terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

DIOGO SEIXAS LOPES


Foto de Rui Cunha

Os jornais recordaram o arquitecto que se desdobrava em projectos, curadorias e ensaios profundos. Aqui ou ali surgiram menções ao livro Cimêncio, que publicou com o fotógrafo Nuno Cera (Fenda, 2002), e muitos ainda terão presente o seu trabalho jornalístico como crítico de música e cinema.
Cabe-nos a nós lembrar que Diogo Seixas Lopes se revelou desde cedo como um notável provocador intelectual, cujo talento se manifestou também na banda desenhada, na ilustração e na edição de fanzines.
Tivemos o privilégio de colaborar com o Diogo num tempo incipiente, de constante descoberta e troca de referências, em que tudo era pensado em conjunto. Discutíamos música e banda desenhada, desporto e cinema (que ele via, na altura, como um projecto de vida, mais tarde colocado de parte). Reuníamos numa casa vaga à Rua Luciano Cordeiro. Com poucos meios, traçávamos os planos de uma ofensiva cultural que queríamos grandiosa. Do raid fálico pela Feira do Livro de Lisboa (1989) à inédita epopeia em quadradinhos O Gorila Ajuda a Polícia (1989-1990), as iniciativas a que então nos propúnhamos visavam experimentar certas liberdades, subverter conteúdos estabelecidos e precipitar o choque, a desconfiança, a aversão. Preferíamos o popular ao artístico, a explosão à elaboração. A própria autoria se revelava questão incómoda, tornada propositadamente difusa para impedir veleidades carreiristas. Numa altura em que a publicidade e a autopromoção emergiam como estratégias de sobrevivência, escolhíamos o anonimato.
Das muitas ideias que então partilhámos, sobraram algumas páginas meteóricas nas publicações que editámos: Novos Panoramas do Globo / Baladas de Hollywood (1992) e Beijos Sonhos Vertigem Amnésia (1994). Aí é possível reconhecer — ou descobrir — a tremenda força expressiva dos desenhos do Diogo, mistura de humor e tragédia que sobressai com uma clareza quase incómoda para nós.
Infelizmente não foi possível contar com o seu tributo a Mário-Henrique Leiria, a Bocage e a Alexandre O’Neill no volume Heróis da Literatura Portuguesa (Íman, 2002), o qual foi germinado a três, por vezes nas horas mortas desses ateliers onde o arquitecto ia começando a sua carreira, outras no bar Geronte, ao Bairro Alto. Aí elaborámos a fórmula que se previa imbatível: três autores, nove narrativas, um extenso trabalho recriando em banda desenhada os ambientes literários de nove escritores portugueses. Desenhos colectivos, intermutáveis. As capacidades visionárias e combativas do Diogo seriam decisivas para dar corpo a este volume. Entretanto fomo-lo perdendo pelas mil curvas do caminho e o livro acabou por sair apenas a duas mãos. A arquitectura desafiava-o, com novas e profícuas parcerias que lhe trariam o merecido reconhecimento, enquanto a vida lhe pregava algumas partidas duras. 
Mas o contacto e, sobretudo, a amizade, mantiveram-se: almoçávamos frequentemente, de vez em quando íamos à praia, cruzávamo-nos em manifestações e concertos. Mais importante ainda, nunca esquecemos nem renegámos o que fizemos juntos. Mesmo que tudo não tenha passado de juventude, daí retirámos lições elementares que depois fomos explorando a outros níveis e noutros campos.
A morte deste grande amigo, embora esperada, deixa-nos destroçados e sem saber que mais dizer...
À sua mulher Patrícia, à sua mãe Maria João, à sua filha Mariana, assim como a todos os que acompanharam o Diogo nestes últimos meses, enviamos os nossos sinceros sentimentos.

Até sempre, Senhor Soberba!
Saravá, Jalomo!
Uga!

Daniel Lopes & João Chambel

'Feijoada Completa' (Novos Panoramas do Globo, 1992)

'Pedrados' (Baladas de Hollywood, 1992)
'Sempre em Festa' (Beijos Sonhos Vertigem Amnésia, 1994)

Mário-Henrique Leiria (inédito, 1996)


3 comentários:

Giso disse...

Lembro-me bem da Baladas de Hollywood. Ainda tenho uma cópia :-)
Sarava'!

Daniel Lopes disse...

Obrigado, "Giso". Beijinhos e abraço ao Nuno. Daniel

Giso disse...

Beijos nossos e muitas saudades