quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Åke Ordür


Lars Sjunnesson
L'Association; 2013

Enquanto não é inaugurada a exposição do sueco Sjunnesson na Trem Azul (anotem aí, 5 de Setembro!) tive acesso ao seu mais recente livro traduzido para uma língua acessível aos mais comuns seres neste planeta... ou seja em francês porque foi editado uma bela versão pela importante editora L'Assocciation.
Livro de BD anarca-niilista é no entanto impresso a duas cores, o normal preto e um prateado que remete para o dinheiro. Ordür é capaz de ser das personagens mais inconsequente à face da Terra mesmo que as pseudo-intrigas sejam perfeitamente contemporâneas e assertivas. Digo pseudo-intrigas porque elas também são paisagens narrativas que pouco importam.
Este livro pouco importa também porque numa sociedade burocrática a mostrar colapso a toda a hora do que adianta ler sobre anarquistas pouco convictos?
Graficamente simples não deixa de ser altamente estilizado e depurado. Consegue ser sujo de vez enquando para agradar a "Esquerda Caviar"... E não se armem em parvos! Vão lá confirmar os originais na exposição!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Buraco 06

Buraco; Jun'13?

Impresso na Oficina Arara eis um número deste jornal (?) que aparece como um livro encadernado por argolas com as páginas do miolo cortadas em três partes, na exacta e mesma lógica do fabuloso Animalário Universal do Professor Revilod (Mini-Orfeu; 2003) dos mexicanos Javier Sáez Castán e Miguel Murugarren.
Ou seja, pega-se em vários animais do circo (ursos, Portas, Cavaco, macacos, Ronaldo) mais algumas estrelas internacionais (Merkel, dos Santos) e podemos fazer variações com os seus focinhos, nomes e textos explicativos (biografia, estado actual e palavra de ordem favorita do animal). O que resulta sempre à grande garagalhada é o porco com qualquer outro Jardim ou Guilherme.
É uma prenda exemplar para quem precisar de se vingar dos porcos nazis que nos dominam!

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

- modus VS split LP +


Acho que foi numa entrevista com o camararada REP que ele disse que as duas estratégias contra a poluição sonora que nos atinge a todos, passa pela música Noise ou pelo seu oposto a reducionista. Eis dois casos que não sendo tão extremistas aproximam-se destas ideias, e mais do que isso estão unidos num formato comum, o split-LP, ou seja um dico vinil em que cada projecto fica com um lado para lá meter som. Um "versus", portanto...


Balinese Beast com Fusiller juntam-se para Les Géométries Souterraines (Tanz Procesz; 2013) e mostram electrónica Noise e Glitch, sendo que no primeiro caso há um saxofone de um grego já nosso conhecido que torna isto tudo num Spike Jones do Youtube. Lembra os velhos tempos da V/VM Test Records ou ainda Vomit Lunchs sem a fúria e o esplendor power-electronics. Fusiller também se fica pelos meados dos anos 90 mas pela dimensão plana dos Drones e dessas secas habituais do Noise civilizado. Bela capa / grafismo!

Sem querer irritar ninguém temos My Life on Weekends com o nosso ilustre Filipe Felizardo com o disco Words Move, Music Moves / Vol. III: O Water - O Excrement - O Dissolution - Before the Day of the Last Beginning (Wasser Basin; 2013). A estratégia da editora é excelente para não surgirem fenómenos absurdos com vinis de um só lado gravado, fazendo até agora, sempre belos split-LP's agrupando "estilos" idênticos em cada edição. Desta vez temos dois projectos de "falsa Americana", ou seja, guitarras acústicas intimistas. No primeiro caso acompanhado por samples que nos levam para um Dark Folk à anos 80. De Felizardo, nada a acrescentar ao que desenvolveu no seu último trabalho editado profissionalmente.

Enfim, dá que pensar que se calhar está na hora de procurar novas estratégias, não?

