mais depois disto?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Underground


Burnt to a crisp (Black Blood Press; 2015) é um fanzine de arte maldita, suja e obscura. Não é para malta da moda e outros betos, não senhor! Gajos como Eduardo Pécurto, Manuel Pereira, André Coelho ou Romain Perrot não fazem isto porque é "cool" ou para engatar gajas ou porque vai render "likes". Esta gente baralha factos biológicos, pós-colonialismo, miséria humana, perversão sexual, ruído visual com os seus desenhos e colagens para nos agoniar as entranhas e meter-nos em estado de alerta, pensa, negros humilhados, caveiras medievais, gajas escravizadas, dinheiro e escombros... Século XXI é mais civilizado porque tens um smartphone? Estes bárbaros (que até devem ter smartphones e aquecedores em casa) mostram que não...


O instigador do fanzine acima é o Manuel Pereira que teve direito a um título a solo, o Tricofilia (Black Horizons; 2015) - termo para excitação sexual por cabelos. Lançado por uma editora norte-americana de Noise e afins, o zine é metido num saco preto que arrepia. Admito que tive medo de o abrir e tirar de lá a publicação - sabe-se se esta gente não escondeu uma seringa de um agarrado qualquer de San Francisco dentro da embalagem? Iá, iá, fia-te na virgem e não corras...O enfoque sobre a questão sexual-capilar ficou aquém das expectativas embora tecnicamente Pereira cada vez mais pulverize as colagens em pequenos fragmentos, fazendo delas mais texturizadas do que figurativas. O resultado final é que parece que encontramos na lixeira um álbum de recordações de um tarado sexual que violou bifas no Algarve. Creepy shit...


Foi a colagem da capa que me fez pegar em Als Tier ist der Mensch nichts (Monotonstudio; 2016) dos Unru... senão teria cagado completamente. Tocam Black Metal contemporâneo, ou seja, são uns rapazes com ar de beto alternativo e que fazem uma barulheira incrível, muitas vezes pisando os terrenos imundos do Sludge que podem ser tão insuportáveis como os BM. Já agora, o artwork do disco é de B.D. Graft que parece que poderia estar mais numa revista de "novas tendências" do que a fazer algo para metaleiros... Safou-se muito bem e conseguiu pelo menos uma venda de uma k7!


Já cá tinha escrito sobre quanto tinha adorado a actuação ao vivo da Jejuno, e até andei a ver se ela queria lançar uma k7 pela MMMNNNRRRG. Preferiu um Urubu (soa mal assim, hahaha) e a MNRG lançou a Bleid invés, mostrando que são as mulheres a fazerem as criações mais interessantes em Portugal nos últimos tempos - olhem no caso da BD a Hetamoé, Sofia Neto e Amanda Baeza para destacar os melhores exemplos... Não consigo deixar de a comparar a AtilA como alguém que faz uma electrónica pós-industrial, negra e com batidas duras. Mas enquanto AtilA é calculista e técnico (no bom sentido), Jejuno é intuitiva e imprevisível, duramente desprogramada e suja. Ou seja, um dos melhores discos portugueses de 2016. Maldito Urubu!


O francês Albert Foolmoon ama Lisboa e faz questão de vir às "nossas" feiras de edição independente. Esteve na última Morta onde vendeu um exemplar da antologia de desenho Terreur Nocturne (Lézard Actif; 2014). "Queixou-se" de que quem a comprou disse-lhe que ia retalhar o livro para colocar as páginas em molduras... Convenhamos, com 24 páginas A3 serigrafadas a várias cores, estava à espera do quê? Não venha com tretas que os 'tugas são bárbaros! Ainda mais com desenhos da turminha da má-onda como Sam Rictus, Don Rogelio Jr., Dav Guedin, Martin Lopez Lam, Alkbazz, Victor Dvnkel... Assim sim, o crime compensa, ao menos as pessoas compram estes livros porque curtem e não por coleccionismo de obras anacrónicas em serigrafia que andam por aí...

quarta-feira, 29 de abril de 2015

MÁ ONDA E SUJIDADE #666

O Camarada Pereira da Narcolepsia começou com esta secção mas abandonou-a sabe-se lá porquê. Como provocação eis um "número" especial para instigá-lo a voltar! Talvez uma das razões da desistência do Narcolepsia Man ter continuado com estes "posts" foi porque anda a editar muita K7, CD e zines como estes três pela sua Black Blood Press:



Absurdum Compil Decembre 2013 (!) é de Romain Perrot, ou seja, Vomir, ou seja, aquele gajo do Harsh Noise que actua com um saco de plástico na cabeça... Perrot será mais um caso in extremis do punk / outsider art / etc... ou seja, admite que não sabe fazer nada mas isso não o faz desistir de fazer Noise violentíssimo, tocar guitarra como um Neandertal (embora este duo da Estónia tenham mais piada) e desenha pessimamente. O seu charme transcende o trabalho e Pereira editou um zine enorme A4 de cento e tal páginas de desenhos de meter medo ao susto. E o "zinão" ainda vem com um suplemento intitulado France Lucifer que pode ser visto como um "catálogo" de grafismos da label de Perrot remisturado por Manuel Pereira. Não curti nada porque estou a ficar um velho conservador, claro...



The repetition of unappealing moments de Andy Krupinski (metade da banda "outsider black metal" Crooked Necks) é estranhamente narrativo apesar de se perceber que se trata uma compilação de colagens sem essa ligação. Mas "lendo" as imagens de seguida chega-se ao tema do "trabalho das 9 às 5" e os tempos modernos da rotina. Pena a impressão ser a fotocópia barata que deixa pouca definição sobre estes trabalhos...




Já Dog-Tired de Kevin McEleney (da Heavy Psych) é o contrário, uma fotocópia (e/ou papel) xunga iria dar-se bem com as composições mais abstractas e "graphic-glitch". Deve ser uma das poucas edições da Black Blood que foge ao cliché da escatologia da cultura Noise. Interessante...




Ainda mais inesperado, sobretudo prós puristas do Harsh Noise é a edição em CD [Que heresia! Harsh Noise tem de ser editado em k7 ou vinil, NUNCA em CD diz a Bíblia dos "noisers"] de Great Northern Love de Fecalove que está com uma produção super-limpa - quer de imagem, com capa do próprio Fecalove - aka Nicola Vinciguerra - quer no som. Mas "limpo" não significa que não seja um terror sonoro que fazem as obras no prédio parecer melodias para crianças. Uma besta este disco co-editado entre a Narcolepsia e a finlandesa Untergeschoss.


Da Finlândia chegou-me umas ricas peças!... DES (Institute of Paraphilia Studies; 2013) é um livro de Arte que recolhe um trabalho do artista sueco Martin Bladh envolta do "serial killer" inglês Dennis Nilsen preso em 1983. Reúne fotografias, desenhos, correspondência com o criminoso e ainda com o filho de uma das suas vitimas. Bladh cria discursos sobre as relações entre Arte e assassinato que no mínimo provocam perturbações intelectuais mais do que as imagens que são publicadas. Já agora, para os mais distraídos Bladh já colaborou com Sektor 304 no Sonores e no recém-lançado disco Ruby.


Erotic Perversion #1 (2002) é um fanzine finlandês sobre sexo perverso, que pouca utilidade terá quem quiser masturbar-se a não ser que goste de ver pás a serem enfiadas numa vagina, S/M a roçar o snuff, piercings na genitalia, resenhas a filmes de Bukkake, etc... Diz no editorial, que o fanzine é feito para satisfazer os desejos pessoais do editor, o que torna o acto editorial numa perversão erótica por ela própria. A entrevista a Nalle Virolainen é interessante como quem está metido neste tipo de cena sexual é (ou pode) ser crítico à pornografia - como uma arma do capitalismo e da monocultura - mas já a Alexia que gosta de levar com urina e fezes, enfim...


Por fim, para quem não aguenta tanta violência, pode-se ficar pelo split-7" de Hellbastard e Perpetratör lançado pela "joint-venture" Chaosphere / Raging Planet / Hellprod. A primeira banda é inglesa e uma instituição do Punk-Crust de fusão com o Metal - como os seminais Discharge - e mostra que os punks à muito que sabem tocar além de que são capazes até de fazer uma balada para acalmar os nervos. A segunda banda é música para tomar speeds regados com tintol da terra, ou seja Thrash à séria! Num país de paradinhos como o nosso é de ficar embasbacado com este trio pois cumprem todos os requisitos do género: barulheira, complexidade e velocidade. A melhor banda do momento de Metal daqui do canto? É bem capaz... Procurem esta pérolazinha!

domingo, 5 de abril de 2015

Energia morta!


