terça-feira, 26 de março de 2013

Os Baeza



v/a : Mr. Spoqui #39 (Nov-Dez'12)
Amanda Baeza : Our Library (Mini Kuš! #13; 2013)

Hoje duas belas descobertas na nossa visita à N.A.V.E. neste Domingo passado. A primeira foi a banda Aye-Aye verdadeira besta destruidora de Grind / Noise que dá juz ao seu estúpido nome. a Segunda foi ter conhecido o trabalho da Amanda Baeza, a solo com um livrinho de BD editado pelos camaradas Kuš!, e com a família (ao todo são 4 irmãos entre os 13 e os 21) com o zine Mr. Spoqui. Claro que o zine já tinha aparecido na Feira Laica e noutras idênticas mas aconteceu que não tinha dado a atenção, ou então este #39 dedicado à Magia deu... juz ao tema. Alguma BD feita por eles e autores estrangeiros, colagens ou coisas encontradas fazem as páginas do zine, embalado com um Design impecável e... familiar!
Seguindo as novas tendências gráficas à escala global sobretudo na Ilustração, Our Library é um livro de BD em formato A6 e a cores - na tradição da Quadradinho e outras muitas colecções com o mesmo formato espalhadas pelo mundo. A BD conta dos perigos que uma biblioteca pode trazer para o mundo e relembra-nos que a repressão do sistema está sempre aí, à espreita. Belo trabalho, bela surpresa!

domingo, 24 de março de 2013

ccc@NAVE


Vamos à NAVE com os nossos livros!

sábado, 23 de março de 2013

Kuti Kuti



Participei no último número do famoso jornal finlandês de BD Kuti com um artigo já conhecido neste blogue. Por causa disso chegou-me um caixote cheio de exemplares desta publicação - mais o Specter (2012), que foi o primeiro livro dos autores que integram o atelier Kuti Kuti (em Helsínquia). Apadrinham o tema da Ficção Científica / Fantástico mas os 14 finlandeses mais o dinamarquês Soren Mosdal e a norte-americana Juliacks cagaram bem de alto para entrar nos seus típicos esquemas ácido-gráficos que tornam este objecto A3 cheio de cores em mais um estonteante objecto de culto. Para além de que estão cá todos os que interessam: o Tommi Musturi com um novo estilo gráfico, o tarado do Jarno Latva-Nikkola, os manipuladores Amanda Vähämäki e Roope Eronen, etc... Pedidos para aqui.

Quem quiser o jornal Kuti, há umas quantas hipóteses de o apanhar grátis: uma visita à Bedeteca de Lisboa (deixei lá alguns exemplares), comprando livros à Chili Com Carne que tenham autores finlandeses - não se esqueçam desta ENORME novidade!!! - ou indo a eventos em que a CCC esteja presente. Quem não foi ontem ao lançamento do Kassumai poderá apanhar amanhã na inauguração da NAVE... Aproveitem!

Lançamento do Livro Kassumai, ontem na Sá da Costa





Psicose+Sangue Violeta+Inferno+MdC#23



Os livros PSICOSE [Miguel Costa Ferreira e João Sequeira] e SANGUE VIOLETA E OUTROS CONTOS [Fernando Relvas], estão em destaque na loja FNAC do Chiado.
Podem também adquirir estes e outros títulos da El Pep através da loja online da CCC, ou nas lojas da especialidade.

Na parteleira de baixo encontram-se o número 23 do Mesinha de Cabeceira [colectiva de autores | CCC 2012] e o livro INFERNO de Marcel Ruijters [MMMNNNRRRG 2012]. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

O Inferno são os outros...

