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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Buraco #2

Buraco; Dez'11
v/a

Saído inesperadamente na última Feira Laica, eis o segundo número do Buraco, projecto de autores de Lisboa e do Porto - embora seja na última cidade que se encontre a maioria das participações desta publicação.
Há quem diga que fui injusto com a resenha do primeiro número mas para um projecto com características políticas é estranho que não tenha "mais sal". A promessa que "o céu é o limite" terá de ficar para o próximo número porque não se vê avanços entre os dois primeiros - como poderia com esta crise!? Falta um discurso editorial e uma arrumação das páginas de forma que não pareça que dois ou três grupos de artistas, desconfortavelmente, se juntaram para fazer uma revista. Não deixa de ser importante o acto em si (uma nova publicação), só parece forçado, sem a energia e foco que as edições dos Gajos da Mula ou Senhorio tinham no passado (estes dois colectivos fazem maioria no Buraco).
Caso estranho do do José Feitor, um ilustrador sempre conotado com desenhos de cariz político, apresentar uma sequência pseudo-bd-surrealista-xamánica. Uma coisa boa, a bd do Bruno Borges serve como guia para um gajo apanhar pifos no Cais do Sodré - sabemos de um caso real. De resto, será que este projecto é capaz de acertar no terceiro buraco?

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Zines é no Porto!

Trouxe alguns zines da última edição da Feira de Publicação Independente, onde havia dezenas de novidades de zines fazendo do Porto de novo um pólo de zines e edição independente como já não acontecia há alguns anos. O único "mal" é que a maioria dos zines que vi eram de ilustração e design, que sinceramente não tenho paciência. Chamem-me de cromo mas o que gosto mesmo é de ler. Talvez seja um problema português, a falta de cultura visual, que cria comportamentos ora de desconfiança ora de euforia sobre "graphzines" e afins... Como só havia uns quantos zines de bd ou de texto fico por estes "lugares comuns", apesar de serem novidades:


Eis o primeiro número do Buraco que junta uma redacção de Lisboa e do Porto num objectivo de ser uma publicação de oposição política em bd, em que encontramos trabalhos de Bruno Borges, André Lemos, Carlos Pinheiro, Marco Mendes, Nuno Sousa, Miguel Carneiro e uns misteriosos pseudónimos. Dizem que "batemos no fundo e ainda escavámos um buraco" mas acabam por "bater no ceguinho" para quem já se habituou a ver os trabalhos destes autores em outras produções independentes, não havendo neles grandes diferenças temáticas ou na forma de os tratar. O caso mais flagrante é o de Marco Mendes que aparece com as suas mesmas tiras de sempre - é provável que elas sejam inéditas em papel mas para quem visita o seu blog parece que estamos a ver / ler outra vez o mesmo material, ad eternum...
Para uma publicação de "sátira" (?) política parece bastante púdico, talvez os autores tenham pena dos políticos... afinal eles também são seres humanos, snif, snif...

buracoeditorial@gmail.com

Tiago Araújo voltou com mais um zine seu cheio de alucinações sobre a existência e "raison d'étre", Metamorfis. Passou a escrever à mãozinha - coisa que irritava noutras bds suas - os seus textos esotéricos que nos ensinam o sentido da vida apesar de o autor ter só uns 20 anitos... merda! Não soa a muito convicente o que acabei de escrever... talvez seja isso que acontece com a sua bd também. 
Puto, mexe-te! Só há sentido para a vida se deres-te ao trabalho de a viver. Só há reflexão depois da acção... caso contrário é só melodrama português, fatal como o seu fadinho... Vai esmagar um carro contra uma esquadra de bófias, queimar algum outdoor ou algo útil do tipo! Ou ouvir o "Sean Paul Satre", o rei do Dancehall Existencialista, caga no escritor francês, boy! Como diz essa grande fonte de sabedoria, Matti Nykänen, "life is the best time you have!". 

Em compensação, o Rudolfo é só testosterona e acção xunga assumida para "skaters from hell" ou para quem viveu jogos de computador, "shokushu goukan" (porno japonês com violações por tentáculos), RPGs e toda uma alienação cultural dos últimos 20 anos. Falo de 666 Hardware, um micro-épico trash curtido com o Rudolfo a lamber o desenho para nos impressionar. É uma estupidez pegada numa edição bem cuidada. Pedidos práqui. Imagens em velocidade excessiva (mais que a bd):


Mas o melhor do Porto, aliás, do Rudolfo é mesmo o seu zine Lodaçal Comix, que vai agora no terceiro número. Um excelente trabalho que merece todos os elogios possíveis. Não sei se o título "lodaçal" apareceu para retratar a "cena da bd portuguesa" e a falta de expectativas que esta área comporta a nível social, económico, profissional e artístico.
Mas se todos os autores fossem empreendedores e abertos como o jovem Rudolfo, a cena seria um "continente" invés dos típicos nomes de projectos dos portugueses que insistem em "meter água" (literalmente) nas suas identidades: BaleiAzul, Polvo, pedranocharco, etc... Mas aqui falamos do oposto simétrico, com o Lodaçal meteu malta nova e "velha", feminina e masculina, nacional e estrangeira, numa produção de qualidade e com regularidade - o projecto apresenta-se trimestral e ainda não saiu um número atrasado! Junta bds de recortes autobiográficos com umas de alucinações grotescas, um bocado de surrealismo post-pop emperfeitamente sintonia com as correntes "underground" da bd mundial.
Só os idiotas do costume não irão perceber que se está a fazer História por aqui. O número quatro vai sair na próxima Feira Laica com um número "fora de série". Razões justificadas para quem gosta de bd ir a correr prá Laica! Entretanto, quem quiser gastar o subsídio de Natal que o faça aqui invés de ir gastar em pizzas (piças?)...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Como é possível?

v/a : Metropolis Club 79-89 (Chaosphere + Metropolis Club + Raging Planet; 2009)

Porque odeio tantos os 80's? Simples... porque há 30 anos que oiço os 80's e parece que ninguém tem juízo para achar que em qualquer discoteca ou festa ainda há razões para ouvir a pior música dessa década. Se soubesse nunca tinha começado as Xungas Partys quando os meus pais deixavam-me em casa nos meados dos anos 90. Por alguma razão absurda - e esta colectânea colabora nisso - instituiu-se que os 80's não foram uma década rica em sons. Que não houve grandes evoluções no Punk, no Dub, no Metal (Slayer? por favor!!!), Hip Hop, Industrial (ninguém conhece Foetus?), Indie... Ou seja, querem uma visão limitada de que nesses tempos só houve Pop Xunga (Kim Wilde, Europe, etc...) ou Rock Dark (Cult, Sisters of Mercy, etc...).
Se o projecto até tem a sua piada ao pedirem a bandas nacionais para versionarem o que quiserem do período de 1979 a 1989, a verdade é que fica tudo a fazer a versão tró-ló-ró que nada acrescenta (CineMuerte, Mofo, Secrecy, Tarantula) ou a versão javardada óbvia (Twenty Inch Burial acelera bem o rabo e as mamas à Samantha Fox!), começando pelos Moonspell que dão um tiro nos pés ao fazerem de Love Will Tear Us Apart (Joy Division) - música que já mete nojo porque até nos supermercados Continente se ouve - uma versão tão asquerosa que parece um ensaio de uma banda de liceu. E quando disse começando, é porque o CD abre com os Moonspell... depois disso é o bordel cheio de gonorréia de mediocridade e putedo "kitsch" do pior.
Safam-se os Darks, curiosamente... Os [f.e.v.e.r.] com uma complexa versão de Cure, os góticos Phantom Vision repescam Lene Lovich (quem? exacto! seja quem for não é óbvio e a versão é solida!), N3xu5 que reduz os Sisters of Mercy a Techno Gó-Gó (é nestas alturas que é verdadeira a afirmação: "mais vale ser estúpido do que não ter tomates") e La Chanson Noire que transforma Hollow Hills (Bauhaus) num piano mais voz a caminho do cabaret - interessante, resta saber o que poderá reservar mais esta "Canção Negra" de futuro...
Com este disco é de chegar à conclusão que pior que a "música dos anos 80" só mesmo a da década passada porque apresenta-se sem imaginação, cheia de tiques e profissionalismos que só a levarão ao grandioso buraco do esquecimento. Um buraco imundo e profundo tão funcional como da mesma forma que nos impingem que os 80's foram os Frankie Goes to Hollywood*!
Por fim, resta dizer que o grafismo do CD está ao nível do "Fido Dido Apresenta Mega Remixes'97". Estamos mesmo na discoteca da província portanto...

