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quarta-feira, 23 de julho de 2025

Há uma estrela nova na Chili Com Carne... serigrafia esgotada! & últimos exemplares


RUBI é uma colecção nova da Chili Com Carne dedicada a romances gráficos à escala global. Mas sobretudo será uma selecção criteriosa de Romances Gráficos, para contrabalançar a literatura "light" que tem inundado o mercado português nos últimos sete anos.

O primeiro título desta nova colecção é Sírio de Martin López Lam (Peru/ Espanha) que saiu na Raia 3 (2018), em que o autor esteve presente. Sírio foi originalmente publicado em Espanha, pela Fulgencio Pimentel em 2016. Traduzido para português por Ana Menezes. Editado por Joana Pires e Marcos Farrajota e publicada pela Associação Chili Com Carne. 

Foram impressos 500 exemplares deste livro, dos quais 100 exemplares oferecem um ex libris assinado pelo autor, se for adquirido directamente à Chili Com Carne.

À venda na nossa loja em linha e na BdMania, Kingpin Books, Tigre de Papel, Linha de Sombra, Snob, Língua nos Dentes e Matéria Prima.

Que raio de capa é esta? É a capa e a sobrecapa!

López Lam (Lima, 1981) acompanha um casal que passa uns dias perto do mar aproveitando a época turística baixa, numa casa de uma dessas urbanizações no meio do nada, um não-lugar em que o seu isolamento quase total submete as suas possibilidades de comunicação e as suas personalidades a uma espécie de prova de fogo em que o tédio e o mistério são os catalisadores das suas horas, distorcidos apenas pelos ruídos (grande representação onomatopeica da natureza!) e pelo crime sem grande explicação que acontece na casa do lado. 
Felipe Hernández Cava 

É como o hotel gerido por Ava Gardner em A noite da Iguana (1964) de John Houston. Transforma-nos numa personagem ativa dentro de um espaço passivo, em que acontecem as coisas e onde somos meros observadores, não por vontade própria, mas pela vontade do autor. 
Miguel A. Pérez-Gómez 

...


Martin López Lam [Lima, Peru; 1981] é duplamente Licenciado em Belas Artes, tanto no Peru como em Espanha, onde reside desde 2003. quando não está a brincar com susto, o seu cão, divide o seu tempo entre o desenho, impressão em serigrafia, auto-edição (as maravilhosas Ediciones Valientes são dele!!!), BD e eventos de edição independente (é um dos fundadores do Tenderete, em Valência).

Tem recebido vários prémios, foi o importante "Premio Internacional de Novela Gráfica Fnac Salamandra Graphic" de 2018. Publicou em várias antologias internacionais: ARGH!, Qué Suerte! (Espanha), Puck Comic Party (Itália), Carboncito (Peru), Mesinha de Cabeceira (Portugal), Kus! (Letónia) e Kuti (Finlândia)...

Apesar de ter participado em vários eventos de edição independente (Feira Laica e Feira Morta) ou ter divulgado imenso as artes gráficas portuguesas em publicações ou eventos (como o Tenderete), o seu trabalho só foi publicado em Portugal no livro colectivo Boring Europa (2011) e no número 23 do zine Mesinha de Cabeceira (2012), ambos pela Chili Com Carne. Faz-se agora justiça com este Sírio.

Bibliografia Parte de Todo Esto (De Ponent, 2013), Sírio (Fulgencio Pimentel, 2016; Chili Com Carne, 2018), El Título No Corresponde (Valientes; 2016), Ensalada Mixta (Le Dernier Cri; 2017) Colectivos (selecção)  Boring Europa (Chili Com Carne; 2011), Mesinha de Cabeceira #23 (Chili Com Carne; 2012)...












Foi feito um Ex libris limitados a 100 exemplares para este livro lindo! ESGOTADO! Aliás, Martin López Lam aproveitou a sua presença em Lisboa para o lançamento de Sírio e para a execução de uma serigrafia pela Oficina Loba.





FEEDBACK

 o livro é uma excelente edição - parabéns!
A. Silva (email)

é sem dúvida o melhor livro publicado pela Chili que já li! Ficção bem feita, que mantém a tensão e o mistério até ao final. Lembrei-me imenso de uns contos do Ballard passados precisamente em estâncias balneares em Espanha ou nas pensões e ruas desertas de Cocoa Beach onde não se percebe se houve um colapso civilizacional ou o fim da época alta. Assim que comecei a ler tive a noção de que a narrativa não iria trazer grandes surpresas, mas digo-o no bom sentido. Isto absorve o leitor pela sua estaticidade e por sabermos que as personagens se encontram num beco sem saída, ainda que inscrito numa paisagem aparentemente cheia de espaços abertos. Talvez por isso eles se percam quando tentam sair dela. Fim do mundo. Graficamente é incrível.
André Coelho (email)

Basta um relance para se perceber o teu dedo editorial neste objecto que é bem distinto, quase uma peça de artesanato, cheio de melancolia, sonhos febris e contemplações interiores a entrecortar o silêncio e a desolação dominantes. Julgo que o grafismo dificilmente poderia ser mais eficaz a ilustrar todos esses ingredientes, por forma a que a relevância das ambiências e das sensações se sobreponha à narrativa. E no final soa de facto como uma viagem a uma constelação estranha e distante...
Nunsky (email)

Como refere Álvaro Pons, Sírio destila força, sendo uma narrativa visceral e em estado puro, esmagadora.
Bandas Desenhadas

Desenhado em tons de azul e amarelo, Sirio foi descrito pelo autor, numa entrevista à agência Efe em 2016, como um 'thriller' que se mistura com uma teoria filosófica sobre a vida e a morte, o amor e a apatia. "Desde início a intenção da banda desenhada foi mergulhar o leitor numa espécie de experiência narrativa que suporta a história, porque o argumento é bastante pequeno e pode resumir-se numa frase. Mas não tive a intenção de contar uma sucessão de anedotas, reflexões ou acções; tinha de ser algo como uma não-acção, uma anti-história", disse o autor na mesma entrevista, quando o livro saiu em 2016 em Espanha.
Lusa / DN