Há pouco tempo o Manuel Pereira, instigador da Narcolepsia, editora de k7s de Noise, disse-me que o Noise é o “novo Punk”. Há vários aspectos que o comprovam: a facilidade que qualquer um poderá fazer este tipo de música, o intercâmbio anacrónico (por “snail-mail”) de objectos igualmente anacrónicos – como k7s – que obriga a quem procure por este tipo de cultura tenha mesmo de se esforçar e não apenas clicar num botão do rato para descarregar o que quisermos; a estética lo fi (fotocópias, fanzines, k7s, colagens), a cultura de choque (nomes dos projectos e imagens vinculadas a “serial-killers”, ditadores sanguinários, massacres, pornografia bizarra, imagens clínicas, deformações de corpos, decadência urbana) e uma falta de hierarquia do movimento – cada um faz o que lhe apetece e ninguém trabalha nisto para fazer dinheiro (embora já hajam muitos artistas Noise que são “stars” como o Merzbow ou KK Null)… O Rui Eduardo Paes até já escreveu um texto a dizer que quem pratica Noise é anarquista, quer queira quer não.

O Noise quer a cultura Industrial são realmente um bocado devedoras ao Punk é certo porque coexistiram ao mesmo tempo e como tal partilharam das mesmas evoluções tecnológicas. Mas a cultura Industrial cedo ultrapassou o Punk ao nível artístico, indo à exploração tecnológica e a sua relação com o ser humano, e também ao nível ideológico – a criação de novas utopias versus o hedonismo e individualismo do Punk. O Noise afastou-se das seus estandartes políticos e comunais da cultura Industrial para estar numa base misantrópica igual ao do Black Metal mais norueguês possível. O que está fora do quarto (ou casa ou estúdio) onde se produz este tipo de música parece pouco importar aos músicos. Como dizia o Merzbow, quem faz “barulho” são os outros com as suas produções comerciais que não nos largam, que se encontram em todo o lado (rádio, TV, mupis, etc…). Quem faz música Noise tenta escapar ao “barulho” da sociedade opressora criando uma muralha de som para poder afastar os “outros”.

Por isso cada vez que encontro artefactos Noise sinto que estou num mundo paralelo – há muitos pelo mundo fora, o Noise não tem exclusivo do “alienígena” – onde ninguém quer agradar ninguém, e os instintos mais básicos dos humanos vêem ao de cima, como um cano de esgoto se rompesse e viesse toda a merda ao de cima. Não é a melhor sensação do mundo… Isto a propósito de recentes edições da Narcolepsia… a saber:



Bile Enema (Narcolepsia; 2011) é uma K7 Noise e um zine de colagens que “não devem ser vendidas separadamente”. Da música temos Noise com algumas estruturas dinâmicas ao longo do tempo doloroso e nesta maldita k7 de plástico azul Pop – cortesia de Filth Turd. O zine são colagens de Manuel Pereira com frases de Darren Wyngarde / Filth Turd.



Squeal like a pig (Black Blood Press; Mar’12) é um graphzine internacional com desenhos, fotografias e colagens que não foge ao padrão de mostrar a anormalidade do mundo. A riqueza da Humanidade nunca será demonstrada pelas fotografias da Benetton ou das revistas de novas tendências mas justamente por publicações deste género que mostra o que está por detrás, por baixo e por dentro dessas fotografias. O desigual, o assimétrico, a víscera, a cárie, a nudez, a penetração, o pagão, etc… essas são as nossas verdadeiras figuras que os tipos do Le Dernier Cri, Smittekilde e muitos outros projectos editoriais fazem questão de não nos esquecermos. Eis mais um exemplo…



Troubled Sleep #2 (Narcolepsia; Inverno’12) está melhor que o primeiro número porque não repete o mesmo “template” de paginação e as entrevistas estão (ligeiramente) mais soltas. As colagens batem no ceguinho “sexo+morte”, ou seja muita pornografia com alguma gangrena e próteses, enquanto os “noisers” falam de si – ah, pois, este fanzine é de Noise / Power Electronics / Death Industrial / Postmortem / Black Metal incluindo entrevistas a músicos como N., Knullkraft, Wince, ou outros projectos fanzinistas como Coprolaliac Press.