*Por acaso um versão Doom do Power of Love feita por uns Desire teria ficado giro mas enfim...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

The Abolition of Work - part 1

Bruno Borges
(Buraco / Oficina Arara; 2013)

Eis um livro impresso em serigrafia que adapta para BD o texto A abolição do trabalho de Bob Black - muito bem editado em Portugal pela extinta Crise Luxuosa no ano de 1998 - que é um ensaio anarquista bastante sóbrio sobre porque o trabalho deve ser abolido, sendo que a razão mais simples e importante é que o trabalho mata-nos, pura e simplesmente!
Robert Anton Wilson (também editado cá em Portugal) já nos avisou que não nos devemos preocupar com o desemprego, que este aliás é inevitável com a robotização do trabalho, e que deviamos aproveitar o tempo em mãos para fazermos coisas mais interessantes. Talvez seja por isso que fico feliz em ver os "boys" do meu bairro, um "white trash" tuga que só falam de futebol, sentados todo dia e a beber desde as 11 da manhã, porque vejo neles a vanguarda social deste futuro magnífico que nos espera em que deixaremos de trabalhar de forma coerciva. Claro que me enerva um bocado saber que eles passam o dia a mamar cerveja enquanto eu bulo das 9 às 5 mas o mundo é assim mesmo, há pessoas que estão sempre um bocado mais à frente e isso não quer dizer que tenham de ser sempre os burguesitos convencidos pseudo-intelectualóides como eu a estar na linha da frente... Hélas!
Junto a esta ligeira incompreensão do mundo com mais uma outra, que é esta edição, que apesar de porreira, é um pequeno objecto de luxo. Umas quantas páginas impressas a duas cores que custam uns 15 euros... baseadas num texto de teor libertário. E em inglês que é para todos perceberem!
Já sabia que um dia no futuro haveriam de colocar um anarquista em formol num museu de antropologia mas parece que antes disso, os textos anarquistas irão-se transformar em livros de artistas para as elites puderem admirar as suas colecções de obras subversivas. Lembra a escandaleira desta "silly season" em que uma tiazeca qualquer disse era giro tirar "férias a brincar aos pobrezitos". Que paranoia a minha! Realmente acordar de manhã para ir para o escritório faz mal à cabeça!
Graficamente este livro prova que Borges é um dos artistas gráficos portugueses mais fabulosos, o seu traço é tão apurado que tanto resulta em formatos pequenos (como o A6 do Mesinha de Cabeceira #23) como em formatos grandes (como este livro maior que A4) ou ainda realmente em grandes formatos como cartazes ou murais. O uso de serigrafia para fazer manchas amarelas resulta muito bem no trabalho "minimalista" de Borges. A vontade de adaptar o texto de Black na totalidade parece um exercício desnecessário - e até mau - que acaba por resultar em algumas páginas inundadas de texto que por acaso até se lêm bem porque o texto de Black é inteligente e a letra de Borges é arrejada e bonita.
O Buraco, colectivo editorial que pretendia fazer publicações politizadas têm se transformado em mais uns "artsy-fartsys" como milhares de outros pelo mundo fora. Se no inicio o formato de jornal a preço simbólico fazia todo o sentido, as suas últimas edições (incluindo esta) mostram que afinal o que querem é edições artísticas que não serão acessíveis aos... desempregados. Podem afirmar que a serigrafia é cara porque ultimamente tem estado associada a cartazes de edições limitadas (Mike Goes West) ou livros de artistas (Oficina do Cego) mas neste caso até parece-me falacioso a julgar pelo objecto em si, de poucas páginas e sem agrafos... Na cena Punk a serigrafia é considerada uma forma de impressão DIY barata, perfeita para militância e propaganda, mas prontossss... give the anarchist a cigarette!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Buraco 06

Buraco; Jun'13?

Impresso na Oficina Arara eis um número deste jornal (?) que aparece como um livro encadernado por argolas com as páginas do miolo cortadas em três partes, na exacta e mesma lógica do fabuloso Animalário Universal do Professor Revilod (Mini-Orfeu; 2003) dos mexicanos Javier Sáez Castán e Miguel Murugarren.
Ou seja, pega-se em vários animais do circo (ursos, Portas, Cavaco, macacos, Ronaldo) mais algumas estrelas internacionais (Merkel, dos Santos) e podemos fazer variações com os seus focinhos, nomes e textos explicativos (biografia, estado actual e palavra de ordem favorita do animal). O que resulta sempre à grande garagalhada é o porco com qualquer outro Jardim ou Guilherme.
É uma prenda exemplar para quem precisar de se vingar dos porcos nazis que nos dominam!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Chili ao quadrado 1 a 6 Dez na WIP

Ontem foi a inauguração da Chili ao quadrado e claro que não podia faltar.
O espaço é fantástico e estava recheado de desenhos, bds, serigrafias, pinturas, ilustrações lindas, e ainda edições de banda de desenhada, zines, discos, livros, serigrafias, linogravuras.
Até a gravata para o tio cool conseguem comprar por lá.
Eu trouxe o Buraco e o Pintura 2012.
Quem não for, é um ovo podre.
E podem ver as Mulher Barbadas, assim como linogravuras do projecto Sang Toi.

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Hora: Quinta-feira às 14:00 - 6/12 às 22:00
Local: Chiado Work In Progress
Rua Garrett, 60, 2º andar


Exposições de desenho, bd, serigrafia e pintura de Filipe Abranches, André Ruivo, Rudolfo, Pepedelrey, Lucas Almeida, Bruno Borges, André Lemos, Andreia Rechena, Jucifer e Sílvia Rodrigues. Murais a convite especial do colectivo Cabidela Ninja com Lucas Almeida.

Venda de artigos da Chili Com Carne, MMMNNNRRRG, O Hábito faz o Monstro, El Pep, Reject'zine, Ruru Comix, autores Mike Diana e Nevada Hill (EUA), Thisco e de vários editores estrangeiros independentes europeus (Espanha, França, Itália, Sérvia, Aústria, Alemanha, Bélgica, Suécia e Finlândia).

Novidades editoriais:
- Buraco, nova publicação política de bd entre Lisboa e Porto
- serigrafias-remix Futuro Primitivo (Chili Com Carne), de Filipe Quaresma e Margarida Borges
- Pindura 2012, calendário brasileiro com algumas participações de autores portugueses
- Stop Mundo, graphzine do colectivo U.A.T.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

São todos uns Coimbrões!

