Mostrar mensagens com a etiqueta matilde feitor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta matilde feitor. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Zines da Alegria

Sempre fixe a Feira da Alegria, faz jus ao nome com os jardins das Belas Artes do Porto ocupados por centenas de mesas cheias de arte e edições. Arejada e boa onda, lembra-me dos bons tempos das Laicas de Verão...

O Borrão continua a sua marcha mensal com as BDs mais "artsy-fartsy" do burgo... um luxo para quem gosta de BD de forma expansiva... e barata! Destaques para a BD no #3 de Emília Silva que mostra que os seres humanos em 2026 estão todos f*did*s e que fazer BDs (narrativas) curtas é um ofício delicado, que bem aplicado pode ser brutal - parabéns à autora. E já agora curiosa participação de Mariana Roma com uma peça bem suja sobre a cromice da BD. No número quatro as miúdas chamaram nitidamente os peso-pesados Lucas Almeida e José Feitor para meter os putos na ordem! 

Antologia Creepypasta : 4 anos do Freddy do Mal (TKB Barracks; 2026) é um fanzine literário que reúne os melhores contos de "creepypastas" (termo usado para designar contos de terror tipo à volta da fogueira mas como os jovens deste milénio não saem de casa conta-se na internet) do Freddy do Mal. Ainda estou para perceber a pertinência e a qualidade disto mas teve piada entrar em mais uma sub-cultura. Yá, é de maneira que me sinto menos velho, topas? Da mesma editora apanhei o Abelha Man d'O Marechal, um mini-zine que nos ensina bué sobre o mundo das abelhas!! Para fãs de Calpurnio (1959-2022) ou Mike Diana.

Por fim, quem curte ganzas pode a partir de agora ter um artista gráfico da sua preferência para os filtros.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Zinada


Foi um fim-de-semana simpático na Autónoma, para pelo menos para recarregar de novidades de fanzines e afins. O Borrão já tinha saído antes do evento mas como estavam lá, começo por aí... Já saíram dois números deste fanzine - mas por alguma razão esotérica as duas editoras, Matilde Feitor e Emília Silva, preferem tratar a publicação por "revista" - que é um esforço das duas responsáveis introduzirem BD na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, passando pela estratégia de raposa de convidar os artistas que andam por lá, fazerem uma BD mesmo que a maioria não saiba que basta duas imagens em sequência que já é BD. Os resultados são peças poéticas, experimentais, não-canónicas ou mundanas que se esquecem passado pouco tempo mas dada a urgência do projecto interessam ler e pegar nesta "revista" impressa em papel colorido, formato A5, preço simpático e ao que parece com regularidade mensal até um dia que não. Destaco os trabalhos de João Salvador, Pedro Costa e a BD da Emília no segundo número - deu um salto, sente-se confiança... Um destaque especial para o inventivo índice! Que raposinhas!!


Houve o reencontro feliz com a Pats no certame da outra margem e eis o segundo número do seu zine Sortido, onde publica as BDs curtas que vai produzindo. Esta autora é actualmente a única a a segurar o porta-estandarte na BD portuguesa de contar boas histórias com "bés e capeça", naquela fina linha entre o quotidiano mais aborrecido e o mágico inesperado - como um "blind date" entre uma mulher e um carro... 
A tradição "alternativa" dos anos 90 está toda aqui, algures entre Julie Doucet e Renée French, em que se pode comparar a estes nomes monstruosos porque as BDs de Pats estão muito bem alicerçadas com o seu grafismo assertivo - a página ao lado confirma isso. 
Claro que seria mais interessante ler estas BDs em português e (é bater no ceguinho, bem sei disso, Pats!) que a bizarria gráfica dos olhos das suas personagens (que a autora defende como o seu estilo identificador gráfico de forma aguerrida) não incomodasse a fruição geral da leitura. Vale todo o dinheiro dado menos a capa que poderia ter um coche mais de oomph!

Ia escrevendo que era preciso um gringo cinquentão em Portugal para nos ensinar o que é um "fanzine", se o André Coelho ainda há pouco tempo não o tinha demonstrado com o Katabasis.

