segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Brasil XV

E voltamos sempre ao Brasil... E ao Samba, projecto de um colectivo de Brasília que acredita na fragmentação narrativa e talvez por isso que apesar de ter começado como uma revista intitulada de Samba - com três números - o projecto tem mudado de nomes para Kowalski, Mini-Samba (que já lá iremos) ou agora o Novo (2013). Este último é uma antologia menos cheia e pesada de colaborações, ficando-se o trio-editor (Gabriel Mesquita, Gabriel Goés e LTG - já nossos conhecidos no Seitan Seitan Scum) com Pedro Ivo Verçosa e Ulisses Garcez a realizarem BDs experimentais no limite das "artes plásticas", lembrando esforços de um número especial do kuš! e do Glömp e já agora do autor Dice Industries (que por sua vez tem um passado que vai até Max Ernst), para procurar novas formas de trabalhar a BD - pelos vistos não são assim tão novas como isso mas talvez esta antologia seja um importante manifesto artístico para a BD brasileira. Destaque pró trabalho de Goés e as colagens de Verçosa.


Entretanto só agora é que nos chegou às mão o Bátima (2011) de André Valente, uma deprimente BD sobre a realidade de um "looser" que trabalha num "MacMerda" de uma grande cidade mas que vai dizendo prá família no interior que está em ascenção no mundo do trabalho liberal - ah, e vai cravando dinheiro também. Uma coisa triste de uma Humanidade que faz dos filmes de super-heróis "blockbusters" quando a realidade delas é o inferno que vemos à vossa volta. O humor não entra em "besteirol", é bastante negro, roça o Chris Ware mas não há aqui cores vivas, sol nem sambinha. Valeu!

domingo, 26 de janeiro de 2014

Família Bifana

Na última Feira do Jeco, na troca de prendas "natalixo" com o Sr. Esgar Acelerado, eu dei-lhe um DVD de cowboys e ele um EP 7" em vinilo de uma banda que ele dizia que não havia nenhuma informação na 'net! Que tangas! Se há coisa que 'net infelizmente fez foi mapear 99,9% do mundo e da actividade cultural humana. O problema é antes perceber se a banda chama-se Família Carnage Asada ou apenas Carnage Asada - que parece que é a última, pelos vistos. Disco de 1997 pela Travisty Records (alguém da banda tinha de inventar um nome prá label, né?) soa a pós-Hardcore mais próximo de Oxbow ou Fugazi do que o Punk 4x4, devido aos ritmos lentos e riffagem Blues. Ao que parece a Cru ainda vende disto a 2 euros! É de aproveitar!

sábado, 18 de janeiro de 2014

QUIMBY'S OU OS BONS VENTOS DE CHICAGO





À saída da estação de metro de Damen-O’Hare, o movimentado ponto de intersecção das avenidas North Milwaukee, North Damen e West North, compondo uma estrela de seis pontas, deixa dúvidas sobre a direcção a seguir. A toponímia não ajuda e, optando por se pedir informações a quem passa, é provável deparar com alguém que só entende polaco. Incomodidades pitorescas à parte, para a Quimby’s é a segunda à direita… Avança-se um pouco pela West North Avenue e logo se descobre o logotipo circular da autoria de Chris Ware, sinalizando um minúsculo edifício de piso térreo que alberga a almejada loja de livros, pequeno paraíso de edições alternativas, modesto por fora, quase mágico por dentro (o esboço da praxe antecede a entrada, apesar do frio cortante, qual capricho de deferência ante o deleite que se julga iminente).