«Coimbra tem mais encanto na hora da despedida (...) Coimbra é um caixão!» cantavam os Enapá 2000 num concerto qualquer nos anos 90. Realmente se há cidade deprimente em Portugal é Coimbra - até Peniche ou Vila Nova de Famalicão parecem sítios optimistas. E Coina sempre tem um nome mais simpático!
A Feira Laica na Casa da Esquina foi um desastre como só podia acontecer numa cidade como Coimbra onde os bares tem nomes como "Abismo" ou "Buraco Negro", onde a hipocrisia é alta mas as bebidas brancas são baratas (por 700 paus na altura dava direito a 6 Vodkas no Buraco Negro), onde todas as noites gajos de batinas choram e vomitam quase ao mesmo tempo, onde a cultura não é um valor necessário - aliás, a CCC tirou as suas edições da livraria do Centro de Artes Plásticas de Coimbra porque há anos que eles não vendem nada, por outro lado e porque também estamos a acabar com a venda à consignação, será a Dr. Kartoon e a XM que irão manter-se a vender os nossos livros na "Cidade do Conhecimento"... Menos mal!
Nem a malta do Espaço - Centro de Desastres (lembram-se nos Anjos?) era tão preguiçosa e mitra como a Casa da Esquina que convidaram e co-organizaram a Feira Laica a fazer lá uma edição mas que pouco fizeram e muitos problemas colocaram - situações manhosas que não adianta aqui lavar a roupa suja, serve este "post" para chamar atenção, cuidado com os coimbrões! São arrogantes, preguiçosos e saloios. Nem a segunda mão (um dos eternos sucessos da Feira Laica) compram de tão vaidosos que são.
Por falar nisso, ainda tive de aturar a Teresa Câmara Pestana a destilar o seu veneno ridículo. Apareceu com o primeiro número da nova série do Gambuzine - agora em formato de antologia anual, pálido produto dos seus tempos gloriosos da primeira série, e já com acólitos e seguidores da sua editora. Safa-se duas boas bd's, uma impressionante de Ulli Lust sobre crianças na guerra (o efeito de substituir crianças africanas por "europeias" é espantoso! pode ser vista aqui) e a bd autobiográfica da Pestana que relata um episódio dos seus tempos de "Deutsch squating punx". A autora como pessoa é uma velhaca e uma víbora de primeira mas quando quer sabe o que faz, com talento gráfico e sensibilidade desarmante.
Kiitos e pedidos de desculpas aos editores arrastados para este fiasco: a malta do Alçapão, ao Lucas Malucas, os Hülülülüs e as suomi-girls Anna Kaisa Laine e Tiito Takalo.
Finito: Coimbra é um caixão! Mal enterrado...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Dossier 2013 de fanzines e edição independente

Todos os anos arranjo fotografias parvas para colocar nestes resumos do que aconteceu no ano anterior referente à edição independente de / sobre Banda Desenhada e Ilustração. Esta fotografia foi tirada pelo sueco Lars Sjunnesson em minha casa, quando preparava um embrulho para enviar por correio, um livro encomendado durante as minhas férias de Verão (Agosto 2013). Queria só defender este pequeno solipsismo, mostrar que ele não é assim tão ordinário como isso. Ora, quem é que se mete nestas coisas da edição independente, não só tem as habituais dores de cabeça com toda a produção e comercialização dos produtos que lança como ainda por cima trabalha durante as férias!!!

“Quem corre por gosto não se cansa” diz-se por um lado e por outro, há quem diga que no mundo profissional estas coisas de trabalhar quase 24h tornaram-se até banais – algo impensável antes da histeria da crise e consequente degradação do mundo do trabalho no Ocidente, em particular em Portugal.

Trabalhar nada tem de glamoroso por mais quer a propaganda capitalista ou a comunista nos tentem enfiar pelas nossas goelas abaixo. Seja um mineiro ou alguém frente a um computador, o trabalho dá sempre cabo do nosso físico, deforma-o e coloca-nos em perigos desnecessários. É o que relembra a nova BD de Bruno Borges, que adapta Abolição do Trabalho (Crise Luxuosa; 1998) de Bob Black, editada num livro "chic-freak" intitulado The Abolition of Work, vol.1 (Arara/ Buraco). Trata-se de uma adaptação integral do texto e que esperamos para breve saírem os restantes volumes em BD.

O que Black diz é que só deveria haver trabalho que nos fosse útil, pedagógico e divertido, algo que num sistema como o nosso onde se produz as bugigangas mais idiotas e "apps" para estarmos 100% ligados ao mundo fascista do Big Brother, será uma Utopia difícil de alguma vez se concretizar. Apesar de tudo, se há coisa que me dá felicidade é trabalhar prá Chili Com Carne ou MMMNNNRRRG, mesmo que interrompa o descanso das férias, é porque neste mundo da edição independente não impingimos nada a ninguém. Quando surge uma encomenda de alguém sinto que estou enviar não apenas um livro qualquer para uma pessoa qualquer. Sinto que quer o livro quer a pessoa são especiais. O livro porque foi feito com amor e dedicação contra os esquemas mercantilistas e no caso da pessoa porque fez um esforço para encontrar o livro. Não o fez num impulso consumidor sem consciência porque foi bombardeada com publicidade o tempo inteiro. Deve ter ponderado até nos contactar, e fez isso também nas suas férias…

Infelizmente tudo isto relatado soa a “hobby” de meia-dúzia de cromos, e mesmo com a população portuguesa a diminuir, é estranho que não apareçam mais pessoas interessadas para este tipo de publicações. Como se consegue expandir a cena da BD em geral e a de autor em especial? Esta parece-me que foi a preocupação da cena independente em 2013.


Rendez-Vous

Um problema que se colocava em 2013 era como seria a edição independente depois do final da Feira Laica, local de encontro e venda de material independente que se concretizava duas vezes por ano, sobretudo em Lisboa. Foi o grande evento do género nos últimos oito anos, chegando até a criar um ritmo sincopado para o lançamento de novidades. Não foi preciso entrar em pânico, pelos vistos, porque a Laica foi imediatamente substituída pela Feira Morta na essência dos seus moldes, chamando a tribo à mudança, mantendo o encontro duas vezes por ano e com um programa idêntico: concertos, exibição de filmes, exposições / instalações, etc...

Há quem diga que é uma "Laica mais punk” e topa-se isso pelo lado mais desbundado da programação, que parece que irá pouco a pouco criar a sua própria identidade fugindo à característica mais aberta ao público que tinha a Laica. Parece que a morte da Laica fez ressuscitar mais duas feiras que andavam dormentes, a F.E.I.A. (com uma terceira edição como sempre no Montijo) e a Feira do Jeco (com duas novas edições, ambas no Porto). Voltaram maiores do que nunca mas tal como na Feira Morta, estes eventos não conseguem sair da armadilha que é preciso concertos de música para virem pessoas ao mercado do livro... A Laica em 2012 conseguiu mostrar que a "edição independente" tinha público por ela própria, como se provou na afluência de público das últimas duas Laicas. Este potencial no entanto não está ser aproveitado por nenhuma destas três organizações. Esperemos no entanto que 2013 tenha sido apenas um ano de transição para que 2014 seja mais assertivo.

Até porque o tempo urge porque o conceito (ou será "soundbyte"?) de “feira de edição independente” parece que está na moda, o que significa que já começaram a aparecer abusos de organizações a quererem capitalizar o conceito em situações de que cultura DIY nada têm - e têm ainda muito menos vergonha para pedir 15 euros por uma mesa, por exemplo, não compreendendo que quem faz destas publicações, faz na sua maior parte do tempo livre e parcos recursos, e não por necessidade económica e exploratória. Não se trata de colocar a "edição independente" numa patamar de virtudes, fria ao dinheiro e ao lucro mas antes de pensar que este é um mundo que tanto se encontram putos pré-universitários com zines baratos como colectivos com livros mais bem produzidos e luxuosos mas que se regem ambos por ideais de "preço justo", e que já são explorados por estágios profissionais e outras sacanices, não o precisam de ser também explorados pelo suposto meio que ajudam a criar.