Na Lista de Melhores Livros de BD de 2018 do Expresso
Sara Figueiredo Costa

5 estrelas no Expresso

(...) recuperado o fôlego, que a coisa acaba em alta voltagem cinemática –, nos assalte a tentação de declararmos que em Sírio o verdadeiro personagem principal é a paisagem. Não chegando a tanto, diríamos antes que o fulcro deste livro é o efeito entrópico da paisagem – ou ambiente – em dois personagens, que se deslocam até esse outro lugar já munidos de uma semente de dissolução. Ora esta paisagem é composta por onomatopeias de bichos perdidos, uma rede sobrenatural de luzes na noite, sombras a crescerem sobre ervas que parecem destinadas a engolir tudo, pelo menos uma nuvem obscena e, por entre tudo, viscosa, a canícula que embrutece. (...) 
António da Cruz in A Batalha

A forma como Lam joga com o silêncio, o tédio e um mistério de homicídio tornam este livro numa peça indispensável a todos aqueles que gostam de ver novas e distintas explorações na linguagem da BD.

domingo, 13 de abril de 2025

Fearless Colors - reedição pela Chili Com Carne /// aprovado por Nunsky!

yo yo yo

Adivinhem o que foi reimpresso?




A BD demorou 40 anos a chegar ao automatismo (obrigado Robert Crumb e Moebius por terem tomado drogas!), ”andou às aranhas” com a autobiografia ou à auto-representação do autor, jornalismo, ensaio e crónica e uma eternidade no que diz ao respeito institucional. Não podemos ficar de fora, não podemos deixar que os DJs roubem todo o bolo! Preparem lá essa tesoura e cola! Melhor ainda… saquem lá o Photoshop! 

É um pássaro?
É um avião? 
Não! 
É o Samplerman!!!

Ladrão que rouba ladrão, mil anos de perdão!




FEARLESS COLORS compila algumas das melhores páginas de BD que Samplerman produziu entre 2012 e 2015. Pode-se dizer que elas fazem homenagem aos "comic-books" norte-americanos dos anos 40 e 50, sendo misturados tal como uma viagem de um DJ a realizar o que Marcos Farrajota intitulou de "Comix Remix" - artigo escrito originalmente para o jornal finlandês Kuti e entretanto acessível em várias línguas, como o português no blogue da Chili Com Carne.

Atravessando géneros clássicos como o romance cor-de-rosa, o policial, a ficção científica e o terror, algumas das páginas tanto se identifica excertos de Fletcher Hanks como o "Samplerman original": Ray Yoshida. Violência, acção, disparos, naves espaciais, micróbios e bactérias, corpos mutilados são remontados numa colagem fractal que nos possibilitam novas formas de narrativas e leituras. 

Por detrás de um super-heróis há sempre o alterego. Neste caso de Samplerman esconde-se o desenhador francês Yvang. Começou com a experiência Samplerman em 2012 através do tumblr ZDND (La Zone De Non-Droit) juntamente com o irrequieto Leo Quievreux, tendo contaminado a web desde então. Participou em várias publicações como a š! (Letónia), Off Life, Smoke Signal, Ink Brick, Lagon, The Village Voice e Scratches. A solo saíram os seguintes livros: Street Fights Comics (ed. de Autor, 2016), Miscomocs Comics (Le Dernier Cri, 2017), Samplerman (Secret Headquarters, 2017) e ilustrou ao LP colectênea Intrepid Curves #18 da Vinyl Moon. E realizou uma capa para o título Doom Patrol da Dc Comics a convite especial de Grant Morrison.





Formato A5. 100 páginas, Quatro cores. Capa mole com verniz localizado. Uma co-edição com a Kuš!. Reimpressão do livro lançado em 2017 pela extinta MMMNNNRRRG (2000-20), só mudou os logotipos dos editores envolvidos e ficha técnica.

Reeditado na nossa Mercantologia, colecção dedicada à reedição de material perdido do mundo dos zines eis disponível outra vez na nossa loja em linha e na BdMania, It's a Book, Kingpin Books, Linha de Sombra, Matéria Prima, Mundo Fantasma, Snob, Socorro, STET, Tigre de Papel, Tinta nos Nervos, Utopia e ZDB. E na Modo Infoshop (Bolonha) e Freedom Press (Londres)






FEARLESS COLORS é o livro que colecciona a maior parte do seu trabalho e deu no que falar!!!
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Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal 
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sessão de autógrafos na Mundo Fantasma (10/03/18) 
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lançamento oficial na Nova Livraria Francesa (16/03/18) com a presença do autor 
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Imagine a Jim Woodring comic, without the characters to get in the way of the experience of it. That’s what he summons in his pages. So allow yourself to get lost in these pictures. (...) Reading Fearless Colors is like taking a weird acid trip through comics as images fall apart and melt down in front of you, recombining with different images to form brand new comic pages. Samplerman’s collages take existing art and make new art out of the old, and creates comic pages that you just want to get lost in, exploring the smallest details even while wanting to pull out and see how those details collapse into a complete comic experience.

Poder-se-ia também imaginar que finalmente temos aqui uma tradução do que significaria enfrentar, com efeito, uma “crise nas infinitas terras”, que convidaria a delírios visuais bem mais inesperados do que aqueles intentados por George Pérez.

