A apresentar mensagens correspondentes à consulta turunen ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta turunen ordenadas por data. Ordenar por relevância Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção



O volume da Colecção RUBI, intitulado Xeique PHDA de Marko Turunen, diz o seguinte:

Um xeique finlandês vestido de forma tradicional do Médio Oriente foge numa bicicleta, perseguido por polícias suecas, deixando um rastro de crianças sem paternidade assumida, mortes a sangue frio, furtos de casa e carros,... 

Eis um caos existencial que nos aqui é relatado, sendo que o Xeique PHDA (Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção)  é uma personagem real, romanceada pelo autor finlandês Marko Turunen.

O trabalho de Turunen baseia-se na realidade, muitas vezes a mais monótona delas todas, apimentada com uma estética Hiper-Pop em que temos a sensação de estarmos imersos num universo Meta. Assim no horizonte do quotidiano, co-habitam "mulheres-com-excesso-de-mangá", homens "funny animals" ou super-heróis 3D, entre outras criaturas mutantes da cultura popular da Aldeia Global.

Embora o autor já tenha estado presente com uma exposição individual no Salão Lisboa de Banda Desenhada e Ilustração, em 2005, esta é a sua estreia portuguesa em livro. Curiosamente a autora Tea Tauriainen que participa num episódio deste volume já tinha sido publicada cá no Mesinha de Cabeceira.


Publicado originalmente em quatro volumes separados na Finlândia, entre 2015 e 2017, o último num formato maior que os três primeiros - a lógica do conteúdo explica a radical mudança de formato - foi publicado em francês pela importante Frémok num só volume, como acontece com esta versão portuguesa, cuja tiragem inclui para 100 exemplares uma oferta exclusiva de um mini-zine de material extra. Para aceder à oferta especial e limitada, apanágio da colecção RUBI, é preciso adqurir directamente à Chili Com Carne - e não estar à espera de encontrar numa estúpida cadeia de lojas, por exemplo, dah! Tenham juízo! E seja como for isso já ESGOTOU!!



360p A5 2 cores (56p noutra segunda cor) + capas duplas 1 cor + sobrecapa 2 cores

+ zine A6 para os primeiros 100 que o apanharem! Entretanto esgotou!!!

à venda na nossa loja em linha, Tinta nos Nervos, Kingpin, Snob, Linha de Sombra, ZDB, Socorro, Tigre de Papel, Universal Tongue, Utopia, BdMania, Alquimia, Língua nos Dentes e Matéria Prima.






Historial:

... 

Recital da obra por Ana Água na Noite da Literatura Europeia na Loja de Bicicletas de Carnide, 12 de Outubro 2024.




FEEDBACK:

(...) devorei o livro do Turunen! (...) Aquilo é massacre de javardice até ao twist final que dá uma gravidade brutal à obra, conseguindo alterar toda a percepção que se tem dos eventos passados. Pobre Xeique... (...) Este livro é bem mais limpo e "vaporwave" mas é sem dúvida uma adaptação perfeita do estilo ao conteúdo que quer explorar. Deve ser dos artistas de BD actuais que mais gosto e respeito, e coloco-o de certa forma a par do Igor Hofbauer, por exemplo, na medida em que conseguem navegar num universo estético muito próprio e surreal, mas sempre com referentes pop muito presentes. 
André Coelho (via email) 


 Só agora, na calma de uma praia flat é que li o Xeique. Devo dizer que o mar se agitou, com a leitura. 
 Tentei uma vez ter amigos esquizofrénicos, quando estive internado com o surto psicótico de 2010, mas um estava em contacto com Deus e Deus dizia-lhe que eu era pedófilo (origem de O cuidado dos pássaros - estava tão stressado que acreditei no Deus dele durante três dias). Outro amigo mandava-me mensagens de texto sobre conspirações incompreensíveis. É tudo um bocadinho mais intenso, para aqueles lados. Há uma sintonia entre fantasia e realidade que nós não temos. 
 Não sei o que achar de entrar na saúde mental adentro sem lá estar a viver - é como roubar um manto alheio, de um profeta ausente. Como BD é bestial, visualmente, não devia funcionar mas faz isso mesmo.