Parece-me dogmático mas talvez os únicos que devem organizar "feiras de edição independente" são os que realmente o praticam e não pessoas de "fora" - com o risco de se banalizar o conceito e um dia até termos uma FNAC ou o Pingo Doce a fazer uma feira destas, não? 

Ao longo de 2013 ainda houve outras pequenas iniciativas como a Pulga do Gato (na livraria Gato Vadio, Porto), a Edita (evento espanhol mais ligado à poesia) passou por Lisboa, a Necromancia Editorial no Festival Milhões de Festa (Barcelos) e Jeux Sans Frontières no âmbito da Trienal de Arquitectura, Lisboa.

Houve no entanto outros eventos que não deixaram de ter a sua graça ou importância, como o divertido lançamento do livro O Hábito Faz o Monstro de Lucas Almeida que incluía corridas de “sofás-skates” nas ruas da Parede, o encontro de criativos Pitchzin em Santa Maria da Feira, a importante exposição “Lixo Futuro” na galeria da livraria de BD Mundo Fantasma que apostou numa nova geração de autores portugueses, o convite do Doc Lisboa para apresentar a colecção LowCCCost da Chili Com Carne e a inesperada “exposição-memória” da loja Mundo da Banda Desenhada / Op (1977-1987) em Setembro nas Escadinhas do Duque – espaço onde muita gente se cultivou no passado com publicações alternativas.



Up!

Uma coisa insólita que aconteceu em 2013 é que a BD profissional ou comercial de autores portugueses deixou de existir! A grande editora Asa (do grupo Leya) que editava algumas “coisas” – a maioria inexplicável e contra a maré dos tempos – deixou de o fazer. Ainda há o “Piçaboy Mendonça”, uma produção luso-argentina que consegue ser ainda pior que o velho Jim Del Monaco dos anos 80, que tem chancela da Tinta da China mas toda a produção BD portuguesa está actualmente entregue a editoras independentes.

Sem futurologia possível, desde meados de 2013 que ficou o campo aberto para as editoras resistentes como a Chili Com Carne, Kingpin Books, MMMNNNRRRG, Mundo Fantasma / Turbina e Polvo, que continuaram activas e com alguma dinâmica, com a hipótese de aumentarem a sua importância no mercado livreiro, face a uma ausência de qualquer tipo de BD editada de autores portugueses nesse mercado. E mesmo em termos de BD estrangeira! A única a trabalhar regularmente é a Devir, uma vez que a Contraponto deixou de publicar BD apesar do sucesso (?) de Marjane Satrapi e Alison Bechdel…

A  única estratégia que acho interessante, independentemente se o espaço abriu mais ou não, é que a BD que se edite tenha de ser interessante para um público fora desse "guetho". Para isso tem de ser uma arte “viva”, que conte ou que esteja envolvida no dia-a-dia das pessoas, ou que traga ideias novas como aliás qualquer outra arte faz. Num mundo de blogues e redes sociais que se pode criar comunidades do mais microscópico elemento subcultural, cada um pode ser o maior do bairro. O problema é depois do Bairro, na Aldeia não há espaço para a BD. Nos meios de comunicação social mais tradicionais quase desapareceu, por exemplo. Há mais de 10 anos haviam muitas colunas de crítica nos jornais e agora quando se fala de BD é para anunciar anacronismos como o novo álbum do Astérix ou de mais um original do Tintin vendido por uma barbaridade de dinheiro que deveria ser taxada para remediar o nojo colonialista do rei Leopoldo II - já agora, para quem esteve desatento, ver Vumbi de Rita Carvalho, editado pela Plana Press.

A BD que sempre teve um problema de visibilidade e reconhecimento público em Portugal nunca antes atingiu níveis tão baixos como agora. Só que o problema não é da “BD” mas sim do que se edita. Ora o que se edita geralmente não tem interesse nenhum para as pessoas, mesmo que os actuais filmes de Hollywood sejam todos sobre gajos com cuecas à mostra com super-poderes. Também têm aparecido uma tendência de alguma BD de ficção usar o nosso imaginário histórico (os tempos do fascismo, o PREC ou as guerras coloniais) infelizmente com resultados artísticos tão inócuos e/ou desastrosos que é natural que só se premiando em capelinhas "bedófilas" é que eles ganham relevância - para o próprio "guetho"! E isso é uma coisa que os cromos da BD (que continua a ser um grupo de crianças, jovens com borbulhas e adultos reaccionários) não percebem nem nunca perceberão. A Fantasia ou a Ficção não se cria por ela própria, e quando o faz, ou seja, auto-reproduzindo-se, cai no exercício de estilo pouco ou nada interessante – e isto tanto é verdade prá BD de patos sem cuecas como para quem gosta de Rock Gótico ou Harsh Noise. Os “bedófilos” bem podem admirar o génio do Alan Moore ou do Grant Morrison mas esquecem-se que eles foram formados por uma vida rica em experiências e não porque andaram a ler todos os livros de ficção científica do mundo (embora também o tenham feito!). Essas boas ideias se calhar surgiram porque eles trabalharam a limpar retretes…

Dentro da lógica deste mercado da BD tradicional está a Kingpin Books, uma loja de BD que tem apostado numa série de livros que dão nas vistas no "guetho bedófilo" mas acima de tudo parece ter “alegria no trabalho” no que faz. Há ambição e esforço técnico na produção dos conteúdos e dos livros, coisa que não parecia acontecer na Asa, por exemplo. Passa uma imagem de empreendorismo e dinâmica, justamente o oposto da Polvo que apesar do seu catálogo histórico, é a que menos comunica para fora (nem um blogue é capaz de ter!) e até para dentro (testemunhado no texto de António Kiala no Loverboy na Feira das Vanessas), por isso mesmo que tenham editado um livro do Ricardo Cabral, autor famoso q.b. por ter quatro livros da grande Asa, pouco ou nada irá significar na expansão da editora, que há muito que aceita tudo o que lhe ponham à frente. Ambos casos, até agora, uma por dinamismo, outra por historicidade parecem só mover-se pelos restos mortais do público "bedófilo", cujo palácio-para-burro-ver ainda é o Festival da BD Amadora, onde vão lá lançar novidades e colecionar prémios pacóvios.

Não é de estranhar que uma colecção como a nossa sobre viagens, a LowCCCost, cada vez que sai um novo volume acaba por interessar alguma "media" que geralmente ignoram BD. Seja pelo facto de estarmos num on the road numa “Europa aborrecida” ou a trabalhar numa ONG na Guiné-Bissau (falo de Kassumai de David Campos, claro), imediatamente estes temas atraem revistas de viagens ou a RTP Africa, enquanto que o “Piçaboy” tem de pagar para dar nas vistas... Mas adiante!

Em 2013, como colectivo de fanzines, destaco os cinco títulos do Clube do Inferno, com o material mais refrescante de quem faz produções de páginas fotocopiadas. Dentro do mesmo género, mantiveram-se o CVTHVUS e o Tiago Baptista manteve o Cleópatra e o Preto no branco. Enquanto com maiores meios continuaram BD Jornal, Buraco, Toupeira (da Bedeteca de Beja), Cru, Filme da Minha Vida (Ass. Ao Norte) e Mesinha de Cabeceira. Sentiu-se a falta do Lodaçal Comix mas Rudolfo lançou um novo volume de Musclechoo. E regressou The Killer Season Fanzaine de Pepedelrey – depois de quê? 14 anos!? A sério?