El propio autor es consciente de que, desde una perspectiva reduccionista, su trabajo podría verse como algo que no es ya cómic, aunque parta de él. «Depende de lo restrictiva que sea tu definición de cómic», dice. No debería importarnos pero, en realidad, hay en su trabajo una narratividad, y las viñetas establecen una secuencia en la que las imágenes mutan, evolucionan y se multiplican siguiendo una lógica interna, que no es la del relato, sino la de lo visual… Y la de la mente de alguien que está intentando crear algo nuevo a partir de algo viejo.


Fearless Colors é exactamente aquilo que esperava que fosse - uma gulodice sensorial, verdadeira apoteose surrealista e anárquica lograda pela gloriosa libertação dos comics clássicos das cadeias bolorentas da vetustez obsoleta. Samplerman é nome de super-herói e é autor do livro mais bonito que já vi da Chili. (...)
Nunsky (via email)


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sábado, 9 de maio de 2020

Regresso à anormalidade


Anda tudo entesado com a "normalidade" quando as narrativas são iguaizinhas, quer à Esquerda (trabalho, trabalho!) quer à Direita (a economia, temos de salvar a economia!), só merda, todos desejam voltar a vender patinhos de plástico e ir no fim-de-semana para a quinta muito-ecológica limpar a consciência com a prole (ops, herdeiros, prole é prós miseráveis). Felizmente há coisas que sairam nestas semanas para mantermos a cabeça sã e contra a velha ordem, como este livro Defects do norte-americano Thomas Grant Stetson pela Black Blood Press - editora de graphzines que há 10 anos que nos oferece as imagens mais chocantes aqui da periferia.
Na linha de arte grotesca, que se pode localizar nos punks anos 70 com o movimento graphzine dos franceses Bazooka vindo até aos dias de hoje com os Le Dernier Cri, eis uma galeria de corpos em formol, dissecados e esfolados, colocados em poses estatuárias a posarem arrogantes. Para quem? Talvez para quem as vendeu comida envenenada, para quem poluiu os ares que respiram, para quem lhes vendeu remédios que geraram abortos, quem sabe? Estes corpos corrompidos ter ar de desafio, isso é certo, fazem-nos mijar nas calças.
Edição menor que o formato A4 (o A4 é para parolos!) com 40 e tal desenhos feitos em caneta esferográfica cuja impressão offset capturou bem, eis a publicação mais "pro" da Black Blood, parabéns! Do autor nada se sabe, fez algum "artwork" para fonogramas pós-industrialitas mas também, queriam saber o quê mais depois disto?

quinta-feira, 13 de junho de 2019

ccc@feira.da.alegria


O Camarada Rudolfo estará lá a representar a Chili Com Carne neste evento que teve a coragem de fazer regressar os Le Dernier Cri e trazer pela primeira vez o Novo Doba.

sábado, 14 de abril de 2018

ccc@RAIA.2


É o regresso do grande mercado de edições independentes de Portugal! 
Outra vez nos Anjos 70 nos dias 14 e 15 de Abril. 

Vai ser bombástico tal como foi a primeira edição. 
E como tal preparamos algumas surpresas para o público da RAIA, a saber:


Convidámos o francês J.M.Bertoyas nascido em 1969 numa região de florestas e ruínas radioactivas. Podemos dizer, com algum excesso discursivo, que o autor descobriu, para barrar o horror deste mundo, uma forma simples e económica para se exprimir (ou fugir, se preferirem): a banda desenhada. Sendo a sua obra caótica, agradável e muito esfumaçada. Cof cof  Publicou em vários editores independentes de referência como L'Association, Les Requins Marteaux e Le Dernier Cri, para além do seu fanzine Kobe que já perdemos a conta da numeração. Actualmente trabalha com as edições Adverse e Arbitraire e tem cara de quem curte Mudhoney.



A nossa editorial irmã mais nova, a MMMNNNRRRG irá repetir a acção SOS Break Dance, ou seja, o autor André Ruivo estará no dia 14 de Abril, às 17h a assinar e a desenhar algo (tudo menos retratos!) a pedido do público sobre exemplares manuseados do livro Break Dance. Por um preço abaixo do PVP e um desenho feito ali na hora, de certeza que ninguém se sentirá mal em levar um livro em que se topa uma sujidade de uma etiqueta posta pelos animais da FNAC (por exemplo).



Por fim, não teremos nenhuma novidade editorial para apresentar mas está fresquinho este livro do Riccardo Balli / DJ Balli. Lançado internacionalmente em Berlim, prevê-se lançamentos oficiais em Lisboa e Porto lá para Julho. Até lá tem tempo para o ler! Frankenstein, or the 8 Bit Prometheus : micro-literature, hyper-mashup, Sonic Belligeranza records 17th anniversary é tudo e isto e muito mais. Duzentos anos depois de ter sido publicado o livro Frankenstein de Mary Shelley, o MIDIeval Balli pega neste clássico da literatura transumanista para o remisturar, transformando numa brumosa metáfora sobre o monstro sónico que é a cultura electrónica pós-rave. É dos livros mais bizarros e bonitos da Chili Com Carne, em parte devido ao design e ilustrações de Rudolfo, aquele que foi da realeza na BD portuguesa mas que preferiu partir mesas de mármore ao som chiptune dos BLEEEEEEP Bizkit. Break stuff!

domingo, 21 de agosto de 2016

A casa dos 10 000 cadáveres

Tarados coleccionadores e outro animais do livro de artista: querem uma máquina do tempo inesperada? Chama-se 10.000 Humans e é de Maiorca, a ilha com mais talentos gráficos por metro quadrado do mundo - Max, Pere Joan, Alex Fito,... e Lluís Juncosa, a cabeça desta editora.