The Heavy Helium Groove publicou This is The Night Mail, fanzine dedicado ao Black Metal, Death, Noise e (Art) Brut com entrevistas a bandas como Beherit, Caixão (ligado ao fanzine The Fall of The Idol) ou Nuclear Death - pela pessoa de Lori Bravo, que foi para mim a grande revelação nestas páginas. Além disso também é entrevistado o André Lemos (curiosamente tal como aconteceu no Katabasis!) e o Rudolfo / Gekiga Warlord. Grande conclusão do dia: é preciso ser os fanzines de música a entrevistarem os artistas gráficos!

E ainda há uma BD goyesca do João Carola e as fantásticas "falsas-gravuras" de Minhothropic... Tudo isto num formato A5 com pinta de livro para pitosgas. Impecável e necessário!





Por falar no Lemos - a entrevista no Night Mail começava justamente por causa dos seus Opuntia Books - saíram mais dois volumes desta colecção gráfica, a saber S/.GAMZA de Francisco Amorim e Azul de Terra de ZMB. 

O primeiro é um anti-formalista com panca por um orientalismo em grande estado de decomposição - e que também faz música degenerada. O segundo já é conhecido no Opuntia - este é o seu terceiro título? Quarto! - e desta vez a temática aproxima-se de universos fantásticos e torturantes, de alguma forma a lembrar Samir + Miguel...

O que impressiona sempre é a dedicação de Lemos enquanto o produtor que suja as mãos a criar estes livrinhos de assertiva qualidade editorial, sempre com detalhes e rigor, incluindo cortes e diferenças de papeis, transformando estes graphzines numa referência para qualquer um que diz gostar de papel. Não há maquinetas electrónicas que substituam estas publicações analógicas!

Por fim, e porque uma pessoa não vive só de bonecada e música, a Contracapa publicou um novo livro de poesia de A. Dasilva O., uma antologia intitulada de E a poesia dá à luz uma bússola louca. Não será hoje nem amanhã que escreverei algo sobre isto, fica só o apontamento para o poeta mais escatológico da praça, é sempre um prazer... Mão Morta e Sereias já há muito tempo que o deviam ter musicado, enfim...

sexta-feira, 14 de março de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (3)

Fora de Campo #2 (Bacarr0ta; Jan'25) é um fanzine.  Mas fanzine mesmo, aquela cena do "fã" + "magazine". Teve até um número zero! Uma grupeta com a Matilde Feitor à cabeça celebra o Cinema em forma de fanzine A5, assim "old-school", escrito à mão, tecnofobista e com razão nos tempos saturados de digital. Gostei tanto de participar no primeiro número que nunca mais fiz BD até hoje. Neste novo número dedicado "à presença feminina no Cinema" topa-se a quase ausência de textos. Um problema que parece estar a afectar todas as publicações amadoras ou semi-profissionais. Se antes as "redes sociais" eram espaços de escrita - os blogspots e wordpress - com os "Fezesbook" & "Insgrana" parece que as pessoas desabituaram-se a escrever. Se por um lado há os académicos que cagam cinco "papers" por semana com o jargão científico todo certinho, por outro estes deixaram de saber escrever para leitores leigos. E o pior são esses mesmo leigos, escritores em potencial, que não se sentem à vontade para o fazer e que desistiram, preferindo meter fotos sobre um concerto (e do "brunch") invés de uma resenha escrita. Se as pessoas desistirem de escrever, estamos fodidos, nem é preciso Trumps para acabarem com ministérios da educação para voltarmos à barbárie. Pode-se até dizer que as novas gerações são mais visuais. Sim é verdade mas além de isso ser uma desculpa fácil para não se tentar escrever também não é uma grande vantagem porque olhando para as colaborações deste fanzine sente-se uma homogeneidade de estilos gráficos, sem haver alguém que faça algo de "profundamente errado" para destacar. Saiam da casca, sff. Ah, sim, destaque pra BD de Sofia Belém apenas por ser isso mesmo, uma BD! O fanzine sai AMANHÃ oficialmente num "mega-mini-evento"!


