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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ccc@tenderete.7

Estivemos no Tenderete (a Laica de Valência) e passado uma semana ainda estamos a aprender a voltar a respirar de tão intenso que foi!

É verdade que os espanhóis têm a mania de imitar tudo, e o próprio cabecilha deste magnífico evento, o camarada Martin Lopez Lam, admite publicamente que se inspirou no Boring Europa e na Feira Laica para ter criado o Tenderete. Ficamos até lisonjeados mas sentimos que fomos ultrapassados dada a qualidade de oferta que vimos naqueles dois dias.

Se calhar, há logo um contexto urbano maior que torna o Tenderete tão potente, é que Valência é uma cidade de artes gráficas, provada por ter ruas com nome de artistas gráficos ou pelo Museu de Ilustração de Valência ou ainda por eventos como a exposição de Ops / El Roto / Rábago na La Nau da Universidade de Valência, justamente todo um oposto a Lisboa que apesar de estar numa latitude idêntica, destruiu os eventos Ilustração Portuguesa e Salão Lisboa, e agora prepara-se para destruir a Bedeteca de Lisboa e a rede BLX.

Se a Laica andou durante imenso tempo a definir-se como projecto, o Tenderete assume-se logo como "auto-edição gráfica e sonora", e mostra sinais de profissionalismo, criando folhas volantes com o programa e a disposição das mesas dos editores. Além de boas edições de ilustração e BD também fomos encontrar boa música, seja do "blues cerdo one-man-show" do camarada Tumba Swing ao "soundart" da plataforma Audiotalaia.



O primeiro tem um novo EP em vinil 7", Lamento Electrico (Calamidad; 2013), que mostra que apesar da pancada pela música do século passado, Tumba Swing sabe ser versátil nos vários tons de Rock'n'Roll; no segundo caso destaco para o CD A Country Falling Apart (2013) de Edu Comelles música ambiental feita de captação de sons, recusando o uso de qualquer tipo de instrumento na elaboração desta música. E tal como Tumba Swing, havia mais malta que divulgava tanto música como livros de autor, como a Bad Weather Press que partilhava mesa com a Orgonomy Records.


Buen Dolor é um fanzine editado por Álvaro Nofuentes e é um mimo para quem curte BD à procura de novas alternativas narrativas e gráficas. Participam uma padilha de autores ligados a um eixo que passa pela Argentina (com o nosso conhecido Berliac), de Valência (entre eles o camarada Lam) e de França, nesta última situação porque Nofuentes estudou em Angoulême. Buen Dolor é um bom companheiro do Kovra, só é pena que os dois estejam parados... porque o último número (o três) data de 2012, o que pode significar que não há mais continuidade ao projecto. O "sexo" (tema deste número) acabou com  o projecto, pelos vistos...

Quem anda cheio de tusa, e se calhar com tusa a mais é o autor do excelente livro Black Metal, Magius. Apareceu com dois títulos intitulados de Murcia, cidade onde reside, e que pelos vistos tem lendas profanas para contar, e depois assina como Yo Perro ou Diego Corbalán para La philosofie dans le boudoir e Eva Braun. Todas estas publicações são a cores, A5 e no máximo com 12 páginas, não têm numeração nem se percebe continuidade caso haja. La philosofie é uma BD que pega no Marquês de Sade e que parece que continua em duas páginas em Eva Braun que é na essência um caderno de esboços do autor e uma fotonovela de um gajo Black Metal a violar (?) uma hipster numa loja de discos (???). Confusão editorial e mental que apela a estarmos atentos ao que se passa no blogue oficial deste tipo muito muito estranho porque se prepara uma magnum opus então temos de esperar com sapiência e veneração! Hail Magius!



Incongruências mais fáceis de explicar são os desdobráveis em acordeão do El Monstruo de Colores No Tien Boca que publica sonhos (ou pesadelos) de crianças ilustrados, a lembrar o conceito de Duplex Planet Illustrated de David Greenberger que recolhia histórias de velhos em centros de dia para depois transformar em BD. Se o início destas publicações eram modestas - o mais antigo que tive acesso, o número 2, The King / El Rey / Le Roi (2010) ilustrado por Mitch Blunt - em formato 10x10cm a preto e branco, os mais recentes o formato não só aumenta (para cerca 15x15cm) como é adicionada uma cor como acontece com Inside my hair / Dentro de mi pelo (#26; 2013) por Thomas Wellmann. A colecção parte sempre de seis sonhos sacados a crianças por Roger Omar entre o México e Valencia -  o editor é mexicano e vive em Valência - mas também há um número com uma criança de Israel - #24, Lie Die / Mentir Morrir (2013) de Fitnat e Roni Fahima (i). Também há excepções como é o caso de Best Friends / Mejores Amigas (2013) de Mireia de Oliva e Wren McDonald (i) e Más Grandes y Viejos / Bigger and Older (2013) de Maria e Amanda Baeza (i) que são nitidamente "fora de colecção" porque ilustram apenas um sonho. São também os melhores deste projecto porque são mais sequenciais e narrativos permitindo que o texto seja explorado de forma mais alargada. Nos outros números, uma página representa quase sempre um sonho e uma ilustração tendo menos impacto. Ainda de referir que participaram neste projecto o português Pedro Lourenço (#11, El Mago / O Mágico / The Magician; 2011) e o moçambicano Rui Tenreiro (#14, Espada y Escudo / Sword and Shield / Espada e Escudo; 2012). Por fim, os sonhos das crianças mexicanas são muito mais violentos e mórbidos que as crianças de Valencia. E quando digo "muito mais"...