Adorei. O desenho é fabuloso, a cena é decadente e casual, fica na cabeça. Perdi-me uma beca no guião, mas nao importa, porque cria um ambiente sensorial brutal.
Júlia Barata (via email) 

(...) é mesmo um excelente livro (...) gostei da linguagem próxima de uma 'cultura do lixo'. estava mesmo completamente a foder a cabeça, mas depois percebi o porquê da mesma e como essa linguagem reforça a mensagem que se quer passar.
JB (via email)

o Marko sabe contar uma boa estória.
Jucifer (via email)




Marko Turunen (Kotka; 1973) apesar de estar formado em Escultura na Academia de Artes de Turku, a sua praia é o desenho, trabalhando como ilustrador e autor de banda desenhada numa carreira longa que começou em 2000, materializado em vários livros publicados na Finlândia, Bélgica, Suíça, Alemanha, Itália e Estónia, além de várias participações internacionais na Eslovénia ou em França. Em 2004 ganhou o prémio de melhor condutor, na Finlândia, um concurso sobre regras de trânsito, segurança e condução económica.

domingo, 12 de outubro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (10)

Depois do "grande livro" do Gato Mariano, o bichano crítico dos comportamentos culturais dos  seres humanos andou meio desaparecido do físico e largou a canga da música portuguesa publicando tudo na rede social "instagrana" - que algumas pessoas, como eu, não podem aceder. Recentemente o seu criador Tiago da Bernarda fez alguns zines - O Gato Mariano : Herói do Proletariado e O Gato Mariano contra o Mercado - talvez para sentir outra vez o cheirinho do papel e da tinta. Eis que chegamos ao O Gato Mariano : Miau de vários ofícios (2020-2025) com aspecto de "single" pois trata-se de uma compilação temática das "tiras humorísticas" do Gato. Esta primeira - com bela capa em serigrafia - por acaso anda pelo mundo da música indie e o seu mercantilismo. Humor inteligente e refinado que morde em todos mas claro que os gatos quando brincam a morder sabem controlar as dentadas para não magoar o dono. 

Compras aqui!


O finlandês Marko Turunen como já tinha escrito aqui anda a reeditar a sua obra completa para belos livros redigidos em inglês. A nova fornada de livros inclui o Der Round compilado, num formato maior e com mais páginas mas o inesperado é este Goose Step in E Minor! Escrito por um amigo da juventude de Turunen, Mika Jurva em 1992, é originalmente uma das primeiras tentativas de Turunen fazer uma BD e publicá-la, com ambição de se tornar autor de BD. A BD foi feita com o esforço da juventude e foi redesenhada há poucos anos quando Turunen aderiu às novas tecnologias de desenho - via digital - devido a problemas de vista. A BD aqui publicada foi "recuperada" como um exercício de Turunen para se habituar à maquinaria. É giro que a ideia de um detective hipopótamo seja mais tarde recriado na série Elephantmen (Image; 2006-). Topa-se - e é assumido - a influência cósmica-esotérica de Moebius quer na história (hermética) quer no traço linha-clara-yang, influência justificada porque os dois putos finlandeses estavam isolados q.b. numa terrinha - oi! Não havia internet, pá! Lê-se com frescura surrealista de outra altura da Humanidade... Resta dizer que o Mika faleceu com 30 anos, em 2003, e esta é uma forma bonita de homenagear alguém que desapareceu.

Novo disco de Vaiapraia, sim um LP!!! Alegria Terminal (Tons to Tell; 2025) é um disco limpinho, finalmente percebe-se tudo o que o Rodrigo canta e/ou berra. Assim os seus psico-dramas amorosos ou tretas do quotidiano aumentam a sua dimensão a emoção - e sim, os heteros + cis podem-se identificar com as letras não fosse o Rodrigo um escritor astuto. A parte instrumental está cada vez "experimental" mesmo que isto significa usar as matrizes gastas do Garage, Punk e Indie mas o que poderia dar em clichés chatos é justamente o contrário que acontece, este álbum brilha como uma estrela. Meu, se este não for o disco no ano, então estamos num país todo fodido.

Sei que há uns problemas com a edição, por isso, eis um aviso à population: despachem em arranjar um exemplar senão terão de comer papa digital.

domingo, 12 de janeiro de 2025

1 livro 1 disco 1 zine (1?)

Aparentemente o pessoal cagou prá minha sugestão de passar a escrever mensalmente sobre edições que não conseguem entrar n'A Batalha - ou por falta de periocidade em que se encontra o jornal ou por alguns dos objectos não fazerem sentido numa publicação anarquista. 