Entre 1989 e 1994 lançou livros e graphzines e parece que nestes últimos anos lembrou-se de promover o trabalho feito e o "fundo de catálogo". O que significa que quem é fã deste tipo de edições passa a ter acesso a uma pequena máquina do tempo, uma vez que os livros estão em excelente estado passados estes anos todos. É mais impressionante quando são edições agrafadas ou manuais (as serigrafadas) mas não o deixa de ser para os álbuns em offset como o Sutze Atlas (1993) um "atlas visual" na esteira punk / surrealista em que Juncosa foi coleccionando imagens várias, de temas completamente diferentes de nascimentos, freaks da natureza, cadáveres, celebridades ou animais vivissecados, fazendo depois uma montagem dos mesmos em várias páginas numa ordem pessoal que oferecem leituras elípticas sobre as imagens. Um livro fora do "normal" do trabalho deste artista.

Se calhar até é o "normal" dele no que respeita a "universo" mas ele é mais conhecido é pelo desenho. Um catálogo como Frenologia, vol.1: Miss Mallorca Über Alles (Museu de Mallorca; 2007) ou o CD de Comelade e Pinhas dão melhor impressão do que é o seu estilo gráfico e temático. Linhas finas e certeiras com vários elementos dispersos, muita escatologia e mutações corporais tiradas da Interzona fazem parte deste autor e não será à toa que ele tenha editado o número 40 (?) do graphzine Elles sont de sortie. 


Se há um título emblemático do mundo DIY em França é este "ESDS" de Bruno Richard e Pascal Doury (1956-2001) criado em 1976. Contemporâneo do grupo Bazooka e muito anterior ao Hôpital Brut (do Le Dernier Cri), o ESDS é quase um "template" para tudo o que apareceu depois, sendo a sua influência ainda a ser avaliada. Doury abandonou o projecto algures nos anos 80, passando a ser este o meio de produção de Richard (embora a sua assinatura desaparecesse com a sobreposição da sigla ESDS) e os seus desenhos de sexo e violência em batuta de S/M decadente sacado aos Men's Adventures mais Hardcore. O que não impede que de vez em quando (como neste número) aparecessem desenhos de Gary Panter, Doury, Mark Beyer e Bartolomeu Cabot (não é o Juncosa disfarçado? parece!). Resta saber de quem é a autoria das adoráveis fotografias da capa e contra-capa...

Miserere (1991) é uma colecção de desenhos de Miracoloso, aka Fernando Fuentes, ilustrador que fez parte dos gloriosos anos 80 participando na mítica revista Madriz mas também nos anos 90 na singular Nosostros somos los muertos. Álbum de grande formato, junta desenhos em que não se se sabe o destino deles - seriam ilustrações para outros projectos? trabalhos realizados para o prazer do autor? Sombrio e sujo, alguma temática lembra o Filipe Abranches com as distâncias gráficas pois exploram um imaginário sórdido do século XX com homens e mulheres a fingirem uma normalidade ou a posarem para um retrato quando o meio onde vivem parece podre e negro. Um livro que testemunha mais uma vez a qualidade gráfica que sempre existiu na vizinha Espanha.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Mangalho!

Heta-Uma / Mangaro
v/a
Le Dernier Cri + MIAM; 2015

Ainda estamos em Valência... Esteve lá também o Le Dernier Cri em modo de azar, uma vez que os seus livros tinham ficado por entregar pelos correios (é o que dá privatizar um serviço destes!) e por isso ficaram com uma banca reduzida mas onde encontrei esta deliciosa edição dedicada ao grafismo e BD underground do Japão.
São dois catálogos num só livro excessivo graficamente como é apanágio do LDC representando duas exposições em França, uma no "Museu das Artes Modestas" em Sète e outra na sede do LDC em Marselha.
A primeira era dedicada à arte à margem de criativos japonesas que "desenham mal" (é o estilo "heta" - daí termos uma tal de Hetamóe para quem não tinha ainda descodificado o significado do pseudónimo desta autora) com alguns autores já nossos conhecidos como Shuehiro Maruo, Yusaku Hanakuma, Daisuke Ichiba, Norihiro Sekitani, Shintaro Kago, Nekojiru - lembram-se quando a Chili em 2009 tinha uma loja com isto tudo?
A segunda mostra era dedicada à revista Garo criada em 1964 que é seminal para uma primeira vaga de artistas na BD japonesa. Até 1996 passaram nesta publicação autores tão importantes como Seiichi Hayashi ou os recentemente falecidos Shigeru Mizuki (1922-2015) e Yoshihiro Tatsumi (1935-2015).
Claro que está tudo um caos no livro... perceber de quem são alguns dos créditos ou que situações são as que estão representadas é tarefa de cromo... desculpa-se porque isto faz parte do telurismo do Pakito Bolino, a cabeça e o mangalho do LDC. Descarga de informação à fartazana para um gajo se desenrascar! Felizmente existem um grupo de textos com informação limpa e bem colocada para se poder mergulhar nisto tudo. São loucos os japoneses e os franceses, especialmente quando estão juntos.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Valência é o centro do mundo...

Lá estivemos em mais uma edição do Tenderete e voltamos sempre de mão cheias tal é a bibliodiversidade que vai parara este evento, que entretanto cresceu imenso ao ponto da "última Laica" - num espaço institucional, "clean", para "toda a família", cheio de gente... E havia de tudo para todos!


Até lá havia fanzines para "garajeros" como Me Gusta Más Que Desayunar Un Herpe que já vai no número 17 dedicado a "homens das cavernas". O "primitivo" faz parte dos ingredientes de quem gosta de guitarras com urros animalescos à procura da inocência perdida do Rock dos anos 50 e 60, aliás o primitivo faz parte dessa era do nascimento da cultura Pop se pensarmos no ícone que são os "Flintstones". Com uma capa em capa em serigrafia, este fanzine mostra desenhos e artigos em volta do tema e "oferece" ainda um CD com treze bandas espanholas retro-primitivas. Para quem gosta deste género anacrónico esta é a referência, da minha parte gostei de ouvir Pedrito Diablo y los Cadáveres e Islas Marshall por serem justamente as mais "modernitas"...