A Feira Morta não pará de dar cartas nem que seja pelas ideias mórbidas (imagem acima) mas sobretudo pela energia que está gera com os seus participantes. Os editores / autores sabem que vale a pena ter sempre novidades editoriais em cada evento porque a Morta é um sítio privilegiado (senão o único) para mostrar trabalho - e vendê-lo... Daí que os zines apareçam de formas pouco ortodoxas também, como a Se Mente que lançou o E Tudo o Comboio Levou como um "auto-benefit" por ter perdido computador e tralhas num comboio - sim, o dinheiro será para a miúda ficar menos miserável tecnologicamente. O design do zine é estranho, um A6 horizontal com folhas recortadas em rectângulos em que apresentam os desenhadores que ilustraram o episódio de Se Mente... só visto! O artista Xavier Almeida curtia era ser autor de BD como o Álvarez Rabo e não um "arteist" a julgar pelo mini-zine Eu Sou o Maior / Eu Sou uma Merda (na realidade isto é de 2012), verdadeira galhofa binária... Júlia Reis (das Pega Monstro) fez um zine de uma recente tournê das bandas da Cafetra por Espanha, é um zine A5 anímico intitulado Tour Life - falta-lhe a vida porque são apenas 5 páginas de BD-caderno-de-viagem, vá lá! Faz mais!!! Nada de preguiça, para isso já basta o Lazy Bastard, zine clássico na forma mas de preguiçoso nada tem tantas são as colaborações com textos, arte, BD (do Tiago Baptista!), colagens (Manuel Pereira), fotografia, desenho, etc... uma compilação luxuosa organizada por André Trindade! O Gato Mariano juntou-se ao Gréc num zine marado divido em dois cadernos, unidos por uma pasta em serigrafia, BD a quatro mãos (como as duplas Dupuy-Berberian ou Max Andersson e Lars Snujesson) e com "jogos de óptica" (aquele em que se enrola o papel com um lápis de forma a dar a ilusão de movimento). Processo de Contágio é sobre isso mesmo, doenças transmissíveis por animais e/ou homens mas não percebi lá muito bem mas 'tá-se bem! É energia colorida pura e dura... ao contrário deste "post" que não tem imagens das publicações e os links nem sempre vão dar ao que escrevo, etc... mas olha, caramba, se querem mesmo estas pérolas comecem a aparecer mais vezes na Morta para ver tudo isto in loco!

PS - também apareceu para troca um zine polaco de Eukasz Kowalczuk com Vrekless Vrestlers, que é um misto de Rudolfo, Zé Burnay e Afonso Pereira num só - ouvi dizer que os polacos são grandes e gordinhos! BD tão parva como a dos outros três chavalos 'tugas costumam fazer mas divertida para quem curte Trash Metal em 2015!

quarta-feira, 26 de março de 2014

UUUMMMRRRK


Tenho de contratar estes gajos pra fazer a banda sonora da MMMNNNRRRG! Os UUMRRK são Manuel Pereira (da Narcolepsia e Somália), Tiago Jerónimo (do Cérebro Morto) e Eduardo Pécurto (que faz ilustração), ou seja, "Los 3 amigos" que organizaram a muy simpática Feira Bastarda - evento que tivemos o prazer de participar! É malta porreira que gosta de atrofiar a nossa sociedade que já é meta-atrofiada. Para isso entram em "loop" industrial a lembrar a lógica de improvisação de Somália sendo que de tempos em tempos há a intervenção de uma guitarra (do Pécurto?) para provocar o desiquílibrio de quem já não está muito bem. UUMRRK lembra quando já estamos no final da trip de ácido, assim quem esteve o ponto alto durante a noite inteira e chega-se de manhã a um parque no meio da cidade, a ver as flores cheias de belas cores, a topar que no quiosque os homens do lixo já estão a beber o bagaço matinal, e no meio desta beleza humana 'tá um melga qualquer a chatear-nos o juízo.
Fizeram uma k7, de apenas 32 exemplares, para materializar uma gravação ao vivo (em Coimbra, 2013) e que tem uma caixa feita de lixa numa tradição que vem de longe lá do estrangeiro e que já teve cá poiso - o segundo CD de shhh... É para foder as k7s dos outros que tiverem bem arrumadas lá em casa... Peraí, eu disse que estes gajos eram porreiros?