O certo é que Dabstep dos Greengo já é de 2018 mas só agora é que arranjei uma cópia do CD, editado pela Raging Planet. Apesar de fazerem parte dois terços dos "nossos" Krypto, só agora dei-me ao trabalho - uma aparelhagem à séria ajuda imenso - de ouvir isto com a seriedade que merece. Seriedade!? Má escolha de palavra nem que seja porque todas as imagens do disco são sobre erva - sim, aquela que tem THC - chegando ao cúmulo que a versão CD (existe também um LP) tem um recorte em cartolina da "planta maldita". Som pesadão na senda do Stoner que esteve tão em voga no pré-covid, ali onde Sleep largou as botas para os punks. É incrível o que um baixo + bateria fazem - e uma voz (já agora) que não sendo nada de especial, é funcional para o "género"... obviamente  que a união com Gon para se transformarem em Krypto fez uma diferença brutal nesse nível (e nos concertos ao vivo). Sim, para simplificar isto é música brutal para ganzados...

Só faltam agora o fanzine e o livro. 

Sendo as diferenças ténues nos dias que correm nem sei muito bem por qual começar. Pode ser este Bonança (Imprensa Canalha; 2024) de José Feitor - autor/editor que já sofre de preguiça digital a julgar pelo abandono do blogspot em preferência ao instagram... Ou será puro aceleracionismo? 

Belo A4 todo DIY, ainda tem a ousadia de fazer 150 exemplares num mundinho chato o nosso em que o pessoal faz tiragens tão caganitas e cheios de cagufa.

Com uma prosa tão deliciosa como esta: Até os mais pobres vivem agora melhor que os ricos de antanho - a comida é-lhes entregue à porta, ainda fumegante, por mensageiros de fraque emprestado que se deslocam em traquitanas rocinantes. (...) Não há luta de classes que resista. É complicado saber por onde começar a escrever sobre este livro de autor (zine?). Visualmente Feitor está em modo de "bonança" (aproveitando o título), sempre imaginativo, com fusões gráficas inesperadas e cada imagem produzida é uma fofura de opressão - que dizer daquele giríssimo Yeti capitalista (o chapéu do capitalista representado à 100 anos) com uma corrente e cadeado? É um banqueiro que nos vêm prender prá vida com um empréstimo a contrair? Que seja! Ele é bem giro para ampliar e meter numa parede lá em casa. A melhor opressão é aquela que não sentimos já alguém o deve ter dito... 



UFOs in Lahti
(Auto-edição, 2024) de Marko Turunen é a colectânea dos quatro "comic-books" do que aqui escrevi há mais de 10 anos! O tempo passa... 
 
Roubo a mim mesmo o que escrevi sobre ele n'A Batalha: O Xeique PHDA do finlandês Marko Turunen foi um dos livros de BD mais impressionantes e dos mais ignorados do ano passado. Pessoal da BD esquece, tudo parvo como sempre. Pessoal da psicologia & psiquiatria, também nickes, se calhar só sabem ler bulas médicas… Bem sei que como editor deveria estar caladinho em lágrimas mas chateia-me que (...) não ligaram pevas à coisa. Que raiva! Mas o problema nem é só português, a obra de Turunen existe quase toda publicada em francês pela Fremok e ninguém quer saber. Mesmo na Finlândia, o autor queixa-se que lhe ignorem. Bóf!
 
Entretanto Turunen meteu em marcha um plano de reedição em inglês de quase todos os seus livros. Deve pensar que o mundo anglo-saxónico seja mais aberto, ou que esta língua franca ajude a chegar a mais público. (...) Para quem não sabe Turunen faz BDs sobre a realidade, da sua vidinha ou de outros à sua volta, o que é inesperado na sua obra é o imaginário, em que desenha essas banalidades com representações da cultura Pop. Por isso Marko é o “Alien”, um ET baixote com buraco na cabeça (uma vez que Turunen quando era criança foi atingido por uma bala) e Annemari é a Greater Woman (uma espécie de super-heróina toda em latex fetichista S/M - e que gralhas no passado, e que persistem nesta edição também, aparece como Grater Woman, o que me levou a escrever algumas vezes como "Mulher Raspadora", ops!). Como uma crónica disfuncional, vamos assistindo à vida do casal, (...) As banalidades ganham pujança existencial com o lixo Pop que Turunen utiliza para ilustrar estes “slices-of-life”. Uma poesia emerge desta lixeira que parece quase uma afronta aos detourments dos Situacionistas que usavam a BD pop para mostrar a miséria da vida capitalista. Algumas destas reedições em inglês foram mexidas – supressão ou acrescento de vinhetas, algumas foram agora publicadas a cores ou justamente o contrário, aparecem a preto e branco quando eram originalmente a cores. Porquê? Pouco importa para vocês, nunca souberam da existência deste autor, né? Para quê entrar em detalhes agora? Oh, lembrei-me que ele já cá esteve duas vezes com belas exposições, no Salão Lisboa 2005 e na Tinta nos Nervos em 2023. Os livros do autor podem ser encomendados no seu sítio em linha superturunen.fi (com portes horríveis porque os correios finlandeses foram privatizados) ou em Portugal pela livraria Tinta nos Nervos.