Arròs Negre Fanzine (4 números; 2011-13) lembra muita coisa (como a Lapin, Zundap ou ainda a linha estética da No Brow) por causa da sua elegância gráfica e impressão a duas cores. Interessam-se por banda desenhada, ilustração e tipografia mas também por temas sociais ou políticos como se pode verificar pelos temas de cada número: Beltor Brecht, os árabes ou a Espanha republicana. Chama-se fanzine mas parece uma revista literária numa altura em que pensamos que nunca mais irá haver tal coisa como a "nossa" saudosa Quadrado. Talvez seja mesmo um fanzine pelo facto dos trabalhos ainda serem um bocado verdes talvez porque os colaboradores ainda sejam estudantes da Universidade? [como sabemos os estudantes nos dias que correm são a massa menos contudente do planeta, já lá vão os tempos que o Estado tremia com as manifestações de estudantes] Talvez não deveria chamar-se "fanzine" porque acaba por ser pouco contudente, excepto o número dois porque pega em Brecht!

Mob Rule (Dez'13) é um fanzine literário mas que o editor e escritor Alejandro Álvarez Fernández não teve medo em pegar em nove ilustradores valencianos - ligados a estes projectos aqui divulgados como Jorge Parras (da extinta Arght!), Martín López Lam (ed. Valientes), Álvaro Nofuentes (Buen Dolor) ou Elías Taño (Arròs Negre) - para participarem. E não apenas de uma forma óbvia de ilustrar partes dos textos mas fazendo até BD e obrigando o texto a ficar preso para sempre das imagens - temos de aplicar esta fórmula nos nossos livros literários um dia destes e sermos nós a imitar os espanhóis! Interessante...

Por fim, deixo a glória editorial final para o camarada Martin López Lam, que não lhe falta capacidade de provocação, experimentalismo e empreendorismo. Bem sei que a última palavra é repugnante nos dias que correm porque parece que todos nós, por falha total do sistema capitalista, temos de ser todos chico-espertos que devem correr à frente de todos. Ora como sabemos, se o sistema sempre afirmou que há líderes e seguidores e que não há espaço para todos serem o número 1, o empreendorismo que se promove nos dias de hoje parece antes um "socialismo" para tolos. Martin por acaso até podia ser o número 1 ou um líder porque não está preso aos formalismos espanhóis desta Europa cansada, uma vez que o autor é peruano de origem. Este facto, e a sua emigração para Espanha, dá-lhe uma liberdade de pensamento e de acção que ultrapassa os outros valencianos sedentários. Daí que o Tenderete seja obra sua ou as Ediciones Valientes sejam mais cosmopolitas, atentas ao mundo para além do bairro e surpreendentes como provam as duas belas edições acabadas de sair. O número nove do El Temerário mostra como deve ser um "graphzine"! Duas cores e num formato maior que o A4 que é para os desenhos terem poder de nos causar perturbações! Se há muito que estou farto de ver graphzines (sobretudo portugueses e do Porto!) com este novo número voltei a ter fé neste tipo de publicações cheias de desenhos. Assim sim! Depois há o Chemtrail, um desdobrável que pode dar em poster mas que na realidade é uma BD feita de acasos imaginativos e manipulação digital drogada. Um produto a afastar das crianças, não por cenas explícitas mas porque as cores podem fazer danos mentais! Gracias Martin!

sábado, 16 de janeiro de 2016

Valência é o centro do mundo...

Lá estivemos em mais uma edição do Tenderete e voltamos sempre de mão cheias tal é a bibliodiversidade que vai parara este evento, que entretanto cresceu imenso ao ponto da "última Laica" - num espaço institucional, "clean", para "toda a família", cheio de gente... E havia de tudo para todos!


Até lá havia fanzines para "garajeros" como Me Gusta Más Que Desayunar Un Herpe que já vai no número 17 dedicado a "homens das cavernas". O "primitivo" faz parte dos ingredientes de quem gosta de guitarras com urros animalescos à procura da inocência perdida do Rock dos anos 50 e 60, aliás o primitivo faz parte dessa era do nascimento da cultura Pop se pensarmos no ícone que são os "Flintstones". Com uma capa em capa em serigrafia, este fanzine mostra desenhos e artigos em volta do tema e "oferece" ainda um CD com treze bandas espanholas retro-primitivas. Para quem gosta deste género anacrónico esta é a referência, da minha parte gostei de ouvir Pedrito Diablo y los Cadáveres e Islas Marshall por serem justamente as mais "modernitas"...

Para "metaleros" mas com costela punk e power-violence estava lá a Industrias Doc que reduz a vida industrializada a cancro, gentrificação e rotinas desumanas. Com um aspecto brutista podemos fazer algum paralelo ao "nosso" Rodolfo Mariano mas Doc é directo enquanto Rodolfo é labiríntico. Oscure : Comic compilation vol. 1 (2014) é curioso como o "underground" no século XXI é super-burguês, longe vão os dias das fotocópias mal-amanhadas e sujas... Nos dias de hoje em que tudo é barato fazer, com um bom aspecto concorrente a qualquer publicação profissional, os zines aparecem com toques de luxo como uma capa em serigrafia, com tinta dourada e umas rodela prateadas a fazer de olhos prá "calavera" da capa. "Ser rebelde é um luxo?" O paradoxo não é novo bastando lembrar como Guy Debord exigia que os livros da Internacional Situacionista tivessem um ar vistoso como provocação gráfica à sociedade burguesa e vaidosa... Será que há esse mesmo pensamento por aqui e noutras edições de "arte grotesca"? Ou é apenas porque a Morte mete respeitinho?

Quem curte programas de culinária e Gore - não sei, deve haver alguém assim! - Mortal Chef (ed. de autor; 2014?) do sempre hilariante Jorge Parras é a solução de leitura!
Lembra a saudosa Arght! pelo aspecto geral da publicação... mas só publica uma BD (não está assinada sabe-se lá porquê) que se constrói como uma simulação dos concursos de TV de chefes cozinheiros só que refogado com um bocado de Carcass, Cannibal Corpse e Mike Diana tal o nível de violência estúpida que os concorrentes infligem sobre eles próprios.
É uma crítica à sociedade Big Brother e do Narcisismo a três cores... Ou será antes um ataque a quem elegeu a Culinária como um novo Deus?

