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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Boring Europa ::: ESGOTADO!

 

primeiro volume nova colecção da Chili Com Carne, LowCCCost, dedicada a livros de viagens
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de Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins 
e Sílvia Rodrigues


em Espanha, Itália, Eslovénia, Sérvia, Áustria, Alemanha e França
8000 km / 15 dias


sobre a tour europeia da Chili Com Carne realizada entre 1 e 15 de Setembro 2010 nas cidades de Valência, Bolonha, Ljubjana, Pancevo, Graz, Berlim, Poitiers e Vigo.


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participações especiais de Karol Pyrcik, Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Simon Vuckovic, Vuk Palibrk, Christina Casnellie, Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz, e ainda com Gasper Rus, David Krancan, Matej de Cecco, Matej Lavrencic, Katie Woznicki, Letac, Boris Stanic e Johana Marcade nas comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo.


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banda sonora gratuita em linha: "A Grande Explosão" de Ghuna X via Phonotactics


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128 p. 23 x 16,5 cm impressas a azul escuro, capa impressa a branco sobre cartolina Dali bluemarine 285 gr com badanas; ISBN: 978-989-8363-11-4

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ESGOTADO
talvez ainda encontrem exemplares na Fábrica Features, Matéria Prima, Mundo Fantasma, Tasca Mastai e Tinta nos Nervos.

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sobre o livro: a tournê europeia Spreading Chili Com Carne Sauce in Boring Europa tinha como objectivo principal divulgar o trabalho da Associação e dos seus artistas. Até pode parecer um acto desesperado de querer mostrar "à força" o nosso trabalho mas, desde sempre, a CCC trabalhou com projectos e autores estrangeiros – Mutate & Survive, Mike Diana, Greetings from Cartoonia, MASSIVE, Festival Crack, etc... O problema é que quase nunca vemos estes nossos amigos, dada a solidão imposta pela nossa posição periférica. Fomos dizer "olá" ao pessoal amigo! E aos que só comunicávamos por correio! E, claro, conhecer malta nova! Fomos percorrer 8000 Km de Europa em 15 dias oferecendo um pacote completo de cultura underground portuguesa a quem nos recebesse: concertos de R- e Ghuna X, festa animada com o unDJ MMMNNNRRRG, exposição de impressões e serigrafias, e, claro, uma enorme selecção de zines, livros e discos independentes. Em troca queríamos apenas simples alojamento, comida (se fosse possível à organização) e dinheiro das entradas para os espectáculos. Se os punks e metaleiros fazem isto porque não podemos fazer a mesma coisa com livros? Get in the van!


Decidimos chamar a coisa de boring, pelo sim pelo não, porque vivemos numa uniformização cultural capitalista à escala global - como tão bem ironiza Jakob Klemencic algures no livro - em que as identidades nacionais ficaram reduzidas a meia dúzia de artefactos rurais e rituais anacrónicos prontos para serem vampirizados pelos comportamentos fotográficos dos “turistas = terroristas”.


Desde o início pensámos que só podia ser bom editar um livro com os desenhos dos viajantes - um relato on the road das pessoas com quem nos cruzámos, das cidades e dos países que visitámos, etc... Era impossível de falhar: seis pessoas a desenhar, seis livros de esboços fundidos num livro "oficial". Pura ingenuidade! A excitação de conduzir, o esforço físico de alguns trajectos, a desistência da Sílvia Rodrigues, logo ao terceiro dia, e a falta de confiança em desenhar da maior parte dos participantes deixou-nos apenas com UM caderno de esboços da Ana Ribeiro. Todas as outras participações tiveram de ser feitas à posteriori, complicando com os prazos pessoais e profissionais de quem gozou estas férias diferentes. Juntámos textos, BDs, desenhos “acabados” bem como “esboços” da Ana Ribeiro, Joana Pires, Marcos Farrajota, Ricardo Martins e Sílvia Rodrigues; e bds de autores estrangeiros que relatam a recepção da nossa “caravana” - Jorge Parras, Martin López Lam, Jakob Klemencic, Aleksandar Zograf, Vuk Palibrk e Christina Casnellie. Outros cederam-nos desenhos ou bds sobre viagens para enriquecer esta edição - Andrea Bruno, Igor Hofbauer, Edda Strobl, Helmut Kaplan, Pilas versus Nanvaz. Compilámos as melhores BDs-cadáver-esquisitos ou comic jams feitas em Ljubljana e Pancevo - são bds feitas numa sessão com várias pessoas em que cada um desenha uma vinheta continuando o trabalho dos anteriores perdendo-se sempre o controlo do avanço da “estória”.
Em "Lissabon", a Karol Pyrcik ficou a tomar conta das gatas do Marcos e da Joana, e a fazer um diário gráfico sobre a sua estadia, contrapondo as nossas visões, mas fez batota e produziu umas divertidas ilustrações sobre futilidades lisboetas e quotidianas.
Criámos um inovador “Frankenstein comix” ou uma Babel impressa? Em breve teremos reacções a este livro. Esperamos ter surpresas exteriores tão agradáveis como as que tivemos quando chegávamos aos sítios durante a digressão. 


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Apoios (tour e livro): GRRR Program + Centro Cultural de Pancevo, IPJ, MMMNNNRRRG e Neurotitan

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Historial: Realização da tour Spreading Chili Sauce around Boring Europa (1-15 Set) ... Lançamento 27 de Março na MapDesign (Lisboa) e 2 de Abril na Feira do Jeco (10 anos dos Maus Hábitos) 2011 ... referência no Gabinete de Crise ... Cabaz Underground (sorteio dia 3 de Abril nos Maus Hábitos) ... reportagem na Câmara Clara (RTP2) ...