Transposto o limiar, um outro mundo que atrai mas também confunde pelas suas categorias imprevistas, corporizando um exercício de fuga à norma através de uma etiquetagem obsessiva e que dá o tom à etnografia deste tipo de lugares: radical parents + children; gay smut; low brow; sexy art books; muckraking memoirs & miscelanny; photo zines; chap books; mini comics…  Aqui ou ali, vão-se igualmente descobrindo indicações para nichos previamente identificados (anarchy and politics, sex culture…) e até para territórios mais amplos e já extensamente cartografados (fiction & poetry, esoterism, graphic novels…). Ou seja, aos poucos, a familiaridade vai-se instalando. Dos mais variados recantos, os livros parecem travar diálogos consequentes que desaguam em correntes gráficas comuns, de caudal apreciável: os contornos vincados e o jogo de cores de Tomi Musturi reflectindo-se pelos trabalhos de Otto Splotch, Benjamin Bergman, Mat Brinkman, Jon Vermilyea ou Kyle Platts; as densas e expressivas texturas de Theo Ellswurth, Jesse Jacobs, Kevyn Hooyman, Kolbein Karlsson ou Edie Fake competindo umas com as outras; o surrealismo escatológico de Mike Diana reaparecendo na série Prison Pit, de Johnny Rian; algum do minimalismo de John Porcelinno em Simon Moreton; enfim, o desleixo estudado de Gary Panter um pouco por todo o lado…
A primeira investida é porém interrompida por um concerto de música electrónica pelo duo Roth Mobot, integrado na sessão de apresentação de um livro sobre noise japonês, assinado pelo antropólogo David Novak (como se percebe, a Quimby’s é também palco de eventos que tornam momentaneamente inacessíveis alguns sectores da livraria). Perante uma assistência de cerca de vinte pessoas, os músicos Tommy Stephenson e Patrick McCarthy ensaiam efeitos repetitivos a partir do som de um conjunto de brinquedos infantis conectados a uma espécie de caixa de misturas. A técnica dá pelo nome sugestivo de circuit bending e é mais um exemplo de desconstrução musical à revelia da melodia, da harmonia, até do ritmo. Ao fim de vários minutos de ruídos repetitivos e distorcidos, o silêncio que sobrevém indiciando o fim de um “tema” é prontamente aproveitado por Patrick McCarthy para uma breve exposição sobre a sua arte: «Disseram-nos que podíamos continuar por meia hora. E isto foram apenas dez minutos. Portanto, o tempo expande-se quando se faz circuit bending…»
A segunda investida à Quimby’s é mais tranquila mas igualmente demorada e marcada por hesitações quanto ao que levar, tendo em conta o preço e o espaço disponível na mochila: Blobby Boys, de Alex Shubert (que suplanta as expectativas), as variações sobre a varíola constantes no número 4 do fanzine Corpus Corpus (que atrai sobretudo pelo formato a lembrar um baralho de cartas), o número 6 da Little Otsu Living Things Series (com alguns desenhos de animais por Becca Stadtlander), ou ainda um exemplar do fanzine Showcase, contendo BDs feitas com a colaboração de crianças (uma boa capa mas pouco mais que isso…). Neil Brideau revela-se o interlocutor ideal, prestável e informado. Até que a noite desce e a hora de fecho se aproxima. É tempo de dizer adeus à Quimby’s, a livraria onde o tempo ora se expande, ora se contrai, e onde o que é estranho se vai tornando familiar.

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http://www.rothmobot.com/


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

RONDA BREVE DE SÃO PAULO


Não encontrareis, ó aficionados da ilustração e da banda desenhada, especiais motivos de assombro no Rio de Janeiro, posto que haja boas livrarias e se possam descobrir preciosidades independentes na Blooks do cinema Arteplex, a Botafogo, na La Cucaracha de Ipanema e ainda mais n’A Bolha, para os lados de Santo Cristo. Já os colecionadores de raridades visando algum Zé Carioca vintage, a revista Crás ou A Guerra dos Farrapos, de Colin, terão de depositar esperança noutras paragens, confirmada a desactualização das moradas de sebos cariocas especializados em quadrinhos retiradas da Internet dias antes da partida. O que havia de interessante, já fechou. São Paulo é, pois, o destino a seguir. A imensa e industriosa e rica metrópole decerto não defraudará. Os relatos prometem avenidas repletas de alfarrábios e lojas totalmente consagradas aos gibis. A ver vamos…



