quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Memória colectiva de Geraldes Lino, falecido a 19 de Fevereiro 2019


GL no lançamento d'AcontorcionistA em 2012

Figura querida de muitos nós, autores de BD e editores de fanzines, eis um "corta-e-cola" de testemunhos de pessoas que o conheceram.

Ainda me lembro das tertúlias no estádio, houve uma que cheguei cedo 'tava lá ele, sentei e passado um bocado aparece aquele punk, que não me lembro o nome, de calças justas de leopardo, casaco de cabedal bafo a vinho e ar de quem não dorme muito a muito tempo, sentou ao pé de nós e os Geraldes a olhar para mim com um ar meio sem saber o que dizer, senti-o se um desconforto no ar para longitude dos dois personagens, mas logo se começou a desbloquear quando uns livros começa a mostrar e a partilhar conversa sobre bd. Uma pessoa muito fixe, sabia fazer críticas positivas e ajudar a motivar, a mim ajudou me na altura. - Lucas Almeida

Primeiras noites a viver em Lisboa, em 2002, e sai com uma turminha fora do vulgar, eu, o Geraldes, Pepedelrey, Ana Ribeiro e mais alguém que não me recordo. Final da noite decidimos descer até ao Incognito, pensei, vai ser impossível - muitos gajos e só uma mulher, vamos ser barrados. O porteiro "Dartagan" reconheceu o Lino, nem quis saber quantos éramos e quem éramos, entrem, entrem... "Ó Lino, queres o quê?" (acho que ele pediu um vodka limão). O "Dartagnan" tinha feito BD no passado e claro que conhecia o Lino. Noites mais tarde, situação similar mas desta vez no Lux. O porteiro reconheceu-o não sei porquê... Talvez porque o Lino conhecia o dono do Lux, o Manuel Reis. Quando o Lino deixou de sair à noite, voltei a ser barrado às portas das discos... - Marcos Farrajota

É quase insólito pensar que o desaparecimento de um homem que não conhecia profundamente, me emociona. Mas ler o que escrevem sobre o Geraldes Lino neste momento, a forma como o recordam, reforça a imagem que sempre tive dele. De uma figura (de perfil singular - aquele nariz!!) que circulava elegantemente por entre todas as bancas, as feiras ou festivais, sempre com a mesma curiosidade, com a mesma gentileza, com a mesma humildade. Reconhecia os autores e os seus trabalhos, divulgava-os, independentemente do que fossem, se comerciais ou alternativos, e essa atenção, esse cuidado sempre me comoveu. Esse olhar "fraterno" e transversal era o que para mim distinguia o Geraldes Lino da amálgama de editores e curiosos. Recordo-me das suas palavras de incentivo quando leu o STABAT MATER ou o MANUELINÚTIL, que ele meticulosamente chamava de "fanzines" porque "livro de banda desenhada é outra coisa!", de me perguntar quando sairia o próximo, de me incentivar a não para! De uma conversa à mesa da Tertúlia, sobre o seu trabalho no aeroporto, e da sua paixão pela Banda Desenhada! E daquele nariz... - Patrícia Guimarães

O entusiasmo e generosidade do Geraldes Lino por pessoas e por BD extravasavam os limites do que era esperado. Lembrava-se sempre - O Francisco, eu publiquei uma BD do Francisco no Jornal Universitário - como se eu me fosse esquecer de coisas dessas, ainda para mais pagas. 
Não era só a tertúlia, mas o apoio que dava a pessoas que davam os primeiros passos na BD, que se destacava no Geraldes Lino. Fazem mesmo muita falta pessoas assim - generosas, abertas, que fazem pontes. Um activista e um pacifista da BD. - Francisco Sousa Lobo

Lembrar o Lino é simples: o gajo faz parte do meu crescimento desde os meus 11 anos. Lembro-me de tudo (a cena do Incógnito de que o Marcos fala, também) das cenas que vivemos em festivais, exposições, debates, salões, por cá e lá por fora, das festas no 25 de Arroios e no 4° andar do Areeiro, jantaradas, tertúlias e... Uma vida do caraças! Das tareias que me dava para corrigir o meu horrível português, as cenas que desenhava nas toalhas e guardanapos e que lhe oferecia. Aquele memorável momento de estar em Angoulême e um gajo qualquer, daqueles autores franceses famosos, entre duas cervejas me perguntar: és português? Conheces o Geraldes Lino? Daqueles dias em que ia ao aeroporto encontrar-me com o Lino e perceber o carinho que o pessoal que ali trabalhava dizia: o Geraldes dos bonecos. Eh pá são milhões de memórias. Mas as melhores levo-as comigo. - Pepedelrey