Ufa, foi mais fácil que pareceu, prometo ser menos preguiçoso em Fevereiro...

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

BDlite


Alexandra Saldanha, André Coelho, António Jorge Gonçalves, Filipe Abranches, José Smith Vargas, Maria João Worm, Miguel Rocha e Miguel Santos (que irá participar na Massa Crítica!) são os autores que vão estar representados na exposição Flexágono no Fólio, em Óbidos.

Por cá, uma leitura dramática por Ana Água do Xeique PHDA de Marko Turunen na Loja de Bicicleta de Carnide, AMANHÃ, às 19h, no âmbito da Noite da Literatura Europeia:


Kiitos Instituto Iberoamericano da Finlândia!

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Relatório 2023 sobre zines e edição independente

Comecemos por um pequeno acto de coragem, uma singela mas acutilante BD digital de Tiago da Bernarda com o seu habitual Gato Mariano e Bruninho (és o maior!) publicado seu instagram sobre a guerra em Gaza - aliás, um outro Bruno até explica que o desenho ainda é arma contra a estupidez e controlo digital - uma vez que a falta de coragem grassa pelo mundo, com medo de perder a sua continha de rede social.




Os últimos anos do mercado de BD em Portugal tem sido um avalanche de mediocridade porque a BD - ops! perdão, a "novela gráfica" - está na moda. Lá fora o mesmo acontece, claro mas há muito mais oferta (e melhor), até porque foi uma construção de várias forças e de décadas de trabalho que permitiu que agora a BD seja omnipresente em qualquer "nicho de mercado" e que tenha oferta para "todos os gostos".

Cá não foi assim nem os resultados serão os mesmo. As editoras profissionais generalistas são absolutamente ignorantes nesta área, publicam as cenouras que os agentes literários internacionais lhes abanam: adaptações literárias em primeiro plano, seguida de biografias ou adaptações históricas, e por fim, "Manga" da sexta divisão e feito por ocidentais medíocres... aliás, tudo o que foi referido, tirando uma excepção ao outra, é perfeitamente medíocre! De realçar, apesar de ser um livro menor na sua carreira, O Segredo da Força Sobre-Humana de Alison Bechdel, graficamente pouco atraente e com algumas piadas parvinhas que estragam o peso autobiográfico da obra, não deixa de ser interessante ver a Relógio D'Água a sair do seu próprio catálogo imundo de adaptações literárias que criou ao começar a publicar "novelas gráficas".

Os editores especializados, tem conhecimento e "savoir-faire" mas o seu mau-gosto e pensamento reacionário, fez que ignorassem artistas que rotulavam de "alternativos" - ou pior ainda: basta ser "artista", que é palavra feia no meio bedófilo! - e que ficaram grandes nos últimos anos, ou seja, agora custam mais caro de quando eram "alternativos" e menos acessíveis como pessoas para criar relações entre autor e editor. É óbvio que se for a primeira vez que se publica um livro da Julie Doucet ou do Adrian Tomine, custará vendê-los ao público português que não os conhece - isto deveria estar entre aspas, pois há muita gente que conhece estes autores porque compram edições noutras línguas! Será mais fácil editar um Tardi - e foi das poucas coisas de jeito que saíram no ano passado, falo de Elise e os novos Partisans, com Dominique Grange, pela Ala dos Livros - do que o Yvan Alagbé. Isto apesar de todos os autores aqui referidos terem passado por Portugal, em presença física e com exposições de grandes festivais de BD... Também é fácil à Devir publicar Junji Ito, Naoki Urasawa ou Taiyo Matsumoto, quando até os putos da província tem t-shirts deles ou já viram os Animes na 'net, do que publicar os irmãos Tsuge. Gostamos destes autores, claro, mas falta audácia.