Feedback : 
reacções de viajantes aqui 
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I love tour books about la merde de la europa / jes we can Igor Hofbauer 
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O nome dificilmente poderia ser mais sugestivo e paradoxal (...) Porque, por mais quilómetros que façamos (...) o Velho Continente é cada vez mais um corpo uno. Ainda assim, o que vem dentro das páginas (...) é tudo menos entediante. Muitas ilustrações, desenhos e BD, uma forte componente gráfica e um sem-número de diálogos impróprios para gente sem sentido de humor. Tudo a duas só cores, azul e branco. Rotas & Destinos 
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(...) espécie de périplo autoreflexivo na forma mista de diário/ reportagem sobre uma viagem por uma Europa de movimentos independentes, que se transforma numa espécie de mini-manifesto (é algo pomposo, mas adequado) sobre modos de pensar a arte, a vida, o mundo. Destaque aqui para o importante trabalho de Marcos Farrajota, que, com todas as suas limitações formais, tem aqui um papel crucial ao unir as diferentes contribuições e preencher espaços em branco, destacando-se ainda o seu olhar sobre as várias contra-culturas que o grupo vai encontrando na viagem, entre a extrema empatia/ admiração e o desprezo ácido (o episódio de Berlim é particularmente elucidativo). Sem este fio condutor o livro seria uma amálgama de acasos individuais, e não faria grande sentido. JL 
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(...) é um livro que deve tanto à mítica Torre de Babel como às auto-estradas europeias, misturando várias línguas e registos tão diversos (...) Surpreendentemente, o resultado é tão coerente como são caóticos os dias aqui retratados. Mais do que uma colagem de histórias e fragmentos, Boring Europa é um livro de viagens, uma aventura em 8000 quilómetros de estrada e, sobretudo, um contributo relevante para se pensar a Europa e as suas relações internas. Agora que a ajuda entre países (mais ou menos forçada) anda na boca de toda a gente, seis pessoas e uma carrinha dizem mais sobre as vias possíveis para o encontro e sobre a capacidade de nos conhecermos para lá das fronteiras do que todas as directrizes da União Europeia. Sara Figueiredo Costa in Ler 
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Hace casi un año tuve la oportunidad de presenciar una de las exposiciones más atrevidas y frescas de ilustración y cómic de todo el tiempo que llevo dedicado al mundo gráfico y a la autoedición. Acostumbrado a una corrección profesional y buen rollista, que muchas veces rosa el aburrimiento y mojigatería, que encuentro habitualmente en la gráfica convencional -en la prensa, en la calle y en las estanterías de las librerías-, la expo-guerrilla del colectivo portugués Chili Com Carne resultó ser un contundente puñetazo visual e ideológico que demostraba, con la práctica, otras maneras de entender la ilustración y el quehacer visual. La exposición duro sólo dos días y era la primera parada en el tour Spreading Chili Sauce around Boring Europe que llevó a los CCC por España, Serbia, Austria, Francia, Italia, Eslovenia y Alemania, en 15 días y cuyo diario de viaje, publicado bajo el título Boring Europa, cuenta el cómo, cuando, cuanto y por qué recorrer alrededor de 8000 km con una furgo cargada de fanzines, y puede servir como guía de lo que es la autogestión cultural. Martin López in Bólido de Fuego 
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Quase todas as histórias tocam, portanto, aspectos autobiográficos, referentes aos acontecimentos destas visitas, mas ao mesmo tempo são também testemunho de variadíssimas práticas alternativas. Não apenas da cultura (música, artes visuais, festas, feiras) mas também das práticas propriamente ditas. Ou seja, da angariação de fundos, da organização de eventos, na forma como se gere um fundo de maneio, nos modos como se criam alternativas ao(s) mercado(s) convencional(ais), como se recebem os convidados, da cozinha à dormida, e sem esquecer aspectos de turismo (...) E além disso, as jantaradas e conversas em torno de cervejas e cigarros, que levam a discussões breves mas que apontam a interessantes tomadas de posição face aos estereótipos, expectativas e jogos de projecção que o encontro de “nacionalidades” forçosamente fornece. São muitos os pormenores estranhos e curiosos deste livro, deste a sua forma de organização, à “sinalização” que identifica as autorias, até ao tal orçamento ou custos da aventura, e os dados dos espaços visitados, que poderia até funcionar como convite à visita dos leitores (...) Pedro Moura in Ler BD 
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Um livro on the road, desenhado durante e após o tour dos autores num registo quase sempre próximo do biográfico. Foram 8000 Km de Europa percorridos em 15 dias, a bordo de uma carrinha e com orçamento reduzido. Mais do que um pout-pourri colado à pressão do trabalho dos diferentes autores, existe nesta obra um vero fio condutor (no pun intended), graças a um excelente trabalho de editor. É também um importante testemunho da existência de alternativas: à edição, à distribuição, à venda, à performance, à BD, à música, à arte, ao entretenimento, à festa, à viagem, à estadia, à habitação, ao turismo, à amizade, ao conformismo. E paralelamente vai-se criando a evidência de que, enfastiante ou não, não existe uma mas sim várias Europas. Afinal, mais do que estereótipos nacionais, somos todos indivíduos. Bandas Desenhadas
 
Terminei o Boring Europa no Domingo, no intercidades, de regresso a Lisboa.
Apercebi-me que o livro ganhou, para mim uma dimensão meio "mítica" (à falta de melhor expressão...): era dos poucos que não tinha lido da Chili, mas dos primeiros que folheei (...) e me deram a conhecer a associação, ainda estava eu na faculdade ou no estágio para a ordem. Acho que não percebi bem do que tratava, na altura, mas nunca mais me esqueci da capa.
Quando vos conheci e percebi a premissa, fiquei imediatamente curioso, mas o facto de estar esgotado (...) foi atrasando a leitura do livro.
Gostei muito. Em certa medida, foi o livro perfeito para terminar 2024, principalmente porque me aponta caminhos para o futuro: fiquei fascinado com o "DJing" gráfico de que falas a uma dada altura (...). Relativamente ao registo diarístico, acho que fiquei rendido; tenho sempre pudor e alguma resistência a fazer auto-biografia, mas o livro aponta caminhos e métodos para o fazer de forma não-punheteira, expande mesmo a forma de tratar uma viagem sem ser a banalidade pequeno-burguesa do "olha este sítio onde estive". Não estava à espera que fosse isso à partida, claro, mas talvez apenas no tema, mas ver o mecanismo de construção do livro a funcionar desbloqueou qualquer coisa em mim a que me estou a tentar agarrar.
Enfim. Servem estas palavras soltas para dizer que achei um livro especial, talvez dos meus favoritos da Chili.
A.P.
 



 exemplos de páginas:

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Noitadas, Deprês & Bubas / ESGOTADO



«É extremamente difícil escrever um livro medíocre. O livro conseguido está na ordem do dia. Falhar em literatura é um gesto de pura rebeldia. Um péssimo romance é um acto de terrorismo. Só uma miopia extrema, ainda assim facilmente corrigível, pode conduzir ao desastre. A possibilidade de errar foi reduzida ao mínimo indispensável que mantém as aparências e evita o escândalo. Só nos resta escrever livros certos e vendê-los a um público certo. Um público obedientemente entusiástico e atento. (...) O que antes era puro empirismo ou um difuso ritual feiticista tem agora um método de infabilidade. A improvisação e o gesto institivo estão desactualizados. Pior, são nefastos. O escritor deve actuar com rigidez e concisão. O êxito é a meta. O êxito é a única saída.» - Artur Portela, filho in Feira das Vaidades (Atlântida Editora; 1959)

É com palavras da juventude de "alguém que foi para a Alta Autoridade para a Comunicação Social", que apresentamos um livro novo de Marcos Farrajota. De novo quase nada têm, a não ser uma bd inédita de 10 páginas (para o #5 do zine A Mosca que nunca chegou a sair), porque o livro insere-se na colecção Mercantologia, uma colecção da Chili Com Carne dedicada à reedição de bd's perdidas no mundo dos zines.

São bd's autobiográficas de Farrajota, publicadas entre 1995 e 1997, nos números (esgotados) 6 ao 12 do Mesinha de Cabeceira, antecedentes ao É sempre demais... (Lx Comics #2, Bedeteca de Lisboa; 1998), apresentam o grosso da exploração da autobiografia no seu trabalho. Género esse pouco habitual em Portugal, mesmo depois do "boom" e da implosão da bd portuguesa, ao qual o autor acabou por subverter e abandonar gradualmente.