Para "metaleros" mas com costela punk e power-violence estava lá a Industrias Doc que reduz a vida industrializada a cancro, gentrificação e rotinas desumanas. Com um aspecto brutista podemos fazer algum paralelo ao "nosso" Rodolfo Mariano mas Doc é directo enquanto Rodolfo é labiríntico. Oscure : Comic compilation vol. 1 (2014) é curioso como o "underground" no século XXI é super-burguês, longe vão os dias das fotocópias mal-amanhadas e sujas... Nos dias de hoje em que tudo é barato fazer, com um bom aspecto concorrente a qualquer publicação profissional, os zines aparecem com toques de luxo como uma capa em serigrafia, com tinta dourada e umas rodela prateadas a fazer de olhos prá "calavera" da capa. "Ser rebelde é um luxo?" O paradoxo não é novo bastando lembrar como Guy Debord exigia que os livros da Internacional Situacionista tivessem um ar vistoso como provocação gráfica à sociedade burguesa e vaidosa... Será que há esse mesmo pensamento por aqui e noutras edições de "arte grotesca"? Ou é apenas porque a Morte mete respeitinho?

Quem curte programas de culinária e Gore - não sei, deve haver alguém assim! - Mortal Chef (ed. de autor; 2014?) do sempre hilariante Jorge Parras é a solução de leitura!
Lembra a saudosa Arght! pelo aspecto geral da publicação... mas só publica uma BD (não está assinada sabe-se lá porquê) que se constrói como uma simulação dos concursos de TV de chefes cozinheiros só que refogado com um bocado de Carcass, Cannibal Corpse e Mike Diana tal o nível de violência estúpida que os concorrentes infligem sobre eles próprios.
É uma crítica à sociedade Big Brother e do Narcisismo a três cores... Ou será antes um ataque a quem elegeu a Culinária como um novo Deus?

E para verem que não estou a brincar com o facto que Valência é o centro do mundo, até o Clube do Inferno lançou lá um zine novo do Mao. Um regresso aos temas "eco-biológicos" que estão bem assentes na obra deste autor - Radiation lembram-se? - e outra vez visíveis nesta Bd que relata uma metamorfose de uma colónia de abelhas graças ao "Pop trash" humano. Colony Collapse Disorder como título já nos conta tudo, só falta é verem as imagens. Muito boas!

Bravo Champion (Jean Guichon; 2013) de Antoine Erre é a razão porque mais vale ir ao Tenderete do que a Angoulême. Este zine é preçado conforme o preço da cerveja no evento em que se encontra à venda. Ora como uma "cerveja" é mais barata que uma "bière" e já andava a namorar este título, em Valência foi logo sem pensar... Trata-se de uma BD desenhada com caracteres em "word" ou processador de texto num computador, em que as imagens são substituídas por palavras como por exemplo, o céu invés de desenhado é preenchido por várias palavras "céu" (ou melhor, "ciel") ao longo do seu espaço. Um chapéu tem a silhueta de um chapéu mas novamente toda ela está escrita com essa palavra ("chapeau").
Na poesia visual isto não é uma novidade mas um gajo tem sempre de esperar uns anitos para estas novidades gráficas cheguem a ela. A história mete deficientes motores e é melhor que aquela BD xunga para cegos.
Por falar nisso, o Ilan Manouach vai apresentar o seu projecto Shapereader em Angoulême. Merde! Se calhar Angoulême ainda vale a pensa visitar...

Mais terror, ou pelo menos uma tentativa: Obscuro : 4 Relatos de Terror para El Mañana (Inefable Tebeos; 2014), uma antologia com quatro autores que prometem mais do que dão em relação ao tema... Victor Puchalski é o mais bizarro com a sua estética "mash-up" Charles Burns & Jack Kirby & King Diamond sobre os planos interdimensionais da cultura VHS mas é Adrián Bago González o que dá mais gozo ler com o seu texto em que aplica o materialismo dialéctico sobre a condição de autor de BD. No mínimo, muito divertido e pouco aterrador! Mas a surpresa maior é que este colectivo de bons artistas gráficos é que são na realidade editores de "puta-madre" sobretudo quando se metem a apostar (uma aposta de loucos porque toda a gente se está a cagar) em publicar Clássicos da BD. "Clássicos" aqui significa BDs antes ou paralelas à maldita História oficial da BD que dá primazia aos Heróis norte-americanos da imprensa, vejam o catálogo da El Nadir para perceber que eles publicam BDs do Caran d'Ache, Töpffer, Doré, etc... São loucos estes valencianos!

E o que não faltam é projectos! Nimio é uma "revista" de BD para putos teenagers... claro que tem um aspecto de fanzine velha-guarda, assim mesmo em formato A5, fotocopiado em papel reciclado, quentinho e fofo, onde poderia lá caber os "nossos" André Pereira ou Afonso Ferreira devido aos universos "cool" pós-Adventure Times. Também lembra muita BD francesa pós-Lewis Trondheim e cia. Será que este colectivo irá crescer como modelo editorial e profissional para chegar ao seu público-alvo? Espero que sim! A energia está lá...