Strife (2024) é um livrinho de Banda Desenhada de Ohspital, artista visual e tatuadora. Bem... ela não diz que é de BD mas que é um livro ilustrado apenas. Caramba, se há sequências colocadas de forma propositada para uma leitura - seja ela qual for e seja qual for a qualidade do leitor, ou das drogas que este tomou ou das fortes e confusas emoções que esteja a sentir - para mim é BD! ;) Apresenta uma ideia simples, a de uma mulher que constrói um arco para flechas e dispara-as para um alvo que não pode ver. É uma metáfora sobre a luta que são as nossas vidinhas sem rumo, ou pelo menos para quem não tem poderes de premonição se alguém tiver nessa de paranormalidade. O traço é delicado, num híbrido de cultura "pós-manga", a lembrar alguns trabalhos de Dois Vês ou da Sara Boiça. Por falar nisso, o que é feito delas? Ó Ohspital, por favor não pares!


Bem sei que já lá vão cinco anos desde que saiu esta edição - ou seja, pelo menos há duas ERAS atrás, sendo uma delas a do covid - mas só recentemente é que acedi à caixa, que inclui dois CDs + folhas volantes intitulada, Som Desorganizado 2019 : Sonoscopia's annual meetings on sonic exploration (Sonoscopia; 2020). Considerando que quem participa com a "bonecada" é o "Ilan Manouach" na sua fase "microworkers" - Harvested - e sendo que em Abril teremos um livro novo dele, faz sentido escrever umas linhas aqui. Manouach mandou 150  "microworkers" desenharem sobre este encontro de música exploratória do Porto, sem eles nunca terem lá posto os pés. Aliás, devido à condição precária destes trabalhadores, provavelmente nem estão interessados nesta música Toing Toing Toing Toing Toing Toing Toing Toing Toing Toing das margens da Improv (vulgo, "música aleatória") e muito menos terão, alguma vez, oportunidades económicas para frequentar um espaço destes (inevitavelmente elitista) ou de virem ao "Morto." mesmo que esta cidade venda o seu cuzinho como "lowcost". Manouach subverte todas as lógicas do "desenhador que vai documentar a sua experiência de um festival de música", tal como no ano anterior do evento houve outro músico/desenhador, o libanês Marzen Kerbaj, que participou "by the book", ou seja, com desenhos do que testemunhou. A ideia de Manouach leva-nos a um universo paralelo, tanto como a música fantasmagórica de Aeroles (CD2), um registo impossível de realizar pelas disparidades económicas em que vários humanos vivem. Quanto à música da caixa de 2018, só me lembra o que o autor brasileiro André Dahmer escreveu numa tira humorística qualquer: Jazz  é como um pum: você nunca sabe que som vai sair.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

QITTOSQM

Fiquei indeciso durante muito tempo, já com o livro nas mãos há algumas semanas desde que saiu na última Raia de forma não-oficial e com o lançamento a acontecer... e lá foi lançado a semana passada! E não consegui escrever nada! Não sabia se deveria fazer uma crítica mais "mordaz" ou séria n'A Batalha ou dar uma palavra de apoio sincero e positivo pela iniciativa neste blogue - onde abandonei a crítica em favor do jornal, tirando em períodos epidémicos.

É que espero que a antologia QEQTPQE?? venha a ser mais do que um mero OVNI de passagem na BD portuguesa. Desejo que venha a ser um projecto maior, que consiga crescer e sobretudo que crie diversidade no enfadonho "clube de rapazes da BD", essa cultura que teima ainda em ser masculina e nostálgica, sem perceber o mundo que a rodeia.