E como na vida, há de tudo nestas bd's: sexo juvenil, amores de recorte Primavera/ Verão, uso de drogas leves, vida suburbana em Cascais, relações sociais (envolvendo desde vários autores de bd a músicos como os Primitive Reason), deambulações urbano-filosóficas de quem andava à toa, rapinanços de conteúdos alheios (Mão Morta, Julie Doucet, Einstürzende Neubauten, Madman) e participações alheias de amigos - como acontece na bd Die Fliege II com textos de Miguel Caldas....
volume 3 da Colecção Mercantologia ... 72p. p/b 21x22,5 cm, capa a cores, edição brochada ... com prefácio de Daniel Lopes e apoio técnico de Pepedelrey... apoio: Instituto Português de Juventude
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algumas páginas aqui.
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talvez encontrem ainda exemplares na BdMania, Fábrica Features, Matéria Prima, Mundo Fantasma e Neurotitan.
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historial: Comemoração 9 dos 10 anos da Chili Com Carne ... Lançado na 10ª Feira Laica ... Nomeado como Melhor Argumento Nacional pelos Troféus Central Comics ... Obra seleccionada para a Bedeteca Ideal ...

feedback: 

Os meus sinceros parabéns por teres sempre conseguido pôr a alma a nu, sem concessões nem comiseração! Ondina, The Great Lesbian Show 
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É excelente sem favor! Belo trabalho! João Chambel, co-autor de Heróis da Literatura Portuguesa ... 
os registos variam, da autobiografia à crítica ou ensaio sarcástico, a fantasias sexuais. Também em termos formais ultrapassa o desenho para explorar a colagem, faz citações a partir do uso de fotografias, bocados de outras b.d.’s (caso do período gigante da Julie Doucet ou capa do Kill Your Boyfriend), letras de música, cartões da J.S., que cruza com apontamentos do seu diário gráfico. Afonso Cortez-Pinto in Umbigo [ler aqui artigo completo] 
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é o delírio, mesmo! excelente a tua ideia de compilares tudo e editares. dei comigo a rir sozinho enquanto via o teu livro (e a rever-me em algumas das situações ;) tens ali um documento de grande fôlego (e talvez seja o livro de BD menos pretensioso que alguma vez vi ;) e isso dá-lhe uma força brutal. agora é pensares numa compilação "não tavas lá?!" e coleção de discos UnDj... daqui por mais um 10 anitos!! Nuno Moita, Grain of Sound





+ feedback: 
Acho que agora te fiquei a conhecer perfeitamente! Eh, eh, eh! Tiago Guillul, FlorCaveira 
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é necessário tomar em conta que os acontecimentos retratados nestes pequenos episódios, alguns solitários – a própria criação dos trabalhos, a masturbação, as migalhas, as paranóias dos charros, as fantasias mentais, as reflexões sobre a vida – outros colectivos – saídas à noite, festas, concertos, passeios, férias, conversas – vivem em torno de uma cultura noctívaga, de um certo grau de rebeldia em relação à imposição da “normalidade social”, de uma ansiedade em relação ao futuro e àquilo a que nos parece obrigar, que se revela no próprio modo de trabalhar a banda desenhada: os traços nervosos, a flutuação dos estilos, as complicadas ou grotescas composição de página, as inclusões de material alheio (...), as diatribes contra a “normalização” aventada acima, etc. Pedro Moura in Ler BD 
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Gostei muito, irmão! Bacana! Jakob Klemencic, autor esloveno de férias em Curitiba! 
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O livro está do caralho!! Lembro-me de uma ou outra coisa mas ler tudo de uma só vez é completamente diferente. Li aquilo em duas vezes e a meio já ganhava o hábito de andar a rodar o livro para ler as letrinhas no fundo e referências. Acho que as histórias funcionam bem melhor num todo do que fragmentadas! Gostei particularmente da do ano 2000, o pesadelo da droga (ainda sonho com isso!!) e aquela sobre nosso Portugal está brilhante (mesmo que tenhas gamado o texto!). A do Salão do Porto fez-me lembrar montes de coisas dessa altura, acho que esse foi o melhor festival que fizemos cá! Está tudo muito porreiro, desde a história das calinadas (hehe) até às desventuras amorosas. O problema da BD autobiográfica é o de se descobrirem os podres todos: vodka na cona é naquela... mas cartões do PS?? arrggghh Hei, quando é que sai o próximo?? Rui Ricardo, ilustrador 
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parecem polaroids dessa década. muito fumo de charros, mão morta, fantasias na carreira do 414? sem guita, música em altos berros, existencial. um trabalho interno rico e muito interessante que não começa nem acaba com este livro. in thefootballer-vs-thepugilist.blogspot.com 
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  it's crazy. I liked it. It is something in between Andrea Pazienza and Edika MP5, ilustradora italiana
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  gostei do livro, acho que foi mesmo boa ideia compilar tudo numa mesma edição. Apanhei uma valente gripe (...) e as primeiras gargalhadas, foram provocadas pela leitura de tiradas tuas decorrentes das vicissitudes da tua lúgubre existência. A “tua dor de braço” ser uma possível doença psicossomática resultante da tua timidez, quase que me deslocava os maxilares. Paulo, Division House 
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MAS COM RESPEITO AO TEU LIVRO, ESTA LIDO E DIGERIDO. (...) FIQUEI COM BOA IMPRESSAO DO AUTOR. UMA PESSOA HUMILDE, QUE DEMONSTRA CUIDADOS MUITO HUMANOS NO TRACTO COM OS OUTROS, ESPECIALMENTE COM AS MULHERES; QUE DEMONSTRA INTERESSES ALTRIUSTAS PARA ALEM DO CULTO DA POPCULTURE, UMA GRANDE QUALIDADE EM DEGENERAÇAO NOWADAYS; QUE DEMOSNTRA SABER COMUNICAR-SE COM O MEIO FISICO E SOCIAL INTERCAMBIADO AS SUAS FRAILIDADES E DEBILIDADES (UMA VEZES MELHOR OUTRAS VEZES PIOR É CERTO), O QUE O MANTEM NUM PROCESSO CONSTRUTIVO DE AMADURECIMENTO E CRESCIMENTO EXISTENCIAL MUITO VALIOSO; ESSENCIALMENTE DEMONSTRA GRANDES QUALIDADES PARA DOMINAR UM TIPO DE DESENHO LIVRE QUE EU PARTICULARMENTE APRECIO EM CONJUNTO COM O SEU GREEDY MEAN WAY EM QUE SE AUTO-CRITICA TORNAM O TEMA "EGOCENTRISMO" MUITO INTERESSANTE IN A FUNNY WAY, E ATÉ EDUCATIVO, E A LEITURA VIVA, RICA E ...ESSENCIAL! VERA SUCHANKOVA 
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Gostei muito do teu livro, o periodo em que foram escritas as tuas histórias corresponde à altura em que vivi em Lisboa e identifico-me com muitas das coisas de que falas(música, timidez, charros, copos, filmes....) André Ferreira, Ao Sabor da Leitura / Goran Titol 
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  Back then, the guy was young; he thought important to write down the names of fave bands as many times as possible (the way less creative colleagues do on schoolbags and tables (...) occasional innovative solutions in using and combining words and pictures, that several times reach across the standard comic language in Stripburger #48
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  Bom, o pacote chegou (...) Caí primeiro no seu porque foi uma surpresa, não esperava por isso, não sabia que você estava preparando um livro e é realmente muito bom, ainda estou nele. (...) parabéns pelo livro. Fábio Zimbres 
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  Entretanto o pessoal começou a contar histórias de "coincidências das nossas vidas" que acho hilariantes - ler aqui a primeira e mais recentemente esta.
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Só coisa fina. Weaver Lima