É neste caldo de inconsistência que se circula, por cá. Mas há mais inconsistências, mesmo no meio "alternativo"...


Internacional

A Chili Com Carne esteve no Festival de Angoulême, Autobán (A Corunha) e Fexti (Badajoz). A Magma Bruta no Graf de Barcelona e a Oficina Arara no Novo Doba (Belgrado). Parece que todos  se baldaram ao Crack (Roma), talvez porque vieram de lá doentes em 2022?

Franciso Sousa Lobo participou na revista finlandesa Kuti e na letã Kuš!, nesta última também entrou o Ivo Puiupo. Na colecção mini kuš! dessa mesma editora, saíram os livrinhos de Ana Margarida Matos e João Fazenda. Pela Eslovénia, comemorando os 30 anos da revista Stripburger, participaram Bruno Borges e Filipe Abranches na antologia Dirty Thirty. Matos e Sofia Neto entraram no fanzine espanhol Soñario e Ana Maçã no dreamzine #2, ambos do projecto ElMonstruoDeColoresNoTieneBoca. Amanda Baeza voltou em forma internacional estando na antologia suiça «autre chose» com a "creme de la creme" da BD mundial e ainda no fanzine Amorcito da Galiza. Foi de lá também que veio o álbum Zeca Afonso – A balada do desterro, com texto da galega Teresa Moure e desenhos da portuguesa Maria João Worm. O livro foi publicado pela Acentral Folque, da Galiza, e a Tradisom, de Portugal, assim sim vale a pena fazer projectos internacionais. AngueSângue de Daniel Lima teve edição em português pela Chili Com Carne e em inglês pela Kuš!. Lima também viu a sua página do Le Monde Diplomatique - edição alemã - de 2018 compilada em Die große Salatschüssel des Lebens, pela Reprodukt, ou seja outra antologia "creme de la creme", diga-se de passagem! Borges continua com a Abolição do Trabalho, de Bob Black, a conquistar mundo, desta vez nos EUA pela Floating World. 

Nesta mesma editora que começou publicar a obra do primeiro grande artista de BD, o italiano Guido Buzzelli (1927-92) e Domingos Isabelinho entregou um texto introdutório para o primeiro volume. Não foi o único português a fazer trabalho de referência, Leonardo de Sá que investigou a passagem por Portugal do autor francês de BD "collabo" André Daix (1901-76) no livro Dans l’Ombre du Professeur Nimbus por Antoine Sausverd, pela P.L.G.


Visita ao zoo

Com programações cada vez mais fracas, os festivais de BD não tem trazido artistas estrangeiros que possa referir aqui, só o habitual putedo bedófilo, ficando as excepções (que confirmam a regra) para as espanholas Anabel Colazo (em Beja) e Mayte Alvarado (Amadora). Tem sido a Tinta nos Nervos a arriscar, como aliás, já é uma verdade há 3 anos, tendo trazido para exposições o finlandês Marko Turunen e o bom gringo Christopher Sperandio. De referir a passagem do editor da Floating World, Jason Levian também por lá, para apresentar o livro do Borges acima referido.

De resto, os nómadas em Lisboa tornou-se num fenómeno que não pode ser ignorado. Vários são os autores que passam por cá, ora ficam uns tempitos em residências artísticas, por exemplo, como o suíço Yves Hänggi que fez duas exposições em Lisboa, ora assentam os arraias e até começam por publicar livros como a irlandesa Rayne Booth ou o turco Utku Yavaşça que está a desenhar uma divertida BD num fanzine de "expats" (é assim que se escreve?) chamado Ble$$ed. Alguns já cá estão cá há anos e são gajos grandes como o francês Hervé di Rosa que teve uma exposição no MAAT com uma confusa data de final de exposição. O romeno Nicolae Negura, também residente há anos por Lisboa, participou no projecto Histórias de 89 no obscuro Instituto Cultural Romeno em Lisboa. E não esquecendo ainda o cromo norte-americano Flynn Kinney que meteu cenas tugas nos "melhores do ano" do fanzine Bubbles. Obrigado!


