segunda-feira, 17 de junho de 2013

domingo, 16 de junho de 2013

Sermão de Domingo

Rui Miguel Abreu, respeitado agente e jornalista do meio musical português comprou-nos os livros do Rui Eduardo Paes... Ele achou que o desconto de jornalista que lhe fizemos foi tal que até ficou envergonhado.

Pois é Abreu e qualquer outro que estiver a ler isto, a Chili Com Carne não é uma empresa mas sim uma associação sem fins lucrativos, e como tal estamos mesmo a borrifar para lucro e afins. Recebemos dinheiro dos associados que pagam as quotas quando querem (não há forma de os forçar para dizer a verdade), recebemos uns míseros subsídios por ano (e são mesmo miseráveis, sem entrarmos em discurso de choramingas) e claro das vendas que conseguimos. Felizmente temos uma dura disciplina da militância e que criou uma estrutura forte para fazermos o que nos bem apetecer sem prestar contas a ninguém e muito menos cair no facilitismo das publicações oficiais. A Chili Com Carne é uma bolha de oxigénio para os criadores que não encontram mais espaço para respirar nessas ditas publicações. O que não é nada de novo, é também para isto que qualquer estrutura realmente independente serve...

Claro que seria bom que tu e os outros que estão a ver este "post" tivessem presente que toda a ajuda que vier do vosso lado é uma mais-valia para nós, pagando preço total ou a meio-preço, ou ainda em troca directa de produtos ou serviços; fazendo-se sócios da CCC, comprando os nossos livros directamente a nós ou às lojas de forma que elas sintam que há leitores para os nossos livros; escrevendo em blogues e afins, espalhando a palavra, etc...

Agradecemos imenso! E sem vergonhas! Gracias!

Solteiro Punk


Entretanto apareceram-me mais uns singles de bandas Punk / Hardcore sem procurar por nada disto. Maldita militância Punk!!!

O Mike Diana enviou-me mais um disco que ele fez mais uma capa violenta. Os Svart Städhjälp são suecos, de Malmö e estreiam-se com Lägenhetsbråk (Halvfigur; 2012) que na realidade é um EP de 7" para poderem caber sete músicas curtas e a abrir, claro, com letras em sueco para nada se perceber deste lado. Há uma música chamada Sluta vara dum I huvet que quer dizer "fim" de algo quase de certeza... e prontos é tudo que desconfio que sei de sueco! E é melhor assim porque se calhar as letras são aquela treta cheia de lugares-comuns. Grande bujarda, seja como for!


O Alex Vieira passou por Lisboa e deixou-me mais dois discos das suas bandas Morto Pela Escola e Merda, em que canta e toca bateria respectivamente.
Um dos discos é dos Morto, um EP initulado de Raiva do Mundo com sete faixas editado o ano passado pela Zuada Rec e HeartsBleedBlue. É aquele quatro por quatro Punk que pouco irá trazer algo de novo à Humanidade... Tal como o split com Merda (Give Praise; 2011) também não irá adiantar muito, até antes pelo contrário. Merda parecia ser uma banda mais divertida num disco (também split mas em CD) com os DFC que tenho práqui em que até tocavam Jazz e Sambinha no meio da barulheira Hardcore... Neste vinil cor-de-laranja é Hardcore convencional. Bah! Que merda, cara!

Outro que andou por cá este ano e ainda há poucas semanas atrás, foi o grego Ilan Manouach que de vez enquando mascara-se de entidade sonora Balinese Beast na companhia de George Axiotis. Já têm alguns registos como este single Soft Offerings (ed. de autor; 2011). Quem esperar a música alienígena do gamelão (segundo Stockhausen) que tire o cavalinho da chuva porque o que há é música alienígena Noise. Três temas de "power electronics" que dão cabo do juízo a qualquer um e de vez enquando umas entradas meio-sumidas de saxofone Free (de Manouach). Não é "world-music" isso garanto-vos, é punk do século XXI para quem tiver paciência de ouvir chifrim...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Think about the future...