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Milhões de Pilas

Correu bem melhor do que se estava à espera... ou então, não! O público do Milhões de Festa não é o mesmo público-escumalha da Zambujeira ou o público-pseudo-alternativo dos outros festivais grandes de Rock. E compraram montes de livros, zines e discos,... A aposta foi ganha, se calhar nem havia uma aposta para fazer!

Chegamos na Sexta-Feira e ainda vimos esse monstro dançante Otto Von Schirach que compensou tudo antes e depois do festival. Quem não o conhece e dança a música deste tipo é parvo e merece morrer!!! Ainda houve nessa noite bandas revivalistas para todos os gostos sendo o melhor momento no meio disso o encontro em palco das duas bandas míticas lá da terra de Barcelos, os La La La Resonance (ex-membros dos The Astonishing Urbana Fall, uma das poucas boas coisas que aconteceram em Portugal nos anos 90) e os Black Bombaim. Foi uma espécie de "jam ensaiado" intergeracional porreiro que ao menos não soava a mofo ou a retro. Otto arrasou e não haverá mais nada de memorável dessa noite.

No Sábado à tarde, montamos as mesas perto do palco Taina, gerido pela Dedos Biónicos, e obtivemos um excelente contacto com o público. Um público que era pendular entre o Taina e o palco da Piscina - que não visitamos porque não podiamos deixar o posto,  perdendo assim o grande "ex-libris" do Milhões e pior ainda, os Surya Exp Duo. A música no Taina pareceu a mais coerente do Festival porque focava em Rock e em Rock apenas, algum mais prá esquerda do cérebro outro mais convencional. Por exemplo, foi fixe ver que os Quartet of Woath são bons ao vivo apesar de serem insuportavelmente limpinhos em disco.

Barcelos pareceu ser uma cidade simpático e realmente o Milhões merece o estatuto do festival mais "cool" do país. O nível de stress é zero mesmo quando nos recintos estamos cercados por seguranças com pinta de militares frustrados - eles queriam era estar a defender-nos de Espanha ou de Marrocos (ou da Alemanha Nazi-Kapital) mas não... têm de ficar ali a aturar malta e a ouvir a batucada voodoo dos HHY & The Macumbas! Pobres diabos!

Por falar nisso, esta banda do Porto foi o melhor que aconteceu na programação mal enjorcada de Sábado, em que o pior de tudo foi a quebra total que um tal Dam Mantle trouxe. Man! Ibiza às 22h? Enganei-me no festival? Onde estão as gajas de saltos-altos bêbadas prontas para serem violadas por gajos de camisas brancas de alças? Vai haver "racing" daqui um bocado? Fuck!!! Que enorme monte de esterco! Felizmente houve EyeHateGod nessa noite, os seminais Sludgers! Embora, novamente essa noite tenha sido um suplício para passá-la, incluíndo a banda do camarada João Maio Pinto, baixista nos Loosers - banda que mais uma vez mudou de estilo e forma e tudo mais. Além do nosso querido ilustrador, parece que fazem parte da banda uma figurinha negra mítica qualquer (falaram-me que esteve metido com os Funkadelic?) e o Fernando Cunha dos Relfins e Desistência (?). Tudo chato nessa noite, sabe-se lá porquê... Acho que foi mesmo falta de tomates para colocar os nacionais Macumbas a tocarem à noite e não às 20h com quase ninguém no recinto. Os Macumbas estavam bem oleados, com pica para bater em congas e afins e teriam dado boas alucinações a quem já estivesse nos estados narco-qualquer-coisa habituais nesta vida de festivais de verão. Teriamos tido fantásticos pesadelos com os tipos se tivesse acabado a noite com as batucadas e Dub deste colectivo de simpáticos "weirdos".