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Destruição ou bandas desenhadas sobre como foi horrível viver entre 2001 e 2010 / ESGOTADO


antologia de BD ... volume 10 da Colecção CCC ... projecto coordenado por Marcos Farrajota ... com as participações de José Smith, Ana Biscaia, Rudolfo, Rui Madeira, Afonso Ferreira, Rodolfo Brito, Chico, David Campos, Sílvia Rodrigues, Uganda Lebre, Christina Casnellie, Bárbara Fonseca, Gonçalo Duarte, André Coelho com Sara Gomes e Ricardo Martins com Iuri Landolt ... capa e design: Margarida Borges
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96p. 16,5x23cm a duas cores, capa a cores
500 exemplares
ISBN: 978-989-8363-02-2

apoios da Câmara Municipal de Cascais e Hülülülü
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talvez ainda existam exemplares à venda na BdMania, Neurotitan, Mundo Fantasma, Rastilho, Orbital e Linha de Sombra.
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Historial: lançado no Pequeno é bom (Ago'10) ... nomeada para Melhor Publicação Nacional e Melhor Obra Curta (Espaço/ Tempo de David Campos) nos Troféus Central Comics 2011

Feedback: A minha história na "Destruição" preferida foi a última - achei-a mais autêntica da toda a antologia. Gostei tambem da parte visual da 8 em 54529745,010 e, apesar de ser principalmente pop, a história com o Papa Parkinson (heh heh). Gostei como o livro foi impresso, com cor de laranja adicional!! Jakob Klemencic ... perfeitamente fabuloso! A selecção é excelente, o “acabamento” e aspecto gráfico são brilhantes… e é uma “novidade” face às “antologias de ilustração” (de que estou cansado e acho que não servem para nada!). A fazer lembrar que estas coisas ainda podem ser muito boas! Rafael Gouveia ... uma "espécie de editorial" por Marcos Farrajota no blogue da CCC ... As qualidades são várias, repetimos. E é essa amplitude, variedade, forças, diferença, e até indiferença para com as expectativas de salvação, que tornam esta – e outras – antologia um acto nada destrutivo mas bem pelo contrário contribuidor a um panorama cada vez maior e rico. Pedro Moura / Ler BD ... Who thought Portuguese comic books were dead? Chili Com Carne proves this is wrong Zoot... uma radiografia à novíssima banda desenhada de autor. Digamos, para situar os incautos, que se este fosse um volume de poesia, continuaria a vender pouco, mas teria honras de aparição nos suplementos culturais numa tentativa de aferir os mais recentes rasgos da criatividade nacional. Sendo banda desenhada, não chegará a tanto, mas quem quiser fazer o exercício por si não sairá defraudado. Reflexões sobre o presente, entre o poder dos media e o entretenimento como realidade, delírios político-futuristas envolvendo o Papa e nazis tresloucados, instantâneos do quotidiano ou distopias marcadas por pestes e pragas de vária ordem, as narrativas desta Destruição oscilam entre a estética mais crua do fanzine despreocupado e a procura de um rigor (da mise en pâge à estrutura narrativa, passando pelo traço e pela composição) que equipara este volume ao que de mais interessante se vai produzindo pelo mundo no que à bd diz respeito. Entre as influências mais óbvias (Charles Burns ou Mike Diana) e a definição de caminhos seguros, esta antologia podia ser uma mensagem contra a esperança no futuro – e queria sê-lo, cumprindo a herança punk e fanzinesca onde se inscreve – mas acaba por ser uma bolsa de oxigénio na modorra de um mercado que arrisca pouco, ganhando menos. Sara Figueiredo Costa in Ler ... 96 páginas para ponernos al día de lo que se cuece en el país de Cristiano. ¿Ah? ¿Qué no te gusta el futbol? Pues las páginas de esta antología es como una patada a los mismísima entrepierna (en caso de que seas sensible a las contunciones en esa zona corporal, claro). A destacar el trabajo apocalíptico de Afonso Ferreira, anfetamínico de Ricardo Martins y Ruben Landolt, las páginas de Uganda Lebre y las de Rui Madeira (...) y la espectacular portada de Margarida Borges. Martin Lam López in Bolido de Fuego

exemplos de páginas de Rudolfo da Silva, André Coelho, David Campos, José Smith, Uganda Lebre e Rui Madeira:


(a segunda cor deste livro é laranja, aqui são colocados os ficheiros originais enviados pelos autores)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

MESINHA de CABECEIRA POPULAR #200 / ESGOTADO

a continuação do zine CriCa Ilustrada, ou se preferirem do Mesinha de Cabeceira foi lançada na 5ª Feira Laica (Dez'06) / Mesinha de Cabeceira Popular (Popular Bedside Table) comix-zine is out!!!
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formato e número de páginas (lombada de livro) / format and number of pages : 21 x 26 cm, 72p
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o tema é a "cultura pop" / the theme is "pop culture"
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o objectivo é fazer uma reflexão sobre a cultura popular: ícones, mediatização, globalização / we want to do a reflection about the pop culture: icons, mass media, globalization..
línguas oficiais: português e inglês / official languages: Portuguese and English..

colaboradores / contributors: Eric Braün, Claudio Parentela, Jano, Jakob Klemencic, Brian Chippendale, Stijn Gisquiere, Nuno Pereira, Filipe Abranches, Dalibor, Katharina Hausladen & Dice Industries, Tommi Musturi, João Chambel, André Lemos, João Maio Pinto, Pedro Zamith, S.G. & José Feitor, Monia Nilsen, Nuno Duarte & Pepedelrey, Joana Figueiredo e Marte & Jorge Coelho
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apoio / support: Instituto Português de Juventude
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feedback: MdC deu passinhos curtos e devagarinho, mas não deixou de os dar. E como um pesado dinossauro, quando dá uma dentada, ela é valente e deixa marca (...) apresentando um programa “curatorial”, uma vez que o editor convidou os autores a se pronunciarem sobre a noção de “popular”, apresentam-se aqui as mais díspares vozes e perspectivas sobre o que de mais normalizado nos pauta a vida (...) um novo passo para a consolidação deste como um dos melhores zines ou revistas de bd da actualidade em Portugal - Pedro Moura / Ler BD

há a considerar a elevada qualidade gráfica do objecto artístico de recente realização, e do numeroso grupo de prestigiados colaboradores nacionais e alguns estrangeiros - Geraldes Lino / Fanzines de Banda Desenhada