Nada se espera da imprensa nacional ou da "crítica" (mesmo aquela que se diz estar atenta às novas tendências) sobre um projecto seminal como o Futuro Primitivo. Em breve deixarei algumas considerações sobre o livro - a sua resolução, problemas, etc... Até lá vamos recebendo feedback estranho dos autores e leitores que reproduzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzimos aqui

«curti bué do futuro primitivo memo,antes de ler(verdade seja dita) pareceu-me completamente caotico e sem minima hipotese de fio condutor,depois tive a tarde toda a pensar sera q aquilo tá perceptivel...e só as 19H 30 quando sai do bules é q pude entao disfruta-lo,e é lindo , mixaste um livro ou melhor mixaste o melhor pós apocalipse de sempre.tem tudo...o mix bate nas horas!!!!e a junção de desenhos graficamente diferentes foi mesmo em cheio!!!!
tá forte» - aparicio desaparece / Tue, 7 Jun 2011 23:56:00 +0100

«pah curti, sei q as minhs opniões são um bocado seca mas eu aprendo com alguns trabalhos, quer dizer, n é para ser pedagógico nem merda q se assemelhe e mesmo nem concordando com pontos de vista das histórias e das freakalhadas está com sumo e sustento.» - ana maria On 2011/06/08, at 18:03

«epá de vez em quando tem alguns saltos em que o leitor se perde,mas isso até é giro e é momentaneo ,porque o fio condutor reaparece logo de seguida,acho q no todo está bastante perceptivel,a ideia base está lá sempre presente.» - aparicio desaparece / Wed, 8 Jun 2011 21:15:28 +0100

«Futuro Primitivo tem sobretudo autores nacionais e no fundo serve de catálogo à exposição com o mesmo nome. A qual, enquanto conceito e qualidade global, foi em minha opinião a mais conseguida de todo o Festival.» - João Ramalho Santos in JL (21/06/11)
Comentário do editor, Marcos Farrajota: Holy caramba! Não é um catálogo da exposição! Há quem fique com essa ideia - não sei porquê, no outro dia alguém dizia que era um "catálogo dos artistas da Associação". Não percebo, o livro não vale per se? Sei que a aplicação do conceito - mistura das bds de vários autores - será seminal (creio) e dado a erros e falhas (há muitas, admito) como se pode esperar do seu carácter experimental mas pensar que é um catálogo já me deixa a pensar que falhei muito mais do que previa...
A exposição em Beja foi quase uma improvisação, o projecto real estará mais próximo na versão que foi para o Crack - espero fotos em breve para perceber se correu bem. Ou seja, tal como no livro pretende-se que nas exposições seja possível também misturar as tiras de bd de forma a criar sempre novas narrativas. Em Beja, como eram originais que estavam expostos não eram possível misturar o material dos autores (pela razão típica de protecção dos originais). Aproveitamos para deitar o lixo tecnológico na exposição como mera cenografia apocalíptica - tema do livro. Na verdade sempre abominamos as cenografias das exposições de bd mas esta permitiu diversão gratuíta. Como se costuma dizer: "para fazer uma instalação, atiram-se merdas pro chão!" - no colectivo P.I.d.E. já sabiamos disso nos Encontros CCC 1999, em 2011 continua a ser verdade, pelo menos prós cromos da bd que ficaram convencidos da qualidade da exposição. O importante é que se leia o livro...


«A unidade narrativa alcançada com esta espécie de remix aplicado às imagens e às sequências que os vários autores criaram é notável, até pelo potencial caótico dos próprios temas, entre a ficção científica distópica e os mundos pós-apocalípticos.
Mais de quarenta autores responderam ao desafio, escolhendo itens de uma lista cuidadosamente preparada para registar as invenções tecnológicas que terão colocado a humanidade a caminho do abismo. Da roda às armas de fogo, da imprensa à energia nuclear, a lista é suficientemente ampla para incluir elementos facilmente identificáveis com o caos ambiental e o desequilíbrio de produção alimentar que vivemos, mas igualmente com as grandes revoluções do progresso, o que só acentua o tom apocalíptico, configurando uma visão fatalista que alia qualquer avanço a uma inevitável degradação e que traça os princípios programáticos desta edição numa espécie de no future onde não haverá prisioneiros. Enquanto a devastação não chega, a clonagem da ovelha Dolly convive com as lições de sobrevivência que os genes humanos transportam e os autores abandonam as suas personagens à sorte de várias incógnitas, investigando o comportamento humano perante a ameaça do fim. Profecias, loucura, gestos de violência ou o desregramento total são alguns dos resultados. Autores consagrados e outros ainda em começo de publicação criaram sequências fortes, imagens perturbadoras e espaços de reflexão poderosos, mas é o trabalho de edição que lhes confere a unidade imprescindível para que este volume seja um marco para a afirmação da banda desenhada de autor no espaço, acanhado, da edição nacional.» Sara Figueiredo Costa in Expresso (Jul'11)