Por causa de nulidades como Octa Push tivemos de beber imenso para ir prá tenda para encontrar um Domingo cinzento, chuvoso, que insistia no mau-tempo e que não nos deixou montar a banca porque, como bem sabem, livros e água não combinam em nada. E com isto nem livros nem Jibóia Experience que prometia ser algo nessa noite. Voltamos para casa, a pensar que Deus ficou chateado com os EyeHateGod...


O mercado de edições independentes que organizamos até teve novidades editoriais. O primeiro e simultaneamente era lançado na inauguração da excelente exposição Lixo Futuro, é o Musclechoo, vol. 1 (Ruru Comix; 2013) do Rudolfo. Quem se lembra do primeiro número desta coisa? E porque não é o número dois? Deve ser cena de putos... E é mesmo, a personagem é um misto teenage-wet-dream de Rambo e Picatchu - quem adulto gostaria de ver os dois num só? Diversão pura de javardar com a cultura Pop, Muschechoo é feito em cima do joelho embora a lambideza de Rudolfo comece a aparecer a meio deste novo volume. Excelente produção esta edição! E adivinhem porque chamei este "post" de "milhões de pilas"? Só lendo!  Encomendem antes que esgote!


E se o Rudolfo estava no Porto, apareceu-nos o Artur Escarlate com dois mini-zines seus, o Portátil / Volátil (cheio de vaginas) e o Segredo (cheio de... pilas!)... Porquê? Não faço mínima ideia, e tenho "mix fellings" sobre isto... Por um lado desenhos de orgãos genitais parece nos dias de hoje um tema tão chocante ou importante como desenhar elefantes ou ganchos de cabelos mas sobretudo é que sabe a pouco, duas ou três páginas A4 dobradas a fazerem A6, presas com elásticos fazem os zines. Truque engenhoso que nos obriga a abrir cada folha para descobrir cartazes pouco interessantes. Aliás, graficamente, os zines são podres (sujos) a dar uma ar amador de virgem embora Escarlate (é o verdadeiro nome do autor?) dê a entender que é um garanhão da tinta, a julgar pelos seus sítios em linha. O resultado é xoninhas com ou sem xoxotas. Porquê? (porquê? tudo)

 Por fim é de referir a K7 - desculpem, split-k7!!! - de Cangarra e dUASsEMIcOLCHEIASiNVERTIDAS. Edição deste ano pela A Giant Fern, apesar de estar anunciado a um ano prá Feira Laica, só agora saiu em Julho. São 15 minutos para cada lado, para cada uma destas duas bandas mais activas do Noise Rock português. É curioso que são duas bandas bastante diferentes, em parte por causa do seu número de elementos. Os 2sci são mutantes, acho que só há dois elementos que estão "sempre lá" (nos milhares de concertos e nos registos áudio) mas nesta k7 aparecem com mais cinco músicos. A banda toda ela é nervosinha e volátil, quase nipónica e perto da demência, ao contrário de Cangarra que é um duo estável e racional, guitarra e bateria (a cargo do nosso Ricardo Martins) que preferem um psicadélico paisagistico cheio de detalhes para descobrir. Duas bandas, uma prá orgia, outra prá nicotina pós-coito, pelos vistos. Ah! o "artwork" da K7 foi feito pelo Ricardo e pela Margarida Borges, e impresso em risografia, a impressão que molha os designers dos dias de hoje com menos de 30 anos...