Eventos

Acontecimentos houve muitos, o habitual mercado de edições independentes que cada vez são mais feiras de cartazes - e infelizmente o antídoto que era o M.A.L. não sobreviveu para 2023. Trata-se de uma verdadeira gentrificação das publicações. Quando este tipo de eventos apareceu em Portugal, chamavam-se "Feiras de Fanzines" nos finais dos anos 90, ao longo da primeira década do novo milénio, devido à democratização dos meios de produção ligados à impressão, acrescentou-se "edição independente" de forma a entrar livros de autor, livros de artista, micro-edições e livros com distribuição restrita. Nos últimos 10 anos parece que os eventos de "edição independente" são uma feira de Carcavelos com imagens chatas e redundantes, onde pessoas (clientes) vão comprar serigrafias e afins para decorar os seus A.L. ou salas amarelas ou cozinhas azuis, sei lá... Houve a Raia, Parangona (Lisboa), Alegria, Perímetro (Porto) e Autónoma (duas edições em Cacilhas no abandonado Ponto de Encontro, justamente onde apareceu das primeiras "Feiras de Fanzines"!). Em Alpiarça fez-se um simpático Festival de BD e Fanzines. A Chili participou em mais umas feiras de outros temas: Feia (Música), Livro Anarquista, Livro de Arte (em Coimbra, imaginem isso!), Festival Rescaldo e Matiné Fetra. De realçar, pela negativa e como primeiras manifestações de "zinewashing" a "rip-off" Stolen Goods em que na sua própria sede, a organização pedia 75 euros por mesa aos seus participantes -  tendo uma série de estrangeiros caído na esparrela (e alguns portugueses); e a Direita monga cabotina da Junta de Freguesia de Arroios organizou a segunda FLIFA em que participaram VIPS de merda e um bosta de um facho.

Continuou a instalação Story Tellers no Parque Silva Porto (Benfica, Lisboa) com quatro conteúdos diferentes tal como as estações do ano e apareceu o ciclo Ilustraboom WC/BD na antiga casa de banho pública do Jardim Camilo Castelo Branco (Lisboa) com exposições mensais, das quais destacam-se as da Joana Mosi e Zé Burnay por trabalharam sobre o espaço e não terem colocado apenas pranchas nas paredes. Em Óbidos continua a mostra anual Flexágono, no festival In-Fólio, organizado por Pedro Moura. Em Torres Novas, na Biblioteca Municipal, fez-me uma exposição sobre os 50 anos do fanzine Impulso, seja lá o que isso tenha sido. Na Biblioteca Nacional, ainda a recuperar os atrasos do covid, comemora-se os 100 anos do ABCzinho (1921). Mais importante é a recuperação de trabalhos de Artur Varela (1937-2017) numa exposição na ZDB. Houve exposições da Rosa Baptista (aka Rroze Selavy) para inaugurar a Casa do Comum no Bairro Alto (que inclui livraria e onde foram feitas as feiras anarquista e Parangona) e este escriba teve uma expo-guerrilha em Guimarães, Ganza Metal, graças à malta da Magma Bruta, onde foram recuperadas peças do Zalão de Danda Besenhada (2000) e do Mistério da Cultura (2007).

O mais importante de 2023 e onde o futuro se constrói foi Memórias Artificiais do Rei da BD portuguesa, Rudolfo, que mostrou originais de BD, tocou música e mostrou o seu videojogo (que mete BD) num armazém no Porto, em Junho, um dia antes da Feira da Alegria. Que alguém tenha olhos na majestade!


Publicações finalmente!

Não! Cada vez existe menos fanzines ou zines, não sei se é da crise que se vive, individualismo do neo-liberalismo que se vive ou apenas falta de tempo mas quase não se encontram projectos e artistas novos. Quase deixa de fazer sentido escrever este relatório. Só se justifica porque há sempre projectos independentes com qualidade para relembrar os mais incautos. Este ano a maior surpresa foi o caso da Associação de Estudantes da Faculdade de Belas-Artes do Porto que fizeram o Coisas feias em Belas Artes, um fanzine em formato A5 catita com montes de BDs politizadas sobre a degradação do ensino superior em Portugal mas também sobre a tomada de consciência de como a cultura e o associativismo são importantes – prova dada pela qualidade da organização da Associação ao produzir a Feira da Alegria! Destaque especial para o autor Pedro Evangelho.

Na continuidade de projectos eis que houve mais volumes do Bomba Zine, O Filme da Minha Vida, Bancar0ta, Fosso (José Feitor), Mesinha de Cabeceira, Olho do cu, Opuntia Books (desenho) e Umbra. A Chili Com Carne, Magma Bruta e Sendai continuam de boa saúde a publicar o melhor da BD "artística".