Só para estômagos fortes, né?

LANÇAMENTO + FESTA + EXPOSIÇÃO = KASSUMAI


+ infos:

quinta-feira, 21 de março de 2013

terça-feira, 19 de março de 2013

Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo (3 volumes)



Pedro Franz
ed. de autor; 2009-12

Este nem meto nas discussões da bd brasileira porque é mesmo um OVNI à escala global. Franz, que participou no MASSIVE, elaborou uma BD distópica nada longe da nossa realidade, ou seja, uma sociedade pseudo-democrática manipulada pelos media e por um estado policial sofisticadamente repressivo, em que a esperança aparece de um grupo de anarquistas / piratas intitulados de "Jolly Roger" - cujo discurso político segue os ideais Zapatistas e do Sub-comandante Marcos.
O traço pode ser reconhecido pelas influências de Paul Pope ou de Taiyo Matsumoto, o universo ao ser uma amalgama de referências fantásticas lembra o Malus e estas Promessas (...) situam-se no mesmo campo temático da "revolta dos escravos" de Piracy is Liberation. Posicionamentos estes que não invalidam uma voz singular, antes pelo contrário. Tanto que Franz ainda introduz alguma inovações à forma como publica o seu trabalho. A começar por disponibilizar todos os conteúdos para descarga grátis em linha (ide ao sítio sacar o material, ide!!!) mas também porque cada livro tem formatos diferentes de publicação física.
O primeiro volume, Limbo, sendo mais tradicional na forma de bd é publicada numa espécie de "comic-book" impresso em papel jornal como se fosse uma produção popular. O segundo volume, Underground, são 55 láminas soltas (folhas soltas) em que o próprio autor incentiva a serem colocadas em ordens diferentes (ao gosto de cada um) enfiadas num envelope - e que dará em breve a uma referência na segunda parte deste artigo. Serão estas láminas soltas um simulacro das folhas volantes - outra forma popular de desseminação cultural? Serão estes formatos formas de homenagem aos media dos últimos dois séculos? Se for, impõe-se uma diferença ao Piracy (...) que trata da revolta pelos meios electrónicos, na tradição do romance cyberpunk.
Por fim, apareceu o terceiro e último volume, Potlatch, um álbum agrafado a cores com uma dimensão superior ao A4, perfeito para quem explora gestos bruscos e expressivos a pastel e lápis de cera. Como último volume da série transmite uma sensação de vazio dada à "inconclusão linear" da história até agora narrada. É certo que se esperava algum "classicismo" de história de aventura / acção como mostrava o primeiro volume, em que o segundo volume seria apenas um desvio experimental e como tal a "trama" se retomaria agora no terceiro volume para completar a "série". Felizmente isso não acontece (mas lá bem no fundo o "nerd" dentro de mim acha que não!) e o trabalho deixa as revoltas populares, as violências policiais e as paixões em aberto. Tão aberto que como o mundo que vivemos...

sábado, 16 de março de 2013

Lado B? Mas que lado b?



A Tree of Signs : Salt
Capitão Fantasma  : Canção do Carrasco 
(Chaosphere + Raging Planet; 2012)




Jíbóia (Lovers & Lollypops; 2012)

Eis três discos cuja única coisa que partilham é o facto de serem editados em vinil e ocuparem apenas uma das faces do disco... sim, é isso mesmo, só há um "lado A" ou se preferirem, uma vez que deixa de fazer sentido escrever "lado a e b", o que há é um "lado gravado" e outro não.