Saindo na estação de metro de Clínicas e virando costas ao muro do Cemitério do Araçá, iniciamos a descida da Rua Teodoro Sampaio, marcada pela alternância de sebos e casas de instrumentos musicais, até desembocarmos na recatada Praça Benedito Calixto, onde se podem descobrir, por entre as árvores, algumas lojas de charme e cultura, incluindo aquela que aqui nos trouxe, dita Gibiteria, sita no primeiro andar do número 158. Uma sala relativamente ampla e bem iluminada onde se podem encontrar boas amostras da produção brasileira contemporânea. Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho, e Campo em Branco, de Emilio Fraia e DW Ribatski (ambos resultando da colaboração entre ilustradores e escritores) constituem assinaláveis exercícios de fragmentação narrativa dentro do campo da banda desenhada, ao passo que Morro da Favela, ilustrado por André Diniz, prima sobretudo pelo conteúdo biográfico e fotográfico de Maurício Hora. Do lado das publicações independentes, as capas enormes e ultra-coloridas d’A Bolha destacam-se nos escaparates, com boa parte das edições consagradas a autores estrangeiros (nomeadamente europeus e norte-americanos, incluindo notáveis como Gary Panter, Seth ou Tommi Musturi), uma vez mais lembrando as limitações de amostras condicionadas por fronteiras nacionais. Em Se a Vida Fosse como a Internet (Beleléu), Pablo Carranza segue os passos dos seus conterrâneos paulistas Angeli, Laerte e Glauco, exibindo um humor rejuvenescido que Iturrusgarai parece incapaz de alcançar. Na mesma editora, Tiago “Elcerdo” Lacerda sobressai pelo traço impetuoso e rasgado dando vida a histórias sem texto (veja-se «O Pianista Maldito» no Friquinique #3), ao passo que Stêvz e Biu nos servem uma convincente mistura de registos narrativos e gráficos em Aparecida Blues.


Cachalote (Companhia das Letras, 2010)

Campo em Branco: Lembrança de 1987 (Companhia das Letras, 2013)

Morro na Favela (Barba Negra, 2011)

Se a Vida Fosse como a Internet (Beleléu, 2012)

«O Pianista Maldito», Friquinique Zineteaser #3 (Beleléu, 2014)

Aparecida Blues (Beleléu, 2011)

Quanto a alfarrábios, não os há na Gibiteria. Mas recomendam-nos a Rika Comic Shop, situada na relativamente próxima Rua Augusta, que cruza a Avenida Paulista: é voltar a apanhar o metro em Clínicas e sair na estação seguinte, Consolação. Passando diante de algumas galerias comerciais dedicadas à venda de artesanato, vestuário e livros de arte, chegados ao número 1371, é subir as escadas até à sobreloja 10/11. Vista do exterior, a Rika faz jus à legendária tradição sebenteira do Brasil, com as suas prateleiras lotadas de fascículos amarelecidos pelo tempo, a que se juntam enormes colunas de volumes empilhados à entrada. A impressão de felicidade é, porém, passageira. No interior, o visitante esbarra com um balcão onde lhe pedem que indique o título da obra que procura, a qual, verificada a sua disponibilidade no computador, poderá ser-lhe entregue para consulta. Na falta desta informação, de pouco adianta fornecer o nome de um autor — a busca informática só funciona mesmo por títulos. Fica assim posta de parte qualquer possibilidade de vaguear pelo espólio e descobrir coisas inesperadas. A Rika assume-se como uma anti-livraria, e o próprio cartão-de-visita, anunciando «Gibis de todas as épocas para todas as idades», logo acrescenta, autoritário, que se «COMPRE TUDO PELA INTERNET» — opção decepcionante para quem vem de fora e com disposição para sentir os sítios por onde passa. É, pois, questão de dar meia-volta e sair de São Paulo.

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

RIO EM ESQUINA E ESCOMBRO

Tema antigo e basto glosado por quem de talento, dos clássicos Manuel António de Almeida, João do Rio, Lima Barreto ou Mário Pederneiras aos modernos Luís Edmundo, Vivaldo Coaracy e Sérgio Porto, para não falar de Vinícius, Caetano ou Calcanhoto… Mas o espectáculo das ruas do Rio de Janeiro continua, alimentando a veia de novos passantes, flâneurs, turistas, cronistas, artistas, etnógrafos, bloggers e outros retardatários. Como tal, aqui ficam as impressões documentadas sobre algumas curiosidades visuais que se podiam apreciar, no mês de Outubro de 2013, durante um curto trajecto a pé pela zona da Lapa.




Por esses dias, na esquina da Rua Sílvio Romero com a Rua Riachuelo, alguém colara uma série de desenhos coloridos retratando corpos em poses e actos explicitamente eróticos (algumas destas ilustrações foram prontamente rasgadas, inviabilizando um registo fotográfico mais completo). A ideia que assomava era a de que se trataria de um espólio concebido ao sabor de uma relação amorosa entretanto terminada e posteriormente exposta aos olhares do público das ruas. O conteúdo textual que acompanhava alguns desenhos parecia confirmá-lo: «Antes de me ofender / Antes se afastar / Gosto de você, pra começar…» Noutra folha, a mensagem que permitiria dar um sentido ao painel: «Só para você saber eu esqueci de você!», seguida de uma assinatura: «Luiz Rocha» Na verdade, uma simples pesquisa no Google revelou que os textos pertenciam a letras de canções e que Luiz Rocha era, afinal, um artista plástico do Rio de Janeiro devidamente cadastrado e vezado em criações da mesma têmpera. De modo que aquilo que se afigurava um indício de arte-terapia se revelou uma intrigante manifestação de arte de rua estrategicamente colocada num polo de diversão nocturna. De qualquer maneira, arte efémera. E imprevista, também, pelo menos para quem vem de fora e, sem coordenadas, demora o seu tempo a encontrar as referências certas. Neste caso, a riqueza do conjunto é reforçada pelo próprio jogo das descodificações, antes que a recondução a uma matriz autoral lhe confira um estatuto, lhe arrume um sentido…