A Apa Apa é uma editora de Barcelona que tem em catálogo alguns nomes "pesos-pesados" da BD anglo-saxónica (Tom Gauld, James Kochalka, Dash Shaw, Ron Regé Jr., John Porcellino,...) mas também edita autores espanhóis dos quais destaco os autores do livro Dictadores: Francisco y Leopoldo (2013) de  Sergi Puyol e Irkus E. Zeberio. A nossa Direita, Leopoldo II, esse grande cabrão belga que cortava mãos aos congoleses (tema explorado cá através do Vumbi e o Papá em África) e ainda mais à Direita o filho-da-puta do Franco, fascista espanhol. Um "split-book" combate de boxe com duas ficções gráficas usando as figuras destes monstros que dominaram povos. A "spread" final e central do livro, onde se cruzam os dois livros, deixa um bocado a desejar onde se quer chegar com ambas BDs apesar de mostrarem a crueldade das criaturas. no caso de Franco até aparece como um salvador de uma invasão alienígena no futuro, uma metáfora ao seu conservadorismo. Graficamente faz lembrar a estética que a No Brow impingiu nos últimos anos, em que ilustradores muito coloridos fazem umas BDs sem conteúdo. Estas BDs parecem estar no limite disso mas parecem que com o tempo são capazes de nos dar mais leituras sobre elas... Assim espero!

E vou fechar isto aqui... falta ainda escrever sobre as últimas edições da Canicola, o Mangaro do Le Dernier Cri e o último livro do Camarada Martin Lopez Lam (um dos fundadores do Tenderete)... todos merecem "posts" à parte. Vamos!

Joe Kessler faz parte da nova fornada de autores que apareceram naquela ilha nojenta chamada Inglaterra mas a sua abordagem à BD parece-me empenhada e séria - longe de fazer Bd porque está na moda por lá. Windowpane (Breakdown Press) é a sua publicação que já sairam três números (entre 2012 e 2015) em que vai juntando vários trabalhos curtos seus. Com boas bases literárias, narrativas bem pensadas e um desenho merdoso (já foi apelidado como o "pior artista da ilha") mas sem-medos (tal como Frank Santoro) e sem pudor de rapinar (é um gajo inglês, piratear está no sangue real!) e usando as práticas erráticas da risografia, Kessler é uma boa leitura e a ter atenção.

Alguns destes títulos vão estar disponíveis na próxima Feira Morta no final do mês na SMUP (Parede), apareçam...

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Gestrocro Club #15

v/a
Vaatican Records; 2015

Quer dizer, não sei se é isto... Se o Gestroco Club que faz um zine ou se é o Vaatican Club... ou se na realidade é exactamente tudo a mesma coisa. A confusão surge porque se calhar conhecia a música da Vaatican antes de conhecer estes  graphzines escatológicos deste(s) francese(s) onde também já participou o David Campos.
Formato A5 cheio de desenhos (e poucas BDs) com montes e montes de pilas e vaginas colocados em sítios estranhos, demónios assustadores e monstros carinhosos, Pop Art da 3ª Guerra Mundial, etc... tal e qual a música que promovem, é caos pós-moderno acessível a todos que gostam de cultura "underground". Engraçado que em Portugal depois de uma centena de "graphzines" feitos neste milénio, na realidade ninguém fez uma publicação realmente mal-comportada tipo esta ou os famosos Le Dernier Cri. Portugal é betinho!

terça-feira, 25 de junho de 2013

Agarrados ao crack!!


"ils sont fous ces romains"

Curiosamente eu e o Zé Burnay conhecemo-nos já no aeroporto de lisboa, já um pouco atrasados para o check–in… aterrámos no aeroporto Fiumicino e apanhámos um autocarro até ao Termini… No Termini todos os postos de informação tinham um papel na afixado que dizia: “no tram questions!” algo que nos complicou a vida e fez-nos andar pelo menos hora e meia perdidos,  com 2 malas com 20 kilos cada uma de livros… depois descobrimos que o tram 5 que queríamos apanhar era logo ali ao lado.  encontrámos o nosso tram e como bons turistas comprámos um bilhete cada um. Pode até ser paranóia minha mas assim que picámos o bilhete quase  todas as pessoas no interior do tram lançaram-nos um olhar reprovador por  picarmos o bilhete… No caminho do eléctrico até ao Forte Prenestino reparámos que ninguém picava bilhete, decidimos então daí em diante  adoptar essa tradição com orgulho, pois  nenhum de nós queria desrespeitar os bons  costumes locais!!!


FORTE PRENESTINO

Acho que nada nos prepara para o Forte Prenestino, além de ser o maior okupa que já vi, é pelos vistos também  o mais organizado… e ainda por cima é um FORTE!!! Temos que passar uma ponte e tudo!!! À entrada do Forte simpatizei logo com a primeira estátua  que vi...

FOTO ROUBADA NA NET

Depois de poisar a malas (alívio),estávamos nós a beber umas Peronis… Três individuos chegaram perto de nós e perguntaram ao Zé: "your name is Zé Burnay?" Os seus nomes eram Robert Galvish, Tron e Jackob e tinham chegado ontem da Letónia, o Zé já tinha colaborado com eles para a revista que representavam, a Popper Magazine!!

Bebemos umas, e ficámos logo amigos. Ao fim de uma hora tínhamos decidido ir morar todos juntos para uma tenda que a organização tinha arranjado para eles. Poisámos as malas e passámos o resto do dia a comer massas, pizzas, a beber vinho e Peronis e a falar de cócó, desenhos animados, vídeos do youtube e a  fazer  piadas gays acerca de mais logo voltar-mos para a tenda! Robert, Tron e Jackob foram uns bacanos e levaram-nos a visitar pela primeira vez as antigas celas do forte onde iriam estar as bancas… celas cheias de história e fantasmas e um silêncio atordoador, por outro lado nas paredes do exterior do forte  encontrava-mos outro tipo de fantasmas que por lá também tinham passado e deixado a sua marcas, tais como: Blu ou Aleksander Zograf entre milhares de outros…o Crack é um festim para os olhos…