«Curiosamente, apesar de ser uma cena assumidamente "desconexa", o todo funciona muito bem e sente-se mesmo que é um projecto aberto e com pano para mangas para outras abordagens e sem grandes limites. Existe igualmente é um sabor amargo de estarmos perante algo incompleto, mas de certa forma, é isso a que o livro se propõe. No happy endings, no fucking fun. Demasiada informação para o mundo fazer de todo sentido. Curti mesmo.» On 2011/07/22, at 10:35, A.C. 
Comentário do editor: hum... boa abordagem / pespectiva que me propões... um dos problemas do livro é que alguns autores fecharam demasiado as narrativas para o livro ser mais "visual" mas faz sentido as "micro-narrativas" numa estrutura maior, talvez... Resposta de A.C., às 16:43: «Ya, mas olha que de certa forma, as micro narrativas acabam por funcionar como âncoras, no sentido em que criam momentos de focagem que depois só acentuam o caos gráfico que vem a seguir. Quase como teres momentos melódicos entre uma jarda de ruido sonoro num disco de noise ou assim. O livro tem uma dinâmica do caralho e nem sequer é um "album de BD" nem tão pouco tem aquela pinta de "antologia". É mesmo um overload fodido.»

«The concept is really great!» On 2011/09/10, at 15:13, Ilan Manouach

«El fin esta cerca. El 2012, las profecías mayas, tormentas solares, inminente invasión reptiliana, conspiraciones a la orden del día. A la humanidad le quedan 2 días. ¿Y después qué?. Osea, si algunos pocos "privilegiados" llegan a sobrevivir ¿qué futuro les depararía? No olvidemos que muchas veces el hombre es como una roña difícil de quitar.
Estas preguntas son el punto de partida del álbum distópico que la asociación Chili Com Carne nos hace al completo. Si, porque en Futuro Primitivo participan los alrededor de 40 socios que tienen, en un cadáver exquisito apocalíptico y antológico.
A pesar de lo difícil que resulta organizar un cadaver exquisito entre autores de diferentes estilos, algunos muy diferentes entre sí, el resultado es sólido, primando un aire a ciencia ficción pura y dura, con artefactos ultratecnológicos, contaminación en proporciones elevadas y mutantes y escombros a la vuelta de cada página.» -
Martin - 16/09/11 - in Bolido de Fuego



«I thought one great thing about Futuro Primitivo was that I couldn't understanding all of it. It felt like that was the point, like a global, multidimensional dystopia and you only understand the bit you can see with your own eyes. On the other hand, I think that was my very own subjective reading experince (I understand a little Portuguese but not enough to be sure what the comics were about, a bit like dreaming and half-understanding). Really impressed that you guys have translated it!» On 2011/11/20, at 20:06, tecknarn Sling

«Confessamos que não compreendemos por que razão os editores desta antologia afirmam, na introdução, de que esta é uma experiência “falhada”. Tecnicamente, trata-se de uma recombinação editorial feita sobre material que os autores providenciaram, ora sob a forma de tiras passíveis de serem quebradas e remisturadas, ora várias sequências em cadáver esquisito. A influência deste projecto parece ter sido semeada no tour do Boring Europa, como essa outra publicação demonstra. Todavia, a experiência editorial - que segue os projectos lançados por Marcos Farrajota que procura sempre soluções inovadoras e arriscadas num dito mercado nacional mas que encontra uma recepção francamente positiva noutros circuitos - que temos neste Futuro Primitivo parece-nos ter atingido o seu resultado prático justo. (...) Tendo conhecimento de algumas antologias nacionais e internacionais, é realmente bizarro que a atenção para com este projecto seja pautada por um silêncio quase consensual, apesar da franca “vanguarda” que ela apresenta (...) Falhanço? Ou trata-se isso de um exercício de contradição face aos discursos habituais das “vitórias” e “sucessos”, no campo em que apenas se vasculha na continuidade de sempre?» Pedro Moura in LerBD 16/05/12 