Pitchu, Lino e Manel, na ZDB, a jogarem o Jogo da Glória da Cru no Zalão de Danda Besenhada (2000). Foto: Pepedelrey

Eu gostava muito do Lino, como toda a gente. ele chamava-me por graça "o poeta" e ria-se muito com os meus disparates. não sendo eu propriamente uma pessoa intima dele, nem pouco mais ou menos, apanhava-o nas cenas de BD e tínhamos conversas divertidas. O Lino era uma pessoa de uma generosidade enorme além de ser um enorme coleccionador e conhecedor de fanzines e banda desenhada. - Rafael Dionísio

Geraldes Lino. Duas décadas de amizade. Longas conversas telefónicas. Efusivos encontros em eventos de banda desenhada. Sempre, sempre, sempre generoso. E transversal às mais diferentes gerações, incansável em colocar em contacto os mais diferentes elementos. E, curiosamente, sempre surpreso, quando a vida lhe retribuía a mesma generosidade. Na verdade, o Geraldes não tocou somente a vida dos autores (tivessem ou não participado em zines) mas também muitos outros elementos, ligados direta ou indiretamente à BD. Num dos últimos encontros que tivemos, expliquei-lhe como tinha surgido o meu atual site. A crítica e a divulgação que eu fazia no blogue bedê e no portal BDesenhada.com (com o qual o Geraldes chegou a colaborar) tinham findado em 2007. Em junho de 2013, por problemas de saúde, o Geraldes deixou de organizar a Tertúlia BD de Lisboa. E dois meses depois, surgia o Bandas Desenhadas. Expliquei ao Geraldes que, após a sua decisão, eu tinha optado por dar por terminada a minha "licença sabática", para "cumprir com a minha parte", como lhe disse. Fui brindado com aquele sorriso do qual já tenho saudades e um sentido abraço. E haverá centenas (senão milhares) de outras pessoas que terão histórias semelhantes, em que uma palavra ou um gesto do Geraldes os motivou a fazer algo. É um caso único. E devemos-lhe todos muito. - Nuno Pereira de Sousa (também chamado de enanenes pelo Geraldes).

Algumas coisas fixes sobre o Lino, que não devemos esquecer: 
- ele coleccionava desenhos das toalhas de mesa, que nós nem dávamos valor; 
- ele quer que digamos O fanzine, não A fanzine (e ele também me deu uma lição de francês à custa disso!) 
- o Lino adorava viajar! Cheguei a encontrá-lo em Beja, no Porto e até no EriceiraBD! 
- O Lino foi o melhor professor: no sentido em que a paixão que ele tinha pela BD, pelo meio, pelas personagens e pelo Desenho, foi notavelmente parte do que o tornou uma grande influência para tanta gente que hoje, em redes sociais, relatou o impacto que a figura dele teve no seu trabalho e na vida. 
 Até sempre, Geraldes Lino! - Mosi


Jogo de bola em 1994, na Amadora, com o Lino como árbitro da partida...

Em 1999 fiz o workshop do Marcos Farrajota na Bedeteca de Lisboa. Tinha 13 anos e só sabia que gostava de banda desenhada - não sabia que não percebia nada, especialmente de que podia auto-publicar banda desenhada ou o que quer que fosse. Este Julho da minha vida fez com que imprimisse uns 5 exemplares do Uaite on Bléque na impressora de algum familiar, pronto para mostrar aos colegas na reentrée do 8º ano - foi devidamente desprezado pela turma toda, claro. Poesia imberbe, umas fotos manhosas, sei lá mais o quê. Mas mais rápido que um relâmpago, há um senhor que telefona para minha casa a perguntar por mim, e quantas páginas tinha o zine, como tinha sido impresso, o meu nome, a tiragem, e um sem fim de detalhes que eu desconhecia ter que saber, no fundo da minha puberdade editorial. 
Acrescia-se ao inquérito um convite para participar numas tertúlias ('numas quê?') de banda desenhada às quintas feiras, nas quais eu não podia participar porque enfim, não tinha autonomia para tal. A voz dele era peculiar. ~(Justiça poética, talvez, para o homem que passou a vida a coleccionar o peculiar em Portugal.) Conheci o Geraldes uns tempos depois, pois acho que lhe fui vender o meu zine em mão num festival da Amadora. Sei que fiquei impressionado com a voracidade com que se tornou dono do meu A4 borbulhento (e sem banda desenhada, se bem me lembro). Caramba - fez-me sentir importante! Pergunto-me se não terá sido fulcral para o resto da minha vida ter tido contacto e receber uns cordiais mas incitantes 'parabéns' pelo meu primeiro zine (uma bosta, se ainda não se percebeu que era), da parte de um simpático desconhecido, ao que parecia, bastante entendido na matéria. Claro que foi fulcral... Obrigado, Geraldes Lino. À sua. À tua! A esta dívida-dúvida que vai ficar para sempre de não saber se estávamos em termos de 2ª ou 3ª pessoa, eu e o Geraldes, sem dúvida singular! - Filipe Felizardo

