sábado, 25 de dezembro de 2010

La movida continua...

Já se sabia que os espanhóis manjam de bd. Também é verdade que produzem muita coisa mázinha e é preciso procurar num mercado louco e ainda em expansão - possivelmente o melhor mercado de bd para quem dominar a língua castelhana, afinal tudo (literalmente tudo) da bd (clássicos, novas tendências, comercial, alternativo, dos EUA ao Japão) encontra-se em edição espanhola numa "tienda" perto de si.

Quanto ao novo underground espanhol, felizmente o Martin das Ediciones Valientes trouxe para a Feira Laica montes de material e deixou-nos algum por cá para quem andou distraído e não foi a uma das melhores Laicas de sempre! Já não é preciso procurar muito, a começar pela Argh! até outras produções que aqui destacamos:



De Madrid, uma nova editora (?) Ultrarradio que além de alguns monográficos editou dois álbuns colectivos muito bons: Mortland (2010) e Transdimensional Express (2010) ambos de bd muda. O primeiro usa a única-democrata e omnipresente Morte, tão omnipresente que para ligar as várias bd's de vários autores - e havendo só o tema como referência comum - todas elas começam por «mientras, uen otro lugar» (menos a primeira que começa com um «bienvenido»). No segundo caso, o conceito é outro, transversal como a Alquimia, um Incal rasca, a Pedra Filosofal a três pancadas, pois somos levados a viajar pelas várias situações de um «misterioso cubo branco que viaja através de diferentes realidades paralelas graças a portais interdimensionais». Curiosamente todas as vinhetas são redondas - tal como Jano já tinha feito no Mesinha de Cabeceira Popular #200. Ambos são boas ideias editoriais para salvarem da vulgaridade "melting pot" que as antologias costumam ser. Quantos artistas, são tantos e tão interessantes que nem me atrevo a destacá-los... é de consultar na secção "colaboradores" do sítio oficial da Ultrarradio.



De Valência mais duas outras produções: Tigre Enorme #1 (Quando Los Ladros Perran; 2010) é um grafzine cheio de ilustração bastante impressionante de vários artistas da cidade. É verdade que já me chateia os livros só de desenho e ilustração mas eis um resultado de quando a selecção de artistas é bem feita ainda é capaz de resultar e impressionar mesmo aos mais cépticos. Para mais ainda acrescentam um chapeúzinho para cocktail (o tema é "tropical") e uma k7 de Noise e colagem sonora que não é nada má, nem que seja pela auto-ironia sobre a cena Noise... Depois ainda há o primeiro número do zine Tumba Swing (2010), projecto homónimo de um "one band man" - que tocou na nossa primeira data da Tour da CCC. O autor / editor / músico é o Don Rogelio J que domina maior parte da edição com bd's e ilustrações quase sempre a namorar o Blues e o Rock'n'Roll embora haja lugar também para novas linguagens gráficas. A maior parte das bd's acabam por ser um bocado fúteis e o que sobressalta são as ilustrações de inspiração satânica. Na realidade este zine é um álbum de 64 páginas A4 a cores - a 8 euros apenas! Locos!

Estes títulos estão à venda na CCC com 20% desconto para sócios. Pedidos para ccc@chilicomcarne.com - stock muito limitado!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Yoshi - o Puto Dragão E.P.

Esta resenha crítica saiu em Julho - sobre uma edição de autor. Entretanto (Dezembro) saiu uma nova edição pela Raging Planet e Raising Legends, que nada é mais do que uma versão industrializada da mesma edição. Mudou a capa, CD gravado em fábrica (invés no PC de uma membro da banda?), impressão offset do livro de bd e nada de novo. Agora tornou-se um produto popular, estava à espera de mais do que a edição original. Enquanto sofro com falta de novidades, ficam aqui as impressões de Julho:

A Aldeia Global está cheia de híbridos e este Yoshi é mais um caso de estudo! Primeiro de tudo é um zine (pelo formato amador e distribuição restrita), tem o formato de comic (formato norte-americano de bd) mas é uma Manga (bd japonesa de vertente popular e globalmente reconhecida) que conta um estória qualquer (um puto, vingança, gajos maus, um poder extraordinário, uma paixão, já apanharam o esquema, certo?) que serve de mote para a banda... Sim, existe a banda Yoshi - o Puto Dragão que tocou na Festa dos 10 anos da MMMNNNRRRG, em Maio, daí este artefacto ter caído nas nossas mãos...
Ou será o contrário, existe a banda que se transforma em banda desenhada? Em teoria, o projecto é multidisciplinar e por isso ambas partes são unas, embora haja uma grande distância qualitativa entre o amadorismo de Ana Quirino e João Sousa (que desenham a bd) e a música bem tocada e bem gravada. Isto para não falar também na performance ao vivo, cheia de energia e diversão - a banda e público disfarçam-se das personagens da bd numa pura diversão Cosplay.
Musicalmente "Cosplay-Metal" parece uma boa definição prá banda que podemos comparar a System of a Down e Mr. Bungle pelas mudanças esquizofrénicas de estilos musicais (mas sempre com a guitarra metalizada de fundo) e... Evanescence e J-Pop pelas partes "cute" e melosas. Cantam em inglês, português, francês e japonês, o que torna a coisa também bastante rica vocalmente - já uma voz feminina e uma masculina, ambas interpretam vários papeis, o que significa berros, sussuros, guturais e tudo o mais necessário para uma dramatização "live Anime".
É a melhor banda Rock portuguesa para ver ao vivo em 2010! E em disco também é bastante bom, tanto que deverão lançar brevemente um disco oficial. Já agora, para quem quiser saber sobre a banda - o myspace deles não é suficiente informativo - eis uma entrevista ao Puto Dragão aqui.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

ccc@matanças.3

depois da laicidade seguimos para o satanismo!
as edições profanas da ccc e da mnrg vão estar à venda no Matanças!
já agora, é só malta da boa: o Ghuna X, Mandíbula e HHY & the Macumbas, os outros não conhecemos mas também devem ser bons, caragu!
perder isto é pior que não perder a virgindade!

Epifania

(Ruru Comix; Dez'10)

O Rudolfo está a mudar… só se o obrigássemos a tomar formol todos os dias é que poderíamos conservá-lo tal o conhecemos há dois anos. Mas o rapaz está a crescer, parece menos puto, 'tá com menos borbulhas, cheira menos mal e a voz está mais grossa… Brevemente deixará de ser o ídolo de todos os "teen-nerds" portugueses, terá de parar com as músicas do Digimon e terá de passar para outra onda.
Hoje parece que se vai disfarçar de H.O.M.O. nos Matanças, uma nova orientação musical? Ainda este fim-de-semana deu no triste Ponto de Encontro mais um divertido um concerto xunga para meia-dúzia de fãs lisboetas e apresentou o seu novo zine Epifania que exemplifica também a sua mudança biológica-artística.
Com uma bd apenas ainda assim tonta (há coisas que nunca mudam e ainda bem!) Rudolfo larga o seu virtuosismo Pop para desbundar graficamente, soltar o traço e deixar a estória (tola) fluir entre intervalos de almoços da escola. A Genitália de Satananás é explorada. Mais não digo…

domingo, 19 de dezembro de 2010

The Walls are the Publishers of the poor

Albert Foolmoon
Le Lézard Actif; 2008

Foolmoon desenha, edita e o que mais for necessário como bom activista da cena gráfico-fanzinista que é - e já agora, ele também organiza o sítio obrigatório DIYzines.
Esteve de visita turística, no verão de 2008, por Lisboa e Porto e deve ter ficado embasbacado com a cena "street-art" portuguesa. Por acaso acho que ele teve sorte porque nesse verão pelo menos no Bairro Alto houve algumas colagens em grande formato bem fixes!
"As paredes são os editores dos pobres", é verdade mas acrescentem os zines nesse caso, se fazem o favor... Porque Foolmoon assim que regressou a casa fez imediatamente um zine com as fotografias dos murais, grafittis, stickers, cartazes (ex.: um do João Maio Pinto para a ZDB) e toda a gráfica anarca das paredes lisboetas e portuenses. Impresso na impressora lazer em casa, no formato A5 e em 12 páginas, montou de forma dinâmica as fotos e em poucos dias estava cá fora este zine de homenagem às "nossas" paredes - os azulejos portugueses precisam de fazer um "reboot"?
O engraçado disto é o eterno "cliché": tem de ser um estrangeiro / alguém de fora para reparar ou registar ou dar valor ao que temos em frente do nosso nariz - não é uma boca a Portugal, acontece um bocado por todo o lado. Mais pertinente este zine não podia ser numa altura em que se pretendia o Bairro Alto limpinho - meses depois os cartazes voltaram, juntamente com urina de desesperados, copos de plástico e garrafas partidas. Allez!

sábado, 18 de dezembro de 2010

mex photos

from here ... photos by Peter Salsbury ...
next show in 19th February with Bruno Borges

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Feira Laica de Dezembro

cartaz de Bruno Borges


A Feira Laica irá acontecer entre 10 a 12 de Dezembro no Mercado do Forno do Tijolo, nos Anjos.