Prosseguindo a caminhada pela Rua Riachuelo, logo após os arcos da Lapa, a metade arruinada de um casarão centenário desponta como ecossistema gráfico, sobre a qual se inscrevem e colam e afixam todo o tipo de intervenções, avisos, sinais. Nas janelas emparedadas do rés-do-chão, dois grandes painéis de grafitis abrindo amplas perspectivas históricas sobre o Rio (um deles contém uma dedicatória legível «ao povo carioca»). Percebem-se ainda alguns trabalhos mais abstractos, outros mais caricaturais e humorísticos, devendo o transeunte aproximar-se para apreciar devidamente um conjunto de desenhos com motivos obsessivos (esboços de casas assinadas por um tal de Cristiano da Silva, bem como algumas figuras rudimentares, a negro e vermelho, ensaiando passos de dança) que, pelo tamanho reduzido, desafiam a escala convencional da arte de rua. O edifício alberga ainda uma série de tags e pequenos cartazes com palavras de ordem e outras mensagens que soam como despertadores: «Ninguém manda no que a rua diz», «Pense nos porquês», «O que te faz voltar quando sai para comprar cigarro?», «Atenção, isto pode ser um poema». São as marcas do Coletivo Transverso, um grupo formado em Brasília e que se dedica à apropriação artística e poética do espaço urbano: os modelos dos cartazes podem ser facilmente descarregados na Internet e colados por qualquer pessoa (o Coletivo apenas pede para ser informado da sua utilização, de preferência com fotografias). Mas um grande anúncio de «VENDE-SE», aplicado ao próprio casarão, traz-nos de volta à realidade da vida material, a que se junta uma variante para bolsas menos recheadas: «ALUGA-SE KITINETE TEL. 9186-9123». Porém, logo abaixo, um velho letreiro indicando a «Rua Evaristo da Veiga» — que os mapas actuais localizam noutro ponto da zona centro —, transporta-nos de novo para terreno incerto, algures entre o presente e o passado…







O último pormenor de destaque neste curto trajecto vai para um objecto artístico mais usual: um quadro em estilo pós-impressionista mostrando uma rua europeia pintada em cores garridas, e que se encontrava pendurado, ao que tudo indica permanentemente, na parede exterior da pizzaria Guanabara, na esquina da Rua Riachuelo com o Largo da Lapa (trata-se, evidentemente, de uma reprodução). Ampliando a imagem, é possível descortinar uma assinatura sugerindo qualquer coisa como «Burnand», «Bérnard» ou «Bonnard». Mas a obra em causa não é facilmente atribuível a nenhum dos três e, na ausência de pistas concretas, as ferramentas de pesquisa de imagens da Internet são praticamente inúteis, perdurando o mistério e, com ele, a dúvida — mas também o interesse…



(Fotos: Ana Magalhães)


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http://coletivotransverso.blogspot.pt

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Post-Viagra-Metal



Depois de aturar um monte de discos "toing toing toing" há alguns meses atrás foi com um enorme alívio que andei curtir Festival Roadburn 2013 Sampler semanas e semanas... E admito que não tive paciência para escrever sobre esses discos, entre eles as duas últimas edições da Shhpuma - também ia bater no ceguinho do bezuntas do Tó Trips por isso para quê? O Roadburn é o festival dos metaleiros que já não são metaleiros, e que têm guito para ir ver o que interessa sem papar grupos. Acontece uma vez por ano na Holanda e quem organiza também edita discos que são demosntrados neste CD-sampler. Mesmo que seja música de tabelinha Stoner / Doom / post-metal / Black com cânones com pelo menos 20 anos já testados, não conhecia nenhuma das bandas mas foi fixe ouvir algo com força e funcionalismo ritmíco! Foi como sair de um buraco de depressão com duas doses de Viagra enfiadas pela pila dentro! Caramba uma delas até se chama Conan! E há uma chamada Haikai No Ku... enfim, nada é perfeito, ainda assim muchas gracias ao Luís Lamelas da Glam-O-Rama pela oferta deste simples CD!