sábado, 25 de maio de 2013

Contos Sérios e outras estórias #2, 3

Fev'12/Abr'13

De Coimbra apareceu um zine de contos com um design impecável e aspectro gráfico exemplar. Os textos que pupulam por aqui entram na vertente "non-sense" e surrealista "light" - a lembrar Boris Vian, o que pode ser bom para quem gostar de Vian, não é o meu caso embora adore os policiais xungas do "traduzido" Vernon Sullivan!
Formato A5 e fotocopiado como manda a regra zinista, os seus editores devem-se divertir à grande a fazer isto matando o tédio da "cidade do conhecimento" (pffff!) e até convidam ilustradores locais, como o "nosso" Manuel Pereira ou o Eduardo Pécurto, para animar a coisa. Fixe!

contosserios.wordpress.com

(imagem do zine retirada por infrigir copyright de um autor anglo-saxónico paranóico)

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Inferno são os outros...

Há pouco tempo o Manuel Pereira, instigador da Narcolepsia, editora de k7s de Noise, disse-me que o Noise é o “novo Punk”. Há vários aspectos que o comprovam: a facilidade que qualquer um poderá fazer este tipo de música, o intercâmbio anacrónico (por “snail-mail”) de objectos igualmente anacrónicos – como k7s – que obriga a quem procure por este tipo de cultura tenha mesmo de se esforçar e não apenas clicar num botão do rato para descarregar o que quisermos; a estética lo fi (fotocópias, fanzines, k7s, colagens), a cultura de choque (nomes dos projectos e imagens vinculadas a “serial-killers”, ditadores sanguinários, massacres, pornografia bizarra, imagens clínicas, deformações de corpos, decadência urbana) e uma falta de hierarquia do movimento – cada um faz o que lhe apetece e ninguém trabalha nisto para fazer dinheiro (embora já hajam muitos artistas Noise que são “stars” como o Merzbow ou KK Null)… O Rui Eduardo Paes até já escreveu um texto a dizer que quem pratica Noise é anarquista, quer queira quer não.

O Noise quer a cultura Industrial são realmente um bocado devedoras ao Punk é certo porque coexistiram ao mesmo tempo e como tal partilharam das mesmas evoluções tecnológicas. Mas a cultura Industrial cedo ultrapassou o Punk ao nível artístico, indo à exploração tecnológica e a sua relação com o ser humano, e também ao nível ideológico – a criação de novas utopias versus o hedonismo e individualismo do Punk. O Noise afastou-se das seus estandartes políticos e comunais da cultura Industrial para estar numa base misantrópica igual ao do Black Metal mais norueguês possível. O que está fora do quarto (ou casa ou estúdio) onde se produz este tipo de música parece pouco importar aos músicos. Como dizia o Merzbow, quem faz “barulho” são os outros com as suas produções comerciais que não nos largam, que se encontram em todo o lado (rádio, TV, mupis, etc…). Quem faz música Noise tenta escapar ao “barulho” da sociedade opressora criando uma muralha de som para poder afastar os “outros”.

Por isso cada vez que encontro artefactos Noise sinto que estou num mundo paralelo – há muitos pelo mundo fora, o Noise não tem exclusivo do “alienígena” – onde ninguém quer agradar ninguém, e os instintos mais básicos dos humanos vêem ao de cima, como um cano de esgoto se rompesse e viesse toda a merda ao de cima. Não é a melhor sensação do mundo… Isto a propósito de recentes edições da Narcolepsia… a saber:



Bile Enema (Narcolepsia; 2011) é uma K7 Noise e um zine de colagens que “não devem ser vendidas separadamente”. Da música temos Noise com algumas estruturas dinâmicas ao longo do tempo doloroso e nesta maldita k7 de plástico azul Pop – cortesia de Filth Turd. O zine são colagens de Manuel Pereira com frases de Darren Wyngarde / Filth Turd.