sábado, 27 de julho de 2013

NECROMANCIA EDITORIAL : Mercado de Edição Independente no MILHÕES de FESTA

cartaz de Rudolfo
A Associação Chili Com Carne vai estar no Festival Milhões de Festa com uma mesa cheia de livros, zines e discos que irão para todos aqueles que se sentem mal no Milhões com as suas piscinas cheias de sol, vitamina D e gente feliz; ou com toda a euforia da multidão a curtir as bandas que só deveria existir para ti, ó misantropo iludido!
Perguntas-te, porque raios vim para aqui com esta gente toda? Eu só queria ver os [introduzir nome de uma banda] e agora estou rodeado de gajos e gajas odiáveis!!! Como me vou isolar desta imundície toda? Cortando os pulsos? Bebendo e drogando-me? Não, vou ler um livro, caralho!
Mas não há livros nos festivais de Rock!? Pois é mas no Milhões tudo é diferente! E será o único festival com uma mesa de publicações independentes, pelo menos enquanto houver luz solar! Das 15h às 20h, no Palco Taina, está lá o que poderá vir a ser a salvação nos dias 27 e 28 de Julho... corre para lá antes que corram contigo, tarado!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Houdini

Bráulio Amado
Sleep City + Watdafac; 2012

Eis o catálogo de uma exposição que percorreu dois continentes durante 12 meses / cidades - uma das datas estava inserida no nosso ciclo de exposições "Not Mex Not Tex", em Denton (Texas) em parceria com o nosso camarada Nevada Hill.
Toda gente sabe que o Bráulio é um excelente designer - e quem não achar isso é palhaço - mas também é um bom ilustrador, com um estilo próprio que vêm da "Street Art" farçolas, "Pop Art" contemporânea com tentativas de abstração e fragmentação. Quando mistura design com desenho é quando tudo explode em beleza - uma beleza igual a do álbum Houdini dos Melvins que o título presta homenagem. É o caso deste livrinho que reúne materiais das 12 exposições, co-editado pela Sleep City! (label de Bráulio) e pela galeria Watdafac, sediada em Madrid e gerida pelo mDonada.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Xavier Löwenthal, Ilan Manouach : "Metakatz" (5éme Couche; 2013)


A 15 de Março de 2012, o livro Katz foi destruído (ver vídeo aqui) para espanto de muitos que pensavam que o Bücherverbrennung (queima de livros no regime Nazi) era coisa do passado. O livro não foi queimado (já lá vamos) mas triturado por uma empresa belga especializada em destruição de documentos.

O livro foi considerado uma contrafacção de Maus, obra de Art Spiegelman que até foi publicada em Portugal, sabe-se lá como, em dois volumes há muito esgotados e nunca reeditados. Para quem não sabe o que é o Maus: Obra baseada na biografia do pai do autor, que sobreviveu ao inferno dos campos de concentração Nazis. Tem como contexto o genocídio dos Judeus levado a cabo pelos Nazis, durante a 2.ª Guerra Mundial. Art Spiegelman, um dos principais nomes da BD “underground” norte-americana e, durante anos editor de capas da “The New Yorker”, escolheu a BD para contar a tragédia vivida pelos seus pais e aproveita o cariz biográfico da obra para abordar também alguns aspectos do seu relacionamento com os pais. Trata-se de uma das mais importantes obras da história da BD de sempre.
Em Maus, os Judeus são retratados por ratos e os nazis por gatos, para representar um "jogo do gato e do rato" (o jogo biológico e o da tradição "cartoonesca") e como analogia à propaganda antisemita que Hitler criou. Como refere Nicolas Verstappen (p. 141) Spiegelman consegue uma poderosa iconografia com a personificação dos ratos, as cabeças são meros triângulos (a lembrar os símbolos dos campos de concentração?) sem boca - como uma vítima que não pode falar. A discussão desta opção de Art já vêm de longe, Harvey Pekar em 1986, quando saiu o primeiro volume de Maus já o tinha referido na revista The Comics Journal, que as representações teriomórficas prolongavam a cultura de preconceito étnico. Questão que Katz, produzido pelo grego Ilan Manouach, iria levantar outra vez ao substituir todas as cabeças dos vários animais por cabeças de gato.
Katz pretendia reler Maus perguntando se o segundo não prolonga a cultura da vitimização - ainda por cima criada pelos próprios oprimidos - mas acabou por perguntar muito mais do que isso ao ser destruído. Daí que se encontra no livro a primeira parte do meu texto Comix Remix (traduzido em francês pela Joana Baguenier) e vários outros intervenientes, alguns dos meios académicos (estudiosos sobre as questões autorais ou sobre BD como o "nosso" Pedro Moura), autores de BD (Fabrice Neaud e Lewis Trondheim, os mais conhecidos), em que quase todos colocam em dúvida o velho regime do "copyright", "direito de autor" e "propriedade intelectual" que há muito se tornou uma coisa corrupta, absurda e bloqueadora do avanço das Artes, cultura e ciência (registar sementes, anyone?).