Na mesma altura que aturava "toings" também houve o "nosso" Roadburn, ou seja o Amplifest, e o ThisQuietArmy voltou a Lisboa para mais um concerto intenso deste "OneManBand", que é o que reproduz o DVD São Paulo. Brasil (TQA; 2013). A preto e branco prós estetas da melancolia, vê-se num plano único um espectáculo ao vivo em Julho do ano passado em S.Paulo, similar ao que se assitiu por cá, com uma parte extra em que o músico junta-se a uma banda brasileira. O disco é acompanhado por fotografias e um flyer do concerto, tudo depois metido num envelope que faz deste conjunto uma edição catita e fetichista para mais tarde recordar. Nice!

ccc@tenderete.7

Estivemos no Tenderete (a Laica de Valência) e passado uma semana ainda estamos a aprender a voltar a respirar de tão intenso que foi!

É verdade que os espanhóis têm a mania de imitar tudo, e o próprio cabecilha deste magnífico evento, o camarada Martin Lopez Lam, admite publicamente que se inspirou no Boring Europa e na Feira Laica para ter criado o Tenderete. Ficamos até lisonjeados mas sentimos que fomos ultrapassados dada a qualidade de oferta que vimos naqueles dois dias.

Se calhar, há logo um contexto urbano maior que torna o Tenderete tão potente, é que Valência é uma cidade de artes gráficas, provada por ter ruas com nome de artistas gráficos ou pelo Museu de Ilustração de Valência ou ainda por eventos como a exposição de Ops / El Roto / Rábago na La Nau da Universidade de Valência, justamente todo um oposto a Lisboa que apesar de estar numa latitude idêntica, destruiu os eventos Ilustração Portuguesa e Salão Lisboa, e agora prepara-se para destruir a Bedeteca de Lisboa e a rede BLX.

Se a Laica andou durante imenso tempo a definir-se como projecto, o Tenderete assume-se logo como "auto-edição gráfica e sonora", e mostra sinais de profissionalismo, criando folhas volantes com o programa e a disposição das mesas dos editores. Além de boas edições de ilustração e BD também fomos encontrar boa música, seja do "blues cerdo one-man-show" do camarada Tumba Swing ao "soundart" da plataforma Audiotalaia.



O primeiro tem um novo EP em vinil 7", Lamento Electrico (Calamidad; 2013), que mostra que apesar da pancada pela música do século passado, Tumba Swing sabe ser versátil nos vários tons de Rock'n'Roll; no segundo caso destaco para o CD A Country Falling Apart (2013) de Edu Comelles música ambiental feita de captação de sons, recusando o uso de qualquer tipo de instrumento na elaboração desta música. E tal como Tumba Swing, havia mais malta que divulgava tanto música como livros de autor, como a Bad Weather Press que partilhava mesa com a Orgonomy Records.


Buen Dolor é um fanzine editado por Álvaro Nofuentes e é um mimo para quem curte BD à procura de novas alternativas narrativas e gráficas. Participam uma padilha de autores ligados a um eixo que passa pela Argentina (com o nosso conhecido Berliac), de Valência (entre eles o camarada Lam) e de França, nesta última situação porque Nofuentes estudou em Angoulême. Buen Dolor é um bom companheiro do Kovra, só é pena que os dois estejam parados... porque o último número (o três) data de 2012, o que pode significar que não há mais continuidade ao projecto. O "sexo" (tema deste número) acabou com  o projecto, pelos vistos...

Quem anda cheio de tusa, e se calhar com tusa a mais é o autor do excelente livro Black Metal, Magius. Apareceu com dois títulos intitulados de Murcia, cidade onde reside, e que pelos vistos tem lendas profanas para contar, e depois assina como Yo Perro ou Diego Corbalán para La philosofie dans le boudoir e Eva Braun. Todas estas publicações são a cores, A5 e no máximo com 12 páginas, não têm numeração nem se percebe continuidade caso haja. La philosofie é uma BD que pega no Marquês de Sade e que parece que continua em duas páginas em Eva Braun que é na essência um caderno de esboços do autor e uma fotonovela de um gajo Black Metal a violar (?) uma hipster numa loja de discos (???). Confusão editorial e mental que apela a estarmos atentos ao que se passa no blogue oficial deste tipo muito muito estranho porque se prepara uma magnum opus então temos de esperar com sapiência e veneração! Hail Magius!