Conheci o Geraldes Lino em 1994, quando eu preparava uma dissertação de licenciatura sobre fanzines ('os' fanzines, como ele gostava de lembrar...). Mantivemos algum contacto esporádico por esses tempos e, de forma mais regular, a partir de meados da década seguinte. Como tantos outros ilustradores e autores de BD, tive o prazer de colaborar nalgumas publicações organizadas por ele e de receber uma homenagem na célebre tertúlia do Parque Meyer. Naturalmente curioso, e com uma amplitude de gosto notável, o Lino era aceite em muitos círculos e por gente de todas as idades, que se esquecia facilmente de que ele já ia mais adiantado na vida... Estivemos juntos em diversas ocasiões. Recordo a mais recente, quando pude conhecer, por seu intermédio e do Marcos Farrajota, um dos meus desenhadores preferidos da revista
Visão. E, ainda há poucos meses, trocámos e-mails sobre um outro autor, obscuro e retirado... Não cheguei a saber se os contactos que lhe passei deram fruto, mas parecia evidente que a sua curiosidade se mantinha aguçada... É com surpresa que recebemos a notícia da sua morte, tal a jovialidade que irradiava. Salvé, Grande Lino, e que a memória perdure! - Daniel Lopes 

O Geraldes Lino foi a primeira pessoa que conheci que ligava aos fanzines e não era da minha geração! Conheci-o numa feira no Goethe Institut, nos idos dos anos 90 e fiquei logo impressionada com a militância na cena. Convidou-me logo para a tertúlia, como convidava toda a gente, porque para além de coleccionador e divulgador ele tinha uma enorme vontade de reunir as pessoas à volta daquilo que mais gostava. Em todas as feiras em que o encontrei ao longo dos anos, vi como acompanhava o trabalho de toda a gente, sempre com o mesmo entusiasmo. E muito para além do entusiasmo, o mais importante para mim é o respeito que ele tinha pelo trabalho de cada artista, mesmo dos mais novos, ao ponto de achar que aquilo valia a pena ser guardado. Uma vez contei-lhe que tinha feito uns fanzines de BD com uma turma do 8ºano e ele não descansou enquanto não me comprou esses zines. Devem haver coisas na sua colecção que já nem o próprio autor tem e que são documentos importantes de uma prática artística que consiste basicamente em tirar fotocópias aos trabalhos e agrafá-las. E sim, é por causa do Lino que nunca mais disse "uma fanzine"! Até sempre... - Ana Menezes

Conheci o Lino pouquíssimo tempo depois de publicar a minha primeira BD, uma coisa manhosa, num fanzine de amigos mais manhoso ainda, com uma estética em que nada combinava com nada. Ouvia já falar dele, e imaginava assim, uma figura pública, com aquela arrogância das pessoas importantes. Uma noite fui ao lançamento de uma Bíblia do Tiago Gomes, e passava-se numa discoteca qualquer. A certa altura vejo o meu ex, que tinha saído por um bocado, entrar com o Lino, os dois de braços dados, como se conhecessem há anos. O Lino vira-se para mim, e grita entusiasmado "Tu és a Rechena, eu li a tua BD!" Depois disso fomos para Beja juntos, fomos para encontros obscuros de zines em Almada. As Tertúlias do Estádio. As Tertúlias dos bons Garfos. Dos Cinéfilos Bedéfilos. Uma vez tirou dinheiro do bolso e disse, toma lá 20 paus vai lá fazer o teu fanzine. Eu que passei a vida toda à margem, com ele encontrei uma família que permanece até hoje. - Andreia Rechena

