quarta-feira, 30 de junho de 2004

Sobre BD

David Soares
Círculo de Abuso; 2004

David Soares tem sido um dos autores de bd mais dinâmicos da "geração 2000". Com um imaginário forte na literatura de Horror e Esotérica, ganhou logo uma personalidade única no panorama português. Escreveu um dos melhores trabalhos dos últimos anos - o "Mr. Burroughts" com desenhos de Pedro Nora - e desenhou uns 3 livros - um deles com o apoio das bolsas de Criação Artística do Ministério da Cultura. Auto-editou toda a sua obra através da sua Círculo de Abuso.
A auto-edição, pode ser vista como uma forma do autor proteger a sua criação desde a concepção até ao produto-final, como pode ser vista como uma espécie de fuga às regras de mercado que rejeita o trabalho do autor fundamentando que não existe lugar para ele. Seja uma ou as duas razões que levam ao David a auto-editar, o que acaba por interessar é sempre é o conteúdo do seu trabalho. No entanto, devo admitir que "Sobre BD", apesar da excelente qualidade dos escritos sobre 5 bd's - 5 ensaios de análise literária e artística - não deixa de ser um livro estranho: porque é caro, porque é estranho ter um livro com 5 ensaios (ok, há livros ainda mais estranhos no mundo, eu sei), porque não há imagens das bd's de que se fala, etc...
O stress de David mostrar ao mundo as suas criações são quase tão obscuras como as sua criações - desconfio que até podem ser estratégias & arquitecturas telúricas - mas por outro lado dada à modorra que se instalou na bd portuguesa - o trabalho artístico desenvolvido na década de 90 foi ultrapassado para uma simples especulação comercial - "Sobre BD" é necessária para discutirmos, para chatearmo-nos... para acontecer... alguma coisa.

4

nota 0: as 5 bd's que são analisadas são: "Maus" de Art Spiegelman, "Swamp Thing" de Alan Moore [et al], "Vincent & Van Gogh" de Gradimir Smudja, "Arkham Asylum" de Grant Morrison e Dave McKean e "Uzumaki" de Junji Ito.
nota 1: o livro vai ser lançado oficialmente no dia 5 de Junho na Feira do Livro de Lisboa, seguido de debate.
nota 2: tal como a Associação Chili Com Carne e a revista Satélite Internacional, também a Círculo de Abuso não tem actualmente distribuição livreira a nivel nacional. Por isso, a maneira mais fácil de adquirir este livro será pelo próprio autor/editor: d_w_father@hotmail.com

Coser, Cantar ; Que suerte! nº Petroleo, Gaz, Oil; nº Mecánico; nº Tapas Enfermos

Olaf; 200_

O primeiro título é um zine A6 que tem duas versões, uma em francês outra em castelhano, em que ensina a fazer um "Doo Rag", cortesia de Olaf, um belga que reside em Madrid que para além de fazer bd's mudas e ilustrações ainda dinamiza a capital espanhola. Ah! Sim, o que é um "Doo Rag"? Não tenho bem a certeza mas creio que é o que Olaf chama a um instrumento musical inventado, o nome vem de uma banda que usa esse tipo de instrumentos... Neste caso, Olaf explica como fazer um "Doo Rag" com uma "Arma Laser" (de brinquedo claro!).
Mas falar do Olaf sem falar do seu zine de bd Que Suerte! seria sempre algo incompleto de se fazer. Sendo belga residente em Madrid, Olaf consegue a proeza de reunir no seu zine uma série de autores que provavelmente nunca teriam expressão em Espanha. Assim, em números temáticos, 95% do material é constituído por bd's mudas de gente tão diferente como Alvarez Rabo, Mauro Entrialgo, Jose Parrondo, Claudio Parentela, Calulnio, Sophie Dutertre, Pakino Bolino, Caroline Sury (o casal do Le Dernier Cri), Marcel Ruitjers, Max Andersson, Fábio Zimbres entre muitos outros. Que suerte! é mesmo uma sorte do caraças pois reúne nas suas páginas humildemente fotocopiadas autores amadores lado a lado de autores conceituados. As capas são estampadas e dão-lhe um ar bonito sem deixar de ser DIY!
Em Lisboa, é possível comprar o Que Suerte! na loja Eklet (Bairro Alto). Se não encontrarem é de escrever para Olaf, apartado 18280, 28080 Madrid, Espanha.