Incongruências mais fáceis de explicar são os desdobráveis em acordeão do El Monstruo de Colores No Tien Boca que publica sonhos (ou pesadelos) de crianças ilustrados, a lembrar o conceito de Duplex Planet Illustrated de David Greenberger que recolhia histórias de velhos em centros de dia para depois transformar em BD. Se o início destas publicações eram modestas - o mais antigo que tive acesso, o número 2, The King / El Rey / Le Roi (2010) ilustrado por Mitch Blunt - em formato 10x10cm a preto e branco, os mais recentes o formato não só aumenta (para cerca 15x15cm) como é adicionada uma cor como acontece com Inside my hair / Dentro de mi pelo (#26; 2013) por Thomas Wellmann. A colecção parte sempre de seis sonhos sacados a crianças por Roger Omar entre o México e Valencia -  o editor é mexicano e vive em Valência - mas também há um número com uma criança de Israel - #24, Lie Die / Mentir Morrir (2013) de Fitnat e Roni Fahima (i). Também há excepções como é o caso de Best Friends / Mejores Amigas (2013) de Mireia de Oliva e Wren McDonald (i) e Más Grandes y Viejos / Bigger and Older (2013) de Maria e Amanda Baeza (i) que são nitidamente "fora de colecção" porque ilustram apenas um sonho. São também os melhores deste projecto porque são mais sequenciais e narrativos permitindo que o texto seja explorado de forma mais alargada. Nos outros números, uma página representa quase sempre um sonho e uma ilustração tendo menos impacto. Ainda de referir que participaram neste projecto o português Pedro Lourenço (#11, El Mago / O Mágico / The Magician; 2011) e o moçambicano Rui Tenreiro (#14, Espada y Escudo / Sword and Shield / Espada e Escudo; 2012). Por fim, os sonhos das crianças mexicanas são muito mais violentos e mórbidos que as crianças de Valencia. E quando digo "muito mais"...

Arròs Negre Fanzine (4 números; 2011-13) lembra muita coisa (como a Lapin, Zundap ou ainda a linha estética da No Brow) por causa da sua elegância gráfica e impressão a duas cores. Interessam-se por banda desenhada, ilustração e tipografia mas também por temas sociais ou políticos como se pode verificar pelos temas de cada número: Beltor Brecht, os árabes ou a Espanha republicana. Chama-se fanzine mas parece uma revista literária numa altura em que pensamos que nunca mais irá haver tal coisa como a "nossa" saudosa Quadrado. Talvez seja mesmo um fanzine pelo facto dos trabalhos ainda serem um bocado verdes talvez porque os colaboradores ainda sejam estudantes da Universidade? [como sabemos os estudantes nos dias que correm são a massa menos contudente do planeta, já lá vão os tempos que o Estado tremia com as manifestações de estudantes] Talvez não deveria chamar-se "fanzine" porque acaba por ser pouco contudente, excepto o número dois porque pega em Brecht!

Mob Rule (Dez'13) é um fanzine literário mas que o editor e escritor Alejandro Álvarez Fernández não teve medo em pegar em nove ilustradores valencianos - ligados a estes projectos aqui divulgados como Jorge Parras (da extinta Arght!), Martín López Lam (ed. Valientes), Álvaro Nofuentes (Buen Dolor) ou Elías Taño (Arròs Negre) - para participarem. E não apenas de uma forma óbvia de ilustrar partes dos textos mas fazendo até BD e obrigando o texto a ficar preso para sempre das imagens - temos de aplicar esta fórmula nos nossos livros literários um dia destes e sermos nós a imitar os espanhóis! Interessante...