A Chili Com Carne convidou editores independentes portugueses e estrangeiros, a saber, o francês Albert Foolmoon e o sueco Mattias Elftorp.
O primeiro, Foolmoon, é um verdadeiro activista da cena independente: é ilustrador (ver resenha de um livro seu aqui), editor sob o nome Lézard Actif, promove as acções do DIY internacional através do site DIYzines, o evento Salon Fai-le Toi-même e a livraria / galeria Super Cagibi. Para completar este ramalhete, Foolmoon adora Lisboa, tanto que em 2008 quando nos visitou pela primeira vez até fez um livro sobre a street-art portuguesa (ver aqui).
Elftorp é o artista / escritor anarquista da série pós-apocalíptica e cyberpunk Piracy is Liberation e parte do duo Wormgod. Faz exposições sobre os horrores da sociedade capitalista, foi um dos fundadores e editores da revista / colectivo C'est Bon Anthology, sendo responsável actualmente pela colecção Dystopia. Recentemente organizou o festival de bd Alt Com, em Malmö, dedicado ao tema "Sexo & Guerra".

Ambos terão exposições individuais!

Editores que estarão presentes:

A Mula + Arara
Associação Chili Com Carne
Contraprova
Leote Records
Lézard Actif (França)
zine Znok

Novidades editoriais:
- An Intrusive Black Circle, de André Lemos (Opuntia Books)
- Cleópatra #5, zine de Tiago Baptista
- É o Diabo!, serigrafia de Miguel Carneiro (Arara)
- Iceberg, de José Feitor (Imprensa Canalha)
- Jungle Machine, de Dayana Lucas (Arara)
- Mike Goes North, portfólio com André Cruz, Ana Torrie, Célia Esteves, Júlio Dolbeth, Marco Mendes, Nuno Sousa e Rui Vitorino Santos (Mike Goes West)
- More Songs About: Melómanos Arquivistas e Rouxinois, CD-R de Presidente Drógado (Leote Records)
- O Morto foi ao Baile - compilação de capas da colecção Grandes Mistérios, Grandes Aventuras : 1940-1960 (Imprensa Canalha)
- Oficina do Cego #2, v/a
- Talento Local, de Marcos Farrajota (Chili Com Carne)
- Znok #5 (nova versão), de Filipe Duarte

a CCC e FL apresentam:



Frankenstein encore, 2009, filme de animação, 32', 16mm e video
Realização de Alex Baladi e Isabelle Nouzha.
Em francês com legendas em inglês

Adaptação da bd homónima (Atrabile; 2001) de Alex Baladi, autor suiço de bd com dois livros editados em Portugal, pela Polvo.

Estreia nacional: dia 10 de Dezembro, às 23h na Feira Laica.


E AINDA, nessa mesma sessão:

Clay Pigeon (7', 2005)
Hair (3,5', 2005)
Spitted by kiss (11', 2007)
de
Miloš Tomić (Sérvia)

sábado, 4 de dezembro de 2010

And Thus The Latrina Has Spoken

Latrina do Chifrudo + Ruru Comix; Nov'10

Ainda ontem tinha acabado esta resenha a CD-R's com desenhos de André Coelho e aparece logo este fanzine infra-satânico! Ele e o Rudolfo lembraram-se de fazer um fanzine dedicado à Grande Besta, contactaram malta e vomitaram uma Gloriosa publicação! Para já é A4, formato xunga mas que nas últimas décadas tem sido esquecido. Aqui faz todo o sentido porque os desenhos são Majestosos!
O imaginário Metaleiro dá em bodes, caveiras, Satã, velas e altares, pentagramas mas pouca vagina e pénis - falharam estes Coraçõeszinhos-de-Satã! Alguns desenhos do Rudolfo são os que tem mais genitalia e alguns lembram o estilo do Evan Dorkin. Coelho mantêm um grafismo que transmite ritualismo e misticismo. O italiano Tisbor lembra Ted McKeever com umas gramas de Peste Negra. O australiano Murdock Stafford merecia viver na época medieval e o inglês French não engana ninguém com o funcionalismo skater!
O Mafarrico deve ter gostado desta gestação mas para a próxima vai querer mais do que meras 24 páginas! Afinal, ele é Grande ou não é? Tem mais discípulos ou não tem!?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Barulho a mais...