Squeal like a pig (Black Blood Press; Mar’12) é um graphzine internacional com desenhos, fotografias e colagens que não foge ao padrão de mostrar a anormalidade do mundo. A riqueza da Humanidade nunca será demonstrada pelas fotografias da Benetton ou das revistas de novas tendências mas justamente por publicações deste género que mostra o que está por detrás, por baixo e por dentro dessas fotografias. O desigual, o assimétrico, a víscera, a cárie, a nudez, a penetração, o pagão, etc… essas são as nossas verdadeiras figuras que os tipos do Le Dernier Cri, Smittekilde e muitos outros projectos editoriais fazem questão de não nos esquecermos. Eis mais um exemplo…



Troubled Sleep #2 (Narcolepsia; Inverno’12) está melhor que o primeiro número porque não repete o mesmo “template” de paginação e as entrevistas estão (ligeiramente) mais soltas. As colagens batem no ceguinho “sexo+morte”, ou seja muita pornografia com alguma gangrena e próteses, enquanto os “noisers” falam de si – ah, pois, este fanzine é de Noise / Power Electronics / Death Industrial / Postmortem / Black Metal incluindo entrevistas a músicos como N., Knullkraft, Wince, ou outros projectos fanzinistas como Coprolaliac Press.

Só para estômagos fortes, né?

quarta-feira, 16 de maio de 2012

When it rains, it pours

Caramba, e de repente... é livros dos EUA da Sparkplug, é encontrar o Haz na Feira de Publicação Independente, é o Romeo Julien (do Angoumerde) a enviar cenas dele, é o italiano Ruggero Asnago a parar por Lisboa, o Manuel Pereira e o André Ruivo a mexerem-se... Que caos! Por onde começar? Vai já o que tiver aqui à mão!

Patau (Black Blood Press; 2012) saiu há algumas semanas durante um concerto de Somália no espaço Flausina - tinham de ser estrangeiras para abrir um espaço artístico despretencioso em Lisboa! Zine A5 cheio de colagens de Manuel Pereira centradas em temas de sexo desviante Sado/ Maso extremo e deformações genéticas - Patau é um sindroma trisómico. A associação de imagens destes dois temas provoca-nos questões sobre o corpo deformado por acidente ou por imposição e que valor terá submissão voluntária (estética apenas) face as maleitas das deformações ou das violações. As pistas maiores que nos são dadas são com textos, também eles "encontrados", recortados e colados pelo zine, um deles pergunta "do que sabem vocês sobre humilhação?" e por cima do texto encontra-se um anão bastante deformado - a qualidade da imagem fotocopiada não permite identificar muitos contornos. Não pedia mais do que isto porque este "ritual Xerox" é perigoso para o olho mesmo que a inspiração dos manifestos de SPK sejam velhinhos.

Biblioteca (The Inspector Cheese Adventures, 2011) de André Ruivo é um zine muito simples de desenhos de Ruivo em volta dos livros que deve ter encontrado em bibliotecas - em Londres? durante a sua residência? - ou em "bibliotecas" particulares - de amigos? familiares? - ou pessoal - é?
Não sabe, não responde.
Livros amontoados, em prateleiras e acessíveis pela lombada (ó coisa chata de se desenhar!), em mesas de consulta de bibliotecas públicas, livros de dimensões assustadoras, portadores de enorme e pesado saber. O zine é no entanto leve...




 


Entretanto tenho os números 12, 14 e 14,5 (Afeite Al perro, 2011-12) do Haz (autor e título de zines) que não posso acrescentar nem mais uma linha do que escrevi neste "post": http://chilicomcarne.blogspot.pt/2009/07/haz-zine-2-8-9.html. Não é por preguiça ou falta de tempo, é mesmo porque as características do autor e dos seus objectos editoriais (caixinhas de surpresa) mantêm-se de forma saudável. Ah! Talvez só isto, Haz admitiu na sua passagem pelo Porto a influência que as exposições do Le Dernier Cri (em Madrid) tiveram nele e na sua produção. Nunca pensou que se podiam fazer zines de desenho apenas - aparentemente não conhecia a existência de "graphzines". É um exemplo dos danos que o Dernier Cri causa por onde passa...