Por fim, deixo a glória editorial final para o camarada Martin López Lam, que não lhe falta capacidade de provocação, experimentalismo e empreendorismo. Bem sei que a última palavra é repugnante nos dias que correm porque parece que todos nós, por falha total do sistema capitalista, temos de ser todos chico-espertos que devem correr à frente de todos. Ora como sabemos, se o sistema sempre afirmou que há líderes e seguidores e que não há espaço para todos serem o número 1, o empreendorismo que se promove nos dias de hoje parece antes um "socialismo" para tolos. Martin por acaso até podia ser o número 1 ou um líder porque não está preso aos formalismos espanhóis desta Europa cansada, uma vez que o autor é peruano de origem. Este facto, e a sua emigração para Espanha, dá-lhe uma liberdade de pensamento e de acção que ultrapassa os outros valencianos sedentários. Daí que o Tenderete seja obra sua ou as Ediciones Valientes sejam mais cosmopolitas, atentas ao mundo para além do bairro e surpreendentes como provam as duas belas edições acabadas de sair. O número nove do El Temerário mostra como deve ser um "graphzine"! Duas cores e num formato maior que o A4 que é para os desenhos terem poder de nos causar perturbações! Se há muito que estou farto de ver graphzines (sobretudo portugueses e do Porto!) com este novo número voltei a ter fé neste tipo de publicações cheias de desenhos. Assim sim! Depois há o Chemtrail, um desdobrável que pode dar em poster mas que na realidade é uma BD feita de acasos imaginativos e manipulação digital drogada. Um produto a afastar das crianças, não por cenas explícitas mas porque as cores podem fazer danos mentais! Gracias Martin!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Kassumai @ JL


Simpática resenha crítica a Kassumai no Jornal de Letras. Quanto à questão do "trabalho editorial" o escriba engana-se, o "trabalho editorial" existe em Portugal, ou pelo menos na Chili Com Carne - costumamos intervir muito mais nos livros do que parece à primeira vista! Os problemas que aponta e que até concordamos em maior parte deles, devem-se antes a questões de "tempo = dinheiro", ou antes à "falta de tempo = falta de dinheiro" para que o autor e o editor possam trabalhar melhor ou reflectir mais - ou até pagar a outros para o fazerem por nós. O "algo alienígena" não é verdadeiro, até porque Kassumai não se pretende "reportagem" nem uma peça de jornalismo, é um diário pessoal de David Campos na Guiné-Bissau ponto. Ainda assim gracias...

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Cartazes do Futuro Primitivo A ESGOTAR!!!

Para acompanhar a exposição do homónimo livro Futuro Primitivo foram feitas cinco serigrafias, cada uma com pequenos detalhes. Algumas já esgotaram outras faltam muito muito pouco!!!
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A primeira foi feita por Miguel Carneiro, impresso na Oficina Arara.
A primeira edição-versão-limitada de 23 exemplares foi feito para o Festival de Beja 2011 dos quais sobrou UMA deste monstro 100 x 70 cm / uma cor / sob cartolina preta.

Para o Festival Crack 2011, em Roma, foi feita uma nova versão a duas cores de 66 exemplares que também só já há UMA.
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To travel along with the Futuro Primitivo book + exhibition we made five diferent silkscreens posters, each of them with small details.
The first one was made by Miguel Carneiro and printed in Oficina Arara. First edition is limited to 23 copies - most of them sold in the Beja Comics Festival. There's ONE copy of this 100 x 70 cm / one colour / black paper monster. There's also ONE of the 66 copies of the 2 colour in pink paper version made for the Crack Festival.


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The image of other four posters are made ONLY of Futuro Primitivo skrewed & chopped comix book. The comix images were REMIXED by André Coelho, Bráulio Amado, Filipe Quaresma and Margarida Borges creating brand new images in the same logic of the book. 
Printed by Lucas Almeida, there was 40 copies of each poster, most are gone!!!

 
Os outros quatro cartazes foram concebidos EXCLUSIVAMENTE com uma "REMIX" das imagens das bds publicadas no Futuro Primitivo. por quatro diferentes designers que puderam usar o "banco de imagens" do livro para criarem uma nova, seguindo o mesmo conceito do livro. 
Foram convidados André Coelho, Bráulio Amado, Filipe Quaresma e Margarida Borges. A impressão ficou a cargo de Lucas Almeida e foram feitos 40 exemplares, muitos deles já espalhados pela Escandinávia e américas e quase todos esgotados!!! 

ANDRÉ COELHO

BRÁULIO AMADO

MARGARIDA BORGES


FILIPE QUARESMA


Estas belas peças encontram-se à venda no nosso site. 
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You can find this posters in our site

Cartas italo-suomis

Já tenho dito que têm sido nas periferias da Europa que se encontra a BD mais excitante neste milénio. Agora que há um excesso de ofertas de "graphic novels" nos EUA e França, ou seja, o fomato livro finalmente se adaptou à BD, em contrapartida há menos propostas de ruptura como aconteceu nos anos 90 com os catálogos da Fantagraphics, Drawn & Quarterly ou L'Association. É natural até que estas editoras que tanto lutaram e ainda lutam para que a BD não fique entregue à bicharada "bedófila", com a idade, apresentem autores ou obras menos radicais quando eram mais "novas".