Três géneros musicais que criados no século passado ainda fazem muito barulho nos dias de hoje: o Industrial, o Metal e o Punk. Para além do xinfrim que fazem tem outro ponto em comum o facto de que usam os meios mais modestos de difusão: k7's, CD-R's, fanzines fotocopiados, etc... Eis três exemplos de micro-edição nacional a celebrar cada um desses géneros:
- Red Silk (Noori; 2010) mistura trabalhos de Merankorii e RedSK (dos EUA), o primeiro é uma colagem sonora de montes de obras de música clássica e afins com Noise por cima - suponho. O segundo é Noise puro e duro sem novidades - aliás, nenhum deles tem essa característica. Não existe nenhuma ficha técnica ou texto de suporte para se perceber o que se passa aqui: como trabalharam os artistas, se trabalharam em conjunto (acho que não), porque usam este título em comum para terem cá fora um CD-R limitado a 20 cópias. No fundo, o que sucede aqui é o mesmo que ver uma peça de arte contemporânea sem o título ou sem o texto do comissário. Não se entende e não se dá importância. A culpa é minha como ouvinte? é bem capaz, vou tentar ouvir este disco da forma mais lúdica - daqui uns dias. [passam-se uns dias... entretanto ouvi na posição horizontal com o sr. sofá e:] Continua-me a passar ao lado o sentido ou o sentimento disto...
- Rockers de Esgoto (ed. de autor; 2009) dos Eskizofrénicos é punk rock sujo e mal-criado do Porto de fazer corar os betinhos de Lisboa. A javardeira inclui mutilações em palco, letras como Quero lamber-te a cona e clichés como Caos em Portugal. Em contra-partida também recitam Fernando Pessoa, está bem gravado, com pica e tem uma boa capa de André Coelho (que participou entre outros projectos na antologia Destruição). Devem ser bons e divertidos ao vivo! Porque é que não fiquei entusiasmado com o CD-R? Porque sou um velho burguês!
- Ossarium estreia-se com Emanation (Latrina do Chifrudo; 2010), é Death psicadélico - "ritualista" segundo os próprios - em que se percorre Death rasgado à Morbid Angel e ambientes dronescos, aliás (e desculpem que ainda não me habituei à expressão) e-drogestos de Dark Ambient. Quer num caso quer noutro, a qualidade de cada tipo de registo sonoro é bastante poderoso e convicente. Deste grupo de CD-R's foi o que mais gostei, sem dúvida, e não foi por causa da capa do André Coelho! Resta saber quando voltarei a ouvir esta barulheira dos diabos!?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Laica Last Hour!

ana biscaia


Fechamos a programação da Feira Laica - com a feira per se, filmes de animação e os convidados estrangeiros e respectivas exposições. Mas há sempre situações de última hora! Temos mais uns convidados especiais, nomeadamente uma exposição de Ana Biscaia e ainda a vinda do peruano/espanhol Martin Lopez.

Biscaia (1978) é ilustradora e designer gráfica. Estudou design de comunicação na U. Aveiro, ilustração na Konstfack University College of Arts, Crafts and Design (Estocolmo). Em 2010 foi distinguida pelo júri do Prémio Nacional de Ilustração pelo livro "Poesia de Camões para todos". Tem colaborado com diversas editoras portuguesas e suecas. O livro "O Carnaval dos Animais" foi seleccionado pelo júri do prémio TITAN Illustration in Design.
Este ano participou na nova antologia da Chili Com Carne, Destruição ou bandas desenhadas sobre como foi horrível viver entre 2001 e 2010 e ainda no jornal alemão Jungle World.

Como o Martin atrasou-se a confirmar a visita e não poderá ter uma exposição embora isso não seja um problema porque virá cheio de material! De Valência, cidade onde vive trará a excelente revista Argh! e edições do seu projecto Gráfica Valiente, que desde o Inverno de 2006 tenta destruir o mundo destabilizando a economia europeia com os seus zines e serigrafias caseiras e, eventualmente, com exposicões. Edita o zine El Temerario, dedicado à ilustração, e Kovra, dedicado à bd com o segundo número ainda quentinho, além de apoiar outras auto-publicações como Usted de Esteban Hernandez e Buen Dolor de Álvaro Nofuentes. Do seu país natal, o Peru, trará ainda produção desse hemisfério...
Conhecemo-lo na tournê europeia da CCC, foi o responsável pelo mini-zine Combate (entre autores da CCC e autores espanhóis) e irá participar no livro da tournê - mas terão de esperar para depois da Feira Laica porque ainda está a ser feito...

sábado, 27 de novembro de 2010

CCC Tex not Mex Shows (1) André Lemos

Chili Com Carne with Nevada Hill are organizing a cycle of Portuguese illustration shows in Texas with our artists, here's the first one:

André Lemos (Lisboa, 1971) –Portuguese artist, illustrator, comics author and independent publisher. Has work featured in many solo and collective Portuguese and International publications. Editor of the independent publisher Opuntia Books.

Solo books: Quem É Este Homem?, Super Fight II – George Grosz Vs André Lemos, Tribune Brute, Even Gravediggers Read Playboy, Family Portraits, Cirque Intraveineuse, Word Games – Shaken Not Stirred, O Percutor Harmónico, Embroidered Muscles, Charlottesville’s Preliminary Black Blooming, Dry And Free From Grease, Some Dishonourable Creatures Attacked Us With Rubber Wrenches, Mediaeval Spectres Soaked In Syrup and An Intrusive Black Circle.