O italiano Asnago passou por Lisboa por motivos semi-profissionais e semi-lúdicos, claro que saquei-o logo para fazer um cartaz para a colecção Checkpoint do Atelier Mike Goes West - o resultado está a qui para ver e venda: http://mikegoeswest.blogspot.pt/2012/04/certificate-this-is-to-certify-that.html. Asnago também faz uns zines em que usa o formato A3 para dobrá-lo em mini-zines A6 - táctica comum em muitos "zinistas", como faziam os BadSummerBoys (Geral & Derradé) nos anos 90 ou como o brasileiro Fábio Zimbres ainda faz... As edições são limitadas que nem vale a pena estar a digitalizá-las para vocês encomendarem. Invés disso vão masé comprar uma serigrafia ao Mike, cazzo!



De França, porque quando estivemos lá o Roméo Julien não parava quieto, recebemos dois livros das Editions Machine. É um colectivo de 11 autores de BD, residentes a Angoulême, e que adquiriam máquinas de impressão de forma que toda a produção é DIY! O primeiro, Mister Uppercut de Julien, impresso a vermelho, lembra as rotas de Matt Brinkmann mas em versão "linha clara". Redigido em inglês. Machin Machine é a segunda antologia deste colectivo com a participação de todos os seus autores com registos narrativos e gráficos variados embora o "humor" seja mais constante entre os outros géneros. Interessante...


Por fim, soube (tardiamente) que a tragédia tinha abatido na Sparkplug, uma editora que oferece alguma lufada de ar fresco na estagnada BD norte-americana. O seu fundador, Dylan Williams faleceu o ano passado, e a sua mulher e amigos tem mantido o projecto a funcionar apesar de algumas dificuldades financeiras anunciadas publicamente. Ao saber disto, foi uma "boa desculpa" para comprar alguns "comic-books" desta editora para apoiá-la. De um molho de coisas que chegaram, nem elas todas assim tão interessantes, destaco o trabalho de Austin English, um autor que usa um desenho "infantil", conseguindo uma réplica perfeita do "estilo": cores, formas, representações, materias usados, etc... como se tivesse saído da aula de desenho da 4ª classe. Infelizmente o texto e narrativas não em animaram muito, tanto que não me lembro do que se trata passados alguns minutos depois da leitura... Duas outras autoras que são interessantes: Julia Gfrörer de universo gótico-satánico e a auto-biográfica Tessa Brunton. Check them out!

Ufa, é tudo!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Excessive Voyeurism #1

Shaltmira; 2012


Da Lituánia apareceu um fanzine de Arte Negra, escatológica e "underground" - o que quer dizer quase tudo a mesma coisa.
Para quem se queixa da falta de tradição em publicações do tipo fanzine até se safou bastante melhor do que se esperaria, tanto pela selecção de artistas publicados quer pelo aspecto físico do objecto. A impressão profissional e brilhante reproduz obras de vários artistas como Marcel Ruitjers, Manuel Pereira, Vctor Dvunkel, Arturas Rozkovas, Zeke Clough entre vários outros da França, Suécia e países de Leste.
Redigido em inglês para a Aldeia Global poder ler, o único ponto negativo são as entrevistas aos artistas que são demasiadas mecânicas, uma vez que as perguntas são as mesmas para todos.
Um verdadeiro fanzine para ímpios que gostam de papel!

Distribuição portuguesa pela Narcolepsia.

sábado, 10 de março de 2012

Prego #5 / últimos exemplares...


Para quem não pegou a Prego em Dezembro durante a visita a Portugal do seu editor, Alex Vieira, podem adquirir através do shop da Chili Com Carne os últimos 5 exemplares!
A revista foi convidada especial da 19ª Feira Laica onde teve direito a uma mostra e lançamento português do último número (o #5) dedicado ao "som". Neste número encontram entre vários autores da "nova bd de autor brasileira" dois autores portugueses e associados da CCC: Marcos Farrajota (com uma bd) e Manuel Pereira (colagens).
A passagem pelo tema "som" não é inocente uma vez que Alex Vieira tem uma enorme ligação ao Punk / Hardcore, mas na publicação há banda desenhadas que nos contam biografias de críticos do Rock, autobiografias, celebrações Black Metal, psicadelia de luxo graças ao sempre inesperado Diego Gerlach e algum típico "besteirol" brasileiro. A revista também publica fotografia, entrevistas a autores de cartazes de concertos Punk e ilustrações variadas...
Entretanto para quem já conhecia a Prego desde sempre, este novo número está com outro papel, um razoável aumento de páginas e a capa apesar de ainda ser mole está mais dura cheia de tesão juvenil brasileira. Ainda dizem que o Punk não rende...
Por fim, deixamos aqui um excerto da bd de Marcos Farrajota publicada na revista e que mostra a sua versão da geneologia Punk. Talvez venha a integrá-la no novo livro... quem sabe...

terça-feira, 26 de julho de 2011

music ANTI POP


Somália (auto-edição; 2011?)