A Chili Com Carne recuperou BDs perdidas de Loverboy de Marte e João Fazenda [et al.], a Turbina as Crónicas da Arquitectura de Pedro Burgos e a Polvo aproveitando no trilho do comboio feito pela El Pep (em 2012) pegou em mais um clássico do Fernando Relvas. São pequenos gestos editoriais mas necessários para que o passado da BD portuguesa não seja esquecido, já que ninguém quer saber disso para nada.

O Quarto de Jade e o Panda Gordo iniciam-se na BD, no primeiro caso com um livro de Diniz Conefrey e no segundo com uma pequena antologia com sete autores "novos", João Sobral, Bárbara Fonseca, Diogo Bessa, Zé Cardoso, Sofia Palma, João Drumond e Amanda Baeza. André Oliveira e Joana Afonso começaram uma série de “comic-books” intitulada Living Will, pela nova Ave Rara, enquanto os Cabidela Ninjas e Imvincible Comics estrearam-se com zines mamados.

Fora do baralho: o Festival de Metal de Barroselas lançou um DVD comemorativo dos 15 anos de existência deste festival de música e que inclui um livrinho de BD sobre o evento feito por este vosso escriba, Marcos Farrajota; a Marvellous Tone lançou a banda sonora do filme O Coveiro (de André Gil Mata) que inclui um livro ilustrado de Sandra Neves; e, o Nicotina’zine que é de poesia continuou aberto à BD descobrindo até uns novos talentos, dos quais destaco o jovem e promissor Sim Mau.

Mas o vencedor do ano foi Lençóis Felizes de Van Ayres! O zine mais simples e boa-onda. Se há alguém que mereça um prémio de BD é ele! O Prémio Frescura!


In / out

Mas 2013 não trouxe só mais dois talentos refrescantes! Outro, ou melhor, outra foi a Amanda Baeza que se estreou em três edições estrangeiras, uma da Letónia e as outras em Espanha. Graças a isso será a autora com direito a uma exposição na Trem Azul Jazz Store durante o Festival Rescaldo, festival que faz um resumo do melhor que se fez em música portuguesa no ano anterior mas que tem dado espaço para a BD! De salutar a iniciativa!

Houve mais autores com trabalho publicado internacionalmente, sendo o mais mediático o de Rudolfo que também se estreou profissionalmente com o primeiro volume de Negative Dad sob argumento dos norte-americanos Nathan Williams e Matt Barrajas, para além de ter continuado a participar no fanzine Kovra (Espanha).

Houve participações de Bruno Borges, Teresa Câmara Pestana, Miguel Carneiro e Marcos Farrajota na revista eslovena Stripburger. Farrajota, Rudolfo e Wasted Rita participaram no Prego (do Brasil). Pedro Burgos teve o seu livro Airbag e outras histórias (Mundo Fantasma; 2003) editado em Itália pela Mal Edizioni. Ainda escrevi textos sobre “comix-remix” no jornal Kuti (Finlândia) e com Pedro Moura participamos no livro Metakatz (Bélgica). E claro André Lemos, mais calmo este ano, ainda assim participou em projectos na Alemanha e Inglaterra.

As viagens ou representações em festivais estrangeiros mantiveram-se: Crack (Roma), MEA 2 (Madrid), Edita (Punta Umbria, Espanha) e Bergen Art Book Fair, e na exposição "Workburger" (Eslovénia) sendo de destacar o Buraco que, tal como a Chili com Carne em 2010, meteu-se na carrinha e fez-se à estrada na sua “Trans-mediterranean Cargo Tour” passando por País Basco, França, Eslovénia, Sérvia e Itália. A exposição do Futuro Primitivo finalmente acabou a sua itinerância em Espanha e no Brasil, depois de ter percorrido países escandinavos, EUA e Itália desde 2011.

Autores estrangeiros que passaram por cá: Alex Vieira (Brasil) veio lançar o último Prego na saudosa Livraria Sá da Costa, Ilan Manouach (Grécia) veio ao Festival de Beja, Weaver (Brasil) ao Sete Sóis Sete Luas (Ponte de Sôr), Lars Sjunesson (Suécia / Berlim) com uma exposição individual na Trem Azul Jazz Store, Alex Baladi (da Suiça), Pedro Franz e André Diniz (ambos do Brasil) vieram ao Festival BD Amadora. Vivendo temporariamente em Portugal estão os brasileiros Sama que editou cá um livrinho de esboços, as autoras do fanzine Piqui (estiveram presentes com mesa na FEIA e Feira do Jeco) e de saída o casal russo-austríaco Alexander Brener e Barbara Schurz lançaram por cá um segundo livro, o Fuck Off and Die Alone.


Zona VIP

Apesar de toda esta cultura da edição independente vir dos fanzines, e sendo os fanzines publicações de fãs que de alguma forma prestavam vassalagem a algo, é o que menos há na edição independente, material de referência. Claro que no mundo da web.2 ter fanzines como o Nemo, Epitáfio ou O Moscardo seria um anacronismo completo mas ainda assim nem tudo está na ‘net, nem esta permite leituras profundas ou reflexão, embora seria injusto dizer isso quando se consulta os blogues de Domingos Isabelinho e de Pedro Moura. Este último e eu, como já referi, participamos no Metakatz, edição da editora belga 5éme Couche em que se discute todas as implicações da destruição e proibição do livro Katz, obra que “desviava” o sacrossanto Maus de Art Spiegelman. Aproveitando a deixa, é de referir também que a Letra Livre editou O Negócio dos Livros : como os grandes grupos económicos decidem o que lemos, de André Schifffin (1935-2013), responsável pelo Maus nos EUA quando editar livros significava alguma coisa, mesmo numa grande editora. Existe essa referência no livro mas como é óbvio não é uma obra sobre BD mas sobre a questão da edição de livros.

Também tive direito a uma entrevista no número 62 da revista eslovena Stripburger, que ajuda a compreender os projectos Chili Com Carne e MMMNNNRRRG. Claro que a revista chega a uma comunidade internacional interessante que irá saber mais sobre estes projectos do que cá, onde se tentam ignorá-los… O universo exagera na ironia!

A iniciativa mais importante no campo da referência foi sem dúvida o Portuguese Small Press Yearbook 2013 projecto dirigido por Catarina Figueiredo Cardoso e Isabel Baraona. É uma compilação relativa à edição independente nacional, sejam livros de artistas, fanzines, zines e outros mutantes bibliográficos publicados entre Junho 2012 a Junho 2013. Pelo meio há textos sobre edição, listas de arquivos públicos, etc...

Entretanto também é interessante referir o projecto de sociologia Keep it simple, make it fast! Prolegómenos e cenas punk (1977-2015) da Universidade do Porto, que está a estudar a cultura Punk em Portugal e que finalmente vai dar valor ao acervo de fanzines e publicações do género que se encontram na Bedeteca de Lisboa. Em princípio haverá algum estudo sobre a BD e a Ilustração punk portuguesa mas só em 2014 é que haverá resultados…


Roleta Russa

E é essa mesma Bedeteca que vai ser despachada prás Juntas de Freguesia, colocando em risco não só todo o sistema de funcionamento bastante racionalizado e optimizado, diga-se de passagem, das bibliotecas municipais (BLX) e pior ainda, esse acervo da Bedeteca, constituído não apenas por várias publicações históricas e patrimoniais - as primeiras revistas de BD como o ABCzinho ou a emblemática Visão, os primeiros álbuns como o Cruzeiro do Sul de Carlos Roque ou o esgotado Mr. Burroughts de David Saores e Pedro Nora, vários livros de BD de referência, revistas e livros estrangeiros - mas sobretudo, e o que interessa aqui, uma colecção única de fanzines, zines, livros de autor, livros de artista, graphzines, etc… que começa nos anos 70 e vai até aos dias de hoje, e que pelos vistos pode ter leituras transversais à BD como a tal tese sobre o Punk da Universidade do Porto.