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Guerra estrangeira




Continuando o relato do Alt Com, ficam agora alguma divulgação de autores estrangeiros que por lá passaram exoticamente numa cidade que ainda há algumas semanas tinha um "serial-killer" a matar estrangeiros com armas de fogo.
Sobretudo havia muitos dinamarqueses - afinal em 20 minutos consegue-se apanhar um comboio Copenhaga para Mälmo que passa pelo meio do mar numa ponte. A cena dinamarquesa é tímida mas tem vindo a ser divulgado ao mundo através da revista sueca C'est Bon, e nota-se uma peculiar fusão entre o desenho realista e alguma experimentação.

E claro, mais experimentais e vizenhos, estavam lá os finlandeses. Alguns já conhecia como Tiitu Takalo, Tehrie Ekebom e Jyrki Heikkinen (que participou no Greetings from Cartoonia). Entretanto conheci outra autora, o que faz da Finlândia e da Suécia os países mais equalitários no que toca à criação bedéfila. Trata-se de Aino Sutinen que lançou o ano passado pela Asema, o livro Taksi Kurdistaniin : Reppumatkasarjakuvia Lähi-idästä, que trata da sua viagem solitária pela Túrquia, Síria, Iraque, Irão e Azerbaijão. Num simpático formato A5 com inclusão de algumas fotografias, Sutinen conta as duas (des)aventuras por aquelas terras de forma um tanto ou quanto "naíf" e distante não deixando de ser curiosa saber que uma mulher ocidental avançou por ali a fora.

O brasileiro Nik Neves estava presente com o seu trabalho Inútil (auto-edição), o zine Picabu (do seu colectivo Bestiário) e ainda com o Prego. O primeiro é um livro que colecciona trabalhos seus que se divide em dois tipos, um do tipo "mudo" e movimentado que podemos meter Chris Ware ao barulho e outro mais "retro-sud-américa" que podia lembrar algo de Hernandez bros. Bom tratamento gráfico do livro! A "questão brasileira" que se tem reflectido neste blogue emerge sempre mas ao encontrar mais um artista gráfico como Neves vamos juntando um massa de autores que se deslocam do "besteirol" e do humor para outros campos mais artísticos e experimentais mas sem nunca abandonar essa tradição "cartoonesca". É o caso do zine Picabu, regressado 17 anos depois do último número, mostra autores que se expressam, sem papas na língua, em vários estilos gráficos (do mais "podre" ao mais hiper-realista) mas que piscam sempre para a "sacanagem". Felizmente a maior parte das bd's tem piada q.b. e são bem feitas para não irritar.

Depois de estar uma tarde de Sábado toda na venda de livros, a um ritmo lento, houve festa à noite com várias bandas, que quase não vi e a que queria ver, os palestinianos Team Darg mais conhecidos por "Da Arabian Revolutionary Guys", perdi-os. Comprei o CD-R na onda de apoiar a causa - a banda encontra-se retida na Suécia porque perdeu os bilhetes de regresso (?).
O Hip-Hop tornou-se há muito tempo o género predilecto para recuperar a língua e origens musicais misturando com uma roupagem urbana. Tal como o Hip Hop português passou no final dos anos 90 como a única música urbana que cantava em português (enquanto meia-dúzia de parolos tentavam a internacionalização cantando em inglês), estes Team Darg cantam em árabe(-palestiniano?) que soa bem, com samples de música árabe que soam bem, e tudo isto podia soar a uma fabulosa bomba musical caso os tiques do Hip Hop & R'n'B e outras manhosices-lamechices não dessem sinal de vida, arruinando as músicas e o respeito pelos músicos. Em seis músicas consegue-se ouvir umas duas (ou três se formos menos exigentes) e felizmente, não sei árabe para ouvir o que eles dizem porque receio que no final se descubra que fossem mais umas tretas moralistas como acontece com o Hip Hop aborrecido pelo mundo fora (com raras e poucas excepções).