FOTO DA PRIMEIRA NOITE, CEDIDA POR ROBERT GALVISH O AUTOR PILINHAS
    

 9º Festival Crack - Fumetti di Rompenti

Acordámos a fazer sauna na tenda por volta das 8 horas da manhã, tomámos duche de água fria e fomos os conco tomar pequeno-almoço. o pessoal da Popper é muito criativo e passavam  o tempo a criar historias absurdas que dariam BDs brutais… para nos entretermos Tron sacou do seu diário gráfico e ensinou-nos um jogo muito simples que costumavam jogar entre eles.  Escolhe-se uma letra do alfabeto, escreve-se a letra no cimo da página, e de seguida cada um desenha algo que comece com essa letra, pode-se fazer um desenho de raiz ou acrescentar qualquer outra coisa no desenho de outro  sempre respeitando a regra da letra escolhida. Embora só tenha feito uns rabiscos bem toscos, foi bem fixe ter participado, curti bastante do resultado e do clima descontraído da brincadeira. Assim que as catacumbas abriram, desempacotámos os livros das malas e montámos a banca da Chili Com Carne, mas por uma questão de logística acabámos por ter de dividir o nosso espaço com uns suecos de Estocolmo, a sua editora chamava-se Hockey Rawk, o cabecilha da banca chamava-se Peter Larsson e juntamente com ele estavam três suecas, que vinham tocar ao vivo no festival , no primeiro dia  o livro AcontorcionistA foi o que mais fez furor, os casais de italianos eram os primeiros a ficar  entusiasmados  com o conteúdo do livro e do calendário, fiquei até com a sensação que alguém na Chili terá mergulhado os livros em pau de cabinda…

No segundo dia de Crack, acho que conseguimos dormir até por volta das 10 da manhã, a partir das 7 da manhã começámos a fazer sauna e aos poucos o pessoal começou a gemer e a arrastar-se para fora da tenda com o respectivo saco-cama afim de achar uma sombra que não fosse apenas temporária… é sempre chato encontrar uma sombra que só dura 5 ou 10 minutos… o people da Letónia foi ver o mar e dar uns mergulhos, e eu e o Zé ficámos pelas redondezas do Crack, e tomámos pela primeira vez pizza ao pequeno almoço…assim que as celas reabriram organizámos os livros na bancada, o Zé pintou um Chili Com Carne sâtanico na parede e eu espetei com as provas do livro Kassumai numa das paredes.


Por volta das 21h fui ver o concerto das nossas vizinhas suecas artisticamente conhecidas como Hi Says Mole, que tocaram no subsolo... Fiquei curioso porque uma delas tinha-me dito que faziam Pop experimental. No palco estavam três meninas meio Lolitas e com vozes bipolares que variavam entre a extrema doçura de uma criança que pede alguma coisa e uma criança com a birra. Balões de ar foram tocados como se fossem violinos, muitos órgãos de brincar e alguns beats minimais a surgir… curti!! Até porque houve algumas ambiências mais perto do Hip Hop um tanto ou quanto  Beastie… girlz…  De regresso à banca da Chili o pessoal curtiu bué do Love Hole, do Aspiração Horrífica, do Mesinha-de-Cabeceira 23 e claro mais uma vez da AcontorcionistA… O Doom Mountain e as serigrafias do Zé também brilharam. Muita gente passou pela nossa banca na Sexta. Nunca falei tantas línguas… finalmente as Peronis fizeram efeito, o Zé foi pra tenda e fui acabar a noite a beber copos com o Peter Larson e com a Ingrid, uma das miúdas dos Hi Says Mole… Tipos bem porreiros que ao fim da noite já bebiam shots, dos restos das bebidas que outros deixavam nas mesas de esplanada. Foi bem divertido, a merda é que fui pra tenda já de dia…

3ºdia  de crack!!!

FOTO DE DESPEDIDA DOS NOSSOS COMPANHEIROS DE TENDA
De manhã decidimos ir passear por Roma ao calhas, mais os nossos companheiros Robert, Tron e Jackob… Apanhamos um Tram afim de visitar outro okupa ali bem perto, mas estava fechado, decidimos então ir visitar uns parques, comemos melancia, bebemos muita água, rimo-nos e até estivemos a observar um casal de italianos a discutir como se fosse uma peça de teatro, enquanto comíamos um kebab super picante. Às 18h voltámos para as catacumbas, o Crack transbordava de gente, foi a loucura. Directamente da nossa banca pude assistir a um espectáculo de t-shirt molhada masculina, um tipo julgo eu do Dernier Cri encharcava outro com cerveja e perguntava lhe: "you're my friend?"

Nesse mesmo dia também passou pela nossa banca, uma italiana chamada Sheela que têm um trabalho muito interessante, ela adorou e comprou o Love Hole! Pela nossa banca passou também o Roberto Grossi que ofereceu o seu último livro para a Chili.

À meia-noite o people da Popper vieram se despedir de nós troquei um Kassumai por uma serigrafia do Robert , outro Kassumai com uma Poppermag. Do Tron e ofereci um Kassumai ao Jackob porque lhe estava constantemente a nascer ganzas da  barba!!! A sério… ainda assisti a um concerto que afinal não era um concerto mas sim uma peça de teatro disfarçada de concerto, vendemos bastantes livros e fomos para a tenda um pouco mais tristes que nos outros dias (embora houvesse duas fanfarras animadamente a tocar pelo festival..) pois estava quase na hora de regressarmos também.
POPPER Nº4 (TROQUEI PORUM KASSUMAI)

Eu e o Zé acordamos, fizemos a mala e despedimo-nos da nossa tenda. Pizza foi novamente o nosso pequeno-almoço, curiosamente juntou-se a nós um inglês muito simpático chamado Joe Furlong. Estivemos na conversa e ficámos a saber que pertence a um colectivo chamado Minesweeper pelo que percebi,  Joe e o seu colectivo ocuparam um barco e fizeram dele uma residência artística.