E para verem que não estou a brincar com o facto que Valência é o centro do mundo, até o Clube do Inferno lançou lá um zine novo do Mao. Um regresso aos temas "eco-biológicos" que estão bem assentes na obra deste autor - Radiation lembram-se? - e outra vez visíveis nesta Bd que relata uma metamorfose de uma colónia de abelhas graças ao "Pop trash" humano. Colony Collapse Disorder como título já nos conta tudo, só falta é verem as imagens. Muito boas!

Bravo Champion (Jean Guichon; 2013) de Antoine Erre é a razão porque mais vale ir ao Tenderete do que a Angoulême. Este zine é preçado conforme o preço da cerveja no evento em que se encontra à venda. Ora como uma "cerveja" é mais barata que uma "bière" e já andava a namorar este título, em Valência foi logo sem pensar... Trata-se de uma BD desenhada com caracteres em "word" ou processador de texto num computador, em que as imagens são substituídas por palavras como por exemplo, o céu invés de desenhado é preenchido por várias palavras "céu" (ou melhor, "ciel") ao longo do seu espaço. Um chapéu tem a silhueta de um chapéu mas novamente toda ela está escrita com essa palavra ("chapeau").
Na poesia visual isto não é uma novidade mas um gajo tem sempre de esperar uns anitos para estas novidades gráficas cheguem a ela. A história mete deficientes motores e é melhor que aquela BD xunga para cegos.
Por falar nisso, o Ilan Manouach vai apresentar o seu projecto Shapereader em Angoulême. Merde! Se calhar Angoulême ainda vale a pensa visitar...

Mais terror, ou pelo menos uma tentativa: Obscuro : 4 Relatos de Terror para El Mañana (Inefable Tebeos; 2014), uma antologia com quatro autores que prometem mais do que dão em relação ao tema... Victor Puchalski é o mais bizarro com a sua estética "mash-up" Charles Burns & Jack Kirby & King Diamond sobre os planos interdimensionais da cultura VHS mas é Adrián Bago González o que dá mais gozo ler com o seu texto em que aplica o materialismo dialéctico sobre a condição de autor de BD. No mínimo, muito divertido e pouco aterrador! Mas a surpresa maior é que este colectivo de bons artistas gráficos é que são na realidade editores de "puta-madre" sobretudo quando se metem a apostar (uma aposta de loucos porque toda a gente se está a cagar) em publicar Clássicos da BD. "Clássicos" aqui significa BDs antes ou paralelas à maldita História oficial da BD que dá primazia aos Heróis norte-americanos da imprensa, vejam o catálogo da El Nadir para perceber que eles publicam BDs do Caran d'Ache, Töpffer, Doré, etc... São loucos estes valencianos!

E o que não faltam é projectos! Nimio é uma "revista" de BD para putos teenagers... claro que tem um aspecto de fanzine velha-guarda, assim mesmo em formato A5, fotocopiado em papel reciclado, quentinho e fofo, onde poderia lá caber os "nossos" André Pereira ou Afonso Ferreira devido aos universos "cool" pós-Adventure Times. Também lembra muita BD francesa pós-Lewis Trondheim e cia. Será que este colectivo irá crescer como modelo editorial e profissional para chegar ao seu público-alvo? Espero que sim! A energia está lá...




A Apa Apa é uma editora de Barcelona que tem em catálogo alguns nomes "pesos-pesados" da BD anglo-saxónica (Tom Gauld, James Kochalka, Dash Shaw, Ron Regé Jr., John Porcellino,...) mas também edita autores espanhóis dos quais destaco os autores do livro Dictadores: Francisco y Leopoldo (2013) de  Sergi Puyol e Irkus E. Zeberio. A nossa Direita, Leopoldo II, esse grande cabrão belga que cortava mãos aos congoleses (tema explorado cá através do Vumbi e o Papá em África) e ainda mais à Direita o filho-da-puta do Franco, fascista espanhol. Um "split-book" combate de boxe com duas ficções gráficas usando as figuras destes monstros que dominaram povos. A "spread" final e central do livro, onde se cruzam os dois livros, deixa um bocado a desejar onde se quer chegar com ambas BDs apesar de mostrarem a crueldade das criaturas. no caso de Franco até aparece como um salvador de uma invasão alienígena no futuro, uma metáfora ao seu conservadorismo. Graficamente faz lembrar a estética que a No Brow impingiu nos últimos anos, em que ilustradores muito coloridos fazem umas BDs sem conteúdo. Estas BDs parecem estar no limite disso mas parecem que com o tempo são capazes de nos dar mais leituras sobre elas... Assim espero!

E vou fechar isto aqui... falta ainda escrever sobre as últimas edições da Canicola, o Mangaro do Le Dernier Cri e o último livro do Camarada Martin Lopez Lam (um dos fundadores do Tenderete)... todos merecem "posts" à parte. Vamos!

Joe Kessler faz parte da nova fornada de autores que apareceram naquela ilha nojenta chamada Inglaterra mas a sua abordagem à BD parece-me empenhada e séria - longe de fazer Bd porque está na moda por lá. Windowpane (Breakdown Press) é a sua publicação que já sairam três números (entre 2012 e 2015) em que vai juntando vários trabalhos curtos seus. Com boas bases literárias, narrativas bem pensadas e um desenho merdoso (já foi apelidado como o "pior artista da ilha") mas sem-medos (tal como Frank Santoro) e sem pudor de rapinar (é um gajo inglês, piratear está no sangue real!) e usando as práticas erráticas da risografia, Kessler é uma boa leitura e a ter atenção.