4 e 4,3 respectivamente

segunda-feira, 28 de junho de 2004

Die biographie der Frau Trockenthal

Anke Feuchtenberger
Jochen; 1999

Se bem percebi - porque está em alemão - este livro é uma espécie de catálogo ou um portfolio dos cartazes feitos pela Anke Feuchtenberger entre 1990 e 1997. Para quem não a conhece deve ter estado a dormir nos últimos 7 anos (ou mais) pois é dos(as) poucos(as) autores(as) da Alemanha que Portugal teve a felicidade de conhecer, fosse em publicações como o Azul BD3 ou no Quadrado, fosse pelos os seus magníficos originais expostos no Salão Lisboa 2003. Mas voltando ao livro, o que temos é uma apresentação fora do vulgar, para já, a Frau Trockenthal é um trocadilho de Anke Feutchenberger (que quer dizer "montanha do fogo" creio por isso Trockenthal deverá ser "vale de água"... mas como não tenho a certeza não levem isto como garantido!), e o livro é uma biografia da Frau... o engraçado como já vos disse, o que existe são vários cartazes (belíssimos) da Anke reproduzidos e acompanhados por comentários que ditam essa "biografia".
Um livro bem bonito. Quase esgotado provavelmente (pelo menos a editora original faliu), quando o apanharem não o larguem! Creio que a Reprodukt deverá ter uma reedição.

4,5

terça-feira, 22 de junho de 2004

Vamos a contar cosas cochinas

El Coco, 2004

Tal como no "post" anterior, a história é a mesma, os espanholitos sempre com pica mesmo quando pouco tem para dizer/mostrar... este é um caso de um autor que tem auto-editado livros ilustrados para a infância como este que é pequeno parecido com um bloco de notas ou uma agenda telefonica. Com uma escatologia pseudo-Ren & Stimpy, aprendemos (e as crianças) a contar em castelhano e já agora, que "mocos" são macacos (do nariz!), "eructitos" são arrotitos, "piojos" são piolhos "pedetes" são peidos... A ilustração é vulgar (comercial), o humor não é provocante embora tente parecer.

2

muchochechu@hotmail.com

Cabezas Cortantes #01 ; Radio Ethiopia #13 ; Vacas Flacas

La Chatarreria; Mar'04
Radio Ethiopia; 2003
Pocas Páginas; 2004

Os «nuestros hermanos» são um povo descontraido. Até demais diria... E com esse à vontade que vão fazendo as suas coisas mesmo que elas sejam maior parte das vezes uma merda. Ou então sou eu, português-da-silva, que acha que uma produção amadora não deveria consumir recursos caros como se passa com estes dois zines impressos em formato comic-book. Ambos publicam bd e ainda alguns artigos e textos (sobre Topor, Robert Wyatt...) no caso da Radio Ethiopia. São apenas mais dois zines no seio do movimento fanzinista espanhol. Nota-se na Radio Ethiopia uma maturidade que escapa à Vacas Flacas, sendo que o arranjo gráfico necessite de um trabalho mais cuidado. Radio tem coisas minimamente porreiras (converto-me ao "ibérico-porreirismo"?) enquanto que as Vacas é um desastre se não fosse as participacões mínimas dos conhecidos Miguel B. Nuñez e Fermin Solis, e já agora , e as bd's poéticas de Lluis Alabern.
Cabezas Cortantes é um luxo, todo impresso a cores, gratuíto. Falta-lhe ainda identidade, conteúdo e direcção apesar do cuidado gráfico. Talvez possa a ir a algum lugar... o lugar da Pop subvertida e divertida a julgar pelo material que edita: uma cyber-bd, fotos de graffitis, artigos sobre japonesa Junko Mizuno, uma entrevista ao sheriff dos Playmobil (como?)... Aconselhável até um dia destes...