Alguns destes títulos podem ser adquiridos à CCC pelo e-mail ccc@chilicomcarne.com. Descontos de 20% para sócios.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sexo Sueco



A Suécia tem pouco mais habitantes que nós mas com uma educação exemplar, o povo sueco gosta de livros. Ainda não sabe bem o que é boa bd mas pelo menos um livro de bd de autor vende 5000 exemplares, um valor suficiente para sustentar minimamente o negócio das editoras e a vida profissional dos autores. Não sei qual a origem deste fenómeno, como ele se desenvolveu, talvez tenha sido como em Portugal ou noutros países ocidentais, os autores e editoras de bd de autor (antigamente chamadas de "alternativa") começaram a produzir trabalho e livros, só que em países onde a massa alfabetizada e com hábitos de leitura o movimento consolidou-se, ao contrário em que este desapareceu. Na Suécia, as bd's dos anos 90 têm se pautado pela autobiografia, quase sempre tosca graficamente e eventualmente lamechas em conteúdo. Até poucos anos era uma cena fechada em si mesma mas que começou a mudar gradualmente com a edição de autores suecos nos EUA e uma aproximação artística aos vizinhos finlandeses. Mas de uma forma geral sente-se que a produção sueca pós-80 sabe a algo "sem sal" em quase todos os autores que tenho visto provando as acusações (externas) de que os suecos são uns chatos e matemáticos.

Creio que a Globalização irá mudá-los (como a todos nós) e o evento Alt Com mostra esses primeiros passos de mudança. O evento em si é uma fórmula do festival europeu com pouco dinheiro que não opta pelas festival hiper-cenografado europeu nem pela convenção ultra-comercial norte-americano. Uma ou duas exposições, as mesas de venda com editores, convidados estrangeiros (do Canada, Brasil, Portugal, Dinamarca, Finlândia e França), conversas com o público e umas festas fazem o evento - como acontece com o SPX em Estocolmo ou a Feira Laica em Lisboa, embora esta última não seja exclusiva de bd.

A diferença é que desta vez a bd era focada em algo mais social do que genérico da bd independente. Assim, a programação passava pelos trabalhos chocantes de Ivan Brun, o glamour violento de Ho Che Anderson, apresentação de Mangás pornográficas para mulheres, colectivos feministas ou o livro sobre a relação da bd e a propaganda, escrito pelo professor / investigador Fredrik Strömberg - ah! esqueci-me, em Mälmo, a cidade do evento, existe um curso universitário de bd e ilustração.
De certo forma as parvoíces mangakas estavam afastadas deste evento - não impedindo de haver uma gótica loura desesperada numa banca (ver desenho) - e uma sensação que as pessoas que iam ao evento eram as mesmas que iam a Estocolmo... Não falo dos editores e autores mas do público!
Para completar o evento, foi feita uma antologia internacional, com capa de Ho Che Anderson (primeira imagem) que era oferecido aos visitantes, sim... falo de um livro de 100 páginas menores que A5 100% gratís!!! Os suecos podem ser matemáticos mas deverão chegar lá, ao contrário dos portugueses que apesar de terem sido convidados para a antologia nada fizeram...

Resta dizer que a programação deste vento foi feita por Mattias Elftorp, autor/ editor que através do seu selo Wormgod publica na Suécia e contra o normal do que se passa lá, bd's polítizadas e cyberpunks, como a colecção Dystopia e a sua série Piracy is liberation.


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ccc@altcom.2010

a Chili Com Carne vai à primeira edição do Alt Com (12 a 14 de Novembro, em Mälmo, Suécia); o tema é "Sexo e Guerra", cortesia do camarada Mattias Elftorp; considerando que Mälmo é mais dinamarquesa que sueca pode ser que desta vez ficamos com melhor impressão daquela gente...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Potencial em triplicado

Apesar da crise no sector da bd - em que a CCC e poucos mais resistem depois das euforias institucionais (1996/2002) e comerciais (2002-04) - creio que o pior era observar que na cena dos zines não apareciam autores para renovar o organismo. As euforias registadas tiveram base nessas publicações e enquanto houve muitos bons fanzines aguentaram-se nessa altura (Succedâneo, Na verdade tenho 60 anos, Gambuzine, Durty Cat, Zundap...). Entretanto desapareceram, alguns ficaram ar de pseudo-profissionalização (Mesinha de Cabeceira,...), os graphzines sobresairam (Imprensa Canalha, Opuntia Books),... A acrescentar ao rol de desgraças, a Bedeteca de Lisboa nunca mais lançou a colecção Lx Comics, e as dezenas de alunos inscritos em escolas de bd não sabem o que é auto-edição...
só recentemente é que tem aparecido indícios de uma nova geração de autores dispostos a usar as fotocópias baratas como forma de promoção do seu trabalho (como o Rudolfo) ou nestes três casos a apresentar como forma de desenvolverem um trabalho maior:

O Fígado da República (parte I)
José Smith Vargas
ed. de autor; Out'10

Smith há muito que tem colaborado em projectos da Chili Com Carne (Mutate & Survive, CriCa) mas sempre com ilustração / colagens. Só nos últimos anos é que o seu interesse pela bd se manifestou publicamente com uma "bd Apupópapa" e a participação no Destruição saído em Agosto - embora a sua estória tenha sido feita em 2008.
Este Fígado é o seu mais recente trabalho - em progresso - em que mostra uma vertente clássica e eficiente da narração, longe dos desiquílibrios de Passeio ao Norte de Portugal (bd publicada na referida antologia Destruição). Ao que parece, não tendo lido o texto, adapta excertos de forma bastante livre Os Operários de Raul Brandão nas suas (apenas) 10 páginas A4.
A acção passa-se em 1918, no meio do turbilhão republicano e os seus paradoxos frente à classe operária, e relata a estória de uma comuna que se instala no Alentejo... E basicamente teremos esperar por mais nos próximos zines que venham a ser produzidos pelo autor. Desde já avisa-se que estamos longe das inocuidades dolorosas das adaptações literárias Antigo regime (José Garcês e afins) e do espírito social "light" de Lacas (Obrigado, patrão!). A seguir atentamente!
este título pode ser adquirido na Casa da Achada


Bhikkhú
David Campos e Nuno Marques
Paracetamol; Out'10

Foi lançado durante na F.E.I.A. - David Campos foi um dos co-organizadores e responsável pelo cartaz - e vemos uma melhoria de ambas as partes em relação ao Meteoro Imprevisível. Da dupla, os textos de Marques são mais vivenciais e por isso mais interessantes de ler versus à poluição dos textos do Meteoro.
Da parte de David, aparece as primeiras páginas do seu "work-in-progress" diário de viagem a Guiné-Bissau. O registo gráfico lembra automáticamente algo de Baudoin pelo liberdade do uso de píncel e tinta-da-china mas o desenho é outro, mais realista. O texto está reduzido a nível de tamanho da letra / legendagem mas a curiosidade já é muita em relação ao futuro. E claro, 6 páginas sabem a muito pouco!


Cosmonauta
João Ortega
Mosca; Out'10

Entretanto em mundos da fantasia onde há as improváveis influências de Manga urbanas de Tekkonkinkreet, alguma fashion "emo-gothic" e admiração por Stockhausen.
Ortega apresenta três projectos apresentados a editoras de bd rejeitados, um drama que poderia ser insuportável se não tivesse posto no papel para uma crítica pública. Há várias falhas ou excessos - em desenho, paginação e enquadramentos - que Ortega irá perceber isso com esta experiência editorial.
Irá perceber com o feedback do público, da minha parte "voto" na bd Ruído Nómada (apesar da horrível "font" do texto) e gosto graficamente as últimas três páginas d'Os traslúcidos.
É uma opinião, que apareçam mais...

Estes dois últimos zines podem ser adquiridos aqui

sábado, 6 de novembro de 2010

PEQUENO É BOM encontros sobre edição independente (7ª sessão)



O PEQUENO é bom! vai fazer um intervalo até à Primavera... e despede-se este ano com a América do Sul, não tivesse a Chili Com Carne um denominação dúbia de gastronomia latino-americana.
Assim, será uma oportunidade única de poder adquirir zines, comics, publicações vintage daquele continente e poder usufruir das novas produções do Brasil (para quem ainda ressaca Chiclete Com Banana), Peru, Argentina,...
Voltamos às CURTAS CHILENAS (2ª sessão) com uma mostra de uma série de curtas-metragens do Chile onde encontramos ficção, cinema de animação e documentário.
Aproveitando o espírito "revolucionário sud-america" conjugado com as comemorações da República para promover o lançamento de o Fígado da República, zine bd de José Smith Vargas - bem como ainda outros zines de David Campos (que recentemente fez a moldura do sítio da CCC) e João Ortega, com uma pequena análise à situação da banda desenhada portuguesa com a presença de alguns destes autores.
E ainda vamos projectar os 2 volumes do Drome Vídeo-zine.
...
Aproveitem o último PEQUENO deste ano!!!
a CASA DA ACHADA fica aqui - entrada livre!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Desastre Popular

DESASTRE POPULAR

Uma Exposição de Margarida Borges e Ricardo Martins.

Inauguração 4 de Novembro - 20H.

Concertos - 22H.

CANGARRA
FILHO DA MÃE

Undj MMMNNNRRRG

No Bacalhoeiro durante o mês de Novembro.


sábado, 23 de outubro de 2010

Imprensa Freak (2)