Quase ao mesmo tempo, que saiu o Meta Maus (livro sobre Maus) saí este Meta Katz, tal como Katz tinha saído no Festival de BD de Angoulême 2012, ano em que Spiegelman foi Presidente do evento. Soa a assédio artístico mas visto que Katz teve o destino que teve, só assim é que se pode manter uma chama acesa (ops, péssima escolha de palavras!!!) sobre o que Katz trouxe à praça pública - incluindo o que acontece com os papeis destruídos, vendidos à China e levados em contentores cheios de bicharada.

Mas afinal Katz era mesmo uma contrafacção de Maus? A editora belga 5éme Couche, responsável pela edição, teve de aceitar esta acusação feita pela Flammarion (detentora dos direitos de Maus em francês) porque sendo uma editora independente não teria recursos financeiros para continuar a defender Katz como uma obra de direito artístico próprio. Assim da tiragem de 800 exemplares, cerca de 600 foram legalmente triturados - e mais tarde queimados pelos membros da 5éme Couche como forma de protesto público e artístico, num acto à la Cage falhado e registado no vinil 7" que acompanha o Metakatz. Foi ainda pedido que o ficheiro digital fosse apagado o que só prova que a Flammarion é uma editora de velhinhos que não sabem que os ficheiros digitais são das coisas mais fáceis de se "reproduzir por aí"... enfim!

Quem se interessa por estas coisas de direitos de autor deve conhecer a história dos U2 versus os Negativland nos anos 90 e descobre a ironia inacreditável, ou deveria dizer apenas, de como a história se repete... Quando os Negativland foram processados pela Island, editora dos U2, estes últimos que são considerados como os "defensores do pobrezinhos" (relembro nas campanhas altruístas do badamerdas do Bono Vox!) nada fizeram para impedir que os pequenos Negativland fossem esmagados com processos judiciais... Não poderiam ter negociado com a Island para terem calma com os "engraçadinhos"? Vinte e dois anos depois, Art Spiegelman esteve caladinho como um rato (sim, um rato!) quando a grande Flammarion esmagou os pequenos 5éme Couche! Só por isto, Spiegelman merece ser assediado e apontado o dedo, desta vez não por neo-nazis ou revisionistas e outros paranóicos das conspirações judaicas (já agora, quer Xavier quer Ilan têm ascendência judaica para quem os tentou colocar de acusar de anti-semitas) mas pela sua própria classe profissional: autores de BD, ilustradores, artistas, músicos, etc... que sempre que fizerem uma obra que pegue em excertos doutra terão velhos dinossauros à coca para lhes espancar.

O mais estranho, é que Spiegelman já "roubou" muitos autores no passado e ainda recentemente no álbum In The Shadows of No Towers, como bem observa Pierre-Yes Lador, que lhe faz um percurso de "citações" desde o início de carreira com as ilustrações da Topps Bubble Gum, passando pelo álbum Breakdowns até às antologias Raw e Little Lit que editou nos anos 80 e 90. Mas isso já pouco importa para quem já passou para o outro lado da barricada.