2,7, 2,4 e 1,3 respectivamente

quarta-feira, 16 de junho de 2004

Laca #3

Out/Dez'03

É no fim do CD "Ama Romanta Sempre" que João Peste com uma granda-pedrada deixa mais um bocadinho do seu dadaísmo-sonoro dizendo qualquer coisa como "... Pá... nós transformamo-nos naquilo que éramos (...) acredito num novo movimento que podia ser denominado como Cyber-ecolo" [corte na gravação]. E é isso que o fanzine Laca me faz lembrar... pelo menos este número porque é dedicado a "velhas/e/novas/modernices", um número de reflexão não-dogmática sobre as (novas) tecnologias com um distanciamento "situacionista" q.b. para não ficar parolo.
Dada à frescura do zine (e é isso que se pede a um fanzine!) sente-se que revistas como a Bíblia e a maior parte das publicações portuguesas sobre Arte e Cultura pararam na abordagem dos temas contemporâneos enquanto a Laca continuou o trabalho parado: os grafismos, os textos, os manifestos que cheiram assumidamente a novo milénio nem que seja só pelo facto de só usarem 15% de trabalho manual - como dizem algures.
Muito recomendável. O fanzine já existe há dois anos, por onde andaram? Ou melhor, por onde tenho eu andado?

laca@mail.pt

4

terça-feira, 15 de junho de 2004

Virus Demente

David; 2004?

Mais um zine «demente» das Caldas da Rainha, cidade cuja faculdade de Design permite fazer dela viveiro de zines. Este zine é de banda desenhada, formato quadrado (quase parecido com um CD), capa serigrafada, o que lhe dá um ar (muito) charmoso. O conteúdo tem a sua piada, uma pequena peça (quase de Teatro diria) que se desenrola com a TV a ser alvo de crítica. Estranho, o grafismo todo da bd que parece ser feito por uma rapariga e não por um rapaz - digo isto sem qualquer de preconceito ou piada foleira... a sério pá!

3,9

davefantasy@hotmail.com

segunda-feira, 14 de junho de 2004

Inguine.net

Inguine / Mirada; 2004

É um catálogo de uma exposição realizada em Março deste ano algures em Itália... A exposição/catálogo é dedicada ao colectivo Inguine.net, grupo de autores de bd e (web)designers politicamente empenhados. Ora este grupo tem trabalhado uma série de projectos interessantes seja como exposições e workshops com autores de bd como Joe Sacco e Marjane Satrapi, a revista Inguine Mah!gazine, etc... Desse trabalho todo foram escolhidos "os melhores momentos" traduzido em imagens feitas por Gianluca Costantini, Squaz, Paper Resistance, Claudio Parentela, entre outros desconhecidos, para não falar do grande Peter Kuper.

3,5

Pecarritchitchi #2

João Bragança; Abr'04

O fanzine enfezado ataca outra vez... Em 2002 tinha saído o primeiro número e ficamos à espera se o Pecarritchitchi seria um "one-shot" ou se iria continuar.... e se iria continuar qual seria o desafio? Qual seria "raison d'être" do próximo número? Pelos vistos a razão de ser é tentar ser mesmo o fanzine mais pequeno do mundo... Se havia 90% hipóteses do #1 ser o mais pequeno, o #2 passou a percentagem para 99%!
Apesar do conteúdo manter a onda do Succedâneo (fanzine-pai das produções de João Bragança) a verdade que o "Peca" é um zine que se deseja pelo objecto e o conteúdo acaba por ser esquecido após a leitura. A experimentação é sempre bem vinda como é óbvio mas algo parece estar-se a perder...

3,9

www.succedaneo.com