«A compilation of (post-)apocalyptic comics from Portugal and beyond, assembled as a kind of continuous, disjointed, exquisite corpse. This presentation actually makes for something surprisingly more cohesive and intriguing than most comps as it forces parallels and themes to emerge across juxtaposed artists' work. (did each know what the other would do, or is this happenstance? Is there a larger picture?) (...) I was going to come back and write more, but this remains cryptic and interesting as ever. Kind of a widely collaborative, free-association-narrative-connected art book.» Nate D / Goodreads / May 2012 

27 MAIO 2012 - nomeado para Troféu Central Comics Melhor Publicação Nacional 2011 - seja lá o que isso quer dizer e que nada trás para reflexão sobre o projecto ...

«I like the book, there are different moments actually, some parts look like a complete story and some are scattered, I don't understand most of the text so that could be the reason for me not being able to connect everything, but that is also kind of apocalyptic approach consistent to the theme. It can also be a part of the concept (this lack of communication that happened to me on the trip gave me an idea) that you have a solid story with a complete action, characters, articulate conversation at the beginning of the story, but as far as story goes on, everything is starting to lose the connection and at the end becomes a completely unconnectable neurotic abstraction of words and images. As the apocalypse has happened to the medium of narrative comic approach, lets say. I know it's not a hot water (as croats say), but I think it can be used related to the theme. And I like the theme.» Ivana Zubovic ... Tue, 24 Jul 2012 13:47:54 +0200


Panel are broken up from their sequence and then reorganized together, creating graphic tension between multiple artists' work on easch spread. The overall resilt of this strategy makes for a disconcerting and disjointed reading experience but sucessfully demonstrates a collaborative, group-derived aesthetic Kate Morgan / Journal of Artists Books 33/ Spring 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

PUB à Cru #49



A Cru 'tá mesmo nessa de voltar à vida editorial e não brinca em serviço! Agora com o #49 (ah!?) sob o tema especial de "ódio" mete montes de malta a trabalhar com BD, ilustração e texto. Dos autores da CCC participam o Rudolfo, Afonso Ferreira, Zé Burnay e Marcos Farrajota. De resto, a edição mantem a sua condição sexy de formato e acabamento, já para não falar da capa, certo? O conteúdo é mesmo rasco e vadio como se deseja num zine...

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Santa javardeira!

DJ V/A : Worst of the Best of (Faca Monstro; 2012)

Não oiçam esta k7 em "repeat" numa viagem Lisboa / Porto (pela A1) porque podem chegar ao vosso destino e apetecer matar qualquer pessoa. E porquê matar uma pessoa qualquer e não o DJ V/A (ler DJ Various Artists)? Porque todos nós somos responsáveis de consumirmos merda Pop.  E não adianta querer dar um balázio nos Europe (banda Hard Rock manhosa sueca dos anos 80) ou no director da Rádio Renascença ou no Tózé Brito (embora este merecia mais era uma tesoura pelo cu acima) porque mais virão para nos atormentar e nós, sim nós!, estaremos prontos e abertos para ouvir a próxima next big shit.
Desta k7 poderia-se esperar um DJ / produtor tipo o Girltalk para animar a festa com os seus hiper-mash-ups mas invés disso apareceu-nos um DJ bêbado com complexos de John Oswald. O trabalho dele coloca a questão se se pode fazer Arte com lixo. Geralmente não! A julgar pela árvore de Natal com materiais reciclados que aparece sempre numa rotunda ou pelos cinzeiros feitos de latas de Fanta que os freaks vendem. Ainda assim, Worst of the best of consegue ir mais longe da árvore de Natal e do cinzeiro porque recusa-se a ser funcional - consegue-se dançar com esta música? Sendo então um trabalho estético também não chega a ser extremista e por isso fica numa fronteira perigosa do kitsch reciclado. Tem efectivamente piada e em excesso, claro está, faz mal à saúde...