Há muito, embora não tenha encontrado algum texto que comprove isso nos arquivos deste blogue, que afirmei que o que era mesmo bom era que houvesse "uma Chili Com Carne" por distrito em Portugal. Uma rede de estruturas que pudesse contradizer a cultura dominante da BD dos rapazinhos parvinhos e que formasse um circuito alternativo de promoção, distribuição e de apoio mútuo. Infelizmente Portugal é uma sanita e não há malta suficiente para tal. Quer dizer, até há muita gente a fazer BD, mais do que alguma vez vi! Só que só me apercebi, recentemente, que "maus editores criam mau público e maus artistas" (ler artigo a sair em breve na revista Pentângulo). Obviamente que merda gera merda e daí o que vemos sair todos os dias são BDs da terceira divisão de Fantasia da pissa ou ainda uma literatura lamechas, cheias de problemas do Primeiro Mundo sem interesse - havendo mesmo até uma autora que usa tal estatuto escarrapachado no seu pseudónimo, incrível mas é verdade!

E ao mesmo tempo já nem é bem assim, há mais pessoas que experimentam na BD uma forma de expressão artística! Se a Chili tem sido uma excepção oficial à tendência dos eco-desastres editorias acima referidos também é verdade que não pode ir a todas pela sua diminuta dimensão logística e económica. Aliás, muitas vezes nem percebemos que existe mais gente, bem que tentamos usando o concurso dos 500 paus como chamariz para conhecer essa malta mas não isso chega, não conseguimos  ir a tudo. Não somos uma instituição nem uma casa comercial, e mesmo estas (pasme-se) não querem saber de Arte na BD para nada - vejam como os festivais de BD que existem, todos eles camarários, como a "BD Porcalhota" e "Las Bejas", cada vez tem ficado mais tradicionalistas! Invés de procurarem novos públicos e temas, voltam atrás com o cagalhão mesmo ao peito!

Aparecer um QEQTPQE?? - oh, by the way quer dizer Quem é que tu pensas que és? - para mim, significa estar menos sozinho contra a ignorância que grassa no meio da BD. Uma solidão atroz que muitas vezes podemos pensar que estamos a fazer tudo errado, que somos parvos em lutar contra a maré. Ou pior, que nos estamos a tornar nuns arrogantes... menos mal isto! Há que admitir que os outros fazem mesmo BD de merda e dizê-lo alto e bom som! Sobretudo esta solidão indica a fragilidade no meio, como se viu nos anos covid em que foram mais as editoras estrangeiras a publicar artistas portugueses do que cá.

Não vou referir BDs ou artistas desta antologia que tenha gostado ou que não tenha curtido, nem vou aqui apontar questões editoriais bem ou mal feitas. Apenas vou enaltecer o gesto das três editoras-autoras que meteram mão à massa, lançaram uma convocatória e descobriram artistas novos - as idades variam entre uma pessoa que nasceu na década de 70 com muitos que nasceram nos anos 90 e algumas que brotaram neste milénio. Os "novos" significa que são novidade para o "mercado". Cada um deles tem os seus vocábulos e estéticas, mais inspirados ou menos, com influências mais óbvias que outras, pouco interessa! O que interessa é que estão aqui 132 páginas impressas a laranja PSD (para baralhar os direitinhas identitários, como é óbvio) completamente diferentes do que se fez aqui na Chili e até no passado portuense, cidade de onde aparece o projecto - aproveito para recordar uma potencial genealogia: a Associação do Salão do Porto e a revista Quadrado, os fanzines Cru, Gambuzine e Succedâneo, o colectivo alíngua e a revista Satélite Internacional; e o colectivo Os Gajos da Mula que originou a Oficina Arara e a publicação Buraco.

Na realidade, até tem aparecido ultimamente e timidamente alguns projectos que marcam a diferença, como o livro Guarda-livros, de Teresa Arega (que participa no QEQTPQE??), publicado pelas Edições da Ruína (projecto de Gonçalo Duarte), o fanzine em linha Passatempo e já para não falar dos óbvios MASSACRE. Meu, ainda há esperança para este cantinho ibérico, se era para dizer isto já podia ter escrito este textinho mais cedo! Bóf!

Esperem, esperem, isto não acaba assim! Parabéns à Goteira! Venham mais projectos assim!!!