Lendo a secção "Mapa Borrado", uma BD de Miguel Castro Caldas com desenhos de José Smith Vargas, no “jornal de informação crítica” Mapa, no número 3 (Set’13) vemos o Socialista António Costa a vender Lisboa ao desbarato a Woody Allen, para este último fazer um filme sobre a cidade. Se o velho jarreta o fizesse realmente só poderia fazer um filme lisboeta em hostels e portos de cruzeiros, porque é isso que a capital portuguesa se transformou.

A cultura em Lisboa está a desaparecer a julgar pelo populismo das iniciativas públicas e a morte lenta das iniciativas privadas. A última e mais cruel foi o fecho da Sá da Costa, numa Baixa deixada às marcas multinacionais, que provou ser um “spot” excelente para a venda destas “edições estranhas” que aqui relatamos.

Por fim, apesar de ser uma ideia da CCC e tendo o solipsismo a cegar-me, admito, tenho de dizer algo sobre o concurso interno “Toma lá 500 paus e faz uma BD!” – cujo vencedor foi Francisco Sousa Lobo com The Care of Birds a publicar em 2014. Tratou-se disso mesmo, um concurso para fazer um livro de BD com a oferta de um prémio monetário. O incentivo de podermos oferecer uma recompensa monetária revelou uma estratégia necessária neste país miserabilista, embora saibamos que 500 Euros não cobre todo o trabalho que existe para fazer uma BD de muitas páginas - um romance gráfico. Apesar de todos os criativos / autores de BD andarem a trabalhar de graça ou a receber mesmo muito pouco dinheiro (muito menos do que qualquer outra área criativa onde existe "mercado"), existe uma resiliência que a tem mantido viva.

Não existindo nem actividades nem espaço para a BD de autor em Portugal, especialmente depois da extinção das bolsas de criação literária e o “fade out” da Bedeteca de Lisboa, o que fizemos é muito pouco mas para uma primeira edição, recebemos oito trabalhos inesperados de nove autores (havia uma dupla), alguns deles que nem sabíamos que existiam e que graças ao concurso já começamos a trabalhar com eles – como a Júlia Tovar que vai estar na Zona de Desconforto.

Tudo indica que estamos no caminho certo para 2014. Não?

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Citação a Citação enche a Bor Land o papo


Alla Polacca: "We’re Metal And Fire In The Pliers Of Time" (Bor Land; 2008)
Jornal Público: «a haver um caso exemplar da micro-edição independente no subdesenvolvido mercado discográfico português, esse caso é a Bor Land.» Nota de imprensa da Bor Land: «o tempo avança e comemoram-se 8 anos de actividades com quase 40 edições e mais de 300 concertos.» OSAMAsecretLOVERS: «da Bor Land espera-se as melodias-mais-melodias de índios e alt.countreiros» OsL «o catálogo não é só palhacitos armados em depressivos a cantar num inglês-burguês mil vezes cópia de outros índios.» OsL: «o que interessa é ter bom aspecto: a embagem do CD, a produção em estúdio, as fotos promocionais, o video-clip e o press-release, qualquer coisa para escapar às coisas principais: a originalidade (que todos dizem sempre o mesmo: já foi tudo inventado!), o sentimento, a loucura, a intimidade... Desde que os Blind Zero apareceram que a música portuguesa tornou-se num buraco negro de criatividade. As bandas aperceberam-se que podiam ter sucesso como eles tiveram (?) bastando para tal tocar bem um género de preferência que esteja a dar no momento para a máquina capitalista ter os seus "local heroes", e ter uma postura profissional. E isto vale para as bandas que estão em grandes editoras como para aqueles que estão em editoras pequenas ou que auto-editam e seja para bandas de qualquer género ou sub-género for (metal, punk, hardcore, indie-pop, rock, pop, goth, ...) Sejam "starletes" como os David Fonsecas, fusionistas como os Blasted Mechanism ou os bimbos das boy's-bands e afins...» OsL sobre a primeira colectânea da Bor Land, Looking for stars: «Alla Polacca parece mesmo um inédito dos Radiohead (entre o "The bends" e o "OK Computer"), uma réplica tão perfeita que (até) soa bem - eu sei, é uma heresia...» Nota de imprensa We’re Metal And Fire In The Pliers Of Time: «os Alla Polacca sofreram várias alterações no seu alinhamento e, também, que essas mudanças tiveram sempre impacto directo na sua musicalidade (...) as entradas e saídas traziam, para o seio da banda, uma certa indefinição criativa (...) tudo nasceu da cumplicidade entre um grupo de músicos que, quando juntos, soltam o melhor de si sem qualquer tipo de pudor» Anónimo anglo-saxónico que serve para comentar a última frase: «Jesus Fucking H Christ!» OsL sobre Old Jerusalem (que assina as letras deste disco): «quem ainda ligará à grande banhada que é Old Jerusalem depois da Revolução ProtestanteCaveira?» OsL: «Boring land»
PS - e porque a Bor Land nem sempre editou discos chatos, um reminder de um bom disco da editora.
PPS - a capa deste disco do Carlos Pinheiro foge ao habitual do seu trabalho de ilustração mas é curiosa.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Os 500 paus de 2014!

Os cinco membros do Juri desta edição do concurso interno da CCC, Toma lá 500 paus e faz uma BD já decidiram sobre o projecto vencedor!

E o vencedor é o trabalho Móraria de autoria de José Smith Vargas, livro que irá reunir seis "ensaios gráficos" sobre a "gentrificação" do bairro lisboeta da Mouraria, alguns em parceria com o escritor Miguel Castro Caldas. Composto por 49 páginas será lançado em 2015 na Colecção LowCCCost e cujas primeiras 24 páginas já podem ser vistas aqui:



Foram entregues seis propostas para este concurso, menos duas que a edição anterior mas como afirmamos no ano passado, este concurso tem como objectivo fazer um livro o que obriga a uma maior organização e trabalho da parte dos concorrentes do que fazer apenas 4 páginas - como é normal noutros concursos de BD em Portugal e no estrangeiro.

Tendo havido menos tempo entre os dois concursos o saldo continua a ser positivo porque continuamos a receber boas propostas! Mas oo contrário do ano passado em que o Júri dividiu-se nas votações, a escolha sobre José Smith Vargas foi unânime!!!

O trabalho foi escolhido não só pelas qualidades dos textos, narração e desenhos mas também pelo tema social e político que lhe está inerente: a lenta destruição de um bairro popular em Lisboa disfarçada de "progresso", "animação de rua", "estímulos económicos" e outras tretas que visam apenas tirar os mais pobres de uma zona catita no centro da capital para depois colocar condomínios fechados, hotéis, lojas "gourmet" e casas de Fado para turista ver e algumas esquinas para os betos vomitarem sardinhas com cervejas. A Associação Chili Com Carne tinha de incentivar um projecto destes, de imortalizar esta BD na vã esperança que não se repitam estes erros urbanos.

A Associação Chili Com Carne agradece a todos os sócios que participaram nesta segunda iniciativa.