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Coveiro (Marvellous Tone; 2013)



A democratização da edição trouxe-nos toda a espécie de objectos que não sabemos em que prateleira meter - ou porque não minúsculos ou porque são XXXL, ou porque é um CD com livro ou justamente vice-versa? Não é uma queixa, pelo contrário, viva a "bibliodiversidade" e a "anarquivismo"! Este Coveiro é mais uma celebração desta doce liberdade de formatos. Ao que parece existe um filme - de animação? não encontrei nada na 'net... - de André Gil Mata e o "nosso" Ghuna X fez a banda sonora, e tal como no passado, editou um CD documental dessas peças musicais e os seus extras (material inédito que não entrou no filme).
Sem o filme visionado é difícil chegar a conclusões de como a música se relaciona com a imagem em movimento ou com a narração, ao ouvir o CD temos de nos abstrair da ideia que  realmente uma banda sonora. O que aliás até é melhor assim, porque o conceito de banda sonora para filme geralmente é uma grande estucha - no Anime é aquela foleirada de J-Pop, no Ocidente ou é uma compilação de "hits" Pop/Rock ou então réplicas sem sal de "música clássica". Não é aqui o caso, claro! A electrónica de Ghuna X continua abstracta o suficiente com alguns "beats" de fundo criando um ambiente Dark pedido para a estética do filme - como sabemos isso? já lá vamos... O "illbient" é ma non troppo se compararmos com a sua outra banda sonora (para peça de teatro) 2CNQV que é mais opressiva - tal como a peça pedia?
No "zine" saberemos mais ou menos o que é o filme... Ao que parece o filme é baseado neste texto que aqui se edita na forma integral e percebemos que estamos perante um "conto infantil" (para adultos?) na tradição de Tim Burton. O zine em si mostra-se um "sub-produto" Burton, duplamente agravado porque os livros de Burton são por sua vez também sub-produto do Edward Gorey. O texto é em rima e é confuso narrativamente, não por causa da rima mas pela incapacidade de criar personagens que se possa criar qualquer empatia. Depois de ler o conto é fácil esquecer-se de... tudo! As ilustrações feitas em gravura arriscam a afirmar Alice Geirinhas como uma escola de ilustração - só seria boa notícia se a força estivesse no conteúdo e não no desenho - e para piorar tudo, o design da publicação é terrível - mas, já agora, o design do CD é fixe! Resta ver o filme (já sem muita vontade) e ouvir a música, amén! A música safa tudo!!!

sábado, 8 de junho de 2013

ccc@Pitchzin

Santa Maria da Feira vai receber o Pitchzin, uma mostra de portefólios artísticos na área do desenho, ilustração, pintura, graffiti, BD, colagem ou outros, que acontecerá na Casa do Moinho nos dias 8 e 9 de Junho.

O evento decorrerá num modelo de reunião informal, tipo speed dating/ pitch criativo, entre criativos e agentes criativos. Cada um dos participantes terá à sua disposição 5 minutos para apresentar a sua obra, seja ela fanzine ou livro de autor.

O público será convidado a participar, de forma a tomar conhecimento dos 70 projetos artísticos que terão a oportunidade de se mostrar ao longo dos dois dias do Pitchzin.

Está aberta a convocatória para a participação dos criativos destas áreas artísticas. A pré-inscrição é obrigatória, sendo admitidos no evento os 70 primeiros inscritos.

Mais informações em www.facebook.com/Pitchzin

O evento, organizado por Ricardo Fonseca, conta com o apoio da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira e da Bússola - Plataforma para o Desenvolvimento Artístico e Cultural.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Brasil XII

Cadernos do Sama - Vol. I
Auto-edição; 2013

Este livro em formato italiano foi das poucas novidades editoriais com interesse no Festival de BD de Beja, ou pelo menos, era o que parecia.
Já vêm detrás e há muito tempo a questão brasileira da BD de puxar tudo pró "besteirol e sacanagem", havendo muitas poucas vozes dissidentes (para um país tão grande!) a romper com o eterno humor na BD. Depois de assistir a uma emocionante conferência de Sama - autor brasileiro residente no Porto - na Bedeteca de Beja, no fim-de-semana passado durante o Festival, esperava muito mais do que li e vi neste livro.
Talvez o livro seja apenas uma forma de apresentar trabalho depois do seu badalado livro A balada de Johnny Furacão (que não li) e algo que esteja para vir - o autor falou-me de um interessante projecto de BD "mail art", que também estava em exposição em Beja. Na realidade, este livro é mesmo um "caderno", no sentido de ser um livro de esboços e de miscelânea seleccionada, e tal como muitos outros livros assim significa que só tem interesse para os "convertidos", ou seja, os leitores que já conheçam a obra do autor e tenham curiosidade no processo de trabalho do autor. Não conhecendo mais nada do Sama, não fiquei fascinado com estes Cadernos cheios de erótica, piadas e ambientes "retro" ou piadas sexuais com ambientes "retro". A curiosidade sobre o autor ainda permanece mas já com um gosto de desilusão.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Anarquismo para melómanos : a propósito de “ ‘A’ maiúsculo com círculo à volta” de Rui Eduardo Paes