Se Spiegelman é uma figura importante na BD, não o é como autor seminal de certeza (a autobiografia tem Pekar como figura paternal) mas por ser alguém que deu mais voz pública à BD de autor / à BD autobiográfica / à BD sobre memória e a de reportagem quando Maus ganhou o prémio Pulitzer em 1992. Ou dita de outra forma, foi a única vez que uma BD ganhou este importante prémio mediático. Depois de Katz sofre um abalo na sua imagem quanto a mim porque não podendo eu fazer uma leitura proposta pelo livro destruído passei a ter uma outra leitura que passa pela perspectiva histórica da própria BD em que Maus se verga. Se antes podíamos falar de antes de Maus e depois de Maus na realidade Maus já não é nada! Maus ao assumir-se como uma BD que usa o imaginário antigo e tradicional da cultura comercial da BD, ou seja, gatinhos e ratinhos (e já agora, de porquinhos e de cãezinhos) passa a pertencer a esse mundo ignóbil que é a História da BD, que amontoa os seus momentos "históricos" exclusivamente em aspectos mercantis, índices de popularidade e lutas jurídicas, e não por apreciações culturais ou discussões artísticas. Se Maus é tão importante porque é que ela foi buscar as suas ideias gráficas à BD do "antigo regime"?

É difícil ter respeito pela História da BD, mesmo que se possa ficar deslumbrado pelas visões fantásticas de Winsor McCay ou George Herriman, pelas suas técnicas ou pela sua perícia artesanal de trabalho gráfico mas a verdade é que a BD sempre foi um produto "todo público" e que se colou ao "infanto-juvenil" muito facilmente na dobra do século XX, tendo que esperar os libertários anos 60 para produzir finalmente obras "adultas". Face a isto, há realmente muito pouco para admirar ao nível de conteúdo literário - e mesmo a questão visual ou plástica também é bastante discutível - em 100 anos de História oficial celebrada pela treta dos 100 anos feitos em 1996 ao adoptarem o "Yellow Kid" como ponto de comemoração. Maus vêm desta tradição das figurações antropomórficas e teriomóficas para crianças e jovens, rebaixando-se perante o passado do médium, coisa que não havemos de encontrar em Pekar, ou em Buzzelli ou Breccia que se estavam bem nas tintas prá "bonecada". Talvez Ilan e Xavier não se aperceberam disso quando davam entrevistas, na altura de Katz, em que respondiam anonimamente usando nomes de gatos famosos da BD como Grominet (Sylvester), Garfield, Fritz the cat, Tom  (do Tom & Jerry) e Waldo... Uma brincadeira iconoclasta que na realidade levanta toda esta questão da História da BD feita exclusivamente de eventos da BD inDÚSTrial.

Em 2086 talvez haja alguém que coloque Maus como um ponto de referência para História da BD mas estarão enganados, agora podemos ver que foi uma histeria mediática e popular, que passado quase 30 anos adoptou ficar ao lado dos Vencedores da História - que são aqueles que a escrevem, como bem sabemos. Art está ao lado das corporações como a DC Comics, Disney ou da Marvel que humilharam centenas de criadores durante um século inteiro. Se depois dos Sex Pistols, como refere Greil Marcus, deixou de fazer sentido escrever mais canções Pop de Amor entre rapaz e rapariga, depois de Katz é impossível ler uma BD que meta animalitos a pinarem ou a snifarem Zyklon B, sem deixar de sentir que estamos a ser enganados...

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Livros do Outro Mundo no Bar Adufe - Sons do Mundo



No dia 18 de Julho apartir das 22h, no Bar Adufe, a Associação Chili Com Carne organiza um mercado de Livros do Outro Mundo. 

Livros de toda a parte do mundo, de todos os tamanhos e feitios, de todos os materiais e papeis, de todos os géneros e sub-géneros,... bem... quase!

ATENÇÃO : Livros + Baixa lisboeta = DESVIO!!!


Já se esperava mas quando a notícia caiu-me de manhã, foi como uma bomba!

Há dois anos que a Livraria Sá da Costa (1913-2013) estava em processo de falência, devido ao excelente trabalho danoso de um gestor - daqueles da mesma linha que tem levado as nossas empresas, bancos ou o país inteiro para a sarjeta...

