terça-feira, 24 de março de 2020

Saúde e Anarquia

Como sabem desisti de divulgar edições que escapam ao radar público desde que passei a colaborar no jornal A Batalha, tendo transferido essa tarefa para esse enorme prazer que se chama papel impresso.

Dado ao drama que vivemos e sabendo que a maior parte dos leitores tem medo de fazer assinatura de um jornal de expressão anarquista, decidi voltar a este blogue divulgar uma coisita ou outra para evitarem o lixo da edição nacional - já agora, para quem procura o melhor dos livros de BD em Portugal, consultem o sítio Bedeteca Ideal.

Não foi desistir de escrever em linha que me fez abandonar este blogue mas também alguma confusão de projectos - a participação no sítio oficial da Mundo Fantasma - que me levaram a acumular pilhas de livros e zines para um limbo promocional, desculpem! Entre as coisas para divulgar ficaram edições da canadiana Conundrum Press.

Science Fiction (2013) de Joe Ollmann parece uma peça de teatro entre um casal que passa uma crise gerada após o visionamento de um filme de ficção científica que irá incutir ao elemento masculino do casal, à beira de um ataque de esgotamento nervoso, a lembrança de ter sido raptado por um OVNI, quando era jovem. Ora como podem imaginar isto irá criar um stress em Sue (a mulher) que terá de sobreviver uma situação paradoxal, por um lado não pode acreditar no rapto e por outro que não pode abandonar o companheiro de seis anos de harmoniosa relação, que está em negação, recusa visita médica e mete-se no esterco da 'net à procura de comunidade de "idênticos" raptados.

É quase uma comédia de costumes, que pelo toque caricatural do grafismo e acutilantes diálogos lembra Hate do Peter Bagge, mas também é um livro inteligente sobre relações humanas, que sete anos depois torna-se ainda mais evidente dada a esta fase de isolamento social que estamos a viver - com toda a gente a queixar-se que vão ter de viver os próximos meses com a sua cara-metade e pimponhos que meteram neste planeta todo fodido.

O final, SPOILER!!!!, é pouco conclusivo e interessante, infelizmente, ainda por cima, o final da BD é imediatamente seguido por uma caricatura do autor a desculpar-se se está a ofender ou não os que acreditam em raptos alienígenas. Tontice final que estraga o livro. Uma solução é rasgar as páginas do livro a partir da página 105.

O primeiro volume da série Hobtown Mystery Stories de Kris Bertin (a) e Alexander Forbes (d) é o melhor antídoto para quem não papa as pobres chachadas norte-americanas da Dark Horse/ Image/ Vertigo, lançadas cá em Portugal, em regime de "dumping" nos últimos três anos. Quem têm aquele "guilty-pleasure" por géneros literários populares como os de Crime / Mistério / Aventura / Fantástico - sim, é verdade, HMS mete isto no mesmo saco - eis a solução totalmente inesperada.

The case of the Missing Men (2017) é um tijolo de 300 e tal páginas que invoca vários imaginários do passado (a acção para começar passa-se em 1996) e os ambientes dos tais géneros literários Pop, a começar logo pelo grafismo rigoroso de Forbes, a lembrar esteticamente alguma ilustração inglesa do início do século passado mas também muito da BD "indie" dos anos 80/90 como as de Dave Sim, Chester Brown, David Collier (Epá! Todos eles do Canadá! Curioso!!), quando isso significava trabalho árduo da técnica de traços cruzados, fundos detalhados e texturados.

É importante pensar que este livro extenso como é, com esta arte assertiva, sabendo (acho eu) que o livro / série não tenha uma grande exposição de vendas nem de traduções internacionais, que autores doidos serão estes para se dedicarem a anos de produção para a qualidade de livros assim??? É que isto não se faz desde do virar do milénio. Definitivamente não são assalariados da indústria dos "comic-books" e só tenho pena a CCC não tenha um modelo económico para lançar esta obra na sua Colecção Rubi.

O enredo lembra o cruzamento das aventuras dos Cinco com o Twin Peaks, referências mais do que gastas pelas críticas ao livro e desde logo exposta pela sua própria sinopse oficial. Certo! Só falta acrescentar o elemento fantástico que não irei revelar para não estragar o prazer da leitura. Sabem quando há livros de BD que nos levam umas boas horas de leitura mas não por verborreia? Eis um desses casos raros! Não comprem em Amazones e outros poluidores, existem ainda lojas de BD importada, é mais caro mas é mais justo, amigos!