Nunca ouvi falar tanto na Somália!
[inserir risos enlatados de sitcom]
Primeiro foi com a participação na banda sonora do Futuro Primitivo, depois com a actuação na Festa Laica e agora em CD-R-homónimo-lo-fi-mal-parido. Na realidade não há quase nada na 'net sobre este projecto drone-noise em que por acaso sei que são dois gajos de cu pró ar com maquinaria-de-fazer-loops que resulta num xinfrim que nos envolvem obrigatóriamente para mundos oníricos. Como não se pode ficar para sempre no mundo dos sonhos alguns ruídos estridentes vão-nos levando prá Terra até que se ouve na gravação alguém do projecto a desligar o botão do "rec" num gravador de k7s - e por isso mesmo não percebo então porque isto não foi editado em k7 invés de CD-R manhoso.
[inserir risos enlatados de sitcom, umas fotos sobre mutilação feminina e créditos finais]
Ah! O Manuel Pereira é um dos gajos de cu pró ar que participa neste projecto - e para quem não sabe, é o cabeça da Narcolepsia e autor da secção Má Onda e Sujidade e das belas colagens na antologia do Futuro Primitivo. E também, quando esteve na última Feira Laica trouxe a Cérebro Morto que edita o fanzine Planemo sobre música Noise, Experimental e isso tudo. A5 fotocópia, entrevista neste primeiro número (Abr'11) Andrew Coltrane, Gianluca Becuzzi, N. e Fear Konstruktor. Escrito em inglês falta-lhe a garra editorial que a fotocópia obriga. Espera-se por um segundo número com um discurso mais incisivo!

sábado, 25 de junho de 2011

Neuro Laico na Trem Azul



Neuro (1980) é um artista gráfico romeno residente em Copenhaga cujo primeiro livro será editado pela MMMNNNRRRG e lançado na 18ª Feira Laica, a acontecer no fim-de-semana de 25 e 26 de Junho na Bedeteca de Lisboa.

O autor terá uma exposição de originais na TREM AZUL JAZZ STORE a inaugurar na noite de Sábado, às 22h, de dia 25 de Junho!

A inauguração será acompanhada pela FESTA LAICA, festa da Feira Laica que se instituiu nos últimos dois anos como um momento divertido e relaxante entre editores, autores e público, embora este ano irá começar mal, talvez com má-disposição mesmo graças ao Noise primitivista dos Somália! Mas alegrem-se que há mesmo FESTA com o concerto dos Çuta Kebab & Party até porque será mesmo uma Festa de Lançamento do seu disco vinil. Projecto devoto à música popular e “fast-food” euroasiáticas, protagonizado por produtores portugueses que se deixaram seduzir pela colisão entre antiguidade, modernidade, tradição e imediatismo que ambas propõem. Durante uma semana a fluxo de Falaffel, Kebabs e Narguilé, foi produzido um EP que homenageia esta cultura híbrida, evocando-a a partir de uma perspectiva ocidental, com o uso de “found tapes” oriundas de bairros turcos de cidades europeias, gravações feitas em “kebab shops” e ritmos da música tradicional turca e curda.

sábado, 24 de abril de 2010

Necrofilia


Knullkraft : Rannstensromantik ; Wince : Chaude-pisse (Narcolepsia; 2010)

O que leva alguém a editar k7's de Noise de 40 e poucos exemplares? Será uma pergunta a responder num PEQUENO é bom certamente... e talvez mais cedo que se pense porque já se programa a terceira sessão (de 5 de Junho).
Da Suécia ou dos EUA, este projectos fazem a banda sonora de um tanque steam-punk a tritur esqueletos humanos e de robots abandonados num campo de batalha do futuro previsto no Terminator, com ruído digital, algum analógico batendo em metais e alguns urros primitivos, Noise é Noise e não há muito mais a dizer.
Mas a melhor a pergunta a fazer será porque raios o lado B da k7 do Knullkraft não têm nada gravado? Melhor ainda: posso gravar alguma desse lado?