MdC tem-se vindo a afirmar como um espaço privilegiado de divulgação do meio bd underground, de Portugal e não só, e cada novo volume tem elevado bastante a fasquia da qualidade. Este tomo popular, talvez o mais bem conseguido das MdC’s, representa o que de melhor se vai fazendo na bd portuguesa e já vai sendo altura – tanto do projecto como dos seus autores – de terem outro nível de exposição - Ricardo Amorim / Entulho Informativo

Para os amantes da bd a revista Mesinha de Cabeceira representa quase um espécie de "Bíblia" (...) sempre foi uma espécie de revista mutante - Umbigo

Se há algo que consegue transmitir na perfeição o espírito tresloucado que anima as 70 páginas de Mesinha de Cabeceira Popular#200, edição dedicada ao tema “Pop”, são as intrigantes ilustrações nos versos da capa e contracapa, assinadas por Nuno Pereira: estes Monstros Modernos parecem embriões dos Novos Deuses imaginados por Neil Gaiman em American Gods: os deuses do hiper-consumo (na terminologia de Gilles Lipovetsky) e da tecnologia. Na realidade, faz sentido a tecnologia ser endeusada, visto que, ao contrário da ciência, na qual ela se suporta, vive da adulação, da “busca espiritual” de quem compra. Um culto da compra cujo evangelho é a “Popblicidade”. O MdC Popular#200 é um excelente compêndio de bd's e ilustrações esgrouviadíssimas que satirizam excessos e tiques da Pop Art. Os trabalhos de João Maio Pinto, Marte & Jorge Coelho e Monia Nilsen são, na minha opinião, os mais sólidos, mas como ficar indiferente à musicalidade de um título como “Gang-Raped by Dolphins” ou ao sentimento de absurdo montypythoniano que atravessa as pranchas de Nuno Duarte e Pepedelrey? Ah! Já vos disse que Jacob Klemencic desenhou um velhote mal-humorado com um barrete de lã igualzinho ao capacete do Astérix numa galeria de sósias feiosos de personagens famosas? Digam lá se o “Pato Donald” não parece mesmo o Thomas Pynchon…Trata-se de uma edição feita com bom gosto paranóico pela Chili Com Carne, responsável por algumas das mais arrojadas experiências visuais que se podem encontrar neste preciso momento nas livrarias. 4,6 - David Soares


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Comix Remix, parte II

Este artigo serve o proposito de divulgar uma perspectiva nova de fazer Banda Desenhada usando o conceito de “remix” banalizado na música Pop. Na primeira parte do artigo centrei-me sobretudo na manipulação de imagens – “cadáveres-esquisitos”, colagens e “detournement” – que possibilitam usar “matéria-prima visual” pré-existente para obter novas narrativas mas, esqueci-me de outro grupo de experiências – o Drone Comix!


WTF!? Drone comix!

Tira sacada à revista brasileira Animal

O realizador David Lynch chegou a fazer uma série de BD, a tira humorística (!?) The Angriest Dog in the World (1983-1992) que era constituída por uma tira de quatro vinhetas sempre com as mesmas imagens mudando apenas o texto nas vinhetas. Em Salut, Deleuze! (Fréon, 1998) de Martin tom Dieck com ajuda de Jens Balzer (texto), os autores repetem as mesmas nove páginas de uma BD cinco vezes no álbum. Cada repetição apresenta um texto diferente de forma a apresentar as teorias de “repetição e diferença” do filósofo Gilles Deleuze (1925-1995).

Para além destas repetições da mesma imagem (vinhetas ou páginas) também é de se referir casos em que o mesmo texto pode ser reinterpretado como é o de Tatanka (1) dos espanhóis Felipe H. Cava e Raúl, que usam o mesmo texto (de Cava) para ser ilustrada três vezes (por Raúl) de formas totalmente diferentes – a primeira de forma figurativa, a segunda iconográfica e a terceira abstracta. A reinterpretação teve o seu momento de glória recentemente, quando em 2010 o centro cultural “Cidade da BD” de Angoulême produziu a exposição, e respectivo catálogo, Cent pour cent, em que autores contemporâneos criavam uma versão de uma prancha “clássica” que lhes fosse querida.


Agora sim, é a segunda parte deste artigo!


Nesta tentarei mostrar uma segunda tipologia de “comix remix”, desta vez focada nas potencialidades de “misturar” unidades exclusivamente narrativas, como vinhetas, tiras ou BD’s inteiras. Se no primeiro grupo de “comix remix” apresentado, o cerne era a “criação” dirigida pelo artista sem quase intervenção de terceiros, o próximo grupo de exemplos, a BD é oferecida para o usufruto dos leitores ou dos editores, como se fosse um “open-source” em que os autores perdem o controlo (parcial ou total) sobre a sua criação, embora sem o extremismo como acontece na música porque na BD não há ferramentas electrónicas tão simples de manejar como há na música - basta pegar em dois CDs como Project Bicycle (Ache Records; 2006) ou o EP Bipolar (Raging Planet; 2006) dos [f.e.v.e.r], ambos têm uma faixa áudio com os sons separados (samples) da música original para poderem ser misturados por outra pessoa que saiba mexer num “software” como o Fruityloops.

Daí que a forma mais normal de “perder controlo” seja posto sob a forma da leitura da obra, oferecendo ”jogos narrativos” sob a forma de livro (ou objecto ou livro-objecto) ou de instalações em exposições de BD.


Construindo histórias


Em 2008, Jucifer participou num projecto de BD em que se usava “Post-It’s” (2) para fazer BDs originais, posteriormente coladas à parede numa exposição de uma galeria. Enquanto a maioria dos outros participantes fizeram histórias lineares nestes quadradinhos colantes (cada quadrado representava a maior parte das vezes uma vinheta), Jucifer além de ter intitulado o seu trabalho de Post shit (um feito em si, já que a distinguia dos autores betinhos) aproveitou o facto dos quadrados dos “post-it” permitirem ser vinhetas autónomas que podem ser soltas, colocadas em qualquer parte e como tal alinhadas de forma aleatória, como a autora ou os visitantes desejassem! Embora essa oportunidade dos visitantes de poderem mudar a ordem não foi dada durante a exposição, tal como infelizmente, a exposição não foi mais repetida para podermos ter um novo “remix” / nova leitura da história. Mais tarde foi feita uma edição de autor deste trabalho, novamente sem a hipótese de se poder misturar as imagens porque apareceu na forma de um zine agrafado que prendia as “vinhetas livres” à estrutura do códex.


O "Fim do Mundo" de Pedro Franz pronto a ser misturado! 

Já o segundo volume de Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo (edição de autor; 2011) de Pedro Franz é um pacote com vários papéis laminados que permite misturar tudo ao acaso e ser lido como o leitor quiser. O mesmo acontece com a caixa Building Stories (Pantheon; 2012) do “bébé chorão” do Chris Ware, que é constituída por 14 publicações de formatos bastante diferentes e que permitem ler uma história como se fosse um puzzle (3). As várias fases da vida das personagens são esquartejadas nessas tais 14 publicações, ou seja, nenhum desses livros / jornais / panfletos / brochuras tem uma “história completa”, tudo é feito de vários episódios aleatórios, com o típico existencialismo deprimente de Ware. Esse vazio existencial e a legendagem em letrinhas minúsculas que não me cativaram para ler aquilo tudo até ao “fim”, perdi alguma coisa?