Alguns destes títulos vão estar disponíveis na próxima Feira Morta no final do mês na SMUP (Parede), apareçam...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Parte de todo esto


Martín Lòpez Lam
De Ponent; 2013

As pessoas são burras, estúpidas, egoístas, complicadinhas, fodidas da carola seja em Lisboa, ou no Porto, em Barcelona ou Valência, Lima (no Perú) ou Ponte de Lima já agora. Este é um livro sobre isto. Quer dizer, não é... é sobre pessoas, as suas relações com outras e o meio que as rodeiam. Se calhar nem é isso, na realidade é uma forma do autor falar sobre a sua relação com o seu país-natal, o Peru - Martin emigrou para Espanha, para a cidade de Valência, há uma década e tal.
Talvez as suas histórias em Lima poderiam ser as mesmas que se fossem em Lisboa - as pessoas são as mesmas em todo o lado, a diferença é que em Lima de vez enquando explodiam bombas implantadas pela Sendero Luminosa, uma organização terrorista de teor marxista que operou no Perú entre a década de 80 e 2000. Não havendo feridos dessas bombas nem se querendo um retrato jornalístico ou antropológico, é a forma como se vive e como se conta que faz a diferença, dentro de uma tradição de raiz latina-americana na BD onde vamos encontrar os irmãos Hernandez e o mestre José Muñoz. Martin apesar de novinho e só com este livro já se meteu ao lado destes! Só lhe falta a fama e respeito que os outros têm! Como é possível?
O livro é pesadão com as suas 200 e tal páginas cheias de tinta da china à pincelada - a lembrar o registo gráfico do belga Joe G. Pinelli - num tamanho de álbum que deverá meter inveja a muito francês tosco. O livrão junta várias BDs - algumas ensaiadas no seu zine Kovra - que são fragmentos autobiográficos e auto-ficções de Martin na sua juventude nos anos 90 no Peru. O texto é tão pesado como o livro porque não obedece à regra comercial da BD do pouco texto mais imagem tão em voga nos dias de hoje mas também não escreve para ser redundante - o texto não repete a imagem. O teor literário desta obra pode ser encontrado em outros autores de BD que também partilham a autobiografia como Eddie Campbell (o seu trabalho com Alec), Fabrice Neaud e o referido Pinelli ou a auto-ficção como Adrian Tomine nos bons velhos tempos do Optic Nerve. Não se sabe onde está o Martin nas várias personagens que aparecem nas BDs, não sabemos se ele é tão cínico nas suas opiniões pessoais - tudo diria que sim a julgar pela sua participação no Boring Europa - ou se é tão tarado pelo sexo oposto (idem idem aspas aspas) como se vê e lê com as personagens do livro.
A beleza do livro é como todos os pensamentos dessas personagens, alter-egos de Martin, vão criando um sentido e uma resposta final sobre o que Martin pensa sobre o seu passado. Se ele alguma vez o Martin voltar a Portugal para alguma feira de edição independente (esteve duas vezes na extinta Laica) não lhe perguntem pelo Peru mas comprem-lhe este livro, sff.

Este é para mim já um dos livros de BD de 2013. E não é à toa que é um livro que serve para várias interpretações. O próprio autor já tratou até disso publicando o Dote de poto a tres (Ed. Valientes; 2013) descrito como um «zine improvisado e realizado a partir de desenhos e vinhetas da BD "Parte de todo esto", do mesmo autor junto a outras imagens encontradas».
Trata-se de um "comix-remix" sofisticado de reaproveitamento de imagens com um texto completamente novo. As estruturas narrativas de Parte de todo esto não influenciam em nada este novo trabalho, o uso é exclusico sobre o(s) desenho(s) para contar algo diferente, tanto que a "literatura" de Martin prevalece sem ter-se de vergar à figuração humana para avançar o texto. Obra independente do "livrão", não é preciso o grandalhão para "perceber" este. Genial!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Piru piru piru pompero


Em Valência conhecemos o Martin López das Ediciones Valientes, que editou o zine Combate, e trocamos algumas edições que deverão estar disponíveis para a próxima sessão do PEQUENO é bom!, dia 3 de Outubro (Domingo) na Casa da Achada.
Das suas edições destaco o Kovra #1 (Fev'10), zine A5 antológico em que por apenas 3 euros têm-se acesso a boas bd's de autor que variam entre a crítica social, registos autobiográficos, escatalogia e alguma experimentação. Participam Jorge Parras (do Argh!), Álvaro Nofuentes, Rodrigo La Hoz, Pablo Soto e o próprio editor, Martín López - cujas bd's de vivências urbanas lembram os filmes Nouvelle Vague (pelo desnorte e desepero que a vida moderna trouxe), os ínicios de Jaime Martin (talvez pelo nome e por ser em castelhano, jajajaja) e graficamente o Eddie Campbell. Sem dúvida a melhor publicação que trouxemos de Espanha, que pelo facto de estar em castelhano chegou incólume a Lisboa enquanto todas as outras edições esgotaram-se pela "Europa aborrecida"!


Na estadia de dois dias em Valência, preocupado com o diário gráfico da tournê, achei a melhor solução para poder participar sem os meus desenhos duvidosos era fazer entrevistas aos organizadores que nos receberiam. Assim ao entrevistar o Martin descobri que é do Peru, e claro, comecei a chateá-lo a perguntar pela cena peruana. Arranjou-me alguns zines e livros, que destaco o Carboncito #11 (Dez'08) revista A5 e o livro Y se me presento en forma de Bestia (Contracultura; 2008) de Jorge Pérez-Ruibal, autor que já tinha topado aqui e participado no Último Fósforo. A revista varia entre uma produção amadora (cheia de clichés e muitas vezes a piscar o olho ao comercialismo) e uma produção de autor interessante como a de Manuel Gomez Burns. No meio estão convidados de Espanha (Alberto Vasquez), Colombia (Alvaro Velez) entre outros países latino-americanos. É interessante para conhecer a produção daquelas bandas mesmo que de vez enquando parece que estamos numa máquina do tempo como é o caso da bd David Galliquio, sobre uma banda punk que lembra o Kebra do francês Jano nos anos 80. Já o livro "Bestia" é puro prazer. Junta várias bd's e ilustrações de Pérez-Ruibal, algumas autobiográficas outras 100% maldosas (tipo satânico-escatológicas) a lembrar Kaz e Mike Diana, mostrando que a Aldeia Global está a funcionar a 100%.
Estas edições e outras estarão à venda no próximo Pequeno é bom! mas poderão ser feitos pedidos antes para o e-mail ccc@chilicomcarne.com. Descontos para sócios e ofertas de algumas edições aos primeiros pedidos.

sábado, 20 de julho de 2019

Há uma estrela nova na Chili Com Carne ... com boa crítica n'A Batalha


RUBI é uma colecção nova da Chili Com Carne dedicada a romances gráficos à escala global. Mas sobretudo será uma selecção criteriosa de Romances Gráficos, para contrabalançar a literatura "light" que tem inundado o mercado português nos últimos quatro anos.