Já referi aqui o David Collier. O seu livro Chimo (2011) estava guardado para escrever no sítio oficial da Mundo Fantasma, ia ser um artigo extenso porque este livro bem o merece, o autor também porque é daqueles que foram esquecidos com a cores histriónicas da geração "riso" deste milénio e porque tenho especial admiração pela sua obra. Também tenho de reconhecer que o esqueci durante uns anos e que só há poucos me apercebi que foi um autor influente no meu trabalho, sei eu ter dado por isso. Collier é daqueles autores que facilmente poderão colocar numa baliza entre Robert Crumb e Joe Sacco mas que tem uma voz própria, não é displicente e agressivo como Crumb nem político e formal como Sacco. É um observador, que tal como Aleksandar Zograf, sabe escrever crónicas interessantes em BD, seja sobre atletas ou sobre memórias de amigos punks dos anos 80. Pequenas estórias da História. Teve o seu próprio "comic-book" pessoal como todos tiveram direito nos anos 90, o Collier's que foi publicado em duas séries, a primeira pela Fantagraphics e a segunda pela Drawn & Quarterly. A primeira editora encomendava-lhe sempre umas BDs prá inacreditável antologia Zero Zero, foi daí que conheci o seu trabalho, destacava-se por ser o mais (o único?) sóbrio entre "animais" como Mike Diana, Richard Sala, Blanquet ou Kim Deitch. E a segunda editora publicou a maior parte dos seus livros a solo, até a Conundrum ser a sua nova casa.

Chimo (saudação inuíta) conta como Collier alistou-se no exército aos 42 anos, casado e com um filho! Aliás, realistou-se porque ele já tinha feito serviço obrigatório sem bem me lembro de BDs suas na Collier's. Porque raios este gajo fez isto!? Não foi para se armar em palhaço como o líder do CDS que só se ofereceu para motivos meramente mediáticos. É muito mais marado e interessante, Collier quis ser como o jornalista Sacco e ir para a frente de guerra no Afeganistão para participar num histórico programa artístico do exército canadiano mas o máximo onde ele conseguiu chegar nesse programa foi uma missão num barco militar e repreender uma traineira portuguesa a pescar fora dos limites de território - I shit you not! O exército não o deixa ir para uma frente de risco por questões de segurança (e de seguro). Frustrado, decide voltar prá tropa, naquela de ir para o conflito mas... fuck!, spoiler ou não, acaba por lixar o joelho nos treinos. A idade não perdoa! Isto dito desta forma não rende justiça às 130 páginas desta obra, tal a minúcia gráfica que referi em HMS e da informação en masse, desde a sua experiência militar - semelhanças e diferenças em 20 anos de vida - à história do SNS do Canadá, ufa! Tal como em Paying for it de Chester Brown, mistura-se autobiografia, ensaio e reportagem, deixando a sensação que ainda há BD excitante a descobrir caminhos.

Claro, que é daqueles obras que os parvinhos da BD vão dizer que só graças a vidas interessantes é que se faz boas BDs autobiográficas. Será? Claro que não e por várias razões, algumas poéticas que esses imbecis nunca perceberão... Mais Collier:


O nosso Primeiro Ministro insiste no desastre humano e ecológico que será o aeroporto no Montijo, especialmente nesta altura que a Natureza deu-nos a bela bofetada de humildade. A calamidade que vivemos vêm da destruição do planeta para consumo tonto. A propagação veio do turismo de massas que poluem em viajar futilmente - digo, por sabemos que as pessoas nem olham prás ruas onde andam, os olhos estavam sempre no Google Maps, deviam ter ficado em casa a curtir o Google Earth nesse caso. Viajar de avião e turismo parvo nos próximos anos vai ser privilégio das elites, dizer o contrário é mentir, por isso quem quiser aventura que se prepare como Collier em Morton (2017) que juntamente com a sua família atravessam o Canadá inteiro usando o bom e velho comboio! YEAH! Dica de semana para o Costa: mete as linhas da CP a funcionar, sff

Em íntimo autobiográfico e "factoids" de mil ordem - é o Collier! Memórias de família, bastidores do mundo da BD, episódios históricos, etc... etc... etc... Assim, viajamos num território com "pouca História e muita Geografia" no tom típico deste autor tão humano e pedagógico, no melhor registo de cadernos e literatura de viagem - claro, sendo BD tem sempre essa dupla vantagem: texto e imagem, viva! Era daqueles livros que podia estar na nossa colecção LowCCCost, até tem um mapa do trajecto na contracapa como nós temos nessas nossas edições!! Para quem já sabe que não irá para aquela parte do planeta, é aqui que deve apanhar a boleia!

Thank you Andy!

PS - sem misticismos baratos, há sempre estas coincidências na minha vida, quase três anos sem pegar nestes livros para os relatar e agora, eles batem em cheio com esta crise humana, especialmente Ollmann e Collier. Se calhar valeu a pena esta deriva.

7 comentários:

R.J.Mariano disse...

Assinei o jornal e também prefiro o papel mas esta é mesmo uma boa notícia porque nunca perdi o hábito de aqui vir espreitar!

MMMNNNRRRG disse...

hahaha
obrigado!!
M

Os Positivos disse...

"o que ele disse"

Mário Filipe disse...

O retorno destas resenhas é o que se chama tirar o melhor proveito de uma má situação. Venham então mais que o estado é de emergência.

MMMNNNRRRG disse...

seus doidos! quase me vertem lágrimas...
mas o Dr. Filipe podia seguir o exemplo do Eng. Mariano e fazer assinatura d'A Batalha!
ah pois!
abraços fortes!
M

Mário Filipe disse...

Assim a tratar as pessoas por doutores e engenheiros em vez de um jornal anarquista vamos ter de assinar é um jornal da maçonaria.
Fica bem.

MMMNNNRRRG disse...

o Expresso!? o DN!? qual, qual, qual?
M