Na Era do Bandcamp para que raios quer uma banda ser lançado por uma editora fonográfica? Uma editora para gravar quando qualquer música consegue gravar em casa? Para lançar discos que não se vendem? Para lançar discos de poucos exemplares para meia-dúzia de fetichistas de discos físicos? O Bandcamp permite as bandas colocarem música para se ouvir gratuitamente, para descarregar gratuitamente ou não, e já agora ainda se pode vender objectos físicos (discos em vinil ou CD). Teoricamente ter uma editora pouco interessa às bandas nos dias de hoje no entanto! No entanto muitas das bandas underground pagam aos editores para as lançar - não sei se é aqui algum dos casos, acho que não acontece com nenhuma delas - isto porque uma editora ajuda naquilo que os artistas não sabem ou são incapazes de fazer, que é promover e distribuir o seu próprio disco.

O que significa que nos dias de hoje, o trabalho de um "editor" esteja em risco de desaparecer porque não pode fazer lá grande coisa quando é a própria banda que lhe está a financiar a empresa (quem vai mandar numa situação destas? quem paga a conta afinal?) e porque os artistas não parecem saber "editar" o seu trabalho. Esta última questão é mais ou menos grave, significa que os músicos ou artistas não conseguem ter uma visão do que deve "sair" ou "entrar" no seu trabalho quando exposto publicamente, ou não tem confiança em si próprios para arriscar no formato certo ao qual a sua música deveria se materializar.

Se incluirmos as restrições orçamentais - convenhamos que nem a banda nem a editora sejam ricas - vamos assistir a estas deformidades que temos aqui presentes. Gravar um disco em vinil porque é "cool", é uma espécie de vaidade - "o vinil voltou" é o chavão que se aplica. O que é lamentável é que estas bandas não tiverem nem coragem nem vontade de fazer a coisa como deve ser, como por exemplo editar os discos de 10" (que é mais caro que fazer um maxi de 12" mas muito mais sexy! Vide Çuta Kebab & Party) ou fazer mais músicas para ter dois lados, ou convidar outra banda para fazer um split. Na produção musical portuguesa vive-se um estranho e renovado solipsismo e confusão mesmo que se vivam estes tempos da crise eterna do "fim dos discos" e da crise económica. Adiante!

A Tree of Signs tem elementos ligados ao Black Metal português (Corpus Christii, Mother of Hydra) mas deixaram isso na prateleira para fazer um disco de Doom assim "soft", em formato de power trio com voz feminina que também toca orgão - soa mal escrever isto assim, bem sei. A gravação é limpinha como um cu de gatinho depois de lambido pelo próprio. Somos levados para um Heavy clássico que prefere ser ritualista do que demoníaco, talvez por isso que temos um meio-LP de cerca de 24m justamente para não interropermos a cerimónia para mudar de lado, né?

No segundo caso há ainda mais mitrice, além de só termos um lado gravado de um single 7", ainda para mais temos apenas um tema seguido pela sua versão instrumental - teoricamante para quem quiser fazer Rock'n'Karaoke. A capa é preto e branco sem atrair muito mas o vinil é vermelho sanguinário q.b. Tema Rock'n'Roll com laivos de Surf como sempre muito bem feito por estes veteranos que é impossível apontar defeitos. O disco serve para alimentar o culto envolta da banda... Acho que vou comprar um leitor mp3 depois disto!

Jibóia é a revelação de 2012! E será de 2013 agora que há finalmente disco! Depois de ter tocado em toda a sala de espectáculos, bares, teatrinhos e espaços exóticos (hoje toca num restaurante Kebab no Porto!!! vão vê-lo CARAGU!!!), finalmente saiu o maldito disco - verdadeira saga exaustiva para o encantador de serpentes Óscar da Silva. Jibóia é um "one-man-band" que usa guitarras digna do Rock turco e beats sujos de um Omar Souleyman (embora num dos temas vêm à cabeça o House manhoso do Cães de Crómio, tema Techno dos Mão Morta do álbum Vénus em Chamas). É portanto um verdadeiro apetitoso caldeirão da Aldeia Global que merecia uma capa decente e um Lado A. Vale pela música, o objecto temos tantas dúvidas como os outros acima referidos, shame on the nigga...