O primeiro título desta nova colecção é Sírio de Martin López Lam (Peru/ Espanha) que saiu na Raia 3, em que o autor esteve presente. Sírio foi originalmente publicado em Espanha, pela Fulgencio Pimentel em 2016. Traduzido para português por Ana Menezes. Editado por Joana Pires e Marcos Farrajota e publicada pela Associação Chili Com Carne. Foram impressos 500 exemplares deste livro, dos quais 100 exemplares oferecem um ex libris assinado pelo autor, se for adquirido directamente à Chili Com Carne.

À venda na nossa loja em linha e na Tasca Mastai, BdMania, Kingpin Books, Tigre de Papel, Linha de Sombra, Cotovia, Mundo Fantasma, Utopia, Legendary Books, A Banca, StetMatéria Prima, Black Mamba, Archibooks (Fac. de Arquitectura de Lx), FNAC, Leituria, Bertrand, XYZLAC e Ugra Press (Brasil).

Que raio de capa é esta? É a capa e a sobrecapa!

López Lam (Lima, 1981) acompanha um casal que passa uns dias perto do mar aproveitando a época turística baixa, numa casa de uma dessas urbanizações no meio do nada, um não-lugar em que o seu isolamento quase total submete as suas possibilidades de comunicação e as suas personalidades a uma espécie de prova de fogo em que o tédio e o mistério são os catalisadores das suas horas, distorcidos apenas pelos ruídos (grande representação onomatopeica da natureza!) e pelo crime sem grande explicação que acontece na casa do lado. 
Felipe Hernández Cava 

É como o hotel gerido por Ava Gardner em A noite da Iguana (1964) de John Houston. Transforma-nos numa personagem ativa dentro de um espaço passivo, em que acontecem as coisas e onde somos meros observadores, não por vontade própria, mas pela vontade do autor. 
Miguel A. Pérez-Gómez 

...


Martin López Lam [Lima, Peru; 1981] é duplamente Licenciado em Belas Artes, tanto no Peru como em Espanha, onde reside desde 2003. quando não está a brincar com susto, o seu cão, divide o seu tempo entre o desenho, impressão em serigrafia, auto-edição (as maravilhosas Ediciones Valientes são dele!!!), BD e eventos de edição independente (é um dos fundadores do Tenderete, em Valência).

Tem recebido vários prémios, foi o importante "Premio Internacional de Novela Gráfica Fnac Salamandra Graphic" de 2018. Publicou em várias antologias internacionais: ARGH!, Qué Suerte! (Espanha), Puck Comic Party (Itália), Carboncito (Peru), Mesinha de Cabeceira (Portugal), Kus! (Letónia) e Kuti (Finlândia)...

Apesar de ter participado em vários eventos de edição independente (Feira Laica e Feira Morta) ou ter divulgado imenso as artes gráficas portuguesas em publicações ou eventos (como o Tenderete), o seu trabalho só foi publicado em Portugal no livro colectivo Boring Europa (2011) e no número 23 do zine Mesinha de Cabeceira (2012), ambos pela Chili Com Carne. Faz-se agora justiça com este Sírio.

Bibliografia Parte de Todo Esto (De Ponent, 2013), Sírio (Fulgencio Pimentel, 2016; Chili Com Carne, 2018), El Título No Corresponde (Valientes; 2016), Ensalada Mixta (Le Dernier Cri; 2017) Colectivos (selecção)  Boring Europa (Chili Com Carne; 2011), Mesinha de Cabeceira #23 (Chili Com Carne; 2012)...












Foi feito um Ex libris limitados a 100 exemplares para este livro lindo! 
Aliás, Martin López Lam aproveitou a sua presença em Lisboa para o lançamento de Sírio e para a execução de uma serigrafia pela Oficina Loba.





FEEDBACK

 o livro é uma excelente edição - parabéns!
A. Silva (email)

é sem dúvida o melhor livro publicado pela Chili que já li! Ficção bem feita, que mantém a tensão e o mistério até ao final. Lembrei-me imenso de uns contos do Ballard passados precisamente em estâncias balneares em Espanha ou nas pensões e ruas desertas de Cocoa Beach onde não se percebe se houve um colapso civilizacional ou o fim da época alta. Assim que comecei a ler tive a noção de que a narrativa não iria trazer grandes surpresas, mas digo-o no bom sentido. Isto absorve o leitor pela sua estaticidade e por sabermos que as personagens se encontram num beco sem saída, ainda que inscrito numa paisagem aparentemente cheia de espaços abertos. Talvez por isso eles se percam quando tentam sair dela. Fim do mundo. Graficamente é incrível.
André Coelho (email)

Basta um relance para se perceber o teu dedo editorial neste objecto que é bem distinto, quase uma peça de artesanato, cheio de melancolia, sonhos febris e contemplações interiores a entrecortar o silêncio e a desolação dominantes. Julgo que o grafismo dificilmente poderia ser mais eficaz a ilustrar todos esses ingredientes, por forma a que a relevância das ambiências e das sensações se sobreponha à narrativa. E no final soa de facto como uma viagem a uma constelação estranha e distante...
Nunsky (email)

Como refere Álvaro Pons, Sírio destila força, sendo uma narrativa visceral e em estado puro, esmagadora.
Bandas Desenhadas