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Sobre o autor vencedor deste segundo concurso:



José Smith Vargas [n. 1981, Lisboa] Frequentou durante o ano de 2000 um curso de banda desenhada na Fundação Calouste Gulbenkian e licenciou-se em 2007 em pintura na Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha. A partir daí distanciou-se do universo das artes plásticas (leia-se arte contemporânea) para operar em terrenos mais transversais e comunicativos como o cartaz, a ilustração, a BD, o mural e o design.

Desde muito cedo que colabora com a Chili Com Carne - desde a seminal antologia Mutate & Survive (2001) até à recente Zona de Desconforto - e nas revistas Buraco e Alambique; e publica uma prancha regular no jornal Mapa.

Em 2011 integra a pequena produtora Associação Terapêutica do Ruído onde produz cartazes para concertos e outros materiais gráficos - ainda na área da música, participou em várias bandas como Mal D'Vinhos, Focolitus e Casal de Leste. Desenvolve oficinas na área da banda desenhada. Tem em preparação uma adaptação de reportagens do escritor Raul Brandão.

domingo, 12 de janeiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (1?)

Aparentemente o pessoal cagou prá minha sugestão de passar a escrever mensalmente sobre edições que não conseguem entrar n'A Batalha - ou por falta de periocidade em que se encontra o jornal ou por alguns dos objectos não fazerem sentido numa publicação anarquista. 

O certo é que Dabstep dos Greengo já é de 2018 mas só agora é que arranjei uma cópia do CD, editado pela Raging Planet. Apesar de fazerem parte dois terços dos "nossos" Krypto, só agora dei-me ao trabalho - uma aparelhagem à séria ajuda imenso - de ouvir isto com a seriedade que merece. Seriedade!? Má escolha de palavra nem que seja porque todas as imagens do disco são sobre erva - sim, aquela que tem THC - chegando ao cúmulo que a versão CD (existe também um LP) tem um recorte em cartolina da "planta maldita". Som pesadão na senda do Stoner que esteve tão em voga no pré-covid, ali onde Sleep largou as botas para os punks. É incrível o que um baixo + bateria fazem - e uma voz (já agora) que não sendo nada de especial, é funcional para o "género"... obviamente  que a união com Gon para se transformarem em Krypto fez uma diferença brutal nesse nível (e nos concertos ao vivo). Sim, para simplificar isto é música brutal para ganzados...

Só faltam agora o fanzine e o livro. 

Sendo as diferenças ténues nos dias que correm nem sei muito bem por qual começar. Pode ser este Bonança (Imprensa Canalha; 2024) de José Feitor - autor/editor que já sofre de preguiça digital a julgar pelo abandono do blogspot em preferência ao instagram... Ou será puro aceleracionismo? 

Belo A4 todo DIY, ainda tem a ousadia de fazer 150 exemplares num mundinho chato o nosso em que o pessoal faz tiragens tão caganitas e cheios de cagufa.

Com uma prosa tão deliciosa como esta: Até os mais pobres vivem agora melhor que os ricos de antanho - a comida é-lhes entregue à porta, ainda fumegante, por mensageiros de fraque emprestado que se deslocam em traquitanas rocinantes. (...) Não há luta de classes que resista. É complicado saber por onde começar a escrever sobre este livro de autor (zine?). Visualmente Feitor está em modo de "bonança" (aproveitando o título), sempre imaginativo, com fusões gráficas inesperadas e cada imagem produzida é uma fofura de opressão - que dizer daquele giríssimo Yeti capitalista (o chapéu do capitalista representado à 100 anos) com uma corrente e cadeado? É um banqueiro que nos vêm prender prá vida com um empréstimo a contrair? Que seja! Ele é bem giro para ampliar e meter numa parede lá em casa. A melhor opressão é aquela que não sentimos já alguém o deve ter dito... 



UFOs in Lahti
(Auto-edição, 2024) de Marko Turunen é a colectânea dos quatro "comic-books" do que aqui escrevi há mais de 10 anos! O tempo passa... 
 
Roubo a mim mesmo o que escrevi sobre ele n'A Batalha: O Xeique PHDA do finlandês Marko Turunen foi um dos livros de BD mais impressionantes e dos mais ignorados do ano passado. Pessoal da BD esquece, tudo parvo como sempre. Pessoal da psicologia & psiquiatria, também nickes, se calhar só sabem ler bulas médicas… Bem sei que como editor deveria estar caladinho em lágrimas mas chateia-me que (...) não ligaram pevas à coisa. Que raiva! Mas o problema nem é só português, a obra de Turunen existe quase toda publicada em francês pela Fremok e ninguém quer saber. Mesmo na Finlândia, o autor queixa-se que lhe ignorem. Bóf!
 
Entretanto Turunen meteu em marcha um plano de reedição em inglês de quase todos os seus livros. Deve pensar que o mundo anglo-saxónico seja mais aberto, ou que esta língua franca ajude a chegar a mais público. (...) Para quem não sabe Turunen faz BDs sobre a realidade, da sua vidinha ou de outros à sua volta, o que é inesperado na sua obra é o imaginário, em que desenha essas banalidades com representações da cultura Pop. Por isso Marko é o “Alien”, um ET baixote com buraco na cabeça (uma vez que Turunen quando era criança foi atingido por uma bala) e Annemari é a Greater Woman (uma espécie de super-heróina toda em latex fetichista S/M - e que gralhas no passado, e que persistem nesta edição também, aparece como Grater Woman, o que me levou a escrever algumas vezes como "Mulher Raspadora", ops!). Como uma crónica disfuncional, vamos assistindo à vida do casal, (...) As banalidades ganham pujança existencial com o lixo Pop que Turunen utiliza para ilustrar estes “slices-of-life”. Uma poesia emerge desta lixeira que parece quase uma afronta aos detourments dos Situacionistas que usavam a BD pop para mostrar a miséria da vida capitalista. Algumas destas reedições em inglês foram mexidas – supressão ou acrescento de vinhetas, algumas foram agora publicadas a cores ou justamente o contrário, aparecem a preto e branco quando eram originalmente a cores. Porquê? Pouco importa para vocês, nunca souberam da existência deste autor, né? Para quê entrar em detalhes agora? Oh, lembrei-me que ele já cá esteve duas vezes com belas exposições, no Salão Lisboa 2005 e na Tinta nos Nervos em 2023. Os livros do autor podem ser encomendados no seu sítio em linha superturunen.fi (com portes horríveis porque os correios finlandeses foram privatizados) ou em Portugal pela livraria Tinta nos Nervos.

Ufa, foi mais fácil que pareceu, prometo ser menos preguiçoso em Fevereiro...

sábado, 30 de setembro de 2017

Punk Comix - BD e ilustração no punk português @ Louie Louie

cartaz de André Coelho


Depois da Feira do Livro de Lisboa e Disgraça, e de uma rápida passagem pelo LAR, no Algarve, eis que chega a hora de lançar “oficialmente” o split-book CORTA-E-COLA / PUNK COMIX no Porto – cidade onde este “movimento” teve resistências a surgir mas que nos dias de hoje poderá vir a ser a Capital do Punk, já que em Lisboa tudo é para turista ver...

Inaugurou no passado dia 16 de Setembro, na Louie Louie [Rua do Almada, 307] uma pequena exposição de artefactos Punk ligados à BD e Ilustração, contando com capas de discos (Cães Vadios, Subcaos, Corrosão Caótica...), originais de BD (Raridades) e publicações DIY como o Ezequiel, PxC fanzine, Ritmo, Buraco, Ganmse, Boring EuropaSangue Violeta... Objectos vindos quase todos directamente das colecções privadas dos autores do livro, Afonso Cortez e Marcos Farrajota, que estiveram presentes a beber umas bejecas enquanto o GG Ramone tocava!

