sábado, 27 de dezembro de 2014

De Belo Horizonte ao Inhotim





Belo Horizonte: Vista para a Avenida Afonso Pena, com parque de estacionamento em primeiro plano e favela em fundo
A pátina ainda não desceu sobre a capital de Minas Gerais. Fundada em 1900 à imagem de Paris para servir, décadas mais tarde, de laboratório de experimentação urbana à parelha Kubitscheck-Niemeyer, a cidade de Belo Horizonte brinda o viajante com algumas linhas elegantes e ousadas, alguns contrastes pensados, dando a impressão de não ser nem demasiado velha nem demasiado nova. Os prédios ainda são prédios, as ruas ainda são ruas. Será, no fundo, uma cidade vivível e onde se sobrepõem diversas modalidades de ocupação urbana ― das precárias tendas dos sem-abrigo que se erguem ao crepúsculo nalgumas zonas nobres do centro ao recém-construído edifício Michel Foucault, no bairro classe média do Prado. Mas adiante. Saindo da capital para sudoeste, atinge-se, ao fim de hora e meia, o Instituto Inhotim, nas imediações da povoação de Brumadinho. O Inhotim é um enorme parque consagrado à arte contemporânea, repleto de galerias e instalações ao ar livre, com jardins desenhados pelo arquitecto paisagista Burle Marx. A instituição, fundada em 2002 nos terrenos de um insigne empresário mineiro, assume-se hoje como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público e ponto de interesse turístico, onde a estética e a botânica se encontram com a responsabilidade social e o grande capital.

Instituto Inhotim

É domingo e faz bastante calor. No eixo laranja, a Galeria 15 alberga as célebres Cosmococas de Hélio Oiticica e Neville de Almeida. No interior arrefecido pelo ar condicionado, o visitante pode escolher entre cinco salas diferentes, cada uma delas propondo uma combinação particular de sons, imagens e experiências tácteis: por exemplo, balançar numa rede de dormir ao som de Jimi Hendrix ou, quem sabe (se o ar condicionado não se intrometesse tanto…), refrescar o corpo numa piscina equipada com balneário, por ora abandonada.
Mais à frente, a Galeria 18 é um velho estábulo que esconde uma obra de Carlos Garaicoa, Ahora Juguemos a Desaparecer (II), de 2002. No meio da escuridão, acercamo-nos de uma mesa de metal sobre a qual jaz uma cidade em miniatura bruxuleando à luz das velas. Aproximamo-nos ainda mais e percebemos que as velas são os próprios edifícios, feitos em cera, e que vão derretendo lentamente sob as chamas dos pavios que se mantêm acesos. Reparamos então tratar-se de uma metrópole compósita, misturando prédios perfeitamente anónimos com construções emblemáticas: é possível distinguir a catedral de Notre Dame, o Vaticano, o Empire State Building e o que resta da torre Eiffel. Dizem que o desvanecimento demora três a quatro dias a completar-se. Ao fim desse tempo, a massa de cera é recolhida e colocada em moldes com a forma dos mesmos edifícios. A maqueta volta a ser disposta sobre a mesa e, uma vez acendidos os pavios, o jogo recomeça. A instalação compreende ainda umas quantas câmaras de vídeo que vão registando e projectando o lento desaparecimento da cidade (a legenda da obra refere «vídeo, mesa de metal e velas»). Se o que aqui se entrevê reenvia, inevitavelmente, para uma genealogia de delírios urbanísticos onde também se inserem as fantásticas construções em Lego de Douglas Coupland ou a versão comestível de São Paulo confecionada por Song Dong a partir de bolachas e rebuçados, o que surpreende em Garaicoa é a sensação de intemporalidade que se desprende da sua cidade de sonho. Não fosse o vídeo, que dá ao conjunto o ar expectável de uma instalação contemporânea, e juraríamos estar em presença de um fantasmagórico divertimento barroco da era pré-industrial…
Regressamos ao exterior e damos com uma segunda Piscina, esta do argentino Jorge Macchi, esculpida em 2009 especialmente para o recinto do Inhotim. Aparentemente, uma piscina comum: distingue-se apenas pelos degraus que levam para dentro de água, descendo a todo o comprimento de um dos lados à imagem dos marcadores de uma lista telefónica, o primeiro com a inscrição ‘AB’, segundo com a inscrição ‘CD’, etc. Não seria preciso tanto. Como o calor aperta e o tanque está cheio, alguns visitantes atrevem-se à performação da obra de arte. As pessoas descalçam-se e entram na piscina de jeans, saias, calções, t-shirts… O facto de se estar entre amigos convida à descontração, ao chiste, ao despudor. Uma mulher de t-shirt molhada justifica-se perante uma amiga: «É que o seu homem está aqui, o meu tá em São Paulo!» Portanto, Macchi - 1, Oiticica / Almeida - 0. Resultado justo, mesmo reconhecendo que o time vencido actuou condicionado…

http://www.inhotim.org.br/




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