Na última década, onde vi os livros mais belos e com o conteúdo mais interessante foi da Finlândia e da Itália. Do Norte vem muita BD experiemntal e de cores berrantes, do Sul, a preto e branco belíssimos a contarem histórias pujantes. Alguns dos projectos destes países sofreram também metamorfoses mas pelos vistos ainda têm muitas cartas para dar.




Começo pela Huuda Huuda, editora que agora é dirigida apenas pelo Tommi Musturi. Talvez ele tenha aproveitado restos de papel de outros livros para fazer estes dois de Aapo Rapi, que em inglês são intitulados de Log Cabin Man e Future Man. São dois tratados humorísticos a explicar como é ser artista na Finlândia no presente e bem... no futuro, com muito álcool, cigarros e o palavrão "Perkele!" na boca. Lembra o "nosso" José Smith por expor o ridículo do homem contemporâneo.




Advanced Offices & Humans de Roope Eronen mantêm a lógica do livro anterior, ou seja a inversão dos papeis no jogo de personagem (RPG) Dungeons & Dragons, invés de serem pessoas a jogarem um mundo de fantasia, são dragões que encarnam as personagens dos humanos em escritórios. Nesta "aventura" os humanos preparam uma proposta de aquisição de uma empresa alimentar com as situações típicas de rivalidade entre colegas ou andarem a jogar no computador às escondidas. Anexado ao livro está uma folha de características da personagem que parece um verdadeiro CV. Divertido como o livro anterior só é pena que as legendas em inglês tenham sido impressas numa cor de pouca leitura. Se o Tommi não tivesse sozinho nesta empresa, a sua cabeça iria rolar...

E o que dizer de um romance gráfico como Ukkometsola de Jarno Latva-Nikkola? Uma verdadeira provocação à cultura finlandesa? Ou é um disfarce de bons costumes? A história de três irmãos a quererem explorar uma quinta que produz leite de porco (!) poderia não aguentar mais do três páginas de BD mas o sacana do Jarno faz quase 200 de peripécias e dramas humanos que cativam qualquer um, talvez porque o desespero destes "agrónomos" finlandeses não deve ser tão diferente dos portugueses face ao mundo cada vez mais burocratizado, globalizado e mediático. Seja como for, é uma boa história de "white trash" que nos aquece sempre um pouco, delirante q.b. sem cair em humor fácil - apesar do tema ser logo absurdo. Jarno é uma caixa de surpresas como prova com este seu terceiro livro. Um autor que merece toda a atenção!



Da Canicola aparecem em gloriosos grandes formatos A3, os livros Roghi da italiana Anna Deflorian e Cani Selvaggi da finlandesa Amanda Vähämäki, que aliás foi uma das fundadoras da Canicola quando era revista de colectivo. Os dois livros mantêm o espírito do início do projecto desses tempos: narrações em ares insuportáveis de calor pós-apocalíptico, as quebras e aproximações das relações humanas, a inocência dos que nasceram depois do "grande trauma" e metáforas prás "coisinhas da vida". Enquanto que os desenhos de Amanda vivem todo o esplendor neste formato e além de que ela está cada vez mais livre e perfecionista com o uso de grafite, já Deflorian admito alguma relutância em gostar das suas matrafonas hipsters e o ar de fake vintage da coisa a lembrar algumas coisas da dupla Gigi i Gigi... Não deixa de impressionar ainda assim.

Por fim, e voltando para o Norte mas prá Estónia e num formato pequeno (o A6), na mesma colecção onde saiu o primeiro livro de Amanda Baeza encontramos a estreia na BD pela poetisa Tiina Lehikoinen com The Pernicious Kiss. O que se passa na Finlândia? Perceberam que a boa BD passa pela criação poética? Relembro Jyrki Heikinnen que também pela poesia antes de fazer BD... Tal como ele, Tiina não sucube à tentação da palavra substituir o desenho na BD mesmo quando estas são fortes e nos invoquem imagens, pois ela aprendeu a fazer desenhos que têm presença per se. De resto, estamos um pequeno ensaio surrealista caso se alguém se enamore por um namorado com uma cabeça de cavalo - o que se passa com os escritores que adoram contos com cavalos? Espera lá... o que se passa com as autoras de BD e cavalos!?