Do que poderão ver chamamos já a atenção para duas peças EXCLUSIVAS: um original raro de Nunsky da BD Inadaptados, publicada no zine Mesinha de Cabeceira #4 (Jan'94), e a nunca antes vista primeira versão da capa do LP “Rock Radioactivo” dos Mata-Ratos, desenhada por Nuno Saraiva e imediatamente reprovada pela EMI e pela banda por acharem que algumas personagens - João Peste, Jorge Bruto - poderiam estar demasiado reconhecíveis e criar problemas. O autor de seguida fez a mesma composição mas todos travestidos de ratos, versão essa também recusada por evidenciar um skinhead esmagado por uma bomba…


Agradecimento especial ao André Coelho, Louie Louie, GG Ramone, Nunsky e Nuno Saraiva.










terça-feira, 6 de dezembro de 2011

CHILI ao QUADRADO até dia 6 Dezembro



É sempre com um orgulho que os lisboetas ouvem os estrangeiros falarem da sua cidade. E adoram ouvir o cliché da Luz da Cidade. Mas os lisboetas esquecem-se que a Luz que os estrangeiros falam não é Luciferiana, é apenas aquela cujos raios solares oxidam a matéria até à sua obliteração. Lisboa de Iluminada nada têm, é medieval sobre vários prismas.
Sempre foi constrangedor explicar aos tais estrangeiros porque é que nesta capital europeia não havia um espaço dedicado às margens sonoras e gráficas. Este estado de humilhação artística obrigou à Associação Chili Com Carne em abrir espaços temporários de occulture cyber comix art brut psychedelic sci fi futuristic dada trash retro street fluxus graphix industrealism anarquitext chaos magic punx intitulado simplesmente de CHILI. Para numerar as aventuras, desta vez localizada no Chiado Work-In-Progress, acrescenta-se AO QUADRADO onde apresentará zines, discos, livros, serigrafias, exposições à margem do regime lunar da Capital.
Exposições de desenho, bd, serigrafia e pintura de Filipe Abranches, André Ruivo, Rudolfo, Pepedelrey, Lucas Almeida, Bruno Borges, André Lemos, Andreia Rechena, Jucifer e Sílvia Rodrigues. Murais a convite especial do colectivo Cabidela Ninja com Lucas Almeida.
Venda de artigos da Chili Com Carne, MMMNNNRRRG, O Hábito faz o Monstro, El Pep, Reject'zine, Ruru Comix, autores Mike Diana e Nevada Hill (EUA), Thisco e de vários editores estrangeiros independentes europeus (Espanha, França, Itália, Sérvia, Aústria, Alemanha, Bélgica, Suécia e Finlândia).
Novidades editoriais:
- Buraco, nova publicação política de bd entre Lisboa e Porto
- serigrafias-remix Futuro Primitivo (Chili Com Carne), de Filipe Quaresma e Margarida Borges
- Pindura 2012, calendário brasileiro com algumas participações de autores portugueses
- Stop Mundo, graphzine do colectivo U.A.T.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Vai ficar uma brasa... que vai ser preciso beber cerveja!! (esgotou a cerveja e acabou a brasa!)


30 anos é muita idade para um fanzine!!

Suspeitamos até que possamos ficar xéxés. No entanto o Mesinha de Cabeceira sabe o que faz - é a vantagem dos mutantes. Criado por Marcos Farrajota e Pedro Brito em 1992, já foi de tudo, fotocópia barata, perzines de Farrajota, serigrafia, alto, baixo, agrafado, brochado, grosso, fininho, graphzine, antologia e muitos trabalhos a solo, indo desde o infame norte-americano Mike Diana até ao cometa Nunsky

Desde o ano passado que este título lembrou-se de voltar às bases, publicando monográficos de novos talentos, projectando-os prá praça pública. Foi o que aconteceu com André Ferreira e Alexandra Saldanha. Agora, de uma assentada só, e aproveitando a sobrevivente e sexta edição da Raia, lançámos dois títulos. 

E não poderiam ser mais diferentes entre eles.




O número 31 é do jovem Marco Gomes (Hamburgo; 1995) que começa uma série de BD, Cerveja Depressão, com uma história intitulada Das Schwarze Lock (trad.: O Buraco Negro). Cerveja Depressão é um mergulho nas fantasias perversas e depressões que andam de mão em mão com o fundo de cada garrafa, copo ou lata (para os menos refinados) do qual tanto usufruímos para nos adormecer da realidade por uns breves momentos, mas que nos atira para um vazio sem fim. Das Schwarze Loch é uma aventura num mundo embriagado criado na sua própria mente onde é obrigado a enfrentar dos seus mais profundos medos. O ritmo é alucinante e faz de Marco um potencial autor a conquistar os mercados do mundo. 

Força, meu!

O número 32 é o regresso maroto de André Ruivo (Lisboa; 1977) à Chili Com Carne (lembram-se do Mystery Park?) e ao Mesinha de Cabeceira onde colaborou entre 2003 e 2005. Hot é também é um regresso do Mesinha ao formato graphzine, apesar de uma mini-BD aqui metida! Este molho de desenhos cheios de rabiosques, pilinhas e maminhas prova que o sexo em 2022 pode ainda a ser divertido e amoroso. Chuac!




Entretanto a Tinta nos Nervos disse sobre o HOT: explorando o modo como os corpos e os sexos (todos e tantos) podem ser tão lúdicos como o Lego. Apenas para vacinados! E a cores!  E a Sara Figueiredo Costa no Livros para atravessar a semana escreveu: A edição #32 do Mesinha de Cabeceira, publicação polimorfa que já foi fanzine fotocopiado na velha escola e encadernação com lombada, de autoria individual ou colectiva, é assinada por André Ruivo. Hot é um livrinho onde a nudez, a intimidade e o sexo se mostram em linhas claras e cores saturadas, sempre com um olhar terno, atento aos pequenos gestos da comunicação e do toque. Um homem e uma mulher compõem o par que entra nesta dança do desejo, ambos munidos de um corpo que se revela sem vergonhas e de uma vontade de chegar ao outro que implica diálogo e negociação com vista ao prazer. Como sempre, as imagens e as pequenas narrativas que se vão estruturando nascem de desenhos falsamente simples, uma linha que define a forma e manchas de cor que lhe dão contraste, textura e movimento, guardando-se em cada composição um manancial de sentidos, pequenos pormenores sobre o modo como nos relacionamos, como pensamos, como podemos perder-nos em tantos “ses” e “porquês”, como o humor é também uma partilha. Por entre a nudez explícita e o sexo sem cortinas para disfarçá-lo, Hot é um livro delicado e muito perspicaz sobre o desejo e as suas esquinas e também sobre como nos encontramos a nós mesmos/as quando nos perdemos num corpo alheio. 

E o Bandas Desenhadas sobre a "cerveja": Com um ritmo desenfreado, quase como se fosse um sucedâneo de Tex Avery, Marco apresenta-nos uma imaginativa e divertida viagem, revelando um autor que merece toda a nossa atenção... 

E a "pankaria" do Ninho de Rattus, secção da Loud! escreveu: destaque para Das Schwarze Loch, (...) de Marco Gomes (também conhecido no universo punk como guitarrista dos Manferior). (...) este livro com pinta de zine leva-nos a um delírio etílico que mergulha em fantasias e depressões e que se afastam da realidade nas fantásticas ilustrações de Marco Gomes.

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AMBOS ESGOTARAM mas ainda pode ser que encontrem algum deles na Tigre de Papel, Kingpin Books, Tinta nos Nervos, Alquimia, ZDB, Snob, STET, BdMania, Universal Tongue e Linha de Sombra.