Desenhado em tons de azul e amarelo, Sirio foi descrito pelo autor, numa entrevista à agência Efe em 2016, como um 'thriller' que se mistura com uma teoria filosófica sobre a vida e a morte, o amor e a apatia. "Desde início a intenção da banda desenhada foi mergulhar o leitor numa espécie de experiência narrativa que suporta a história, porque o argumento é bastante pequeno e pode resumir-se numa frase. Mas não tive a intenção de contar uma sucessão de anedotas, reflexões ou acções; tinha de ser algo como uma não-acção, uma anti-história", disse o autor na mesma entrevista, quando o livro saiu em 2016 em Espanha.
Lusa / DN

Na Lista de Melhores Livros de BD de 2018 do Expresso
Sara Figueiredo Costa

5 estrelas no Expresso

(...) recuperado o fôlego, que a coisa acaba em alta voltagem cinemática –, nos assalte a tentação de declararmos que em Sírio o verdadeiro personagem principal é a paisagem. Não chegando a tanto, diríamos antes que o fulcro deste livro é o efeito entrópico da paisagem – ou ambiente – em dois personagens, que se deslocam até esse outro lugar já munidos de uma semente de dissolução. Ora esta paisagem é composta por onomatopeias de bichos perdidos, uma rede sobrenatural de luzes na noite, sombras a crescerem sobre ervas que parecem destinadas a engolir tudo, pelo menos uma nuvem obscena e, por entre tudo, viscosa, a canícula que embrutece. (...) 
António da Cruz in A Batalha

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Boring Europa ::: últimos 12 kilometros, digo, exemplares!!!

 

primeiro volume nova colecção da Chili Com Carne, LowCCCost, dedicada a livros de viagens
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de Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins 
e Sílvia Rodrigues


em Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França
8000 km / 15 dias


sobre a tour europeia da Chili Com Carne realizada entre 1 e 15 de Setembro 2010 nas cidades de Valência, Bolonha, Ljubjana, Pancevo, Graz, Berlim, Poitiers e Vigo.


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participações especiais de Karol Pyrcik, Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Simon Vuckovic, Vuk Palibrk, Christina Casnellie, Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz, e ainda com Gasper Rus, David Krancan, Matej de Cecco, Matej Lavrencic, Katie Woznicki, Letac, Boris Stanic e Johana Marcade nas comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo.


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banda sonora gratuita em linha: "A Grande Explosão" de Ghuna X via Phonotactics


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128 p. 23 x 16,5 cm impressas a azul escuro, capa impressa a branco sobre cartolina Dali bluemarine 285 gr com badanas; ISBN: 978-989-8363-11-4

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últimos exemplares à venda no sítio da CCCFábrica Features, Matéria Prima, ZDB e Mundo Fantasma.

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sobre o livro: a tournê europeia Spreading Chili Com Carne Sauce in Boring Europa tinha como objectivo principal divulgar o trabalho da Associação e dos seus artistas. Até pode parecer um acto desesperado de querer mostrar "à força" o nosso trabalho mas, desde sempre, a CCC trabalhou com projectos e autores estrangeiros – Mutate & Survive, Mike Diana, Greetings from Cartoonia, MASSIVE, Festival Crack, etc... O problema é que quase nunca vemos estes nossos amigos, dada a solidão imposta pela nossa posição periférica. Fomos dizer "olá" ao pessoal amigo! E aos que só comunicávamos por correio! E, claro, conhecer malta nova! Fomos percorrer 8000 Km de Europa em 15 dias oferecendo um pacote completo de cultura underground portuguesa a quem nos recebesse: concertos de R- e Ghuna X, festa animada com o unDJ MMMNNNRRRG, exposição de impressões e serigrafias, e, claro, uma enorme selecção de zines, livros e discos independentes. Em troca queríamos apenas simples alojamento, comida (se fosse possível à organização) e dinheiro das entradas para os espectáculos. Se os punks e metaleiros fazem isto porque não podemos fazer a mesma coisa com livros? Get in the van!


Decidimos chamar a coisa de boring, pelo sim pelo não, porque vivemos numa uniformização cultural capitalista à escala global - como tão bem ironiza Jakob Klemencic algures no livro - em que as identidades nacionais ficaram reduzidas a meia dúzia de artefactos rurais e rituais anacrónicos prontos para serem vampirizados pelos comportamentos fotográficos dos “turistas = terroristas”.


Desde o início pensámos que só podia ser bom editar um livro com os desenhos dos viajantes - um relato on the road das pessoas com quem nos cruzámos, das cidades e dos países que visitámos, etc... Era impossível de falhar: seis pessoas a desenhar, seis livros de esboços fundidos num livro "oficial". Pura ingenuidade! A excitação de conduzir, o esforço físico de alguns trajectos, a desistência da Sílvia Rodrigues, logo ao terceiro dia, e a falta de confiança em desenhar da maior parte dos participantes deixou-nos apenas com UM caderno de esboços da Ana Ribeiro. Todas as outras participações tiveram de ser feitas à posteriori, complicando com os prazos pessoais e profissionais de quem gozou estas férias diferentes. Juntámos textos, BDs, desenhos “acabados” bem como “esboços” da Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins e Sílvia Rodrigues; e bds de autores estrangeiros que relatam a recepção da nossa “caravana” - Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Vuk Palibrk e Christina Casnellie. Outros cederam-nos desenhos ou bds sobre viagens para enriquecer esta edição - Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz. Compilámos as melhores BDs-cadáver-esquisitos ou comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo - são bds feitas numa sessão com várias pessoas em que cada um desenha uma vinheta continuando o trabalho dos anteriores perdendo-se sempre o controlo do avanço da “estória”.
Em "Lissabon", a Karol Pyrcik ficou a tomar conta das gatas do Marcos e da Joana, e a fazer um diário gráfico sobre a sua estadia, contrapondo as nossas visões, mas fez batota e produziu umas divertidas ilustrações sobre futilidades lisboetas e quotidianas.
Criámos um inovador “Frankenstein comix” ou uma Babel impressa? Em breve teremos reacções a este livro. Esperamos ter surpresas exteriores tão agradáveis como as que tivemos quando chegávamos aos sítios durante a digressão. 