Regressou o divertido fanzine É fartar vilanagem, tal como os artistas João Carola, André Coelho, Dois Vês e Rafael Gouveia voltaram às lides da auto-edição. O mesmo para o colectivo MASSACRE que logo no início do ano com um livro de algum investimento, falo do The End of Madoka Machina de André Pereira.

Os destaques vão para os projectos fora de comum, tudo da Chili e associados, modéstia à parte: Where's the ground? da banda Rock Unsafe Space Garden, pela Discos de Platão, em que a música,  a BD (de Alexandra Saldanha) e os espetáculos ao vivo parecem unos num caleidoscópio psicadélico. O jornal Carne para Canhão da Chili, só com um número ainda, que pretende chegar a públicos mais alargados por ser gratuito, inspirado noutros projectos passados como o finlandês Kuti. E o grande Vale dos Vencidos, obra de 11 anos de trabalho de José Smith Vargas, um "tour de force", com alguns laivos inéditos de composição editorial do livro mas sobretudo um marco histórico na BD portuguesa, pela complexidade narrativa e a temática das destruições das cidades que tanto nos aflige.


Referências

Depois das palhaçadas d'A SHeITa do ano passado, que apesar disso, ainda são úteis q.b., para pelo menos cartografar a BD portuguesa deste milénio, 2023 foi deserto outra vez nesta área. Apareceu uma simples brochura de Bibliografia de Banda Desenhada de Ficção especulativa Portuguesa por Marco Fraga da Silva, editada pela Associação Tentáculo. A Tinta da China para redimir dos desastres ecológicos do passado (Melo & su muchacho) reeditou os Cartoons de João Abel Manta. A Arte do Autor publicou mais uma BD sobre a vida de Edgar P. Jacobs, numa eterna bedófilia feita por uns gajos franco-belgas que nobody gives a shit! A revista sobre ilustração Aguça sacou o número três e apesar de ainda não ter visto nem lido, só os nomes aguçam o apetite: Amanda Baeza, João Sobral, Mariana Pita, Sara Boiça e Sofia Neto. E a mais "boring art magazine ever" Umbigo teve uma frikice qualquer que metia o acervo da Bedeteca Nacional [sic] da Amadora a ser discutido pelo Tiago Baptista num artigo. O que vale é que o Baptista é sólido...

Vencedor do ano, o blogue My Nation Underground do nosso associado "Erradiador" que todos os dias coloca um "post" (ou mais que um) de um fanzine da sua colecção - essencialmente de BD - criando um puzle e compendio deste tipo de publicações. Quem for de ano a ano poderá ter uma imagem mais nítida do que foi ou é a cena dos zines (e edição independente) em Portugal. Como diziam os outros: clap clap clap!


Tristezas não pagam dívidas

2023 foi um retrocesso civilizacional, não só pelas guerras, por exemplo, mas também pelo tratamento xenófobo que a Câmara Municipal da Amadora infligiu à artista luso-chilena Amanda Baeza, que não mereceu celebrar o 25 de Abril com a instituição. Tal mereceu boicote de um certo público ao Festival de BD, embora, não havia nada para esse público ir lá ver - tirando a exposição do Smith Vargas, claro.

De referir ainda a triste morte aos 60 anos do norte-americano Joe Matt, um caso in extremis de como o uso da autobiografia pode secar a vida de um artista. Matt era tão viciado em pornografia, tal como era tão pornográfico na forma como deitava para fora a sua vida nas BDs autobiográficas, sob o título de Peepshow. O seu falecimento deveu-se à falta de dinheiro para tratar da sua saúde.

Quem não é anarquista que tire as conclusões que quiser sobre estes dois casos...

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

ccc@festa.do.livro


Uma selecção de livros nossos vai estar na Fundação Oriente na sua Festa do Livro, a partir de amanhã até 17 de Dezembro. A selecção implica artistas orientais - como o tipo do gato ou o Yokoyama -, artistas que usam a estética Manga (André Pereira, Marko Turunen ou Ilan Manouach) ou trabalhos que abordam cultura oriental (REP, Tiago Manuel). 

De resto, dia 2 de Dezembro, às 16h, lançamos lá o Tóquio Zombie de Yusaku Hanakuma com presença dos editores Marcos Farrajota (Chili Com Carne) e Cassiano Soares (Sendai) e a artista Hetemoé.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

#lisbonisshit

cartaz de Paz Rodríguez


Vêm aí os bárbaros cristãos!!!