Bio 421 aberto à toa...
Há também livros encadernados por argolas com as páginas do miolo cortadas em duas ou três partes, sobretudo no campo da ilustração para a infância como o fabuloso Animalário Universal do Professor Revilod (2003) dos mexicanos Javier Sáez Castán e Miguel Murugarren. Na BD não é assim tão normal mas vão-se fazendo este tipo de experiências aqui e acolá, como um zine italiano que descobri no Festival Crack, intitulado Bio edifício 421 (Lök; 2012) que reúne vários autores de um colectivo em que se pode misturar as suas tiras – três por página – para criar várias histórias diferentes. Para haver um nó narrativo, foi estabelecido a existência de duas personagens e uma estante Ikea para montar, e para “punchline”, uma frase final: Quem mais se ama menos pode amar.

o livro de instruções e algumas bases de copos da Strippble

Literalmente “jogos”, encontramos vários objectos lançados pelo movimento OuBaPo, como por exemplo, o Coquetèle (L’Association, 2002) de Anne Baraou e Sardon, uma «banda desenhada de três dados não ordenados». Já antes, Baraou tinha feito outra BD idêntica, Après tous tans pis (Hors Gambit; 1991) com desenhos de Corinne Chalmeau. Ambas são caixas com três dados, cada face do dado tem uma vinheta. O “leitor-jogador” tem de deitar os dados aleatoriamente, para depois juntá-los resultando numa sequência para ler. Emula portanto uma tira de BD sendo possível obter 216 (6 ao cubo) hipóteses de leitura. Também há o tabuleiro ScrOUBAbles (2005) que ao invés das normais letras do jogo Scramble temos vinhetas para criar pequenas histórias; e ainda DoMiPo (2009) que é dominó, só que invés dos números nas peças temos vinhetas. Na Eslovénia, a equipa da revista Stripburger com as mesmas premissas fizeram o Stripple (2008) mas desta vez com bases de copos! A ideia é colocar as bases de copos numa mesa e procurar combinações narrativas interessantes com as BDs de Matej de Cecco, Sasa Kerkos, Matej Lavrencic, Marko Kociper, Jakob Klemencic e Andrej Stular. Cada autor fez uma BD de seis vinhetas; cada vinheta equivale a uma base de copo, o que permite colocá-las numa mesa e misturá-las entre elas. Nas indicações deste objecto, a organização oferecia um prémio à melhor combinação e indicavam também que os “masters” deste jogo, a dada altura, podem usar as bases para aquilo que realmente servem: para colocar copos e garrafas em cima, de preferência de bebidas espirituosas! Se fores um “bar fly” e “comix nerd”, este é o teu jogo!


ignorem o cemitério escandinavo, topem a estrutura de madeira com a BD de Roope!
Síntese destas experiências todas é Ghost Story, do finlandês Roope Eronen, uma BD publicada na antologia Glömp X (Huuda Huuda; 2009) e ao mesmo tempo uma instalação da exposição homónima. Trata-se de uma estrutura de madeira constituída por quatro paralelepípedos, cada paralelepípedo tem quatro tiras de BD pintadas sobre as faces mais compridas e ao serem rodadas com um manípulo (colocado de lado em cada paralelepípedo) mudam o sentido da “página” – ou seja, com a ajuda do objecto obtemos uma “página” de BD de quatro tiras que giram. Na exposição era portanto uma peça interactiva que o público podia ler as várias possibilidades de ler histórias diferentes. No livro é oferecida a hipótese de recriar estes paralelepípedos recortando as páginas do livro – cada página tem as quatro tiras de cada paralelepípedo. Se for o leitor ainda estiver sobre efeitos do Stripple poderá recortar directamente no livro, danificando um belo livro de BD experimental!


Descubra as 7 diferenças

Em Setembro de 2003 tive a oportunidade de ver os dois suecos residentes em Berlim Max Andersson e Lars Sjunnesson a trabalharem no último capítulo do Cão Capacho Bósnio (4) e foi curioso reparar o tempo que eles discutiam entre eles – ou então o tempo pareceu-me enorme porque não percebo patavina de sueco – por causa de um detalhe de uma vinheta. Depois de um consenso sobre a história e a sua paginação, os autores desenhavam por cima de desenhos de um e do outro. Uma imagem esboçada leva tinta de um ou de outro, mesmo depois disso um dos autores não sabe se o outro irá respeitar o desenho proposto ou se irá colocar ainda mais tinta em cima para fazer mais contraste, alterar a forma, detalhes, texturas, etc… O objectivo de ambos é apresentar uma “BD coerente”, ou seja, que não se consegue descobrir quem desenhou o quê nem mesmo os próprios, que a dada altura acham que quem fez a BD foi um “terceiro autor”. Este é um exemplo da história recente da BD onde apareceu o impensável, duplas de autores que escrevem e desenham juntos, sem haver uma separação de tarefas tão típica da BD ligada à produção industrial em que se criaram cargos especialistas para despachar prazos de publicação: argumentistas, desenhadores, legendadores, coloristas, etc... No Cão Capacho Bósnio, tal como nas “comix-jams”, o trabalho foge ao controlo absoluto dos criadores, embora o processo seja feito pelos próprios artistas. A diferença das “jams” é que aqui vamos encontrar uma “fusão” de entidades enquanto que nas “jams”, vinheta a vinheta, os estilos individuais de cada participante são evidentes.

Apesar de misturar dois médiuns bastantes diferentes, a fotografia e o desenho, é curioso referir outra “fusão” que é Le Photographe (3 volumes, Dupuis; 2003-06) cujas provas de contacto do fotógrafo Didier Lefèvre (1957-2007) são usadas por Emamnuel Guibert para contar as aventuras de Lefèvre na sua primeira missão com os Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão em 1986. Aquilo que identificamos como BD (sequências de desenho e texto) é usada nestes álbuns como “cola” entre as várias elipses temporais das fotografias ou grupos de fotografias – a BD conta o que não se “lê” entre as fotografias. Injustamente esquecido é o trabalho do “terceiro autor” - que ao contrário do Cão Capacho Bósnio aqui é realmente uma pessoa! - Frédéric Lemercier, que fez o desenho da composição das páginas do livro, um trabalho de Designer que deu uma forma funcional ao trabalho. Sabendo-se muito pouco o que foi concretamente o seu trabalho no arranjo das imagens, vinhetas, cor, etc… mas isto lembra como muitos produtores de música parecem “designers” de música, manipulando sons e colando-os para criar uma forma.


exemplo de páginas do "Boring Europa", nesta BD de Marcos Farrajota é usado desenhos de outros autores: Ana Ribeiro, Aleksandar Zograf e Joana Pires