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Apoios (tour e livro): GRRR Program + Centro Cultural de Pancevo, IPJ, MMMNNNRRRG e Neurotitan

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Historial: Realização da tour Spreading Chili Sauce around Boring Europa (1-15 Set) ... Lançamento 27 de Março na MapDesign (Lisboa) e 2 de Abril na Feira do Jeco (10 anos dos Maus Hábitos) ... referência no Gabinete de Crise ... Cabaz Underground (sorteio dia 3 de Abril nos Maus Hábitos) ... reportagem na Câmara Clara (RTP2) ...


Feedback : 
reacções de viajantes aqui 
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I love tour books about la merde de la europa / jes we can Igor Hofbauer 
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O nome dificilmente poderia ser mais sugestivo e paradoxal (...) Porque, por mais quilómetros que façamos (...) o Velho Continente é cada vez mais um corpo uno. Ainda assim, o que vem dentro das páginas (...) é tudo menos entediante. Muitas ilustrações, desenhos e BD, uma forte componente gráfica e um sem-número de diálogos impróprios para gente sem sentido de humor. Tudo a duas só cores, azul e branco. Rotas & Destinos 
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(...) espécie de périplo autoreflexivo na forma mista de diário/ reportagem sobre uma viagem por uma Europa de movimentos independentes, que se transforma numa espécie de mini-manifesto (é algo pomposo, mas adequado) sobre modos de pensar a arte, a vida, o mundo. Destaque aqui para o importante trabalho de Marcos Farrajota, que, com todas as suas limitações formais, tem aqui um papel crucial ao unir as diferentes contribuições e preencher espaços em branco, destacando-se ainda o seu olhar sobre as várias contra-culturas que o grupo vai encontrando na viagem, entre a extrema empatia/ admiração e o desprezo ácido (o episódio de Berlim é particularmente elucidativo). Sem este fio condutor o livro seria uma amálgama de acasos individuais, e não faria grande sentido. JL 
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(...) é um livro que deve tanto à mítica Torre de Babel como às auto-estradas europeias, misturando várias línguas e registos tão diversos (...) Surpreendentemente, o resultado é tão coerente como são caóticos os dias aqui retratados. Mais do que uma colagem de histórias e fragmentos, Boring Europa é um livro de viagens, uma aventura em 8000 quilómetros de estrada e, sobretudo, um contributo relevante para se pensar a Europa e as suas relações internas. Agora que a ajuda entre países (mais ou menos forçada) anda na boca de toda a gente, seis pessoas e uma carrinha dizem mais sobre as vias possíveis para o encontro e sobre a capacidade de nos conhecermos para lá das fronteiras do que todas as directrizes da União Europeia. Sara Figueiredo Costa in Ler 
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Hace casi un año tuve la oportunidad de presenciar una de las exposiciones más atrevidas y frescas de ilustración y cómic de todo el tiempo que llevo dedicado al mundo gráfico y a la autoedición. Acostumbrado a una corrección profesional y buen rollista, que muchas veces rosa el aburrimiento y mojigatería, que encuentro habitualmente en la gráfica convencional -en la prensa, en la calle y en las estanterías de las librerías-, la expo-guerrilla del colectivo portugués Chili Com Carne resultó ser un contundente puñetazo visual e ideológico que demostraba, con la práctica, otras maneras de entender la ilustración y el quehacer visual. La exposición duro sólo dos días y era la primera parada en el tour Spreading Chili Sauce around Boring Europe que llevó a los CCC por España, Serbia, Austria, Francia, Italia, Eslovenia y Alemania, en 15 días y cuyo diario de viaje, publicado bajo el título Boring Europa, cuenta el cómo, cuando, cuanto y por qué recorrer alrededor de 8000 km con una furgo cargada de fanzines, y puede servir como guía de lo que es la autogestión cultural. Martin López in Bólido de Fuego 
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Quase todas as histórias tocam, portanto, aspectos autobiográficos, referentes aos acontecimentos destas visitas, mas ao mesmo tempo são também testemunho de variadíssimas práticas alternativas. Não apenas da cultura (música, artes visuais, festas, feiras) mas também das práticas propriamente ditas. Ou seja, da angariação de fundos, da organização de eventos, na forma como se gere um fundo de maneio, nos modos como se criam alternativas ao(s) mercado(s) convencional(ais), como se recebem os convidados, da cozinha à dormida, e sem esquecer aspectos de turismo (...) E além disso, as jantaradas e conversas em torno de cervejas e cigarros, que levam a discussões breves mas que apontam a interessantes tomadas de posição face aos estereótipos, expectativas e jogos de projecção que o encontro de “nacionalidades” forçosamente fornece. São muitos os pormenores estranhos e curiosos deste livro, deste a sua forma de organização, à “sinalização” que identifica as autorias, até ao tal orçamento ou custos da aventura, e os dados dos espaços visitados, que poderia até funcionar como convite à visita dos leitores (...) Pedro Moura in Ler BD 
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Um livro on the road, desenhado durante e após o tour dos autores num registo quase sempre próximo do biográfico. Foram 8000 Km de Europa percorridos em 15 dias, a bordo de uma carrinha e com orçamento reduzido. Mais do que um pout-pourri colado à pressão do trabalho dos diferentes autores, existe nesta obra um vero fio condutor (no pun intended), graças a um excelente trabalho de editor. É também um importante testemunho da existência de alternativas: à edição, à distribuição, à venda, à performance, à BD, à música, à arte, ao entretenimento, à festa, à viagem, à estadia, à habitação, ao turismo, à amizade, ao conformismo. E paralelamente vai-se criando a evidência de que, enfastiante ou não, não existe uma mas sim várias Europas. Afinal, mais do que estereótipos nacionais, somos todos indivíduos. Bandas Desenhadas



 exemplos de páginas:

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Dead Scene

Aconteceu mais uma Feira Morta este Sábado (na porreira Cinemateca) mas há  poucos motivos de entusiasmo tirando o facto de ter sido uma festa para encontrar amigos e conhecidos logo a seguir às férias, e claro, a visita do Camarada Lam de Valência - um grande artista e editor que parece-me que pouca gente reparou, na típica timidez parva dos portugueses. De resto? Mesma coisa de sempre, promoção fraca, programação paradoxal... E infelizmente, as mesas dos editores e dos artistas têm se apresentado como já há algum tempo em apenas meia-dúzia de folhitas agrafadas que voam muito facilmente quando vêm uma rabanada de vento. O que se passa com os estes ilustradores / autores de BD que pouco fazem? Que produzem ligeirezas? Será impossível de (ser eu a) responder a tal mas o inverso de tudo isto estava a poucos minutos a pé da Cinemateca quando se comemorava o dia de "open studio" na escola MArt. Falo de Rodolfo Mariano que nesse mesmo dia apresentou o seu trabalho enquanto artista residente, onde finalizou e lançou o livro Outro Mundo, Ultra Tumba.

Em formato A4 auto-publicou 44 poderosas páginas, trabalho desenvolvido durante os últimos cinco meses entre Coimbra e Lisboa. Ao que parece, para além dos livros, no "open studio" tinha os originais para consulta/ apresentação e estava disponível para toda e qualquer questão acerca do seu trabalho e projectos que está a desenvolver. Não deveria ser a Morta ser assim ou então o Mariano estar nela? Estamos num mundo às avessas sem dúvida...

Este OMUT é um pequeno colosso gráfico DIY que mostra trabalho, esforço e persistência. Tem uma estrutura clássica de narração, tipo Sherazade ou Os Contos de Canterbury, ou seja, personagens contam histórias uns aos outros ou se preferirem, há histórias dentro de histórias. Neste caso é uma guitarra, uma caveira e três alienígenas a mamarem vinhaça num descampado que vão contando cenas, topam? É o que as pessoas, se fossem ainda humanas, deveriam fazer sempre desligando os smart-phones e o fezesbook...

A "coisa" quase roça para o Heavy Metal fajuto de "Espada & Bruxedo" mas usa calão da streeta para não cair no ridículo. É que ridículo já o é a fantasia e o palavreado do Metal mas como Rodolfo eleva-a ao quadrado, a coisa torna-se airosa de se ler. Ehm... Mesmo assim, admito que adormeci duas vezes ao ler a sua prosa literária mas a desculpa é que além de não perceber nada da exagerada confusão que vai práqui (mete meta-física à Hawkwind acho) e estar-me a cagar para o que está acontecer na realidade (o pós-modernismo não perdoa), o livro tem ainda "power" - é das poucas edições DIY actuais que se não tivesse texto e fosse mais um dos milhares de "graphzines" que andam praí, ainda assim o compraria!

Desenhos lambidos para quem curte o Dark sem homo-erotismo ou folhados à D'Artagnan, grafismo de autista Art Bruteiro (quem viu os originais diz que são maravilhosos!) ou para quem esta em sintonia com o Petit Comitê del Terror e outros monstros pictóricos pela Europa fora. Tem algo de excitante como os primeiros zines de David Soares ou o Carneiro Mal Morto de Rafael Gouveia nos finais dos anos 90, é material negro mas não cheira a mofo. Seja quais as razões que Mariano tem para escrever ou desenhar assim, independente do que transmite ou que o leitor perceba, topa-se que a produção vêm do fundo do seu corpo (da próstata ou do dedo médio do pé tanto faz) e que essa pujança não pode ser apagada nem esquecida. No meio de tanto zines e/ou livros monográficos que pupulam na Morta poucos se erguem e mantêm-se de pé como este pequeno menir impresso do século XXI. Parabéns, meu!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Mangalho!

Heta-Uma / Mangaro
v/a
Le Dernier Cri + MIAM; 2015

Ainda estamos em Valência... Esteve lá também o Le Dernier Cri em modo de azar, uma vez que os seus livros tinham ficado por entregar pelos correios (é o que dá privatizar um serviço destes!) e por isso ficaram com uma banca reduzida mas onde encontrei esta deliciosa edição dedicada ao grafismo e BD underground do Japão.
São dois catálogos num só livro excessivo graficamente como é apanágio do LDC representando duas exposições em França, uma no "Museu das Artes Modestas" em Sète e outra na sede do LDC em Marselha.
A primeira era dedicada à arte à margem de criativos japonesas que "desenham mal" (é o estilo "heta" - daí termos uma tal de Hetamóe para quem não tinha ainda descodificado o significado do pseudónimo desta autora) com alguns autores já nossos conhecidos como Shuehiro Maruo, Yusaku Hanakuma, Daisuke Ichiba, Norihiro Sekitani, Shintaro Kago, Nekojiru - lembram-se quando a Chili em 2009 tinha uma loja com isto tudo?
A segunda mostra era dedicada à revista Garo criada em 1964 que é seminal para uma primeira vaga de artistas na BD japonesa. Até 1996 passaram nesta publicação autores tão importantes como Seiichi Hayashi ou os recentemente falecidos Shigeru Mizuki (1922-2015) e Yoshihiro Tatsumi (1935-2015).
Claro que está tudo um caos no livro... perceber de quem são alguns dos créditos ou que situações são as que estão representadas é tarefa de cromo... desculpa-se porque isto faz parte do telurismo do Pakito Bolino, a cabeça e o mangalho do LDC. Descarga de informação à fartazana para um gajo se desenrascar! Felizmente existem um grupo de textos com informação limpa e bem colocada para se poder mergulhar nisto tudo. São loucos os japoneses e os franceses, especialmente quando estão juntos.