Toca a fechar a loja (de 27 Julho a 1 de Setembro) antes que eles tentem queimar as nossas edições heréticas!

Vamos à A Corunha, Galiza, ao Festival Autobán, fartos de uma cidade medieval!

Quando voltarmos deveremos ter uma novidade pagã do Lucas Almeida e a reimpressão do satânico Os Companheiros da Penumbra de Nunsky.


PS - Não se esqueçam que a exposição do finlandês Marko Turunen continua patente até dia 16 de Setembro na Tinta nos Nervos

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Novas do Super-Turunen




O finlandês Marko Turunen trouxe novidades suas nesta sua visita a Lisboa. Não são livros de BD infelizmente mas são fantásticos na mesma, é o Super Turunen em acção! 

Neon Barbarians é um álbum de ilustrações suas em formato LP cheio de misticismos Pop em que o único possível que o misticismo cria é caos. Algumas imagens vieram de capas de discos e o que sobressai são as cores (as famosas cores finlandesas!) em degradés vaporosos e brilhantes, com toda a pinta retro mas sem ser vomitante como era antigamente este tipo de produção. No fim de contas é uma vingança do vintage 80s mas com estilo desta vez! 

Walking with Lihis - não confundir com o Caminhando com Samuel, hahah - é um álbum de fotografias de Lihis, a cadela Pug salva do abandono em Espanha, que "posa" para Turunen. As fotografias são resultado de caminhadas com a cadela para (re)descobrir Kotka, cidade de onde Turunen é original mas que só regressou à pouco tempo. Quando o transhumanismo passar para os nossos bichos de estimação, será possível refazer a alminha da Lihis, de tão fotografada que é nos escombros da cidade, galerias de arte e neve - ou será a alma de Turunen? É incrível o equilíbrio entre pose, espontaneidade, arte, crítica e humor que Turunen consegue com este livro e estas fotografias, quase não há diferença entre elas e as suas ilustrações e BDs. Não é qualquer um... 



Por fim, o Super Turunen fez uma capa para a k7 Dead (Ruton; 2019) de Jussi Lehtisalo (dos Circle). Trata-se uma singela intervenção de sintetizadores tão frios como o inverno finlandês. O ar 3D velha guarda da capa ilustra bem a música que é.

Amanhã o autor vai estar na Tinta nos Nervos a fazer uma visita guiada de manhã, às 11h, aproveitem para ir lá já que foram preguiçosos no Sábado!

sábado, 1 de julho de 2023

Macacos me mordam! MARKO TURUNEN em LISBOA!!!!!!


CONVITE   |  INAUGURAÇÃO 
SÁBADO  1  JULHO  16h
Marko Turunen

  Macacos me mordam !
Desenhos e transparências
na TINTA NOS NERVOS

É com muito prazer que convidamos para a inauguração da exposição do artista finlandês
Marko Turunen «Macacos me Mordam ! Desenhos e transparências.» 
 
Durante o evento, será igualmente lançado o seu mais recente livro Xeique PHDA, edição da Chili com Carne, numa conversa e sessão de autógrafos com o autor.
 


Macacos me mordam! é o nome da exposição de Marko Turunen que reúne imagens desenhadas ao longo de quase duas décadas. Pode-se encontrar tanto humor como sofrimento nesse título, uma antiga expressão portuguesa. Esses dois elementos são uma dupla comum quando se explora a arte de Turunen.
Na Tinta nos Nervos, apresentam-se quatro conjuntos distintos de trabalhos que partilham o mesmo vocabulário e a mesma força das imagens. Pelos diferentes suportes, compilando o que tem sido a temática recorrente dos seus trabalhos, transitam seres do outro mundo e muitas bizarrias deste, com ursos e extra-terrestres de outras galáxias, vaqueiros, pistoleiros e criaturas diversas deste far, far, west, numa espécie de non-sense criativo e surreal.
 
Marko Turunen é um artista e ilustrador baseado em Kotka (uma pequena cidade costeira na Finlândia perto da fronteira entre a Finlândia e a Rússia). Formou-se como escultor em 1997, mas a banda desenhada é a parte mais visível da sua produção artística. Tem livros traduzidos em francês, italiano, alemão e agora em português
 
Esta exposição tem o apoio do IIAF (Instituto Ibero Americano da Finlândia)