O ofício de escrever é uma tarefa ingrata, tal como a de tocar música, a de criar qualquer tipo de arte em geral ou até a de falar sobre quem escreve.
Escrever pode ser um acto frustrante por ter sempre um carácter subjectivo. Escrever sobre arte ainda o é mais, já que a criação artística é sempre uma tarefa espiritual – pragmaticamente nada traz de utilitário; apenas nos ajuda a sonhar ou a construir pensamento (o que já não é pouco).
Escrever sobre arte pode ser também um acto de risco: se por um lado provoca o bem-estar, por outro consegue levar a estados de ansiedade e desconforto no criador da arte e no próprio leitor. O centro da questão é ser-se compreendido ou não. Tanto para o artista como para o crítico é sempre desgastante tentar fazer valer a sua verdade.
A escrita do Rui Eduardo Paes vai ainda mais além nestes argumentos porque estabelece sempre cruzamentos entre a arte e a vida. No fundo o que ele escreve são textos sociológicos sobre música. É uma escrita pedagógica, dado que traz inúmeros ensinamentos, e ao mesmo tempo revela-se vanguardista nessa pedagogia por não assentar em dogmas mas sim nas aprendizagens, no percurso que o escritor fez na apreensão da sua verdade e na construção da sua afirmação. E por isso é uma escrita sexy, já que mostra as entranhas (a forma como se adquirem os conhecimentos) e também porque aponta caminhos. É uma escrita sensual (por vezes promíscua ou até barroca) porque existe sempre envolta nalgum mistério (como uma névoa de ideias) e emaranhada em combinações de factores diversos. É uma escrita insinuante que por vezes nos vai chegando como que distraidamente mas que nos consegue depois agarrar com uma grande energia.
Ao ler o REP, mais do que ficar documentado, o leitor apropria-se de todo um universo de imprevistos e agitações. Ninguém mais se lembraria de construir aqueles desconcertantes cruzamentos entre coisas tão distanciadas como por exemplo a arte da relojoaria e a música de Ernesto Rodrigues, ou as mochilas e o violoncelo de Daniel Levin, ou o trompetista Nate Wooley e um pontapé no rabo, ou os berlindes e a microtonalidade, ou ainda a música do CCV Wind3 e certos problemas de calcanhares e pés…
Sendo uma escrita carregada de referências e de algum humor, a sua estratégia de construção pode considerar-se musical (vá lá saber-se porquê). O REP escreve sobre música como se fizesse música – compõe textos como se fossem sonatas, suites, baladas. A sua escrita desenvolve-se como uma verdadeira progressão harmónica de ideias ou até mesmo como um contraponto de texturas tímbricas que são as suas metáforas.

ilustração de Jucifer para o livro
“A" maiúsculo com círculo à volta, o novo livro, é um tratado sobre o anarquismo para melómanos. Nele podemos encontrar um Beethoven envenenado por excessiva estimulação, a partir de experiências ligadas a um certo pensamento radical da era romântica; um Zappa em articulação com o movimento freak e todas as suas contradições ideológicas; a pseudo-anarquia de uma certa pop/punk e o colectivismo revolucionário em tons festivos; o anarquismo epistemológico numa exposição em que se cruzam magnificamente a ciência, a arte e a experimentação; ou ainda a música noise ligada à luta pelos direitos dos homossexuais e ao seu suporte no ideário anarca.
Trata-se pois de um conjunto alargado de temáticas que ajuda o leitor a rever a sua própria postura ideológica e que não deixa indiferente o artista, levando-o a reflectir sobre a sua atitude criativa. E por isto apenas já valeria a pena.
Esperemos portanto por novas apostas do REP que nos possam continuar a atrair e surpreender.

- Intervenção de Paulo Chagas no lançamento do livro na Trem Azul