Estas duas características, a “fusão” do Cão Capacho e o “design” do Fotógrafo, são pontos importantes na “BD de viagem” do Boring Europa (Chili Com Carne; 2011). Originalmente a ideia deste livro era juntar os diários de viagem dos seis elementos da Chili Com Carne que entre 1 e 15 de Setembro de 2010 viajaram pela Europa numa turné, como se fossem uma banda de Rock mas ao invés de dar concertos suados andaram a vender livros e a montar exposições. O cansaço da condução de cidade em cidade anulou o desejo de desenhar em quase todos os seus elementos, fazendo a posteriori uma BD colectiva e não apenas um livro de esboços de viagem. Como um dos autores do livro, acumulei também o papel de editor, e a Joana Pires o de Designer, juntos fomos ordenando uma multiplicidade de materiais soltos que fomos acumulando durante a viagem: rabiscos, desenhos da viagem, material gráfico variado, moedas, multas de trânsito, “comix jams”, bilhetes, ilustrações, e-mails,… Gerou-se uma BD “freak”, que fundiu tudo isto numa obra para se ler una. São várias as situações em que usei o desenho de alguém para incluir nas minhas vinhetas. Também tiras de uma BD eram deslocadas da prancha original para outra parte do livro. A preocupação principal era manter uma cronologia de acontecimentos e não se repetir os mesmos relatos de cada uma das seis pessoas envolvidas. Um dos momentos de inspiração para a forma como este livro da turné se organizou foi o encontro com o colectivo austríaco Tonto, de Graz. Na entrevista que realizamos aos seus mentores Helmut Kaplan e Edda Strobl, estes admitem que «temos muitas pessoas no grupo que (…) fazem muitos desenhos mas não BD!». O que Kaplan faz com estes desenhos soltos é justamente misturá-los «dando um sentido a eles…» e criando assim BD’s onde não havia!


Hang the DJ!
Creio que um dos primeiros casos de “DJ narrativo” é Ed, The Happy Clown de Chester Brown, um dos livros de BD mais incríveis alguma vez feito e que tem uma estrutura acidentada e casual, para a qual parece que ainda não há uma edição definitiva. Pego na minha, da Vortex (1992), sub-intitulada The Definitive Ed book, embora a Drawn & Quarterly tenha anunciado a definitiva recentemente. A questão das diferentes edições deve-se ao facto de Ed the Happy Clown ter sido pré-publicada em episódios no “comic book” Yummy Fur e mais tarde compilada em livro. A história que Brown conta foi construída sem querer e talvez por isso não haja um consenso sobre a edição final. Nela vamos encontrar elementos surrealistas como mãos que se soltam por pecados católicos (assunto tão norte-americano), vampiros, pigmeus, defecações ad infinitum, buracos interdimensionais, a cabeça do Ronald Reagan no pénis do palhaço Ed, etc... Estes elementos da história foram aparecendo originalmente em várias BDs separadas e sem relação entre elas, de 1981 a 1985. Algumas delas eram bastantes parvas e juvenis como The man who couldn’t stop, que mostra um individuo numa sanita que não consegue parar de defecar. Até que em 1987, Brown começa a unir personagens, situações e ambientes de várias destas BDs para criar uma história coerente, por mais fantasista que seja.

A história editorial de Ed, the happy clown lembra-nos o que acontece com o Cinema em que muitas vezes há “director’s cut” ou versões cortadas pelo produtor ou distribuidor, ou pior ainda, pela censura! Aliás, algumas edições de Ed, como a inglesa, não incluem algumas das BDs “parvas e juvenis” com medo da censura – materializada em confisco e destruição de exemplares sob acusação de obscenidade como tantas vezes aconteceu naquela ilha de puritanos.

A partir daqui podemos chegar ao relato de três projectos contemporâneos em que o editor é o autor principal (o “terceiro autor”) e em que os trabalhos dos colaboradores são manipulados de forma artística – e não meramente “tecno-económica” como acontece com os editores tradicionais. Estes exemplos têm em comum, o facto de serem publicados por colectivos de autores de BD independentes que editam antologias de BD e decidiram expandir a forma de “editar” para além da simples acção de juntar trabalhos de vários autores para paginar por uma ordem ao longo de um livro. A dada altura acharam que deveriam intervir directamente sobre o material a publicar segundo um instinto, uma história a contar ou uma visão.

Uma página da GIUDA #4 com desenhos de Armin Barducci (1ª e 4ª vinheta), Gianluca Costantini, Darkam e Liliana Salone.
Em Itália, surgiu a revista GIUDA (4 números, Nov’09/Out’12), da mesma equipa que publicava a Inguine mah!gazine, da qual faz parte a curadora e escritora Elettra Stamboulis e que nos explica em que consiste este novo projecto: We wanted to work as an avant-garde of the beginning of the last century: the graphic design remind this, in particular Vienna's Secessionist. Using automatism, aesthetism, casualty, (…) we were coming from [the Komikaze Festival] year of mapping alternative forms of drawing from all over the world (…) and we wanted to produce something completely different. Also, themes are always connected to a geographical representation: a place is always the center of the story, drawn in a different way that traditional Geography, but it's always Geography. From this idea came also the name Geographical Institute of Unconventional Drawing Art.

Contudo, o que difere o projecto de outras publicações de BD é que em cada número da revista existe sempre uma BD com um texto escrito por uma pessoa (as primeiras três foram por Stamboulis, a quarta por Marco Lobietti) e ilustrado por vários artistas – a lembrar as experiências da BD do Joe Meek no Twilight Jamming. Stamboulis explica: There is a huge work of research behind the texts and the images, but there always an idea of fate and strategies that are coming from OULIPO experiences in literature. It's a script with very few indication divided already in squares. Every artist has his/her text to do, and can read the all story, but cannot see what the others are drawing. The artists are always the same, with some new entries, but it's a close collective. O processo complica-se algumas vezes porque there are also some complete pages that are connected to the general story, but they are written and drawn by the artists. Those pages are a kind of subtitle of elements of the main story and they become short stories itself. In the end Gianluca Costantini collects all the drawing and he puts them in the page. With a sort of magic powder of fortune, every time it works as if everything had been perfectly arranged.

Uma página do Futuro Primitivo com André Lemos, Sílvia Rodrigues e Ricardo Martins

Admito que a razão deste artigo foi o facto de ter produzido o Futuro Primitivo (Chili Com Carne; 2011) e ter ficado desiludido pela ausência de reflexão sobre o projecto, mesmo que tenha publicitado que ele tinha falhado. Ninguém me perguntou porque falhou nem sugeriram situações idênticas para analisar. Pois é! Tive de ser eu a investigar e promover estas ideias que estão a ler agora!

O objectivo do projecto era juntar todos os artistas da Chili Com Carne numa antologia em que iria misturar as suas várias BDs para criar uma nova BD – uma “meta-BD”. Para conseguir alguma unidade no livro, foi sugerido um tema comum (o pós-apocalipse) de forma a manter uma unidade estética apesar dos 40 diferentes grafismos que se podiam encontrar; foi pedido uma estrutura de BD de duas tiras por página para se poder deslocá-las mais facilmente do contexto original para qualquer outra parte do livro; e para manter um fio condutor da “meta-BD”, foi ainda pedido aos autores para escolherem um subtema, ou seja, uma lista de avanços tecnológicos na história da Humanidade - da descoberta do fogo à ovelha Dolly. Também se pedia aos autores para não fecharem demasiado as suas histórias de forma que não houvesse finais demasiado auto-conclusivos.

