quarta-feira, 30 de março de 2011

Quinta dimensão


Dr. Frankenstein in 4 Dimensions (DDJ; 2010)

Eis o quarto álbum da melhor banda Surf Rock portuguesa, liderada pelo guitarrista André Joaquim. Se nos anos 90 as edições da banda andaram por edições de natureza fragmentária (demo-tapes, singles, colectâneas) neste milénio elas tiveram um cunho oficial de álbuns - mesmo que estes tenham saltitado de editora em editora, acabando agora este último numa auto-edição pela Deep Dark Jungle, "label" de Joaquim onde curiosamente começou a sua carreira com o EP "dos" Red Headed Men - ele tocava tudo sozinho, grande disco!
Cada etapa da discografia "oficial" corresponde a uma evolução da banda. Em The Lost tapes from Dr. Frankenstein's Lab (Lowfly; 2000) tratava-se de um resumo de temas perdidos nos outros formatos e estava cheio de pica. Pica essa que não se perdeu no "difícil segundo álbum" (esse mito do rock) em The Psychotic Sounds of Dr. Frankenstein (Zona Música; 2002) para além de ter entrado em outros campos musicais mais sofisticados mostrando que nunca foi uma banda linear. Quem toca este tipo de música (Surf/Rock/Garage) têm de ter pica - essa é a regra número um que já se sabia há muito. Reciclar um estilo "Retro" e trazer novas ideias já é outra estória e que ficou explícita no segundo disco e ainda mais no Chapter III: The Dragon lounge Connection / Crime scenes and murder songs from Dr. Frankenstein's laboratory (Double Crown; 2005) em que se expandiu quase para uma lógica de "big band", ao incluir uma secção de metais. Sim, com este disco os Dr. Frankenstein ganhou uma nova dimensão, pena que a tenha perdido justamente neste CD que se chama "a quatro dimensões".
Visto que o sucesso de carreira com o estilo "surf rock" é quase impossível em Portugal dada à falta de circuito para o Rock em geral, quanto mais para um "sub-género" (quantas vezes vi grandes concertos desta banda com menos de 30 pessoas!), e depois de três ignoradas tentativas de exposição pública talvez faça sentido voltar às raízes - sejam elas sonoras quer editoriais. Este disco é uma "curte" saudável para quem gosta de soltar a franga. São apenas 21 minutos, exigia um vinil de 10"! Claro que se faz "repeat" na aparelhagem e vai-se ficando viciado.
Parece haver mais vozes no disco do que normal - a banda é "instru-mental" havendo esporadicamente um tema ou outro com voz e letras. Talvez por ser um disco tão curto que as músicas com voz apareçam em excesso. Este álbum desilude porque raramente "solto a franga" aos 37 anos com o peso consciente dos ossos, estes preferem estarem esticarem-se no sofá e mandar a mente trabalhar. Longe de ser um mau disco - os Dr. Frankenstein nunca o fazem! - é estranho não ouvir aqui aplicadas as ideias geniais do projecto Santa Apolónia (projecto solo de Joaquim, é grátis, saquem, saquem!!!). Sei que são projectos diferentes mas parece que se perde tempo em fazer muitos projectos com nomes difrentes, em que se estanca e arruma-se muito bem as coisas perdendo-se uma visão de ruptura / progresso / arte. Este álbum não adianta nada ao que já se fez, seja na carreira dos Dr. Frankenstein seja no "Retro-género". Não haver um risco contemporâneo que seja vai contra a expectativa do título do álbum. Sim as capas enganam e esta é uma delas, a música não tem quatro olhos como a sua modelo-mutante da capa, têm antes quatro mamas!

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