A redação do jornal alemão Jungle World esteve em Portugal (que como todos sabem resume-se a Lisboa, Porto e Fátima) e fez um apanhado dos nossos temas contemporâneos. Mas para estarmos aqui a falar deste periódico maroto de esquerda? Por duas simples razões:
1) foi dada exposição à ilustração/bd portuguesa e à Chili Com Carne nas suas páginas. Conhecemo-nos em Berlim durante a tournê da CCC e rapidamente perceberam a importância do nosso trabalho, daí que nas páginas centrais publicaram bd's de Filipe Abranches, Marco Mendes e Ana Biscaia (autores que já publicámos em antologias) e ilustrações de Ana Ribeiro, David Campos, José Feitor, Ricardo Martins e Ana Menezes.
Mas mais importante: 2) foi o único jornal no mundo (!) que tratou do fecho e destruição da casa ocupada lisboeta SPCC. Apesar da Chili Com Carne ter enviado e-mails para a sua lista de contacto de imprensa (que não é de desprezar, diga-se) não houve nenhum interesse da parte dos meios de comunicação ou dos jornalistas - até a nível pessoal - pelo assunto.
Ambos assuntos mostram a total ignorância e falta de interesse pela cultura alternativa da parte dos meios de comunicação que cada vez mais agem como animais domésticos. Dóceis e desinteressados para tudo que seja fora da casa e do quintal, aliás, um gato ou peixinho dourado não sabe ler os e-mails ou as facturas da EDP dos donos. Um dia quantos os donos são expulsos de casa com uma mão à frente e outra atrás, ou um dia sem dinheiro para ração, lá vão eles pró meio da rua ou pela sanita abaixo! Um gato ou um piriquito ainda se safam... um jornalista precisará de uma casa para dormir! Infelizmente será tarde demais, para encontrarem ou montarem uma casa ocupada porque não ligaram aos e-mails da CCC. É um final de estória triste, terão de dormir com os papeis do jornal que os abandonou...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Imprensa Freak (1)


Em Portugal, a impressa especializada ou generalista, ignorou o projecto inédito da Tour Europeia da CCC, noutros países não, como num jornal sérvio (não sabemos o nome, os caracteres cirílicos não ajudam...). O sorriso-pasta-dentrífico da Crew CCC não é assim tão farçolas, em Pancevo fomos mesmo muito bem recebidos!

sábado, 16 de outubro de 2010

F.E.I.A.


cartaz: David Campos

no Hey Joe (Montijo). às 22h, o unDJ MMMNNNRRRG mete som até a coisa começar a ficar feia!!! editores confirmados: Chili Com Carne, João Ortega, Mariana a miserável, MMMNNNRRRG, Paracetamol e A Peste.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Os bons é que são sempre esquecidos...

Algumas mudanças de casa e de repente saltam meia-dúzia de edições que foram acumulando algures que não atraia a memória e a vontade de escrever sobre elas. Alguns casos, sei que as edições esgotaram mas dada a qualidade das mesmas tinham de ser divulgadas nem que seja para dar a conhecer os autores e adquirir trabalhos seus de futuros projectos.
No caso de Corpus (Lézard Actif; 2ªed. 2008) do francês Albert Foolmoon é um livro de autor com 16 desenhos de sobreposições de imagens de corpos (ou partes dele) criando um efeito surrealista de contemplação. Os desenhos são virtuosos e realistas, um trabalho sólido que poderá convencer qualquer um que esteja farto de "graphzines" degenerados. A edição é cuidada e forte - o papel que é impresso é bastante grosso.
Do mesmo autor e editor de The Walls are the publishers of the poor, Corpus encontra-se esgotada mas o trabalho de Foolmoon pode ser encontrado em outras antologias gráficas francesas espalhadas por aí...



O amigo Dice Industries (autor que participou na åbroïderij! HA! – International Graphic Arts Exhibition e em alguns números do Mesinha de Cabeceira) lançou mais números do seu "zine" Qwert, ou em auto-edição como Low Frenquencies (#13; 2008) ou por outras editoras como a austríaca Kabinett que editou Der Große Malspaß (#14; 2008). Em ambas publicações continua o seu trabalho de "remix" de imagens de bd's populares (Disneys, Mangas,... e do Casper já agora!) com resultados desconcertantes. Talvez possa não ser muito diferente da lógica surrealista das colagens de Max Ernst (A mulher das 100 cabeças, &etc; 2002) ou o Dry and Free from Greese (Opuntia Books; 2009) do André Lemos mas a diferença natural surge graças à matéria-prima com que Dice trabalha, 100% Pop e por isso redondinha e de formas "infanto-fofinhas". A maior parte das vezes é representada destruição e violência (de mesas, mobílias e casas mas as personagens (destruídoras) foram apagadas, ficando todo o sentido narrativo e pictórico descontextualizado. São eflúvios humorísticos, representações gráficas demagógicas, magia infantil em ácidos, são as entranhas do Rato Mickey reviradas ao contrário e sem hipótese de por na ordem. Será assim a Disneylândia se um tufão der cabo daquilo. Dá gozo... no caso do "Der grosse Malspass" ainda podemos gozar algo mais porque podemos colorir o livro, pelo menos em teoria...