É quase sempre fácil falar dos que partem com a voz do consenso. No caso de Geraldes Lino, não há nada de forçado nisso, porque o consenso existia mesmo e tinha a sua origem num gesto constante que, para mim, e suponho que para muita gente, caracterizava a pessoa que o praticava: o gesto da curiosidade, absoluta, generosa e genuína. Lino gostava de banda desenhada, sim, e muito, mas esse gostar não se mostrava daquele modo elegíaco e cristalizado que tantas vezes atravessa o meio. Gostar de banda desenhada não lhe encerrava as referências ou as preferências naquilo que já conhecia há muito, e que era muito, também, levando-o, antes, à procura constante do que de novo se ia fazendo. Feiras de fanzines, encontros de pequenos ou minúsculos editores, exposições nos sítios mais improváveis, em todos esses sítios se encontrava Geraldes Lino. E não era apenas a vontade de ampliar uma colecção cada vez maior, não, era vontade genuína de acompanhar o que se fazia de novo. Não consigo lembrar-me onde conheci Geraldes Lino, porque a minha memória me diz que o fui vendo sempre nestes espaços. Se calhar, foi na Fábrica da Cultura, no tempo do FIBDA, mas também pode ter sido numa daquelas feiras de fanzines que se faziam em Cacilhas, nem vou contar há quantos anos... Pouco importa, na verdade. Com ele aprendi muito, soube de edições antigas e de autores que desconhecia, e discuti umas quantas vezes. E era bom discutir com Geraldes Lino, porque ele o fazia com vontade de debater, sem aquela amargura que às vezes serve para não ouvir o outro lado. Não terá havido um autor de banda desenhada a surgir em Portugal, publicando numa editora consagrada, num jornal ou numa publicação fanzinesca de tiragem minúscula e imperceptível que tenha escapado ao interesse de Lino e será impossível transformar em qualquer valor quantificável o quanto lhe deve a banda desenhada portuguesa, sob tantos aspectos. Pela minha parte, sem acreditar que se passe alguma coisa depois do inevitável momento final que a todos nos toca e tocará, não deixo de imaginar Geraldes Lino num qualquer além a descobrir fanzines onde ninguém suspeitaria da sua existência. E a corrigir-lhes as gralhas e os erros gramaticais com o seu rigor de sempre. - Sara Figueiredo Costa

Conheci o Geraldes Lino em 2008 na minha primeira visita ao Festival de Beja. Estávamos na sua quarta edição e penso que descobri a sua existência porque um dos convidados era o Dave Mackean. A maior surpresa do festival acabaria por se tornar o Geraldes Lino. O Lino estava sempre pronto a falar connosco e a dar a conhecer não só a BD como esta pequena comunidade de leitores. A partir dele conheci a famosa tertúlia de BD de Lisboa e nela muitas outras pessoas com quem ainda hoje mantenho contacto. Vi projectos nascerem naquelas mesas e, também graças a ele, descobri esse mundo fantástico dos fanzines. O Lino era um daquelas pessoas inesquecíveis, duvido que alguém que tenha travado conhecimento com ele, por mais breve que tenha sido, o tenha esquecido. Foi um dia triste, vou ter saudades dele e das suas conversas não só sobre BD, mas sobre a língua portuguesa também. Porque se é para escrever é para escrever bem. Um grande abraço Lino e, sinceramente, obrigado - Gabriel Martins


GL com Tiago da Bernarda, Maio 2018

Quando alguém morre o que fazemos com o contacto que temos guardado no telefone? Já não serve. Podemos terá estúpida tentação de ligar mas sabemos que não está lá ninguém. 
«GLino» «Eliminar contacto – Este contacto será eliminado». Para sempre. 
Já não vai tocar como acontecia às vezes, era o Lino a ligar, uma pergunta, uma combinação, a energia de sempre a organizar mil coisas. Cruzávamo-nos muito aqui no bairro, conhecia-lhe os hábitos. Se via o velho Micra estacionado na minha praceta já sabia que o encontrava na casa de cópias do Carlos, onde facilmente improvisava umas micro-tertúlias fanzinescas. Acarinhado pelos meus filhos, que conheceu desde que nasceram, era figura do nosso quotidiano familiar: «Pai, encontrei o teu amigo Geraldes Lino». 
 Adeus, amigo Lino! - João Chambel

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