Por volta da 16 horas montámos a banca pela última vez, escrevemos num papel "super discount" e vendemos tudo por metade do preço!!! O Mattias Elftorp foi ter connosco para trocar os dois primeiros mega-volumes compilados do Piracy is liberation.

Esgotámos os Mesinhas 23, o Love Hole e os calendários…Por volta das 21h, o Valerio Bindi apareceu na nossa banca e restituiu-nos o dinheiro da viagem, foi pena não ter conversado mais tempo com este homem  grande, uma vez que andava sempre de um lado para o outro…

Por volta das 23h começámos a desmontar a banca despedimo-nos dos nossos vizinhos e lá fomos nós apanhar o tram… Acabamos por passar pelo Termini sem reparar e só demos por isso quando já estávamos a voltar para trás há uns bons 20 minutos… Mais uma vez andámos perdidos,  carregados e stressados.  Acabámos por apanhar um táxi para o Termini, o que foi mal jogado porque já não haviam autocarros à uma da matina e tivemos que gastar 50 euros noutro táxi que não era um táxi, para  ficar umas 4 horas à espera do check-in, e sem tabaco!! Imaginem dois barbudos a dar uma de crava 'tuga à porta do aeroporto a ressacar por cigarros...

Depois ainda houve uma escala de três horas em Zurique onde um expresso chegava a custar cinco Euros e não serviam copos de água sem consumo… Acabámos por não comprar tabaco de novo, e adormecer à porta de entrada, acordámos em cima da hora de embarque. Não estava ninguém nas redondezas, tinham mudado o nosso vôo para outra porta de embarque e lá tivemos de correr para a outra ponta do aeroporto…


 

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Inferno são os outros...

Há pouco tempo o Manuel Pereira, instigador da Narcolepsia, editora de k7s de Noise, disse-me que o Noise é o “novo Punk”. Há vários aspectos que o comprovam: a facilidade que qualquer um poderá fazer este tipo de música, o intercâmbio anacrónico (por “snail-mail”) de objectos igualmente anacrónicos – como k7s – que obriga a quem procure por este tipo de cultura tenha mesmo de se esforçar e não apenas clicar num botão do rato para descarregar o que quisermos; a estética lo fi (fotocópias, fanzines, k7s, colagens), a cultura de choque (nomes dos projectos e imagens vinculadas a “serial-killers”, ditadores sanguinários, massacres, pornografia bizarra, imagens clínicas, deformações de corpos, decadência urbana) e uma falta de hierarquia do movimento – cada um faz o que lhe apetece e ninguém trabalha nisto para fazer dinheiro (embora já hajam muitos artistas Noise que são “stars” como o Merzbow ou KK Null)… O Rui Eduardo Paes até já escreveu um texto a dizer que quem pratica Noise é anarquista, quer queira quer não.

O Noise quer a cultura Industrial são realmente um bocado devedoras ao Punk é certo porque coexistiram ao mesmo tempo e como tal partilharam das mesmas evoluções tecnológicas. Mas a cultura Industrial cedo ultrapassou o Punk ao nível artístico, indo à exploração tecnológica e a sua relação com o ser humano, e também ao nível ideológico – a criação de novas utopias versus o hedonismo e individualismo do Punk. O Noise afastou-se das seus estandartes políticos e comunais da cultura Industrial para estar numa base misantrópica igual ao do Black Metal mais norueguês possível. O que está fora do quarto (ou casa ou estúdio) onde se produz este tipo de música parece pouco importar aos músicos. Como dizia o Merzbow, quem faz “barulho” são os outros com as suas produções comerciais que não nos largam, que se encontram em todo o lado (rádio, TV, mupis, etc…). Quem faz música Noise tenta escapar ao “barulho” da sociedade opressora criando uma muralha de som para poder afastar os “outros”.

Por isso cada vez que encontro artefactos Noise sinto que estou num mundo paralelo – há muitos pelo mundo fora, o Noise não tem exclusivo do “alienígena” – onde ninguém quer agradar ninguém, e os instintos mais básicos dos humanos vêem ao de cima, como um cano de esgoto se rompesse e viesse toda a merda ao de cima. Não é a melhor sensação do mundo… Isto a propósito de recentes edições da Narcolepsia… a saber:



Bile Enema (Narcolepsia; 2011) é uma K7 Noise e um zine de colagens que “não devem ser vendidas separadamente”. Da música temos Noise com algumas estruturas dinâmicas ao longo do tempo doloroso e nesta maldita k7 de plástico azul Pop – cortesia de Filth Turd. O zine são colagens de Manuel Pereira com frases de Darren Wyngarde / Filth Turd.



Squeal like a pig (Black Blood Press; Mar’12) é um graphzine internacional com desenhos, fotografias e colagens que não foge ao padrão de mostrar a anormalidade do mundo. A riqueza da Humanidade nunca será demonstrada pelas fotografias da Benetton ou das revistas de novas tendências mas justamente por publicações deste género que mostra o que está por detrás, por baixo e por dentro dessas fotografias. O desigual, o assimétrico, a víscera, a cárie, a nudez, a penetração, o pagão, etc… essas são as nossas verdadeiras figuras que os tipos do Le Dernier Cri, Smittekilde e muitos outros projectos editoriais fazem questão de não nos esquecermos. Eis mais um exemplo…



Troubled Sleep #2 (Narcolepsia; Inverno’12) está melhor que o primeiro número porque não repete o mesmo “template” de paginação e as entrevistas estão (ligeiramente) mais soltas. As colagens batem no ceguinho “sexo+morte”, ou seja muita pornografia com alguma gangrena e próteses, enquanto os “noisers” falam de si – ah, pois, este fanzine é de Noise / Power Electronics / Death Industrial / Postmortem / Black Metal incluindo entrevistas a músicos como N., Knullkraft, Wince, ou outros projectos fanzinistas como Coprolaliac Press.

Só para estômagos fortes, né?