Tal como quando se compra uma nova aparelhagem, ninguém lê o livro de instruções – já Laurie Anderson dizia isso numa música: "o relógio do vídeo fica para sempre a marcar 00:00" – e foram poucos os autores a respeitar as regras do “jogo”. Apareceu toda a espécie de situações, e juntamente com alguns “cadáveres-esquisitos” pedidos a autores cujas cidades iriam receber a exposição (Beja, Roma, Helsínquia, Malmö), estava instalado o caos. O funcionamento do livro falhou segundo as minhas espectativas de “DJ narrativo” (5) que tentou controlar matérias insubmissas... mas para “fora”, a sensação foi outra como prova a declaração desta leitora sueca: I thought one great thing about Futuro Primitivo was that I couldn't understanding all of it. It felt like that was the point, like a global, multidimensional dystopia and you only understand the bit you can see with your own eyes. On the other hand, I think that was my very own subjective reading experience (I understand a little Portuguese but not enough to be sure what the comics were about, a bit like dreaming and half-understanding). A exposição também falhou devido à falta de tempo para uniformizar formatos porque a ideia era poder misturar as tiras de BD no espaço das exposições tal como o Post Shit. Com o cumprimento dos prazos para ter a exposição pronta em festivais de BD pela Europa e América, não houve “remixes” para ninguém… Fica para a próxima!


Por fim, Tonto Comics é o exemplo que fecha tudo o que se falou aqui, porque o último número (#13, Noise) publicado pela Avant Verlag (2012) fez a ponte entre a BD e a música e os conceitos da “remix”. Este projecto editorial começou como plataforma musical em 1994, daí que tenha sido natural que as antologias Tonto tivessem ligações com a música, sobretudo quando Kaplan assume que usa processos idênticos quer na música quer nas suas BD’s: cut, montage, speed, running direction, superimposition. Kaplan organiza as antologias “com conceitos engraçadinhos” (segundo algumas críticas), numa lógica qualquer que nós não percebermos lá muito bem. É normal encontrar nas páginas da publicação BDs há muito vistas (noutras publicações pelo mundo fora) de autores como Igor Hofbauer ou Marko Turunen, BD’s repetidas não porque haja uma vontade de divulgar estes autores na Áustria (ou Alemanha) mas sim porque estas BD’s têm um valor especial para Kaplan, que segue um programa como se fosse um curador de arte contemporânea. No caso de Noise, ele diz: The material is quite heterogeneous. It has accumulated at my place in the last years (…) Quotes and remixes from the existing material plus additions (…) my own and from others. Partindo das questões da apropriação que a Pop Art levantou em relação ao uso da BD (essa arte anónima e comercial) para se fazer Arte a serio, Kaplan consegue traçar um caminho ou fazer uma pesquisa que coincide com este artigo, interceptando-o com alguns nomes (Max Ernst, Henry Darger e Dice Industries) e com duas novas situações inesperadas que merecem ter aqui um destaque maior.

O motor de partida para o Noise, é que Kaplan fez uma versão de uma página do Jess Collins (1923-2004) que por sua vez misturou nos anos 50 uma BD do Dick Tracy, de Chester Gould. É assim feita uma (nova) referência de artistas que fizeram as primeiras experiências de “mistura de BD”, centrando-se entre o Max Ernst e o Chumy Chumez. Consultem o recente O! Tricky Cad & Other Jessoterica (Siglio; 2012) que inclui o trabalho de colagem de Jess e as BDs “Tricky Cad” e “Nance”, esta última consegue transformar o clássico para toda a família de durões do western “Lance” (de Warren Tuft) numa brilhante orgia homossexual de fazer corar o Tom of Finland.

BD colagem de Jess

Levantei, no início desta segunda parte do artigo, o “problema” (não é um problema, será antes uma dificuldade?) de não haver “software” para misturar BD como há na música, muito ironicamente Kaplan com Edda e Dice Industries inventam e desenharam um esquema de estúdio musical (loops, sinais, volumes, MIDI, LFO, canais mono) para criar no final da “mistura” um grafismo!!! Programadores do mundo uni-vos!

Kaplan, Edda e Dice a gravarem um estilo gráfico!

Dote de poto a tres de Martin Lam


Extra Extra

Talvez não só vivemos um mundo de “copy/ paste” mas também num mundo demasiado rápido. Não só houve a coincidência de eu e o Kaplan estarmos a abordar situações parecidas nos nossos projectos, como outros pelo mundo também andam a explorar estas questões do “remix”. Recentemente tropecei no brasileiro Sama, residente em Portugal, que tem feito algumas BDs usando desenhos soltos que já tinha feito anteriormente, para um texto novo. Experiências destas já todos que fazem BD devem ter feito, claro está. O engraçado é que de repente não é só uma pessoa a exibir este tipo de situações... Outro caso, o Martin López Lam, peruano residente em Espanha, com o zine Dote de poto a tres (Ediciones Valientes; 2013) usa as imagens do seu colossal livro de BD Parte de Todo Esto (De Ponent; 2013) para colocá-las ao serviço de um texto completamente diferente - o que os junta é também que o título de um é anagrama do outro. O resultado é que ficamos na presença de obras gémeas mas separadas à nascença.

Esta é a razão da “remix”, não é fazer tributos ou homenagens ou poupar tempo numa BD nova, aliás, perde-se muito mais tempo a usar trabalho de outros para ficar coerente e autoral. O que interessa é acrescentar algo de novo sobre uma propriedade intelectual que já deu o que tinha a dar assim que foi lançada para o mundo. Quem proibiu o Katz não quer saber disso mas há milhares de pessoas com ferramentas neste exacto momento que podem pegar num dos 14 livrinhos do Chris Ware e melhorá-lo com uma tesoura…


Agradecimentos a Elettra Stamboulis, Sami Aho e Benjamin Bergman. Este artigo foi publicado em Setembro no jornal finlandês Kuti, em inglês com tradução de Ondina Pires.


(1)   Edição em português na revista Quadrado #1, 3ª série (Bedeteca de Lisboa; Jan’00)
(2)   Quadradinhos. Histórias Postadas (Galeria Yron, 2008)
(3)   Já agora, este trabalho de Ware lembra a mesma estratégia fragmentada do romance Vida – Modo de Usar de Georges Perec (1936-1982), um “oulipista” que neste livro conta as histórias de cada apartamento de um prédio mas o livro enquanto objecto é um único volume de 500 páginas
(4) Há várias edições de Bosnian Flat Dog (título original), em monografias ou em antologias, é só procurá-la na sua língua favorita! Em Portugal, foi publicado o primeiro capítulo na Quadrado (3ª série; Bedeteca de Lisboa).
(5) Disfarçado como unDJ MMMNNNRRRG