Foi um fim-de-semana simpático na
Autónoma, para pelo menos para recarregar de novidades de fanzines e afins. O
Borrão já tinha saído antes do evento mas como estavam lá, começo por aí... Já saíram dois números deste fanzine - mas por alguma razão esotérica as duas editoras,
Matilde Feitor e
Emília Silva, preferem tratar a publicação por "revista" - que é um esforço das duas responsáveis introduzirem BD na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, passando pela estratégia de raposa de convidar os artistas que andam por lá, fazerem uma BD mesmo que a maioria não saiba que basta duas imagens em sequência que já é BD. Os resultados são peças poéticas, experimentais, não-canónicas ou mundanas que se esquecem passado pouco tempo mas dada a urgência do projecto interessam ler e pegar nesta "revista" impressa em papel colorido, formato A5, preço simpático e ao que parece com regularidade mensal até um dia que não. Destaco os trabalhos de
João Salvador, Pedro Costa e a BD da Emília no segundo número - deu um salto, sente-se confiança... Um destaque especial para o inventivo índice! Que raposinhas!!
Houve o reencontro feliz com a
Pats no certame da outra margem e eis o segundo número do seu zine
Sortido, onde publica as BDs curtas que vai produzindo. Esta autora é actualmente a única a a segurar o porta-estandarte na BD portuguesa de contar boas histórias com "bés e capeça", naquela fina linha entre o quotidiano mais aborrecido e o mágico inesperado - como um "blind date" entre uma mulher e um carro...
A tradição "alternativa" dos anos 90 está toda aqui, algures entre Julie Doucet e Renée French, em que se pode comparar a estes nomes monstruosos porque as BDs de Pats estão muito bem alicerçadas com o seu grafismo assertivo - a página ao lado confirma isso.
Claro que seria mais interessante ler estas BDs em português e (é bater no ceguinho, bem sei disso, Pats!) que a bizarria gráfica dos olhos das suas personagens (que a autora defende como o seu estilo identificador gráfico de forma aguerrida) não incomodasse a fruição geral da leitura. Vale todo o dinheiro dado menos a capa que poderia ter um coche mais de oomph!
Ia escrevendo que era preciso um gringo cinquentão em Portugal para nos ensinar o que é um "fanzine", se o
André Coelho ainda há pouco tempo não o tinha demonstrado com o
Katabasis.
The Heavy Helium Groove publicou
This is The Night Mail, fanzine dedicado ao Black Metal, Death, Noise e (Art) Brut com entrevistas a bandas como
Beherit,
Caixão (ligado ao fanzine
The Fall of The Idol) ou
Nuclear Death - pela pessoa de Lori Bravo, que foi para mim a grande revelação nestas páginas. Além disso também é entrevistado o
André Lemos (curiosamente tal como aconteceu no
Katabasis!) e o
Rudolfo / Gekiga Warlord. Grande conclusão do dia: é preciso ser os fanzines de música a entrevistarem os artistas gráficos!
E ainda há uma BD
goyesca do
João Carola e as fantásticas "falsas-gravuras" de
Minhothropic... Tudo isto num formato A5 com pinta de livro para pitosgas. Impecável e necessário!
Por falar no Lemos - a entrevista no
Night Mail começava justamente por causa dos seus
Opuntia Books - saíram mais dois volumes desta colecção gráfica, a saber
S/.GAMZA de
Francisco Amorim e
Azul de Terra de
ZMB.
O primeiro é um anti-formalista com panca por um orientalismo em grande estado de decomposição - e que também
faz música degenerada. O segundo já é conhecido no Opuntia - este é o seu terceiro título? Quarto! - e desta vez a temática aproxima-se de universos fantásticos e torturantes, de alguma forma a lembrar
Samir + Miguel...
O que impressiona sempre é a dedicação de Lemos enquanto o produtor que suja as mãos a criar estes livrinhos de assertiva qualidade editorial, sempre com detalhes e rigor, incluindo cortes e diferenças de papeis, transformando estes graphzines numa referência para qualquer um que diz gostar de papel. Não há maquinetas electrónicas que substituam estas publicações analógicas!
Por fim, e porque uma pessoa não vive só de bonecada e música, a
Contracapa publicou um novo livro de poesia de
A. Dasilva O., uma antologia intitulada de
E a poesia dá à luz uma bússola louca. Não será hoje nem amanhã que escreverei algo sobre isto, fica só o apontamento para o poeta mais escatológico da praça, é sempre um prazer... Mão Morta e Sereias já há muito tempo que o deviam ter musicado, enfim...