No entanto a livraria estava melhor do que nunca, ora como bem refere no recente livreto-manifesto Manifesto contra o desastroso encerramento das livrarias da Cidade de Lisboa no centenário da Livraria Sá da Costa (seguido de Palavras proferidas na inauguração da nova sede da Livraria Sá da Costa, Rua Garrett, 100-102 no dia 10 de Julho de 1943) editado pela Letra Livre, a livraria Sá da Costa estava a dar destaque às edições da Chili Com Carne, & etc, Mariposa Azual, Orfeu Negro, entre outras entidades que não lançam livrinhos para gajas e teenagers - que é o que o nosso mercado livreiro está reduzido desde há algum tempo para cá.

A Livraria Sá da Costa nos dois anos que não teve um gestor tecnocrata, que daria primazia aos Bestsellers e outros fenómenos paranormais, em compensação teve cinco livreiros (funcionários da empresa) em AUTO-GESTÃO que ficaram a tomar do barco a afundar, abrindo as portas para os editores que são recusados nas grandes lojas de "livros". Graças a isso provaram que os "nossos" livros vendem bem e até são capazes de sustentar uma casa ali mesmo no coração de Lisboa. Provaram também que não precisamos de gestores para nada mas isso já é outra conversa...

Este Sábado a Sá da Costa irá fechar as portas e lançará o tal livro-manifesto, redigido por Vitor Silva Tavares (da & etc) e pelos cinco livreiros. Não vão encontrar pieguices no texto apenas uma denúncia de como a Baixa de Lisboa está-se a tornar numa enorme Forum Almada ou coisa que lhe valha. Cada vez haverá menos razões para passear por lá a não ser para ser de passagem para outro ponto da cidade que seja mais interessante. Espero que a CML ponha lá um daqueles bófia balofos com bigodão a dirigir os leitores para as zonas de putas porque haverão poucos sítios na cidade onde poderemos ter algum prazer...

Quanto às Palavras proferidas em 1943 por Augusto Sá da Costa, não é só o tom de confiança e esperança no futuro ou no progresso da Humanidade, que assitimos. São palavras lúcidas que apontam para os defeitos da leitura em Portugal, da necessidade do sector editorial, livreiro e alfarrabista (o termo usado é "antiquário") sendo concorrente em si mesmo conter uma missão social de educação, e saluta os concorrentes sejam livreiros sejam editores, por esse trabalho comum que os une. Setenta anos depois será impossível ouvir tal coisa dos porta-vozes de qualquer outra empresa privada ou até das instituições que representam os livros como a ineficiente APEL.

Não é ingenuidade de Sá da Costa ou minha, é apenas o fim de uma Era e o arranque à séria da monocultura capitalista em Portugal - vamos ficar mais norte-americanos que os próprios em muito pouco tempo!

Para quem goste de livros, é favor de evitar a Baixa Lisboeta a partir de Domingo.
A CCCapital agradece!

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Números redondos

A razão da festa de amanhã para dizer a verdade é para acabarmos com estes títulos... Eles estão a esgotar e queremos acelerar o processo!


 



Mas aconteceram coisas bizarras nestes dias... 

Chegamos ao 1100º "post" neste blogue e ao 100º sócio da Associação Chili Com Carne!  E à boa maneira mercantilista, tipo "você é o 1000º cliente a entrar nesta loja", oferecemos 99 euros em livros à nova sócia!

E já que estamos na maré de números redondos e ofertas queremos chegar amanhã ao 110º sócio e por isso... Amanhã e só amanhã no Adufe Bar, das 22h às 2h, vamos oferecer aos novos 10 sócios que se inscreverem 51 EUROS em livros da CCC, MNRG e afins!!!

Por 15 euros ganha 51 em livros! AH!

(oferta limitada ao stock existente)